quinta-feira, 2 de março de 2023

“O Concílio Vaticano II foi na verdade uma visita de Deus à sua Igreja”. Entrevista com o Papa Francisco (1a. parte)

 A entrevista é de Emmanuel Van Lierde

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Por ocasião do décimo aniversário de seu pontificado, o Papa Francisco concordou em conceder uma entrevista a Emmanuel Van Lierde. Na primeira parte desta entrevista exclusiva ao semanário belga Tertio/CathoBel, Francisco fala sobre a paz na Ucrânia e a situação na República Democrática do Congo, mas também sobre o estado da Igreja.

A entrevista é de Emmanuel Van Lierde, publicada por CathoBel, 28-02-2023. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

O nome que você escolheu como papa também incluiu um programa. Nos passos de Francisco de Assis, você quer reconstruir e renovar a Igreja, preocupa-se com os pobres e a terra, trabalha pela paz e importa-se com o diálogo inter-religioso. Outro fio condutor para entender o seu pontificado é o Concílio Vaticano II (1962-1965), mesmo que você seja o primeiro papa a não ter participado dele fisicamente. Por que a busca pela realização deste Concílio lhe é tão importante? O que está em jogo?

Os historiadores dizem que é preciso um século para que as decisões de um concílio entrem plenamente em vigor e sejam implementadas. Então temos mais 40 anos pela frente… Estou tão preocupado com o Concílio porque este evento foi na verdade uma visita de Deus à sua Igreja. O concílio foi uma daquelas coisas que Deus faz na história através de pessoas santas. Talvez quando João XXIII o anunciou, ninguém percebeu o que iria acontecer. Dizem que ele mesmo pensou que estaria concluído em um mês, mas um cardeal reagiu dizendo: “Comece a comprar os móveis e tudo mais, porque levará anos”. Ele levou isso em conta, mas João XXIII foi um homem aberto aos apelos do Senhor. É assim que Deus fala ao seu povo.

E ali, Ele realmente nos falou. O Concílio não trouxe apenas uma renovação da Igreja. Não é uma questão de renovação, mas um desafio para tornar a Igreja cada vez mais viva. O Concílio não renova, ele rejuvenesce a Igreja. A Igreja é uma mãe que sempre vai em frente. O Concílio abriu as portas a um maior amadurecimento, mais sintonizado com os sinais dos tempos. A Lumen Gentium, por exemplo, a Constituição Dogmática sobre a Igreja, é um dos documentos mais tradicionais e, ao mesmo tempo, um dos mais modernos, porque na estrutura da Igreja o tradicional – se bem entendido – é sempre moderno. Isso ocorre porque a tradição continua a se desenvolver e a crescer.

Como disse o monge francês Vincent de Lérins no século V, os dogmas devem continuar a se desenvolver, mas de acordo com esta metodologia: “Ut annis scilicet consolidetur, dilatetur tempore, sublimetur aetate” (“Que sejam consolidados pelos anos, expandidos pelo tempo, exaltados pela idade”). Ou seja: a partir da raiz, continuamos sempre a crescer.

O Concílio deu esse passo adiante, sem cortar a raiz, porque isso não é possível se queremos produzir frutos. O Concílio é a voz da Igreja para o nosso tempo, e neste momento, por um século, estamos colocando-o em prática.

É uma imagem estranha: a Igreja é como uma mãe que não envelhece, mas fica cada vez mais jovem...

Incrível, sim, mas assim é a Igreja: ela rejuvenesce sem perder sua sabedoria secular.

A contínua implementação e realização do Concílio inclui o incentivo à sinodalidade. O que espera e o que imagina através do processo sinodal? O que isso realmente significa? É um estilo de governo e de liderança que deriva das ideias do Concílio?

Há um ponto que não devemos perder de vista. No final do Concílio, Paulo VI ficou muito chocado ao descobrir que a Igreja do Ocidente quase tinha perdido a sua dimensão sinodal, ao passo que as Igrejas Católicas Orientais souberam preservá-la. Ele anunciou, portanto, a criação do Secretariado do Sínodo dos Bispos, com o objetivo de promover novamente a sinodalidade na Igreja.

Nos últimos 60 anos, isso se desenvolveu cada vez mais. Aos poucos as coisas ficaram mais claras. Por exemplo, a questão de saber se apenas os bispos tinham direito de voto. Às vezes não estava claro se as mulheres podiam votar... Durante o último sínodo sobre a Amazônia, em outubro de 2019, houve um amadurecimento a este respeito.

Um fato peculiar ocorreu então. Quando um sínodo termina, aqueles que participaram e todos os bispos do mundo são consultados sobre o tema que gostariam de ver na agenda do próximo sínodo. O primeiro tema mencionado foi o sacerdócio e depois a sinodalidade. Aparentemente, este foi um tema compartilhado por todos os bispos que sentiram que era hora de abordá-lo.

Por ocasião do 50º aniversário deste órgão permanente do Sínodo dos Bispos, os teólogos já haviam feito um balanço do mesmo em um documento. Percorremos um longo caminho, estamos aqui agora e devemos seguir em frente. É o que estamos fazendo através do atual processo sinodal. Os dois sínodos sobre a sinodalidade nos ajudarão a esclarecer o significado e o método da tomada de decisões na Igreja.

É importante deixar claro que um sínodo não é um parlamento. Um sínodo não é uma pesquisa de opinião à esquerda e à direita. Não. O principal protagonista de um sínodo é o Espírito Santo. Se o Espírito Santo não está presente, não pode haver sínodo. Um sínodo é uma experiência eclesial cujo presidente e ator principal é o Espírito Santo. O Espírito trabalha de duas maneiras.

Primeiro, Ele transforma o sínodo em um canteiro de obras. Pense na manhã de Pentecostes: que canteiro de obras! Com sua profusão de carismas, o Espírito parece criar a desordem e o caos. E, no entanto... Ele cria a ordem! Ou, ao contrário, é melhor dizer que Ele cria a harmonia: uma espécie de ordem superior. Não é por acaso que São Basílio de Cesareia [c. 330-379, nota do editor] escreve em seu tratado sobre o Espírito Santo, quando ele quer definir este Espírito: “Ipse harmonia est”, “Ele próprio é a harmonia”. E é precisamente isso que se experimenta em um sínodo.

Outra coisa interessante: em um sínodo, conversa-se muito. Cada participante, por sua vez, faz um discurso de quatro minutos. Depois de três intervenções, seguem-se agora sempre quatro minutos de silêncio, um tempo de oração, para que o Espírito nos ajude. Considerar um sínodo como um parlamento é um erro. O sínodo é uma assembleia de crentes. É uma assembleia de fé guiada pelo Espírito Santo, mas também tentada e seduzida pelo espírito maligno!

Em nossa entrevista de 2016, o senhor mencionou a Terceira Guerra Mundial que estamos vivendo em capítulos. Hoje, a situação não é melhor, mas pior, com ainda mais guerras como a da Ucrânia. Não é ingenuidade pensar que a paz ainda pode ser alcançada com um agressor como o presidente Vladimir Putin, que anexou várias regiões? Acima de tudo, não deveríamos colocar obstáculos no caminho do ditador? Que papel pode desempenhar aqui a diplomacia vaticana?

O Vaticano levou esse conflito a sério desde o primeiro dia. No dia seguinte à invasão, fui pessoalmente à embaixada da Rússia – algo que nunca havia sido feito por um papa e que normalmente não faz. Coloquei-me à disposição para ir a Moscou e garantir que esse conflito não continuasse.

Desde o início até hoje, o Vaticano tem estado no centro da ação. Vários cardeais já estiveram na Ucrânia, o cardeal Konrad Krajewski (ex-capelão papal, agora prefeito do Dicastério para o Serviço da Caridade) já esteve lá seis vezes para ajudar o povo ucraniano. Ao mesmo tempo, estamos constantemente falando com o povo russo para ver o que pode ser feito.

Esta guerra é terrível, é uma imensa atrocidade. Há muitos mercenários lutando. Alguns são muito cruéis. Há tortura; crianças são torturadas. Muitas crianças que moram na Itália com suas mães, refugiadas, vêm me ver. Nunca vi uma criança ucraniana rir. Por que essas crianças não riem? O que elas viram? É aterrorizante, verdadeiramente aterrorizante. Essas pessoas estão sofrendo, estão sofrendo com o conflito. Também estou em contato com os ucranianos. O presidente Volodymyr Zelensky enviou várias delegações para falar comigo.

Daqui estamos fazendo o que podemos para ajudar a população. Mas o sofrimento é muito grande. Lembro-me de meus pais que me diziam: “A guerra é uma loucura”. Não há outra definição. Nós nos envolvemos muito nesta guerra porque ela está acontecendo perto de nós.

Mas há anos existem guerras no mundo às quais não prestamos atenção: em Myanmar, na Síria – já são 13 anos de guerra –, no Iêmen, onde as crianças não têm educação nem pão, onde passam fome… Em outras palavras: o mundo realmente ainda está em guerra. Em relação a isso, há uma coisa que deve ser denunciada: é a grande indústria armamentista. Há um comércio de armas. Quando um país rico começa a enfraquecer, diz-se que precisa de uma guerra para se manter e se fortalecer ainda mais. E as armas são preparadas para isso.

Mas há também o comércio de armas. Alguns estão se livrando dos arsenais antigos que possuem e experimentando novas armas. É horrível. Diz-se que a Guerra Civil Espanhola foi usada para testar armas para a Segunda Guerra Mundial. Não sei se é verdade, mas armas sempre são testadas, não é? É a indústria da destruição, a indústria da guerra, de um mundo em guerra. Em cerca de um século, conhecemos três grandes guerras mundiais: 14-18, 39-45, e a guerra atual que é também uma guerra mundial, na qual os países ricos renovam seus arsenais.

Quando fui à região italiana de Redipuglia para o centenário da Primeira Guerra Mundial, uma das minhas primeiras viagens como papa em 2014, vi todas aquelas sepulturas lá (durante a guerra, a linha de frente com as tropas austro-húngaras, estava lá; o cemitério militar contém cerca de 40.000 soldados italianos identificados que morreram em combate, e outros 70.000 não identificados, nota do editor) e eu chorei. Chorei! Minha avó viveu essa guerra e me contou coisas que carrego dentro de mim. Todo dia 2 de novembro, vou a um cemitério.

Foi assim que, há alguns anos, fui ao cemitério de Anzio, em Roma, para celebrar o Dia dos Finados, e vi os túmulos e as idades dos rapazes: 18 anos, 19, 20 anos… Mais uma vez, não pude deixar de chorar. Por que essa loucura para aqueles rapazes? Quando alguns chefes de governo organizaram um ato comemorativo pelo 60º aniversário do desembarque na Normandia, pensei na crueldade desse desembarque, porque os nazistas esperavam por isso. Eles sabiam.

Segundo relatos, 30.000 jovens morreram na praia. Eu penso em uma mãe. O carteiro bate em sua porta e entrega-lhe uma carta. Ela a abre e lê: “Senhora, temos a honra de informar que você tem um filho que é um herói”. “Eu tive um filho e eles o mataram”, reagiu. Toda guerra é um fracasso. Mas não aprendemos. E agora que estamos vivendo mais uma de perto, espero que, se Deus quiser, finalmente aprendamos a lição... Começou com Caim e Abel, e continua até hoje. Para mim é muito doloroso, muito doloroso, e não posso escolher um lado, a guerra é um mal em si mesma.

Na Bélgica, também estamos muito preocupados com a guerra e a violência na República Democrática do Congo.

Lembro-me de quando o rei Balduíno estava lá para proclamar a independência, eles tomaram a espada dele, não foi? Era um símbolo. Sim, a violência em Goma, no nordeste do Congo, onde estão os guerrilheiros ruandeses... Essas guerras duram anos, mas nós as ignoramos. Nós vemos a Ucrânia porque está perto de nós. A guerra é loucura, é suicídio, é autodestruição. A paz, por favor, a paz!

Fonte:  https://www.ihu.unisinos.br/626577-em-edicao-a-paz-por-favor-a-paz-entrevista-com-o-papa-francisco

Religião e Esperança

Luiz Sureki, SJ*

 https://facimage.faculdadejesuita.edu.br/v/hSe3bdABF0257

O que posso conhecer? 
O que devo fazer?
 Se sei que faço o que devo, o que me é permitido esperar? 

Essas três célebres perguntas formuladas pelo filósofo alemão Immanuel Kant abarcam todo o campo do interesse humano. A epistemologia responde à primeira pergunta, a ética à segunda, a religião à terceira.

Se é a religião a que deve responder à pergunta pela esperança do ser humano, segue-se que a mensagem religiosa deve se caracterizar por comunicar-lhe uma Boa Notícia, afinal o objeto da esperança é um bem. Mas, de que bem falam as religiões?

Em geral, as religiões falam de um bem definitivo, supremo, elevado, pleno, imperecível, eterno, que diz respeito à vida do esperante e que é, então, expresso por termos como felicidade, vida eterna, salvação etc.

Assim como a meta não se confunde com o caminho que a ela conduz, o bem definitivo que a religião anuncia não se confunde com a própria religião. Toda religião se apresenta como um caminho que pretende conduzir o homem à (sua) meta definitiva, à plena realização ou salvação. Se várias são as religiões, vários também deverão ser os caminhos. Não é necessário que as pessoas tomem uma atitude apologética e intransigente segundo a qual só pode haver um único caminho, uma só religião verdadeira, um só meio para se chegar a um fim. Como poderia alguém estar tão convicto acerca do término do caminho se, todavia, está a caminho?

A religião pode ser compreendida como caminho para o definitivo – seja qual for o termo empregado para denominar este ‘definitivo’. Apresentada esquematicamente temos: x ® y; sendo x a pessoa, y o definitivo, e ® o caminho que conduz x a y, ou seja, a religião propriamente dita.

No caso do cristianismo, a compreensão de caminho se alarga e se aprofunda. A razão é que o caminho cristão é constituído por uma “via dupla”. A salvação, a que o caminho conduz, é compreendida como participação do ser humano na vida divina (de Deus). Mas esse caminho que conduz à participação na vida divina não foi aberto e inaugurado pelo ir do homem a Deus, mas antes pelo vir de Deus ao homem. O humanizar-se do Logos divino abriu ao humano a possibilidade da participação na vida divina (divinização). Jesus Cristo inaugura a via da vinda divina à humanidade (primogênito/unigênito de Deus – Jo 1, 14.18; 3, 16; 1Jo 4, 9) e ele mesmo inaugura a via da ida da humanidade à divindade (primogênito dos mortos – Ap 1,5; 1Cor 15,20; Col 1,18). Ele é o próprio caminho: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem/vai a Deus senão por mim” (Jo 14,6).

Neste sentido, Encarnação e Ressurreição são indissociáveis. Encarnação sem ressurreição é o caminho da morte de Deus, do extinguir-se do Espírito, do fim da transcendência; e ressurreição sem encarnação é o caminho da ilusão, do espiritualismo etéreo, abstrato, do animismo “metafísico”, descorporizado, desencarnado, destituído de história.

Para falar do fim como um bem é necessário se haver antes com a origem. Se a origem do ser humano estiver circunscrita ao seu nascimento biológico, o fim estará determinado pela sua morte biológica. Hoje, são muitas as pessoas que vivem entre o berço e a sepultura. Na tradição bíblica, a origem da vida se compreende pela noção de criação. “O ser humano é criado…”. Por um lado, ser criatura significa não ter em si e por si mesmo a vida, e, por outro lado significa que a vida recebida é antes de tudo um dom do Criador. Quem compreende que vive porque Deus assim o quis, compreende também que viverá pelo mesmo motivo. O amor divino que antecede a vida espaciotemporal é o mesmo que a sustenta no espaço e no tempo e a sustentará na eternidade; o amor cria e recria, faz nascer e faz renascer, salva e é também a própria salvação.

“Deus é Espírito” (Jo 4, 24); o Espírito é o “Senhor que dá a vida”, e “e dar (a) vida” é a expressão mais sublime do amor (cf. Jo 15,13). Se assim o é, então a esperança cristã, inspirada pelo próprio Cristo Jesus, não tem outro bem senão o próprio Deus-Amor; e, do mesmo modo, o cristão não tem outro bem a fazer no mundo que seja maior do que amar os seus semelhantes no mundo que Deus ama (Jo 3,16).

O Evangelho da religião chamada Cristianismo se resume no amor de Deus pelos seres humanos e nos seres humanos. No amor de Deus se ancora a esperança humana. Esse mesmo amor divino por nós e em nós nos convida a anunciar essa Boa Notícia aos outros sem dissociá-la do nosso amor pelos outros. É inadmissível haver igrejas que se denominam cristãs anunciando ódio, incitando violência, promovendo divisões, desviando a esperança das pessoas para um falso bem, que pode ser comprado e vendido, que é revestido com propagandas de vida, mas que na realidade não passa de uma receita de morte.

Luiz Sureki, SJ é professor e pesquisador no departamento de Filosofia da FAJE

Crônica do país assassinado

 Por JURANDIR FREIRE COSTA*

Imagem: Jan van der Zee

Comentário sobre o livro O soldado antropofágico, de Tales Ab’Saber

Data: 1824-1826. Contexto: anos iniciais do Primeiro Reinado brasileiro. Cena: um mercenário alemão, Carl Schlichthorst, narra um episódio do cotidiano em seu livro O Rio de Janeiro como é, 1824-1825 – uma vez e nunca mais.

“…estirado num banco de pedra à frente de uma igreja, olhando o horizonte do mar,… ouvi pertinho de mim o som de uma marimba tocada por uma negrinha mimosa que se aproximara e me oferecera doces. Para não desapontar a menina, comprei um pedaço de marmelada, bebi de sua bilha e pedi-lhe que dançasse. Não se fez de rogada muito tempo…começou o fado, dança que na Europa seria julgada indecente e que aqui é inteiramente popular entre velhos e moços, brancos e pretos. ….A canção que a bela filha da África cantou, enquanto dançava, deveria ser mais ou menos esta:

Na terra não existe céu,
Mas se nas areias piso,
Desta praia carioca
Penso estar no paraíso!.”

A canção continuava, bem como o relato. O importante, contudo, é notar a utilização que Tales Ab’Sáber faz do trecho relatado. Num ritmo encantatório, ele desdobra o significado da cena em seu mágico O soldado antropofágico – Escravidão e não-pensamento no Brasil. Palavras, frases e figuras retiradas da música popular; do hinário “patriótico”; da poesia; da prosa ou das artes plásticas brasileiras são usadas numa associação livre que tempera o rigor da análise com o uso lúdico-estético da língua. O resultado “é a montagem de contradições entre modos de ser na sociedade escravista, imagens e psiquismos possíveis e suas posições no quadro do poder nacional, cujo conflito suspenso produz uma imagem única, chamada Brasil em suas origens”.

Francisco Bosco observou, de forma precisa, que seria incorreto descrever o trabalho como uma “versão psicanalítica da história brasileira”, com o conhecido vocabulário freudiano: traumas, repetições, recalques ou sublimações. De acordo. Isso, entretanto, não impede que se veja os vestígios da psicanálise onde eles existem.

Ao ler Tales, é quase impossível deixar de associar a ‘cena Schlichthorst’ a uma cena onírica. Comum as duas é o poder de condensação, dramatização dos conteúdos latentes ignorados pela percepção desinformada. No caso da cena cultural, o que é trazido à tona são manifestações eróticas insinuadas; táticas de sobrevivência dos mais frágeis; formas hierárquicas de poder e opressão; rebeldias incipientes ou persistentes; inovações artísticas imprevistas, em suma, formas de vida em ato que não encontram representação à altura de sua relevância cultural, política, ética e estética.

 Nisto reside a tese central de Tales: a inequívoca matriz da cultura brasileira foi construída por um povo que até hoje, em grande medida, viu-se privado da capacidade de representar aquilo que vive e produz. Os elementos que compõem a cena, de um lado um narrador estrangeiro, de outro uma escravizada brasileira, fornecem o código da genealogia da crueldade de nosso ethos cultural. O Brasil produtivo, positivo, que inventa modos de vida, de erotismo e de convivialidade só é dito por estrangeiros – Debret, Rugendas, Expilly, Luccock, Graham, Ewbank,-, e não por brasileiros do estamento branco/mestiço local. O antigo estrato escravocrata e seu herdeiro atual “neoescravista” impediram que a imensa maioria do ‘país Brasil’ conseguisse elevar ao nível do pensamento emancipatório a divisão entre os que pouco fazem e tudo têm e os muitos que fazem quase tudo e não têm nada. O estrato senhoril da época colonial/imperial e seus continuadores da República até agora, negaram ao povo brasileiro o acesso à cidadania social, política e econômica que lhe permitiria constituir um pensamento condizente com o valor do que produz culturalmente.

Em suma, a não-representação, o não-pensamento sobre a escravidão permitiu que os piores horrores fossem perpetrados pelos senhores contra os indivíduos escravizados. Posto que o nome “não podia ser pronunciado”, como disse Joaquim Nabuco, era como se a coisa não existisse. Fora do alcance da palavra, tudo era permitido.

Esta é uma fundamental contribuição de Tales ao tema da cultura popular brasileira e da carência de representação política de seus sujeitos. O sujeito “povo” será silenciado na história do país e o “sujeito do poder colonial, escravocrata, formará a base do sujeito do poder nacional”. O Brasil não foi apenas o país das “ideias fora do lugar”, ou seja, do “liberalismo escravagista”. Tornou-se, igualmente, um “lugar fora das ideias”, isto é, um experimento cultural cindido de sua possível representação crítica.

Ao lado disso, outra grande contribuição do autor parte desta primeira fratura entre experiência e representação. É neste ponto que ele traz um aporte psicanalítico que merece ser sublinhado em negrito. O estamento senhoril, além de excluir a cultura dos escravizados da unidade representativa do país, cavou uma lacuna entre ele próprio e a cultura europeia, com a qual se identificava de forma imaginária. As consequências do gesto foram humanamente destrutivas. O lugar vazio da escravidão foi ocupado pela alienação demente dos poderosos em relação a si mesmos. A escravocracia original e a neoescravocracia jamais quiseram se reconhecer no espelho da pobreza negra e mestiça, mas também jamais souberam o que fazer para ser admitidas no clube dos brancos europeus e norte-americanos que as rejeitam como membros. Criaram, então, uma terra de ninguém identitária que até hoje as assombra, na busca da identidade nacional perdida.

Esta clivagem brasileira, sublinhada por Tales a cada parágrafo, teve um custo gigantesco em vidas e sofrimentos. A camada privilegiada abusou o quanto pôde da cultura e da vida dos outros. E, no momento, em que estes outros reivindicam o estatuto de cidadão à parte inteira, a reação dos abusadores é no mínimo violenta, no máximo ensandecida e paranoide. A miséria identitária dos donos do poder volta-se contra os despossuídos ou os que falam em seus nomes, acusando-os de querer de “destruir” a unidade nacional; a “nossa democracia racial”; a identidade de um povo heroico, capaz de brados retumbantes.

Descrito em outra chave, os dilemas da branquitude brasileira romperam a barreira do desmentido e se mostraram á céu aberto. Ao querer posar de vitrine da identidade nacional, sem nada a ter a exibir, exceto a cultura pobre, negra e mestiça que despreza e procura esconder, o escravismo e o neoescravismo criaram um impasse: ou se calam ou são obrigados a dar voz ao que gostariam de emudecer. Donde as tentativas burlescas de inventar um mito de origem que os aproximasse do fetiche da branquitude europeia/norte-americana.

Tales dá alguns exemplos históricos de tentativas desse tipo. Uma delas, é o poema “Nicteroy”, de Januário da Cunha Barbosa, um dos fundadores do Instituto Histórico Geográfico Brasileiro. No poema, o escritor tenta enquadrar o Brasil na tradição greco-latina: “Niterói, filho do Gigante Minas e de Atlântida, era nascido de poucos dias…”. A baía de Guanabara e suas montanhas são chamadas a inscrever o Brasil na mais castiça tradição europeia. “Belas origens, como diz Tales, afirmativa de nossa veneranda tradição desmiolada”. Outro exemplo, tão desmiolado quanto, porém mais brutal: a estreia de O guarani, de Carlos Gomes, em 1870. A ópera, baseada no livro de José de Alencar, narra o mito da origem da nacionalidade brasileira. No palco, Cecília e Peri, fidalgos e caciques europeizados, e nenhum negro. Negro mesmo, só André Rebouças, único negro na plateia, e o pessoal de serviço: motoristas, montadores do cenário, servidores de comidas e bebidas e assim por diante.

O “kitsch arcaizante e politicamente reacionário” ganhará outras versões, diz o autor, e apenas em momentos luminosos da cultura virá a ser revelado. Foi assim no “Brás cubismo” de Machado, no modernismo de 1922 e no tropicalismo. Nesses eventos intelectuais a ambiguidade ou a brutalidade do escravismo e do neoescravismo foi denunciada. Em Machado, o solipsismo cultural e político “entre ricos” aparece na ironia com que são tratados as questões pessoais dos personagens de seus últimos romances; no modernismo e no tropicalismo o artifício crítico é outro. A cultura popular deixa de ser decoração de sambódromos, praias quentes e sensuais, estádios e rodas de samba para inglês ver, e é reconhecida em seu rico substrato ético/estético.

A constatação de Tales nos permite alargar a compreensão psicanalítica do que foi afirmado. Ao pensarmos na prática sociocultural do escravismo e do neoescravismo, não se pode deixar de pensar no que se define como recusa ou desmentido em psicanálise. O desmentido, segundo Freud, é uma suspensão do julgamento da realidade provocada por um traumatismo que divide o ego do sujeito. Uma parte do ego reconhece o que percebe, a outra desconhece a natureza do percebido. Para compensar o desconhecimento, no lugar do fato traumático percebido, surge o fetiche, substituto reificado da realidade recusada.

A dupla cisão identitária mencionada é um exemplo dos efeitos culturais defesa pelo desmentido. Em primeiro lugar, a escravocracia e a neoescravocracia esforçaram-se para apagar as representações da experiência escravizada que lhes trouxe ganhos em gozo estético, sexual ou material. Para tanto, tentaram rebaixar a cultura concreta do povo ao estatuto de entretenimento ou de piadas feitas para conversações volúveis. Em segundo lugar, quiseram, inutilmente, aparecer aos olhos dos ocidentais brancos como livres das “nódoas” da escravização. Aqui, a estratégia do desmentido foi a de buscar embranquecer os corpos negros e mestiços e as próprias visões de mundo, ao fazerem suas as questões intelectuais e sentimentais dos povos “civilizados”.

 Visto do aspecto psicológico, importa sobretudo ressaltar os efeitos do desmantelamento dessa montagem. Desse ângulo, é possível supor que boa parte das atuais reações políticas de ódio seja condicionada pela irrupção do que foi desmentido na história cultural brasileira. Dois fatos apoiam esta hipótese. O primeiro é a forte rejeição do ideal de branquitude por parte da descendência social, racial e cultural dos escravizados. Enquanto houve cumplicidade dos mais frágeis na aceitação do ideal de embranquecimento, a intensidade da opressão cultural passou relativamente despercebida. A ficção da “democracia racial” e a “comunhão” nos rituais festivos nacionais – futebol, carnaval, eventos musicais – pareciam comprovar a eficácia do desmentido. No momento em que ocorreu uma ruptura do pacto implícito entre opressores e oprimidos, a engrenagem começou a emperrar.

 A rejeição do ideal de branquitude por importantes setores da vida intelectual, cultural e política dos brasileiros provocou uma crise na identidade do neoescravismo. Estes novos setores não apenas disseram não ao fetiche da branquitude como iniciaram sua desconstrução sistemática. Num movimento inédito, pela qualidade da participação política e cultural, os excluídos de representação criaram seus próprios paradigmas de discurso, análise e legitimação intelectual.

A era da “política sem povo”, da “vida sem representação”, começou a desmoronar. A reação dos neoescravistas foi catastrófica. Sem nada a contrapor ao que é motor e substrato da cultura brasileira, partiram para o ataque do que parece ameaçar sua fantasiosa identidade cultural. Voltaram a recorrer a significantes vazios e decrépitos como âncora de seus ideais identitários: bandeira, nação, pátria, brasil, família e outros. Mas, uma vez que alguém grita “o rei está nu”, dificilmente se consegue vestir novamente o rei. Por essa razão, toda inveja, toda nulidade, toda mentira, toda insignificância, toda superfluidade culturais acumuladas por séculos vêm sendo projetadas nos inimigos da “civilização” branca. O que é odioso em si é projetado no outro. As velhas acusações de imoralidade, preguiça, ignorância, animalidade e outras feitas contra os escravizados, sobretudo ao longo do séc. XIX, voltaram a ser lançadas contra os grupos oprimidos, no intuito de defender a comédia do ideal de branquitude racial/ político/cultural brasileiro.

Esta defesa narcísica de sobrevivência da identidade leva-nos a entender um pouco mais como a crueldade silenciosa de tanto tempo pôde explodir com uma força inaudita. Antes, o apartheid político/ econômico/racial contava com um precioso aliado, a ideologia da democracia racial. Hoje, isso voou pelos ares. Só a má fé e a mais tacanha ideologia permite que se acredite no inacreditável. A crueldade estrutural, exercida sem manifestações explícitas de ódio, não conseguiu mais manter-se em pé. Mostrou, enfim, de que monstruosidade é feita.

O outro fator responsável pela desmontagem do fetiche da branquitude deriva da segunda cisão apontada por Tales. Esta última, a cisão entre a identidade real do neoescravismo e a identidade ilusória calcada no ideal de branquitude europeu/norte-americano, também mostrou sua precariedade como defesa contra a diferença do outro. O neoescravista não quer ser identificado como negro/mestiço/pobre e quer possuir a distinção que confere aos ocidentais brancos e ricos. O irônico, todavia, é que o atraso cultural em que sempre viveu não o deixou perceber o anacronismo dos ideais que cultiva. No instante em que ficou órfão de reconhecimento identitário pelo povo, o neoescravista foi simultaneamente deslegitimado por aqueles a quem devota o culto dedicado a todo fetiche, isto é, culto cego e incondicional. Os porta-vozes autorizados do ideal de branquitude – os sujeitos raciais/culturais europeus/norte-americanos- não apenas continuaram a negar-lhe o ingresso no exclusivo clube da branquitude como viram na reação truculenta contra os oprimidos mais uma prova da sua incapacidade de ser “ocidental”.

A demanda de reconhecimento do sujeito neoescravista foi duplamente frustrada. Do lado dos “inferiores” como dos “superiores”, a resposta foi não!. Não à “boçalidade do Mal”, como disse Tales; não à apropriação fraudulenta de uma cultura feita por outros e jamais reconhecida pelo impostor que dela se apropriou; não à farsa de uma identidade que elegeu o fetiche da branquitude como simulacro do pertencimento a um mundo cultural ao qual nunca pertenceu. A cultura do ódio tem algumas de suas raízes na frustração impotente dos que assumiram um semblante de identidade, cuja inconsistência foi, finalmente, desmascarada.

Com O soldado antropofágico – Escravidão e não-pensamento no Brasil, Tales AB’Sáber fez um gol de letra em nosso panorama intelectual. Selo de excelência da primeira à última página. Um ponto alto no pensamento brasileiro, mas também sopro de solidariedade e solicitude, num momento em que o Brasil vinha sendo tão vilipendiado. Em seu texto encontramos o eco da mesma indignação ética convertida em virtude estética de um Lúcio Cardoso. Assim como Lúcio Cardoso na Crônica da casa assassinada, ele fez da dor júbilo artístico; do enigma afetivo, curiosidade literária; do trauma paralisante, liberdade e espontaneidade criadoras. O que de melhor se espera de um psicanalista/cidadão brasileiro? De minha parte, nada a acrescentar.

*Jurandir Freire Costa é professor titular no Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Autor, entre outros livros, de O vestígio e a aura (Garamond).

Referência


Tales AB’Sáber. O soldado antropofágico – Escravidão e não-pensamento no Brasil. São Paulo, n-1 Hedra, 2022, 334 págs.

Fonte:  https://aterraeredonda.com.br/cronica-do-pais-assassinado/?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=novas_publicacoes&utm_term=2023-03-02

Escravidão e capital

 Por OSVALDO COGGIOLA*


O mercado mundial atingiu sua “densidade crítica” com base na conquista colonial e na escravidão africana e ameríndia

No século XVI, a emergência do comércio internacional e da produção mercantil em grande escala criou a necessidade, para a Europa, de fontes sistemáticas de abastecimento de metais preciosos e de outros produtos, em especial insumos para a indústria que abastecia o comércio. As descobertas e novas rotas ultramarinas se transformaram, por isso, em conquista, colonização, submissão dos novos territórios e, eventualmente, escravização e submissão a trabalho compulsório das populações autóctones.

Elas estiveram à serviço da organização da exploração da América, que buscou, antes do mais, extrair os metais preciosos que lubrificassem o ansiado comércio europeu com as “maravilhas orientais”. Devido a isso, o mercado mundial atingiu sua “densidade crítica” com base na conquista colonial e na escravidão africana e ameríndia. Espanha, primeiro, e Portugal, depois, iniciaram, com esses métodos e com um século de antecedência em relação às outras potências colonizadoras (Inglaterra, Holanda, França), a conquista e colonização das novas terras americanas e de outros continentes.

Fazendo isso, no entanto, os colonizadores europeus realizaram, sem ter consciência disso, outro objetivo, o estabelecimento de um circuito econômico mundial: “Potosí fez muito mais do que enriquecer os homens que o controlavam e lançar o restante numa luta mortal uns contra outros. Em primeiro lugar, enriqueceu a Espanha, mas também financiou a consolidação do império espanhol na América do Sul, custeou a travessia do Pacífico até as Filipinas, e levou as economias das Américas, da Europa e da Ásia, antes separadas, a um condomínio de fato.

Isso aconteceu sem que ninguém o pretendesse. A prata ganhou uma vida global só sua, enquanto os indivíduos improvisavam diante das oportunidades e da compulsão de manter o fluxo do metal precioso”.[i] O colonialismo ganhou, por isso, uma função econômica vital: durante a primeira etapa do sistema colonial, os conflitos entre o monopólio da Coroa e os interesses dos colonizadores se resolveram através de um ativo contrabando entre os últimos e as potências excluídas pelo Pacto Colonial ibérico (Inglaterra foi particularmente ativa na América espanhola e no Brasil)[ii] e também da pirataria, além do contrabando no comércio intracolonial.

Inicialmente, os poderes católicos, que beneficiaram os reinos ibéricos, conseguiram governar a expansão colonial. Os abalos e contradições do sistema colonial, porém, não se reduziam às que opunham os setores privilegiados, os colonizadores, ao Vaticano, à nobreza metropolitana e às monarquias. Os setores capitalistas das economias metropolitanas começaram a pesar cada vez mais na determinação dos rumos futuros da empresa colonial.

A função orgânica e necessáriado colonialismo no surgimento do capitalismo foi reconhecida no primeiro estudo abrangente do imperialismo contemporâneo: “A economia colonial deve ser encarada como uma das condições necessárias do capitalismo moderno. Seu comércio, em grande parte compulsório, foi em boa medida pouco mais do que um sistema de roubo velado, e em sentido algum um intercâmbio de mercadorias”.[iii]

Giovanni Arrighi identificou quatro ciclos mundiais (chamados por ele de “ciclos sistêmicos de acumulação”), por vezes superpostos, de acumulação de capital.[iv] O primeiro, o das cidades de Gênova e Veneza (séculos XV a XVII); em Gênova, a Casa di San Giorgio, no século XV, era uma instituição privada dirigida por banqueiros que controlava as finanças públicas da cidade-estado (ou seja, controlava a dívida pública). O segundo foi o holandês (séculos XVI a XVIII), o terceiro foi o britânico (séculos XVIII a XX) e o quarto o norte-americano (século XIX até os dias de hoje). Onde fica, nessa sequência, a expansão colonial ibérica?

Elencando a sucessão dos países ou blocos de cidades cujo domínio econômico, político e militar criou as bases do mercado mundial (Veneza-Gênova-Pisa na Alta Idade Média, Espanha-Portugal no início da Era Moderna, e logo depois Holanda, França, Inglaterra), Marx identificou o caráter da acumulação de capital em cada fase histórica: cada domínio mundial resumia o caráter de uma época. Qual foi o lugar das conquistas ultramarinas ibéricas, nesse processo, e qual seu papel na emergência de um novo modo de produção? Foi o cenário econômico mundial, acima de tudo, incluída a colonização dos “novos territórios”, o marco e mola mestra para o surgimento e impulsão do capitalismo na Europa?

Marx, respondendo afirmativamente, o resumiu numa conhecida passagem do Manifesto Comunista: “A descoberta da América e a circunavegação da África ofereceram à burguesia ascendente um novo campo de ação. Os mercados da Índia e da China, a colonização da América, o comércio colonial, o incremento dos meios de troca e das mercadorias, imprimiram um impulso desconhecido até então ao comércio, à indústria, à navegação, e desenvolveram rapidamente o elemento revolucionário da sociedade feudal em decomposição.

A antiga organização feudal da indústria, em que ela era circunscrita a corporações fechadas, já não podia satisfazer às necessidades que cresciam com a abertura de novos mercados. A manufatura a substituiu. A pequena burguesia industrial suplantou os mestres das corporações; a divisão do trabalho entre as diferentes corporações desapareceu diante de divisão do trabalho dentro de própria oficina (…) A grande indústria criou o mercado mundial preparado pela descoberta da América. O mercado mundial acelerou prodigiosamente o desenvolvimento do comércio, da navegação, dos meios de comunicação. Esse desenvolvimento reagiu, por sua vez, sobre a extensão da indústria; e à medida que a indústria, o comércio, a navegação, as vias férreas, se desenvolviam, crescia a burguesia, multiplicando seus capitais e relegando ao segundo plano as classes legadas pela Idade Média”.[v]

Esses foram os ingredientes da duradoura hegemonia europeia em um mundo em proa à sua unificação geográfica e econômica. A conquista e submissão do mundo colonial não foi um “efeito colateral” ou um epifenômeno da ascensão do capital, mas um dos seus centros nevrálgicos. Dale W. Tomich propôs uma formulação para superar os enfoques que “fragmentam teoricamente a conexão interna entre a escravidão, o mercado mundial e o desenvolvimento capitalista. Com isso obscurecem tanto as origens da escravidão na economia mundial como as origens escravistas da economia mundial”.

Segundo o autor: “Teoricamente, o capital requer para o seu desenvolvimento uma dada massa de mercadorias em circulação e uma dada divisão do trabalho, mas não requer necessariamente a escravidão. Marx, portanto, trata a escravidão como uma contingência externa e a exclui da exposição lógica. No entanto, historicamente, a escravidão foi uma meio-chave para expandir a produção de mercadorias, criando um mercado mundial e fornecendo as condições substantivas para o desenvolvimento da forma capital-trabalho assalariado… Ainda que a relação trabalho assalariado-capital forme o eixo teórico da análise de Marx, não se pode presumir que seja essa relação o ‘primeiro-motor’ do capitalismo histórico”.[vi]

Foi Marx, porém, quem expôs a ideia de que a sociedade baseada no trabalho livre na Europa surgira com base no saque e no trabalho escravo nas colônias europeias de ultramar: “Foi a escravidão que deu valor às colônias; foram as colônias que criaram o comércio mundial; o comércio mundial é a condição necessária para a grande indústria mecânica… Uma das condições indispensáveis para a formação da indústria manufatureira era a acumulação dos capitais, que veio facilitada pela descoberta da América e pela invasão do mercado pelos seus metais preciosos. As necessidades comerciais do novo mercado mundial determinaram o extermínio e a redução à escravidão das populações aborígenes, sepultada nas minas”, como também “o saque das Índias Orientais, a transformação da África em uma reserva de caça comercial de negros”.[vii]

A escravidão em grande escala iniciada no século XVI foi, antes de tudo, uma peça central nos primeiros momentos da formação do capitalismo e do arranque da acumulação capitalista na Grã-Bretanha. Milhões de pessoas, principalmente da África Ocidental e do Golfo da Guiné, foram arrancadas de suas comunidades de origem para ser deportadas às colônias europeias do Caribe, ao Sul das colônias inglesas da América do Norte e à costa brasileira. Foi o que permitiu lavrar e cultivar as terras virgens das Antilhas depois do extermínio dos nativos e das crescentes dificuldades para importar mão de obra europeia, e impulsionou a primeira grande agricultura de exportação, com base no açúcar, tabaco e algodão.

As plantações trabalhadas por escravos fizeram crescer o volume do comércio intercontinental, estimularam o desenvolvimento de um conjunto de indústrias (o refino de açúcar e as primeiras fábricas de tecido de algodão) e transformaram alguns portos atlânticos europeus em centros do comércio mundial. O tráfico triangular da Europa levava para a África as quinquilharias (trapos, bijuteria, folha-de-flandres e espelhos) que eram trocadas por escravos, vendidos na América, que extraiam as matérias primas das primeiras fábricas europeias, especialmente britânicas: “Sem as riquezas da América e sem os escravos e o comércio africanos, o crescimento econômico, político e militar dos Estados europeus teria ficado limitado, sem dúvida, a uma escala menor; talvez definitivamente menor.

Com eles, o primeiro capitalismo se fez mundial e com toda razão, em Liverpool e em Bristol se dizia que ‘não há um só ladrilho na cidade que não esteja mesclado com o sangue de um escravo’”.[viii] Um laço indissociável uniu a escravidão africana com os primeiros processos de acumulação de capital em grande escala.

A escravidão moderna teve sua origem no massacre dos povos ameríndios: “Poucos anos depois da descoberta da América, quando a crueldade e a voracidade da exploração dos colonos espanhóis literalmente exterminou a frágil população indígena, foi ideado o recurso de trazer da África, como escravos, uma mão de obra mais forte, capaz de realizar trabalhos nas minas e nos engenhos de cana de açúcar. A mesma necessidade foi advertida, anos mais tarde, nos outros grandes domínios do continente (americano)”.[ix]

As linhas de distribuição geográfica da mão de obra africana escrava acompanharam as necessidades da empresa colonizadora ibérica. Sua implantação não precisou esperar os conselhos do padre Bartolomeu de Las Casas para arraigar na atividade mineira das Antilhas. Logo depois, “o despovoamento intenso das terras baixas do continente [devida à expropriação ou eliminação de seus primitivos habitantes], e o implante delas nas grandes explorações de monocultura, para as quais os africanos demonstraram boa aptidão, concentrou eles nas cálidas regiões tropicais da América. Nas zonas temperadas das serras, onde estavam localizadas as minas e se dispunha de braço indígena abundante, seu empregou resultou menos necessário. Esta generalização de sua distribuição geográfica não impede que o negro chegasse a todos os cantos do continente e fosse utilizado nas mais diversas atividades”.[x] Com o comércio mundial em expansão, a rentabilidade do trabalho compulsório, forçado ou escravizado, não parou de crescer nos séculos XVI e XVII.

Devido a isso, o estabelecimento de uma rede mundial de comércio e comunicações, base do mercado mundial, teve também um impacto demolidor na África: “O século XVI africano foi marcado pelo fato de que nenhuma grande região da África fugiu aos acontecimentos que determinaram um declínio cultural e econômico extremamente rápido”.[xi] A conquista colonial, o trabalho forçado multiforme e generalizado, a repressão das numerosas revoltas locais por meio do ferro e do fogo, a subalimentação, as diversas doenças locais e importadas e a continuação do tráfico negreiro, reduziram uma população africana que baixou para quase um terço da anteriormente existente nas regiões afetadas pelo tráfico de escravos.

Para o período precedente à Era Moderna, Mário Maestri estudou os grandes Estados tributários sudaneses, Ghana, Mali e Songai, abordando sua história política, econômica, social, suas principais etnias e seus contatos com o mundo árabe e islamizado: segundo o autor, a chegada dos europeus nas costas ocidentais da África desorganizou essas formações tributárias, que possuíam forte desenvolvimento civilizacional, produtivo e comercial, produzindo inclusive boa parte do ouro usado na Europa para cunhagem de moedas.

Desde tempos remotos (o homo sapiens, afinal, é originário das planícies africanas) havia na África culturas organizadas que se inter-relacionavam através de uma extensa rede de comércio que compreendia sal, arroz, algodão tecidos, gado, ouro, bronze, erro e outros. Havia inclusive fundições de ferro paralelas no tempo ao Império Romano em seu apogeu. Os domínios bantus (o nome “bantu” não designa uma unidade racial, mas cultural, estabelecida pelas semelhanças entre os numerosos dialetos que utilizam) que compreendiam Moçambique e o Monomotapa,[xii] mantinham fortes relações comerciais com as Índias e a Ásia, através de comerciantes persas e árabes.[xiii]

Sob o impacto da caçaria humana e do tráfico, considerando-se a população da Europa, África, Oriente Médio e as Américas, a população africana caiu, entre 1600 e 1900, de 30% para 10% da população total. Os reinos meridionais africanos haviam ficado longo tempo isolados, sem contatar com os grandes centros onde se desenvolvia a produção e o comércio. A expansão europeia os conectou com o mundo através da caça aos escravos, além de desagregar os grandes centros políticos da África pré-colonial.

Antes do século XVI, a maior parte dos escravos exportados da África era embarcada da África Oriental para a Península Arábica. Zanzibar tornou-se um dos principais portos desse comércio. Entre 800 e 1600, o tráfico de escravos no Mar Vermelho, a cargo principalmente de comerciantes árabes, foi de 1.600.000 seres humanos; na África Oriental, no mesmo período, ele atingiu 800 mil indivíduos. Durante o século XVI, a Europa começou a superar o mundo árabe no tráfico de exportação, com o tráfico de escravos da África para as Américas. O tráfico negreiro europeu, porém, atingiu dimensões muito superiores, quintuplicando (ou mais), em quatro séculos, as cifras do tráfico árabe em oito séculos.

A escravidão moderna assumiu dimensões de hecatombe demográfica na África. A captura portuguesa de escravos africanos começara em 1441, quando Afetam Gonçalves sequestrou um casal na costa ocidental do Saara para presentear o rei de Portugal, que o recebeu com visão comercial da potencialidade do feito. Em 1443, Nuno Tristão trouxe o primeiro contingente importante de escravos africanos, vendendo-o com lucro em Portugal. No ano seguinte, seis caravelas foram enviadas em busca de escravos e, em 1445, 26 expedições se dirigiram com esse e outros fins para as costas africanas ocidentais.

A escravidão africana existia desde tempos imemoriais, como em outras sociedades. Nas palavras de Fernand Braudel: “A escravidão surgiu de formas diferentes em sociedades diferentes: havia escravos da corte, escravos incorporados em exércitos principescos, escravos domésticos e de criadagem, escravos trabalhando na terra, na indústria, como correios e intermediários, até mesmo como comerciantes”.[xiv] Se a escravidão antiga tendeu a desaparecer na Europa medieval, desde o século XIV existia na Europa do Sul um ativo mercado de escravos animado por traficantes árabes. A mão de obra era um bem raro e requisitado na Europa depois da dizimação populacional provocada pela Peste Negra; bolsões de escravidão tinham sobrevivido à queda do Império Romano nas atividades domésticas e nas zonas de agricultura intensiva. A Europa traficante não lidava com uma instituição que lhe fosse desconhecida, ou da qual já tivesse perdido a memória, muito pelo contrário.

A caça de escravos africanos contou com a cumplicidade inicial de reis e mandantes locais, já habituados a usá-la devido ao escasso povoamento do continente, que havia imposto o trabalho forçado ou escravo como meio de gestão e disciplinamento da mão de obra na África subsaariana: “O desenvolvimento da escravidão em grande escala foi parte do processo consolidador dos Estados centralizados que ficavam ao Sul, longe da influência direta dos portos caravaneiros do Sael… Enorme era a quantidade de escravos que pertenciam ao rei, trabalhavam nas suas glebas e marchavam com seus exércitos. Enorme era também a massa de escravos que serviam aos chefes, sobretudo nos vilarejos agrícolas, de cuja produção a nobreza retirava riqueza e poder… Os escravos pertenciam ao senhor, do mesmo modo que os filhos que tivessem. Se o dono casasse com uma escrava e do matrimonio houvesse fruto, este nascia livre. E livre se tornava o cativo a quem o senhor alforriasse, ainda que o estigma de ter sido escravo ou de escravo descendente fosse difícil de apagar”.[xv]

As bases do tráfico negreiro europeu em grande escala haviam sido lançadas ainda no século XV. Seus protagonistas iniciais foram portugueses, pois a expansão europeia para o Oeste, a partir de finais do século XV, teve como base os oitenta anos prévios de incursões lusas no Atlântico. Portugal foi o pioneiro da exploração do Atlântico, colonizando ilhas nesse oceano e explorando e comercializando na costa ocidental da África. Na década de 1470, os portugueses já tinham começado a comerciar escravos no Golfo do Benin. As primeiras incursões portuguesas na África subsaariana, no entanto, foram “pacíficas”. Seus investimentos na costa Oeste da África foram inicialmente estimulados pela exploração de minas de ouro. Paralelamente, deu-se início também ao comércio de escravos, que se estabeleceu e desenvolveu a partir de 1450.

Em torno do comércio de escravos estabeleceu-se também o de outros produtos. Desde inícios do século sucessivo, a principal riqueza africana obtida em troca de produtos europeus era a mão de obra demandada pelas colônias americanas, que lhes deu motivo e alento para os investimentos em explorações marítimas. Uma vez lançados, a caça e o comércio de escravos cresceram vertiginosamente, até atingir seu ápice no século XVIII, quando os navios mercantes britânicos foram principais protagonistas da “Passagem do Meio”, que transportou milhões de escravos para o Hemisfério Ocidental. A maioria dos que sobreviveram à jornada acabou no Caribe, onde o Império Britânico tinha colônias dedicadas ao plantio de açúcar, altamente lucrativas. A média de sobrevida dos escravos chegados ao seu destino era, no primeiro século da escravidão africana nas Américas, de sete anos.

Inicialmente produto de iniciativas individuais, que se limitavam ao filhamento (adoção forçada) de mulheres e crianças isoladas, ou a captura da população de pequenas aldeias costeiras, na segunda metade do século XV a escravidão africana impulsionada pelos portugueses começou a ganhar novos contornos: “Incitavam os caciques e reis negros a entabular guerras entre si; ao vencedor compravam os prisioneiros de guerra, com o que financiavam os gastos para novos combates. A escravidão já não mais era fenômeno secundário ou consequência de guerras, mas o objetivo das mesmas.

Os portugueses se aliavam com maometanos contra maometanos, com pagãos contra pagãos; o botim de prisioneiros de guerra lhes era repassado como escravos, por contrato prévio. Essa mercadoria era enviada, acorrentada, aos postos de distribuição em Portugal. Pendiam deles longas correntes amarradas ao pescoço”.[xvi]

A partir de 1450, mas de mil escravos começaram a chegar anualmente a Portugal. No período 1469-1474, os portugueses chegaram ao Golfo de Biafra, encontrando um tráfico local de escravos maior e melhor organizado, além de outras riquezas tentadoras: pimenta malagueta, marfim e ouro, que abriram novas oportunidades comerciais, e permitiram aos portugueses penetrar em mercados europeus, inclusive bem longe de seu país, onde antes eram desconhecidos. Em 1479, Castela reconheceu que a África ocidental era esfera de ação exclusivamente portuguesa. No século seguinte, Portugal se consolidou como grande potência marítima, comercial e escravista, possuindo um quase monopólio de tráfico africano no século seguinte. A partir de 1600, os portugueses sofreram a concorrência de ingleses e holandeses.

Pode-se considerar a escravidão moderna, muito especialmente africana, como uma “filha natural” da nova divisão internacional do trabalho, criada pelo sistema colonial: “África, terra pobre, clima difícil, apenas tem mais de uma riqueza, uma produção principal, sua população humana, robusta e prolífera, que os negreiros chamam por eufemismo ‘madeira de ébano’. É o que precisam as plantações das Índias ocidentais, a cana de açúcar exige muita mão de obra. Há uma complementariedade. A escravidão na África era o corolário, de um lado, da descoberta do Novo Mundo, de outro, do desenvolvimento do consumo de açúcar na Europa.

As reservas de mão de obra da África, por outro lado, eram exploradas já fazia muito tempo”. O impacto demográfico da escravidão sobre as sociedades africanas não se limitou aos escravos transportados, quer eles chegassem vivos a destino ou não: “A cifra dos escravos desembarcados deve ser aumentada em 25%, talvez muito mais, para levar em conta os que morriam a caminho. Mas é preciso levar em conta, sobretudo, que para capturar algumas dezenas de escravos, os caçadores que os revendiam aos negreiros brancos massacravam um número considerável de adultos e crianças e dispersavam cidades inteiras sujos membros, desorganizados e privados de seus homens adultos, apenas podiam sobreviver. A sangria demográfica e sua incidência indireta são infinitamente mais importantes que a cifra dos escravos transferidos”.[xvii]

A média de escravos mortos durante a travessia atlântica nos navios negreiros foi estimada, para o período 1630-1803, em quase 15%. Mesmo com essas perdas, oito vezes mais africanos do que portugueses compuseram o futuro Brasil, principal destino americano do tráfico negreiro. Esses movimentos de migração compulsória africana foram acompanhados de uma importante migração europeia, que se misturou em graus diversos com as populações locais e com a população de origem africana, configurando uma vasta população mestiça que, junto aos ameríndios e os africanos, foi majoritária em quase todas as regiões americanas. Porque existia a necessidade de escravos nas Américas?

A óbvia necessidade de mão de obra se desdobrava na necessidade de ocupação territorial. O povoamento das terras conquistadas por Castela foi dificultado pela falta de disponibilidade demográfica da Espanha na época da colonização: não havia excedentes de população suficientes para atender à necessidade da ocupação das novas regiões. Em 1502, os primeiros carregamentos de escravos africanos aportaram nas colônias da América espanhola. As cifras da escravidão são imprecisas: Katia de Queirós Mattoso apontou mais de 9,5 milhões de africanos transportados para as Américas entre 1502 e 1860, com o Brasil na condição de maior importador (em torno de 40% do total do tráfico). Contabilizações mais apuradas apontaram as seguintes cifras:

 1519-1600: 266.000 escravos africanos exportados à América
 1601-1700: 1.252.800 escravos africanos exportados à América
 1701-1800: 6.096.200 escravos africanos exportados à América
 1801-1867: 3.446.800 escravos africanos exportados à América
 Total 11.061.800 escravos africanos exportados à América

Segundo estimativas que contabilizaram todas as formas de tráfico, entre finais do século XV e a segunda metade do século XIX a escravidão africana implicou na captura, venda e traslado de aproximadamente treze milhões de indivíduos (Eric Williams chegou a estimar uma cifra superior a 14 milhões).[xviii] Só a título de comparação, a emigração “branca europeia” para as Américas, entre o descobrimento inicial e 1776, mal superou um milhão de indivíduos. O traslado dos escravos era realizado nos porões de barcos superlotados (onde os africanos viajavam acorrentados), que provocaram uma mortandade imensa.

Durante o século XVI o tráfico negreiro foi monopólio português. Só bem depois de Portugal, Inglaterra fundou desde 1660 entrepostos africanos de captação de escravos para as plantações americanas. Os holandeses, por sua vez, importaram escravos da Ásia para sua colônia na África do Sul. No Brasil, o cultivo de cana de açúcar em Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro gerou a necessidade de cada vez mais escravos, só depois a exploração aurífera tomou o lugar mais importante, não cessando, porém, a importação de africanos destinados à agricultura.

Entre 1500 e meados do século XVIII, Brasil foi a região americana que mais importou escravos, mais de 1,9 milhão de pessoas nesse período, seguido, de longe, pelas Antilhas britânicas, com pouco mais de 1,2 milhão. Os lucros desse tráfico foram parte substancial da acumulação de capital por vários séculos: “A viagem de um tumbeiro entre Bahia e Serra Leoa nos anos 1810 podia gerar retorno de mais de 200% sobre o capital investido… O segundo Banco do Brasil nasceu com capital do tráfico e viveu de empréstimos a escravistas… Os grandes proprietários escravistas tinham lucros polpudos porque exerciam poder de monopólio. Detinham as melhores terras, pois obtinham o seu crédito sob a forma de estoques de escravizados. Assim inundavam os mercados mundiais de artigos tropicais. No caso dos traficantes, algumas famílias controlavam mais da metade do mercado negreiro no Rio de Janeiro”.[xix]

Aexploração econômica do Novo Mundo teria sido impossível sem a escravidão africana. Ela foi sacralizada já em seus estágios iniciais pela Igreja cristã: pela bula Dum Diversas, de 1452, o papa Nicolau V concedeu ao rei de Portugal D. Afonso V, e a seus sucessores, a faculdade de conquistar e subjugar as terras dos “infiéis” e de reduzi-los à escravatura. Embora, como vimos, já no século XV escravos fossem vendidos na Europa, foi com a exploração das colônias americanas que o tráfico escravagista atingiu grandes proporções.

O investimento europeu em guerras externas geradoras de escravos modificou profundamente a África e também as Américas. Cidades africanas atacavam outras cidades, escravizando a população para vendê-la aos europeus. A escravidão articulada com a expansão do Islã havia estado calcada em moldes sexuais diferenciados. Os árabes vendiam os homens e ficavam com as mulheres, que eram absorvidas pelas comunidades. Os filhos de escravas costumavam ser assimilados pela sociedade muçulmana. A preferência dos traficantes árabes por cativas do sexo feminino foi um fator para que os europeus comprassem mais homens do que mulheres. Outro fator importante foi a constatação de que os homens eram mais resistentes às péssimas condições de salubridade a que eram submetidos nas longas viagens de travessia do Atlântico em navios negreiros.

Durante mais de três séculos, o tráfico negreiro alterou totalmente a organização social e política dos países africanos, que era “um mundo coerente de sociedades bem diversas”. Nele, já existia a escravidão, “mas ela somente era numerosa no Benin e nas regiões sudano-saelianas. O cativo integrava-se na família e não podia ser vendido. Os homens livres, que tinham direito a ter escravos, podiam ser submetidos a obrigações idênticas às dos escravos… Impérios e reinos, estáveis antes da chegada dos europeus, desapareceram para dar lugar a novos Estados, com frequência fundados por aventureiros, nascidos do tráfico e vivendo dele.

A família ampliada, que resistiu até os primeiros tempos da colonização, terminou por romper-se e diluir-se nas organizações estatais territoriais, com frequência criadas e desenvolvidas para servir às necessidades do tráfico… Os comerciantes guinéus, acostumados à troca de ouro pelas bagatelas europeias, são os naturais fornecedores de escravos, cuja demanda aumenta. Em Angola, e mais tarde na África oriental, o tráfico assume um ritmo catastrófico, fazendo do país um verdadeiro deserto: transferências de populações consideráveis privam a região de homens e enriquecem mercadores negros e brancos… Os escravos saiam de todas as capas sociais”.[xx]

As populações de escravos nas Américas não tinham como se sustentar por meio da reprodução biológica, a maior parte dos escravos morria cedo (depois de menos de dez anos de trabalho) sem deixar descendentes, o que gerava uma constante substituição dos escravos por novas levas, e girava a máquina dos negócios dos traficantes. Com base na escravidão africana e no trabalho compulsório imposto aos nativos, a colonização dos trópicos montou as bases para a produção em massa de bens primários geradores de grandes lucros mercantis. A “naturalização” da escravidão nas metrópoles foi uma decorrência disso. Já bem adiantado o século XIX, um lúcido viajante inglês hoje considerado como um dos precursores da antropologia, Richard F. Burton, ainda opinava que “a própria natureza havia traçado uma faixa dentro da qual o trabalho livre era impossível”.

A escravidão africana teria, para os colonialistas europeus, um caráter educativo, tendente a obter melhoria na condição miserável dos africanos. Levar um negro da África para a escravidão americana era “como levar um garoto à escola”, que no futuro seria, talvez, capaz de transmitir seu aprendizado aos seus conterrâneos…[xxi] Foi com base na escravidão que foi montado o sistema colonial da Era Moderna, pois, nas palavras de Marx, “foi a escravidão a que deu valor às colônias”; foi a primeira a que viabilizou as segundas, estruturadas em um sistema que se estabilizou em função de seu papel na acumulação mundial de capital.

*Osvaldo Coggiola é professor titular no Departamento de História da USP. Autor, entre outros livros, de Teoria econômica marxista: uma introdução (Boitempo).

Notas


[i] Timothy Brook. O Chapéu de Vermeer. O século XVII e o começo do mundo globalizado. Rio de Janeiro, Record, 2012.

[ii] Segundo Zacarias Moutoukias (Contrabando y Control Social en el Siglo XVII. Contrabando y Control Social en el Siglo XVII. Buenos Aires, Centro Editor de América Latina, 1988): “Buenos Aires atraiu uma corrente de mercadores espanhóis e estrangeiros pelas possibilidades que oferecia de ‘morder’ uma parte da prata do Alto Peru. Isso permitiu que a Coroa respondesse às suas necessidades no Rio da Prata através dos Navios de Registro, cujas licenças eram atraentes para comerciantes e armadores… O aparato burocrático-militar local só poderia sobreviver estimulando a drenagem para o Rio da parte da produção mineira” (por vias ilegais). Havia “aparentes posturas contraditórias por parte da Coroa, que assumia, dependendo do contexto, medidas de tolerância com o comércio ilícito, seguida de ações de combate e centralização do monopólio régio” (Fernando Victor Aguiar Ribeiro. “Arribadas maliciosas”: redes comerciais no comércio de contrabando no porto de Buenos Aires, inícios do século XVII. Antíteses, Vol. 11 nº 22, Universidade Estadual de Londrina, 2018). Jaime Vicens Vives afirmou que “se a corrupção se enraizou na Espanha, foi porque, apesar da atitude moralizadora da Coroa e de suas repetidas declarações contra todas as práticas corruptas, a administração teve que fazer funcionar o mecanismo do comércio americano apesar das leis” (Jaime Vicens Vives. Coyuntura Económica y Reformismo Burgués. Barcelona, Ariel, 1968).

[iii] John A. Hobson. L’Imperialismo. Roma, Newton & Compton, 1996 [1902].

[iv] Giovanni Arrighi. O Longo Século XX. Dinheiro, poder e as origens de nosso tempo. Rio de Janeiro, Contraponto/UNESP, 1996.

[v] Karl Marx e Friedrich Engels. Manifesto Comunista. São Paulo, Ched, 1980 [1848.].

[vi] Dale W. Tomich. Pelo Prisma da Escravidão. Trabalho, capital e economia mundial. São Paulo, Edusp, 2011.

[vii] Karl Marx. Miséria da Filosofia. São Paulo, Boitempo, 2017 [1847].

[viii] Eric Williams. Capitalismo y Esclavitud. Madri, Traficantes de Sueños, 2011 [1944].

[ix] José Luis Martínez. Pasajeros de Indias. Viajes transatlánticos en el siglo XVI. Madri, Alianza, 1983.

[x] Nicolás Sánchez Albornoz e José Luis Moreno. La Población de América Latina. Bosquejo histórico. Buenos Aires, Paidós, 1968.

[xi] Robert e Marianne Cornevin. Histoire de l’Afrique. Des origines à la 2º guerre mondiale. Paris, Payot, 1964.

[xii] Monomotapa não era o nome de um país, mas de um soberano, literalmente significava “senhor das minas”. Seu domínio correspondia à região depois conhecida como Rodésia do Sul, colónia britânica situada a norte da União Sul-Africana que existiu na África austral entre 1888 e 1979, que deu origem ao atual Zimbabwe.

[xiii] Mário Maestri. História da África Negra Pré-colonial. Porto Alegre, Mercado, Aberto, 1988. Aspectos da estrutura hierárquica, social, cultural e político-militar do antigo Kôngo são abordados em: Patrício Batsîkama. Sistema Político no Antigo Kôngo. Recife, Editora da Universidade de Pernambuco, 2013.

[xiv] Fernand Braudel. Civilização Material, Economia e Capitalismo. Séculos XV-XVII. São Paulo, Martins Fontes, 1995.

[xv] Alberto da Costa e Silva. A Enxada e a Lança. A África antes os portugueses. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2011.

[xvi] Georg Friederici. El Carácter del Desubrimiento y Conquista de América. México, Fondo de Cultura Económica, 1987 [1926], vol. II.

[xvii] Pierre Bertaux. África. Desde la prehistoria hasta los estados actuales. México, Siglo XXI, 1997.

[xviii] Herbert S. Klein e Ben Vinson. African Slavery in Latin America and the Caribbean. Nova York, Oxford University Press, 2007. Cf. Marcel Dorigny e Bernard Gainot. Atlas des Esclavages. Traites, sociétés coloniales, abolitions de l’Antiquité à nos jours. Paris, Autrement, 2006.

[xix] Alexandre de Freitas Barbosa e Tâmis Parron. A retórica cruel do negacionismo. A Terra é Redonda, São Paulo, 23 de fevereiro de 2023.

[xx] Katia de Queiros Mattoso. Ser Escravo no Brasil. São Paulo, Brasiliense, 1982.

[xxi] Aleksandr Gebara. A África de Richard Francis Burton. Antropologia, política e livre-comércio. São Paulo, Alameda, 20
 
Fonte:  https://aterraeredonda.com.br/escravidao-e-capital/?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=novas_publicacoes&utm_term=2023-03-02

quarta-feira, 1 de março de 2023

Arrig

 Por MARCELO RIDENTI*


Trechos selecionados pelo autor do romance recém-lançado

Apresento aos leitores do site A terra é redonda breves trechos de meu romance de estreia, Arrigo (Boitempo). Revisito pela ficção cem anos de história da esquerda brasileira, tramada na trajetória de Arrigo e seus companheiros no país e no exílio, numa mescla de realismo e fantasia.

1917 – Um rato

Quem já matou um rato? Pode-se prendê-lo numa ratoeira e jogar no tanque para se afogar. Também molhar com combustível e pôr fogo em seu rabo, depois soltá-lo para correr como nunca rumo à morte. Algumas crianças se divertiam assim, descontando no rato as humilhações e os sofrimentos pelos quais passavam na fábrica e em casa; ou quem sabe fosse pura maldade injustificada. Melhor um gato, animal menos nojento.

Mais gostoso: esmagar o rato com o pé, encurralando-o junto à parede. Apertar com força suficiente para ele não fugir, sem o trucidar de imediato. Depois ir apertando devagar, sentir seus ossos se quebrarem lentamente sob o calçado, um estalo por vez, em meio aos grunhidos de desespero, até o sangue escorrer de cada orifício, carne mole sob o sapato, com técnica, para evitar a sujeira das tripas na sola.

Soldados já foram crianças, seguem humilhados, agora sob a farda e com as armas que os distinguem das gentes de baixo de suas origens, liberados para nelas sentar o pau. O deleite era evidente no rosto do policial, cuja bota apertava devagar o peito do menino Arrigo contra o chão naquela noite fria de julho.

1924 – Revolta em São Paulo

Foi nesse ambiente de festa e revolução, real ou imaginária, arrebatado pela bebida dos deuses, que Arrigo pegou nas mãos de Carmen e a puxou para si aos pés da escadaria, beijando-a pela primeira vez. Depois a segunda, a terceira e muitas mais, incerto feito um bêbado. Carmen nem pensou em gritar ou chamar alguém. Estava encantada com Arrigo, seus modos finos, sua beleza, seu olhar de desejo. Nunca entrara numa casa tão grande e bonita como a dele, em bairro assim nobre, nem mesmo quando era chamada para ajudar na cozinha ou trabalhar na limpeza de outras moradias. Logo percebeu que o garoto era fogoso, mas inexperiente, e a sensação de ser professora lhe dava prazer. Que aluno! Aprendia depressa.

Arrigo nunca esqueceu os dias que passaram juntos na casa ocupada, antes que o pai voltasse para retomá-la e acabar com a festa, furioso sobretudo com o assalto à adega.

Ao perdedor, as bananas

Arrigo recordou o episódio da visita a Machado de Assis muitos anos depois, quando foi usado na campanha de libertação do ex-secretário, preso após o golpe de 1964. O veterano Astrojildo Pereira já não era um comunista poderoso, apenas um homem que amava o escritor, a exemplo de tantos então no governo – militares, empresários e juízes, além de intelectuais que davam ar de respeitabilidade cultural ao regime militar. Assim como o episódio fora usado por Arrigo para se livrar da punição do pai, serviu também para ajudar os advogados a tirarem o comunista da cadeia.

Arrigo imaginava Machado sorrindo de tudo isso, sem se dar ao trabalho de ajeitar o pincenê no escurinho do túmulo. Tornara-se o ponto de consenso entre o próprio Arrigo, seu pai, Astrojildo, Lino e até golpistas militares. Virou objeto de amor de rivais, como Flora, disputada por Pedro e Paulo. Esaú e Jacó numa única pessoa, que não era ela mesma.

Diga-se, a bem da verdade, que Arrigo e Lino nunca espalharam notícia do caso – não só por solidariedade ao secretário, mas também porque eles mesmos eram machadianos e tinham a cabeça a prêmio. Arrigo ainda no partido, Lino já expulso. O castigo chegaria para todos. Eles estariam fora da agremiação antes que começasse o que os paulistas gostam de chamar de Revolução de 1932.

Astrojildo, quarentão, enfrentou alguns problemas com a polícia, mas foi logo liberado. Teve o bom senso de casar-se com a jovem Inês, filha mais velha de Everardo, que, precavido, não a apresentara a Arrigo. O casal retirou-se para o seio dos negócios familiares de produção e distribuição de bananas em Rio Bonito, interior do Rio de Janeiro, onde o antigo secretário teve muito tempo para estudar a obra de Machado de Assis e outros temas literários. A democratização após o Estado Novo marcaria seu retorno ao partido como fundador histórico que nunca mais influiria nos rumos da organização.

Nas bastilhas de Bernardes

Doutor Vital conseguiu transferir Arrigo do presídio da Ilha Grande. A partir de então, o jovem fez um périplo por outras prisões cariocas em que já estivera. Ficou um tempo na Casa de Detenção, onde recuperou a saúde e conviveu com muitos presos políticos acusados de pertencer à Aliança ou ao partido, alguns dos quais seus conhecidos. Um coletivo organizava o cotidiano dos prisioneiros. O maior incômodo era o ataque de percevejos, combatidos com afinco, sem êxito. Nas celas e no espaço nomeado praça Vermelha, realizavam-se de cursos educativos a rodas de samba, de jogos de xadrez a sessões espíritas. Os detentos improvisavam um noticiário noturno, lido alto à moda das transmissões radiofônicas. Era a Rádio Libertadora a divulgar notícias, inclusive internacionais, como a situação na guerra civil espanhola. Lembrava os dias no presídio Maria Zélia.

Mal se acostumara com o coletivo, Arrigo foi transferido para a Casa de Correção, outra velha conhecida e de onde sairia rapidamente. Com o fim do estado de guerra, o novo ministro da Justiça cedeu a pressões e liberou centenas de presos políticos sem processo formado, Arrigo entre eles. Doutor Vital aconselhou o cliente a deixar o país quanto antes, antevendo a implantação de uma ditadura aberta, que de fato viria em novembro, após o fechamento do Congresso e o início do Estado Novo.

Arrigo ferido na Guerra Civil Espanhola

Certa noite, Carmella entrou em silêncio no quarto, logo depois que ele apagara a luz. Arrigo ajeitou-se para exibir as feridas e trocar o curativo, mas ela não iluminou o recinto. Quando ele fez menção de dizer algo, entreviu na penumbra o vulto tocar os próprios lábios com o indicador, a pedir silêncio. Discretamente, deitou-se a seu lado. Surpreso, sem se sentir forçado, pousou a mão no ombro dela com espontaneidade e quis dizer algo. Desta vez sentiu o dedo sobre sua boca, não era ocasião de conversa. Momento de retribuir, não seria sacrifício. O corpo falava por ela. Usando a mesma língua, o rapaz tampouco proferiu palavra, prazer em dar prazer. Também ficou mudo na noite seguinte, ao receber a visita de Marcella, a irmã. Mistérios do desejo.

Antes, durante e depois da recuperação do paciente, elas rezavam diante da cópia em miniatura de uma escultura de Bernini conhecida como O êxtase de Santa Teresa, em que ela aparece desfalecida, com a boca entreaberta diante do anjo e sua flecha dourada. A inspiração estava na autobiografia da santa, leitura de cabeceira das duas. Teresa revelava o prazer divino sentido ao ter o coração e as vísceras penetrados pela lança do anjo que a deixou em fogo, doçura de uma dor excessiva que a fez gemer e da qual não queria se livrar. Convergência do físico com o espiritual, o céu na terra pela flecha abençoada. Arrigo, anjo que a providência divina colocara no quintal das irmãs para terem a graça de viver o êxtase de santa Teresa de Ávila.

Elas se revezavam dia e noite no tratamento do paciente e de si mesmas. Deixavam os corpos se entenderem; eles não precisam de palavras para chegar ao gozo divino. Pouca coisa verbalizada. Arrigo sequer tinha certeza de que elas se chamavam Carmella e Marcella, embora tenham se apresentado assim. Ele percebia o carinho pelo tratamento e pela qualidade da comida, mas elas não se sentavam com ele para compartilhá-la. Jamais esclareceram por que o ajudavam, como fora parar ali ou quando partiria. Tampouco ele ousava perguntar. Um ateu nas mãos de Deus.

Fugindo do nazismo

A última leva que puderam proteger saiu da França no fim de setembro de 1940. O grupo de judeus fora impedido pela polícia espanhola de entrar em seu território e teve de voltar ao solo francês. Arrigo ligou a Derville; Luna ativou seus contatos secretos do outro lado da fronteira. Os esforços conjuntos foram bem-sucedidos, e o grupo entrou na Espanha no dia seguinte, para depois fugir da Europa conflagrada, muitos para os Estados Unidos.

Dois acontecimentos turvaram o êxito da operação. Primeiro, um dos fugitivos apareceu morto misteriosamente no hotel para onde o grupo foi dirigido após a recusa da entrada. Ao que tudo indica, suicidou-se por não aguentar a ideia de ser capturado por cúmplices franceses dos nazistas, que o entregariam à Gestapo. Derville disse a Arrigo que se tratava de intelectual judeu alemão importante, seu amigo, que estava morando em Paris e decidiu fugir diante da perseguição a judeus e marxistas.

A morte atraiu a atenção da polícia, que acabou descobrindo as atividades secretas de Arrigo e Luna. Ambos foram alertados por um companheiro cujo irmão trabalhava na delegacia da pequena cidade. Fugiram de carro em direção a Marselha, onde eram esperados por madame e seu marido, que haviam se mudado para lá após a tomada de Paris pelos alemães. A partir de então, Arrigo assumiu o codinome Marcel. Luna ficou com o que já tinha escolhido desde que sepultara Doroteia.

Pesadelo em Portbou

Cerca de um mês antes do suicídio que o forçaria a deixar Portbou, Arrigo teve um pesadelo que o perturbou por vários dias. Às vezes se repetia. Caminhava sozinho em cidade desconhecida, por uma rua deserta que terminava num beco sem saída, embalado por um vento quente. Entrou na única casa com as portas abertas. Bateu, sem resposta. Foi entrando até o escritório, no fundo do corredor, onde certo senhor grisalho trabalhava em sua escrivaninha, de costas para ele. Arrigo olhou a parede crivada de marcas de bala, ao lado de fotos de família judia e de revolucionários russos posando para a posteridade.

Imagens amareladas pelo tempo. Chegou perto de uma das fotos, parecia alguém conhecido, época de dona Imma. Ao tentar se concentrar na imagem, um homem saltou sobre ele armado com picareta de metal, ferramenta de alpinista. Defendeu-se, atracaram-se, depois o homem fugiu, deixando-o com a picareta na mão. Arrigo olhou ao redor e viu o senhor grisalho ainda de costas, agora com o crânio partido, balbuciando por socorro, uma poça de sangue em volta. Pessoas entraram na sala, acusando-o de assassino. Um menino acudiu o velho, amparando-o nos braços, permitindo ver o rosto da vítima. Era Lino, que se voltou ao amigo e repetiu: “Assassino!”. Em desespero, Arrigo gritou que era inocente, a picareta não era dele. Ao baixar os olhos, viu as próprias mãos encharcadas de sangue. Tentou fugir, gritando, mas muitos braços não o deixavam sair do lugar, até que acordou ao lado de Luna, dormindo tranquila.

A escada e a muralha (pesadelo do guerrilheiro)

Arrigo sonhou que subia uma longa escada de madeira, dessas que se veem nos filmes sobre a Idade Média, usadas pelos guerreiros para invadir castelos. Não tinha certeza do motivo de galgar os degraus, mas sabia que era urgente. No começo pensou que o objetivo era entrar no castelo, depois prevaleceu a sensação de que estava escapando do confinamento em suas muralhas, cujo topo precisava atingir.

No fim da subida, olhou para baixo a uma altura de trinta metros ou mais. Vertigem. Companheiros vinham atrás, pressionando para seguir o caminho. Não dava para retroceder, e ainda sobravam alguns palmos para chegar ao objetivo. Teria de saltar para o alto, pulo pequeno, mas um erro levaria à queda fatal. Começou a sentir a escada balançar com o movimento dos que o seguiam. Seu corpo tremia em calafrios. Soldados aproximavam-se no topo da muralha. Indeciso, Arrigo ficou paralisado, agarrando-se à escada tremulante que podia cair a qualquer momento. Acordou em desespero, abraçado às grades de sua cela.

Nos porões da ditadura militar

Sima já tinha ouvido rumores sobre o uso de animais em sessões de tortura. Usavam até cobras e jacarés, em especial com os corpos femininos. Nunca imaginou que isso pudesse acontecer com ela. Antes de uma sessão, foi obrigada a dançar pelada para deleite de alguns policiais, que logo lhe colocaram o capuz na cabeça, a seguir uma corda no pescoço, atada às mãos atrás do corpo nu, de modo que, caso se mexesse para defender a intimidade, se enforcasse.

O agente conhecido pelo codinome de Gegê guardava baratas com carinho numa caixa, cada uma batizada com nome de atriz de novela: Glória, Regina, Eva, Dina, Yoná. Prendia finos barbantes em suas carcaças, cada qual de cor diferente, verde, azul, amarelo, branco, para melhor identificar as criaturas e também manipular seus movimentos, tarefa delicada, cumprida com destreza e desenvoltura. Não era homem só para o trabalho bruto dos choques e pancadas. Caprichava no que fazia, era profissional. E sensível, um carcereiro contou que o colega levava os insetos amestrados para exibir à mulher e aos filhos. Seu sonho era trabalhar com um ornitorrinco.

Gegê admirava a capacidade das baratas de sobreviver a chineladas e outras adversidades. Seus experimentos comprovavam a resistência delas a mais de meia hora debaixo d’água, em pouco tempo conseguem até regenerar patas arrancadas, podem ficar semanas sem comer e aguentam mais de um mês sem cabeça. Por sua vez, separada do resto do corpo, a cabeça pode se manter viva e mexer as antenas por horas. Era o que sussurrava nos ouvidos de Sima enquanto os colegas davam choques na moça e ele preparava seus bichinhos para entrar em ação.

Sima teve calafrios quando o tipo convidou as baratas para brincar sobre sua pele nua na sala de tormentos. Suportava, enojada, mas tremeu ao ver uma gaiola cheia de ratos. Percebendo a fraqueza, primeiro o torturador colocou delicadamente um camundongo para passear em busca de esconderijo nas cavidades do corpo da moça. Passado que voltava em pesadelos e delírios da exilada.

*Marcelo Ridenti é professor titular de sociologia na Unicamp. Autor, entre outros livros, de O segredo das senhoras americanas (Unesp).

Referência


Marcelo Ridenti. Arrigo. São Paulo, Boitempo, 2023, 256 págs.

Fonte:  https://aterraeredonda.com.br/arrigo/?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=novas_publicacoes&utm_term=2023-03-01

CIBERCULTURA – Sair da distopia digital

Por Miguel Oliveira Panão*

Habitamos o mundo de entretenimento que consumimos. Os feelies, ou “cinema sensorial” do Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley são, hoje, os TikTok que enchem a vida das pessoas de entretenimento. “Feelies” são pequenos vídeos que combinam a experiência visual à táctil para criar um ambiente imersivo e agradável. A intenção dos feelies consiste em aproximar a ficção da realidade, mas o preço pago pode ser o gradual aumento da incapacidade de distinguir a realidade da ficção. Reparem como tantas pessoas estão tão entretidas, que pensar torna-se raro e ceder aos que nos pedem coisas estranhas com a promessa de um vídeo viral passa a ser a norma. É isso que está a acontecer nos Estados Unidos com os estafetas de entregas da Amazon.

A jornalista Megan Garber fez notar esta onda num recente artigo; para o The Atlantic. Os clientes da Amazon começaram a pedir aos estafetas uma dança (Do a Dance) e estes, inocentemente, fazem o que os “realizadores TikTok” pedem, de modo a que estes possam tentar que os seus vídeos se tornem virais. E isso é o que as empresas que controlam as redes sociais pretende com a introdução das realidades aumentadas nas aplicações, isto é, que vivamos dentro das nossas ilusões.

Num outro artigo;, a jornalista da Vice, Gita Jackson diz que — «Transformar seres humanos reais, que aguentam condições precárias de trabalho para ter dinheiro para viver, em conteúdo, é desumanizante.» — Por isso, quando há algum tempo escrevia; sobre o fenómeno de padres a entrar no TikTok para chegar aos seus paroquianos ou aos mais jovens, fico agora a pensar se também na vida religiosa estaremos a perder a noção da realidade. Ou estarão os crentes a contar que a linha que separa a realidade da ficção fique ténue ao ponto de se tornar num instrumento de evangelização?

Em Agosto, Lisboa acolherá centenas de milhares de jovens que vêm participar na Jornada Mundial da Juventude (JMJ). Será que haverá um pico de geração de Terabytes de informação, ou será como o que vemos no hino das JMJ em que não há uma só atenção dedicada ao ecrã (excepto para ver um mapa), mas toda a atenção se volta para o conhecerem-se reciprocamente, conhecer a cidade e as pessoas que nela habitam, cantando de braços abertos como tanto caracteriza o típico modo de ser do Português? Vale a pena ver e ouvir este hino. Se realmente estamos a caminhar para um “Admirável Mundo Novo”, onde o ambiente cibercultural assente no entretenimento se sobrepõe ao ambiente eco-cultural assente em relacionamentos face-a-face, qual o melhor testemunho que a Igreja poderia dar?

Pessoas reais. E não estou a referir-me à aplicação “Be Real”, mas antes a sermos no lugar e tempo onde vivemos, a personificação da realidade para além de toda e qualquer virtualidade. E em vez de usarmos os ecrãs e as Apps para comunicarmos, sermos nós próprios os meios daquilo que queremos comunicar. Marshall McLuhan dizia que “o meio é a mensagem”, mas se cada pessoa é o meio através do qual passa a mensagem que vive, então, “nós somos a mensagem”. Por isso, quem comunica, comunica-se. Mas o problema que muitos discípulos dos meios digitais aponta (e com razão) é que nós, como mensagem e testemunho, temos um alcance muito limitado. Porém, se pensarmos no exemplo de Jesus, ou dos Apóstolos após a Ressurreição, não tinham qualquer meio digital e tanto a sua vida, como o seu testemunho, chegou a todo o mundo. O que os apóstolos dos meios digitais podem responder (e com razão) é que a velocidade com que as mensagens circulam no mundo não é a mesma que no tempo de Jesus. E se não nos adaptarmos ao mundo de hoje, a Evangelização não acontece.

Nunca mais que esqueço um cartoon do Professor Pardal criado por Wlat Disney que dizia — «Invento tudo. O impossível só demora mais tempo.» Parece impossível voltarmos a ser pessoas reais que conseguem chegar a todos, independentemente dos meios digitais. Porém, é tudo uma questão “construtal”. Em 1996, Adrian Bejan, professor na Universidade de Duke nos Estados Unidos, formulou a Lei Construtal que diz — «para um sistema finito persistir no tempo (evoluir), deve facilitar as correntes que por ele atravessam.» — o resultado desta Lei são as redes dendríticas que vemos nas árvores, bacias dos rios ou mesmo nos nossos pulmões. A Evangelização não acontece porque as pessoas recebem informação. Os meios digitais facilitam a transmissão de informação, mas não a comunicação que as pessoas fazem de si mesmas. Contudo, nós temos redes de comunicação. Basta dar-lhes mais valor: as comunidades.

Se as comunidades viverem somente para si próprias, e não abrirem as portas dos relacionamentos entre as pessoas a novos membros, fecham-se os canais de comunicação inter-pessoal que possuem um efeito que nenhuma transmissão de informação possui: o efeito experiencial.

Duas pessoas que começam a fazer juntas um trilho numa floresta e não se conhecem, através de pequenas ajudas para superar as dificuldades do caminho, podem criar-se laços que duram para sempre. Se na comunicação digital se partilham experiências colectivas, quem por elas pode ficar tocado, sente-se induzido a desejar mais o encontro presencial para saciar a sua sede de comunicar-se, do que o saciar digital. Recordo a iniciativa que o meu amigo João Viana fundou em 2015 da Walking Mentorship, onde ele e o seu parceiro Nuno Santos Fernandes ajudam pessoas e grupos a encontrar os seus propósitos profissionais e até pessoais, usando a caminhada como método para realizar a mentoria. Nas fotos vêem-se sempre pessoas a caminhar em grupo, ou nos seus momentos de solitude, mas presentes no mundo real. Olhar para aquelas imagens suscita o desejo de estarmos ali onde estão. Os pequenos filmes não saciam sensorialmente, como os feelies, mas impulsionam a sair e sentir os passos com os pés assentes no chão. Só a vida real poderá ajudar-nos a evitar o colapso da distopia digital em que vivemos e o efeito experiencial que as comunidades possuem é insubstituível.

* Professor Universitário, Blog & Autor

Fonte:  https://agencia.ecclesia.pt/portal/cibercultura-sair-da-distopia-digital/