quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

Escutar o pulsar antídoto contra a propaganda

 Por ANDREA MONDA*

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Falar com o coração. Depoisdo convite do ano passadoa escutar com o coração, o Papa Francisco convida os comunicadores sociais (e para os cristãos, anunciadores da Boa Nova,isto significa que convida todos) afalar com o coração. É interessante sobretudo a ordem das ações porque se poderia pensar que um comunicador social seja uma pessoa queprincipalmente fala, e, no entanto, é necessária esta “conver são”: primeiro escutar, depois falar. E fazer os dois do mesmo modo, com o mesmo estilo: com o coração. É o coração que ouve, não os ouvidos, é o coração que fala,não a boca, o mesmo coração capaz de ver segundo a lição de Bento XVI na Deus caritas est: «Não devemos ter medo de proclamar a verdade, por vezes incómoda, mas de o fazer sem amor, sem coração» diz Francisco no início da Mensagem, pois «o programa do cristão — como escreveu BentoXVI — é “um coração que vê”. Trata-se de um coração que revela,com o seu palpitar, o nosso verdadeiro ser e, por essa razão, deve ser ouvido». Não só ouvir o outro, mas ouvir também o próprio coração, o seu pulsar. Falar com o coração paradoxalmente significa estarem silêncio face a uma escuta mais radical, significa fazer silêncio. Se de facto ficarmos em silêncio, deixamos espaço para o outro, e então ouvimos sobretudo que o nosso corpo já tem um som, uma voz: o palpitar do coração. Esta voz, tão íntima a mim mesmo, é já a voz de outro. Desse pulsar, desse som do batimento cardíaco, os estúdios pensam que nasceu a arte da música e por conseguinte da dança, duas “linguagens” primordiais do homem, do qual nasceu a poesia, que é antes de mais ritmo e canto. Como salienta o Papa, o coração com o seu pulsar revela muito da verdade do nosso ser. Revela, sobretudo, o nosso desejo e para onde nos dirige esse desejo. Quer estejamos calmos ou agitados, tristes ou felizes, curiosos ou aborrecidos... tudo isto passa pelo coração e do coração brota como uma linguagem sincera, que mostra a nós mesmos e aos outros quem realmente somos. Portanto, falar com o coração é estar numa relação natural e “solta” com o próprio coração, deixá-lo falar. E isto leva, observa o Papa, “o ouvinte a sintonizar-se no mesmo comprimento de onda, chegando ao ponto de sentir no próprio coração também o pulsar do outro”. Vem à mente o verso daquela poesia da poetisa polaca Wislawa Szymborska intitulada: Ouve como bate forte em mim o teu coração. Se deixarmos o nosso coração falar, se o ouvirmos, conclui o Papa Francisco, “então pode ter lugar o milagre do encontro, que nos faz olhar uns para os outros com compaixão, acolhendo as fragilidades recíprocas com respeito, em vez de julgar a partir dos boatos semeando discórdia e divisões.

              A mensagem é um tesouro de ideais e estímulos sobre o qual é apropriado voltar e refletir, hoje, numa primeira leitura, é marcante esta referência ao “Pulsar” e à necessidade de ouvir o próprio coração do outro. Desta escuta broa a “comunicação cordial” que o Papa nos convida a realizar: “Comunicar cordialmente quer dizer que a pessoa que nos lê ou escuta é levada a deduzir a nossa participação nas alegrias e receios, nas esperanças e sofrimentos das mulheres e homens do nosso tempo. Quem assim fala ama o outro, pois preocupa-se com ele e salvaguarda a sua liberdade, sem a violar”. O exemplo bíblico que a Mensagem oferece à atenção do leitor é o de Emaús onde Jesus entra, com mansidão e candura, nas conversas dos homens, conseguindo incendiar os seus corações. É precisamente a Bíblia como um todo que nos faz compreender o que é então este “coração”, que deve tornar-se o órgão principal dos nossos cinco sentidos: na linguagem bíblica, de fato, o “coração” indica a globalidade, a complexidade do homem, o centro unificador não só da atividade espiritual, mas de todas as ações da vida humana. Quem fala com o coração não quer “algo” do outro a qualquer custo, mas quer o outro, ou seja, que o bem para o outro a quem se dá livre e totalmente, falar com o coração só pode ser feito no signo da gratuidade.

              O oposto de falar com o coração é fazer propaganda. A Mensagem fala muito claramente a este respeito, inspirando-se nos dramáticos acontecimentos atuais das guerras que atravessam o mundo: “Por isso mesmo há que rejeitar toda a retórica belicista, assim como toda a forma de propaganda que manipula a verdade, deturpando-a com finalidades idiológicas”. Quem fala com o coração une verdade e caridade – na Mensagem isto é devidamente repetido várias vezes referindo-se também à figura do “comunicador gentil”, São Francisco de Sales, cuja festa celebramos a 24 de janeiro – e portanto não manipula a verdade, respeita-a. Ao contrário, quem az propaganda ( assim como aqueles que fazem publicidade) não tem uma abordagem livre e libertadora do outro, mas uma abordagem ideológica e instrumental; de toda a riqueza da experiência humana, o propagandista isola apenas o conceito, se necessário manipulando também a verdade e visando um resultado, com único efeito, que muitas vezes tem impacto no lado emocional, com exclusão do resto das dimensões do ser humano. O coração, essa totalidade complexa e misteriosa que é o ser humano, é dissecado e assim efetivamente morto. A oposição propaganda-poesia pode servir para compreender a Mensagem de hoje, que não cita por acaso Manzoni e a página do diálogo, de coração a coração, entre Lúcia e o Inominado. Naquela cena dramática, o paradoso ocorre onde é o Inominado que quase tem medo de Lúcia e lhe diz palavras de encorajamento, a ponto de a jovem responder que as suas palavras lhe “alargaram o coração” . Falar ao coração produz o efeito de alargar o coração.  Na homilia de ontem, Domingo da Palavra, convidando-nos a colocar toda a nossa vida “sob a Palavra de Deus”, o Papa Francisco evidenciou um perigo: “Não nos aconteça professar um Deus de coração largo e ser uma Igreja de coração estreito”. Aqui reside a diferença entre a propaganda e a poesia, neste alargamento ou estreitamento. De fato, a palavra da propaganda ou da publicidade produzem uma linguagem unívoca e simplificadora, que se impõe de cima, de uma forma assertiva e “monolítica”. A palavra da poesia, por outro lado, é equívoca porque é livre: é uma proposta que se lança ao ouvinte questionando-o na totalidade (cabeça, coração, mãos) e restitui a complexidade, a “meia-escuridão” da realidade, pedindo-lhe que a interprete na plenitude da sua liberdade. Falar com o coração é ser criativo como os poetas. E corajosos, correr o risco.  Inclusive da incompreensão. É isto e não menos que isto que nos pede o Papa Francisco na sua Mensagem para o dia Mundial das Comunicações Sociais de 2023. 

* É um jornalista e escritor italiano, diretor do L'Osservatore Romano desde 18 dicembre 2018.

Copiado do L´Osservatore Romano, número 4, quinta-feira 26 de janeiro de 2023, pág. 1 e 6

O novo normal climático-o fim da espécie e a salvação cristã

Leonardo Boff/Pedro Ribeiro de Oliveira

 Posso ter certeza da salvação?

Um entranhável amigo, sociólogo reconhecido, Pedro Ribeiro de Oliveira de  Juiz de Fora, talvez o único que lê tudo o que escrevo, se deixou impactar (helás!) com meu artigo recente:”O novo nomal ameaçador” que trata da mudança irreversível do regime climático da Terra que poderá pôr em risco o futuro da vida humana. Como é um cristão crítico e sério escreveu-me esta provocação que suponho seja de muitos leitores e leitoras. Permito-me transcrever o e-mail dele, na forma coloquial e depois a minha resposta.

Pergunta de Pedro Ribeiro de Oliveira:

Leonardo,meu irmão,

Acabo de ler seu texto “O novo normal ameaçador” soltando os cachorros sobre a inevitável catástrofe climático-ambiental que está se abatendo sobre a Terra e quero te sugerir / pedir uma reflexão teológica sobre a Salvação. Será que nem Jesus pode salvar a Humanidade? Será que seu Evangelho do Reino deu em nada? Que Ele só consegue salvar almas? Será que o Filho do Homem, depois de ressuscitado pelo Espírito, acabou morrendo à mingua?

Sei lá… Se está toda a espécie humana, e mais um monte de outras, que vão junto, condenada a desaparecer, a promessa do Reinado de Deus foi só uma Esperança que ajudou uma parte (pequena) da Humanidade a viver momentos felizes, antecipando-o na História. Cadê a Salvação que Jesus prometeu e as Igrejas cristãs anunciaram por tantos séculos?

Só nos resta o consolo de que, não havendo Reinado de Deus na História e que nossos corpos estão mesmo condenados a morrer, teremos uma vida eterna e etérea para nossas almas. Mas se assim é, muita gente fez papel de bobo, inclusive o próprio Jesus de Nazaré: ele podia ter ensinado a salvação das almas sem enfrentar o Império, o Templo e a Cruz.

Como teólogo, te proponho escrever um artigo sobre a Salvação tendo como tema a catástrofe da vida humana na Terra.

Um afetuoso abraço pra você e à Márcia.

Pedro Ribeiro de Oliveira, sociólogo e articulador do Movimento Fé e Política.

Resposta de Leonardo Boff

Pedro, meu amigo-irmão

Eu creio que Jesus não veio para mudar o curso da evolução.

Se lhe contar a história da vida, notará que ao se constituírem os continentes (a partir do único, Pangeia) há 245 milhões de anos, entre 75-95% de todas as espécies de seres vivos desapareceram. Mas a Terra guardou sementes ( os quintiliões de micoro-organismo escondidos no solo e a salvo de qualquer ameaça). A Terra demorou 10 milhões de anos para refazer a biodiversidade.E a refez e enfrentou outras grandes dizimações posteriores como aquela há 67 milhões de anos que fez desaparecer todos os dinossauros,depois de viverem mais de 120 milhões de anos sobre a Terra e outras tantas. Mas a vida, como um espécie de praga sempre sobreviveu.

Nada obsta que a nossa espécie que apareceu por último, violenta e assassina desde o começo do mundo, chegue ao seu clímax e desapareça. Mas não desaparece o poder criador de Deus-Trindade, de comunhão e de amor. Das ruínas fará um novo céu e uma nova terra.

Lembre-se da sexta-feira santa. Os apóstolos todos fugiram ou traíram. Só as mulheres, as geradores de vida, nunca o traíram e ficaram ao pé da cruz. O  Vivente morreu entre gritos de desespero até se entregar,confiante, dizendo:“em tuas mãos entrego o meu espírito” (meu princípio de vida). A ressurreição foi uma insurreição contra aquela justiça e aquele mundo de morte que o condenou.A ressurreição antecipou o fim bom da história humana e do universo. Ele é o “novíssimos Adam”1Cor 15,45). 

Eu creio que o mistério pascal (vida-morte-ressurreição), especialmente a sexta-feira santa não só  foi inspiradora para a criação da dialética por Hegel (que ele a chama de a “sexta-feira santa teórica”) mas para  nós também.

Podemos passar pela sexta-feira geral e terrenal com todas as suas agonias como as de Jesus. Mas não é o fim. Irromperá o novo que é a ressurreição. Não como reanimação de um cadáver como o de Lázaro, mas como realização de todas as potencialidades escondidas em nós e como a irrupção realmente daquilo que o Apocalipse testemunha: um novo céu e uma nova terra. Elas virão do alto, quer dizer, de outra fonte de vida.

Bem diz Ernst Bloch: o verdadeiro Gênesis não está no começo, mas no fim. Só então Deus, olhando para trás, dirá: tudo que foi feito é muito bom. Agora não é bom, pois há tanta maldade e desastres incompreensíveis, como o de São Sebastião e o rebaixamento das águas dos canais de Veneza. Mas o fim será bom.

Como diz nosso poeta maior Fernando Pessoa: “sonhamos com um mundo que ainda não experimentamos”. Agora no final do novo regime climático, o terrível piroceno (do fogo), explodiremos e implodiremos para dentro de Deus como gostava de imaginar Teilhard de Chardin. Experimentaremos um mundo nunca experimentado antes.

A nossa esperança vale para a atual situação calamitosa. Reside na ressurreição de Jesus que apenas começou e não acabou ainda porque seus irmãos e irmãs que somos todos nós, não chegaram à situação dele.A ressurreição de Jesus é um processo não terminado porque seus irmãos e irmãs ainda não ressuscitaram como ele.

Gosto do evangelho de São Marcos original. Ele termina Jesus, dizendo: vão à Galiléia e aí me mostrarei. E acaba assim o texto. Os milagres agregados, é consenso entre os exegetas, foram um acréscimo posterior.

Portanto, estamos todos a caminho da Galileia quando então o Novo Ser (a ressurreição) vai se manifestar e nos fazer também novos seres, homens e mulheres. Essa é  minha esperança face às turbulências mortais da história especialmente da recente.O novo, Cristo ressuscitado acabará de ressuscitar vai então se mostrar como o Cristo cósmicorande e fraterno abraço e um beijo à Tereza também da parte de Márcia

Lboff

Fonte:  https://leonardoboff.org/2023/02/22/o-novo-normal-climatico-o-fim-da-especie-e-a-salvacao-crista/

A máquina aprendeu a mentir

 Por Juremir Machado*


A máquina aprendeu a mentir  
Imagem de carnaval feita por GPT a pedido do colunista do Matinal

Em “Deep blue, ou a melancolia do computador”, Jean Baudrillard explicou: “O confronto de um ser humano e de um artefato « inteligente » (Kasparov contra Deep Blue) é altamente simbólico, não somente pelo prestígio do jogo de xadrez, mas porque resume o dilema do homem face às máquinas contemporâneas que utiliza: informatizadas, virtuais, cibernéticas, em rede, etc.; por trás do uso instrumental, criativo ou interativo, trata-se no fundo de uma partida, de uma competição, de um desafio, de um confronto em que qualquer um pode fracassar ou perder a dignidade. Não há interatividade com as máquinas (tampouco entre os homens, de resto, e nisso consiste a ilusão da comunicação). A interface não existe. Sempre há, por trás da aparente inocência da técnica, um interesse de rivalidade e de dominação. O jogo de xadrez nada mais faz do que radicalizar essa situação”.

      A máquina só não podia blefar:  “Voltemos a Kasparov: se venceu é porque (metaforicamente) consegue falar várias línguas – a do afeto, da intuição, do estratagema, do jogo rápido, sem contar a do cálculo – enquanto Deep Blue só fala a do cálculo”. A vitória da máquina era de outra ordem: “A eventual vitória do computador não cria problema: sabemos que ela só pode resultar da força do cálculo”. O humano podia enganar e ser enganado; a máquina, não: “O homem pode impor-se em termos de ilusão, de logro, de desafio, de sedução, de sacrifício. Essa estratégia da fragilidade, do jogo aquém das possibilidades, o computador compreende mal, pois está condenado a jogar no máximo de suas possibilidades”. A melancolia do computador vinha de não chorar.

      A Inteligência Artificial avançou e gerou seu filho mais promissor, capaz de ameaçar o sistema cognitivo inteiro. O jornalista Flávio Gomes provocou GPT, inteligente como certos alunos que não leram o livro, mas são capazes de simular a resposta padrão:

“Meu caro ChatGPT, escreva um parágrafo sobre o dia em que Michael Schumacher se vestiu de noiva”. 

Resposta: “O dia em que Michael Schumacher se vestiu de noiva foi um momento engraçado e inesquecível na carreira do lendário piloto alemão. A ocasião foi uma brincadeira para comemorar um título conquistado por Schumacher e sua equipe. Ele usou um vestido branco tradicional, com véu e bouquet, e posou para fotos com seus colegas de equipe e a bandeira do campeonato. Essas imagens divertidas mostraram o lado engraçado e descontraído de Schumacher e refletem a amizade e a camaradagem que ele tinha com seus colegas. Este episódio é lembrado como uma das histórias curiosas e divertidas da a camaradagem que ele tinha com seus colegas. Este episódio é lembrado como uma das histórias curiosas e divertidas da carreira de Schumacher e continua a ser um momento marcante para seus fãs e amantes do automobilismo”.

Desmentido do jornalista: “O que aconteceu de verdade: Schumacher nunca se vestiu de noiva para comemorar título nenhum. Jamais posou com a equipe de vestido branco, véu e “bouquet”. Não existe “bandeira do campeonato”. O episódio não é lembrado por ninguém e nunca foi marcante, porque só foi revelado em setembro de 2021 quando eu contei a história no meu blog. Aconteceu numa bebedeira de começo de temporada em Madonna di Campiglio, na Itália, num evento da Philip Morris. Quem tirou a foto foi minha ex-mulher”.

Revolução tecnológica: a máquina aprendeu a mentir.

*Jornalista. Escritor. Prof. Universitário

Fonte:  https://www.matinaljornalismo.com.br/matinal/colunistas-matinal/juremir-machado/juremir-a-maquina-aprendeu-a-mentir/ 20/02/2023

Celebridades no carnaval

 Juremir Machado da Silva*


Celebridades no carnaval 
A atriz Paolla Oliveira desfilou pela Grande Rio no domingo (Foto: Felipe Braga/Reprodução Instagram)

No carnaval, vimos a série da Netflix “A imperatriz”, com a atriz Devrim Lingnau no papel da bela, insubmissa e tocante Sissi. Uma história clássica de Sessão da Tarde na vida de muita gente. Depois, revimos “Maria Antonieta”, filme de Sofia Coppola sobre a “austríaca”, a rainha da França que seria guilhotinada junto com seu marido, Luís XVI. Ao ver a adoração das pessoas pelas celebridades nos desfiles de carnaval, ou nos camarotes VIP, fiquei fazendo comparações. Certo, as imperatrizes do carnaval aparecem quase nuas (Paolla Oliveira, Débora Secco, Sabrina Sato) ou um pouco mais vestidas (Gisele Bündchen). Seduzem as multidões. Vez ou outra, claro, acontece um pequeno curto-circuito no roteiro. Gisele Bündchen recebeu US$ 2 milhões para ir ao camarote de um patrocinador. Chegou com oito amplos seguranças.

A moça que atuava na recepção, ganhando R$ 200 pela noite, sorriu amarelo. A sua atenção, porém, foi desviada por alguém mais ao seu gosto: “Olha lá, não é Naldo Benny?”. Era. Há súditos para todos. Sissi dominou a massa que ameaçava o trono do marido saindo ao encontro dela, estendendo as mãos e dizendo que esperava um filho. Descontadas as licenças poéticas, o que se mostra é esse renovado encantamento das pessoas com aqueles que, por alguma razão, podem ser considerados diferentes, elevados, aos quais caberia viver emoções que não estão disponíveis a todos, embora sejam as mesmas de qualquer cardápio da humanidade: amar, gozar, distrair-se, dançar, divertir-se, viver. Tudo isso, ou apenas isso, com luxo e sem preocupação com os boletos no final do mês, ainda que, no caso das monarquias, os boletos de Maria Antonieta chegassem pelas mãos do ministro da Finanças.

As celebridades tomaram o lugar das vedetes do cinema, que desbancaram as cabeças coroadas, ainda que, vez ou outra, surja uma Diana para arrebatar os corações nos confins dos reinos. A era das celebridades e das subcelebridades pode se gabar de ter democratizado o papel de estrela. Já não é preciso encontrar um príncipe, nem mesmo ser contratada por um estúdio de Hollywood. Até mesmo o Jardim Botânico, onde reina a fábrica de sonhos da Rede Globo, já não domina sozinho a escala dos que brilharão no firmamento passageiro das eternidades. Na época em que mais se contesta a objetificação do corpo feminino, algumas mulheres parecem dizer, “o corpo é meu, faço dele o que eu quiser”, ecoando, num paradoxo, o pertinente slogan feminista, mostrando o que a natureza lhes deu e o trabalho diário esculpe.

O carnaval continua sendo esse momento de explosão em que se pode, por um instante, ser o que não se é, mas não tudo, pois muitos se ofendem quanto tomados como objeto de fantasia. O próprio termo diz tudo: fantasiar. Ser o que não se é. No carnaval das celebridades, contudo, o esquema de inversão não se impõe. A hierarquia social é mantida. Paga-se muito para que uma celebridade seja ela mesma diante dos que adorariam estar no lugar dela. O carnaval tornou-se um dispositivo de atualização do sistema de hierarquia social visível.

*Jornalista. Escritor. Prof. Universitário

Fonte:  https://www.matinaljornalismo.com.br/matinal/colunistas-matinal/juremir-machado/juremir-carnaval-das-celebridades/?utm_source=Matinal&utm_medium=email&utm_source=Assinantes&utm_campaign=3a7fda3bf3-EMAIL_CAMPAIGN_2023_02_22_09_51&utm_medium=email&utm_term=0_-3a7fda3bf3-%5BLIST_EMAIL_ID%5D&mc_cid=3a7fda3bf3&mc_eid=02eb3e5cec

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

Inteligência artificial que escreve sozinha é 'como um papagaio' e isso traz riscos, diz especialista do MIT

Leonardo Stamillo -Nova York

Retrato de moça branca de olhos claros e cabelos castanhos escursos lisos, na altura dos ombros. Ela olha para a câmera e dá um leve sorriso. O fundo é verde acinzentado

 A professora do MIT, Pattie Maes, especialista em inteligência artificial 
e fundadora do grupo de pesquisa sobre interfaces fluidas do Media Lab 
 - Media Lab / Divulgação

Pesquisas mostram que público tende a acreditar no que robôs escrevem e regulação tem que vir antes, afirma Pattie Maes

A clareza dos textos gerados por ferramentas como o ChatGPT, da OpenAI, não pode ser confundida com um real entendimento das máquinas sobre os temas. "É como um papagaio: eles são capazes de reproduzir a linguagem, mas não de pensar sobre o que estamos pedindo", compara a professora MIT, Pattie Maes.

Especialista em inteligência artificial, Maes é fundadora do grupo de pesquisa sobre interfaces fluidas do Media Lab, um dos mais conceituados centros de pesquisa de alta tecnologia do mundo. Ela estuda maneiras de aprimorar habilidades cognitivas como o pensamento crítico e a comunicação através do uso de máquinas.

O ChatGPT já alcançou sozinho mais de 100 milhões de usuários no mundo todo e colocou a inteligência artificial geracional no centro do debate global. Escolas e universidades discutem como impedir que alunos usem a ferramenta para elaborar trabalhos inteiros ou passar em exames, autores de textos e imagens questionam como deveriam ser remunerados pela plataforma e há cientistas pedindo pela regulamentação da inteligência artificial.

"É bastante preocupante que essas tecnologias estejam sendo amplamente disponibilizadas sem termos primeiro uma discussão aprofundada sobre seus impactos e a definição de uma regulamentação", diz Maes.

Em entrevista à Folha, a pesquisadora falou sobre o potencial da inteligência artificial generativa, seus pontos falhos e revelou resultados de experimentos que deixam claros os desafios que a sociedade terá pela frente.

A chefe de tecnologia da OpenAI, criadora do ChatGPT, Mira Murati, defende a regulamentação da inteligência artificial. Você acha que esse é o caminho?

Sim, apenas os governos serão capazes de fazer com que todas as empresas sigam as mesmas regras para o desenvolvimento de serviços que utilizem inteligência artificial. Existe uma cultura muito forte aqui nos Estados Unidos de deixar que o mercado encontre as melhores práticas e se autorregule. Eu não acho que esse seja o melhor caminho para IA. Pegando como exemplo a OpenAI: na falta de uma regulamentação, eles estão tentando desenvolver maneiras de aumentar a precisão de seus resultados e reduzir risco de respostas enviesadas, mas quem garante que isso é suficiente? Ou que outras empresas, grandes e pequenas, sigam os mesmos protocolos?

Mas é possível imaginar que uma legislação desse tipo seja discutida e aprovada com a velocidade necessária? A União Europeia espera chegar a um consenso sobre as regras de uso da IA até o começo de março para depois tentar aprovar o texto ainda em 2023. O congresso americano ainda está formando um grupo de especialistas para educar seus integrantes…

A União Europeia tende a ser mais rápida e mais rigorosa, basta tomar como exemplo a maneira como eles lidam com as redes sociais. Eu acho que os governos precisam propor uma regulamentação, o que não significa que eles vão fazer isso. Ao contrário do que se imagina, uma boa regulamentação beneficia até mesmo as grandes empresas que estão interessadas em explorar a tecnologia. Elas têm muito mais a perder do que startups que podem sair testando conceitos com um risco reputacional muito baixo. A regulamentação faz com que todos tenham que trabalhar dentro de regras e o usuário final acaba recebendo um serviço melhor.

Quais são as suas maiores preocupações com as ferramentas geradoras de texto, como ChatGPT?

Eu tenho várias preocupações, especialmente relacionadas à maneira como as pessoas consomem conteúdo hoje. Essas ferramentas vão tornar ainda mais fácil a produção não de uma, mas de milhares de notícias falsas, com múltiplas versões do mesmo conteúdo. Vai ser mais fácil criar milhares de perfis falsos que depois vão influenciar as pessoas a tomarem decisões equivocadas. O uso massivo da internet como fonte de consulta de informações já fez com que não existisse mais uma ideia clara de verdade. Essa tecnologia vai degradar ainda mais esse cenário, porque a internet vai ser inundada por muito mais lixo travestido de conteúdo sério, convincente. Nós estamos fazendo uma série de experimentos para entender como as pessoas estão consumindo conteúdo produzido ou recomendado por inteligência artificial e os resultados são bastante preocupantes. Os usuários deixam de pensar sobre o assunto por eles mesmos, eles são menos críticos quando a inteligência artificial está dizendo que algo é verdade ou não, especialmente quando o sistema gera uma explicação elaborada.

E os textos gerados pela inteligência artificial estão chamando a atenção justamente por serem bem escritos. Vocês já fizeram algum estudo comparando a aceitação de textos feitos pela IA e humanos?

Nós apresentamos para grupos de pessoas duas respostas para uma questão de saúde; a primeira escrita por médicos e a segunda obtida através de GPT-3 (tecnologia de geração de texto programada também pela OpenAI). Sem saber quem tinha escrito a resposta, as pessoas acabaram preferindo a explicação dada pela inteligência artificial. Elas diziam que a resposta parecia de melhor qualidade, com recomendações mais claras e convincentes. No entanto essa habilidade de escrita não pode ser confundida com um entendimento verdadeiro de qualquer que seja o assunto. Eu costumo brincar nas minhas palestras dizendo que nós deveríamos usar um papagaio como logotipo para esses aplicativos. Assim a gente lembraria que eles são capazes de reproduzir a linguagem na qual foram treinados, mas não de pensar sobre o que estamos pedindo para eles fazerem.

Falta então uma consciência maior do usuário acerca do que a inteligência artificial é capaz de fazer agora, das suas limitações?

Certamente. As empresas precisam ser mais claras quanto a essas limitações e precisamos investir mais e mais em educação sobre o uso dessas ferramentas. É como fazemos com os alunos nas escolas que estão pesquisando conteúdo na internet, os cuidados são os mesmos. É necessário explicar como esses modelos funcionam, quais são os pontos falhos, de modo que as pessoas não assumam que tudo o que aparece ali está correto. Nós fizemos um experimento apresentando o ChatGPT de maneira bastante distinta para dois grupos de pessoas: para o primeiro, dissemos que eles iriam usar um sistema bastante eficiente e que os ajudaria a pesquisar temas de modo muito seguro. Para o segundo, em oposição, dissemos que o sistema tinha muitas falhas e que apresentaria informações incorretas. Os dois grupos interagiram com a ferramenta de maneira completamente diferente. O segundo foi muito mais criterioso ao consumir o conteúdo gerado pela inteligência artificial.

Apesar dessas limitações que você está apresentando já existe uma corrida para aplicar ferramentas como ChatGPT em serviços de busca. Microsoft, Google e Baidu são apenas três exemplos. O que podemos esperar para o futuro dos serviços de busca?

Se esses modelos conseguirem efetivamente aumentar a precisão das suas respostas, eu realmente acredito que eles podem revolucionar as ferramentas de busca. As pessoas poderiam finalmente obter respostas de maneira mais rápida, ao invés de receberem como resultado uma série de links, alguns deles patrocinados, o que faz com que se perca bastante tempo até chegar à resposta que se estava buscando. Mas acho que a aplicação desses modelos de IA com serviços de busca vai ser considerada apenas como um experimento por mais um bom tempo, até que as empresas tenham um entendimento mais claro sobre os seus eventuais benefícios. Eu vejo isso como uma aposta alta de empresas como a Microsoft para tentar entrar em um mercado que é dominado pelo Google.


RAIO-X

Pattie Maes, 61, é professora do programa de Mídia, Artes e Ciências do MIT e responsável pelo departamento de pesquisa em interfaces fluidas. É formada em ciências da computação com doutorado em inteligência artificial pela Universidade Vrije de Bruxelas e editou três livros. Além da pesquisa acadêmica, Pattie Maes é co-fundadora de diversas empresas como a FireFly Networks (adquirida pela Microsoft) e é conselheira de empresas de tecnologia como a Erable e Spatial.

Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/tec/2023/02/inteligencia-artificial-e-como-um-papagaio-e-isso-traz-riscos-diz-especialista-do-mit.shtml

Fraternidade e fome.

 Por Francisco de Aquino Júnior

21 Fevereiro 2023

"A ordem de Jesus aos discípulos diante da multidão “Dai-lhes vós mesmos de comer” (Mt 14, 16) ecoa com muita força entre nós, sobretudo nesse tempo quaresmal em que somos chamados à conversão. Certamente, nenhuma pessoa ou comunidade pode resolver o problema. Mas cada um pode compartilhar um pouco do que tem e cada comunidade, grupo, pastoral ou movimento pode contribuir para superar essa situação".

Eis o artigo.

Desde 1964 a Igreja do Brasil promove durante a quaresma uma Campanha da Fraternidade. A quaresma é um tempo marcado pelo chamado à conversão: mudança de vida (mentalidade, sentimento, atitude), volta ao Senhor, adesão ao seu Evangelho. Essa conversão é tanto pessoal (conversão do coração), quanto social (transformação da sociedade). Para ajudar na vivência do espírito quaresmal, a Igreja convida a intensificar a prática da oração, do jejum e da caridade. E para que a caridade não se reduza a uma ação meramente assistencial, a Igreja do Brasil, retomando a doutrina social da Igreja, promove uma Campanha da Fraternidade que trata de algum problema grave da sociedade que exige mudança e que compromete todas pessoas e instituições.

Pela terceira vez a Campanha da Fraternidade trata do problema da fome, chamando atenção para um dos pecados mais graves de nossa sociedade e convidando os cristãos e o conjunto da sociedade a se empenharem na superação dessa injustiça e desse crime que é um verdadeiro pecado que clama ao Céu: “Repartir o pão” (1975); “Pão para quem tem fome” (1985); “Dai-lhes vós mesmos de comer” (2023).

A fome não é um dado natural. Não é fruto do acaso ou do destino. Não é mera consequência de preguiça ou comodismo pessoal. Nem muito menos é vontade ou castigo de Deus. Ela é um produto social. É resultado das tremendas injustiças e desigualdades que caracterizam nossa sociedade e fazem com que uns tenham tanto e outros tenham tão pouco ou quase nada. A situação atual do Povo Yanomami em Roraima é o exemplo mais vivo e dramático da injustiça e desigualdade de nossa sociedade: Fruto do egoísmo e da cobiça de garimpeiros, madeireiros e empresários; fruto de um modelo econômico que sacrifica vidas humanas e toda natureza no altar do deus-mercado/lucro; fruto da indiferença social, da cultura do consumismo e da busca de enriquecimento a qualquer preço; fruto da cumplicidade de políticos e governos genocidas que fecham os olhos diante desses crimes ou até mesmo estimulam essas práticas criminosas.

Mas a situação do Povo Yanomami não é um fato isolado. O drama da fome está presente ao longo da história do Brasil. E é a expressão mais cruel e perversa do modelo capitalista de sociedade que se implantou aqui ao logo de mais de 500 anos. Uma série de políticas públicas desenvolvidas na primeira década do século reduziu bastante o drama da fome no Brasil, fazendo com que o país saísse do mapa da fome em 2014. Mas o desmonte progressivo dessas políticas a partir de 2016, agravado com a pandemia da Covid-19, fez com que o Brasil voltasse ao mapa da fome.

Os dados são alarmantes: 33 milhões de pessoas passando fome (15,5% de toda população ou o equivalente à população das cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Salvador, Fortaleza, Belo Horizonte e Manaus); mais de 125 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar (58,1% de toda população). Isso é bem mais grave nas regiões Nordeste (21%) e Norte (27%) e na zona rural (18,6%). E atinge sobretudo pessoas pretas ou pardas e famílias chefiadas por mulheres. Em março de 2020 estimava-se cerca de 222 mil pessoas em situação de rua e esse número cresceu assustadoramente na pandemia, como se pode ver em qualquer grande cidade.

Essa situação é muito mais escandalosa e criminosa se considerarmos que não falta alimento no Brasil. Aliás, o país bate recordes anuais na produção para exportação de milho, soja, trigo, carne etc. A fome no Brasil, vale repetir, é fruto da injustiça e da desigualdade social. É um pecado mortal que clama ao céu! E pode ser eliminada com a solidariedade de todos e com vontade e decisão políticas. Como tantas vezes repetiu o presidente Lula “é preciso colocar o rico no imposto de renda e o pobre no orçamento”. Precisamos lutar para que isso se torne realidade.

A ordem de Jesus aos discípulos diante da multidão “Dai-lhes vós mesmos de comer” (Mt 14, 16) ecoa com muita força entre nós, sobretudo nesse tempo quaresmal em que somos chamados à conversão. Certamente, nenhuma pessoa ou comunidade pode resolver o problema. Mas cada um pode compartilhar um pouco do que tem e cada comunidade, grupo, pastoral ou movimento pode contribuir para superar essa situação: doando cesta básica; ajudando pessoas a desenvolverem alguma atividade produtiva; promovendo feiras da agricultura familiar e economia solidária; exigindo dos governos a compra dos produtos da agricultura familiar; defendendo os programas de transferência de renda como “bolsa família” e “bolsa catador”, a reforma agrária e políticas públicas de saúde (SUS), educação, moradia...

Isso é questão de humanidade e justiça social!

Isso é questão de fé e critério de salvação ou de condenação!

*Francisco de Aquino Júnior, mestre e doutor em Teologia, presbítero da Diocese de Limoeiro do Norte – CE, professor de teologia da Faculdade Católica de Fortaleza (FCF) e da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP)

Fonte: https://www.ihu.unisinos.br/626346-fraternidade-e-fome-artigo-de-francisco-de-aquino-junior