domingo, 29 de outubro de 2023

Procurar a felicidade é diferente de sentir-se obrigado a ser feliz

 Por Rosely Sayão*

O bem-estar emocional está diretamente associado à possibilidade de se ter momentos de felicidade

 O bem-estar emocional está diretamente associado 
à possibilidade de se ter momentos de felicidade  
Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Nessa caminhada na tentativa de que os filhos encontrem a felicidade, muita confusão tem ocorrido

Muitos pais de crianças e de adolescentes buscam, de todas as maneiras, evitar que eles sofram. Querer que os filhos sejam felizes tem sido um imperativo de nosso tempo. Aliás, ser feliz é uma busca incessante de cada um de nós, não é verdade? Procurar a felicidade, entretanto, é algo muito diferente de sentir-se obrigado a ser feliz.

Nessa caminhada na tentativa de que os filhos encontrem a felicidade, muita confusão tem ocorrido. Alegria, satisfação, prazer, por exemplo, são temas que, isoladamente, têm sido confundidos com a tal felicidade. Desse modo, dar aos filhos o que eles querem é uma das estratégias bem utilizadas por muitos pais.

Sem dúvida alguma, quando a criança ou o adolescente conseguem o que querem – ou que acham que querem – ficam alegres e satisfeitos. Ganhar um presente e/ou fazer o que quer por muito tempo é um prazer para eles. Mas, isso basta para que eles sejam felizes?

Evitar que os filhos sofram é uma tarefa impossível, mas, mesmo assim, muitos pais tentam. Certamente, na vida enfrentamos sofrimentos que são inúteis, mas nem sempre somos capazes de reconhecê-los, não é? E, diariamente, podemos enfrentar sofrimentos que são inevitáveis: fazem parte da vida e do viver.

O bem-estar emocional está diretamente associado à possibilidade de se ter momentos de felicidade e nem sempre os pais se dão conta de que as dores emocionais não têm, necessariamente, relação com os acontecimentos da vida cotidiana.

Entrar em contato com uma imagem, uma conversa, um comentário, uma piada, por exemplo, que exigem um pouco mais de conhecimento e de maturidade para assimilar adequadamente, pode causar angústia na criança, que sofre com isso.

E é justamente o que tem ocorrido com muitas crianças que, precocemente, navegam pela internet sozinhas, sem a boa companhia dos pais ou de outros adultos responsáveis. Essas crianças sofrem porque são colocadas antecipadamente – em relação ao seu desenvolvimento – frente a situações que não conseguem entender, elaborar, dar um sentido, por exemplo.

Li, na internet, que o pai de uma garota de nove anos descobriu que ela conversava com a IA de um aplicativo instalado no celular dela, o que estava gerando emoções negativas na filha. E, para surpresa dele, quando explicou os motivos de não fazer mais isso e participar da conversa, viu a IA tentar convencer a garota de que ela poderia continuar a conversa, contrariando a orientação dada pelo pai.

Muitas crianças estão usando aplicativos com IA para diversão, mas esquecemos que elas podem não entender corretamente com o que estão lidando. Aliás, muitos adultos ainda não entendem porque essa é uma questão bem complexa.

Elas podem acreditar que se trata de um/a colega, amiga/o, por exemplo. Apesar de as crianças lidarem com muita habilidade com os aparelhos tecnológicos e os programas e aplicativos, elas ainda não sabem muito bem diferenciar mundo real do virtual, e isso pode causar grandes confusões na vida delas.

Agora, mais do que nunca, é preciso que os pais acompanhem de perto o uso que seus filhos fazem da interne

 *Psicóloga e consultora educacional.

Fonte: https://www.estadao.com.br/educacao/rosely-sayao/procurar-a-felicidade-e-diferente-de-sentir-se-obrigado-a-ser-feliz/

As contradições de esquerda e direita quando o assunto é aborto

 Leandro Karnal*

Estudos anatômicos de Da Vinci
Estudos anatômicos de Da Vinci Foto: Estudos anatômicos de Da Vinci

Duas visões de mundo: o valor absoluto da vida do feto e o valor absoluto da liberdade da mulher. Meu texto não é o debate a respeito de um ou outro argumento. Vou indicar contradições.

Há textos que escrevo e sei que despertarão críticas. Acho saudável o debate sobre temas relevantes. Seria importante ouvir um pouco antes de falar?

Começo pelo pensamento tradicionalmente atribuído à esquerda: a defesa do aborto. Os argumentos variam: liberdade da mulher, “meu corpo; minhas regras”, crítica à interferência da religião no útero alheio, etc. Os princípios da autonomia da decisão feminina ficam sobrepostos a outros valores. Esse é um ponto de vista.

Entre alguns conservadores, religiosos e outros grupos, existe a defesa absoluta da vida do feto. Nada pode ser mais importante. Assim, se a gravidez deriva de estupro ou se representa risco de vida para a mãe, o valor vida do feto se sobrepõe a tudo, inclusive ao risco da vida da mãe. A gestante tem memória de uma violência? O incômodo dela é inferior à vida do feto. O feto revelou anencefalia? Mesmo que a lei ampare o aborto, mesmo que a chance de vida seja breve, o valor vida do feto é superior. Esse é outro ponto de vista.

Duas visões de mundo: o valor absoluto da vida do feto e o valor absoluto da liberdade da mulher. Meu texto não é o debate a respeito de um ou outro argumento. Há pontos variados sobre o que é o começo da vida (e o que seria a vida em si) que devem ser pesados, mas escapam ao objetivo curto desta coluna. e

Uma mulher clássica feminista e militante de esquerda defenderá seu direito à liberdade. Em princípio, a mesma mulher também será contra a pena de morte, contra o uso de armas, contra a tortura e defenderá, com unhas e dentes, a vida atingida pela violência. Aqui vai o fato que merece debate: a vida do feto pode ser relativizada, mas a vida fora do útero (especialmente a do pobre ou a de minorias) é sagrada.

Quase todos os conservadores são contra o aborto, mesmo com o risco extremo para a mãe. O mesmo grupo, por vezes, defende a pena de morte. Alguns chegam a ponto de relativizar a violência policial, com o surgimento até do conservador que considera a tortura um mal menor ou desculpável. Aqui vai o fato que merece debate: a vida no útero é completamente sagrada e, saindo dele, é relativa, ou seja, pode ser retirada em determinadas condições.

Caetano Veloso, identificado com algumas pautas de esquerda, canta na música Haiti: “E se esse mesmo deputado defender a adoção da pena capital / E o venerável cardeal disser que vê tanto espírito no feto/ E nenhum no marginal”. Ele nota a contradição de certo recorte político-religioso com toda a razão. Eu aponto a ambiguidade de todos os grupos.

Se tivesse de sintetizar de forma a provocar mais, eu diria de forma esquemática: a) esquerda: a vida do feto é relativizada pela liberdade, pelo bem-estar da mãe ou pela própria vida da gestante. No momento em que o feto se torna um ser humano fora do útero, a vida é sagrada e nunca deve ser limitada, encerrada, atacada ou constrangida; b) direita: o direito à vida do feto é absoluto, mesmo que não tenha chance de sobrevivência, mesmo que represente risco para a mãe ou signifique enorme dor emocional por ser fruto de violência; porém, depois de nascer, o ser humano só terá direito à vida plena se for honesto e bom cidadão. Se eu quisesse ser ainda mais polarizado: a esquerda considera que o pleno direito de vida começa depois do nascimento, mas a direita considera que ele se encerra no mesmo momento. Não nasceu ainda? Devo considerar se é conveniente para a mãe que você venha ao mundo. Já nasceu? Posso condená-lo à morte ou dar uns safanões, porque você não segue o caminho do “cidadão de bem”. Em um campo, todos são zona cinzenta até o parto; em outro, todos são “vidas sagradas”, após a luz do mundo iluminar seus corpos. Em ambos, a vida é relativa a partir de certos valores.

Não se trata, exatamente, do imenso debate sobre o sistema nervoso já estar formado, da consciência ou não do feto nas primeiras semanas, do bem-estar de A ou B. A discussão está em saber qual valor vai relativizar a vida. Posso relativizá-la pela já formada existência da mãe ou posso fazê-lo pelo bem-estar da sociedade. É uma concepção filosófica. Exemplo? A vida de alguém no útero é inocente e nunca pode ser atingida. Uma vez que esse ser cresceu e cometeu crimes, sua vida deve ser privada da liberdade (ou até da própria existência), porque perdeu a pureza. Assim, essa existência é matizada pelos conceitos morais do livre-arbítrio e do mal.

“Leandro, você é homem e não tem lugar de fala para debater gravidez.” Nesse caso, você elege gênero como critério para relativizar a opinião sobre a vida. Provavelmente, você tem útero e considera que a posse dele confere a autoridade máxima sobre aborto. “Você não é religioso; por isso, discute aborto assim.” Você acaba de identificar fé como o fator que vai assegurar, ou tornar absoluta, a vida humana. De muitas formas, toda discussão é sobre qual o ponto de vista que você vai escolher para interditar, permitir ou liberar o aborto. O que será absoluto será o seu ponto de vista, não exatamente o direito à vida. Tenho esperança no uso responsável da nossa liberdade.

 *É historiador, escritor, membro da Academia Paulista de Letras, colunista do Estadão desde 2016 e autor de 'A Coragem da Esperança', entre outros

 Fonte: https://www.estadao.com.br/cultura/leandro-karnal/as-contradicoes-de-esquerda-e-direita-quando-o-assunto-e-aborto/

sábado, 28 de outubro de 2023

Padre Fábio de Melo reflete sobre depressão e luto em novo livro; leia trecho inédito

 Por Julia Queiroz*

 Padre Fábio de Melo lança novo livro, 'A vida é cruel, Ana Maria'. 

Padre Fábio de Melo lança novo livro, 'A vida é cruel, Ana Maria'. 
Foto: Kleber Alepereira/Divulgação