sexta-feira, 6 de maio de 2022

Fernando Abrucio: A herança bolsonarista é profunda

 Por Fernando Luiz Abrucio*

 — Foto: Daniel Caballero 

 — Foto: Daniel Caballero

Em algum momento a população cobrará resultados e não adiantará mais falar em nome de Deus, da Pátria e da Liberdade ou chamar os adversários de comunistas

 

Assumir a cadeira presidencial em 2023 será bem mais difícil do que em qualquer outro período da história recente. Claro que sempre é complicado governar o Brasil, um país complexo, desigual, com um sistema político que exige muitas negociações e com parte dos parlamentares interessados mais em negociatas do que no interesse público. Isso faz parte do jogo. Mas o bolsonarismo deixou uma herança que amplia os obstáculos à governabilidade em dois sentidos: ele não resolveu ou aprofundou os problemas do país e, pior, criou travas para a resolução das grandes questões nacionais.

O primeiro sentido da herança negativa do bolsonarismo está expresso no conjunto de problemas que ele deixou ou agravou em quatro grandes áreas de políticas públicas. A primeira refere-se às políticas sociais, cujas estruturas construídas em décadas foram desmontadas. Pegue-se o exemplo da saúde e da educação e se constata que o desastre foi enorme, com consequências de curto e longo prazo.

O fracasso na saúde ficou bem claro com a má condução da política nacional contra a pandemia de covid-19. Se não fosse o SUS, com seus profissionais qualificados e sua estrutura que ajudou a construir os serviços nos estados e municípios, talvez tivéssemos um número mais próximo de 1 milhão de mortes. Mas se não tivesse havido o negacionismo e a descoordenação federativa produzida por quem deveria zelar para cooperação entre os níveis de governo, a quantidade de óbitos teria sido bem menor. Especialistas calculam que em torno de 400 mil mortes poderiam ter sido evitadas, para não falar daqueles que estão até hoje sofrendo sequelas terríveis da doença.

Os problemas da política sanitária bolsonarista não estão apenas no combate à covid-19. A cobertura vacinal do país está caindo vertiginosamente e a dengue explodiu neste ano, o que revela que o país não tem estratégias para combater doenças que atingem muita gente. Igualmente desastrosa é a gestão dos insumos de saúde, com a falta de vários medicamentos básicos no SUS, como não acontecia desde o início da década de 1990. E os programas para grupos mais vulneráveis, como a população indígena, tiveram um retrocesso gigantesco.

O fato é que o país está menos preparado agora para epidemias ou pandemias que podem nos assolar nos próximos anos, algo que, infelizmente, tem condições críveis de ocorrer. O esgarçamento do SUS vai aumentar a mortalidade e piorar a saúde dos mais pobres, com fortes efeitos sociais, além de afetar o capital humano disponível, com consequências ruins para a produtividade da economia.

Na educação, a situação é ainda pior. O bolsonarismo lavou as mãos para a crise educacional gerada por quase dois anos de escolas fechadas, com cerca de 5 milhões de alunos não tendo acesso ao ensino remoto. O governo federal teria de ter ajudado governos estaduais e municipais num país com grande desigualdade territorial, do mesmo modo que desde o governo FHC a União tem atuado para reduzir tais disparidades. As grandes questões educacionais foram deixadas de lado para que discussões sem nenhum impacto no aprendizado dos estudantes ganhassem centralidade. Junto com o abandono da educação básica houve a redução drástica do apoio à ciência e à tecnologia, o que nos condena ao subdesenvolvimento.

Para fechar esse ciclo de maldades, o MEC se tornou um antro de corrupção por meio do uso de emendas do Orçamento Secreto. Cabe frisar que o desastre bolsonarista na educação tem mais efeitos de longo prazo do que qualquer erro de política econômica. Perder quatro anos de política educacional significa reduzir a capacidade de desenvolvimento econômico e social do país, com menos oportunidades, ascensão social e produção de capital humano. Imagine oito anos num cenário como esse, qual seria o resultado?

A segunda herança perversa do bolsonarismo reside no fracasso das políticas ambientais. O meio ambiente é um ativo do país para o seu futuro econômico, para sua posição geopolítica e para garantir a diversidade natural que faz parte da civilização brasileira. O que temos tido nos últimos anos é o desmonte dos órgãos ambientais federais, o aumento do desmatamento, o crescimento do garimpo ilegal na Amazônia e a ameaça constante à preservação de todos os ecossistemas. O país estava virando uma referência internacional e já se tornou um mau exemplo.

Toda a população brasileira irá sofrer com isso: os mais pobres e os ruralistas, com a mudança climática que afetará a produção de alimentos; os trabalhadores e os bancos, pois o Brasil está perdendo muitos investimentos e financiamentos por não ter um selo verde no momento; os povos indígenas e os que moram no Sudeste, porque o que se perde de floresta pode significar menos água para os que vivem nos grandes centros.

A política externa é a terceira herança nefasta produzida pelo governo Bolsonaro. Em poucas palavras, o Brasil se isolou completamente dos principais circuitos geopolíticos e é visto como um pária pelos países mais importantes do mundo ou de nossa região. Já não é mais chamado para as reuniões do G7 - para a próxima, o Senegal foi convidado e nós, não.

O isolacionismo tem vários efeitos negativos, como deixar de participar de decisões globais de grande relevância, receber menos investimentos ou mesmo ter a possibilidade de sofrer sanções explícitas ou implícitas dos governos ou de suas sociedades, reduzir os intercâmbios científicos, em suma, ser desimportante e malvisto lá fora cobra um preço interno de menor desenvolvimento no presente e no futuro.

O desenvolvimento econômico e social fecha o ciclo de problemas estruturais que foram ampliados durante o bolsonarismo. No curto prazo, a inflação só aumenta e está fora do controle, e só voltará a níveis razoáveis em 2024 (se tudo der certo). Para reduzir esse problema, os juros foram aumentados, o que vai implicar um custo fiscal alto para o quadriênio que vem, num Orçamento já apertado, que não consegue garantir recursos adequados nem para investimento nem para evitar o sucateamento da máquina pública federal.

Completa esse quadro um alto desemprego, que não cairá para menos de 10% nos próximos dois anos, e uma queda da renda real da população, com maior impacto entre os mais pobres, cada vez mais pauperizados e sem acesso a bens básicos, além de terem perdido a esperança de ascensão iniciada com o Plano Real - na verdade, é pior do que isso: a fome voltou a ser um fenômeno amplo no Brasil.

Essas dificuldades de curto prazo alimentam-se da ausência de um projeto econômico e social de longo prazo. O governo Bolsonaro não tem um plano estratégico para o país, movendo-se mais pelos humores populistas do presidente frente às intempéries políticas. Num dia, propõe-se a privatização da Eletrobras - num modelo que vai aumentar o custo da energia no país -, enquanto noutro se intervém na direção da Petrobras. Numa semana o assunto é a liberdade econômica, na seguinte é a criação de um auxílio aos caminhoneiros - embora o que se mantém mesmo no Brasil são os subsídios às empresas, método já assimilado por Paulo Guedes. E o tema das várias desigualdades brasileiras? Este só aparece como estratégia populista e assistencialista. Com mais quatro anos de bolsonarismo, seremos mais pobres, mais desiguais e menos ricos.

É possível pensar que uma mudança de governo poderia alterar essa situação. Os mais esperançosos poderiam, ademais, acreditar que um segundo governo Bolsonaro seria capaz de evitar parte dos problemas criados por ele mesmo - o tom da campanha vai mostrar que é preciso ser muito Poliana para embarcar nessa tese. De todo modo, qualquer uma dessas hipóteses enfrenta um obstáculo maior. Existe uma segunda herança do bolsonarismo que não advém dos seus erros e fracassos nas políticas públicas. O pior legado bolsonarista é ter criado uma lógica política que dificulta bastante a saída da crise atual.

Paul Pierson, um grande cientista político americano, definiu um conceito que cabe bem a essa segunda herança do bolsonarismo, a mais profunda de todas. Trata-se do termo “path dependence”, cujo significado é que algumas trajetórias ganham uma força institucional e/ou social difícil de ser revertida. Bolsonaro estabeleceu uma lógica política que será um obstáculo à mudança quem quer que seja o novo presidente.

Entre seus elementos estão a (re)politização das Forças Armadas, o fortalecimento de uma oligarquia parlamentar pela constitucionalização do jogo individualista (quando não secreto) das emendas orçamentárias, a produção de uma visão autoritária contra as instituições em pelo menos 20% da população, o fortalecimento de grupos religiosos que atuam contra a secularização do Estado e o incentivo ao armamentismo da sociedade, facilitando inclusive à formação de milícias políticas e de bandidagem.

 

Esse “path dependence” retrógrado e autoritário criado por Bolsonaro será uma barreira às grandes transformações pelas quais o Brasil precisa passar para dar certo no século XXI. A saída dessa armadilha política será o maior problema do próximo presidente, talvez até para Bolsonaro, porque em algum momento a população cobrará resultados de políticas públicas, e não adiantará mais falar em nome de Deus, da Pátria e da Liberdade ou chamar os adversários de comunistas.

*Fernando Abrucio, doutor em ciência política pela USP e professor da Fundação Getulio Vargas, escreve neste espaço quinzenalmente - E-mail: fabrucio@gmail.com

Fonte: https://valor.globo.com/eu-e/coluna/fernando-abrucio-a-heranca-bolsonarista-e-profunda.ghtml - 06/05/2022

 

NA BIBLIOTECA APOSTÓLICA O CARDEAL JOSÉ TOLENTINO DE MENDONÇA CONVERSA COM O TREINADOR DA ROMA JOSÉ MOURINHO

A entrevista na Biblioteca Apostólica do Vaticano

As relações humanas
são a vitória mais importante

 

No passado dia 29 de março, no Vestíbulo da Biblioteca do Vaticano, ocorreu um diálogo entre o cardeal José Tolentino de Mendonça, arquivista e bibliotecário da Santa Igreja Romana, e o treinador de futebol da AS Roma, José Mourinho. Promovido pelo nosso jornal, o encontro sem precedentes entre as duas personalidades portuguesas abordou vários temas, como o valor da educação e do desporto, a importância decisiva das relações humanas em todos os contextos da vida. Falaram também da situação dramática devido à guerra na Ucrânia. A favorecer a conversa, que teve lugar na sua língua materna, foi a ligação que ambos têm com o filósofo português Manuel Sérgio, hoje com quase 90 anos.

CARDEAL TOLENTINO – Queria começar esta conversa consigo, José Mourinho. Para mim é uma felicidade muito grande este encontro aqui consigo na biblioteca. Lembrando, curiosamente, um mestre comum, porque nós temos um mestre comum. E Portugal é de facto, um país curioso, porque um dos nossos pensadores mais originais é um pensador do campo do desporto, da motricidade humana e escreve regularmente não numa revista filosófica, mas num jornal desportivo, A Bola. E queria consigo recordar o professor Manuel Sergio. Sei que é também uma figura muito importante no seu percurso. É sua a nova ideia, o esforço de criar uma nova epistemologia para a motricidade humana. E ele diz que é necessário abandonar o cartesianismo, que divide o homem entre razão e coração, interioridade e alma, e passar o olhar o ser humano de uma forma mais complexa. Ora uma das suas ideias – um dos conceitos que trabalha tão bem – é, de facto, o de priorização antropológica e técnica em que que, digamos, o desporto, o futebol, não é só técnica. Ele diz, não há chutos, há pessoas que chutam, não há saltos, há pessoas que saltam, não há golos, há pessoas que foleiam.

JOSÉ MOURINHO – Não só jogadores.

CARDEAL TOLENTINO  - Exatamente.

JOSÉ MOURINHO – Há homens que jogam.

CARDEAL TOLENTINO – Há homens que jogam. Quer falar sobre isso e sobre a importância que tal teve no seu percurso?

JOSÉ MOURINHO -  Iniciou quase como uma luta porque eu entrei na universidade de educação física e desporto, completamente ciente daquilo que quero para mim: treino e alto rendimento, com toda a ânsia de aprender aquilo que me interessava. A primeira disciplina que tive no primeiro dia de universidade foi filosofia das atividades corporais, era o nome da disciplina, com o professor Manuel Sérgio. E eu saio da primeira aula e digo, “Para que serve esta disciplina?”. E ele percebeu, em pouco tempo que eu precisava de ser ajudado, precisiva de ser orientado. E efetivamente disse-me e direta: “Quem só percebe futebol, do futebol não percebe nada”. E a partir dali, começamos a desenvolver uma relação que não terminou. É uma relação que ainda continua...

CARDEAL TOLENTINO – Uma amizade...

JOSÉ MOURINHO – E não só uma amizade, um processo permanente de aprendizagem. E um dos maiores desafios que nós enquanto treinadores, condutores de homens, chamemos como queiramos, temos hoje em dia é exatamente como liderar e retirar dele o melhor. O objetivo é o alto rendimento desportivo, mas como retirar o melhor daqueles atletas. Não são atletas, são homens para o Manuel Sergio. E influenciou-me muito, influenciou muito no sentido de que cada pessoa é uma pessoa diferente. Neste caso, cada jogador é um jogador diferente. E cada um deles tem a sua expressão no campo, uma sua expressão ao nível da alta performance. Por consequência, tudo depende, fundamentalmente, de uma empatia que se cria entre dois homens: neste caso, entre um homem mais velho e os jogadores. Este tipo de empatia para mim é fundamental. Eu dou sempre como exemplo quando saí da universidade, ainda antes de entrar n futebol de alto rendimento, eu era professor. E houve um ano em que fui colocado a trabalhar com criança com problemas motores, com problemas psicoemocionais. E eu não estava preparado. Sob o ponto de vista técnico, não estava preparado. Nós na universidade tínhamos diferentes áreas, e a minha área era do alto rendimento. Eu não estava preparado para o que encontrei. Consegui trabalhar bem só com base numa cosa muito simples: amor, empatia, relações humanas e consegui... consegui coisas inimagináveis para mim, que me considerava muito incapaz sob o ponto de vista técnico para trabalhar com aquelas crianças. Conseguimos coisas fantásticas só com base nas relações humanas e eu transferi isto par o meu  trabalho dos últimos vinte anos, que obviamente é trabalhar no mais alto nível no desporto. Tive sempre isso como um princípio muito básico.  Não digo sempre bem-sucedido. Às vezes não fui capaz.

CARDEAL TOLENTINO -  É muito interessante o que diz, José Mourinho, sobre o fracasso. Retomo essa expressão que utilizou, “Nem sempre consegui”. De facto, o conhecimento humano, o conhecimento que temos uns dos outros, é um conhecimento que amadurece também na medida em que nos expomos. E nos expomos não a partir das certezas absolutas, mas no colocamos em jogo e muitas vezes o fracasso, o não-conseguimento, é, digamos, uma etapa fundamental para podermos crescer no conhecimento dos outros. De certa forma, os nossos próprios fracassos e desilusões, a consciência da imperfeição nos ajuda a criar essa tal empatia com os outros porque nos colocamos no seu lugar e vemos as coisas com outra profundidade. Assim podemos gerir bem o conhecimento do humano.

JOSÉ MOURINHO -  As experiências boas e as experiencias  menos boas não têm preço. Eu às vezes dou comigo a pensar que a única coisa da qual eu não gosto muito no avançar dos anos, é que há uma dorzinha aqui, uma dorzinha ali ou acordo  um bocadinho mais cansado. É a única coisa que verdadeiramente não gosto dos meus cinquenta e nove anos. Mas se me comparo como pessoa, como trinador, que são duas coisas diferentes, a pena que tenho é a de não ter há vinte anos atrás a experiência que tenho hoje.

Os portugueses na Biblioteca ApostólicaOs portugueses na Biblioteca Apostólica

CARDEAL TOLENTINO – Para um treinador é muito importante esse conhecimento humano...

JOSÉ MOURINHO - Totalmente. Ao nível técnico propriamente dito, entramos praticamente numa situação quase de dejà vu. Aquilo que me aconteceu hoje, já me aconteceu há anos. A dificuldade técnica de hoje já eu a tive há anos. Uma acumulação de experiências e experiência. Mas ao nível humano, cada dia é um novo dia e cada pessoa é uma pessoa nova. Eu recuso-me sempre a comparar jogadores. Já tive tantos ao longo desse vinte anos e  cada um é único, ao nível técnico, porque ao nível técnico, podemos encontrar pontos de comparação. Mas pontos de comparação entre pessoas, eu odeio fazê-los. Cada pessoa é uma pessoa. É uma pessoa diferente. E o meu posicionamento perante eles também é diferente porque uma coisa era eu com trinta e cinco anos, ser treinador de jogadores de  trinta anos. E outra coisa é com cinquenta e nove ser trinador de jogadores de vinte e cinco. Sinto-me numa posição tão privilegiada e sinto-me tão feliz nessa perspectiva, que verdadeiramente quando um é mais jovem, está no início de uma carreira, não percebe tão bem... Acho que no início nós somos os sabe-tudo. Ou pensamos que sabemos tudo. E  quando hoje vejo gerações mais jovens com esse tipo de pensamento, não sou crítico. Eu passei por lá, mas a maturidade é uma coisa fantástica.  Enquanto que o desporto de alto rendimento tem momentos de crueldade.

CARDEAL TOLENTINO – Por exemplo...?

JOSÉ MOURINHO -  Somos pagos para jogar. Os atletas... não os homens, os atletas, são pagos para ganhar.  Estamos a falar de alto, alto rendimento, e às vezes há decisões na gestão de uma equipe, às vezes há uma decisão que têm o seu quê de crueldade, às vezes não há tempo par deixar maturar, não há tempo para deixar crescer.

CARDEAL TOLENTINO – A ditadura dos prazos.

JOSÉ MOURINHO – O erro, o erro pagam-se. O meu erro paga-o. Eu sou despedido, o erro do jogador paga-se. “Não jogas tu, joga o outro.”  Há o seu quê de crueldade, mas não podemos deixar que a natureza da nossa profissão se sobreponha àquilo que somos enquanto pessoas. E eu tenho isso muito em conta. É uma coisa em que procuro ajudar e me procuro ajudar a mim próprio a ser melhor. Mas há algo difícil para mim de aceitar, que é o desperdiçar do talento. É uma coisa que ainda hoje, depois de trinta anos de futebol, é difícil para mim, o desperdiçar do talento. Mas às vezes o desperdiçar do talento tem a ver com o percurso de vida que alguns jogadores tiveram. E aí, temos que tentar ser pedagogos até o limite. Mas é como eu lhe digo, o desporto de alta competição, principalmente o futebol, que é o mais industrializado em todos os níveis, tem o seu quê de crueldade.

CARDEAL TOLENTINO – Mas isso é importante: não desistir de ajudar cada um a nascer, a descobrir, a maturar, a desenvolver o seu talento. É interessante porque uma das parábolas de Jesus é precisamente em torno aos talentos e essa necessidade de cada um não enterrar o seu talento, mas maturar no fundo da sua vocação. Porque cada ser humano nasceu com um conjunto de aptidões e competências e pode transformar a sua vida.

JOSÉ MOURINHO – Uma das coisas em que percebo da minha evolução enquanto pessoa é que durante muitos anos, eu ganhava para mim. Eu queria ganhar para mim. E, estou num momento em que continuo a querer ganhar ou mais, mas não para mim. Eu quero ganhar tanto ou mais para os jogadores que nunca ganharam. Quero ajudá-los a... Penso, obviamente, agora muito mais no adepto comum, que sorri porque a sua equipe ganhou, tem uma semana melhor porque a sua equipe venceu. Continuo a ser um animal competitivo, se assim me posso chamar. Continuo a querer ganhar tanto ou mais do que antes. Mas antes focalizava-me em mim próprio...

Tolentino mostrou a Mourinho livro do séc. 15-16 que recolhe "cantigas" medievais, mais de 1200 poemas em língua galego-portuguesa

Tolentino mostrou a Mourinho livro do séc. 15-16 que recolhe "cantigas" medievais, mais de 1200 poemas em língua galego-portuguesa

 

CARDEAL TOLENTINO – Agora a importância da alegria dos outros, de dar alegria aos outros.Eu creio que tenho uma missão muito bela, esta  que o Santo Padre me confiou de ajudar a gerir a sua biblioteca, que é um espelho da história da humanidade, da memória, da cultura... Mas acho que o seu trabalho, José Mourinho, é também alguma coisa de humanamente riquíssimo. O antropólogo Roger Caillois, naquele célebre ensaio sobre os jogos e o humano, diz que o jogo é uma espécie de espelho de tudo aquilo que é humano. E de facto, olhando para dimensão lúdica que o desporto acaba por expressar, tocamos alguma coisa de fundamentalmente humano. Porque as pessoas, por exemplo, quando vão ao estádio de futebol, o adepto comum, não vai apenas, digamos, para esquecer ou para celebrar. Não é por causa de uma pequenina alegria, mas de certa forma, ali, está misturada a ambição de tocar alguma coisa maior, de ir mais longe, de perceber, não sei, um mistério da vida, o seu significado. Não sei se isto para si faz sentido ou não.

JOSÉ MOURINHO – Faz sentido. Eu próprio o sinto. Eu quando... caminho para um jogo, quando saio do hotel, entro no autocarro, quando chego ao estádio, caminho para o balneário, quando o jogo – antes do jogo começar, quando se caminha do balneário para o jogo... Ali existe tanto de espiritualidade naquilo que não é nunca uma rotina. Ainda que se jogue dezenas de vezes no mesmo estádio e que se faça o mesmo percurso duzentas vezes. É um momento que tem qualquer coisa que não se vê, mas que sente tanto. Acho que é de uma beleza enorme. Acho que é um dia, que espero que não seja tão cedo, talvez seja o que mais me faltará: sentir esta dimensão que me leva para direções que nunca partilhei, e que talvez hoje partilho pela primeira vez. Caminhar rumo ao jogo e falar com Ele...

CARDEAL TOLENTINO – Falar com Deus.

JOSÉ MOURINHO –  Mas falo com Ele, e acabo sempre por dize... “A minha família é mais importante do que isso. Dá-me aqui uma ajuda se tiveres tempo. Se tivesse que escolher entre este jogo e o bem-estar das pessoas que eu amo, não pensaria duas vezes.”

CARDEAL TOLENTINO – No fundo, trata-se de um desafio entre este jogo e o grande jogo que é a vida, não é?

JOSÉ MOURINHO – Exatamente um para de meses atrás até foi com o Roma que eu cumpri o meu jogo mil. Já estamos muito além deste número. Não há diferença entre o último jogo e o primeiro. Este meu lado é uma coisa muito minha, é uma coisa que nunca é igual. Estou a abrir-me consigo, e indiretamente a abrir-me com o mundo, mas é uma coisa muito íntima. E sem nenhuma dúvida, o futebol não é, como as pessoas pensam, a minha vida. É só uma parte importante da minha vida. E há uma outra parte, que é muito mais importante do que o futebol. E eu, na minha humildade, mas ao mesmo tempo gosto de ter com El uma relação íntima, uma relação de amizade, quase de tu.

CARDEAL TOLENTINO – Uma das coisas que Manuel Sérgio diz, e penso que também seja o seu legado, é que não acredita apenas na palavra superação. Às vezes nós olhamos para o desporto e dizemos: “É uma escola de superação”. Porque se aprende a superar os próprios limites, os próprios medos, a ir mais longe. Isso tudo é verdade. Mas Manuel Sérgio diz: “A palavra superação é inadequada. A verdadeira palavra é transcendência”. E transcendência é uma palavra, digamos, muito mais ampla, que sem dúvida, tem a ver com superação porque nos mostra num movimento intencional de trabalho, de projeção, de confiança, mas ao mesmo tempo é uma abertura ao mistério, à plenitude, ao divino, àquilo que pode dar sentido ao homem. E não é por acaso que nestes últimos anos, o professor Manuel Sérgio acaba todas as entrevistas a dizer que aquilo que mais precisa é de Deus. Isso, a mim, é uma coisa que me toca na relação com ele sempre que tenho oportunidade de o escutar. Acha que esta ligação entre a superação e a transcendência é relevante também para a sua visão?

JOSÉ MOURINHO – É um tema sobre o qual, de modo mais abstrato, em alguns momentos falo com os jogadores. Não entro, obviamente, no campo da religião até porque diante de mim tenho vinte cinco homens com tradições diferentes, crenças diferentes, mas eu chamo-Lhe o sinal +. Eu chamo-Lhe aquilo que pode fazer a diferença. E aquilo que pode fazer a diferença é uma crença comum em quem cada um dirá de si, exercerá o livre arbítrio, acreditas naquilo que quer. Mas o “plus” vem sempre um bocadinho dessa área que não se toca, mas se sente. É abstrato. Eu acho que o nível, por exemplo, de uma preparação para uma competição é um nível altíssimo de pressão, de responsabilidade, onde tens que superar e transcender. Precisamos sempre de qualquer coisa a mais do que aquilo que treinamos, do que aquilo para o qual nos preparámos. Precisamos de qualquer coisa mais. E essa coisa a mais acho que tem muito a ver com a própria espiritualidade, com aquilo que fundamentalmente alimenta para o sinal +. Aquele mais pode ser inclusive pensar nas pessoas que desejam que hoje ganhamos. E quem são estas pessoas? Aqueles que nos amam, aqueles que amam o clube, e os seus simbolismos do clube. Acho que neste momento chave, temos que ir mais fundo e não só agarrar-nos àquilo que é preparação. Não chega o aspecto técnico, tático, físico, preparação mental... É preciso mais. E quando o professor Manuel Sérgio faz essa diferença entre superação e transcendência, acho que é a isto que ele se refere... É uma pessoa sábia, com um vastíssimo conhecimento, e que nos ensinou tanto deixando uma marca.

CARDEAL TOLENTINO – E José Mourinho, podemos falar, se permitir, deste sinal mais na sua vida, na vida desta pessoa e desta história que é sua? Sei que quando trabalhava em Leiria, tinha uma relação especial com Fátima e era um ponto referencial, e que aqui em Roma, passando todos os dias por São Pedro para o trabalho, tem com este espaço um relação, porque o espaço é simbólico, não é apenas um espaço geográfico, é um espaço cheio de sentido, de uma presença. Sei que passar por São Pedro hoje para si é sempre alguma coisa de especial. Quer falar um pouco da sua relação com Deus, do seu caminho espiritual, como é que o traduz?

JOSÉ MOURINHO –  A minha relação com Deus traduz-se no meu amor pelos meus. Fundamentalmente... acho que Ele não se chateia, acho que Ele não se chateia por eu direcionar o meu amor por Ele nesta direção. A minha família, os meus amigos, aqueles a quem eu amo, aqueles que me amam a mim, aqueles que continuam conosco, aqueles que já partiram, é aí que eu traduzo, é aí que eu consigo traduzir o meu amor por Deus. Ser solidário até com as pessoas que não conheço, no sentido de me preocupar, de tentar ajudar.

CARDEAL TOLENTINO – Isso a Bíblia também diz na carta de São Tiago. Não podemos dizer que amamos o Deus invisível, se não amamos aqueles que vemos...

JOSÉ MOURINHO – É exatamente isso que eu penso. Se me perguntar se Fátima para mim é especial, eu digo “sim”. Fundamentalmente, a Fátima silenciosa, deserta, que permite um encontro mais íntimo. Por ser uma pessoa bastante conhecida, que as pessoas procuram abordar, não por má fé, obviamente, mas que acabam por perturbar num momento que eu gostaria que fosse para mim próprio. Isso tornou-me uma pessoa que visita Fátima à noite. E ao vir para Roma fez com que eu visite São Pedro de noite também. A máscara ajuda, a escuridão da noite também ajuda e...

CARDEAL TOLENTINO – E o que sente nestes momentos em que está ali em silêncio?

JOSÉ MOURINHO – Converso – estou em silêncio, mas converso muito. E pode ser um bocadinho paradigmático, e se calhar as pessoas que acompanharam a minha carreira, se clhar olham para mim e não veem essa pessoa. É de futebol a última coisa de que eu falo, a última coisa que eu penso, a última coisa que um peço. E, é exatamente aquilo que tentava antes dizer. Eu acho que ser bom pai, ou tentar ser, digo “tentar ser” porque é difícil, é uma coisa difícil de medir. Só as pessoas é que o poderão dizer, mas tentar ser bom pai, tentar ser bom marido, tentar ser bom filho, tentar ser bom amigo. Eu acho que essa tentativa é a maior motivação que uma pessoa pode ter para o seu dia a dia.

CARDEAL TOLENTINO – Está preocupado com este momento do mundo? Vivemos esta guerra na Europa com sofrimento terrível, devastador, depois de dois anos de pandemia. Sentimos que entramos num espécie de túnel de desesperança...

JOSÉ MOURINHO – Sua Santidade o Papa Francisco, diz que a guerra “é um falhanço da humanidade, um falhanço dos políticos”.  É exatamente isso que eu penso. Eu poria até um falhanço da humanidade antes de dizer que um falhanço ao nível político, porque os políticos são humanos. São uma expansão da humanidade. Eu acho que um falhanço brutal. São os princípios que se perderam ou  que não se desenvolveram. Foi a evolução, foi a evolução do pensamento humano na direção errada. Aquilo que é fundamental, aquilo que é realmente fundamental. É uma coisa difícil de explicar. E é um falhanço a todos os níveis da humanidade. É um falhanço nosso.

CARDEAL TOLENTINO – Mas como disse o Papa Francisco, nós estamos todos no mesmo barco e por isso a saída desta situação tem de ser de facto  uma humanidade mais solidária, capaz de criar formas de fraternidade, de inclusão, de interajuda, que verdadeiramente nos permitam construir um futuro novo porque se não, é a lógica do mundo velho que triunfa, a lógica da guerra, que infelizmente acompanha a história da humanidade há tantos séculos. O Papa Francisco é uma figura inspiradora para si?

JOSÉ MOURINHO – É uma figura inspiradora para mim porque eu consigo olhar para ele, e, obviamente, sem nunca ter tido a honra de o conhecer, mas ouço-o e não me canso de ouvir. Ouço-o e revejo-me na sua simplicidade, vejo o Angelus dominical pela televisão, e penso que se ele estivesse na minha igreja em Setúbal, eu ouviria de igual modo. Esse homem não é só o Papa: é um padre, como se fosse o de uma qualquer pequena paróquia do nosso pequeno Portugal. Vejo nele aquela simplicidade e acho que é capaz inclusive de criar empatias com pessoas com fé completamente diferente da nossa.

CARDEAL TOLENTINO – Só uma última consideração sobre a definição do jogo. O jogo é uma experiência humana, organizada por determinadas regras. E essas regras são regras técnicas, lúdicas, têm a ver com as modalidades desportivas, mas são também regras éticas. E, de facto, a ética é central no desporto e, saindo do desporto, enquanto paradigma das relações humanas, para a vida do mundo. Qual a importância, na sua opinião, José Mourinho, da ética destas regras, do conhecimento do outro?

JOSÉ MOURINHO – Acho que é de uma beleza enorme e de uma contribuição enorme para as nossas gerações. O trabalho que se faz ao nível do jogo antes dele ser desporto profissionalizando. Quando os jovens, ainda que algumas vezes não muito talentosos, ainda que algumas vezes visivelmente, de um modo objetivo, se possa dizer não chegará ao alto rendimento, mas a relações do jogo com os mias jovens é uma coisa com contributo absolutamente fantástico. Creio que é tudo uma questão educacional. E nas escolas, nas idades mais baixas, e no desporto de formação, isto aqui tem que ser o eixo central do desenvolvimento porque as crianças que um dia não vão ser adeptos do desporto. Essas crianças que não vão estar em campo, vão estar fora dele. E está tudo em ligação. A criança que no futebol cresce num vestiário com amigos, com quem se cria laços profundos no desporto e no jogo, cresce com outras raças, outras religiões. Quando se torna adulto, esta base ficou. Um jovem italiano que cresceu com um africano que chegou à Itália refugiado de uma destas horríveis situações que nós temos pelo mundo, que cresceu com ele, um dia, na bancada, vai ser racista? Não vai. A escola e o desporto de formação têm um papel muito importante.

·       No final do diálogo, o cardeal Tolentino mostrou a José Mourinho um Cancioneiro do séc. XV-XVIII, que recolhe as “cantigas” medievais (Vat. Lat. 4803), mais de 1200 poemas em língua galego-portuguesa. “É uma emoção muito grande – disse o bibliotecário apostólico do Vaticano – poder reconhecer neste livro de há 500 anos, algumas palavras que ainda hoje, em português, continuam a ser fundamentais para nós.

Fonte: Jornal impresso: L´Osservatore Romano – pg. 6 e 7 – terça-feira 12 de abril de 2022, número 15,

quinta-feira, 5 de maio de 2022

«Hay que aprender a vivir sin saber si tenemos la suficiente información para hacerlo»

Artículo: Esther Peñas

Daniel Innerarity

Fotografía Juantxo Engaña

Daniel Innerarity (Bilbao, 1959) es uno de los pensadores imprescindibles a escala internacional, según la revista francesa ‘Le Nouvel Observateur’. Catedrático de filosofía política y social en la Universidad del País Vasco e investigador en Ikerbasque, dirige el Instituto de Gobernanza Democrática. A mediados de 2020, en su último libro, ‘Una teoría de la democracia compleja’ (Galaxia Gutenberg), se dirigía a quienes, en sus propias palabras, no creen en las respuestas simples pero tampoco quieren desesperar ante la complejidad de los problemas. Dos años más tarde, a través de ‘La sociedad del desconocimiento’ (Galaxia Gutenberg), el filósofo aborda ahora cómo enfrentarse al exceso de información que se ha multiplicado en este tiempo para evitar que la saturación de los datos dinamite nuestro pensamiento.


¿Cómo distinguir el conocimiento de la información basura o inútil?

Hemos de acostumbrarnos a vivir sin saber del todo si tenemos la suficiente información para tomar las decisiones que tomamos. Toda decisión es prematura. Solo los indecisos disfrutan del privilegio de decidir con toda la información necesaria.

Si, como dices, «los límites entre el saber y el no saber no son ni estables ni evidentes», ¿cómo reconocemos una buena decisión?

Una buena decisión no es aquella que ha sido precedida por razones abrumadoras, sino la que ha sido tomada ponderando las limitadas razones de las que disponemos.

«Los científicos dedican muy poco tiempo a explicarse bien»

¿Cuál es el conocimiento más valioso?

Pagaría lo que fuera por que alguien me dijera qué es lo que no necesito saber.

¿Cuándo conviene sospechar de una información?

Es tan sospechoso aquello que nos da la razón fácilmente como aquello que nos la confirma con igual facilidad.

El hecho de que haya tantas personas recelosas de la ciencia, de los resultados científicos, ¿a qué se debe?

La pregunta es: ¿tiene la ciencia alguna responsabilidad en este hecho? Los científicos dedican muy poco tiempo a explicarse bien, lo que incluye explicar especialmente los límites de lo que saben.

¿Cómo es posible que todavía existan terraplanistas y negacionistas de lo obvio?

Si el ser humano es capaz de cometer atrocidades en la práctica no veo por qué debería extrañarnos tanto que tenga dificultades con la evidencia.

Muchos aseguran que la ciencia se ha entronizado como la nueva religión de la posmodernidad, ¿hasta qué punto esto es así?

La ciencia es lo que más puede unir (religar) a los seres humanos, pero también tiene sus sectas y sus herejes.

No obstante, los avances de la ciencia son enormes y los que están por venir no nos dejarán indiferentes. Sin embargo, ¿hay que tener miedo a que esos avances se perviertan?

Si un avance se pervierte, no es un verdadero avance. Avanzar científicamente implica avanzar también en las otras dimensiones que acompañan a la ciencia, en su equilibrio con otras dimensiones de la existencia humana.

«El desconocimiento que conocemos no es tan difícil de gestionar como el desconocimiento que desconocemos»

Si la inteligencia de una sociedad se mide, como apuntas en el libro, «por la relación entre dicha inteligencia y el tipo de problemas que tiene que resolver», ¿cómo anda España, a grandes rasgos, de inteligencia?

Si lo medimos en términos económicos, insuficiente; en cuanto a la comprensión pública, limitada, y si pensamos en relación con la gravedad de los problemas de nuestra sociedad, distraída.

¿Todo tiene una explicación, aunque no la conozcamos?

El desconocimiento que conocemos no es tan difícil de gestionar como el desconocimiento que desconocemos. En determinados momentos, la complejidad de la situación consiste en que no sabemos lo que no sabemos, pero tampoco si entre lo que no sabemos se encuentra lo verdaderamente importante.

Entonces, ¿en qué momento un grado de incertidumbre se convierte en angustia?

La incertidumbre solo produce angustia cuando tenemos el presentimiento de que podríamos y deberíamos reducirla. El ignorante, en cambio, puede llevar una vida muy tranquila.

¿Cómo podría combatirse la desinformación que nos rodea y nos atropella?

Cultivando una desconfianza también frente a quienes se ofrecen a protegernos frente a ella.

¿Las instituciones pueden suplir el conocimiento que ofrece la experiencia misma, la vida?

No está el panorama como para poder prescindir de nada, de ninguna fuente de conocimiento, ni para limitar las opiniones.

«Los verdaderos valores siempre han vivido rodeados de la hipocresía y el cálculo utilitario»

Usted habla de la necesidad de una ética. Los valores han ido cambiando a lo largo de los siglos, ¿a cuáles no podemos renunciar?

Más que renunciar a unos valores o a otros, hay que ponerlos a prueba y los que valgan poco renunciarán ellos solos.

Hablamos de ética, pero entra tantas veces en colisión con la economía o la política. Por ejemplo, ¿es ético mantener los campos de refugiados? ¿Es ético acoger refugiados ucranianos con más celeridad que refugiados de otros lares? Cuándo la ética sucumbe ante otros poderes, ¿qué precio pagamos?

Los verdaderos valores no han gozado nunca de la popularidad, poder o apreciación que se merecían; han vivido rodeados de la hipocresía, el cálculo utilitario y el desprecio cínico.

El libro es un «modo excelente», «hasta ahora no superado». ¿No está amenazado por los medios digitales?

Lo único que amenaza al libro es aquel discurso que puede hacerse mejor en otros soportes distintos.

¿Entenderemos alguna vez que resolver los problemas no es cuestión de buscar culpables?

La ventaja de buscar culpables en vez de resolver los problemas es que exige menos esfuerzo intelectual y le deja a uno infinitamente más satisfecho

Fonte: https://ethic.es/2022/05/entrevista-2022-daniel-innerarity/

quarta-feira, 4 de maio de 2022

Albert Camus escreve sobre pena de morte e aponta um culpado: o estado

 Paulo Nogueira*

Camus

O filósofo e escritor francês de origem argelina Albert Camus Foto: Cecil Beaton/France Culture

'Reflexões Sobre a Guilhotina' ganha tradução brasileira inédita

Enquanto tema, a morte sempre vendeu saúde na obra de Albert Camus. Por exemplo, deu o ar da sua desgraça nos romances A Peste, O Estrangeiro (cujo protagonista é decapitado) e O Primeiro Homem. A solidariedade contra a morte é a questão central de O Homem Revoltado

E tem a abertura totêmica de O Mito de Sísifo: “Só há uma questão filosófica realmente séria: o suicídio”. Em seu diário, o próprio Camus corteja a ideia de se matar, ao chegar de navio ao Rio de Janeiro, em 1949. Em Reflexões Sobre a Guilhotina, um liliputiano livrinho gigante (editado pela primeira vez no Brasil), ele retoma o suicídio sob o prisma da pena capital: “Os gregos eram mais humanos com sua cicuta. Concediam aos condenados relativa liberdade, a possibilidade de atrasar ou adiantar a hora de sua própria morte. Deixavam-nos escolher entre o suicídio e a execução. Nós, para maior segurança, fazemos justiça com as próprias mãos”.

Camus morreu em 1960, aos 47 anos. Dizia que nada era “mais escandaloso do que a morte de uma criança, e nada mais absurdo do que morrer num acidente de automóvel”. Ele morreu num acidente de automóvel, ao aceitar uma carona para Paris do editor Gallimard, quando já tinha a passagem do trem no bolso. 

Estas Reflexões saíram em 1957, no âmbito de uma campanha contra a sentença capital. Hoje a proibição da pena de morte está consagrada na Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia, e foi abolida em todos os países europeus, com exceção da Rússia e de Belarus (cala-te, boca!).

Camus evoca seu pai, que ele mal conheceu, descrito como um homem bom. Em 1914, Lucien Camus quis assistir a uma execução pública: a decapitação de um assassino que chacinara um casal de agricultores e seus filhos. O pai de Camus volta para casa em choque, e vomita. Em Reflexões, o autor conclui: “Quando a suprema justiça faz apenas vomitar o homem bom que ela deveria proteger, parece difícil sustentar que ela se destina a trazer paz à cidade”. 

Albert Camus (1949)
Oswald de Andrade (esquerda) recepciona Albert Camus (ao centro), São Paulo, SP, 1949. Foto: Acervo/Estadão

Na França, a morte era pela guilhotina, supostamente mais rápida e indolor que a forca ou o machado. Foi aperfeiçoada durante a Revolução Francesa, por Joseph Guillotin, segundo o qual o condenado sentiria só “um leve frescor na nuca”. O cutelo de 60 quilos caía de uma altura de 2,20m numa fração de segundos e decepava as sete vértebras cervicais do pescoço. É um mito urbano que o próprio inventor tenha sido guilhotinado: o pescoço dele está intacto com o resto do esqueleto, no cemitério parisiense de Père Lachaise. Em compensação, só durante o Terror revolucionário foram decapitadas 14 mil pessoas. As execuções eram consideradas um programão: pagavam fortunas pelo aluguel de janelas, vendidas por cambistas. As senhoras do povo madrugavam na fila do gargarejo, tricotando e fofocando entre uma decapitação e outra, que ninguém é de ferro. 

Camus desmonta o principal argumento a favor da pena de morte: a exemplaridade do castigo. “As execuções não ocorrem mais em público e são perpetradas nos pátios de prisões, diante de especialistas restritos. Como pode ser exemplar o assassinato furtivo que se comete à noite num pátio de presídio? À época em que batedores de carteiras eram executados na Inglaterra, outros ladrões exerciam seus talentos na multidão que cercava o cadafalso onde enforcavam seu confrade.”

Albert Camus
Albert Camus, escritor e filósofo argelino, é autor de obras como 'A Peste' e 'O Estrangeiro' Foto: The Economist

Em 1945, o talentoso escritor francês Robert Brasillach foi sentenciado à pena de morte por colaboracionismo com os ocupantes nazistas. Circulou uma petição para que o general De Gaulle lhe concedesse o perdão. Camus, embora desprezasse profundamente Brasillach, assinou-a. Sartre, não. De Gaulle recusou o pedido e o condenado foi executado, aos 36 anos. Para alguns, Brasillach foi um bode expiatório para uma catarse coletiva (a chamada “síndrome de Vichy”), na medida em que quase toda a França colaborou. 

Para Camus, ser contra a pena de morte não implica uma esculhambação permissiva: “Não que seja necessário ceder a esta inclinação moderna que consiste em tudo absolver, a vítima e o assassino. Esta confusão meramente sentimental é feita de covardia mais do que de generosidade e acaba por justificar o que há de pior no mundo. De tanto abençoar, abençoa-se, também, o campo de trabalhos forçados, os carrascos organizados, o cinismo dos grandes monstros políticos”. Em O Estrangeiro, o protagonista é executado menos por ter matado um árabe do que por sua frieza em relação à mãe. “Em nossa sociedade, qualquer homem que não chore no funeral de sua mãe corre o risco de ser condenado à morte.” 

Por fim, Camus chuta o balde: “Vamos reconhecer a pena de morte pelo que é: uma vingança. Esta resposta é tão antiga quanto a humanidade: chama-se lei de talião”. Olho por olho, dente por dente. Proverbialmente, Camus cutuca seus pares intelectuais, cúmplices por ação ou omissão de tantas carnificinas, tantas vezes fazendo do presente um inferno, em nome de um paraíso quimérico que nunca chegou.

* Jornalista

Fonte:  https://alias.estadao.com.br/noticias/geral,albert-camus-escreve-sobre-pena-de-morte-e-aponta-um-culpado-o-estado,70004052816

Uma bermuda no museu

 Roberto DaMatta*

Museu Nacional
Museu Nacional pegou fogo no dia 2 de setembro de 2018 Foto: Marcos Arcoverde/Estadão

Nos anos 1960, o Museu Nacional parou para ver um estagiário americano usando bermuda

Corria os anos 60 na sala da Divisão de Antropologia do Museu Nacional (que pegou fogo), eu estava debruçado, lápis em punho e olhar atento, que pulava de um pequeno livro de 102 páginas para uma enorme carta geográfica do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Minha tarefa (a primeira de minha vida profissional) era demarcar nesses enormes mapas os 230 grupos tribais assinalados num livro fundamental de Darcy RibeiroCulturas e Línguas Indígenas do Brasil (publicado em 1957 pelo Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais). Um levantamento no qual eram mencionadas todas as sociedades indígenas àquela época conhecidas (230 grupos), indicando, além da língua, o seu grau de contato – isolado, contato intermitente, contato permanente e integrado – junto aos sistemas regionais ou “frentes pioneiras” igualmente caracterizadas que os absorviam. 

Foi nesse opúsculo que tomei consciência de que contatos mais devastadores ocorriam com coletores de castanha, tal como hoje ocorre com mineradores que danificam rios e matas. 

O que isso tem a ver com bermuda? É simples, naqueles anos 60, nos quais o rock era sinal de “americanalhismo”, um estagiário americano, doutorando em Linguística, chegou fagueiro ao museu usando bermuda. E naquele tempo homens não usavam camisas vermelhas, todos trabalhavam usando gravata, e um decote ousado podia desclassificar uma mulher

A barulheira foi tamanha que praticamente todo o museu parou para ver aquele amalucado americano que ousava usar bermuda no museu. A decisão girava entre expulsá-lo por usar um traje indecoroso num sacrossanto Museu Nacional ou passar-lhe um sabão, ensinando-lhe justamente que na Divisão de Antropologia Cultural – cujo alvo era ensinar tolerância aos costumes estrangeiros de um Brasil cheio de indígenas ou humanidades diferenciadas da nossa – usar uma bermuda era intolerável porque, conforme repetia uma funcionária mais nervosa, “ninguém era obrigado a ver perna de homem!”.

Não me lembro mais do desfecho desse drama, mas tenho do meu lado o livro e os mapas.

Mas na minha memória pinta uma parábola que ouvi de Richard Moneygrand em pleno Museu Peabody de Harvard (que não pegou fogo):

Quando disse a um amigo que ia para o Brasil, ele comentou:

– Morei anos lá... É um país muito curioso. No final da tarde, as pessoas se sentavam de pijama na calçada, mas era preciso usar gravata para entrar num cinema. Aí, bandidos viram mocinhos e mocinhos viram bandidos. E vocês dizem que não são revolucionários e tudo ocorre dentro da lei...

* Antropólogo, conferencista, filósofo, consultor, colunista de jornal e produtor brasileiro de TV.

Fonte:  https://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,uma-bermuda-no-museu,70004056447