terça-feira, 27 de dezembro de 2022

Cristãos devem se tornar minoria nos EUA, e religião está cada vez mais americanizada

Pastor batista durante serviço em igreja evangélica em Dallas, no estado americano do Texas 

Pastor batista durante serviço em igreja evangélica em Dallas, no estado americano do Texas - Shelby Tauber - 26.jun.22/Reuters

'Heresias' como a teologia da prosperidade, a religião da autoajuda e o nacionalismo cristão chauvinista se mantêm fortes

The New York Times

Em setembro, o Centro de Pesquisas Pew elaborou modelos de quatro futuros potenciais para a religião nos Estados Unidos, a depender de diferentes taxas de conversão e desafiliação das fés do país.

Em três das quatro projeções, a porcentagem de cristãos na população americana, que girava em torno de 90% nas décadas de 1970 e 1980, ficou abaixo de 50% para o próximo meio século. Em dois cenários, a participação cristã cai abaixo de 50% muito antes, por volta de 2040, e depois continua caindo.

Esta é uma transição potencialmente histórica, mas que tipo de transição? Em direção a uma América verdadeiramente secular, com "Imagine" de John Lennon como seu hino nacional? Ou em direção a uma sociedade repleta de formas de espiritualidade novas ou remixadas, todas competindo pelas almas dos antigos católicos, dos ex-metodistas unidos, dos infelizes sem igreja?

Dez anos atrás, publiquei um livro intitulado "Bad Religion: How We Became a Nation of Heretics" (religião ruim, como nos tornamos um país de hereges), que oferecia uma interpretação da mudança do cenário religioso do país, o acentuado declínio da fé institucional depois dos anos 1960.

Antes que o aniversário do livro passe despercebido, pensei em revisitar o argumento, para ver como ele funciona como um guia para nossa sociedade hoje mais descristianizada.

O que o livro propunha era que "secularização" não era um rótulo útil para a transformação religiosa americana. Em vez disso, a cultura americana parece "tão obcecada por Deus hoje quanto sempre" –ainda fascinada pela figura de Jesus de Nazaré, ainda em busca do favor divino e da transcendência.

Mas é muito menos provável que esses interesses e obsessões sejam canalizados por meio de igrejas, protestantes e católicas, que mantêm alguma conexão com as ortodoxias cristãs históricas.

Em vez disso, o antigo impulso nacional em direção à heresia –a revisões personalizadas da doutrina cristã, atualizações americanizadas do evangelho– enfim completou sua vitória sobre instituições e tradições cristãs. O resultado é um cenário dominado por ideias cristãs populares que "enlouqueceram", como disse G.K. Chesterton, "pois foram isoladas umas das outras e estão vagando sozinhas".

Essa América tem uma igreja de amor-próprio, com profetas como Oprah Winfrey pregando um evangelho do eu divino, uma espiritualidade do "Deus Interior" que arrisca transformar o egoísmo em virtude.

Tem uma igreja da prosperidade, com figuras como Joel Osteen, que insiste que Deus não deseja nada mais a seus eleitos do que o sucesso capitalista. E tem igrejas pregando a redenção por meio do ativismo político –um nacionalismo cristão de direita, alternadamente messiânico e apocalíptico—, e um utopismo de esquerda, convencido de que o arco da história sempre se curva a seu favor.

Essas heresias, argumentei, são mais importantes para entender a verdadeira influência da religião na América do que qualquer coisa que saia da Igreja Católica Romana ou da Convenção Batista do Sul.

Você pode entender nossa situação espiritual mais completamente lendo "O Código Da Vinci", "Comer, Rezar, Amar" e "Sua Melhor Vida Agora" do que folheando uma encíclica papal (ou, nesse caso, uma polêmica ateísta). E você pode ver mais da influência duradoura, mas agora deformada, do cristianismo nos hinos à celebridade de will.i.am a Barack Obama em 2008, ou nos reavivamentos direitistas de Glenn Beck alguns anos depois, do que em qualquer autoridade cultural ainda ligada ao Novo Testamento ou ao Credo Niceno. Essa era minha tese em 2012. Dez anos depois, a estrutura se manteve?

De certa forma, obviamente sim. Considere o fenômeno peculiar de Donald Trump, um aparente pagão que de alguma forma conseguiu assumir a liderança do partido político mais religioso do país e depois ser tratado por alguns de seus membros mais zelosos como uma espécie de rei ungido.

A ascensão de Trump foi um testemunho da força das principais heresias –a teologia da prosperidade, a religião da autoajuda e um nacionalismo cristão chauvinista– dentro da direita religiosa.

Notavelmente, a principal conexão institucional de Trump com o cristianismo foi sua presença há muito tempo na igreja de Norman Vincent Peale em Manhattan, na época em que Peale era famoso como o guru da autorrealização espiritual, autor de "O Poder do Pensamento Positivo".

Como um empresário celebridade e vendedor agressivo, Trump acabou se tornando um defensor natural dos herdeiros mais direitistas de Peale, reunindo aliados do reino de pastores famosos e pregadores da prosperidade. Enquanto isso, como um tribuno da grandeza americana, ele acabou apelando para as partes mais nacionalistas do evangelismo –incluindo eleitores que eram mais propensos a se identificar com o cristianismo como um marcador cultural de "americanidade" do que a realmente frequentar a igreja.

Enquanto o trumpismo estava sendo aprovado por heresias de direita, o liberalismo na era Trump acabou infundido pela heresia em um grau que nem eu esperava. A ideia de despertar não aparecia em "Bad Religion", que surgiu antes da nova onda de ativismo no campus, antes de Vidas Negras Importam e #MeToo e da era da diversidade-equidade-inclusão. Mas o "Grande Despertar" é um exemplo perfeito de energias espirituais cristãs separadas da crença ortodoxa –uma versão do revivalismo protestante despojado da dogmática protestante, mas mantendo um zelo cruzadista, uma retórica de conversão, confissão e transformação moral, uma necessidade às vezes frenética de expulsar o mal e o impuro.

O progressismo da justiça social tem muitas influências, é claro. Mas deve ser entendido, em parte, como um descendente espiritual do puritanismo, ocupando o "locus" do poder puritano (as velhas cidadelas protestantes da Ivy League e do establishment do nordeste americano), adaptando o velho espírito do perfeccionismo moral a um novo conjunto de questões e demandas.

Assim, tanto para a direita quanto para a esquerda, a estrutura da nação dos hereges ainda parece útil. Mas então a questão, e o desafio para minha tese agora, é exatamente até onde o declínio do cristianismo pode ir antes que um termo como "heresia" deixe de ser analiticamente apropriado. Porque em algum ponto, presumivelmente, a influência do cristianismo torna-se meramente genealógica, e você tem que dar crédito aos experimentadores espirituais por alcançar um território religioso diferente.

Um núcleo da prática e da crença cristã neste país parece relativamente resiliente. Mas a ideia de uma "nação de hereges" partia do pressuposto de muitos americanos com laços frouxos com o cristianismo– frequentadores de igrejas no Natal e na Páscoa, pessoas criadas com pelo menos alguma ideia dos princípios da fé. E são os menos afiliados que mais se distanciaram nos últimos anos, atenuando ainda mais as conexões entre o cristianismo e seus possíveis rivais ou sucessores.

Quando eu estava escrevendo "Bad Religion", ainda havia interesse pelos vários projetos do "Jesus histórico", as reconstruções acadêmicas que prometiam entregar um Jesus mais adequado aos pressupostos espirituais dos Estados Unidos da era moderna. E parecia haver um forte incentivo cultural para recrutar alguma versão do Nazareno –como fez Dan Brown em "O Código Da Vinci", por exemplo– para seu projeto espiritual pessoal, para ganhar a bênção de Jesus por deixar a ortodoxia cristã para trás.

Hoje, porém, minha sensação é de que o próprio Jesus é menos central culturalmente, menos necessário para os empreendedores religiosos –como se aonde os americanos estivessem indo agora, em suas explorações pós-cristãs, eles não quisessem ou precisassem de sua bênção. Essa mudança de prioridades não nos diz exatamente para onde eles estão indo. Mas basta dizer agora que o rótulo "pós-cristão" se encaixa na tendência geral da espiritualidade americana mais do que uma década atrás.

Esse tipo de mudança mostra a imprevisibilidade do futuro religioso, tanto quanto sua inevitabilidade. O relatório Pew, notavelmente, trata um cenário hipotético de "status quo" –ninguém mudando de religião– como seu melhor caso para o futuro do cristianismo na América. Não há um cenário em que o crescimento cristão retorne, em que uma parcela maior da América seja cristã em 2050 do que hoje.

Eu não esperaria que um cientista social previsse esse tipo de reversão. Mas o Advento e o Natal não são sobre tendências que se prolongam, como antes; são sobre ruptura, renovação, renascimento. É disso que o cristianismo americano precisa agora –agora como sempre, agora como naqueles primeiros dias, quando todo o seu futuro estava contido no mistério e na vulnerabilidade de uma mãe e um filho.

Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves 

Fonte:  https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ross-douthat/2022/12/cristaos-devem-se-tornar-minoria-nos-eua-e-religiao-esta-cada-vez-mais-americanizada.shtml

Sônia Fleury: um caminho para superar o bolsonarismo

 Por *

 
Em entrevista ao Cebes, cientista política analisa a ascensão da ultradireita em alinhamento com o neoliberalismo. Para superá-los, será preciso enfrentar o ultraindividualismo, construindo espaços de formação política e vida comunitária

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A vitória de Lula foi o primeiro passo para o início da recuperação das políticas públicas e sociais que podem resgatar o Brasil do fundo do poço para o qual Bolsonaro o estava encaminhando. O trabalho será árduo e espinhoso, mas incontornável e possivelmente muito instigante. É o que ficou claro na entrevista que Sônia Fleury, cientista política e figura central na Reforma Sanitária, deu ao Cebes Debate na última segunda-feira.

Sônia começa sua fala analisando o voto em Lula e em Bolsonaro, nas eleições de 2022. Há recortes muito claros, que foram captados pelas pesquisas: de gênero, em que mulheres majoritariamente escolheram Lula; de raça, em que brancos votaram em peso em Bolsonaro; de classe, que fez com que aqueles que ganham até dois salários mínimos rejeitassem o governo atual; regional, que demarcou o Nordeste como garantidor da vitória de Lula. Mas há outros segmentos que devem ser melhor analisados para entender as complexidades da realidade brasileira, como o de pessoas que ganham entre 2 e 5 salários mínimos. Há de se considerar também a influência das igrejas evangélicas que carregaram votos para o projeto de destruição de Bolsonaro – inclusive de mulheres negras.

Agora derrotado, o projeto do atual governo ainda encontra ecos na população. Sônia frisa que é a primeira vez que a ultradireita consegue chegar ao poder por meios democráticos – e sua reeleição não aconteceu por pouco. Outra característica desse neofacismo brasileiro é sua capacidade de levar pessoas às ruas, além de ser muito forte nas redes sociais. Esse fenômeno precisa ser avaliado com calma, para que possamos pensar nas táticas e estratégias que devemos seguir daqui em diante. 

Para analisar e combater o avanço da ultradireita, é preciso olhar para sua aliança de ocasião com o neoliberalismo, que foi essencial para abrir espaço para erguê-la. A princípio, reflete Sônia, parecem pensamentos em sentidos opostos: o liberalismo quer que os desejos das pessoas sejam capturados pelo poder econômico, para transformarem-se em consumo; já a ultradireita reacionária busca uma coação dos desejos e controle da população. Mas eles se encontram em um ponto crucial: o de rejeição ao Estado que promove justiça social e diminuição da desigualdade. Nesse casamento do neoliberalismo com a ultradireita, o Estado deve servir apenas como poder coercitivo e produtor de uma economia financeirizada – a liberdade do todos contra todos.

Também entra na conta do neoliberalismo econômico, que recrudesceu a partir da crise de 2008 com as políticas de “austeridade” mundo afora, o desencanto com a economia e a descrença na democracia e nas instituições. O aumento da desigualdade, cada vez mais brutal, a precarização do trabalho e a falta de perspectivas abriram uma brecha para o neofascismo eclodir. Com um componente essencial: a internet centrada nas redes sociais, que passam uma falsa sensação de promotoras de debate público, quando são, na verdade, ultracentralizadas e massificantes.

O SUS pode estar no cerne dessa reconstrução de uma sociedade que não seja formada por consumidores, mas por comunidades de cidadãos. Porque seu projeto é radicalmente contrário à lógica neoliberal da liberdade individual. Para Sônia, “O SUS é a política que vai mais fundo na sociedade brasileira para construir uma materialidade para a igualdade, e isso é incompatível com esses valores”. Mas, para que ele possa fazer essa transformação, é preciso que seja financiado adequadamente e alcance de forma justa todos os brasileiros. Oferecer, via SUS, qualidade e um atendimento acolhedor, pode plantar uma semente da transformação da cultura política tão necessária.

Mas há outras sementes que também já começam a brotar. Para Sônia, a eleição de figuras importantes de movimentos sociais, como do MST, dos povos indígenas e do movimento negro, pode representar uma mudança significativa no Congresso Nacional formado por homens brancos. O movimento dos sujeitos periféricos, para ela, tem enorme importância e capacidade de transformação. Mesmo com o avanço do bolsonarismo, o feminismo e o movimento negro nunca estiveram tão fortes como hoje. Sônia finaliza, ao pensar nas possibilidade de criação de espaços coletivos para a transformação da sociedade: “Queremos mais amor e mais capacidade de nos alegrarmos, estarmos juntos. Criar o Comum como semente de enfrentamento da apropriação privada do capitalismo”.

 * É editora, designer e produtora audiovisual de Outras Palavras.

Fonte:  https://outraspalavras.net/author/gabrielaleite/

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

Declaração de amor ao Brasil

 Diogo Araújo Dantas*

 

Foto: Flickr/Reprodução

Sendo um país muito novo, que só este ano é que completou duzentos anos, ainda sofre de muitas dores de crescimento. Imerso em corrupção, experimentalismos ideológicos utópicos e más governações.

O autor destas palavras é todo ele lusitano, filho do Douro e das ruas estreitas do Porto, com um amor profundo a esta família tão antiga a que chamamos de Portugal. Declaro o meu amor ao Brasil, terra do outro lado do oceano, outrora tão distante mas hoje a apenas algumas horas de distância. Aquilo que nos une é muito mais do que a História, a língua, os antepassados, ou os séculos de convivência. O que mais nos liga é sermos gente sofrida mas batalhadora, que nada pára apesar das circunstâncias, ou como dizia Ariano Suassuna, “a tarefa de viver é dura mas fascinante.” E a partir daqui há algo que nos começa a separar, precisamente o sentimento que fica na adversidade: em Portugal temos o fado, a melancolia e uma tristeza que tem de ter uma razão sólida para partir; no Brasil há menos conformismo e até a reação às derrotas é feita com alguma alegria. Lembro-me de uma música que tem setenta e cinco anos, de Luiz Gonzaga, sobre o sentimento causado pela intensidade da seca no Nordeste – mas que é tocada em todas as festas juninas. Como se o povo exorcizasse as suas desgraças através da dança despreocupada, da boa disposição e num otimismo sempre persistente. Afinal, “se a coisa não sai do jeito que eu quero, também não me desespero, o negócio é deixar rolar” – como canta Zeca Pagodinho.

Declaro o meu amor a essa cultura já tão vasta em tão pouco tempo, à bossa nova, à sabedoria de Jobim e Vinicius, aos retratos perfeitos de Jorge Amado, à visão de Oscar Niemeyer, ao realismo crítico de Machado de Assis, à culinária tão rica e diversificada, às novelas brasileiras que há décadas atrás entravam pelas nossas televisões de dois canais, em enredos geniais e personagens cativantes que marcaram a minha infância. Sempre que “bater” alguma dor e saudade, tenho Martinho da Vila a mandar, “Canta canta, minha gente” ou o Gonzaguinha a declarar que “é a vida, é bonita e é bonita.”

Escrevo numa altura em que há uma explosão sem precedentes de brasileiros a procurar uma vida melhor em Portugal. Sendo um país muito novo, que só este ano é que completou duzentos anos, ainda sofre de muitas dores de crescimento. Imerso em corrupção, experimentalismos ideológicos utópicos e más governações, não tem conseguido aproveitar todas as suas enormes riquezas. Como é costume, quem sofre são as pessoas, com grandes assimetrias entre o Norte e o Sul, o Nordeste e o Sudoeste, com grandes diferenças dentro dos próprios Estados no que diz respeito ao acesso a bens essenciais, à educação, à igualdade de oportunidades, ao empreendedorismo e à capacidade produtiva – só para citar alguns exemplos gerais. Mas tendo uma imensidão incrível, é importante que tenha resistido às tentações regionalistas a que a América Latina espanhola não escapou. O esforço de Dom Pedro foi essencial e só o futuro poderá fragmentar o que nasceu unido e potencialmente inseparável. O certo é que o Brasil é o futuro e todo o seu potencial se realizará, mais tarde ou mais cedo. Eu já estou eternamente grato e só por isso repito as palavras da canção de Gilberto Gil: “a todo o povo brasileiro, aquele abraço.”

* Licenciado em Economia, foi candidato pelo PPM em 2021 à Câmara do Porto, militante do PSD 

Fonte:  https://observador.pt/opiniao/declaracao-de-amor-ao-brasil/ 26/12/2022

A visão de Bert Hellinger sobre permanecer no amor

Por Isaias Costa*

O verbo permanecer é, a meu ver, um dos verbos mais potentes da língua portuguesa. Algo que permanece é algo que se preserva com o passar do tempo, é algo que mesmo com as circunstâncias adversas, consegue seguir e não sucumbir. O verbo permanecer está de certa forma conectado a algo que tem força, que tem raízes, que tem vitalidade…

Lendo as palavras do grande psicoteraputa Bert Hellinger, fiquei um tempo refletindo sobre isso e venho nesse breve texto compartilhar a visão dele e trazer alguns insights bacanas!

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Permanecer no amor significa que tudo é amado da maneira como é, e que tudo é incluído na alma da maneira como é. Significa que concordamos com tudo como é e que amamos tudo como é, exatamente como é. Significa também que concordamos com a vida do jeito que ela é, exatamente como é: com a própria vida como ela é, com a vida alheia como ela é e com a criação, exatamente como é.
A luta também faz parte dessa vida. A vida de uma disputa o lugar com a vida do outro. Se permanecermos no amor, então também amamos isso: os opostos, a luta, a vitória e o fracasso, viver e morrer, os vivos e os mortos, o passado assim como foi, o futuro da maneira que vier, exatamente como vier. Nesse amor somos amplos e encontramo-nos em sintonia e acordo com tudo.
Este amor é a entrega ao todo. É a religião em sua essência. Neste amor somos plenos, serenos, podemos assistir a como tudo se desdobra, estamos entregues ao próprio destino e respeitamos o destino do outro e o destino do mundo. Estar entregue ao todo dessa maneira significa permanecer no amor.

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Bert Hellinger

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É muito linda e profunda a maneira que ele enxerga o permanecer no amor. Só de ler essas palavras eu senti uma paz, uma leveza e uma tranquilidade imensa. É como se ele nos mostrasse que não precisamos carregar tantos pesos desnecessários. É trabalhar a aceitação! Lembrando que aceitação não tem absolutamente nada a ver com conformismo!

Faço questão de levantar esse ponto, porque um leitor desavisado pode pensar: “Ué? Mas se eu aceitar as coisas tais como elas são eu não terei poder algum para mudar coisa alguma?”. Quem pensa assim se engana redondamente sabia? Porque é exatamente o contrário. Se eu aceito as coisas tais como elas são, eu estou resgatando todo o meu poder pessoal e tirando da mão das outras pessoas o poder sobre mim. Não é interessante isso? Talvez até esse momento você ainda não tenha pensado sobre isso a partir desse ponto de vista!

O que o Bert diz no final é o mais potente de tudo. Ao permanecermos no amor, respeitamos a nós mesmos e respeitamos os outros também. E acima de tudo, não interferimos no destino delas e consequentemente não fazemos grandes desvios no nosso próprio destino!

Quanto mais o tempo passa e eu vou amadurecendo, percebo que grande parte das tranqueiras que atraímos para a nossa vida é porque queremos que as coisas aconteçam do jeito que a nossa mente barulhenta e nosso ego mimado quer que sejam. E logicamente que as coisas decididas pelo ego e pela mente desconectada do coração só podem nos levar a frustrações e mais frustrações…

Como diz aquela velha e famosa frase da música de pagode: “Deixa acontecer naturalmente…”. O que o Bert nos ensina é a por em prática desde as pequenas coisas esse fluir espontâneo e natural.

Cada vez mais eu venho buscando deixar que as coisas na minha vida aconteçam de forma espontânea e natural!

Quero inclusive abrir esse parênteses em relação aos textos aqui do blog. Esse texto publicado hoje tem um intervalo de alguns meses em relação ao último texto publicado. Comentar isso tem uma relação direta com a ideia desse texto e as palavras do Bert Hellinger.

Nos últimos meses minha rotina foi alterada de forma absurda. Comecei um novo trabalho que está me tomando muitas horas do dia. Dessa forma, é quase humanamente impossível ter tempo e inspiração para escrever textos novos. Inclusive até por conta do trabalho, estou lendo bem menos do que o meu habitual.

Tempos atrás eu me afligiria por não escrever com certa regularidade. Hoje em dia eu faço é rir de mim mesmo quando fico com essa verdadeira “noia” para escrever textos novos! Hoje eu entendo que não preciso disso. Só preciso deixar que as coisas aconteçam naturalmente, como diz a música de pagode!

Assim, posso escrever textos bacanas com reflexões que sei que podem tocar o seu coração como leitor!

Acho isso libertador e pode ser ampliado para as mais diversas áreas da vida. Quero lhe convidar a trazer essas reflexões para o seu próprio contexto de vida…

Eu quero cada vez mais permanecer no amor. Viver de forma leve e serena, seguindo o fluxo dos acontecimentos e acima de tudo, respeitando a vida e o destino de cada pessoa que cruze o meu caminho…

* Bacharel em Física, Mestre em Engenharia Mecânica e Psicanalista Clínico.

Fonte:  https://paralemdoagora.wordpress.com/2022/12/26/a-visao-de-bert-hellinger-sobre-permanecer-no-amor/

sábado, 24 de dezembro de 2022

O Natal da transição

 Por Marco Aurélio Nogueira*

 Transição de Governo Lula - Bolsonaro

O melhor e o correto é torcer pelo sucesso de Lula. Seu fracasso aprofundará os problemas do País e poderá trazer de volta nossos piores pesadelos

 

Chegar ao final de 2022 com um governo eleito em nome da democracia foi a melhor notícia do ano.

O pior foi neutralizado, em que pese a persistência da movimentação golpista. A balbúrdia e as ameaças seguem o enredo conhecido: urnas eletrônicas são manipuladas, as instituições do Estado são suspeitas, a República deve ser confrontada, o Brasil não é “vermelho”. O que importa é contestar o “sistema”, insuflar a população e disseminar mentiras.

O golpismo bolsonarista, porém, não é o dado principal da transição em curso. Há dilemas e dificuldades na formação do novo governo, que precisa introduzir novos quadros e novas ideias na gestão pública. Não pode repetir experiências passadas, que lhe roubarão clareza e envergadura. O Lula de 2003 não serve como molde para o Lula de 2023.

O novo governo fixou-se na recomposição orçamentária. Com o fim das emendas do relator, deliberado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), e a retirada do Bolsa Família do teto de gastos, a questão passou a ser obter maior folga fiscal. Para tanto, foi preciso compensar os parlamentares: o teto foi aumentado em R$ 145 bilhões, mas valerá somente por um ano, e as verbas remanescentes do finado orçamento secreto serão divididas entre o Executivo e o Legislativo. Os parlamentares continuarão a encaminhar emendas individuais, de bancada e de comissão ao governo, que serão impositivas. O Centrão, de algum modo, se acomodou no governo futuro. O Legislativo se fortaleceu como poder sem que se tenha reduzido o poder do Executivo. Como, aliás, deve ocorrer em toda democracia.

Como não se conhecem as diretrizes do novo governo, não se sabe o que será feito com o bônus orçamentário. Se não for bem utilizado, agravará a crise fiscal e não gerará resultado social expressivo. Isso obrigará o governo a caprichar na qualidade do gasto e a cortar despesas para viabilizar os programas sociais. A pergunta é crucial: como gastar menos?

As decisões do Supremo ajudaram Lula, mas abriram uma nova frente de atrito com o Legislativo. Pode ser que o fogo não arda em excesso, mas a situação de crise entre os Poderes está posta na mesa.

Lula foi eleito por diversos partidos. O apoio recebido teve importante peso político e simbólico. No plano discursivo, Lula tem repetido o mantra de que o seu “não será um governo do PT”. Na prática, porém, as coisas não têm sido assim. A “frente ampla” está suspensa no ar, instabilizada por setores petistas e pelas alas fisiológicas do Congresso. O PT não costuma ceder em termos de protagonismo. Não se habituou a conviver em pé de igualdade com democratas e reformadores de outras correntes. Exigiu e obteve os ministérios mais estratégicos. Mas não se mostra atento ao fato de que seu governo precisa oferecer espaço para as forças que ajudaram Lula a se eleger.

Um governo minoritário no Congresso precisa negociar para aprovar suas propostas. O melhor modo de fazer isso seria celebrar uma coalizão democrática e dar a ela caráter político substantivo, ou seja, um programa unificador. Era o que se imaginava, dadas as circunstâncias da vitória eleitoral. Um governo plural facilitaria a despolarização e a introdução de reformas progressistas. Não parece ter sido a opção de Lula.

O novo governo escolheu compor um núcleo ministerial de confiança irrestrita para, a partir dele, negociar com o Congresso. Deu-se algum espaço para a diversidade de gênero e raça, mas não tanto para novas ideias. Lula ainda não definiu os 37 ministros com quem governará. O fato de Simone Tebet e Marina Silva terem ficado para o final da lista indica que há muita poeira no ar. Sem elas, o governo nascerá torto. Com elas mal encaixadas, ganhará pouco.

A estrutura ministerial desenhada tem cargos e salários elevados. Pode acomodar diversos pleitos políticos e saciar a fome de políticos, sindicalistas, militantes partidários, afilhados. Seu gigantismo, porém, pressionará os gastos, terá custos de coordenação e poderá causar perda de qualidade gerencial e de controle da agenda. Se se abrir demais ao fisiologismo, o governo terá de fazer concessões e correr o risco de comprometer seu proclamado republicanismo. Ficará tentado a estourar os cofres do Estado e a costear a institucionalidade.

O governo futuro precisa ser novo: ter outras caras, compreender melhor o País e o mundo, inventar políticas criativas, inovar na gestão pública. Está comprometido a olhar para os pobres, mas não pode tirar os olhos da realidade fiscal do País. Se falhar no primeiro compromisso, perderá apoios. Se procrastinar no segundo, entrará em atrito com a elite econômica e terá maior dificuldade para financiar o gasto público. “Colocar os pobres no Orçamento e os ricos no Imposto de Renda” é uma mensagem que açula e excita, mas que não leva a lugar nenhum, pois repete o que toda boa política tributária almeja.

Por tudo isso, o melhor e o correto é torcer pelo sucesso de Lula. Seu fracasso aprofundará os problemas do País e poderá trazer de volta nossos piores pesadelos.

Boas festas e um feliz ano novo a todos.

*PROFESSOR TITULAR DE TEORIA POLÍTICA DA UNESP

Fonte:  https://www.estadao.com.br/opiniao/marco-aurelio-nogueira/o-natal-da-transicao/ 

Imagem da Internet

O legado do cristianismo

Por  Celso Ming*

"Domínio: o cristianismo e a criação da mentalidade ocidental", do historiador britânico Tom Holland, foi traduzido em português pela Editora Record.  
"Domínio: o cristianismo e a criação da mentalidade ocidental", do historiador britânico Tom Holland, foi traduzido em português pela Editora Record.  Foto: Divulgação/Editora Record 24/12/2022 |

Autor britânico traça a evolução do cristianismo e seus desdobramentos nas culturas ocidentais

É o que explica e demonstra com competência Tom Holland em seu livro Domínio: o cristianismo e a criação da mentalidade ocidental, traduzido em português pela Editora Record.

Tudo começa com um absurdo. Um pregador errante dos confins da Judeia, que depois teve morte vergonhosa de escravo, propôs a igualdade entre os homens e o amor ao próximo como conduta, na contramão de tudo quanto pensavam gregos, egípcios, persas, romanos e até mesmo os judeus. E, no entanto, passou a ser reconhecido como Deus entre certos humanos que, no início, eram vistos como esquisitos. Os últimos serão os primeiros e os primeiros, os últimos, o que, por si só, parece incompreensível, posto que aquele que chega a ser primeiro depois de ter sido o último poderia voltar a ser o último, por ter chegado a ser primeiro.

A mensagem de Cristo era absurda quando medida pelos valores de então e mesmo de depois. Tertuliano de Cartago (século 2º D.C.) e Agostinho de Hipona (século 5º D.C.) repetiam para quem os ouvisse: “Credo quia absurdum” (Acredito porque é absurdo).O fato é que a mensagem cristã “pegou”,alastrou-se e foi transformando mentalidades e instituições. O processo não é uma seta com trajetória firme. Seguiu carregado de idas e vindas, de avanços e recuos. A liberdade (ação do espírito) se mescla à imposição de controles, pela geografia e história.

A questão da escravidão é um desses casos. A ideia de que para Cristo não há desigualdades nem senhor nem escravo era incompreensível e repugnante para um romano. E continuou a ser até mesmo para cristãos que depois consagraram a liberdade, a igualdade e a fraternidade nas constituições, mas mantiveram o tráfico e o trabalho cativo até o século 19 ou, em certos bolsões, até hoje. A abolição teve de ser revogada até mesmo pelos muçulmanos, apesar de legitimada pelo Corão. E foi a Inglaterra, um país cristão, ainda que por motivos geopolíticos e comerciais, que obrigou o islam a abolir a escravidão.

Holland observa, também, que, ao pretender construir seu materialismo histórico, no qual os costumes e a moral não passam de superestruturas e a mais-valia não é mais do que o resultado consistente das relações de trabalho, Karl Marx deixa-se trair pelo uso de categorias que apontam para “exploração”, “escravização” ou “avareza” dos membros das classes dominantes sobre as dominadas.

Um romano jamais diria que explorava um escravo. Era propriedade sua, assim como ninguém diz hoje que um humano explora um cavalo ou um burro de carga.

Os iluministas como Voltaire e Diderot e até mesmo os que declararam a morte de Deus, como Nietzsche, adotam pontos de vistas cristãos para impor seu, observa Holland.

*Jornalista. É formado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (USP). 

Fonte:  https://www.estadao.com.br/economia/celso-ming/o-legado-do-cristianismo/ 

Paul Krugman: O futuro da China não é o que costumava ser

 Paul Krugman*

Os dois líderes mais poderosos do mundo tiveram anos muito diferentes 

No início de 2022, Joe Biden foi amplamente retratado como um presidente fracassado. Sua agenda legislativa parecia paralisada, enquanto os problemas econômicos pareciam garantir perdas devastadoras nas eleições de meio de mandato. Em vez disso, a Lei de Redução da Inflação - que é principalmente uma lei climática inovadora - foi promulgada; a tão alardeada “onda vermelha” foi suave; e enquanto muitos economistas ainda estão prevendo uma recessão, o desemprego ainda é baixo e a inflação está diminuindo.

Em contraste, no início deste ano, Xi Jinping, o líder supremo da China, ainda se gabava de seu triunfo sobre a covid. De fato, por um tempo, as pessoas geralmente ouviram afirmações de que o aparente sucesso da China no gerenciamento da pandemia anunciava sua emergência como a principal potência mundial. Agora, no entanto, Xi encerrou abruptamente sua política de “covid zero”, com todas as indicações apontando para um grande aumento nas hospitalizações e mortes que irão sobrecarregar os serviços de saúde ao ponto de ruptura; parece que a economia chinesa enfrentará grandes problemas nos próximos dois ou três anos; e as projeções de longo prazo do crescimento econômico chinês estão sendo reduzidas.

O futuro da China, ao que parece, não é o que costumava ser. Por quê?

A capacidade da China de limitar a propagação do coronavírus com bloqueios draconianos deveria demonstrar a superioridade de um regime que não precisa consultar o público, que pode simplesmente fazer o que precisa ser feito. Neste ponto, no entanto, a recusa de Xi em se preparar para seguir em frente, seu fracasso em adotar as vacinas mais eficazes e vacinar seus cidadãos mais vulneráveis, destacou a fraqueza dos governos autoritários nos quais ninguém pode dizer ao líder quando ele está errado.

Além da perspectiva iminente de carnificina, os problemas macroeconômicos de longa data da China parecem estar chegando a um ponto crítico.

É óbvio há anos que a economia da China, apesar de uma impressionante história de crescimento econômico, é extremamente desequilibrada. Muito poucos dos ganhos do crescimento chegaram às famílias, mantendo os gastos do consumidor baixos como uma parcela do produto interno bruto. Taxas de investimento extremamente altas preencheram a lacuna - mas tudo indica que o investimento está tendo retornos severamente decrescentes, com as empresas cada vez mais relutantes em gastar em novos empreendimentos.

A China, no entanto, conseguiu manter o pleno emprego – mas principalmente promovendo uma enorme bolha imobiliária. O setor imobiliário da China está incrivelmente inchado: de acordo com uma estimativa, representa 29% do PIB, com o investimento em imóveis como uma parcela do PIB duas vezes mais alto do que nos Estados Unidos no auge da bolha dos anos 2000.

Esta não é uma situação sustentável. Os economistas costumam citar a Lei de Stein: “Se algo não pode durar para sempre, vai parar”. Exatamente como a bolha da China terminará não está claro – pode ser uma desaceleração acentuada ou pode ser um período de crescimento de “baixa qualidade” que mascara a verdadeira extensão do problema, mas não será bonito.

O que realmente me impressionou, no entanto, é a maneira como os analistas vêm avaliando por baixo suas projeções de longo prazo para o crescimento chinês.

Duas ressalvas aqui.

O presidente chinês Xi Jinping acena em um evento para apresentar os novos membros do Comitê Permanente do Politburo no Grande Salão do Povo em Pequim, domingo, 23 de outubro de 2022
O presidente chinês Xi Jinping acena em um evento para apresentar os novos membros do Comitê Permanente do Politburo no Grande Salão do Povo em Pequim, domingo, 23 de outubro de 2022 Foto: Andy Wong/AP

Primeiro, ninguém é muito bom em prever o crescimento de longo prazo; como o economista do MIT Robert Solow brincou, as tentativas de explicar as diferenças nas taxas de crescimento nacionais geralmente terminam em uma “explosão de sociologia amadora”.

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Em segundo lugar, ao medir o tamanho das economias nacionais, você precisa distinguir entre o valor em dólares do PIB e a produção medida em “paridade de poder de compra”, que normalmente é maior em economias de baixa renda, onde o custo de vida tende a ser relativamente baixo.

Na última medição, as estimativas sugerem que a China ultrapassou os Estados Unidos por volta de 2016. Mas a medida do dólar é sem dúvida mais importante quando se trata de influência geopolítica. Então, quando a China assumirá a liderança?

Recentemente, o Goldman Sachs, que anteriormente projetava a China como número 1 em meados da década de 2020, adiou essa data para 2035. O Centro de Pesquisa Econômica do Japão, que anteriormente projetava a liderança chinesa em 2028 e depois em 2033, agora diz que isso não vai acontecer por pelo menos várias décadas. Alguns analistas acham que isso nunca vai acontecer.

De onde vem esse pessimismo recém-descoberto? Parte da questão é demográfica. A população em idade ativa da China vem diminuindo desde 2015. A economia chinesa ainda pode crescer rapidamente se puder sustentar o rápido crescimento da produtividade. Mas os erros políticos da China parecem ter reforçado a percepção de que ela está entrando na “armadilha da renda média”, um fenômeno afirmado amplamente (embora controverso) no qual algumas nações mais pobres alcançam uma recuperação rápida, mas apenas até certo ponto, e estagnam bem abaixo dos níveis de renda das economias mais avançadas.

Nada disso deve ser interpretado como uma depreciação do incrível aumento do padrão de vida chinês nas últimas quatro décadas, nem como uma negação de que a China já se tornou uma superpotência econômica. Mas se você estava esperando o domínio econômico chinês, pode ter que esperar muito tempo. Como eu disse, o futuro da China não é o que costumava ser. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES do Jornal The New York Times.

*Economista norte-americano, vencedor do Nobel de Economia de 2008. Autor de diversos livros, é também desde 2000 colunista do The New York Times. Krugman identifica a si mesmo como um economista Keynesiano.

Fonte:  https://www.estadao.com.br/internacional/paul-krugman-o-futuro-da-china-nao-e-o-que-costumava-ser/

sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

Papa Francisco: “É um Natal triste, um Natal de guerra. Tenham um grande coração”

 O Papa com a bola de trapos

22 de dezembro de 2022 at 6:19 

Apresentamos trechos da entrevista do Pontífice com a Rede de televisão Mediaset “O Natal que gostaria”. Na entrevista com o vaticanista Fabio Marchese Ragona, o Papa fala sobre a guerra, as crianças, a pobreza, a fraternidade

Santo Padre, para começar agradecemos por este presente a todos os telespectadores da rede Mediaset, mais uma vez, neste Natal. Falaremos sobre muitas questões de atualidade, começando pela guerra, a guerra da Ucrânia, com um povo e principalmente com crianças que sofrem. Por que esses dois países, os líderes desses dois países, não conseguem sentar-se à mesa para dialogar?

Há muito tempo eu venho falando, estamos vivendo a terceira guerra mundial em pedaços. A Ucrânia nos desperta um pouco mais porque está perto, mas a Síria está há 13 anos em uma guerra terrível. E o Iêmen? Mianmar, vários países da África. O mundo está em guerra. Dói muito, dói muito mesmo. Quando eu estava em Redipuglia, em 2014, chorei. Eu chorei! Comemorava-se o centenário da guerra. Eu não podia acreditar nisto: na idade dos mortos. Todos os anos, em Finados, no dia 2 de novembro, vou ao cemitério. Um ano fui visitar o cemitério de Anzio, onde estão enterrados soldados americanos. Eu vi a idade dos jovens e chorei. Mas como é possível? Como se pode destruir vidas naquela idade? A guerra é como uma mística da destruição. Então, quando houve a comemoração do 60º aniversário do desembarque na Normandia, vi, sim, os chefes de governo lembrando o que era o início da libertação da Europa, do nazismo, do fascismo. Mas naquela praia morreram 30 mil jovens. Eu não entendo, a guerra destrói. Às vezes penso nas mães que recebem o carteiro que bate à porta: “Uma carta para a senhora. Senhora, temos a honra de dizer que a senhora é a mãe de um herói”. Sim, tudo o que resta daquele filho é aquela carta para sua mãe. A guerra é uma loucura, sempre destrói. E dizemos agora há crueldade, porque uma agressão traz outra, e outra, e outra, e outra. Continua assim. E a destruição vira um jogo. Depois, também, a fome, o frio, tantas coisas que a guerra causa, destruições. O comércio das armas. A indústria das armas, é uma indústria que, em vez de fazer progredir a humanidade, produz a destruição. Nós somos loucos. Direi às pessoas, por favor, não tenhamos medo, mas choremos um pouco. Hoje sentimos falta de chorar por essas crueldades. Recebi aqui muitas crianças da Ucrânia por ocasião das audiências gerais. Nenhuma delas sorri, nenhuma, cumprimentam, mas não conseguem sorrir, sabe lá o que viu aquela criança…

Desde o início da guerra o senhor tem feito muitos apelos nos Angelus, nas Audiências Gerais, escreveu muito, falou, telefonou aos dois presidentes, perguntou a Putin se poderia encontrá-lo em Moscou para tentar parar a guerra, falou várias vezes com o presidente Zelensky, pediu aos dois que se sentassem à mesa de negociações. Escreveu muito, recolheu todos os seus discursos em livro que chamou de Uma Encíclica sobre a Paz na Ucrânia. Então eu me pergunto: existe um momento em que até mesmo o Papa, depois de tantos meses, diante desta situação, diz: “O que mais posso fazer”?

É a loucura da guerra e sempre acontece assim, em relação às outras partes, é assim. A guerra começou com Caim. O espírito de Caim. Aquele que mata por ciúmes, mata por interesse, sabe? É algo muito feio. Agora as consequências sociais, as consequências em toda a Europa. Prepare-se, prepare-se.

Há uma coisa que me preocupa muito: é a atitude de indiferença. Há aqui uma fotografia tirada por um de nossos fotógrafos, que é a saída de um restaurante de uma senhora no inverno, usando um casaco de pele, ela é idosa, usa luvas e um chapéu. Pode-se ver que estava frio. Ela sai do restaurante e, à porta, está uma mulher pedindo esmola. Percebe-se que é uma mulher humilde moradora de rua, talvez. A senhora olha para o outro lado. O pior que pode nos acontecer é olhar para o outro lado. Por favor, meçam os gastos de Natal, meçam-no. Este é um Natal triste, um Natal de guerra. Há pessoas morrendo de fome. Por favor, tenham um grande coração e não gastem como se nada estivesse acontecendo. A indiferença é uma das coisas que temos que lutar muito e vocês jornalistas têm um pouco da missão de despertar os corações para não cair nesta cultura de indiferença. “Eu olho para o outro lado, lavo minhas mãos, não é problema meu”. O problema é de todos. O desperdício. Devemos tomar consciência deste momento histórico, da pobreza. Que há crianças brincando com um míssil russo, que estão com fome. Há pessoas morrendo de fome. Pelo menos celebramos a Natividade porque a Natividade é uma coisa linda, é uma bela mensagem. Queremos festejar, mas vamos festejar com moderação.

Falando de crianças, que são um fio condutor nesta nossa entrevista, é preciso muito pouco para fazê-las sorrir: uma bola para jogar na rua, para jogar em um campinho. O senhor trouxe uma bola de trapos. Esta bola nos demonstra que precisa muito pouco para fazer uma criança sorrir, para que ela se divirta.

O esporte é nobre. O esporte traz nobreza. Há um filme argentino chamado Pelota de trapo, Bola de Trapos, e o autor é Enrique Mueňo. Estou falando de 1945, eu o vi quando era criança. É um belo filme da época, é um pouco da mística dos meninos que brincam com o que têm em mãos. Foi Dom Bosco quem dizia “se você quiser reunir os meninos, ponha uma bola na rua e eles vêm imediatamente, como moscas para o doce”. As crianças brincam. E aí passamos a uma coisa muito bonita que é o valor do jogo, do esporte, até mesmo do próprio jogo. Brincar e fazer esportes. É uma bênção poder fazê-lo bem, porque o esporte é uma coisa nobre. Todos nós precisamos desta gratuidade do esporte. É por isso que fico feliz quando vejo que as pessoas estão entusiasmadas com o mundo do esporte e quando o esporte não perde essa dimensão de ‘amadorismo’, amador, não? O esporte é gratuito, é amador, não? Existem, agora, aspectos mais comerciais, mas não é ruim se eles forem moderados. Desde que o esporte não perca esse “amadorismo”. O verdadeiro esporte deve ser livre, amador.

O Papa com a bola de trapos

Santo Padre, dentro de poucos meses serão dez anos de pontificado, um pontificado que lhe deu tanta alegria, mas também tanto sofrimento, muitos momentos dolorosos e muitos compromissos importantes. Eu estava me perguntando se há alguma coisa que o senhor gostaria de realizar que ainda não tenha realizado…

Quando fui eleito, tomei como programa todas as coisas que dissemos com os cardeais nas reuniões pré-conclave para o próximo Papa que estava presente, mas ninguém sabia quem seria. Tomei isto como um caminho a seguir. Também há coisas a serem feitas, mas está avançando. É bom porque os cardeais que estiveram lá me ajudaram muito a fazer esta mudança. Uma das coisas que mais se vê, que não é a mais importante, mas a que mais vê, é a limpeza econômica, evitar que ocorram coisas ruins economicamente. Agora aquela Instituição é forte. Nestes dias reuniu-se o Conselho de Economia, está funcionando muito bem. Eles deram instruções para levar isto adiante. Comecei a fazer, com a ajuda de todos, o que os cardeais haviam pedido. Mas, acima de tudo, a missionariedade, o espírito missionário, o anúncio do Evangelho. Isto é importante: podemos ter uma cúria muito organizada, uma paróquia muito organizada, uma diocese muito organizada, mas se não há espírito de missão, se não se reza lá dentro, não funciona. A oração é importante.

  Fonte: https://ideeanunciai.wordpress.com/2022/12/22/papa-francisco-e-um-natal-triste-um-natal-de-guerra-tenham-um-grande-coracao/