domingo, 5 de junho de 2022

Diderot antecipou Darwin, atacou Deus e escravidão e inspirou Machado

Andrew Curran* e Kenneth David Jackson*

'Os Macacos de Diderot' (2017), do artista ucraniano Alexander Roitburd (1961-2021) Wikiart/Reprodução

Escondida pelo autor francês, sua obra ainda soa moderna e explosiva quase 300 anos depois

[RESUMO] Ícone da liberdade de pensamento, influência marcante para nomes como Marx e Machado de Assis, o francês Denis Diderot (1713-1784) desafiou dogmas políticos e sociais de seu tempo, foi crítico veemente da escravidão e previu com espantosa exatidão temas hoje em voga, como a crise ambiental e a polarização política.

O escritor francês Denis Diderot (1713-1784) provavelmente não é conhecido por muitos no Brasil. Os que já ouviram falar dele devem associá-lo, sobretudo, ao trabalho como editor da primeira enciclopédia verdadeiramente abrangente, um projeto maciço para o qual escreveu espantosos 7.000 artigos. Diderot, porém, continua a ser pertinente ao Brasil de maneiras que transcendem de longe seu papel de simples compilador de palavras e conceitos.

Os amigos de Diderot não o descreviam como um filósofo, mas como "o filósofo". Parte disso se devia à sua legendária fome de conhecimento. Voltaire (1694-1778) o considerou um "pantófilo", um pensador que se apaixona desesperadamente por cada tema que estuda. No caso de Diderot, isso significava matemática, ciência, medicina, filosofia, política, antiguidade clássica, teatro, literatura, musicologia e as belas-artes.

Machado de Assis (na cadeira) e o francês Denis Diderot - Daniel Lannes

Parece um interesse sobre-humano, mas ele ainda ia além. Diderot foi o maior proponente do poder emancipador da filosofia e literatura, da arte de pensar livremente. "Se você me proibir de falar sobre religião ou o governo", ele disse certa vez, "não terei mais nada a dizer".

Algumas de suas ideias mais ousadas podem ser encontradas em sua "Enciclopédia". Em uma época, o século 18, em que questionar a monarquia era um delito passível de punição, Diderot declarou sem rodeios: "Homem algum recebeu da natureza o direito de comandar outros homens. A liberdade é uma dádiva dos céus, e cada indivíduo da espécie tem o direito de desfrutá-la tão logo seja capaz de raciocinar".

Ele também questionou crenças sagradas cristãs. Veja, por exemplo, as referências cruzadas irônicas oferecidas para a palavra antropofagia ou canibalismo: elas direcionam o leitor aos verbetes eucaristia, comunhão e altar. Não surpreende que a publicação da "Enciclopédia" tenha sido proibida duas vezes, empurrando a obra à clandestinidade.

Perseguição e vigilância foram constantes na vida de Diderot. Algumas de suas primeiras obras não chegaram a ajudar. Em 1748, para vencer uma aposta, ele publicou "As Joias Indiscretas", um texto de pornografia leve em que um anel mágico persuade as "joias" das mulheres a relatar suas aventuras eróticas.

No ano seguinte, lançou uma obra de filosofia muito mais séria e provocativa, "Carta sobre os Cegos para Uso dos que Veem", em que refutou a existência de Deus. Este livro lhe valeu três meses de prisão.

Quando foi libertado, Diderot optou por esconder seus textos em um baú para as gerações futuras: para nós, na verdade. Fato que não chega a surpreender, seu legado mudou radicalmente depois que seu tesouro de escritos começou a vazar. O célebre escritor alemão Goethe (1749-1832), que encontrou um desses manuscritos, previu que as opiniões e inovações literárias de Diderot explodiriam como bombas. Não se equivocou.
Os leitores de Diderot, então e hoje, nunca deixam de se espantar com sua modernidade. "A Religiosa" (1796, publicado postumamente) é um pseudolivro de memórias de uma jovem forçada a tornar-se freira que Diderot escreveu no intuito de chamar a atenção para os abusos físicos e sexuais que, a seu ver, eram frutos inevitáveis do celibato religioso e das vocações impostas.

Em "Jacques, o Fatalista" (1796, também póstumo), antirromance digressivo inspirado em Cervantes e Laurence Sterne, Diderot produziu reflexão hilária sobre o problema do livre-arbítrio. Lendo o livro, sentimos nitidamente sua alegria por encarar um dos maiores quebra-cabeças filosóficos da humanidade.

Diderot também deixou tratados políticos inéditos e secretos, escritos para a imperatriz russa Catarina, a Grande, grossos cadernos de crítica de arte e uma obra presciente de ficção científica, "O Sonho de D’Alembert" (1769), que, 90 anos antes de Charles Darwin e seu "A Origem das Espécies" (1859), imagina um mundo sem Deus, feito de manipulação "genética" especulativa e teoria protoevolucionária.

Finalmente, deixou sua obra-prima, "O Sobrinho de Rameau", cujo manuscrito tido como definitivo só foi localizado em 1891, um século depois da morte de Diderot. Nesse diálogo filosófico envolvente, o escritor francês apresenta um dos excêntricos mais memoráveis de toda a literatura: Jean-François Rameau, hedonista impenitente que prega a beleza do mal, as alegrias do parasitismo social e o direito de ser um indivíduo que defende seus próprios interesses.

É também nesse livro que Diderot declara, em tom de brincadeira, que se deixássemos um menino crescer totalmente sem educação, "ele com o tempo passaria a unir o raciocínio de uma criança às paixões do homem adulto. Estrangularia seu pai e dormiria com sua mãe". Não surpreende que Freud tenha virado seu fã.

À medida que foram descobertos, os textos de Diderot inspiraram pensadores notáveis como Hegel, Nietzsche e Marx —este o citou em duas ocasiões distintas como seu escritor favorito. No Brasil, Machado de Assis foi seu maior devoto.

'Os Macacos de Diderot' (2017) do artista ucraniano Alexander Roitburd (1961-2021) - Wikiart/Reprodução

Algumas das inovações mais radicais de Machado na ficção —usar o "delírio" de seus personagens para "revelar a verdade", entregar o palco ao anti-herói e criar um narrador que fala do além-túmulo— tiveram origem no escritor francês. Machado chegou a adotar a ideia da "Enciclopédia" de Diderot para produzir o inventário de autores mundiais citados ao longo de sua ficção.

Em sua advertência à coletânea de contos "Papéis Avulsos" (1882), Machado também ecoou as razões do filósofo francês para criar suas histórias: "É que quando se faz um conto, o espírito fica alegre, o tempo escoa-se, e o conto da vida acaba, sem a gente dar por isso".

Ao citar na introdução de seu livro esse elogio enganoso da narrativa de histórias, Machado também parece ter seguido o exemplo de Diderot, ocultando o teor crítico e subversivo de seus contos. Tendo possivelmente notado as consequências da franqueza do escritor francês —ou seja, a prisão—, Machado, como ele, converteu sua avaliação impiedosa dos valores da época em ficção, de modo que apenas os leitores mais perspicazes se dessem conta.

O que mais despertou o interesse de Machado por Diderot foi o modo como o francês se permitiu questionar os dois grandes ícones do próprio projeto iluminista: a razão e o progresso. Inspirado em "O Sobrinho de Rameau", Machado criou uma série de personagens-narradores que desprezam os padrões morais e sociais.

Os humanos frequentemente subversivos e irracionais que enchem a ficção machadiana também revelam ser produtos de uma sociedade brasileira iludida, patriarcal, gananciosa; remetem, sem dúvida, a alguns dos personagens de Diderot.

Em "Quincas Borba", temos Rubião, o professor do interior que fracassa no papel de grande capitalista; Cristiano Palha, capitalista verdadeiramente ávido que devora a fortuna de Rubião; e o próprio Quincas, cuja grande síntese de todo o conhecimento na teoria Humanitas é sua grande ilusão. E há, sobretudo, Brás Cubas, narrador do além-túmulo que se gaba de sua vida marginal e parasitária, e o herdeiro mimado Bento Santiago, de "Dom Casmurro", que escreve suas memórias para ocultar seus crimes e suas inadequações.

Uma das coisas que Machado não sabia sobre Diderot era que o escritor francês acabou sendo o crítico setecentista mais veemente da colonização e escravidão europeias no Novo Mundo, incluindo no Brasil.
Como neto de escravos alforriados, Machado certamente teria se surpreendido com esse aspecto importante do pensamento de Diderot.

Era impossível saber disso, contudo, apenas pela leitura dos 111 artigos sobre o Brasil colonial que Diderot publicou na "Enciclopédia". Ao lê-los, Machado provavelmente teria suposto que o filósofo era um homem de seu tempo, um criador de dicionários sobrecarregado de trabalho que reproduzira algumas das ideias mais comuns da época.

Tome-se, por exemplo, o texto profundamente redutivo e recheado de estereótipos que Diderot escreveu com o título de "Brasil": "O interior do Brasil é habitado por povos selvagens e idólatras que desfiguram seus rostos para parecer mais assustadores a seus inimigos; as pessoas dizem que são canibais. Os mais conhecidos são os Topinambous, Majargas e Onetadcas. Essa parte do Novo Mundo é muito rica".

Ele foi ainda mais longe no artigo "Homem", em que citou uma fonte que alegava que as mulheres brasileiras eram capazes de conceber filhos sem serem sujeitas à menstruação.

Mas eis o que Machado ignorava sobre o filósofo francês; aliás, todos ignoravam. Vinte anos depois de ter reciclado esses mitos e estereótipos para a "Enciclopédia", em cuja fase de produção redigia mil artigos por ano, Diderot apresentou uma visão muito mais crítica das ações da Europa no mundo colonial.

No quase um terço que escreveu do livro "História das Duas Índias" —elaborado por vários autores, mas publicado anonimamente em 1770 e atribuído apenas ao abade Guillaume Thomas Raynal (1713-1796) anos depois—, Diderot não apenas criticou os europeus amargamente pelos pecados que cometeram em suas colônias no ultramar como defendeu os direitos dos oprimidos.

Mais memoravelmente, deu a palavra no livro a um imaginário africano escravizado que afirmou o direito de ser livre e previu o dia em que escravos caribenhos se ergueriam em armas contra seus senhores.

Esse texto, redigido em 1779, uma década antes dos acontecimentos em São Domingos (atual Haiti) que lhe dariam razão, é um dos momentos mais notáveis na história "pós-colonial" do século 18. Como era comum em sua vida, Diderot não experimentou o reconhecimento público por isso —sua colaboração crucial na "História das Duas Índias" só foi constatada quase 200 anos depois, por volta de 1950.

Neste livro —enciclopédia sobre o comércio entre Europa, América, África e Índia Oriental, espécie de best-seller na época—, Diderot também tem várias questões específicas a dizer sobre a colonização do Brasil. Na verdade, foi nele que escreveu mais detidamente sobre o país.

Ele declarou que os europeus que chegaram a essa parte enorme da América do Sul pouco passavam de "tigres domésticos" com sede de sangue e ouro. Em parágrafo espantoso, argumentou que a única maneira de colonizar um território como o do Brasil seria pela miscigenação racial: enviando "algumas centenas de rapazes e moças" a essa região para se casarem com membros dos povos indígenas, uma vez que o parentesco consanguíneo faria de europeus e indígenas "uma mesma e única família".

Desnecessário dizer que poucas pessoas na Paris do século 18 acreditavam que uma política coordenada de miscigenação pudesse ser a solução de qualquer problema.

Diderot especulou sobre questões como essas no Novo Mundo sem jamais deixar sua sala de trabalho em Paris. Mesmo assim, não se sabe como, conseguiu prever as consequências e os desafios do avanço europeu nas Américas.

'A Declaração da Independência', de John Trumbull (1756-1843), que retrata a declaração da independência dos EUA, ocorrida em 1776 - Reprodução

Em 1780, pouco após a independência dos EUA, lançou um alerta a seus líderes. Disse a eles que a maior ameaça ao país não viria de sua antiga senhora, a Inglaterra. Anteviu que o verdadeiro desafio resultaria do sucesso futuro norte-americano e de sua consequente riqueza.

"Habitantes da América do Norte, que o exemplo de todas as nações que os precederam, e especialmente o de sua pátria de origem [a Inglaterra], lhes sirvam de lição. Cuidado com a fartura de ouro que traz em sua esteira a corrupção da moral e o desprezo pelas leis; cuidado com uma distribuição desequilibrada da riqueza que dê lugar a um número pequeno de cidadãos opulentos e uma multidão de cidadãos na pobreza, uma situação que engendrará a insolência de alguns e a miséria de outros", escreveu.

O aviso lançado por Diderot a esses pioneiros democráticos de que uma abundância de dinheiro poderia enfraquecer a moral e o respeito pelas leis, sem falar em dividir o país, parece hoje tremendamente presciente.

Ele previu que a riqueza ilimitada inevitavelmente resultaria não apenas em conflitos de classe e corrupção política, mas também na ascensão de um autocrata cínico que daria as costas aos valores democráticos do país. Palavras mais verdadeiras que essas nunca foram proferidas.

Diderot frequentemente parece um profeta de nossa era. Perto do final de sua vida, ele também profetizou a chegada de um dia em que a população mundial, cada vez maior, suscitaria sua própria derrocada. As cidades enormes do mundo, ele acreditava, estavam se convertendo em "monstros na natureza", colossos cujo ar, água e terras inevitavelmente ficariam cada vez mais infectados e poluídos.

A única maneira de a raça humana sobreviver e prosperar, ele disse, seria se criássemos um exército de trabalhadores ambientais, uma parcela significativa da sociedade que se dedicasse a "conservar" o mundo à nossa volta. Se isso não acontecer, previu, "a expectativa de vida diminuirá; a felicidade na vida deixará de ser sentida; os horrores da fome serão generalizados" e sofreremos com "doenças paridas por epidemias".

Diderot tem ainda uma última e importante mensagem crítica que pode nos orientar no ambiente político e social instável e caótico de hoje, uma era em que as redes sociais e as fake news tomaram o lugar de vozes de mérito reconhecido, como sua própria "Enciclopédia".

É bom dar ouvidos às palavras que ele disse em múltiplas ocasiões ao longo de sua carreira —e que proferiu pela última vez na noite antes de morrer: "O ceticismo é o primeiro passo em direção à verdade".

Denis Diderot (1713-1784)

Filósofo e escritor francês, se tornou célebre por escrever milhares de verbetes e coordenar a edição da "Enciclopédia", uma das obras fundamentais do Iluminismo, que expressava posições contrárias à monarquia e aos dogmas católicos. Publicou em vida livros em que criticou a moral dominante do seu tempo e se debruçou sobre a biologia e a química, antecipando ideias da teoria da evolução. Boa parte da sua obra, porém, só veio a público postumamente, como o romance "A Religiosa" e o diálogo satírico "O Sobrinho de Rameau".

*Andrew Curran

Professor de humanidades na Universidade Wesleyan, em Connecticut (EUA), e autor de "Diderot e a Arte de Pensar Livremente" (Todavia)

*Kenneth David Jackson

Professor de português na Universidade Yale, autor de "Machado de Assis: a Literary Life"


Tradução de Clara Allain

Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2022/06/diderot-antecipou-darwin-atacou-deus-e-escravidao-e-inspirou-machado.shtml

Palavras que nos ajudam a viver melhor

Pe. Rodrigo Lynce de Faria*

 imagem ilustrativa de palavras difíceis

Nos dias de hoje, a sociedade oferece entretenimento sem interrupções. Basta pensar nas plataformas digitais e na quantidade enorme de conteúdos que temos disponíveis a qualquer hora do dia.

No entanto, não parece que isso nos tenha feito mais felizes.

Há uma sensação de vazio em muitas pessoas, e não é por falta de entretenimento: parece que é por excesso.

O mundo digital está a transformar tudo à nossa volta e, se não estivermos atentos, também pode transformar cada um de nós a partir de dentro.

Penso que um caminho (não o único, nem o mais importante) para pôr remédio a esta situação está relacionado com a revalorização da literatura e da poesia.

A literatura, se o é de verdade, é sempre um convite a parar e a contemplar a vida com olhos novos. Neste ambiente que nos circunda, penso que não é exagerado dizer que a palavra escrita, a poesia simples, possui maravilhosas propriedades terapêuticas.

É um verdadeiro remédio sem data de caducidade.

As palavras ajudam-nos a viver melhor, de um modo mais sereno, a procurar entender a condição humana e as suas diversas contradições existenciais. A literatura transforma a partir de dentro o ser do leitor.

Como alguém dizia, muitas vezes “é a palavra que nos faz ver, não os olhos”. Quando alguém nos explica o sentido de uma obra de arte, conseguimos vê-la com olhos novos. Antes era possível olhar para a obra de arte, agora conseguimos contemplá-la. A contemplação da beleza faz-nos melhores. Se não, não é beleza. 

A nossa vida é semelhante a uma obra de arte, e a boa literatura ajuda-nos a contemplá-la de um modo novo. A descobrir facetas que nos estavam ocultas pelo trabalho rotineiro do dia a dia e pela procura de entretenimento fácil no mundo digital.

* É licenciado em Engenharia Mecânica pela Universidade do Minho e doutorado em Teologia pela Universidade de Navarra. Viveu 8 anos no Brasil, 2 em Itália e 3 em Espanha. Chama-se Pe. Rodrigo Lynce de Faria e é um dos colaboradores habituais do nosso jornal. 

Fonte:  https://www.diariodominho.pt/2022/06/05/palavras-que-nos-ajudam-a-viver-melhor/  Imagem da Internet

sábado, 4 de junho de 2022

Amantes tardios

 Eugênio Bucci*

As ‘capas promocionais’ atentam contra os velhos bons costumes da imprensa, mas tomara que compensem.

02 de junho de 2022 | 03h00

No domingo, este respeitável matutino chegou aqui em casa com uma sobrecapa publicitária. Você sabe do que estou falando: uma folha de publicidade encobre a primeira página do jornal; no lugar onde deveriam estar as notícias mais importantes do dia, só o que se vê é um anúncio. Vem acontecendo muito isso ultimamente.

Antes, seria impensável. A simples hipótese de que uma propaganda pudesse acarpetar toda a primeira página despertaria a fúria da redação. Fotógrafos, repórteres e editores – sem falar nos contínuos, nos office boys, no pessoal da gráfica e nos donos – se dariam por ofendidos em seu brio profissional. “Onde já se viu?”, eles se aprumariam. “A nossa primeira página não está à venda!”

Agora, é normal. Vira e mexe, ao tirar o exemplar do Estadão do saquinho plástico (azulzinho ou amarelo), a gente dá de cara com essa primeira página não jornalística, uma primeira página mercadológica. Um carimbo, no canto superior esquerdo, com letras vermelhas, maiúsculas e oblíquas, cuida de prevenir o público: “CAPA PROMOCIONAL”. No cabeçalho, até parece uma primeira página comum; lá está o logotipo em azul escuro, ou quase escuro, e lá estão também a data, o ano de fundação do periódico secular e o cavalinho em cinza com o arauto que, no século 19, trombeteava as novidades. Do cabeçalho para baixo, no entanto, é tudo diferente: no lugar das manchetes, a mercadoria domina cada centímetro quadrado.

No domingo passado, a mercadoria da vez era uma grife de cuecas e roupas íntimas, interessada em aquecer as vendas por ocasião do Dia dos Namorados. Não sei o que acharam disso aqueles e aquelas que agora me leem (muito obrigado), mas, quanto a mim, bem, eu levei um susto. Para ser sincero, fiquei mesmerizado. Não consegui desgrudar minhas retinas fatigadas da fotografia em que um homem e uma mulher se abraçam, de olhos fechados. Na cena, em preto e branco, ambos estão quase nus, só o que lhes cobre as partes são sumárias roupas de baixo – com a marca do anunciante, claro. Fiquei olhando, olhando sem parar. A imagem prima pelo realismo, quase dá para ouvir os sussurros.

O meu susto, porém, não veio da seminudez supramencionada. Gente pelada se vê na mídia em toda parte, a toda hora, nas mais variadas conjunções (carnais, inclusive), sob os mais implausíveis pretextos. Eu não me surpreendo mais com nada disso, tampouco me assusto. Corpos descobertos povoam os outdoors, a televisão, a internet, os folhetos de informação médica e as vitrines de joalherias. O que me espantou, na manhã de domingo, foi a faixa etária dos modelos, já passados da terceira idade. Com todo o respeito, poderíamos dizer que ele e ela são idosos, o que não os impede de esbanjar sensualidade, paixão, ou, no vocabulário de Baruch de Espinosa, esta lascívia copulatória: “o desejo e o amor de unir os corpos”. Meu susto veio disto: eu realmente não esperava por esse erotismo geriátrico.

Mas adorei. Na indústria do entretenimento, não é comum que cenas calientes tenham como protagonistas garotas com mais de 17 anos e rapazes com mais de 25. O fetiche absurdo de que só há beleza em matéria nova se converteu num imperativo imperioso: exceção feita a algumas grifes de vinho, só o que é novo em folha tem valor comercial. Gostei de ver a desobediência a esse imperativo – e até achei atraentes as duas figuras. Em meio ao conservadorismo assexuado dos textos jornalísticos, vibrei com a libido de peles envelhecidas sequiosas por grudarem uma na outra. Em 1988, entrevistei a atriz Lélia Abramo, então com 77 anos. “O amor é uma aderência”, ela comentou, entre uma resposta e outra. Nunca esqueci. Publico só agora.

Eu sempre jogo fora todas as “capas promocionais”. Nem tomo conhecimento. Desta vez, guardei. Ela está aqui comigo enquanto escrevo. Fico olhando. Devo ter me identificado. Outro dia, ao fazer a barba, notei no espelho duas rugas na minha testa tristonha. Os vincos principiam logo acima do nariz, entre as sobrancelhas, e avançam na direção dos cabelos que já não tenho. São dois sulcos verticais, mais ou menos paralelos, como o Tigre e o Eufrates. Não quero aterrá-los, apagá-los, atenuá-los. Sinto orgulho dessas linhas. Vejo nelas alguma personalidade, além de muita história. Enrugado, fico melhor. Talvez até mais garboso, eu me animo, contemplando o apetite lúbrico que confere uma aura fugaz à minha “capa promocional” de estimação. Sempre soubemos que “amor é privilégio de maduros”, mas sempre calamos a respeito.

Há só mais uma coisinha que eu me atreveria a anotar aqui. A concupiscência do casal em preto e branco talvez tenha uma função metafórica: representa a dança de acasalamento temporã entre o jornalismo e a publicidade. Antes irmãos-rivais, os dois agora deram de se aconchegar em sofreguidão, na tentativa de salvar o negócio. Surgem às vezes enlaces promíscuos, mas vale a esperança. As “capas promocionais” atentam contra os velhos bons costumes da imprensa, mas tomara que compensem. Eu faço figa, embora essa expressão, “fazer figa”, seja, também ela, provecta.

*JORNALISTA, É PROFESSOR DA ECA-USP 

Fonte:  https://opiniao.estadao.com.br/noticias/espaco-aberto,amantes-tardios,70004082072

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Encontro da Cultura com Lula

 Juremir Machado da Silva*

Encontro da Cultura com Lula

Estive no encontro do pessoal da cultura com Lula. Como se diz, “todo mundo” da cultura estava lá, no hotel Plaza São Rafael, do carnaval ao hip hop, da literatura ao teatro, das artes plásticas ao cinema, do Luís Augusto Fischer ao José Falero de camiseta do Atlético-MG.

O evento bombou e repercutiu. Basta dizer que, no palco, o cineasta Jorge Furtado emocionou-se ao falar dos massacres de negros no Brasil. O premiado escritor Jeferson Tenório, ganhador do Jabuti, lembrou que foi o primeiro negro a se formar na UFRGS como cotista. Repórter e ex-mestrando em antropologia, sociólogo, historiador e escritor, eu estava com todas as antenas ligadas para compreender Lula em cena, ao lado Geraldo Alckmin, acompanhado por Dilma Rousseff, Tarso Genro, Olívio Dutra, a velha guarda do PT gaúcho, Manuela D’Ávila e convidados como a cantora Glau Barros. Claro que não poderia faltar a Janja, esposa do candidato, descontraída e feliz.

E Lula falou, brincou, mostrou-se em plena forma. O cara acorda antes das seis da manhã todo dia para fazer ginástica. Eu, que sou simples mortal, não saio da cama antes da sete. Ou das oito. Segundo ele mesmo, nunca esteve com tanto tesão como nesta disputa eleitoral. Eu poderia fazer uma tese sobre a conexão entre Lula e o público presente, destacando o seu carisma, a sua desenvoltura, aquela coisa de parecer em casa, um peixe na água na hora de discursar e seduzir. As imagens disponíveis nas redes me dispensam desse exercício, que poderia dar um ensaio sobre o chamado “animal político” em ação.

Lula prometeu dar novamente status de ministério à Cultura, valorizar os artistas e criar comitês culturais em cada Estado.

Na política, pediu que haja união no Rio Grande do Sul para ter uma chapa competitiva ao governo do Estado e ao Senado. Falou isso olhando para Manuela d’Ávila e Paulo Pimenta, presidente do PT gaúcho.

Não será nada fácil. A resistência, por exemplo, a apoiar Beto Albuquerque como cabeça de chapa não é novidade para ninguém. O PSB nem apareceu nos eventos de Lula em Porto Alegre. Beto não abre mão de ser candidato a governador por entender que tem mais potencial eleitoral no interior do Rio Grande do Sul. Edegar Pretto também está firme na sua posição de pré-candidato. Lula precisa que o PT apoie o PSB por aqui, assim como no Espírito Santo, para ter apoio a Haddad em São Paulo. Não é troca garantida. Sem ela, porém, fica difícil que role.

Não faltou quem saísse com a seguinte impressão: Jorge Furtado tem tudo para ser ministro da Cultura. Por que não? Tem gabarito.

Para quem ainda possa acreditar que Lula não teria mais pegada para ser presidente, a notícia não é boa: o homem está voando.

Geraldo Alckmin parece muito à vontade com seus novos companheiros. Recebeu elogios e aplausos. Já faz parte do projeto.

Lula defendeu diversidade na mídia. Criticou a hegemonia midiática e artística de Rio de Janeiro e São Paulo.

É todo um programa.

Pobre de uma terceira via.

Dá para entender por que o capitão não quer debates.

O jogo parece jogado. Será entre Lula e Bolsonaro.

Pelas pesquisas, Lula está com uma mão na taça.

*Jornalista. Escritor. Prof. Universitário

Fonte:  https://www.matinaljornalismo.com.br/matinal/colunistas-matinal/juremir-machado/juremir-encontro-cultura-com-lula-porto-alegre-rs/

quinta-feira, 2 de junho de 2022

Thomas Friedman: Invasão da Ucrânia ecoa avanço de Hitler sobre a Europa

Por Thomas Friedman*

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Invasão russa à Ucrânia virou um terremoto europeu e cada vez mais é vista como uma reprise do século 20 

BERLIM — Escrevo sem parar sobre a guerra na Ucrânia desde que a Rússia invadiu, em 24 de fevereiro, mas confesso que foi necessário para mim vir à Europa e me encontrar com políticos, diplomatas e empresários daqui para compreender plenamente o que aconteceu. Veja, eu pensei que Vladimir Putin havia invadido apenas a Ucrânia. Eu estava errado. Putin invadiu a Europa.

Ele não deveria ter feito isso — que pode ter sido a maior estupidez de guerra cometida na Europa desde que Hitler invadiu a Rússia, em 1941.

Só entendi isso plenamente quando cheguei a este lado do Atlântico. De longe foi fácil assumir — e provavelmente fácil para Putin assumir — que eventualmente a Europa se conformaria com a invasão em escala total que Putin lançou contra a Ucrânia em 24 de fevereiro, da mesma maneira que a Europa se conformou quando, em 2014, Putin devorou a península ucraniana da Crimeia, uma fatia remota de território, onde ele enfrentou pouca resistência e detonou ondas de choque limitadas.

Tudo errado, tudo errado, tudo errado.

Esta invasão — com soldados russos indiscriminadamente bombardeando prédios residenciais e hospitais na Ucrânia, matando civis, saqueando lares, estuprando mulheres e criando a maior crise de refugiados na Europa desde a 2.ª Guerra — cada vez mais é vista como uma reprise no século 21 da investida de Hitler contra o restante da Europa, que começou em setembro de 1939 com o ataque alemão contra a Polônia. Adicione a aparente ameaça de Putin de usar armas nucleares, alertando que qualquer país que interferir em sua guerra não provocada encarará “consequências jamais vistas”, e isso explica tudo.

Explica por que, praticamente da noite para o dia, o governo alemão rompeu com seus quase 80 anos de aversão ao conflito, mantendo o menor orçamento de defesa possível, e anunciou, em vez disso, um enorme aumento no gasto militar e planos de enviar armas para a Ucrânia.

Manifestantes protestam contra a guerra na Ucrânia e contra Vladimir Putin em Praga, em 26 de março.
Manifestantes protestam contra a guerra na Ucrânia e contra Vladimir Putin em Praga, em 26 de março. Foto: Michal Cizek/ AFP

Explica por que, praticamente da noite para o dia, Suécia e Finlândia abandonaram mais de 70 anos de neutralidade e se candidataram para aderir à Otan.

Explica por que, praticamente da noite para o dia, a Polônia deixou de brincar com o pró-Putin, anti-imigração e populista Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria, e abriu suas fronteiras para mais de dois milhões de refugiados ucranianos ao mesmo tempo em que o país transformou-se em ponte terrestre para transportar as armas da Otan para dentro da Ucrânia.

Explica por que, praticamente da noite para o dia, a União Europeia substituiu anos de sanções econômicas brandas e capengas contra a Rússia e disparou um míssil econômico de precisão, sancionando o centro da economia de Putin.

UE aprovou embargo a 2/3 do petróleo russo ao continente durante encontro em Bruxelas.
UE aprovou embargo a 2/3 do petróleo russo ao continente durante encontro em Bruxelas. Foto: Olivier Matthys/ AFP

Em suma, o que percebi foi justamente que a invasão russa à Ucrânia virou um terremoto europeu: “um despertamento — boom! — e então tudo mudou”; conforme me colocou o ex-ministro de Relações Exteriores alemão Joschka Fischer. “O status quo ante não retornará. Você está testemunhando uma imensa mudança na Europa em resposta à Rússia — não fundamentada na pressão americana, mas porque a percepção de ameaça em relação à Rússia de hoje é completamente diferente: Nós entendemos que Putin não está tratando apenas da Ucrânia, está ameaçando todos nós e nossa liberdade”.

Gostemos ou não, acrescentou Fischer, a Europa moderna encontra-se neste momento em um “modo de confrontação contra a Rússia. A Rússia não é mais parte de uma ordem europeia pacífica”. Houve “uma completa perda de confiança em Putin”.

Os planos de Putin

Haveria alguma dúvida a respeito do porquê? O Exército de Putin está destruindo sistematicamente cidades e infraestruturas da Ucrânia com a intenção aparente não de impor o controle russo sobre essas localidades, comunidades e fazendas, mas, em vez disso, apagá-las do mapa, junto com seus moradores, e fazer virar verdade, à força, a tresloucada alegação de Putin de que a Ucrânia na realidade não é um país.

No Fórum Econômico de Davos, na semana passada, entrevistei Anatolii Fedoruk, prefeito de Bucha, Ucrânia, a cidade onde a Rússia foi acusada de assassinar centenas de civis, deixando cadáveres nas ruas para apodrecer ao relento ou empilhando os corpos dentro de uma cova coletiva escavada no jardim de uma igreja, antes das tropas russas serem expulsas de lá.

“Tivemos 419 cidadãos pacíficos assassinados de diversas maneiras”, disse-me Fedoruk. “Não possuíamos nenhuma infraestrutura militar na nossa cidade. As pessoas não tinham como se defender. Os soldados russos saquearam, estupraram e se embebedaram… Estou realmente surpreso que isso esteja acontecendo em pleno século 21.”

Foto aérea de 18 de abril mostra covas abertas no cemitério de Bucha, na Ucrânia.
Foto aérea de 18 de abril mostra covas abertas no cemitério de Bucha, na Ucrânia. Foto: Yasuyoshi Chiba/ AFP

Não obstante a fase de “choque” desta guerra — que ainda transcorre — detectei entre autoridades europeias em Davos e Berlim também uma fase de “deslumbramento”. Falando francamente, enquanto os Estados Unidos da América parecem estar se desmanchando, os Estados Unidos da Europa — os 27 países-membros da União Europeia — surpreenderam a todos, principalmente a si mesmos, ao se unir com pulso firme, juntamente com outras nações europeias e a Otan, para bloquear a invasão de Putin.

Quase deu para escutar as autoridades europeias dizendo: “Uau, fizemos mesmo isso primeiro? Foi a primeira vez que fizemos isso?”.

O efeito das sanções

Desde fevereiro, a UE impôs cinco pacotes de sanções contra a Rússia — sanções que não apenas castigam gravemente a Rússia mas que também são custosas para os países do bloco europeu, em termos de negócios perdidos ou custos maiores de matérias-primas. Um sexto pacote, acordado na segunda-feira, cortará cerca de 90% das importações da UE de petróleo russo até o fim deste ano e excluirá o Sberbank, maior banco da Rússia, do SWIFT, o vital sistema internacional de mensagens financeiras.

Talvez a coisa mais impressionante seja a quantidade de refugiados ucranianos que os países da UE estão dispostos a abrigar sem tanta reclamação. Há uma percepção de que os homens ucranianos estão lutando também em sua defesa, então, as nações do bloco europeu podem pelo menos abrigar suas mulheres, filhos e anciãos.

“Todos estão recebendo a mesma assistência de saúde, pensões para infância e benefícios de educação que os poloneses recebem”, disse-me o primeiro-ministro da Polônia, Mateusz Morawiecki. “E por que não receberiam? Estão trabalhando e pagando impostos. A única coisa que não têm é direito de votar.”

Putin pensou que a UE se fragmentaria rapidamente sob sua pressão, acrescentou Morawiecki, “mas ele estava errado. A Europa está muito mais unida neste momento do que antes da guerra na Ucrânia”.

O primeiro-ministro polonês Mateusz Morawieck e o vice-premiê Jaroslaw Kaczynski em encontro com o presidente ucraniano, Volodmir Zelenski,em Kiev.
O primeiro-ministro polonês Mateusz Morawieck e o vice-premiê Jaroslaw Kaczynski em encontro com o presidente ucraniano, Volodmir Zelenski,em Kiev. Foto: Ukrainian Presidential Press Service/Handout via REUTERS

Ao observar isso tudo, Putin tem de estar se perguntando: “Será mesmo um pulso firme o que vejo se levantando contra mim na UE? Mas não pode ser! Não, espere… é sim! O que está acontecendo?! Pensei que tivesse a Alemanha no bolso — comprada e financiada pelo meu gás barato. Nunca pensei que eles pudessem se unir desse jeito à Ucrânia e considerar minha invasão um ataque contra todos eles”.

Mas foi justamente isso o que aconteceu. Ainda assim, muitos na UE se perguntam por quanto tempo conseguirão manter esse doloroso pulso. Trata-se de uma pergunta legítima.

“Putin está contando com a fadiga do Ocidente”, afirmou Morawiecki. “Ele sabe que tem muito mais tempo, porque democracias têm menos paciência que autocracias.”

Apelos por um cessar-fogo

Isso é verdade. Alguns líderes da UE já estão encorajando o presidente Joe Biden a telefonar para Putin e explorar termos para um cessar-fogo. As forças de Putin no leste e no sul da Ucrânia estão esmagando neste momento o Exército ucraniano em várias junções estratégicas, atacando com foguetes e artilharia pesada. Os russos não precisam ser acurados, precisam apenas sobrepujar as forças ucranianas com sua magnitude e volume.

Espero que os ucranianos sejam capazes de manter suas posições por tempo suficiente para que mais armas avançadas do Ocidente cheguem para equalizar a luta — e para que as sanções da UE contra a Rússia castiguem realmente, para que os ucranianos tenham uma posição verdadeiramente relevante em relação a Putin em alguma possível solução negociada.

Dito isto, porém, não posso deixar de ressaltar um outro tema que transpassou minhas conversas por aqui: uma convicção de que, por esta guerra ser em tamanha medida uma guerra de Putin e de que, por causa do barbarismo de suas forças, esta guerra é tão criminosa, enquanto Putin permanecer no poder em Moscou, será muito difícil confiar na Rússia a respeito de qualquer assunto que envolva a Ucrânia.

Não ouvi ninguém defender mudança de regime, mas também não ouvi ninguém dizendo que o Ocidente é capaz de retornar para alguma normalidade em relação à Rússia sem isso. Tudo para dizer que algo muito grande em relação a Putin se rompeu aqui e que haverá um problema quando nos sentarmos à mesa de negociação — enquanto Putin continuar a liderar a Rússia. Mas Putin é um problema com o qual o povo russo tem de lidar, não nós. / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

*É COLUNISTA, ESCRITOR E GANHADOR DO PRÊMIO PULITZER

Fonte:  https://www.estadao.com.br/internacional/thomas-friedman-putin-nao-invadiu-so-a-ucrania-invadiu-a-europa/?utm_source=webpush_notificacao&utm_medium=webpush_notificacao&utm_campaign=webpush_notificacao

O sexo na Bíblia. Comentário de Roberto Mela

 

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Foto: Pexels


Com um ditado intrigante e muito moderno, uma linguagem explícita e um tom quase jornalístico, mas sempre correto e ligado ao texto bíblico, Simone Paganini, professor de Teologia Bíblica da Universidade de Aachen, na Alemanha, repassa inúmeros textos bíblicos referentes à sexualidade e ao seu exercício concreto, em seu novo livro “Senza censura” [Sem censura].

O comentário é de Roberto Mela, teólogo e padre dehoniano italiano e professor da Faculdade Teológica da Sicília, em artigo publicado por Settimana News, 06-05-2022. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

No seu conjunto, a Bíblia apresenta a sexualidade e o seu exercício como algo positivo e desejado por Deus, mas sabe que ela também tem um lado obscuro e perigoso a ser controlado e regulado por meio de normas bem específicas.

Em um mundo marcado pelo patriarcalismo, são inúmeras as leis que proíbem o uso violento da sexualidade ou o seu exercício dentro do âmbito familiar restrito. No entanto, se as leis foram feitas, a realidade deve ter apresentado alguns aspectos não corretos e que são várias vezes condenados, mas às vezes também aprovados por terem sido colocados na linha da continuação da história da salvação e da sobrevivência de Israel dentro de um mundo hostil.

Incesto e danos econômicos

Paganini começa com um possível “triângulo” entre Adão, Lilith e Eva, já que o nome da mulher nunca é mencionado no primeiro relato da criação.

O relato da história dos patriarcas e das matriarcas oferece o impulso para falar de trocas de casais e de meninas-mães (Sara e Agar, Lia e Raquel e as suas respectivas escravas, etc.). Outros relatos falam de pessoas que vão para a cama com a mãe, a irmã e outros parentes. São inúmeras as descrições de relacionamentos incestuosos que envolvem patriarcas e matriarcas: Abraão e a meia-irmã Sara, Isaac e a prima Rebeca, Jacó e as duas irmãs Lia e Raquel, Ruben e a concubina do pai, Bila, Amnon e a meia-irmã Tamar (vítima de estupro), com as duas filhas (Gn 19,30-38).

A Bíblia não menciona a proibição de relações com a filha e a sogra, consideradas talvez tão anormais a ponto de tornar supérfluo até mesmo o fato de falar a esse respeito. Emitindo diretrizes, tentava-se proteger a fronteira que separava Israel das culturas pagãs circundantes e a ordem social desejada por Deus. As motivações nunca são de natureza meramente biológica, mas ético-religiosa.

Deve-se lembrar ainda que a mulher era considerada propriedade do marido ou do pai de família e que, ao praticar atos impróprios contra ela, prejudicava-se uma propriedade que exigia um ressarcimento.

Prostituição, meninas-mães e violência

A prostituição estava presente na vida de Israel e era vista como uma realidade bastante normal. Na genealogia de Jesus, há duas delas, Tamar e Raab, que protegeram a vida de Israel e permitiram a sua continuidade.

A legislação contra a violência sexual não pretendia tanto proteger a mulher, mas sim os interesses do marido ou do pai. As leis sempre tinham uma perspectiva androcêntrica, e as penas não eram sempre iguais para o homem e para a mulher (ambos eram mortos se o ato sexual era cometido na cidade; apenas o homem era morto e a virgem prometida em casamento era salva se o fato tivesse ocorrido fora dos muros: a menina poderia ter gritado e não ter sido ouvida...; cf. Dt 22,23-27). Se o homem viola uma virgem não prometida em casamento (praticamente um caso de pedofilia, já que a menina era prometida em casamento logo que chegava à puberdade), o estuprador tinha que pagar à família um preço adequado – cinquenta siclos de prata – e assumir a menina como esposa, sem poder repudiá-la. A mulher tinha que passar a vida com o seu estuprador... (cf. Dt 22,28-29).

Sexo, vingança e morte

O estupro de uma menina virgem não prometida em casamento, porém, também pode levar a uma vingança brutal por parte da família da ofendida. A ofensa feita contra Diná (Gn 34) leva ao extermínio dos cidadãos de Siquém, enquanto Amnon pagaria com a própria vida (mesmo que dois anos depois) pelo estupro cometido contra a meia-irmã Tamar (2Sm 13,1-22).

A biblista Phillys Trible definiu corretamente muitas páginas da Bíblia como “text of terror”. A culminância desses textos está em Jz 19, com o estupro da concubina do levita, oferecido por ele mesmo aos habitantes do local em lugar de si mesmo, solicitado por eles. O levita leva para casa a mulher estuprada até à morte pelos cidadãos de Jebus durante a noite e envia às doze tribos o seu corpo feito em pedaços. Daí surge uma carnificina contra a tribo de Benjamim, a captura de 400 virgens de Jabes de Galaad entregues aos benjamitas dentro de um tratado de paz e o rapto das virgens de Silo (cf. Jz 21,8-24).

Somente a intervenção do anjo preserva as duas filhas de de serem estupradas pelos habitantes de Sodoma, a quem elas haviam sido oferecidas no lugar dos viajantes masculinos solicitados. A Bíblia não repreende nem nem o levita, mas convida a refletir e a não calar em caso de violência cometida nos nossos dias.

Pequenos heróis e heroínas

O livro de Juízes narra “as grandes fraquezas de um pequeno herói”, assim diz o título do capítulo a ele dedicado: Sansão. Este leva uma vida imprudente com várias mulheres e prostitutas do campo pagão e filisteu, e terminará a sua vida derrotado pela sua própria ganância sexual.

Relatos de sexo terminam às vezes em finais trágicos de morte. Sexo e morte muitas vezes andam de mãos dadas na realidade e nos contos literários. O jovem judeu Zambri é transpassado por Fineias enquanto está na cama com Cozbi, uma menina da terra de Midiã (Nm 25,1-8.14-15). Estamos dentro do culto idolátrico a Baal-Peor.

Erotismo e homicídio estão estritamente entrelaçados no caso da morte de João Batista, que repreendia Herodes Antipas por ter se divorciado sem motivo da filha do rei nabateu Aretas.

Segundo Paganini, essa era a verdadeira reprovação levantada por João Batista que, segundo ele, estava interessado nas problemáticas sociais decorrentes do insulto provocado à casa nabateia mais do que nas problemáticas de moral sexual. Segundo Flávio Josefo, Herodíades havia se casado primeiro com Herodes Boethos, e não com Herodes Filipe. Em todo o caso, o amor de um poderoso por uma mulher faz um profeta perder a cabeça.

A paixão amorosa do general derrotado Sísara pela bela e desinibida Jael fará com que ele termine seus dias com o crânio perfurado por uma estaca. Paganini interpreta o “cobrir com o manto”, gesto realizado pela mulher (duas vezes, Jz 4,18.19), como uma alusão ao ato sexual. Jael, assim, salva Israel, e é isso que importa para o texto bíblico.

O livro de Judite, por sua vez, é uma novela que narra as estratégias implementadas pela bela, rica e piedosa viúva Judite para seduzir e decapitar o general do exército inimigo Holofernes e assim salvar a sua cidade, Betúlia, acesso a todo Israel.

As incongruências históricas fazem dele um relato não verdadeiro no nível dos eventos concretos, mas o livro exalta a salvação trazida a Israel por uma mulher, que explora habilmente e por uma nobre causa todas as suas qualidades e artes sedutoras femininas. Também neste caso, a sedução, as mentiras e o assassinato estão voltados à salvação de Israel.

Homossexualidade

Paganini lembra que a Bíblia não conhece os termos LGTB+, gay, lésbica, mas afirma que há textos bíblicos que fazem alusão a relações homossexuais e lésbicas. O estudioso defende firmemente a possível bissexualidade de Davi, considerando que sua relação com Jônatas pode ter um caráter seguramente homossexual. O vínculo de Rute com sua sogra Noemi também poderia ter – aqui Paganini é mais duvidoso – uma conotação lésbica.

O estudioso afirma que Lv 18 não condena a homossexualidade como é entendida hoje, mas apenas a violência contra o inimigo com humilhação de caráter sexual (constrição a uma relação anal).

Jesus se ocupa muito pouco de problemáticas de moral sexual, enquanto, segundo Paganini, em Rm 1, Paulo condena não a homossexualidade como é vivida hoje em nível paritário e com afeto – a qual, segundo o autor, deveria ser acolhida como uma relação normal entre pessoas com o mesmo status que as uniões heterossexuais, p. 159 –, mas sim o fenômeno da pederastia e da pedofilia generalizadas no mundo greco-romano.

Poligamia, velhice e sedução feminina

Um capítulo é dedicado ao fenômeno da poligamia e abrange do tempo dos patriarcas ao de Salomão. A poligamia era aceita, mas envolvia um oneroso dispêndio de dinheiro, pois o homem tinha que assegurar a paridade de tratamento econômico e sexual entre as várias mulheres e concubinas. Na prática, apenas um nobre ou um rico podia exercê-la. O Novo Testamento exige uma única esposa a quem exerce o ministério de bispo e de diácono.

“Velhinhos excitados” é o título do capítulo dedicado à sexualidade vivida na velhice. A Bíblia mostra o seu exercício em sentido positivo como sinal de bênção, descreve a ação da jovem Abisag em “manter aquecido” o velho rei Davi, mas também denuncia o seu exercício malicioso e depravado da parte masculina (os dois velhos libidinosos e a virgem Susana), sustentado pelo predomínio de uma mentalidade machista e patriarcal.

A Bíblia descreve a arte da sedução feminina lembrando as estratégias da mulher de Putifar em relação a José, as da bela rainha pagã Jezabel em relação ao rei Acab e depois Yehu, a sedução desinibida de Rute em relação a Booz, sem esquecer as já mencionadas Jael, Débora, Judite e Salomé, a filha de Herodíades.

Muitos textos bíblicos advertem contra a sedução exercida pelo fascínio das mulheres (muitas vezes entendidas como símbolo da idolatria pagã), enquanto 1Tm 2,8-15 lembra o comportamento digno e modesto que as mulheres cristãs devem ter em casa e na comunidade.

“Quando é um Deus que seduz uma mulher”: assim diz o quarto e último capítulo do livro. Paganini interpreta os textos bíblicos que falam da concepção prodigiosa por parte de uma mulher idosa, ou estéril, ou virgem como a intervenção de Deus por meio de um anjo. Os filhos são destinados a obras maravilhosas.

O estudioso lembra o caso de Maria, colocado na linha de relatos semelhantes como as de Sara, da mulher de Suném que hospeda com grande confiança o profeta Eliseu (2Re 4) ou da mulher de Manué em Jz 13. O homem não parece mais se aproximar da mulher. Parece que o filho que vai nascer, Sansão, é de fato o filho do anjo-homem.

Paganini lembra que a verdade de fé da concepção virginal de Maria encontrou muitos contrastes e deboches, expressados nos relatos presentes no Talmud e nas Toledoth Yeshu que a veem sujeita ao adultério com José ben Pantera. Celso considera Jesus o filho ilegítimo de Maria com um soldado romano chamado Panthera.

É melhor se abster?

Paganini se encaminha para a conclusão do seu volume com um capítulo em que se apresenta o fato de não ter relações sexuais como a melhor coisa recomendada no Novo Testamento, especialmente por Paulo.

Jesus fala pouco de moral sexual (embora as suas posições sobre adultério e divórcio sejam claramente expressadas), e a sua resposta aos saduceus sobre a condição do corpo no tempo ultraterreno (“semelhante aos anjos”) não é totalmente clara.

O estudioso se concentra em Paulo que, segundo ele, em 1Cor, recomenda vivamente a abstenção de mulheres. Na página 145, ele recorda que se passa do mandato divino no início da criação – “multiplicai-vos”, que era pró-vida e favorável ao sexo – ao “mandato eclesiástico da abstinência”, que é tanto antissexo quanto antivida.

Esse é um ponto, além de outros (Davi, Rute), que me deixa perplexo. Paulo tem uma linha ideal de vida celibatária, mas conhece a pastoral do matrimônio. Cada um tem o seu carisma, alguns de um modo, outros de outro (cf. 1Cor 7,7). Dois carismas, portanto, ambos bem vistos, embora a preferência de Paulo seja pela vida celibatária, no âmbito da urgência escatológica iniciada pela morte e ressurreição de Jesus.

Em relação ao caso dos noivos indecisos sobre o que fazer por razões religiosas vinculantes em relação a Deus, Paulo não exclui a possibilidade de persistir na abstenção sexual, mas recorda pastoralmente que a escolha do matrimônio não é absolutamente pecaminosa para eles. Paulo dá conselhos apostólicos, não mandatos. Ele distingue bem os seus conselhos dos mandamentos do Senhor.

Ao término da obra, não faltam páginas sobre a sexualidade e sobre o seu exercício no tempo ultraterreno. Sobre isso, a Bíblia é muito parca de pronunciamentos, em comparação com as delícias sexuais prometidas no Alcorão e nos Hadith aos fiéis muçulmanos.

O livro de Paganini é original e particular. Aborda um tema efetivamente muito presente na Bíblia e muitas vezes não bem explicado e ilustrado na catequese, muito menos nas homilias. O autor se detém brilhantemente sobre muitos textos do Antigo Testamento, enquanto me parece passar rapidamente por cima daqueles (efetivamente poucos) do Novo Testamento.

Nem todas as sugestões hermenêuticas oferecidas serão compartilhadas por unanimidade pelos leitores, mas é muito interessante a leitura de um texto fluido, bem aderente aos textos, com uma linguagem moderna e sem falsos pudores.

O autor expõe com muita honestidade as suas posições e interpretações, inclusive no que diz respeito a escolhas a serem feitas na atualidade. Ele lembra com razão que, na história da interpretação, foram alcançados efeitos desastrosos, muitas vezes em detrimento das mulheres.

De qualquer forma, o leitor tirará a sua própria conclusão explorando também a competência bíblica do estudioso.

  • PAGANINI, Simone. Senza censura. Tutto quello che non ti hanno mai raccontato sul sesso nella Bibbia (Bibbia per te 44). Ilustrações Esther Lanfermann. Pádua: Edizioni Messaggero, 2022, 162 páginas.

 Fonte: https://www.ihu.unisinos.br/618458-o-sexo-na-biblia

“Guerra na Ucrânia: Procuro não me desesperar”.

 Edgar Morin*

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“Esperamos que a paz chegue o mais rápido possível, porque a guerra está produzindo desastres humanos irremediáveis na Ucrânia, mas também acaba agravando as condições de vida no mundo e produzindo o risco de fome em muitos países. A guerra esconde os problemas vitais que temos que enfrentar: a degradação ecológica do planeta, o aquecimento global, a explosão descontrolada do lucro que reforça a crise ecológica e acentua a crise generalizada das democracias no mundo, agravada pela pandemia não domada e que corre o risco de recrudescer”. A reflexão é de Edgar Morin, publicada por L'Obs, 26-05-2022

: https://www.nouvelobs.com/idees/20220526.OBS58953/guerre-en-ukraine-j-essaie-de-ne-pas-desesperer-par-edgar-morin.html A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

 A guerra agrava a ditadura de Putin. Talvez ela suscite um golpe de Estado que o derrube, o que parece difícil dado o rígido controle da polícia secreta. Putin assume tanto a herança czarista como a herança stalinista, sem ser um czar ou um Stalin. Ele exalta o culto da grande e santa Rússia czarista e dá continuidade aos métodos da polícia secreta stalinista. Ele não cultiva o culto de sua personalidade, mas às vezes gosta de exibir sua virilidade. Progressivamente, tornou-se cada vez mais autoritário e repressivo. Ele sofreu com o colapso da União Soviética, sabendo que não poderia ressuscitá-la, mesmo que pudesse declarar: “Qualquer pessoa que não lamenta o colapso da URSS não tem coração; qualquer pessoa que deseja o seu renascimento não tem cabeça”. Ele mantém o desejo de reagrupar pelo menos seu núcleo eslavo e ficar de olho no Cáucaso.

Além disso, a realidade ucraniana se impôs enquanto Putin via nela apenas um agregado de pequenos russos (nome tradicional na Rússia para os ucranianos no passado) e russos. Ele não viu a Ucrânia como uma unidade nacional. Ele não teve ideia de que a agressão russa completaria e consolidaria essa unidade.

No entanto, a Ucrânia é de uma formidável complexidade. Mesmo se excluirmos o Donbass, tem uma minoria de língua russa (impossível de quantificar) dividida entre a hostilidade a uma Rússia ditatorial e devastadora e a adesão total à Pátria Mãe. Florence Aubenas relatou no Le Monde uma pequena manifestação pró-Rússia que aconteceu no dia 9 de maio na própria Kiev. Há também a ambiguidade de um culto com estátuas a [Stepan Andriyovych] Bandera que foi o líder da independência ucraniana, primeiro emigrante, depois colaborador dos nazistas e cúmplice de seus crimes durante a ocupação da Ucrânia pela Wehrmacht.

O banderismo deixou assim uma herança nazista, reconhecidamente uma minoria, mas foram os fascistas ucranianos que se viram na linha de frente da guerra contra os separatistas de Donbass e cometeram abusos ali; o regimento Azov estava sob comando fascista e integrado à guarda ucraniana durante a guerra. É claro que a Ucrânia se tornou mais democrática com a urbanização e se ocidentalizou em seu consumismo devido ao seu crescimento econômico. O antigo antijudaísmo popular de uma Ucrânia rural foi progressivamente diminuindo e um judeu foi eleito presidente. Todas essas contradições foram atenuadas na guerra.

É possível um compromisso?

Para que haja uma paz de capitulação como aquela da França em 1871 e 1940, deve haver um vencido em debandada total. Caso contrário, a paz é uma questão de compromisso que se estabelece de acordo com o equilíbrio de forças e as sutilezas da diplomacia.

Atualmente, o equilíbrio de forças é mais ou menos igual, com a dificuldade russa de ocupar todo o Donbass: e mesmo uma eventual ocupação modificaria a relação de forças sem que a Ucrânia fosse derrotada. Também se poderia imaginar uma ofensiva ucraniana que empurraria os exércitos russos de volta para a fronteira, mas a Rússia continuaria sendo uma enorme potência militar ameaçadora.

Um compromisso de paz é, portanto, possível, apesar das criminalizações recíprocas e ódios exasperados que tendem a impedi-lo.

O compromisso pressupõe a independência da Ucrânia, o que é absolutamente essencial, mas a independência não significa necessariamente integridade territorial. Aqui surge a questão do Donbass, uma região industrial equipada e amplamente povoada por russos desde o tempo da URSS e que permanece de língua russa e russófila. É verdade que um certo número de falantes do russo se tornou hostil à ditadura de Putin e à brutalidade da invasão russa, mas uma grande parte está envolvida na guerra que vem acontecendo desde 2014 contra o exército ucraniano. É difícil ver esta região retornar pura e simplesmente à Ucrânia atual, que se tornou visceralmente anti-russa. E se assim fosse, os pró-russos sofreriam dura repressão e não deixariam de se revoltar.

É difícil ver a integração do Donbass em uma Ucrânia federal. Seria desejável um referendo para decidir ou sobre o status de uma república “independente”, ou sobre a integração na Rússia – o que só poderia ser feito com a garantia da independência da Ucrânia em troca de um acordo internacional que incluísse a OTAN –, com uma neutralidade de acordo com o modo austríaco ou a integração na União Europeia. Acrescentaria que seria importante considerar no futuro a inclusão da Rússia na União Europeia como um resultado positivo para a relação Rússia/Ocidente.

Sendo o Donbass de importância econômica e estratégica para a Ucrânia, seria necessário, em todo caso, criar um condomínio russo-ucraniano que compartilhasse suas riquezas.

O status do litoral do Mar de Azov deve ser abordado. Um controle russo poderia ser compensado pela criação de Mariupol e Odessa como portos livres, como no caso de Tânger.

Além disso, seria desejável que, a partir do armistício, fosse prevista a possibilidade de exportar o trigo ucraniano como o trigo russo para os países privados dele.

O montante das reparações e da reconstrução da Ucrânia deve ser arcado não apenas pela Rússia, mas também pelos ocidentais que, ao contribuir para a guerra, também contribuíram objetivamente para a destruição.

A histeria anti-russa, não só na Ucrânia, mas no Ocidente como na França, deveria se atenuar e ser combatida como a histeria anti-alemã que confundiu a Alemanha e o nazismo. É vergonhoso que artistas, dançarinos, diretores e atletas russos sejam banidos das competições e é uma sorte que, apesar do pedido dos cineastas ucranianos, os cineastas russos não tenham sido excluídos do Festival de Cannes.

Esperamos que a paz chegue o mais rápido possível, porque a guerra está produzindo desastres humanos irremediáveis na Ucrânia, mas também acaba agravando as condições de vida no mundo e produzindo o risco de fome em muitos países. A guerra esconde os problemas vitais que temos que enfrentar: a degradação ecológica do planeta, o aquecimento global, a explosão descontrolada do lucro que reforça a crise ecológica e acentua a crise generalizada das democracias no mundo, agravada pela pandemia não domada e que corre o risco de recrudescer.

Procuro não me desesperar, não tanto por mim, que estou no final da vida, mas pelas gerações mais jovens e nossos descendentes.

* Pseudônimo de Edgar Nahoum, é um antropólogo, sociólogo e filósofo francês judeu de origem sefardita. Pesquisador emérito do CNRS. Formado em Direito, História e Geografia, realizou estudos em Filosofia, Sociologia e Epistemologia.

Fonte:  https://www.ihu.unisinos.br/619150-guerra-na-ucrania-procuro-nao-me-desesperar-artigo-de-edgar-morin

quarta-feira, 1 de junho de 2022

‘Os defensores do capitalismo perderam a guerra ideológica’, diz historiador alemão

 José Fucs, O Estado de S.Paulo

Rainer Zitelmann 
  Rainer Zitelmann, historiador e sociólogo Foto: Rainer Zitelmann

Para o escritor, apesar da resiliência do sentimento anticapitalista, a história mostra que o sistema de livre mercado – e não o socialismo – é o maior responsável pela redução da pobreza no mundo

01 de junho de 2022 |

O historiador e sociólogo alemão Rainer Zitelmann, de 64 anos, seguiu à risca a velha máxima atribuída a Georges Clemenceau (1841-1929), ex-primeiro-ministro francês, de que “um homem que não seja um socialista aos 20 anos não tem coração e um homem que seja um socialista aos 40 não tem cabeça”.

Militante maoísta na juventude, Zitelmann se tornou um defensor entusiasmado do sistema de livre mercado e um crítico implacável do socialismo e do pensamento anticapitalista. Ex-jornalista, ex-empresário e investidor do mercado imobiliário, ele escreveu uma série de livros sobre o capitalismo e sobre os multimilionários, que se tornaram referências nas respectivas áreas.

Nesta entrevista ao Estadão, Zitelmann – que dará uma palestra na I Conferência Internacional da Liberdade, na sexta-feira, 3, em São Paulo, com transmissão ao vivo pelo YouTube – fala sobre seu livro "O capitalismo não é o problema, é a solução" (Ed. Almedina), lançado recentemente no Brasil. Ele apresenta casos concretos e argumentos em favor do livre mercado, em comparação com as experiências fracassadas do chamado “socialismo real”, e analisa a resiliência das ideias socialistas após a queda do Muro de Berlim, em 1989. Discute também as questões da desigualdade e da redução da pobreza, em meio a farpas disparadas contra intelectuais e acadêmicos que, em sua visão, reforçam o sentimento anticapitalista no mundo.

O sr. afirma que o capitalismo não é o problema, é a solução. O que o leva a dizer isso de forma tão categórica? 

Vou lhe dar só um dado, mas posso lhe dar outros. Há 200 anos, por volta de 1820, antes do capitalismo, 90% da população mundial viviam na pobreza extrema. Hoje, são menos de 10%. Mais da metade da queda se deu nos últimos 35 anos. Veja o que aconteceu na China. No fim dos anos 1950, 45 milhões de pessoas morreram como resultado do chamado “Grande Salto para a Frente” empreendido por Mao Tsé-Tung. Em 1981, cinco anos depois da morte de Mao, 88% da população chinesa ainda viviam em extrema pobreza. Foi mais ou menos quando eles começaram a introduzir a propriedade privada e as reformas pró-mercado no país. Hoje, menos de 1% estão nesta situação. Isso nunca aconteceu na história. Nunca tantas pessoas saíram do estado de extrema pobreza em tão pouco tempo como resultado de reformas pró-mercado.

O economista francês Thomas Piketty afirma em seu livro “O capital no século 21”, lançado em 2014, que o capitalismo levou ao aumento da desigualdade no mundo, especialmente nas últimas décadas. Como o sr. analisa a questão da desigualdade e as críticas de Piketty ao capitalismo? 

Antes de mais nada, é preciso considerar que o próprio Piketty reconhece que, na maior parte do século 20, a desigualdade diminuiu. Agora, ele diz que, a partir dos anos 1980, 1990, tempos ruins prevaleceram, levando em conta principalmente o que aconteceu nos Estados Unidos e em alguns países europeus. Ironicamente, foi justamente neste período que houve o maior progresso na luta contra a pobreza extrema no mundo. Para mim, a desigualdade não é o ponto principal. A prioridade é a redução da pobreza. No caso da China, que mencionei há pouco, a desigualdade obviamente aumentou nas últimas décadas, com as reformas pró-mercado. Hoje, a China tem muito mais bilionários do que tinha antes. Nos tempos de Mao não havia um único bilionário na China. Hoje, há centenas de bilionários, tantos quanto nos Estados Unidos. Em Pequim, há mais bilionários do que em Nova York. Mas ninguém na China está pedindo para voltar aos tempos de Mao, porque havia mais igualdade naquela época.  

Ironicamente, mesmo que a desigualdade tenha aumentado nos Estados Unidos, como diz Piketty, milhões de pessoas estão tentando imigrar para lá, em busca de uma vida melhor. Como o sr. vê esta questão?

Este é um dos meus principais argumentos em favor do capitalismo. É importante olhar para onde os imigrantes vão. Eles sempre vão de países com menos liberdade econômica para países com mais liberdade econômica. Na época do comunismo, ninguém falava que queria ir da Alemanha Ocidental para a Alemanha Oriental. Hoje, ninguém vai dizer que quer ir de Miami para Cuba. Talvez para passar umas férias, por umas duas semanas, e olhe lá. Ninguém diz também que quer ir da Coreia do Sul para a Coreia do Norte. Ou que quer “escapar” do capitalismo do Chile para o “paraíso socialista” da Venezuela. 

Além da China e do Chile, que outros exemplos o sr. poderia citar de países que prosperaram nas últimas décadas, a partir da adoção ou do fortalecimento do sistema de livre mercado? 

No Vietnã, por exemplo, eles fizeram um grande progresso econômico nos últimos 30 anos, com o aumento da liberdade econômica. As pessoas lá estão muito melhor hoje. A Polônia é um dos países que mais aumentaram a liberdade econômica no mundo nas últimas décadas. É incrível o que aconteceu lá desde a queda do comunismo. Então, na prática, o que a gente vê é que o capitalismo funciona.

Nos anos 1990, ninguém acreditava no socialismo, porque a derrocada do comunismo era muito recente

O sr. mencionou o caso do Chile, mas lá a esquerda, que defende maior intervenção do Estado na economia, venceu as últimas eleições. Se o sistema era tão bom no Chile, como o sr. afirma, por que a esquerda ganhou a eleição?

Às vezes, as pessoas esquecem a razão pela qual eram bem-sucedidas. O Chile alcançou um grande progresso econômico, em termos de PIB (Produto Interno Bruto) per capita e também de outros indicadores, nas últimas décadas. Muita gente não sabe, mas a desigualdade diminuiu no Chile, nos últimos 10 anos. Só que as pessoas votaram num candidato socialista. Isso não acontece só no Chile, mas em muitos países, inclusive nos Estados Unidos, na Alemanha. Na China, está ocorrendo a mesma coisa. Eu tenho um amigo na China que diz que eles foram tão bem-sucedidos não por causa do Estado, mas apesar do Estado. Hoje, tem pessoas na China querendo voltar a ter mais Estado e menos mercado. Elas esqueceram a razão que as levou a ser bem-sucedidas. 

Agora, no Chile, parece que havia também um desejo de mudança e uma grande rejeição pelo candidato da direita, que era pró-mercado, mas mostrava certa nostalgia pelos governos militares. Isso também não deve ser levado em conta?

Com certeza. Minha namorada, que é do Chile e vive há três anos e meio em Berlim, votou no Gabriel Boric, o candidato da esquerda, que venceu as eleições presidenciais. Votou nele porque achava que o (José Antonio) Kast, o outro candidato, era muito de direita, talvez como o Bolsonaro, no Brasil. Ela esperava que Boric fosse meio moderado. Mas agora já tem dúvidas de que tomou a decisão certa. Está vendo que ele não era tão moderado quanto imaginava e claro que ela não quer ver o Chile voltar aos tempos do (Salvador) Allende, nos anos 1970. Muita gente está tendo a mesma percepção. Há um desapontamento com o Boric. No ano passado, 78% dos eleitores do Chile votaram em favor da adoção de uma nova Constituição no país. Hoje, segundo as últimas pesquisas, a maioria se declara contra a nova Constituição, que é defendida pela esquerda e será votada em 4 de setembro.   

No Brasil, está acontecendo algo parecido. O ex-presidente Lula, que é o principal candidato da esquerda nas eleições presidenciais e aparece na frente nas pesquisas, também está buscando alianças de centro, para mostrar uma face mais moderada ao eleitor. Como o sr. vê esta estratégia?

Isso não me surpreende. É sempre assim: antes das eleições, eles tentam se mostrar mais moderados, dizem que não são de esquerda, para conquistar os eleitores de centro. Eles sabem que os esquerdistas vão votar neles de qualquer jeito, mas tentam atrair, como sempre, as pessoas do centro. A minha impressão é de que o Lula está tentando fazer a mesma coisa agora no Brasil, procurando mostrar que mudou um pouco, que não é tão de esquerda e ficou mais moderado. Pode ser também que seja uma questão de falta de alternativa. O Bolsonaro, especialmente na pandemia, não foi bem, cometeu muitos erros. Acredito que o caso do Bolsonaro no Brasil é muito parecido com o do Kast, no Chile. Algumas pessoas só votaram no Boric porque não gostavam de Kast, porque ele era da direita radical. 

Após a queda do Muro de Berlim, em 1989, muita gente acreditava que o socialismo ficaria para trás. Mas hoje, 33 anos depois, o que se vê é que as ideias anticapitalistas não apenas sobreviveram, como se revigoraram. Em sua visão, o que explica esta resiliência do socialismo, mesmo com o fracasso do “socialismo real”?

Nos anos 1990, ninguém acreditava no socialismo, porque a derrocada do comunismo era muito recente. Mas, com o tempo, as pessoas esqueceram o que aconteceu e o anticapitalismo se tornou mais forte de novo. Mesmo na Alemanha. Nós tivemos um plebiscito no ano passado para decidir sobre a expropriação de propriedades de companhias imobiliárias com mais de 3 mil apartamentos. 56% dos eleitores em Berlim votaram pela expropriação e pela nacionalização dos apartamentos excedentes. Na Alemanha Oriental eles tinham imóveis de propriedade do Estado. Foi um desastre. Adolf Hitler congelou os aluguéis. Os comunistas fizeram a mesma coisa. Foi outro desastre. Os aluguéis eram muito baratos na Alemanha Oriental, mas, quando o Muro de Berlim caiu, 26% da população não tinham o próprio banheiro. Tinham de sair de casa para ir ao banheiro. Na Alemanha Ocidental, mesmo sem congelamento de aluguéis, todo mundo tinha o seu banheiro em casa. Quando houve a reunificação da Alemanha, foi preciso fazer um investimento de 80 bilhões de euros (R$ 408 bilhões) para construir novas casas e renovar e modernizar as antigas casas da antiga Alemanha Oriental. Mesmo assim, agora, o último governo de Berlim congelou os aluguéis e a população votou pela nacionalização dos imóveis. O filósofo (Friedrich) Hegel (1770-1831) disse certa vez que “a única coisa que você pode aprender com a história é que as pessoas não aprendem nada com ela”. É uma afirmação muito pessimista, mas ele tem um ponto aí.

Os inimigos do capitalismo são muito 
mais fortes na comunicação

O anticapitalismo parece ter um grande apelo em setores influentes da sociedade e um espaço imenso no debate. Até que ponto isso também ajuda a entender a reabilitação das ideias socialistas?

Os defensores do livre mercado perderam a guerra das ideias, a guerra ideológica. Os inimigos do capitalismo são muito mais fortes na comunicação. As pessoas que deveriam defender o capitalismo, como os empreendedores, não fazem isso. Os socialistas comparam o capitalismo real com a utopia de uma sociedade perfeita. Isso seria o equivalente a comparar o casamento de alguém não com o de outras pessoas, mas com um casamento ideal do qual se fala em algum livro. Não é justo. Se a gente comparar o nosso casamento com os de nossos amigos, talvez ele não seja tão ruim quanto pode parecer. Eu sou um historiador. Levo em conta os fatos históricos. No meu livro, não falo sobre teorias, mas de fatos, evidências. Comparo o capitalismo com o que é possível comparar, com exemplos concretos da história: Chile X Venezuela, Coréia do Sul X Coreia do Norte, Suécia nos anos 1970 X Suécia depois, o Reino Unido antes e depois da (Margaret) Thatcher. Quando você fala dos problemas que existiam na União Soviética e em outros países comunistas, eles dizem: “Nós não queremos nada parecido com o que foi a União Soviética ou a Alemanha Oriental. Queremos algo diferente, queremos socialismo de verdade”. Os socialistas tentaram de tudo. Tentaram um modelo na China diferente da União Soviética, um modelo na Iugoslávia diferente da Romênia, e assim por diante. Quando os regimes fracassam, eles não entendem que a ideia é que estava errada e não a forma como o socialismo foi implementado.

No livro, o sr. fala sobre o sentimento anticapitalista de intelectuais e acadêmicos. Em sua visão, por que eles criticam tanto o capitalismo?

Este é o meu capítulo preferido. É meio complicado, mas vou tentar explicar brevemente. Eu venho de uma família de background acadêmico. Então, estou à vontade para falar do assunto. Na visão acadêmica, quanto mais livros você lê, quanto mais conceituados são seus diplomas universitários, mais do alto você olha para as pessoas e para um homem de negócios que não leu tantos livros. Muitos intelectuais veem, talvez, que aquele vizinho pobre, que talvez fosse um mau aluno na escola e que não leu tantos livros quanto eles, hoje tem um negócio próprio ou uma franquia do McDonald’s e ganha mais dinheiro do que eles. Tem um carro melhor e uma casa maior. Isso para eles é uma prova de que o mercado falhou, porque se o mercado estivesse certo eles é que deveriam estar nesta posição. Fiz dezenas de entrevistas com os super-ricos, para um livro que escrevi sobre o tema, e me dei conta de que há o aprendizado implícito e o explícito. O aprendizado ou conhecimento implícito é o que podemos chamar de “escola da vida” ou intuição. É um jeito diferente de aprender. O aprendizado explícito é aquele baseado nos livros e no aprendizado acadêmico. Os intelectuais não entendem como funciona o aprendizado implícito. Acham que são superiores aos empreendedores, porque têm diplomas universitários ou a sabedoria dos livros e eles, não.  Outro ponto importante é que, em geral, os intelectuais pensam em teorias e escrevem sobre teorias. Para o capitalismo, você não precisa de tanta teoria. É tudo desenvolvido de forma mais espontânea e não de acordo com um plano. Lênin disse que o movimento dos trabalhadores não viria das teorias socialistas e que os intelectuais é que tinham de levar o socialismo para os trabalhadores. Os intelectuais têm um papel no socialismo que não têm no capitalismo.

O sr. diz que após a queda do comunismo o pensamento anticapitalista adquiriu novas formas de expressão. A que formas exatamente o sr. se refere?

A mais importante é a defesa da ecologia e a luta contra a mudança climática. Eu não faço parte dos grupos que dizem que a mudança climática é uma mentira. Eu acredito que se trata de um problema real. Mas, para muitos dos que levantam essa bandeira, a questão ambiental não é o grande problema. Para eles, o inimigo é o mesmo, o capitalismo. Se fossem falar sobre fome e pobreza, não teriam argumentos, porque está claro que o capitalismo melhorou a vida das pessoas. Então, mudaram de foco. Outro dia li um livro da economista anticapitalista Naomi Klein. O título era Capitalismo vs. Mudança Climática. No prefácio, ela diz que não se importa tanto com a mudança climática, mas que é uma ferramenta muito importante na luta contra o capitalismo. Ao ler o livro, você vê que as ideias dela são totalmente anticapitalistas, contra o livre mercado e em defesa da economia planificada. Essas pessoas dizem que o que causa o problema ambiental é o capitalismo. Mas, se você pegar o Indice de Performance Ambiental, da Universidade Yale, e compará-lo com o Índice de Liberdade Econômica da Heritage Foundation, verá que os países mais livres são os que têm os melhores resultados ambientais.  Em relação ao PIB, as emissões de carbono da Alemanha Oriental eram 3 vezes maiores do que as da Alemanha Ocidental. Não havia nenhum país com piores índices ambientais do que a União Soviética. 

Eu considero o sentimento anticapitalista como 
um tipo religião política

Fora a questão ambiental, o sr. afirma no livro que o movimento contra o capitalismo incorporou também a luta contra a globalização. O que o sr. pode falar sobre esta questão?

Frequentemente, a postura contra a globalização, é claro, é relacionada com o pensamento de esquerda, mas nem sempre é assim. Também é ligada ao pensamento de direta. Você tem isso na esquerda, na direita populista e na direita radical. O (Donald) Trump é um exemplo perfeito da direita contra a globalização. Na Alemanha, também tem gente de direita contra a globalização. Muitas vezes, os argumentos da direita e da esquerda são diferentes, mas no fim o resultado, o protecionismo, é o mesmo.  

Na sua avaliação, considerando tudo que o sr. falou, por que o capitalismo gera tanta oposição e tantas críticas?

Eu considero o sentimento anticapitalista como um tipo religião política. No passado, há séculos, a religião era muito forte na Europa. No mundo moderno, o anticapitalismo se tornou uma nova forma de religião. O papel do diabo hoje é desempenhado pelo capitalismo. Você pode culpar o capitalismo por todos os problemas do mundo: pobreza, fome, mudanças climáticas, guerras, sexismo, racismo e até a escravidão, que foi adotada muito antes do capitalismo. Até os seus fracassos pessoais na vida você pode atribuir ao capitalismo. A diferença entre a religião e o anticapitalismo é que a religião promete o paraíso depois da morte e o socialismo promete em vida.

Fonte:  https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,rainer-zitelmann-entrevista,70004081675