quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Como não buscar a felicidade, segundo Luc Ferry


 Foto: Charles Platiau/Reuters - 02.09.2002
 Luc_Ferry Luc Ferry, quando ministro da Educação da França, em Paris

João Paulo Charleaux 31 Jul 2019

O escritor, professor de filosofia e ex-ministro da Educação francês fala ao ‘Nexo’ sobre os falsos ‘mercadores da felicidade’

Luc Ferry não tem a resposta para a pergunta “como ou onde encontrar a felicidade?”, que a maioria dos livros de autoajuda e alguns dos coaches mais bem pagos do mundo afirmam responder. Mas ele diz saber onde e como não procurá-la: nos livros de autoajuda e em coachings da moda.

O escritor francês, que em novembro vem a São Paulo para participar do Fronteiras do Pensamento, critica os falsos gurus, ou “mercadores da felicidade”, como ele os chama. Ferry crê que esses teóricos varejistas tratam a felicidade como um estado fácil de ser descrito, alcançado e mantido.

Para ele, a busca mercantilista das emoções acaba tratando, em paralelo, a infelicidade como algo não apenas evitável em tese, mas também algo a ser evitado a todo custo. “A infelicidade não é uma doença nem tampouco uma falha moral”, disse Ferry ao Nexo, em entrevista por e-mail realizada em 25 de julho de 2019.

A trajetória de Ferry, que foi ministro da Educação da França no governo do presidente Jacques Chirac, entre 2002 e 2004, assim como professor de filosofia e de ciência política, o coloca em posição de opinar tanto sobre a psicologia quanto sobre os rumos da globalização e o crescimento da extrema direita.

Como um defensor da aplicação da filosofia no cotidiano e de um conceito de espiritualidade laica, Ferry não dissocia o estado de espírito de seu tempo dos fatos que perturbam o humor humano. Para ele, nenhuma teoria que proponha uma espécie de otimismo alienado pode interessar ao ser humano. A resposta, diz Ferry, está na lucidez.

Por que a busca por serenidade vale mais que a busca pela felicidade?
Luc Ferry A busca da felicidade e da serenidade andam juntas, e eu não consigo ver como distingui-las no discurso da moda depois que os psicólogos americanos inventaram a psicologia positiva e as teorias de desenvolvimento pessoal. Não se fala de outra coisa na imprensa pop e os livros a respeito estão na lista dos mais vendidos.

Os mercadores da felicidade apoiam-se em três temas: a ‘autoajuda’, também chamada de ‘autogestão emocional’ ou ‘autoecologia’, a busca da autenticidade e a busca pela autorrealização. Tudo é embalado num discurso pseudo-científico que pretende não apenas mensurar, mas também criar a felicidade.

Para aumentar seu público, a psicologia positiva teve a habilidade de se dirigir não somente àqueles que sofrem de problemas psíquicos, como faziam a psicanálise e a psiquiatria tradicionais, mas a todo mundo, doentes ou não. Daí as receitas pré-embaladas que ela oferece, sob a forma de exercícios práticos, nos quais a banalidade, para não dizer a bobagem, não parece desencorajar os adeptos: refletir profundamente sobre seus desejos, identificar suas forças e fraquezas, realizar três boas ações por dia e anotá-las num caderninho, aprender a saborear o momento presente (mesmo sob um bombardeio na Síria?), buscar mais o prazer que a excelência (tenho certeza de que é mais fácil), abafar os pensamentos negativos, fazer da pessoa uma ‘marca’ (personal branding) e, para tudo isso, aparecer sempre ‘top’, sorrindo, bronzeado, em forma e, aconteça o que acontecer, de bom humor.

Para embrulhar tudo isso, os comerciantes do bem-estar universal agregam uma pitada de budismo e de taoísmo aqui e acolá, um pedaço de estoicismo, duas colheres de sopa de espinozismo e pronto: o primeiro coach autoproclamado se transforma num guru digno de um monge tibetano.

Diante de todas essas guloseimas, é preciso lembrar que a infelicidade não é uma doença nem tampouco uma falha moral. Não precisa ser um grande catedrático para compreender que a infelicidade faz parte de nossas vidas. É fácil definir a infelicidade. Por outro lado, a felicidade é indefinível de maneira precisa e durável.

A verdade é que os momentos de alegria e de serenidade que nós conhecemos às vezes são frágeis e efêmeros pois, ao contrário do que dizem os mercadores da felicidade, são momentos que dependem infinitamente mais dos outros e da sorte do que de uma fascinação narcisista com nosso próprio umbigo. A verdadeira sabedoria consiste em entender que o otimismo e o pessimismo são categorias da estupidez humana. A salvação só pode vir da lucidez.

Qual o risco de confundir serenidade com conformismo? O sr. defende um caminho pessoal e filosófico para a serenidade, mas o que dizer dos aspectos sociais como o trabalho, a pobreza, a desigualdade?
Luc Ferry Estar perturbado ou mesmo chocado por qualquer coisa, por uma injustiça, um crime, uma guerra ou as desigualdades, não é uma doença. Ao contrário, é um sinal de nossa humanidade. As filosofias como o estoicismo, o espinozismo ou o budismo, às quais a psicologia positiva faz referência sem cessar, nos convidam a não estarmos mais perturbados por nada, a estarmos zen e serenos em todas as circunstâncias. Elas são, em seus próprios termos, inumanas, inacessíveis por natureza aos humanos reais. A sabedoria que elas nos propõem não nos parece possível nem desejável.

O atual governo brasileiro critica o ensino de humanidades em escolas e universidades, dizendo que são disciplinas menos úteis que os estudos de caráter prático e técnico. Como isso soa ao sr.?
Luc Ferry A inteligência artificial se desenvolve numa velocidade enorme, e ela tornará certas áreas obsoletas. Os carros autônomos já existem. Eles circulam sem problema em alguns estados americanos e eu mesmo tive a chance de experimentar um deles em Paris, ao percorrer 5 quilômetros sem nenhum problema, sem que eu tivesse de tocar o volante uma só vez. Isso quer dizer que, dentro de 20 ou 30 anos, não existirão mais motoristas de táxi, de caminhões e de ônibus nas estradas. Este é apenas um exemplo entre milhares de outros que mostram como a inteligência artificial vai mudar o mundo do trabalho.

Nesse contexto, é preciso formar nossas crianças para funções que não desaparecerão, quer dizer, para as funções que as máquinas não saberão exercer. Claramente, o radiologista desaparecerá antes do clínico geral e o clínico geral desaparecerá antes do enfermeiro. Portanto, tudo o que diz respeito às humanidades, às relações humanas, se tornará vital para nossas crianças, pois é lá que as máquinas não saberão substituir os postos de trabalho e nós teremos necessidade dos humanos.

Os profissionais que usam a cabeça, o coração e a mão serão insubstituíveis: jardineiros, cozinheiros, enfermeiros, serão profissões do futuro, assim como professores, artistas, psicólogos. É preciso tornar nossas crianças complementares à inteligência artificial para evitar que elas sejam vítimas da inteligência artificial. No mundo que está por vir os humanos serão mais necessários do que nunca.

Como o sr. interpreta o crescimento da extrema direita no mundo? Quais são as causas desse movimento e de onde ele vem?
Luc Ferry A globalização liberal suscita temores em todo o mundo, e o retorno do nacionalismo é a consequência imediata disso, por uma razão evidente: o mercado é mundial, mas as políticas continuam sendo locais, nacionais, de tal maneira que elas dizem muito pouco respeito ao real.

Cada um sente mais ou menos, sem no entanto confessar, uma verdade que começa a se tornar assustadora demais para ser encarada de frente: o poder real dos políticos sobre o destino do mundo diminui de maneira cada vez mais perceptível. É claro que ainda restam margens de manobra possíveis, o que nos permite explicar a diferença entre um país que se adapta pouco, mal e sempre com sofrimento, como a França, e os que fazem esse trabalho com mais rigor, geralmente por que existe um consenso historicamente mais fácil, como a Alemanha.

As instâncias de competição da economia moderna e, com ela, de todo o movimento da história do mundo, são potencialmente infinitas. Nenhum de nós, por mais clarividente ou poderoso que seja, tem controle disso sozinho. Não havendo um governo mundial, do qual o G20 não é mais que um embrião, torna-se utópico esperar que nós possamos controlar facilmente o que quer que seja nesse processo, ou mesmo prever e prevenir eventos maiores, como crises e guerras.

O mundo escapa estruturalmente à nossa inteligência e ao nosso controle em todas as partes. A razão dessa impotência patente não está, ou pelo menos não está somente – como a maior parte dos observadores acredita – na imprudência, estupidez, falta de coragem ou desonestidade de nossos governantes. Está obviamente no fato de que as alavancas de comando, uma vez que são mundializadas, escapam cada vez mais do Estado-nação, de tal maneira que, no coração da globalização, já não contam muito.

É diante disso que a extrema direita propõe aos povos a volta ao nacionalismo, como nós vemos acontecer um pouco no mundo todo, e o faz com apoio de uma boa parte da extrema esquerda. É uma isca, é uma ilusão total, mas pelo menos entendemos como isso funciona.
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Link para matéria: https://www.nexojornal.com.br/entrevista/2019/07/31/Como-n%C3%A3o-buscar-a-felicidade-segundo-Luc-Ferry?utm_campaign=anexo&utm_source=anexo

Origem, causas e consequências da polarização política

André Bello*

 Jair Bolsonaro nas eleições de 2018: atual presidente beneficiou-se 
da polarização política e do fim do 'eleitor médio'Sérgio Lima/Poder360

‘Eleitor mediano’ deixou a cena em 2018
Antipetismo tornou-se fator definidor
Centro-direita precisa se reagrupar

O resultado da eleição presidencial de 2018 colocou em xeque o teorema do eleitor mediano, formulado pelo economista Antonhy Downs, em 1957, e amplamente usado na ciência política para definir o comportamento político das pessoas. Considerando a hipótese de que o eleitorado está distribuído em uma escala normal da esquerda à direita, o teorema diz que o candidato ganha a eleição se conquistar o eleitor mediano. O candidato da esquerda e o da direita já recebem, respectivamente, os votos dos eleitores posicionados mais à esquerda e mais à direita em face da proximidade das preferências. Portanto, a disputa está em conquistar os eleitores localizados mais ao centro da escala, de modo que os candidatos caminham nessa direção sutilmente em busca dos votos.
Essa teoria encontrou solo fértil no Brasil, pois houve por aqui uma tendência à centralidade política entre 1994 e 2014. Durante o predomínio do eleitor mediano no Brasil, consolidou a crença de que o comportamento político dos brasileiros baseia-se em duas ideias: inclusão social e responsabilidade fiscal. O PSDB e o PT buscaram, no exercício do poder e na construção da imagem dos candidatos, responder a esse tipo de eleitor mediano, cujo comportamento não é fortemente vinculado à ideologia e à identificação partidária. A avaliação da economia e a sensação de mobilidade social pesavam mais para a decisão do voto. No entanto, a eleição de 2014 rompeu com esse paradigma, criando, pela primeira vez, uma polarização política que extrapolou a esfera política e ganhou as ruas.

O antipetismo cresceu fortemente de 2014 a 2018, inclusive ultrapassou o petismo e tornou-se o sentimento indutor das atitudes dos eleitores. Pesquisas recentes mostram que o antipetismo é um importante definidor do voto para o político que faz oposição ao PT. Por este motivo, assume-se que o presidente Bolsonaro foi favorecido pelo crescimento da rejeição ao PT. Por sua vez, a evolução do petismo é constituída por um forte crescimento até a eleição de 2002, estabilidade durante os mandatos de Lula e uma queda a partir de 2013 que se acentuou nos anos seguintes. Esse tipo de evolução do petismo e antipetismo criou uma divisão política no país, forçando com que os eleitores se posicionassem em um dos lados e os eleitores medianos submergissem. A confirmação da polarização política acontece quando a população caminha na direção das extremidades e o centro desaparece, logo a origem da polarização política no Brasil está encastelada na separação entre petismo e antipetismo.

Petismo e antipetismo de 1997 a 2018

A polarização política é a antítese do pensamento brasileiro, marcado pela ideia do homem cordial e de um país avesso às guerras. Um abalo sísmico ocorreu para quebrantar a estrutura da afabilidade e cordialidade entra as pessoas e produzir os conflitos políticos, a rejeição ao PT, o fortalecimento da extrema direita e, por fim, a polarização política. As pesquisas empíricas que fiz sobre o tema mostram que a Lava Jato e o Bolsa Família foram determinantes para a polarização política por serem fatores que aumentaram o antipetismo ao longo do tempo. Os sentimentos relativos ao futuro da economia do ponto de vista pessoal e do país, bem como a inflação e o PIB, produziram também polarização política. Particularmente, o medo pessoal com o futuro da economia gerou um forte antipetismo, enquanto a avaliação retrospectiva acerca da situação econômica do país provocou uma identificação com o petismo. Assumindo a divisão entre petismo e antipetismo como a origem da polarização política, descobre-se, em um passo adiante, portanto, que a Lava Jato, o Bolsa Família e outros indicadores da economia são as causas da polarização.

A crise pela qual o país atravessa atualmente é fruto da polarização política, cujas consequências são danosas ao funcionamento da democracia. Alguns efeitos da polarização sobre a democracia consistem no impasse legislativo, na baixa produtividade do Congresso e na paralisia do governo que não consegue aprovar reformas e leis. Outro aspecto da consequência da polaridade está na quebra da confiança nas instituições e normas democráticas e na falta de urbanidade e civilidade. A principal desvantagem da polarização centra-se na elaboração e implementação de políticas públicas com fortes implicações sobre a representação política.

Em uma sociedade polarizada, o presidente em exercício com a ajuda do Congresso pode aprovar medidas ou políticas públicas que favoreçam somente os eleitores identificados com o governo, colocando a outra parte da sociedade em risco por não ter proteção social e do Estado. A erosão da representação política, como consequência da polarização, é um movimento que, ao longo prazo e gradualmente, pode matar a democracia. Grupos minoritários podem ter direitos negados, não reconhecerem mais os caminhos da representação como uma via democrática e, em última análise, sofrerem perseguições políticas.

É preciso sair da armadilha na qual alguns juristas, políticos e eleitores contra-iluministas colocaram o país. O eleitor mediano, esteio da estabilidade e racionalidade, precisa retomar o seu lugar, ou seja, ele precisa emergir sobre os conflitos políticos existentes. Desse modo, penso ser necessário uma unidade da esquerda com o movimento ao centro com a suavização da radicalização interna. Ao mesmo tempo, a esquerda precisa apresentar um candidato moderado com capacidade de recolocar o tema da desigualdade social na agenda central do país sem desconsiderar os problemas que ganharam a atenção da população nos últimos anos, como a falta de segurança. A esquerda nunca conseguiu debater de forma convincente o tema da segurança e perdeu espaço para a onda mais conservadora na última eleição, o que sustentou ideias mais extremadas.

A direita brasileira precisa deixar de namorar –para usar um vocabulário do presidente– com o precipício da extrema direita e se reagrupar como um movimento de centro-direita por meio de propostas que já foram capazes de garantir duas eleições presidenciais ao PSDB. O eleitorado brasileiro é moderado e as pesquisas sobre a opinião pública confirmam esse comportamento. Esse eleitor típico espera uma formulação de agenda política que envolva ações concretas no combate à pobreza, ao desemprego e ao crescimento econômico. Esses temas unem a sociedade e são fundamentais para o país voltar a crescer.
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*  André Bello, 34 anos, é doutorando em Ciência Política pela Universidade de Brasília (UNB) por onde finalizou o seu mestrado. Foi pesquisador visitante na University of Texas at Austin e University of Pittsburgh. É pesquisador do Laboratório de Pesquisa em Comportamento Político, Instituições e Políticas Públicas (LAPCIPP/UNB).
Fonte:  https://www.poder360.com.br/opiniao/governo/origem-causas-e-consequencias-da-polarizacao-politica-explica-andre-bello/

Vincent Petitet, os combates de um jovem escritor

Juremir Machado da Silva*

A luta para ser reconhecido
Jovem autor francês, com dois romances publicados, Vicent Petitet desponta como uma renovação depois do furacão Michel Houllebecq. O seu livro “Os mortos não estão mais sós”, ainda não publicado no Brasil, une crítica do mundo empresarial e busca por outra maneira de viver. Nesta entrevista, numa tarde calorenta, na praça da Sorbonne, em Paris, ele fala sinceramente dos seus sonhos, planos e obstáculos.
Caderno de Sábado – Quais são as dificuldades para alguém se tornar escritor na França?
Vicent Petit – Em primeiro lugar, é preciso ser um pouco idealista. Perdidas as ilusões de que será possível viver de literatura e pela literatura, dá para começar a escrever de fato, sabendo-se que não se venderá grande coisa. Enfim, é fundamental ser, ao mesmo tempo, idealista e pragmático. O mundo literário francês tem dois polos: no primeiro, escritores sonham em viver para escrever e de escrever. No segundo, editores planejam vender livros. O ideal, claro, é unir os dois. Mas, na França, é importante destacar que se lê cada vez menos. Sem fé na literatura, não há como escrever. Essa é a situação.

CS – O que funciona melhor: buscar uma nova forma de narrar ou abordar assuntos sensíveis que digam respeito à vida dos leitores?
Petitet – Com certeza não é pelas novas formas que se vai conquistar o público francês. Isso remete ao Novo Romance. O leitor atual não está disposto a fazer muito esforço. Em contrapartida, funciona bem tratar de assuntos ligados ao bem-estar, ao desenvolvimento pessoal, ao autoconhecimento ou, por outro lado, às histórias policiais. Os franceses gostam de histórias folhetinescas com alguma violência, com um pouco de sangue. A literatura possibilita lidar com uma violência aceitável. Outra coisa que tem funcionado bem nos últimos 15 anos são os livros de celebridades da televisão que contam sobre suas vidas.

CS – Vendem bastante ou conquistam sucesso de crítico, prestígio?
Petetit – Esses escritores não ganham prêmios, mas não deixam de corresponder a certo idealismo literário. Mesmo se escrevem livros ruins, fazem isso por desejo de expressão e de reconhecimento. Há, por exemplo, as celebridades dos reality shows, homens e mulheres que vemos em roupa de banho à beira de piscinas durante três ou quatro meses. Quando contam suas histórias, fazem sucesso. Os depoimentos sobre temas sensíveis, como a homossexualidade de um autor, funcionam muito bem. O fundamental é contar alguma coisa pessoal e verdadeira que tenha a ver com a evolução dos costumes na França. Uma família gay que adotou uma criança, uma história de superação, algo que se viveu com dificuldade e que se conseguiu vencer como o preconceito. Durante muito tempo, os escritores franceses exploravam situações de tormento, suicídios. Hoje, o público espera finais felizes, algo maravilhoso.

CS – Para ser escritor na França, portanto, é preciso ter outro trabalho que garanta a subsistência, que pague as contas?
Petitet – Sim. Existem os radicais da literatura, que só pensam em escrever. Moram em apartamentos de 10 metros quadrados, comem uma vez por dia e apostam no futuro. Por outro lado, há os como eu, pragmáticos, que procuram um trabalho que dê algum dinheiro e deixe o máximo de tempo livre e de autonomia para escrever o que se quer.

CS – Como explicar o sucesso de Michel Houellebecq?
Petitet – Ele é, antes de tudo, um entomologista. Observa a realidade da sociedade francesa como quem estuda os insetos. Ele vê cada exemplar voar, reproduzir-se, crescer, desaparecer. Esse olhar cínico, de um escritor situado mais à direita, impressiona e agrada. Ele tem o dom da provocação. Joga na cara das pessoas os excessos do politicamente correto. É a conjunção do entomologista com o cínico de direita. Provoca um choque, um incômodo, uma surpresa e um efeito.

CS – Os temas políticos interessam?
Petitet – As pessoas têm grande interesse por debates políticos, mas compram poucos livros de político, salvo de considerarmos as obras de Éric Zemmour como políticas, pois esse, sim, consegue vender muito.

CS – A França passou a ser reacionária?
Petit – Não. A França deu-se conta de que o mundo está mudando, mas não quer que a mudança seja muito rápida. Temem que o modo de vida ao qual estão habituados mude abruptamente. Preferem avançar suavemente.

CS – As ideias de Zemmour são francamente reacionárias?
Petitet – Elas são conservadoras. Um tema forte na França é do casamento gay. Não se pode negar o avanço. Há pessoas com argumentos válidos sobre isso. Eu tenho militado pelo casamento gay. Na minha experiência, há muito insulto e pouca argumentação racional. Para mim, o escritor deve lutar pela liberdade e perceber as mudanças sociais.

CS – A imigração, como tema sensível, encontra escritores e leitores?
Petitet – Há interesse quando se trata, por exemplo, de uma família que recebeu um imigrante e transformou-se com essa experiência. Ensaios sobre esse assunto provocam muita polêmica. Nesse terreno, não há discurso pacificador. Tudo é virulento. Por toda parte é a mesma coisa, seja na Itália, na Holanda, na Bélgica, é sempre explosivo.

CS – Quais são os seus assuntos preferidos como escritor?
Petitet – Gosto de assuntos relacionados ao sagrado, aos sacrifícios, aos rituais. Tenho interesse por aspectos festivos, dionisíacos. Trabalho muito com a relação entre o mundo visível e o invisível.

CS – Ainda há espaço para a narrativa escrita neste mundo da imagem?
Petitet – A literatura escrita é expressão de algo vital. A tecnologia é mortífera. Tornas as relações entre as pessoas áridas. A ficção, assim como a poesia, já dizia Heidegger, torna o mundo mais vivo.

CS – No seu livro “Os mortos não estão mais sós”, o senhor parte de um personagem bem-sucedido no trabalho que é repentinamente demitido.
Petitet – As mudanças brutais me interessam muito. Eu vivi isso, uma experiência de forte violência no trabalho, de assédio moral. De repente, não se é nada mais, como no universo de Kafka, um inseto. A verdadeira vida não está na empresa. É importante saber disso.

CS – Qual o seu sonho como escritor?
Petetit – Ficar muito famoso e rico e fazer suntuosas festas com os amigos, beber champanha em piscinas e morar no Brasil.
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*Colunista do Correio do Povo. Historiador. Jornalista. Escritor. Prof. Universitário PUCRS. 
Fonte:  https://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/vincent-petitet-os-combates-de-um-jovem-escritor-1.355246