quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

AMOS OZ, 4 ideias do escritor sobre literatura e paz


 Foto: Wikimedia commons
 O escritor Amos Oz em evento no Brasil

O escritor Amos Oz morreu nesta sexta-feira (28) em Israel. Ele sofria de câncer e tinha 79 anos. A notícia foi confirmada por sua filha, Fania Oz Salzberger. “Meu amado pai morreu de câncer, agora mesmo, depois de uma recaída, em seu sono e tranquilidade, cercado pelas pessoas que amava”, escreveu ela via Twitter.

Oz era o mais célebre autor israelense. Nascido em Jerusalém em 1939, sob o nome Amos Klausner e antes mesmo da fundação do Estado judaico, se fez conhecido ao redor do mundo tanto pela seu trabalho como ficcionista como pelo ativismo político pacifista.

Escreveu dezenas de livros em hebraico, entre romances, contos e ensaios, além de centenas de artigos em jornais, em Israel e fora do país. Suas obras foram traduzidas para mais de 45 idiomas, recebeu inúmeros prêmios e seu nome era constantemente cotado para o Nobel de Literatura, que afinal não veio. Alguns de seus livros mais conhecidos são “Caixa Preta”, “A pantera no porão” e “De amor e trevas”.

A trajetória de Oz

O escritor era filho de intelectuais que emigraram da Rússia no início dos anos 1920, no período entre-guerras na Europa, rumo à Palestina. Aos 15 anos de idade, saiu de casa e foi morar em um kibutz, tipo de comunidade socialista e rural muito comum entre os pioneiros do que viria a ser o Estado de Israel, fundado em 1948.

Oz estudou filosofia e literatura na Universidade Hebraica de Jerusalém. Mais tarde tornou-se professor de literatura na Universidade Ben Gurion, em Bersheba, no deserto do Neguev, ao sul de Israel. Seu primeiro romance é de 1966.

Lutou na Guerra dos Seis Dias, de 1967, e na Guerra do Yom Kippur, em 1973. Após esses conflitos, assumiu posição pública, por meio de artigos na imprensa, contra a ocupação israelense de territórios palestinos na Cisjordânia e Gaza. Defendia a solução de dois Estados, que havia sido proposta originalmente pela ONU (Organização das Nações Unidas) em 1947.

Em 1978, foi um dos fundadores do movimento alinhado à esquerda Shalom Achshav (“Paz agora”, em hebraico.) Essa corrente pacifista reunia intelectuais e outros ativistas, defendendo o reconhecimento recíproco entre Israel e Palestina e o compartilhamento de terras na região. O movimento existe até hoje, e completa 40 anos em 2018. 

 
Foto: Eloy Alonso/Reuters 
O escritor isralense Amos Oz, que morreu em 28 de dezembro de 2018

Entre a política e a literatura

A carreira de Amos Oz é marcada por essa dupla atividade, política e literária. E embora muito de sua obra ficcional ecoe os conflitos locais ou os dilemas da vida comunitária no kibutz, por exemplo, Oz fazia questão de manter bem demarcada a linha que separava os dois campos de sua atuação como escritor.

Como contou em diversas entrevistas ao longo da carreira, Oz tinha até mesmo um artifício para não misturar as coisas: para os artigos e ensaios políticos, usava uma caneta preta. Para romances, contos, novelas, usava uma caneta azul. “Eu nunca confundo as duas”, disse ele em 2009, prestes a completar 70 anos de idade, ao jornal americano The New York Times. “Uma [caneta] serve para mandar o governo ao inferno. A outra é para contar histórias.”

Em entrevistas e palestras dadas pelo mundo, Oz era frequentemente provocado a falar de política, a se posicionar sobre o conflito entre Israel e Palestina. Ao mesmo tempo, como ficcionista de sucesso internacional, falava também sobre literatura e língua, sobre o prazer de contar uma boa história. Abaixo, o Nexo seleciona quatro ideias expostas por Oz que explicam um pouco da visão de mundo do escritor.

1. Contra o fanatismo

 “O humor oferece imunidade maravilhosa contra o fanatismo. Se o senso de humor fosse vendido em cápsulas, eu proporia uma imunidade massiva contra esta praga dos nossos dias que é o fanatismo. E assim quem sabe eu concorreria não ao Nobel de Literatura, mas de Medicina.”

Amos Oz veio ao Brasil algumas vezes. Em 2017, disse a frase acima em palestra na Casa do Povo, centro cultural fundado nos anos 1940 no Bom Retiro, em São Paulo, ligado à comunidade judaica progressista. O evento era para lançar o livro “Mais de uma luz – fanatismo, fé e conveniência no século 21”. Trata-se de um ensaio de teor político, traduzido para dezenas de idiomas, lançado primeiro no Brasil.

O argumento central de Oz aqui é a luta contra o fanatismo de todos os lados: da esquerda e da direita, dos radicais islâmicos e judeus. O autor vinha notando uma ascensão do extremismo religioso pelo mundo e, como fez ao longo da vida, se opunha a esse tipo de radicalismo em favor de uma atitude moderada - e bem humorada - na política e no convívio social.

2. Os dramas familiares

“Se tivesse que definir meu trabalho em uma só palavra, eu diria ‘famílias’. Em duas: ‘famílias infelizes’. Em três, seria preciso ler todos os meus livros. (risos) Escrevo sobre a família porque acho a instituição mais trágica e cômica do universo. São relações misteriosas, excitantes e paradoxais.”

Como contou em entrevista concedida ao jornal O Estado de S. Paulo em 2011, o universo familiar era central na obra de Oz, tanto na perspectiva ficcional como na política. Isso porque, por vezes, o autor, ao falar de Israel, parece falar também de uma família - repleta de conflitos, crises, brigas e recalques.

Um de seus mais famosos livros, “De amor e trevas”, explora seu próprio universo familiar, entrelaçado à história de Israel: trata-se de um relato autobiográfico em que ele examina sua trajetória em paralelo à de seu país.

3. A língua hebraica

“Eu amo a língua hebraica e minha visão é bem enviesada sobre isso. Eu poderia falar sobre o idioma hebraico por horas e horas (...) Eu acho que um escritor ou um poeta do hebraico contemporâneo ainda pode tomar liberdades muito ousadas com a língua, pode até mesmo legislar sobre a língua, porque o hebraico é como o derretimento da lava, como um vulcão em erupção, e ainda é possível deixar uma certa marca na língua.”

Oz era um cultor da língua. Escrevia em hebraico, que aprendeu em casa. Era um idioma bíblico restrito até o começo do século 20 aos ritos litúrgicos, mas que foi reavivado quando da fundação do Estado de Israel, em 1948. A escolha pelo hebraico como língua oficial do novo país foi uma solução para não privilegiar o iídiche dos judeus da Europa do leste ou o árabe falado por judeus do Oriente Médio.

Isso criou uma situação em que era preciso inventar novas palavras para que o idioma pudesse descrever a vida moderna, e Oz costumava contar sobre a criação de alguns vocábulos. Certa vez, como contou em entrevista à revista Tablet, ouviu um taxista usar uma palavra que havia inventado - um verbo que descrevia o comportamento conformista. “Era o mais próximo da imortalidade que um mortal poderia chegar; ter uma palavra que você inventou voltando para você na boca de um taxista.”

4. Visões sobre a guerra e a paz

“O conflito israelo-palestino é uma trágica luta entre duas vítimas da Europa - os árabes foram vítimas do imperialismo, do colonialismo, da repressão e da humilhação. Os judeus foram vítimas de discriminação, perseguição e, finalmente, de um genocídio sem paralelo na história”

Em artigos e ensaios como este, publicado em 2010 na revista The New York Review of Books, Oz expunha uma visão trágica sobre o conflito entre israelenses e palestinos, judeus e árabes, olhando para o histórico de espoliação europeia do Oriente Médio e para o antissemitismo latente no continente.

Ao mesmo tempo, manteve um notável otimismo, ancorado na percepção de que, para além das lideranças governamentais e dos extremistas de parte a parte, há pessoas dos dois lados que querem levar uma vida normal, se relacionar amorosamente, trabalhar e se divertir.

Nesse mesmo texto, ele escreveu: “Chegará o dia em que haverá uma embaixada israelense na Palestina e uma embaixada da Palestina em Israel. E essas duas embaixadas estarão a uma curta distância uma da outra, porque uma delas será em Jerusalém Ocidental, a capital de Israel, e a outra será em Jerusalém Oriental, a capital da Palestina. Extremistas de ambos os lados continuarão a fazer tudo o que puderem para frustrar um compromisso histórico e a paz — mas a paz virá, porque a maioria dos dois povos a quer e porque os extremistas são minorias dos dois lados.”
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Reportagem Por José Orenstein 28 Dez 2018  

O começo da era Bolsonaro

Estamos no ano novo. Enfim? Enfim. Jair Bolsonaro tomou posse com cara e discursos de Jair Bolsonaro. Ele não se contentou em ser figurante na vida. Veio, viu e venceu. A bola está com ele para o que der e vier. O que vem por aí? No seu jargão despachado, erro é canelada. Acerto, bola na rede. O que vai ser? Goleada? Show? Chocolate? Pelada? Batalha campal? É o que começaremos a saber a partir de agora mesmo. Em princípio, o estilo é mais Felipe Melo, se me faço entender, ou o google e o youtube ajudam, do que Neymar. Mas, no passado, o criticado estilo Dunga levou ao tetracampeonato mundial. É verdade que havia também Bebeto e Romário na equipe. Serão Paulo Guedes e Sérgio Moro?

Bolsonaro elegeu-se pilotando uma plataforma comportamental cristalina e contundente. Não ganhou corações com propostas econômicas. Seduziu e encantou com discursos contra o comunismo, o “kit gay”, o petismo, a ideologização das escolas, a corrupção e a ideologia de gênero. Não por acaso, repetiu em discurso que combaterá a ideologia de gênero e que nossa bandeira nunca será  vermelha. Ele, que ganhou sem tempo de televisão, salvo no segundo turno, empolgando as redes sociais com aquilo que estas mais prezam, atitude, pegada, papo reto, agora reina sobre as imagens e exibe-se para câmeras insaciáveis. Só Lula falou tão diretamente ao imaginário popular quanto Bolsonaro. Governar é outra coisa? Ou também será diferente? Na composição do ministério, Bolsonaro escanteou os partidos, ainda que tenha ouvidos as tais bancadas temáticas e Onyx Lorenzoni, não necessariamente nessa ordem, e cercou-se de dois superministros, Guedes e Moro, um ministrão, Osmar Terra, e 19 ministros, cerca de um terço fardado de terno e gravata.

O novo presidente subiu a rampa do Planalto com muitas ideias na cabeça e a caneta no bolso para reescrever nossa história com slogans que lembram o passado ainda fumegante. Para ele, índio quer ser como nós, que, afirmou, temos um modo de vida melhor, escola deve ensinar português, matemática e ciências, sendo sexo tema reservado a papai e mamãe. De economia, garante não entender, mas confia no seu Posto Ipiranga, o ultraliberal Paulo Guedes, que faz a oposição temer reformas e o mercado vibrar com revolução. Quem será Bolsonaro como presidente? Os que “secam o governo”, embora neguem, oscilam. Alguns o comparam a Jânio Quadros, que renunciou menos de sete meses depois de alcançar o Planalto. Outros o associam a Fernando Collor, que sofreu impeachment depois de meses de agonia e sangramento público. Bolsonaro quer ser ele mesmo e fazer história como um super-homem com a farda sob o tern.

O vencedor obviamente não se identifica com os derrotados. Tem o próprio roteiro. Se foi nacionalista e estatizante no passado, pretende ser liberal no futuro que começou ontem. Até que ponto? Vai privatizar tudo como sonha o mercado e sugere o impassível Paulo Guedes, o que não brinca em serviço e pretende esfaquear até o Sistema S? Ou vai proteger as tais empresas estratégicas? Há quem considere essa expressão típica de comunistas. Uma coisa é certa, se coisa certa há: Jair Bolsonaro vai jogar no colo do Congresso Nacional uma cesta de propostas impopulares de reformas. Os parlamentares vão ajudá-lo? Em troca de quê? A reforma da Previdência vai dar as caras logo. A nova era chegou. Já era. Como diria aquele outro, sendo otimista, aceita que dói mais, mas a dor pode curar. Na posse, pouca gente, nenhum chefe de Estado das grandes potências mundiais e muito rolo com a imprensa. A coisa promete muita emoção.
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* Jornalista. Escritor. Sociólogo. Prof. Universitário. Cronista do Correio do Povo
Fonte: http://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/2019/01/11449/o-comeco-da-era-bolsonaro/ 02/01/2019
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terça-feira, 1 de janeiro de 2019

FERNANDO ALTEMEYER JUNIOR: Igreja é ‘radicalmente contra’ o uso de armas, avisa teólogo

FERNANDO ALTEMEYER JUNIOR. FOTO SILVANA GARZARO/ESTADÃO

A Igreja Católica repele as campanhas em favor das armas, trava uma batalha em favor dos refugiados, tem o dever de zelar pela pluralidade de opiniões e desempenha a função de arrancar os crucificados da cruz, proclama o teólogo Fernando Altemeyer Junior, chefe do Departamento de Ciência da Religião da PUC São Paulo. Mas algumas dessas missões, alerta o estudioso, não são nada fáceis, pois sopram “contra o vento neoliberal”.

Num País em que a posse e o porte de armas agitaram a disputa eleitoral e dividiram a sociedade – e com o novo presidente, que assume hoje, reforçando suas promessas a respeito, anteontem – Altemeyer avisa: “As igrejas são radicalmente contra o uso de armas. Isso é da Bíblia. ‘Armas deverão ser transformadas em enxadas’, já pregavam os profetas mais ou menos 700 anos antes de Cristo”. Nesta entrevista à repórter Paula Reverbel, o teólogo critica os que defendem o fascismo em nome do cristianismo: “Ser fascista é ficar do lado de Pôncio Pilatos”. A seguir, trechos da conversa.

O tema da Campanha da Fraternidade 2018 da CNBB, “superação da violência”, continua valendo em 2019?
Sim, vai continuar. É uma tradição de 50 anos de campanhas da fraternidade – que, paradoxalmente, nasceu justo em 1964. O ano que começa amanhã é uma continuidade, só que em chave positiva. O tema é “Fraternidade e Políticas Públicas” – os 40 dias da quaresma serão dedicados a pensar a mudança das atitudes negativas. O lema para 2019 é inspirado pelo profeta Isaías, capítulo 1, versículo 27: “Serás libertado pelo direito e pela justiça”. Então, teremos um tema de peso numa situação política cheia de incógnitas. É positivo, a CNBB está certíssima.

O ano que agora acaba foi marcado por atos de violência e polarização. Qual o papel da Igreja antes tais conflitos?
O de ficar do lado dos perdedores, sempre. Para o cristianismo, tudo passa por um lugar: a cruz. Só do lado do crucificado é que a Igreja pode estar. Obviamente, não para aplaudir a crucificação, porque isso seria patético e de mau gosto. Ela tem que ajudar a arrancar os crucificados da cruz. Cada geração tem de fazer tudo de novo. Quem está na cruz? Ah, jovens com HIV? Ah, indígenas? A situação do povo negro, as periferias – ali é o lugar da Igreja, fazendo seu papel de colaboradora de ressurreição.

Em 2015, a CNBB criticou o projeto em tramitação no Congresso que muda o Estatuto do Desarmamento. Como vê isso?
As igrejas são radicalmente contra todo uso de armas. Isso é da Bíblia. “As armas deverão ser transformadas em enxadas”, já pregavam os profetas mais ou menos 700 anos antes de Cristo. Jesus fala a Pedro: “Enfia tua espada na bainha, quem usar da espada morrerá pela espada”. O papa Francisco agora deixou claro que essa indústria de armas norte-americana que financia o (Donald) Trump – e agora a brasileira, que financia o (Jair) Bolsonaro – é anticristã. A Igreja não tem nada a dizer quanto às armas senão um gigantesco “não”. As armas geram morte, geram um lucro que é cheio de sangue, produzem mal-estar no Oriente Médio, estão massacrando o povo na Síria. Elas têm produzido em nosso País um verdadeiro genocídio. Nas periferias de São Paulo, 30 jovens são assassinados a cada fim de semana.

Há dois anos, o papa Francisco autorizou que todos os padres, não só os bispos, se tornassem aptos a perdoar médicos e pacientes que praticassem aborto. Qual sua avaliação desse gesto?
Essa é uma decisão do Francisco de universalizar um preceito que todo bispo já podia oferecer aos padres no passado. Então, não é inédita, mas é global. Tem a ideia chave do Francisco de não punir as mulheres depois de viver o drama da perda de um filho, normalmente por pressão do homem que não assume o papel de pai. Então, penalizar ainda mais – com uma sentença canônica e simbólica do inferno da excomunhão – parece demais para o papa Francisco. Ele tem como chave de todo o seu papado a ação da misericórdia.

O senhor é entusiástico a respeito do papa.
Apesar dos trambolhões que com os quais ele se depara – especialmente intraeclesiásticos, por causa da pedofilia e do controle da máquina do Estado do Vaticano –, ele tem sido exemplar. A nomeação dos cardeais – pessoas do mundo inteiro – tem uma dimensão pastoral mais próxima do povo. Em termos de solidariedade e ação junto às religiões, é genial. Tenho amigos que são sheiks islâmicos e dizem que esse é o papa dos islâmicos. E tenho também dois grandes amigos rabinos, aqui em São Paulo, que afirmam que Francisco é o não judeu mais querido do judaísmo. Então, como um homem conseguiu essa sintonia? Porque ele abriu os braços. Temos algo a fazer em comum na diferença, sem precisar fazer amálgama.

Qual o marco do trabalho dele?
A batalha em favor dos refugiados. Ele acabou de lançar um manifesto pró-ONU na questão dos imigrantes e está recebendo um bombardeio de críticas dos fascistas, da direita húngara, da direita austríaca, alemã, norte-americana. A convenção da ONU propõe a acolhida dos refugiados, que é uma questão de humanidade. Essa é talvez a coisa mais importante dele… mas é a mais difícil, porque ele está falando contra o vento neoliberal.

‘O PERÍODO INTOLERANTE
DA IGREJA SÓ LEVOU
AO DESASTRE’

O cardeal Sérgio da Rocha, arcebispo de Brasília, vê a corrupção como forma de violência que promove a miséria. Concorda?E ela é, sem dúvida. Os corruptos são os que assaltam o Estado brasileiro e, ao assumir o encargo democrático de representação, enchem as bolsas com o dinheiro público. O dinheiro do hospital, do raios-x, da criança, da escola. Acho que Dom Sérgio acertou na mosca.

O senhor já criticou a Igreja Católica por ela até hoje não considerar a obra de Freud.
E pensar que em 2019 faz 80 anos que faleceu Freud. Já estava na hora de ouvir o Sigmund… É fundamental que a gente possa penetrar na psique humana e incluir no debate das igrejas, com lucidez, a questão da sexualidade. Ela não é um pecado. É uma possibilidade erótica de viver bem. Claro que ela pode ser pornográfica, pode ser tanatológica, levar à morte, isso Freud também demonstra. Se a gente pudesse debater isso de forma mais aberta com as juventudes, com as famílias, nós seríamos mais maduros, mais íntegros, mais felizes. Ao manter essa questão em um quarto escuro, a gente fica recalcado. Esse recalque nos está fazendo mal. Afinal, o que é o Natal? É o dia em que celebramos que Deus se fez corpo humano. O corpo de uma criança, um corpo sexuado, com memória, com desejo. Não caiu a ficha, nem de Freud, nem de (Carl) Jung, nem de (Alfred) Adler, nem dos grandes psicanalistas. A Igreja teria tudo pra fazer isso, Jesus viveu sua sexualidade de forma bela, Maria viveu sua sexualidade de forma completa.

O senhor já ressaltou que, embora se ensine que o cristianismo não se coaduna com o comunismo, também não se coaduna com o fascismo. Pode detalhar?
Sim, porque ele ainda é mais radicalmente inumano do que o regime soviético comunista, que perseguiu duramente a Igreja. Mas, o que é esta oposição? É que o fascismo nega a dignidade humana, assim, como o comunismo nega a liberdade humana. De fato, a Igreja é anticomunista. Mas o pensamento católico é também anticapitalista. O problema é que uma parte dos que estão defendendo o fascismo na Europa e no Brasil se dizem cristãos. É um paradoxo. Acham que ser fascista é ser cristão. Ser fascista é ficar do lado de Pôncio Pilatos, é anticristão total.

Acredita que o papa Francisco está atuando bem na questão da pedofilia na Igreja?
Na situação chilena, que foi a mais próxima e evidente, a destituição de inúmeros bispos – e até o pedido de demissão coletivo – foi um gesto inédito na Igreja. Francisco tirou do estado clerical uma série de padres famosos que eram os maiores criminosos. E chamou todos os presidentes das conferências de bispos – são 120 – para tratar, em fevereiro, de uma ação conjunta contra a pedofilia. Esse é um gesto forte, inédito, porque é uma ação preventiva de todos os episcopados. Acho que ele está agindo com força. Mas falta muito por fazer. A questão é muito profunda e ela atingiu, por exemplo, na Austrália, 30% do clero.

Como que o senhor vê a destruição dos terreiros de umbanda nos últimos anos?
Como um absurdo. Tem um belo texto de um dos maiores biblistas brasileiros, Carlos Mesters. É um conto que diz que um dia Jesus resolveu visitar um terreiro. Gostou tanto que falou: “Acho que não vou sair mais daqui não, o povo aqui é tão bonito, dança tão bem.” Se as pessoas compreendessem a beleza do candomblé, a força da umbanda, nunca os destruiriam. Fariam alianças, pactos, soma. É religião de paz, de festa, de cuidado. É uma coisa dramática que católicos mal orientados ataquem os terreiros. Felizmente há gente como a pastora Lusmarina (Campos), que organizou uma coleta na Igreja Luterana pra recompor um terreiro que tinha sido destruído no Rio.

Com políticos falando de fé, acha que a laicidade do Estado está em xeque?
Certamente. O Estado se mostra laico quando mantém a defesa de todas as religiões. Se alguém se apropria do Estado e diz que a sua religião vai governar – a ministra (Damares Alves) acabou de falar isso –, é uma escolha infeliz, porque o País é plural. Temos dezenas de identidades religiosas. Essas declarações são intolerantes, caem no exclusivismo. Essa fase na Igreja Católica só levou ao desastre. A frase em latim é extra ecclesiam nulla salus – “fora da Igreja não há salvação”. Em nome disso se fez guerra santa, que não tinha nada de santa, se fez inquisição, barbárie. A História nos mostrou que é um mau caminho.
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REPORTAGEM POR  Sonia Racy 31 Dezembro 2018 | 00h55 
Fonte:  https://cultura.estadao.com.br/blogs/direto-da-fonte/igreja-e-radicalmente-contra-o-uso-de-armas-avisa-teologo-2/

Jorge Amado, o outro lado, também político.

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“Não conte, mostre.” Foi com esse conselho, a bagagem de jornalista do mundo das letras e a formação de historiadora que Joselia Aguiar escreveu Uma biografia: Jorge Amado (ed. Todavia), obra que revela em mais de 500 páginas a história 
de um dos grandes nomes da literatura brasileira. 
“O livro poderia ter o dobro do tamanho 
e ainda assim não seria chato”, 
diz a biógrafa. 

A missão de escrever sobre Jorge Amado lhe foi dada há sete anos. Era 2011 e, em pouco mais de um ano, seria celebrado o centenário do escritor baiano. O plano era lançar o livro nesse período, mas logo nos primeiros meses de pesquisa, a jornalista percebeu que o deadline era curto demais. Havia muita vida em Jorge Amado e em sua época.
 
Conhecido por sua militância na literatura, pouco se fala de seu papel no mundo político-partidário. “Ele entra para a juventude comunista em 1932. Nesse período, faz uma obra que é considerada muito militante – Cacau, Suor, Jubiabá, Cara Vermelha -, em que, quase sempre no final, o herói sempre se engaja na luta. Eram nos livros que ele indicava ao leitor para se tornar comunista e fazer greve.”

Biógrafo

No Partido Comunista, ele foi considerado um quadro fiel. Participava das reuniões e atuava inclusive nas questões burocráticas da sigla. Seu nome ganhou maior importância de fato após lançar a biografia de Luís Carlos Prestes, escrita enquanto estava no exílio. Vida de Luís Carlos Prestes: O Cavaleiro da Esperança, lançado antes na Argentina (1942) que no Brasil, foi um sucesso de público.
“No Brasil, os leitores receberiam a obra clandestinamente: encontradas por vezes a preços exorbitantes, era também consumida por meio de cópias datilografadas e fac-símiles. O aluguel do exemplar também era possível. Para despistar, leitores referiam-se ao livro por títulos como “Vida de são Luís’, Vida do rei Luís’ e ‘Travessuras de Luisinho’”, descreve Joselia no livro.

Parlamentar

Poucos anos mais tarde, Jorge foi lançado por seu partido a deputado federal. “Hesitei longamente, e aceitei a custo. Não acredito em Prestes e na atual direção do Partido”, escrevera em seu diário em novembro de 1945, colhido pela biógrafa. Nesse período falava, na sua intimidade, um Jorge que começava a ver as contradições do próprio partido. 
 
Na Assembleia Constituinte, junto com Marighella, foi autor do primeiro discurso feito pela bancada comunista, proferido por Claudino José da Silva, ex-ferroviário e marceneiro, era o único negro alí. Os dois acabaram se tornando os redatores oficiais do partido naquele período.
 
Não foi apenas do talento oratório que Jorge se firmou no Parlamento. Ele foi autor de projeto de lei que passou a vigorar a partir da Constituição de 1946, que garantia a liberdade religiosa do país. “Não se extinguiu o preconceito, no entanto, não havia mais permissão para perseguir pais e mães de santos nos terreiros”. 
 
“Para a aprovação do projeto, Jorge usou de uma habilidade que carregou a vida inteira: conversar com todos os setores”, conta Joselia. Ele buscou apoio da direita antes de procurar seus companheiros de sigla, com isso aprovou tranquilamente seu projeto. 

Jorge apresentou outras 14 emendas ao projeto de Constituição. Alguma delas previam a isenção do tributo a importação e produção de livros, periódicos e papel de imprensa; a concessão de habeas corpus aqueles que eram vítimas de de arbitrariedades policiais; o fim da censura prévia em livros e jornais; e a contrariedade a obrigação do ensino religioso nas escolas.
 
“O partido é cassado e os deputados, idem, em 1948. Jorge vai para o exílio na França e na República Tcheca. Nessa época, se torna um quadro importante entre artistas, escritores e cientistas do Movimento pela Paz, braço soviético na batalha cultural”, conta.

O escritor só retornou ao Brasil em 1952 e publica Os subterrâneos da liberdade, seu livro ideologicamente mais marcado. A desconfiança de que as coisas na cortina de ferro não aconteciam como imaginava, por causa da delação e prisão de amigos  que considerava inocentes e eram acusados de conspirar

Diálogo

Na reabertura política chegou a dizer: “Precisamos dar expressão partidária da extrema direita a extrema-esquerda”. “Ele acha que as coisas funcionam democraticamente quando todos os partidos possam existir. É o Jorge Amado”, afirma Joselia.
 
Homem de esquerda até a morte nunca, deixou de conversar com à direita, aliás, encargo que o fazia tão precioso ao partido.“O que, para ele, era problema para ele era o reacionário. Liberal ou socialista. Isso nunca foi um problema mesmo nos momentos em que ele é extremamente militante. Sendo uma pessoa inteligente, que conversa e que debate era o suficiente. “Ele sempre dizia que o problema era o reacionário, era o latifúndio”.
 
A partir de 1956, ele decide sair à francesa das atividades partidária. “Jorge se afasta para ser escritor, mas ele não deixa de ser um homem de esquerda. O que ele diz é que na época dele você só era comunista e que hoje – quando ele dá essas entrevistas nos anos 90 – já é possível ser de esquerda de outra maneira, não apenas da maneira dele, no passado. Ele acredita num socialismo com liberdade porque sem liberdade é ditadura e ditadura é uma merda, tanto de direita como de esquerda”.
 
Há muita vida em Jorge Amado e sua época. Esses são apenas alguns pontos da história do escritor e homem de esquerda. Há outras centenas no livro. 
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Reportagem por  Marina Gama Cubas - 1 de janeiro de 2019 
Imagem da Internet 
Fonte: https://www.cartacapital.com.br/cultura/o-outro-lado-tambem-politico-de-jorge-amado/

Avós vivem alegria e angústia ao pensar no futuro dos netos



Ilustração mostra mãos segurando bebê, uma criança e uma mulher segurando bebê

Tornar-se avó é um momento de felicidade com um toque de consciência dos aniversários que você perderá - NYT

Escritora conta experiência de ser avó e ter a consciência de que seu tempo está se esgotando

Robin Marantz Henig*
 
Nova York 
 
Eu estava na sala de parto quando meu primeiro neto nasceu. Eu sabia o que não fazer —não tocar, não falar — mas eu não sabia exatamente o que eu deveria fazer. Eu me sentia grata por ter sido convidada para fazer parte daquele momento e, ao mesmo tempo, com medo de estragar as coisas de algum jeito.

O parto gira ao redor da mulher em trabalho de parto, é claro, e todos os outros ao redor são coadjuvantes. Mas eu me sentia mais fora de lugar do que eu esperaria.

Qual deveria ser o meu papel? De repente eu me vi lidando com a minha própria incerteza, tentando encontrar o equilíbrio entre ficar invisível e me tornar uma mãe coruja. 

Hoje, três anos depois, eu vejo que aquela experiência é uma metáfora para a vida de avó: a alegria de ver de perto seus filhos se tornarem pais junto com uma sensação de mãos atadas enquanto a nova família se desenvolve.

Essa é a verdade amarga de ser avó: essa é seu último “desenvolvimento”. Enquanto seus filhos e netos crescem, eles devem crescer para longe, para que permaneçam e perdurem mesmo depois que você se for. Mesmo que você os veja de perto, você estará sempre do lado de fora, com seu nariz pressionado contra a janela —e você tem cada vez mais consciência de quantas histórias deles acontecerão sem você.

Eu aguardei aquele momento na sala de parto durante uma eternidade. Conforme meus 60 anos se aproximavam, o desejo de ter um neto aumentava. Eu queria segurar um bebê —e não qualquer bebê, mas um bebê com quem eu pudesse ter aquela conexão primitiva que eu senti ao segurar minhas duas filhas.

Eu queria o cheiro, o toque e o peso de um bebê nos meus braços; eu queria que aquele pequeno ser me conhecesse, confiasse em mim e me procurasse quando quisesse conforto; eu queria um bebê para dar forma e sentido aos meus dias.

Não estava sozinha nesse desejo. Toda uma geração de mulheres fortes e bem-sucedidas sentia algo parecido, ou pelo menos era assim que eu via o mundo.

Mas por que eu me sentia assim? Estamos tentando reviver a nossa própria juventude, quando nós e nossos bebês éramos um monte de infinitas possibilidades? Esse nosso desejo é algo altruísta, uma esperança de que nossos filhos experimentem a alegria de serem pais e mães? Estamos apenas entediadas e à procura de algo com sentido para fazer?

A vontade de ter um neto é, de muitas formas, como a vontade das mulheres mais jovens de ter um bebê, com as mesmas incertezas sobre fertilidade, desejo e compromisso. Mas com uma diferença brutal: essas incertezas não são suas. Elas são do seu filho ou da sua filha, que geralmente pensam que têm todo o tempo do mundo, enquanto nós, avôs e avós, sabemos que nosso tempo está se esgotando.
Como a escritora Edwidge Danticat observou, o maior objetivo ao criar uma criança é dar a ela tudo de que ela precisa para deixar você um dia, “ficar maior, mais esperta, engatinhar, balbuciar, andar, falar, fazer aniversários que você espera viver para ver”. 
The New York Times 
Fonte:  https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2019/01/avos-vivem-alegria-e-angustia-ao-pensar-no-futuro-dos-netos.shtml