sábado, 11 de junho de 2022

Namorados e ‘nãomorados’

Renata Simões, O Estado de S.Paulo 

Amor no espectro 

É unânime, para além do campo do autismo, que relacionar-se é um desafio 
Foto: Pixabay.com

Se os sentimentos transbordam em qualquer pessoa, no espectro autista o aguaceiro é quase um afogamento

11 de junho de 2022 

“O que me chama a atenção é que você tem ideias como verdades, você fica presa num modo de pensar. E tem uma dificuldade grande de mudar de ideia.” Nessa época, eu começava a entender o efeito do espectro. Mesmo que não fôssemos mais um casal, a intimidade compartilhada poderia me dar pistas de como as características se apresentavam. Estava presa na ideia de literalidade, da compreensão trocada, e não percebi que ele descrevia o efeito do autismo na nossa relação. 

É unânime, para além do campo do autismo, que relacionar-se é um desafio, ainda mais na esfera amorosa. Se os sentimentos transbordam em qualquer pessoa, na gente o aguaceiro provoca quase um afogamento, nosso e às vezes do outro. Será que a ideia de ter que fazer coisas em uma relação é só mais um clichê na mente, como o ex me dizia? Será só rigidez de pensamento, esse irritante ponto do autismo de que tento me livrar a todo custo?

De percepção fácil em crianças neurodivergentes, a rigidez cognitiva é uma inabilidade mental de adaptação a novas demandas e informações. A dificuldade de aceitar a visão e o modo de pensar de outras pessoas, ou fora de padrões, que pessoas neurotípicas também apresentam em diferentes níveis. No espectro, esse nível é mais desajustado, ainda mais levando em conta o ambiente em que a gente vive, pouco dado a responder a padrões. Além das mudanças constantes, existem regras sociais não faladas, e não necessariamente lógicas. Para sobreviver à não compreensão do que rege o mundo à sua volta (e isso acontece frequentemente), a criação de normas ajuda a decodificar espaços e relações.

Os clichês repetidos em filmes e livros viravam nortes, para um lado ou outro. Tive grandes amores, “nãomorados”, que seguiam em afeto, embora não se encaixassem no padrão “para namoro”. “Como tu é braba”, me disse um que esteve a meu lado durante os quatro anos em que não namoramos. Imagine a brabeza da pessoa quando era confrontada com alguém que não seguia as regras, que para mim eram universais, mesmo num “nãomoro”. 

Um dos grandes desafios de escrever esta coluna é deparar-me com o passado, reinterpretá-lo. Às vezes dói, em outras, ajuda. A relação e o confronto nos levam a uma nova perspectiva. Com o diagnóstico e a autonomia que ele traz, tento tornar-me mais permeável ao outro e ao mundo, e a suas ideias e proposições em qualquer relação, amorosa ou não. 

Como no compromisso entre Laurie Anderson e Lou Reed, para relacionar-se é bom ter um grande detector de m*, perceber quando você está fazendo isso com a sua vida, quando o outro está fazendo isso com você. Não ter medo de si próprio, de outra pessoa ou de nada, e não esquecer da ternura. Não quero me prender a mais um clichê, mas, como alguém que precisa de algum padrão para se segurar nesta vida, esses três me parecem um bom norte para qualquer relação.

*Diagnosticada com autismo nível 1, conhecido como autismo leve, a jornalista Renata Simões vai debater abertamente sobre o tema

sexta-feira, 10 de junho de 2022

Paradez

  Miguel oliveira panão*

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Numa das suas visitas em campanha presidencial, John F. Kennedy apertava as mãos dos mineiros que saíam da mina com as caras sujas de carvão. Um dos mineiros parou em frente a Kennedy e disse — «Percebi que você nunca teve de trabalhar um dia na sua vida.» — ao que Kennedy admitiu ser verdade. Mas o mineiro continua — «Não perdeu nada.» Esta história contada por Jack Graham no seu livro “A Man of God” aponta para uma característica da vida humana que está a perder-se.

A palavra inglesa idle significa parado. Por isso, idleness traduziria por “paradez”. Se trabalho a mais esgota-nos, um pouco de “paradez” é saudável para o corpo-mente-espírito de cada ser humano. Na Teoria da Paradez, como foi proposta por Chris Davis, sobrevivem aqueles que satisfazem as suas necessidades com a menor quantidade de trabalho possível. Esses parecem ser os preguiçosos, mas só aparentemente. Em 1947, Clarence Bleicher estava diante de um comité do Senado americano como executivo da Chrysler, uma grande empresa de automóveis, e disse — «o homem preguiçoso encontrará um modo fácil de fazer o que tiver para fazer. Pode não fazer muito, mas encontrará um modo fácil de fazer as coisas … Essa tem sido a minha experiência.» Foi a partir desta impressão que surge a ideia que paira entre muitos CEO de empresas de que se existe um trabalho duro para fazer, o melhor é encontrar a pessoa mais preguiçosa de entre os trabalhadores. Pois, essa encontrará a maneira mais fácil de fazer esse trabalho. Em última análise, quer dizer que “paradez” não é sinónimo de inactividade.

Nos últimos tempos tem-se falado muito de sobrecarga de trabalho, falta de tempo para coisas mais profundas porque andamos assoberbados de uma lista infindável de tarefas a cumprir. Depois, alguns casos resultam em burnout, uma palavra da moda para esgotamento e para quê? Mais uns trocos ou garantir ter uns trocos a mais? Muitas vezes esquecemo-nos que o lazer é uma actividade e a “paradez” é o tempo em que não estamos activamente a meter todos os esforço em algo que dá lucro, mas em algo que dá vida: o descanso.

Vários cientistas, como por exemplo Charles Darwin, não eram bem sucedidos apesar do tempo que dispendiam com lazer, mas seria antes através do lazer que desenvolviam a sua criatividade. Pois, o lazer proveniente dos espaços de tédio leva a mente a vaguear pelos pensamentos. Ao fazê-lo, aumenta a possibilidade de se cruzarem ideias inesperadamente que produzem as soluções para os problemas que nos intrigam. Porém, hoje sabemos como o primeiro amigo abatido pelos smartphones foi o tédio.
Ninguém gosta do tédio e, por isso, a primeira coisa que faz quando o sente é tirar o smartphone do bolso, verdade? Mas não são os momentos de tédio que mais nos fazem sentir a necessidade de manter o cérebro ocupado? Diz Celeste Headlee no seu livro ”Do nothing - Break away from overworking, overdoing e underliving” — «quando permitimos às nossas mentes que relaxem e descansem, essas voltam ao que chamamos de “rede por defeito” (“default network”). Esta é a parte do cérebro que vasculha por toda a informação nova que recebemos recentemente e tenta colocá-la num contexto que conhecemos. A “rede por defeito” é integrada na aprendizagem, intelecções e na imaginação. Se as nossas mentes nunca descansarem, não haverá oportunidade de vaguearem em novas direcções.»A paradez dá uma nova percepção sobre as coisas, uma nova consciência.

Porém, ainda que nos apresentem todos os estudos científicos que demonstram a importância de equilibrar o trabalho com os momentos de lazer, muitas pessoas têm dificuldade em compreender este equilíbrio e convencem-se da moral inerente à famosa história da Cigarra e da Formiga: se não trabalharmos, não nos preparamos para os tempos de adversidade. E estou plenamente de acordo com a importância de não entrar no extremo de nada fazer aplicando sistematicamente a “Lei do Menor Esforço”. O problema é que se o excesso de lazer é perigoso, o excesso de trabalho pode ser pior. E nem todos estamos sensíveis para o limiar que indica vivermos em permanente excesso de trabalho e da mente estar sempre a trabalhar. É que se a mente não pára de vez em quando, um dia paramos de vez, e tudo o que trabalhámos para ter e dar uma vida melhor aos que mais amamos fica comprometido.

Quando paramos a mente para viver um momento de lazer cognitivo, damos a nós próprios a oportunidade de nos reconectarmos com a criatividade e voltar a pensar reflexivamente. Estas são duas actividades essenciais na “paradez” que nos fazem progredir na busca das coisas profundas que desenvolvem em nós uma vida plena. Não custa experimentar. Basta parar.

* Professor na Universidade de Coimbra e Doutorado em Engenharia Mecânica pelo Instituto Superior Técnico. Membro do Movimento dos Focolares. Pai de 3 filhos, e curioso pelo cruzamento entre fé, ciência, tecnologia e sociedade. O último livro publicado em self-publishing intitula-se KeepUp - Organização do Tempo de Estudo à venda na Amazon. Em filosofia, co-editou Ética Relacional: um caminho de sabedoria da Editora da Universidade Católica.

Fonte:  https://www.imissio.net/artigos/49/4732/paradez/?utm_source=email&utm_campaign=daily

quinta-feira, 9 de junho de 2022

A família e a alegria do amor

MARIA CLARA BINGEMER* 
 
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Volto de Roma, onde participei de um seminário na Universidade Gregoriana, pensado a propósito dos cinco anos da Exortação “Amoris Laetitia” e que aconteceu apenas este ano devido à pandemia. Organização impecável, alto nível de conferencistas e debatedores, frutíferas discussões. E o consenso de que bons tempos vão sendo vividos pelas famílias cristãs com a abertura que esse grande documento pontifício traz.

A perspectiva não é a casuística estreita e legalista que fez muitos casais e famílias sofrerem, dilacerados entre a fidelidade à sua fé e sua pertença eclesial e os apelos novos e surpreendentes que a vida lhes trazia. É, ao contrário, a porta aberta e luminosa da alegria. A alegria do amor, única verdadeira. Assim quer o Papa Francisco que seja vista e concebida a família: lugar de vivência da alegria do amor.

A família é inicialmente lugar de formação a uma consciência crítica. Trata-se do primeiro fórum onde as pessoas aprendem a ler e avaliar o mundo que é sua casa. Esse fórum pedagógico é formado de pessoas que se ajudam umas às outras a tomar consciência dos desafios do mundo em que habitam para discerni-los e enfrentá-los com alegria. Isso é verdade no que diz respeito aos esposos, mas também de maneira especial quando se trata da formação das crianças. No número 261 da Amoris Laetitia, o Papa Francisco afirma que para formar moralmente uma criança é preciso ajudar a criar em seu interior, com amor, processos de maturação da liberdade de formação na cultura de uma autêntica autonomia.

Essa liberdade e autonomia levam forçosamente a que a criança possa ser e situar-se não apenas protegido e ao abrigo de todo percalço no seio da família, mas exposto aos problemas de seu meio, alguns muito duros, conflitivos e dolorosos. Porém, aí em meio a esses desafios estará sempre acompanhada, sem ser dominada ou que lhe seja imposta a leitura feita por outros. Ao revés, será instada e acompanhada para avaliar e discernir o que se lhe apresenta da realidade, a fim de poder tomar atitudes e decisões.

A tomada de consciência sobre todas as questões que a realidade lhe traz ao encontro proporciona aos jovens e adultos que formam a comunidade familiar a perplexidade diante da velocidade com a qual as coisas mudam, caracterizando uma mudança de época. E essa constatação, que aflora à consciência, leva ao espírito que atravessa do começo ao fim o documento papal: não se pode, no que diz respeito às questões de moral, simplesmente repetir fórmulas antigas que não repercutem mais nas pessoas e não fazem nem mesmo sentido para as mesmas. 

A exortação Amoris Laetitia concebe – em profunda sintonia com o que diz constantemente o Papa Francisco – a vida moral baseada essencialmente nos exemplos e testemunhos. Assim, a teologia moral seria como uma pedagogia, tecida de numerosos exemplos, nos quais os casais e as famílias possam reler sua própria experiência e dela aprender. E assim crescer como comunidade. Se damos crédito ao que diz Paulo VI no documento Evangelii Nuntiandi – que as pessoas hoje em dia escutam mais as testemunhas que os mestres – estes exemplos são cruciais para a credibilidade da família enquanto instituição.

Na beleza desse desafio, a sexualidade deve ser vivida enquanto dinamismo constitutivo e essencial da vida e ser assumida na dinâmica familiar e na vida de fé em um sentido mais largo. Um verdadeiro crescimento integrado das e nas famílias não pode perder de vista que a sexualidade hoje apresenta aspectos muito diversos aos do passado, com consequências vitais igualmente diversas. Os distintos modelos de família revelam essa comunidade humana como multicêntrica e configurada em modelos muito diversos, que não podem ser ignorados.

Segundo a lógica do Evangelho, a família não existe para si mesma nem pode existir autocentrada e voltada para a consecução de sua própria virtude e excelência. Isso estabeleceria uma dicotomia malsã entre a vida privada do lar e a dimensão pública do mundo e da sociedade. A família existe no mundo e para o mundo. E é pela escuta das necessidades e prioridades deste mundo e desta sociedade que deve desenvolver sua identidade e prioridades pedagógicas e ativas. A proposta e o apelo do Evangelho dirigem-se aos que formam uma família no sentido de que ela não se autocompreenda como fim em si mesma, mas sim como uma comunidade que existe para que o mundo seja mais justo e mais humano.

A mensagem cristã não é feita para seres perfeitos, mas para seres humanos com imperfeições, ambiguidades e pecados. A Amoris Laetitia relembra à Igreja que ela deve ser capaz de dialogar com todas as pessoas, mesmo as que estariam em situação irregular perante a Igreja que amam e à qual querem continuar a pertencer. É enquanto seres criados com um corpo sexuado que a salvação nos é proposta. A Igreja não quer ser juíza implacável do modo pelo qual as pessoas administram e vivem sua sexualidade, mas apresentar-lhes a alegria do amor. Assim, a sexualidade será fonte de alegria e não de repressão, tristeza, violência, opressão. A humanização da sexualidade seria um objetivo a perseguir com a ajuda da graça.

Ao término do seminário, em encontro com o Papa Francisco, pudemos ouvir de sua boca a confirmação do vivido e refletido naqueles dias: é preciso saber buscar as fontes e a primeira raiz sem andar para trás. Anda-se para a frente, não para trás. Andar para trás não é cristão. Conciliar a fidelidade às fontes mais profundas e originárias do amor e vivê-lo caminhando para a frente é o desafio posto às famílias que hoje desejam viver a alegria desse amor.

Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “Teologia Latino-Americana: raízes e ramos” (Editora Vozes)

Fonte:  https://www.jb.com.br/pais/opiniao/artigos/2022/06/1037853-a-familia-e-a-alegria-do-amor.html  Imagem da Internet

Habermas: “A conversão dos ex-pacifistas leva a erros e mal-entendidos”

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09 Junho 2022

Em uma guerra é compreensível que as emoções estejam à flor da pele. No entanto, o proeminente filósofo alemão Jürgen Habermas pede que não nos deixemos levar pelo afã de guerra ou por uma “política do medo”. Insiste na razoabilidade e na “consideração integral”.

A reportagem é de Marc Vandepitte, publicada por Rebelión, 08-06-2022. A tradução é do Cepat.

O fim do pacifiso alemão

Um dos acontecimentos mais marcantes e inesperados desta guerra é a virada radical que a Alemanha deu em termos de armamento e esforço de guerra. O país não tem uma verdadeira indústria bélica, gastava relativamente pouco em armamento no passado, e seu governo geralmente tem sido muito moderado em conflitos militares. Recordemos os casos do Iraque em 2003 ou da Líbia em 2011.

Do ponto de vista histórico, é mais do que compreensível e sensato. No passado, a militarização da Alemanha provocou, em duas ocasiões, uma conflagração global com dezenas de milhões de mortes. Portanto, é melhor não voltar a essa situação.

Há uma segunda razão para a relutância alemã em participar do conflito atual. Após a queda do Muro de Berlim em 1989, o capital alemão dirigiu-se para a Europa Oriental e Central. Fortes laços econômicos foram estabelecidos com a Rússia, entre outros.

Fora da União Europeia, a Rússia era até recentemente o quarto país mais importante para as importações alemãs e o quinto para as exportações de produtos alemães. Especialmente no campo da energia, os alemães dependem muito da Rússia: para o gás 32%, para o petróleo 34% e para o carvão 53%.

Portanto, o capital alemão não tem nada a ganhar com um conflito prolongado, muito menos com sua escalada, pelo contrário. São, ao contrário, principalmente os Estados Unidos que têm interesse nisso. Pelo menos é assim que Willy Claes, ex-chefe da OTAN, vê a situação. Segundo ele, esse conflito é essencialmente um “confronto entre a Rússia e os Estados Unidos” no qual “a Europa não desempenha nenhum papel”. Ele ressalta que para os Estados Unidos “pode se prolongar um pouco mais” (1).

No início da invasão, o governo federal alemão mostrou-se especialmente comedido pelas duas razões mencionadas, para aborrecimento de países como os Estados Unidos, o Reino Unido e os Estados do leste da União Europeia. Eles pressionaram o chanceler Scholz para que abandonasse essa relutância.

A pressão da mídia foi ainda maior. O fato de quase todo mundo ter um smartphone no bolso faz desta a guerra mais midiática da história do mundo. Podemos acompanhar quase online o sofrimento desta guerra nos detalhes mais macabros, o que desperta muitas emoções, mesmo longe do campo de batalha.

Além disso, a grande mídia usa uma abordagem de Hollywood: os mocinhos contra os bandidos. Esse tipo de abordagem é excelente para as vendas e, além disso, desperta as emoções da opinião pública. Mas essa forma de reportar não deixa espaço para nuances ou para abordagens equilibradas como as adotadas pelo governo alemão no início do conflito.

Finalmente, Olaf Scholz sucumbiu à grande pressão, e a política externa pacifista dos últimos 75 anos chegou ao fim. Nos próximos anos, a Alemanha gastará até 100 bilhões de euros a mais em armas e também houve promessas de entrega de armas para a Ucrânia.

Um dilema incômodo

Jürgen Habermas escreveu um artigo de opinião no Suddeutsche Zeitung que vai contra essa pressão sobre o chanceler alemão e a ruptura com o passado pacifista. Habermas é o filósofo alemão mais proeminente e respeitado, quase o Chomsky da Alemanha.

O filósofo de 92 anos expõe o dilema incômodo que o Ocidente enfrenta: uma derrota na Ucrânia ou a escalada de um conflito limitado que pode se transformar na Terceira Guerra Mundial. Neste “espaço entre dois males” o Ocidente optou por não participar diretamente desta guerra.

Para Habermas, é uma decisão acertada, porque “a lição que aprendemos com a Guerra Fria é que uma guerra contra uma potência nuclear não pode mais ser ‘vencida’ em um sentido razoável, pelo menos não pela força militar”.

O problema é que, nesse caso, Putin determina quando “o Ocidente ultrapassa o limite estabelecido pela lei internacional, acima do qual também considera formalmente o apoio militar à Ucrânia como o início de uma guerra por parte do Ocidente”. Isso dá ao lado russo uma vantagem assimétrica sobre a OTAN, que não quer se tornar parte da guerra devido às proporções apocalípticas que uma guerra mundial envolvendo quatro potências nucleares pode ter.

Por outro lado, o Ocidente “não pode se deixar chantagear à vontade. Se o Ocidente simplesmente deixasse a Ucrânia por conta própria, não seria apenas um escândalo do ponto de vista político e moral, mas também não seria do seu próprio interesse”. O roteiro do que aconteceu na Geórgia e na Moldávia (2) poderia então se repetir e, pergunta Habermas, “quem seria o próximo?”

Nesse desconfortável cenário, Habermas comemora o fato de que o chanceler alemão não se deixe levar por uma “política do medo” e que insista em uma “consideração politicamente responsável e global”.

O próprio Scholz resumiu sua política no Der Spiegel da seguinte maneira: “Nós estamos enfrentando o sofrimento que a Rússia está infligindo à Ucrânia com todos os meios à nossa disposição, sem provocar uma escalada incontrolável que cause sofrimento imensurável em todo o continente, talvez até no mundo inteiro”.

Os beligerantes

Mas Scholz está sob forte pressão. Enfrenta uma “feroz batalha de ideias, alimentada por vozes na imprensa, sobre a natureza e a extensão do apoio militar à sofrida Ucrânia”.

Além disso, o personagem principal, o presidente Zelensky, é um ator talentoso, “que conhece o poder das imagens e cria mensagens poderosas”. Os “mal-entendidos políticos e as decisões equivocadas dos governos alemães anteriores” tornam-se assim simplesmente uma “chantagem moral”.

Habermas refere-se aqui, por um lado, à continuação da política de distensão após a queda da União Soviética, mesmo quando Putin se tornou imprevisível, e, por outro, à dependência do petróleo russo barato.

Essa chantagem moral “arrancou os jovens de suas ilusões pacifistas”. Refere-se explicitamente a Annalena Baerbock, a jovem ministra das Relações Exteriores dos Verdes, “que se tornou um ícone, que expressou sua comoção de maneira autêntica com gestos confiáveis e uma retórica confessional imediatamente após a eclosão da guerra”.

Três dias após a invasão, Baerbock fez um discurso emocionado perante o Parlamento alemão. Como em outros países, os Verdes alemães têm fortes raízes no movimento pela paz. É, portanto, muito surpreendente que foram principalmente os Verdes alemães que pressionaram dentro do governo para entregar mais armas e mais rapidamente.

Habermas está particularmente incomodado com a “retórica beligerante” e “a autoconfiança com que os promotores moralmente indignados da Alemanha agem contra um governo federal ponderado e comedido”. Eles assediam o chanceler com “exigências míopes”.

Segundo Habermas, “a conversão dos ex-pacifistas” leva a “erros e mal-entendidos”, há uma “confusão de sentimentos”. Esses “agitados opositores à linha governamental […] são incoerentes ao negar as implicações de uma decisão política que não questionam” (3).

Scholz soube manter a calma até agora. Teve de fazer concessões, mas continua a adotar uma atitude cautelosa e moderada, especialmente em comparação com a atitude beligerante dos Estados Unidos ou da Grã-Bretanha. A Alemanha prometeu aumentar o fornecimento de armas à Ucrânia, mas são promessas, e seu cumprimento é, de qualquer forma, lento.

Ao contrário dos países mais beligerantes, como Estados Unidos, Grã-Bretanha e os países bálticos, França, Alemanha e Itália mantêm um diálogo aberto com a Rússia. Por exemplo, Scholz e Macron tiveram uma conversa telefônica com Putin para negociar, entre outras coisas, o desbloqueio das exportações de alimentos da Ucrânia.

Putin

Habermas também está incomodado com o “enfoque em Putin como pessoa”. Isso “leva a especulações selvagens, que nossos principais meios de comunicação espalham hoje, como no apogeu da sovietologia especulativa”.

A mídia pinta uma imagem de “um ambicioso visionário” que “vê a restauração gradual do Grande Império Russo como a obra de sua vida política”. Diante desse “perfil de personalidade de um nostálgico histórico enlouquecido está um curriculum de progresso social e a trajetória de um homem forte, racional e calculado”.

Habermas interpreta a invasão da Ucrânia “como uma reação frustrada à recusa do Ocidente em negociar a agenda geopolítica de Putin”.

Para Habermas, Putin é “um criminoso de guerra” que merece comparecer perante o Tribunal Penal Internacional. Mas ao mesmo tempo assinala que o presidente russo ainda tem direito de veto no Conselho de Segurança e pode ameaçar seus oponentes com armas nucleares.

Gostemos ou não, será com ele que teremos que “negociar o fim da guerra, ou, pelo menos, um armistício”.

Notas

(1) Willy Claes no programa de televisão belga De Afspraak em 24 de maio: “Se posso dizê-lo um pouco descaradamente, trata-se agora de um confronto entre a Rússia e os Estados Unidos. Com todo o respeito e simpatia para com os ucranianos, e a propósito, a Europa não está envolvida. […] Em suma, é do interesse dos Estados Unidos que se prolongue por mais algum tempo. […] Este é um momento de ouro para a indústria bélica, que é estadunidense por definição”.

(2) Em 2008, a Rússia invadiu a Geórgia para apoiar as autoproclamadas repúblicas da Ossétia do Sul e da Abcácia em seu conflito com o governo central da Geórgia. Os russos se retiraram após uma trégua, mas mantiveram uma zona de segurança nas áreas de conflito. Algo semelhante aconteceu antes na Moldávia no período 1990-1992.

(3) Refere-se à decisão da OTAN de não se envolver diretamente nesta guerra.

Fonte:  https://www.ihu.unisinos.br/619365-habermas-a-conversao-dos-ex-pacifistas-leva-a-erros-e-mal-entendidos

A maior surpresa da guerra da Ucrânia pode cair no colo de Putin

 Thomas Friedman*


A guerra na Ucrânia ainda trará consequências inesperadas e poderá reduzir a fonte do poder russo

THE NEW YORK TIMES - Aqui vai um fato surpreendente: num momento em os americanos não conseguem concordar virtualmente a respeito de nada, existe uma consistente maioria a favor de conceder ajuda econômica e militar à Ucrânia em sua luta contra o esforço de Vladimir Putin de varrer o país do mapa. Isso é duplamente surpreendente se considerarmos que a maioria dos americanos não conseguia nem sequer localizar a Ucrânia no mapa poucos meses atrás, já que se trata de um país com o qual nunca tivemos nenhuma relação especial.

Mas sustentar esse apoio será duplamente importante, já que a guerra na Ucrânia se assenta numa fase tipo “sumô” – com dois lutadores gigantes, cada um tentando empurrar o outro para fora do ringue, e nenhum deles disposto a desistir nem capaz de vencer.

Ainda que eu espere alguma erosão, à medida que as pessoas percebam o quanto esta guerra está elevando os preços da energia e dos alimentos globalmente, ainda tenho esperança de que uma maioria de americanos segurará as pontas até que a Ucrânia seja capaz de recuperar sua soberania militarmente ou de alcançar um acordo de paz decente com Putin. Meu otimismo no curto prazo não decorre da leitura de pesquisas, mas da leitura da história – em particular, do novo livro de Michael Mandelbaum The Four Ages of American Foreign Policy: Weak Power, Great Power, Superpower, Hyperpower (As quatro eras da política externa americana: potência menor, grande potência, superpotência, hiperpotência).

Mandelbaum, professor emérito de política externa americana na Escola de Estudos Internacionais Avançados da Universidade Johns Hopkins (escrevemos um livro juntos em 2011), argumenta que, apesar de as atitudes dos Estados Unidos em relação à Ucrânia poderem parecer absolutamente inesperadas e inéditas, elas não são nada disso. Consideradas no contexto do arco da política externa americana – que este livro narra de maneira envolvente pelas lentes das quatro relações de poder que os EUA mantiveram com o mundo – essas atitudes se mostram, na realidade, bastante familiares e previsíveis. Tanto que, se Putin e o presidente da China, Xi Jinping, lessem o livro, ambos se beneficiariam.

Ao longo da história americana, nosso país oscilou entre duas abordagens gerais em relação a política externa, explicou Mandelbaum em entrevista ecoando um assunto crucial em seu livro: “Uma delas dá ênfase ao poder, ao interesse nacional e à segurança – e é associada a Theodore Roosevelt. A outra coloca a tônica na promoção dos valores americanos – e identifica-se com Woodrow Wilson.”

Ainda que essas duas visões de mundo com frequência se rivalizem, a coisa nem sempre foi assim. E quando uma questão de política externa desafia tanto nossos interesses quanto com nossos valores, ela aciona uma resposta certeira, capaz de dispor de apoio público amplo, profundo e duradouro.

“Isso aconteceu na 2.ª Guerra e na Guerra Fria e parece estar acontecendo em relação à Ucrânia”, notou Mandelbaum.

Mas a enorme questão é: Por quanto tempo? Ninguém sabe, pois as guerras seguem rumos tão previsíveis quanto imprevisíveis.

O caminho provável em relação à Ucrânia é que, à medida que os custos se elevem, a discórdia aumentará – tanto nos EUA quanto entre nossos aliados europeus – sob a argumentação de que nossos interesses e valores estão mal equacionados na Ucrânia.

A dissidência argumentará que não somos capazes nem de arcar economicamente com o apoio à Ucrânia até o ponto em que o país vença totalmente a guerra – por exemplo, expulsando o Exército de Putin de cada centímetro da Ucrânia – nem estrategicamente, porque, afrontado por uma derrota total, Putin poderia apelar para armas nucleares.

Já foi possível detectar sinais nesse sentido no discurso do presidente da França, Emmanuel Macron, no sábado, quando o líder francês declarou que a aliança ocidental “não deve humilhar a Rússia” – uma fala que suscitou uivos de protesto da Ucrânia.

Comprometido com a vitória

“Todas as guerras na história dos EUA provocaram dissidência, incluindo a Guerra de Independência, quando os que discordavam se mudaram para o Canadá”, explicou Mandelbaum. “O que nossos três maiores comandantes-chefes – George Washington, Abraham Lincoln e Franklin D. Roosevelt – tiveram em comum enquanto presidentes em tempo de guerra foi sua habilidade em manter o país comprometido com a vitória, apesar da discórdia.”

Isso será um desafio também para o presidente Joe Biden, especialmente quando não existe nenhum consenso entre os aliados, nem na Ucrânia, a respeito do que seria a “vitória” nesta guerra: será alcançar o objetivo atualmente declarado por Kiev de recuperar cada centímetro de território ocupado pela Rússia? Será possibilitar à Ucrânia, com a ajuda da Otan, aplicar um castigo tão severo ao Exército russo até que Putin seja forçado a um acordo que resulte em concessões, e ele continue ocupando território? E se Putin decidir que não quer nenhuma concessão – e, em vez disso, quiser que a Ucrânia sofra uma morte lenta e dolorosa?

Nas duas guerras mais importantes da nossa história, a Guerra Civil e a 2.ª Guerra, afirmou Mandelbaum, “nosso objetivo foi a vitória total sobre o inimigo”. “O problema para Biden e nossos aliados é que nosso objetivo não pode ser uma vitória total sobre a Rússia, pois isso poderia provocar uma guerra nuclear. Mas, ainda assim, algo parecido com uma vitória total pode ser a única maneira de impedir Putin de fazer a Ucrânia sangrar eternamente.”

O que nos leva ao imponderável: depois de mais de 100 dias de combates, ninguém é capaz de prever como esta guerra acabará. Ela começou na cabeça de Putin e provavelmente acabará apenas quando Putin disser que quer que ela acabe. Putin provavelmente sente que está dando as cartas e o tempo está ao seu lado, pois é capaz de aguentar mais castigo do que as democracias ocidentais. Mas grandes guerras são coisas estranhas. Seja qual for o modo que elas tenham começado, elas podem acabar de maneiras totalmente imprevistas.

Guerra na Ucrânia: Kharkiv tenta se reerguer enquanto teme nova invasão russa

Uma escola de inglês no distrito de Saltivka foi atingida esta semana. Uma mulher morreu. Foto: Stefan Weichert/Estadão
Parte externa da escola de inglês no distrito de Saltivka atingida por bombardeio russo. Foto: Stefan Weichert/Estadão
Um gato vivendo com seu dono no metrô de Kharkiv, que se tornou lar para muitos moradores da cidade. Foto: Stefan Weichert/Estadão

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Permitam-me oferecer um exemplo por meio de uma das citações favoritas de Mandelbaum, da biografia que Winston Churchill escreveu a respeito de seu grande ancestral, o Duque de Marlborough, publicada nos anos 30: “Grandes batalhas, vencidas ou perdidas, alteram totalmente o curso dos eventos, criam novos padrões de valores, novos humores, novos ambientes em exércitos e nações, aos quais todos têm de se conformar”.

Churchill quis dizer, segundo argumenta Mandelbaum, que “guerras são capazes de mudar o curso da história, e grandes batalhas com frequência decidem guerras. A batalha entre Rússia e Ucrânia pelo controle da região no leste ucraniano, conhecida como Donbas, tem potencial para ser essa batalha”.

E de muitas maneiras. Os 27 países da União Europeia, nossa principal aliada, constituem de fato o maior bloco econômico do mundo. Eles já se movimentaram decisivamente para romper laços comerciais e investimentos na Rússia. Em 31 de maio, a UE concordou em cortar 90% de suas importações de petróleo da Rússia até o fim de 2022. Isso não castigará apenas os russos, impingirá também um castigo severo sobre consumidores e industriais europeus, que já pagam valores astronômicos por gasolina e gás natural.

Mas tudo isso ocorre num momento em que fontes renováveis de energia, como solar e eólica, tornam-se competitivas economicamente em relação aos combustíveis fósseis – e num momento em que a indústria automobilística global eleva significativamente a escala de produção de veículos elétricos e novas baterias.

No curto prazo, nada disso é capaz de suprir a queda nos fornecimentos russos. Mas se tivermos um ou dois anos de preços astronômicos de gasolina e combustível para nos aquecer por causa da guerra na Ucrânia, “veremos uma aplicação massiva do investimento de fundos mútuos e da indústria em fabricação de veículos elétricos, melhorias em redes de transmissão de eletricidade e baterias de longo armazenamento, o que poderia livrar todo o mercado de qualquer dependência de combustíveis fósseis, em favor das fontes renováveis”, afirmou Tom Burke, diretor do Third Generation Environmentalism (E3G, ou Ambientalismo de Terceira Geração), um instituto de pesquisas ambientais. “A guerra na Ucrânia já está forçando todos os países e empresas a avançar dramaticamente com seus planos de descarbonização.”

De fato, um relatório publicado na semana passada pelo Centro para Pesquisa sobre Energia e Ar Limpo e pelo instituto Ember, que analisa o setor de energia globalmente e tem como base o Reino Unido, constatou que 19 dos 27 países da UE “elevaram significativamente suas ambições em termos de acionamento de energia renovável desde 2019, enquanto decresceram a geração planejada sobre combustíveis fósseis até 2030, para se proteger de ameaças geopolíticas”.

Um artigo publicado recentemente na revista McKinsey Quarterly notou: “As guerras navais do século 19 aceleraram a transição de embarcações movidas pelo vento para os navios movidos a carvão. A 1.ª Guerra ocasionou a transição do carvão para o petróleo. A 2.ª Guerra introduziu a energia nuclear como relevante fonte de eletricidade. Em todos esses casos, inovações de guerra fluíram diretamente para a economia civil e engendraram uma nova era. A guerra na Ucrânia é diferente no sentido de que não está ocasionando a inovação energética em si, mas está evidenciando sua necessidade. Ainda assim, o possível impacto poderia ser igualmente transformador”.

Que baita surpresa… Se esta guerra não destruir o mundo inadvertidamente, poderá inadvertidamente ajudar a preservá-lo. E, com o tempo, fazer encolher a principal fonte de dinheiro e poder de Putin. Não seria irônico? TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

*É COLUNISTA E GANHADOR DE TRÊS PRÊMIOS PULITZER

Fonte:  https://www.estadao.com.br/internacional/thomas-friedman-a-maior-surpresa-pode-ser-para-putin-leia-artigo/ 09/06/2022

 

O milagre do perdão

 Anselmo Borges* 

 

Participei há anos no funeral gigantesco de um jovem padre francês. Na África do Sul. Tinha sido morto por engano na estrada, com a mira do roubo. Os pais não puderam estar presentes fisicamente. Fizeram-no do modo mais nobre e emocionante: o bispo leu àquela multidão o texto em que eles declaravam que perdoavam de coração aos assassinos.

No Evangelho, se há tema que volta sempre de novo é o do perdão. É preciso perdoar sempre. De coração. O próprio Jesus, do alto da cruz, perdoou aos seus algozes.

Mas o perdão é um milagre, como reconheceu o próprio filósofo J. Derrida, remetendo para a religião. Um milagre no sentido intenso da palavra. É algo de espantosamente admirável, porque transcende a lei da simples justiça. No âmbito da justiça pura, ninguém pode ser obrigado a perdoar e ninguém pode exigir o perdão. Perdoar é do domínio da generosidade, ser perdoado é da ordem da graça: ser perdoado é ser agraciado, receber uma graça. A justiça contabiliza. O perdão desfaz a lei do cálculo. Por isso, até na linguagem corrente, referente a pequenas ofensas, o ofendido dirá a quem pede desculpa: "Deixa lá, não foi nada!" A essência do perdão é a anulação do cômputo e da permuta, substituídos pelo dom. Quem ofendeu já não deve, porque o ofendido esqueceu a dívida, não tem em conta a ofensa. Assim, em verdade não perdoou a mulher que todos os dias repetia ao marido, que tinha tido uma "escapadela": "Não te esqueças que eu te perdoei de todo o coração!"

A justiça no seu rigor estrito não contempla o perdão. Mas, sem o perdão, a vida torna-se intolerável, pois quem ofendeu é devorado pela culpa, e o ofendido, roído pela vingança.

Apesar de tudo, há algum fundamento para o perdão? Em primeiro lugar, tenha-se em conta a compreensão pela fragilidade humana: se os seres humanos pudessem contar a sua história desde a raiz e até ao fim - o que será sempre impossível, pois desconhecemos a nossa raiz e o nosso fim -, a quantos se negaria compreensão? Mas há sobretudo a lei do ser, que é dom: antes de eu te dar seja o que for - também o perdão -, eu já recebi, existir é ser recebido desde sempre da Fonte, que dá sem nada exigir em troca e, por isso, mora no abscôndito.

Também por isso, perdoar mesmo só o Criador pode fazê-lo. De facto, a ofensa é uma ferida no ser, que a criatura, no limite, mesmo que a vítima perdoe, não pode propriamente reparar. Quem restitui ao jovem padre francês assassinado as suas possibilidades mortas para sempre? Só o Criador pode fazê-lo. É assim que o perdão da criatura não pode desvincular-se da memória. Perdoar não coincide com esquecer. Mesmo se a vítima esqueceu, perdoando, quem ofendeu tem de lembrar, para que o mal nunca mais se repita. Quem foi perdoado é convocado ao arrependimento e a uma vida nova. Como disse Kierkegaard, "tudo está esquecido, mas lembra-te do perdão".

Concretizando. Uma das situações em que o ser humano é confrontado com o limite é o caso do perdão do algoz por parte das vítimas mortas, como se torna palpável na história contada por Simon Wiesenthal numa obra sobre Auschwitz. Como contou Jürgen Moltmann, o judeu Wiesenthal era prisioneiro num campo de concentração e foi chamado ao leito de morte de um chefe nazi, que lhe queria confessar a ele, o judeu, que tinha participado nos fuzilamentos em massa de judeus na Ucrânia. Queria pedir-lhe perdão, para poder morrer em paz. Wiesenthal disse-lhe que podia ouvir a confissão do assassino, mas que não podia perdoar-lhe, pois "nenhum vivo pode perdoar em nome dos mortos aos seus assassinos". Não pode fazê-lo, porque não tem o direito nem o poder para isso. E Wiesenthal ficou tão abalado com esta impossibilidade de perdoar que escreveu a muitos filósofos e teólogos europeus a contar-lhes a sua história, que publicou, com as respostas, num livro com o título: Die Sonnenblume (O girassol).

A razão, para não sucumbir à parcialidade, se quiser ser verdadeiramente universal, não pode não ser "razão anamnética", isto é, tem de se deixar iluminar pela memória das vítimas. E é imprescindível a memória para que as tragédias acontecidas não voltem a acontecer... Por outro lado, quem fará justiça às vítimas, também para que os algozes possam reconciliar-se e encontrar a paz?

O místico é aquele que caminha com Deus e para Deus, mas sem abandonar a noite. Ele não se distingue do crente e do descrente, que simultaneamente somos com dor e sofrimento, por já ter sido subtraído à noite na qual todos os mortais vivemos submersos. "Distingue-se por ter avançado na noite o suficiente para que a noite seja para ele "amável como a alvorada" (...), outra forma de luz", como escreveu o teólogo Juan Martin Velasco. Para muitos, em nenhum lugar da História esta experiência mística em que culmina a experiência de Deus foi tão radical como na cruz de Cristo, onde, segundo a fé cristã, "Deus se revela de forma definitiva e, por isso, insuperavelmente obscura". Aí, precisamente na dor insuportável da sua "ausência", nessa noite de trevas, Deus está infinitamente presente, escutando aquela oração simultaneamente desesperada e confiante, que atravessa os séculos: "Meu Deus, meu Deus, porque é que me abandonaste?; Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem".

Os cristãos ousam acreditar que Deus ressuscitou de entre os mortos esse Crucificado, que o foi por blasfémia e sublevação do povo oprimido político-religiosamente.

NEle, Deus revelou-se solidário para sempre com todas as vítimas.

 

*Padre e professor de Filosofia/Portugal. no Diário de Notícias

Escreve de acordo com a antiga ortografia. Imagem da Internet

Fonte: https://pela-positiva.blogspot.com/2022/05/o-milagre-do-perdao.html?utm_source=feedburner&utm_medium=email

Ao amigo

TULIO MILMAN

 David Coimbra — Foto: RBS TV/Reprodução

Até pouco tempo atrás, eu não imaginava estar aqui. Aconteceu assim:

Fui visitar o David Coimbra há mais ou menos 30 dias. Fazia meses que não nos víamos, embora falássemos por WhatsApp ou por telefone de vez em quando. Combinei que chegaria às 16h30min. Era sábado. Me confundi.

Bati na campainha meia hora antes. Ato falho tão óbvio, que nem merece explicação. Me desculpei com a Marcinha. Logo o David desceu, com cara de sono e de dor. Conversamos por 40 minutos sobre trabalho, sobre chopes, sobre a vida e sobre o imbróglio político do Brasil. Lá pelas tantas, o David se deitou no sofá. "Sentado eu sinto dor", me disse, contraindo os músculos do rosto. Duas vezes, fiz menção de ir embora. Achei que ele precisava descansar. "Fica mais um pouco", me pediu em ambas. E eu fiquei.

Na terceira, fui.

Essa doença longa, com tantos altos e baixos, me deu a chance de uma despedida diluída em 10 anos. Não sei se é melhor ou pior, mas foi assim. Nas Olimpíadas de Londres, em 2012, o David já se queixava de uma dor bem no meio do peito. Era a metástase óssea, descobriu depois.

Lembrei desse fato quando, ao sair, bati o portão da casa do David naquele sábado. Tive a sensação de que não voltaria a vê-lo. Certeza a gente nunca tem. Entrei no carro emocionado, mas não triste. Pensei nos anos todos, nas aventuras, nas viagens, no pub irlandês de Boston, nas conversas. Pensei na Jaqueline, minha esposa, que me foi apresentada por ele. Lembrei quando combinamos, Jaque e eu, que nosso bebê se chamaria David se fosse um menino. Veio uma menina, a Maya. "Maya David", eu brincava com meu amigo, que dava gargalhadas.

Agora, ele segue me dizendo: "Fica mais um pouco". No nosso último encontro, não pedi o mesmo a ele, embora quisesse, porque entendi exatamente o que estava acontecendo ali. E aconteceu. Faz duas semanas. Na quarta passada, meu telefone tocou.

Fiquei feliz ao saber quem escreveria na última página de ZH, a do David. "É uma escolha óbvia", eu disse à Marta Gleich, quando ela me convidou para escrever onde antes o Carpinejar, agora promovido, derramava seus saberes e suas incertezas existenciais.

Há duas semanas, eu não imaginava estar aqui. Agora, é um jeito possível de ficar perto do David, um colega que sempre chamei de amigo. E sobre o qual não precisei, como tantas vezes acontece em meio às emoções da despedida, exagerar adjetivos e elogios ao falar sobre ele, depois da sua morte.

*Jornalista
Fonte: https://flipzh.clicrbs.com.br/jornal-digital/pub/gruporbs/acessivel/materia.jsp?cd=b2137a5a1f409cfd1f6a6ca3d855d4ec 09/06/2022 - Imagem da Internet

A distância entre o médico e o paciente

 J. J. Camargo*

Rembrandt / Reprodução 
"A Lição de Anatomia do Dr. Nicolaes Tulp", pintura de Rembrandt (1606-1669)

Um clínico da velha guarda se queixou de como a tecnologia está acelerando a "americanização" dos nossos futuros doutores

Durante meus anos de formação médica, ouvi muitas vezes de professores renomados a recomendação de que devíamos manter uma certa distância afetiva dos pacientes para evitarmos que uma interação mais densa pudesse afetar a neutralidade, que seria imprescindível para a isenção na busca do diagnóstico, especialmente das doenças com desfechos ruins.

Logo depois, o convívio temporário com o formalismo cultural americano só fez reforçar essas teorias.

A partir daí, o exercício médico intenso, mergulhado por escolha (e vá lá, por vocação!) na alta complexidade, onde a proximidade da morte impõe regras de sobrevivência que precisam ser adaptadas ao perfil de cada indivíduo exposto ao enfrentamento de situações extremas, começaram a emergir o que chamo de atualizações de conduta profissional.

Um computador de última geração nunca tomaria a iniciativa de oferecer aquela pequena frase.

A primeira percepção foi de que a atitude rígida recomendada pelos mestres da primeira hora era apenas uma adequação à pobreza afetiva de quem precisava usar o distanciamento como uma forma de manter-se protegido da falta de humanismo que os constrangia. E o ar constante de superioridade era um requinte indispensável na completude do disfarce. 

Convivendo com americanos, foi fácil perceber que a impessoalidade das relações humanas, com poucas exceções, era uma característica cultural em que há um recato na exteriorização de qualquer sentimento, alegre, triste, egoísta ou generoso. E que não se pense que não haja nenhuma virtude nesse jeito de ser, porque estaríamos ignorando o quanto há de bom caráter na previsibilidade das atitudes, que o julgamento apressado dos latinos não reconhece nos anglo-saxões.

Em resumo, somos diferentes, e assumir as diferenças é sermos menos intolerantes com as críticas.

Um dia desses, um clínico da velha guarda, carinhoso e chorão, lamentou o quanto a americanização da nossa juventude médica está sendo acelerada pela tecnologia, que, segundo ele, "com seus braços longos está aumentando ainda mais a distância entre o médico moderno no jeito de ser impessoal e o paciente antiquado no seu jeito de sofrer".

O conflito que se estabelece é que não podemos abrir mão da tecnologia sem fraudarmos a expectativa de quem nasceu nessa época maravilhosa em que a medicina foi agraciada com avanços impensáveis há poucos anos. O que não justifica que um médico ingênuo ou mal-intencionado esteja autorizado a imaginar que a parafernália disponível possa dispensar a figura pessoal do médico. Essa subversão do entendimento tornaria insuportavelmente cruel a experiência de adoecer entre robôs superequipados apenas de inteligência artificial.

Um amigo médico famoso encheu a tela do computador de pura emoção ao relatar, numa das sessões do nosso Curso de Medicina da Pessoa, a sua experiência de uma primeira consulta, rodeada de medo e fantasia de morte, com um especialista de um grande centro, que na despedida sintetizou em duas palavras o que todo o paciente assustado persegue, e um computador de última geração nunca tomaria a iniciativa de oferecer: "Estamos juntos". 

Uma frase curta mas com uma dimensão que só consegue avaliar quem precisa que alguém esteja ao alcance da mão. Porque é assim que somos e seremos: aterrorizados, não conseguimos ser mais do que carentes.

* José de Jesus Peixoto Camargo, ou simplesmente J.J. Camargo, é um médico, escritor e palestrante gaúcho. Formou-se em Medicina na UFRGS em 1970, especializando-se em cirurgia torácica e completando sua formação acadêmica na Clínica Mayo, nos Estados Unidos.Cronista da ZH.

Fonte:https://gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/jj-camargo/noticia/2022/06/a-distancia-entre-o-medico-e-o-paciente-cl41tw7a5003d019ibafunkou.html 09/06/2022

La fragilidad

Pablo Blázquez

historia ‘Le surfeur’, por Jean Jullien.

Nuestra época no tiene el monopolio de la desazón. La historia es una sucesión de situaciones críticas y por eso los profetas y los discursos apocalípticos siempre encuentran un público hambriento. Y no se trata tanto de buscar consuelo en las cicatrices del tiempo como de sacudirse ese adanismo y ese ensimismamiento narcisista que nos hace sentirnos tan especiales, tan distintos, tan víctimas de nuestra época.

Una de las ideas más repetidas sobre la pandemia es que nos desnudó con violencia, devolviéndonos a la fragilidad y a la insignificancia azarosa de nuestra existencia. El hombre se volvía a sentir vulnerable, como ese ciervo asustado de los poemas de Panero que escucha –¡baaaang!– el sonido del rifle en mitad de la noche. Nos despedimos de una crisis para dar la bienvenida a otra, pero las heridas sociales y anímicas que nos hacen sentir tan quebradizos aún no se han cerrado. Ahora, con la resaca a cuestas de tres crisis globales (financiera, sanitaria y bélica), la angustia cotiza al alza en estos nuevos locos años veinte de la historia en los que los fabricantes de ansiolíticos no dejan de hacer caja.

Y en ese cenagoso malestar se detiene con lucidez envidiable –ese es el peligro de las buenas compañías que tenemos en Ethic– el filósofo Javier Gomá en el tema de portada que ha escrito para este número 52 de la revista, un artículo largo sobre la crisis de la democracia liberal y los claroscuros de la condición del hombre moderno. Gomá es un tipo que sabe pensar; es decir, es algo así como una especie en peligro de extinción y en su artículo, pone el foco en ese malestar que se ha instalado entre nosotros como una tubería podrida. Ese descontento no atiende al balance rotundamente óptimo que en términos históricos viene generando ese esfuerzo colectivo y errático al que llamamos progreso.

Ortega nos advirtió en La rebelión de las masas sobre la inconsciencia y el desapego del hombre en relación con la herencia y los privilegios que recibimos de la historia y de las generaciones que nos precedieron. Tener elecciones libres, que las universidades no sean cotos privados restringidos a unos pocos, abrir el grifo de la cocina y que salga agua fresca, contar con un hospital público a una distancia razonable de casa o poder plantarse tras unas horas de avión en Nueva York, Tel Aviv o Sri Lanka son conquistas que nos han sido dadas gracias al esfuerzo acumulado y a la creatividad y ambición de quienes nos precedieron. Sin embargo, nuestra inteligencia y nuestra cartografía emocional se muestran incapaces de sentir gratitud por todo ese legado que hemos recibido.

«La historia es una sucesión de situaciones críticas, por eso los profetas siempre encuentran un público hambriento»

Nuestro talento se revela mucho más eficaz a la hora de escudriñar la parte más desfavorable de la balanza y también de cimentar las rencillas y el odio frente a esos enemigos públicos –que a veces son molinos y otras, gigantes– contra los que se vive mejor, pues le suelen dar forma a ese sentimiento de náusea e impotencia que a veces nos acompaña. Esta división cainita supone otra herida profunda. De toda esa carroña, como sabemos, se alimentan populistas de uno y otro plumaje. Tampoco deberíamos pasar por alto que la desigualdad no sirve, por sí sola, para explicar las profundas corrientes eléctricas por las que circula el malestar creciente. Ojalá fuera tan fácil como lo pintan algunos.

Nuestra época no tiene, ya lo sabemos, el monopolio de la desazón. La historia es una sucesión de situaciones críticas y por eso los profetas y los discursos apocalípticos siempre encuentran un público hambriento. No se trata tanto de buscar consuelo en las cicatrices del tiempo como de sacudirse ese adanismo y ese ensimismamiento narcisista que nos hace sentirnos tan especiales, tan distintos, tan víctimas de nuestra época. «Little boy lost, he takes himself so seriously», cantaba Bob Dylan. Siempre nos ha acompañado una letanía amarga, un cante jondo, una canción de amor desesperado. Aunque en las bodas de Caná no les faltara el vino, los mitos que moldeamos y que nos han moldeado sirvieron para expulsarnos de un edén para el que nadie ha vuelto a encontrar las llaves. En un gesto tan heroico como temerario, Prometeo robó el fuego para dárselo a los mortales y le hicieron pagar por ello: un águila devoraba su hígado cada día hasta que fue liberado por Hércules, que por allí pasaba.

«Las fronteras entre el bien y el mal se desdibujan continuamente, aunque algunos cráneos privilegiados lo vean todo siempre tan claro»

En el siglo XIX, los ilustrados reivindicaron el ideal de felicidad al mismo tiempo que Kierkegaard, el padre del existencialismo, ilustraba nuestra perpetua inclinación a la angustia. En el XX, Sartre dijo eso de que «el infierno son los otros», mientras que el mundo se dotaba de una Declaración Universal de Derechos Humanos. Las fronteras entre el bien y el mal se desdibujan continuamente, aunque algunos cráneos privilegiados lo vean todo siempre tan claro. Realidades divergentes y antagónicas conviven en el tiempo y en el espacio. Ese fuego cruzado hace que a los homínidos se nos vuele la cabeza con cierta frecuencia. Tampoco debemos flagelarnos por ello. A veces, simplemente, toca seguir circulando.

La historia y la condición del hombre es, en parte, la historia de un grito desesperado, tan desgarrador e impactante como refleja el popular cuadro de Munch que hace unos años pudimos admirar en el Thyssen gracias a esas cosas del mundo moderno que mencionábamos antes. Pero también es la historia de la búsqueda de la belleza, que a veces se nos regala y otras tantas es el resultado de una esforzada conquista; del amor que muchas veces nos lleva al éxtasis y que desde luego nos mantiene vivos, juntos y esperanzados; de la inteligencia que en ocasiones hace que brillemos por dentro como si nos hubiéramos comido una ración de luciérnagas; o del humor, que alcanza su forma más elevada cuando le hacemos caso a Bob Dylan y aprendemos a reírnos de nosotros mismos y de esa insignificancia nuestra que tanto nos pesa. Me mola pensar que el protagonista de la pintura de Munch se quedó a gusto después de dar ese grito y se fue a tomar unos vinos con sus amigos, a quienes llevaba tiempo sin ver por unos u otros motivos. Su vida continuó: unos días bebía buen whisky y se iba con una mujer hermosa a la cama; otros, mordía el barro y daba vueltas, solo y de noche, por una ciudad que colgaba del cielo y parecía abandonada por esos dioses que nunca fuimos los hombres 

Fonte: https://ethic.es/2022/06/opinion-historia-la-fragilidad/

terça-feira, 7 de junho de 2022

O silêncio bizarro

CARPINEJAR*

A Rolls-Royce fabricou um carro com total isolamento dos ruídos externos e do motor.

Só que a reação não foi a esperada. Vários usuários reclamaram para a empresa de um mal-estar, de uma situação bizarra de desconforto quando conduziam o veículo. Parecia que ele andava sozinho, de modo automático.

Os engenheiros foram estudar o problema e perceberam que o problema era a ausência de problema. Os motoristas estavam sentindo falta de um barulho. De um barulhinho qualquer. Para ter a sensação de que o transporte era real, de que não estavam sendo teletransportados de um lugar para outro.

Sem qualquer referência sonora, acabavam desorientados. Perdiam a noção da velocidade e do espaço. Como se estivessem presos dentro de uma infinita estática. Numa experiência similar à de um passageiro em um trem-bala.

Não havia domínio humano ou determinação geográfica. Tal como transe, os destinos se embaralhavam.

Para solucionar o caso, os projetistas inventaram um som a partir do rebatimento das ondas sonoras do porta-malas, que ressoasse pelos bancos e pelas portas da cabine.

Consumimos cada vez mais produtos e aparelhos silenciosos e esquecemos o quanto o ruído é fundamental como pêndulo da nossa existência, da nossa memória, da nossa saudade.

O que seria da minha manhã sem o cacarejar da cafeteira quando termina a água? Ou do chiado da chaleira para o chimarrão? Ou das tentativas de faísca do fogão? Ou da mudança de rotação do chuveiro elétrico? Ou do clique da chave certa na porta?

Extraviaria os meus referenciais de lugar, de casa, de vida doméstica. Eu me atrasaria para os compromissos, eu esqueceria os aparelhos ligados na tomada, eu enlouqueceria numa dinâmica espartanamente quieta.

Talvez eu começasse a ouvir vozes imaginárias, sirenes imaginárias, apitos imaginários. Apenas pela necessidade da paz de um barulho familiar.

Somos condicionados a ter rotina e horários pelos ouvidos. A audição nos disciplina. Eu antecipo a chegada de minha esposa do trabalho pelos pneus na garagem quando ela dá a ré para estacionar. Isso que moramos no terceiro andar.

Visto a princípio como um defeito para a tecnologia, o barulho é uma virtude da convivência. Nunca nos percebemos isolados. Vem a representar um princípio de companhia.

Há uma ancestralidade de intimidade, eco das residências pelas quais passamos, que não pode ser apagada de uma hora para outra. Ainda mais para quem foi criado com uma geladeira roncando - ela também tinha estômago - e aprendeu a dirigir num fusca, com a impressão de que o motor ia no colo.

Abriria uma exceção apenas para o aspirador de pó e o secador de cabelos, realmente irritantes.

*Fabrício Carpi Nejar: Poeta, cronista, jornalista gaúcho.

Fonte: https://flipzh.clicrbs.com.br/jornal-digital/pub/gruporbs/acessivel/materia.jsp?cd=011fe0bc8c26222e9032e1571e903e3e - Imagem da Intenet

segunda-feira, 6 de junho de 2022

O METAVERSO DA INFÂNCIA

 ROSANA REGO CAIRUGA*

https://plenarinho.leg.br/wp-content/uploads/2021/11/Post_Metaverso.jpeg

Déficit de natureza! Se existe uma consequência visível que o isolamento social causou nas nossas crianças, é a falta do natural. E, acredite, essa é uma lacuna gravíssima, que gera problemas físicos e desajustes motores, por exemplo, além de transtornos mentais, como depressão, hiperatividade e dificuldade de concentração.

Tudo acontece na natureza! Para as crianças, esse é o maior parque de diversões do mundo, uma fonte inesgotável de vivências únicas, criatividade e aprendizado contínuo. Criança feliz tem mãos na terra e pés descalços, sente o gosto dos pingos da chuva e o perfume da grama úmida. Mais do que nunca, é necessário encontrarmos formas de conectar as crianças com o meio natural.

Todos nós precisamos da natureza em nossas vidas, e elas, também! Se não podemos ter uma floresta ao nosso alcance, que tenhamos plantas na nossa casa, no nosso apartamento, nos espaços de convívio, em qualquer lugar. Para além do virtual, a atmosfera natural proporciona conexões inimagináveis e duradouras. Nada substitui a experiência vivida que faz memória: nossa fonte provedora dos sentimentos e da humanização.

A natureza é, sem dúvida, o principal meio de conexões do ser humano. Ela é como um metaverso da infância: dá aromas, sabores, cores e texturas, aguçando habilidades sensoriais, e impacta diretamente questões relacionadas ao desenvolvimento. Urge, portanto, investirmos em novas possibilidades para que as crianças possam viver a natureza em sua plenitude.

Quando pensamos em educação, uma mudança possível é, sem dúvida, reconfigurarmos os espaços escolares, dando vez à natureza e à sustentabilidade. É uma mudança simples, mas transformadora, uma questão de atitude! Ensine a plantar, estimule o cultivo e compartilhe a alegria da colheita, do desabrochar de um pequeno botão.

A hora é agora. Não podemos mais esperar, sob pena de privar as próximas gerações desse convívio essencial para a formação de qualquer ser humano. É um investimento real que transforma o presente e dará lindos frutos no futuro.

Fonte:  https://flipzh.clicrbs.com.br/jornal-digital/pub/gruporbs/acessivel/materia.jsp?cd=4f7559aae170c696db0b3a917f5530c8  - Imagem da Internet

domingo, 5 de junho de 2022

O banco é um macho nu, sempre pronto para dar o bote

Marilene Felinto*

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 Cartões de crédito - Gabriel Cabral - 9.out.18/Folhapress

Ao trocar de banco, cometi erro atrás de erro, confundida pela tecnologia avançada e solitária a ponto de chorar

Trocar de banco, na tentativa de diminuir cobranças de taxas e fugir do fictício rendimento da poupança, da falsa correção monetária, da ilusão do crédito, é como trocar de monstruosidades.

No processo de troca de banco, cometi erro atrás de erro, confundida pela tecnologia avançada, solitária demais na minha rudimentar capacitação para operar no mundo informatizado: tão solitária a ponto de chorar.

O banco humilha. O banco está nu e oculto pela arquitetura do aplicativo, por trás do processamento dos dados da virtual cliente. Como se encabulado, e para não chocar, ele se esconde, nu. E age como um voyeur: exigiu um autorretrato da selfie-cliente, um de frente e outro de perfil. Não quer saber da existência física da pessoa. Relaciona-se à distância, na realidade apenas hermético-digital, codificada em senhas e confirmações em mais de uma etapa.

Não está nem aí para a pessoa em carne e osso —pelo contrário, recomenda privacidade e criptografias no relacionamento com a token-usuária, preservação em pastas secretas, para que ninguém descubra. Instalado na intimidade dos aparelhos celulares, o banco é pornográfico-seguro, uma arapuca online, um software que se finge de suave, mas que, na verdade, paga ("remunera") o quanto quer, cobrando taxas e juros extorsivos, como um cafetão explorador.

Altamente tecnológico, valoriza a inovação, o risco, a agilidade, a velocidade, o protagonismo —ignora os sem-tecnologia da informação, a lentidão das gerações mais velhas, o desconhecimento e a inacessibilidade dos pobres, dos sem-nada.

Na sua sanha acumuladora de lucros sobre lucros, na sua usura exacerbada, e dizendo, na sua linguagem financista, que o capital não tem pátria, o banco vai extorquindo o salário, este que, sim, é nacional-brasileiro, pauperizado até a miséria.

Na sua frieza de engrenagem, na sua hostilidade de máquina sequestradora de cartão de crédito e com sua inteligência artificial, o banco vai traçando o design da distopia: robotizado, aposta no individualismo, na não pessoa por trás do link, no androide replicante sem alma humana.

O banco inflaciona a epidemia de solidão deste "século solitário", como diz a economista britânica Noreena Hertz, século do distanciamento, dos smartphones, da economia sem contato.

As raízes mais profundas de nossa atual crise de solidão, afirma Noreena, estão na revolução neoliberal dos anos 1980 e nos princípios implacáveis do livre mercado, que, ao dar licença à ganância e ao egoísmo, reformulou fundamentalmente não apenas as relações econômicas como também nossas relações uns com os outros.

O banco é imoral —não age para construir um país habitável, para implantar uma sociedade solidária. Pelo contrário, é insaciável, está empanzinado de lucro e fortuna (enriqueceu até o fastio, como dizia Darcy Ribeiro) à custa do trabalho do povo.

Trocar de banco foi um verdadeiro tormento, um mergulho cego numa plataforma de identificação, autenticação e captura à distância, na virtualidade alienante de uma "tech" monstruosa. Não sei em que caixa preta o banco jogou minha selfie de frente e de perfil.

Para onde foi meu autorretrato? Para qual arquivo digital? Quem é o banco? O que é um token e, mais ainda, um token não fungível? Onde foram parar meus dados? Eles são fungíveis? Como processaram meus documentos? O nome da minha mãe, por exemplo, como escreveram? O banco escreve? O banco insensível teria ouvido meu choro?

Como um homem nu, pronto para dar o bote, na sua voragem por mais e mais carteiras do mercado, e usando de todas as suas técnicas de camuflagem e marketing, o banco me construiu artificialmente (virei um autômato que tira fotos de si mesmo), estudou as condições materiais da minha existência, minha liquidez, minha capacidade monetária, de investimento, de empréstimo. E me catalogou no perfil final dos sem-riqueza, daqueles para quem a prosperidade é inalcançável.

Não se vê, mas o banco é macho —atua à vontade no terreno do falocentrismo, da violência típica do masculino que agride, rouba, assalta, assedia, provoca guerras e mata. O banco é feio e cresceu para cima de mim como um macho grosseiro, de barriga abaulada de tanto que se empanturrou de cifras bilionárias. O banco é central e incontrolável monopólio, de um gigantismo tal que o país se apequena, encolhe submisso frente a ele.

O banco é um macho nu, pronto para dar o bote e que, no que se refere a mim, uma infeliz como eu, sem dinheiro nem criptomoeda, sem valores na Bolsa e que, portanto, não é ninguém neste Sul Global —quanto a mim, uma selfie-mulher usuária desajeitada e pobretona, o que o banco faz é especular diariamente sobre o modo mais automático de me estuprar todo mês.

*Escritora e tradutora, autora de “As Mulheres de Tijucopapo”. Email: textosfazendaria@gmail.com
Fonte:  https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marilene-felinto/2022/06/o-banco-e-um-macho-nu-sempre-pronto-para-dar-o-bote.shtml