quinta-feira, 2 de março de 2023

Contar histórias é bom para a memória?

 Leonardo Neiva

Usadas para desabrochar a imaginação em crianças, contar e ouvir histórias também estimula o cérebro de idosos, retardando doenças como Alzheimer

26 de Fevereiro de 2023

Numa voz enfraquecida pela idade mas calejada por décadas de contação de histórias, Maria Ignez, 84, relembra que começou pequena com “essa mania de inventar coisas”. Rodeada de irmãos homens, no início precisou imaginar até mesmo uma melhor amiga para si. “Eu ficava muito sozinha. Por isso criei uma menina que só eu via no espelho. E eu brincava com ela.” Além de vir de uma família de ávidos leitores, Ignez foi influenciada muito cedo por duas babás que adoravam lhe contar causos.

Quem apresenta Ignez à reportagem é sua neta, Clarice Rios, 33, que é roteirista. A vivência quando criança na casa da avó contadora de histórias inspirou a carioca a criar o argumento de uma série em que uma menina curiosa tem seu faro de jornalista despertado justamente pelas conversas com a matriarca da família.

“Quando eu e meus primos íamos à casa da minha avó em Nova Friburgo, a primeira coisa que a gente fazia era pedir para ela contar uma história”, relembra. “Nos fundos, tinha um terreno com uma pequena floresta de pinheiros. Lembro que ela dizia que duendes moravam ali. Todo dia de tarde, a gente dava café e bolo para os duendes comerem e eles devolviam em bala. Até hoje a gente fala deles, o Salazar, a Violeta e a Margarida.”

Se você ouve essas coisas quando criança, acaba levando para a vida inteira, diz Ignez. “Eu estou com 84 anos e várias coisas boas e ruins sobre mim hoje eu aprendi na infância.” Ela não é contra boa parte das histórias hoje virem enlatadas em telas de TV ou celular, mas considera que algo se perde pelo caminho. “Quando você conta uma história, a criança é quem vai dizer se a personagem é loira, ruiva, gorda, magra… Ela se descreve na heroína ou na bruxa e a imaginação vai fluindo.”

Do outro lado da linha, Ignez soa como uma das principais contadoras de história da nossa literatura: a velha Totonha, que de vez em quando aparecia na casa do “Menino de Engenho”. “Que talento ela possuía para contar as suas histórias, com um jeito admirável de falar em nome de todos os personagens”, descreve José Lins do Rego.

Assim como Totonha, que pintava um reino como um engenho fabuloso e o Barba-Azul feito um poderoso senhor de engenho, Maria Ignez sabe que a história precisa ganhar cores regionais que tenham a ver com o dia a dia das crianças, para encantá-las. “A fada da Cinderela vira um peixe numa vila de pescadores, uma vaca numa fazenda. De acordo com o lugar, a história vai sendo contada de uma determinada maneira.”

Boa parte das histórias que Ignez ouviu das babás foi parar nos livros de contos infantis que escreveu quando adulta. Todos, é claro, repletos de histórias que vão do folclore nacional a contos com reinos e princesas. Formada em fonoaudiologia, ela integrou por anos o grupo carioca de contadoras de histórias Confabulando. Mas seu público mais fiel estava em casa.

Até antes da pandemia, Ignez dedicava uma noite da semana para receber os oito netos na sua casa, em geral às quartas-feiras. “Ela fazia o prato de que cada um mais gostava. Era uma forma de estarmos juntos”, lembra Dias. Quando conversei com avó e neta, em junho de 2022, a pandemia ainda assustava, mas o contato com a família estava voltando aos poucos.

Dos oito netos, as histórias de Ignez influenciaram as trajetórias de pelo menos duas delas. Além da roteirista Clarice Rios, a atriz Alice Wegmann, de novelas como “Órfãos da Terra” e “Onde Nascem os Fortes”, sempre que pode revela a inspiração que teve na avó, das leituras que compartilha com seus seguidores até a vontade que mantém de escrever um livro. “É legal pensar o quanto minha avó tem esse poder e o quanto ela trouxe para nós. É um trunfo enorme desse universo que ela criou ao nosso redor”, afirma Rios.

 Arte Maria Luiza Bastos-Tigre @malu.tigre

Aulas de memória

Além das reuniões com os netos, a pandemia interrompeu os encontros que Ignez fazia toda semana com suas alunas. Mas, em vez de crianças ávidas por escutar contos de fadas, ela montou uma turma com cerca de 40 mulheres idosas, com a intenção de exercitar a memória delas.

Quem dá mais detalhes é a neta, que frequentou as aulas durante um tempo. De acordo com ela, a coisa começava sempre com um aquecimento. “Exercícios de alongamento da língua e do corpo, de coordenação motora. A aula é de memória, mas várias coisas ajudam pessoas mais velhas.” Para cada turma, Ignez inventava novos exercícios. “Se via uma obra de arte que adorava, ela imprimia e levava. Aí a pessoa tinha que olhar a figura por alguns minutos e dizer tudo de que se lembrava.”

O principal ganho, porém, estava em outra parte, diz Rios. “A maioria delas tinha perdido o marido ou grande parte das conhecidas, então era uma oportunidade de fazerem novas amigas depois dos 80 anos. Era quase uma terapia grupal, porque elas falavam das suas questões pessoais e contavam tudo que estavam vivendo.” Segundo Ignez, o melhor momento geralmente vinha na hora do lanche pós-aula, quando todas sentavam para conversar. “Elas gostavam desse convívio com gente que fala a mesma língua e recebeu a mesma educação. Porque muita coisa mudou da nossa época para cá”, conta Ignez.

O neurologista Diogo Haddad, coordenador do Núcleo de Memória do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, diz que contar uma história, seja real ou fictícia, ajuda a gerar reserva cognitiva, recurso acumulado pelo cérebro ao longo da vida e que impede ou retarda doenças como o Alzheimer. “No idoso, essas coisas fazem parte do estímulo. Se quero que ele fique ativo, o simples fato de ouvir ou contar histórias já é algo extremamente positivo”, aponta Haddad.

Pelo que diz o neurologista, é um erro deixar de incluir o avô em conversas e atividades do dia a dia, por acharmos que ele não entende ou não demonstra interesse em participar. “O idoso já tem deficit de linguagem, memória e atenção. Se você larga ele parado ou isolado, vai ficar assim o dia inteiro. Cabe a quem está do lado estimular que ele participe ativamente das coisas”, afirma Haddad. Portanto, conversar, contar o que está acontecendo no mundo e fazer perguntas sobre sua percepção ao longo do dia são formas importantes de estimular o idoso e criar novas conexões cerebrais, podendo reduzir o avanço da doença.

“Sinto muita falta das aulas porque via a possibilidade de conversar. Agora fico sem ter o que fazer”, conta Ignez. “Ainda mantenho contato com as alunas por Whatsapp ou telefone. Algumas morreram de covid, então dispersou bastante. O jeito é se reinventar.”

Resgatando histórias

Foram as histórias da tia Maurícia, que ouvia numa escuridão sem luz elétrica, que fizeram o educador e jornalista indígena Maickson Serrão ter a ideia para o podcast “Pavulagem”, lançado por meio do programa Sound Up, do Spotify. Com a intenção de reencontrar seres que o faziam tremer de medo nas noites na infância, como o Taú, pássaro que come gente, a Ingerada, mulher que vira onça, e o Patauí, andarilho das noites, ele retornou à Vila de Boim, que fica a dez horas de barco de Santarém (PA), onde nasceu e cresceu, para gravar as histórias na voz dos contadores da região.

“Essa geração vem quebrando o hábito dos nossos pais, que ouviam muito mais nossos avós nessas noites de contação de histórias. Hoje na vila onde cresci muita gente tem TV, celular, outras formas de entretenimento”, conta o jornalista. Não que não existam jovens contadores de histórias, “mas é muito mais difícil encontrar”, ele diz. “Das entrevistas que fiz, a pessoa mais nova tinha 39 anos. Os outros estavam todos acima de 50””

Além de apresentar muitos desses seres míticos a uma geração de crianças que nunca ouviu falar deles, Serrão quer usar o programa para registrar uma rica gama de conhecimentos que ainda depende da transmissão oral para sobreviver. “Esses contadores são uma biblioteca viva, ambulante, mas que infelizmente também sofrem perda de memória ou acabam morrendo. Neles estão registrados os conhecimentos de gerações de comunidades ribeirinhas e indígenas da Amazônia.”

A psicóloga Carla Guth diz que contar histórias pode ajudar crianças no desenvolvimento de habilidades como linguagem, imaginação, compreensão emocional, concentração e até consciência cultural, levando-as a compreender outras culturas e a ter uma consciência mais ampla do mundo. “Essas habilidades são importantes para o desenvolvimento cognitivo e social das crianças.”

A necessidade de contar novas histórias para o enteado antes de dormir levou o dramaturgo Lucas Moura e a esposa Estela a idealizar um podcast recheado de contos infantis. Mas “Calunguinha – O Contador de Histórias” também vai além de João e Maria. Em vez de se ater a histórias tradicionais, o casal optou por se aprofundar nos relatos de personagens negros menos conhecidos, reais ou fictícios, como Xica Manicongo, considerada a primeira travesti brasileira, e a lenda da princesa moura Teiniaguá.

“Eu e a Estela somos pessoas pretas filhas de nordestinos. Existe uma prática muito grande de contação de histórias na minha família, mas contação de causos, crônicas mesmo”, lembra Moura. “A gente tem uma vivência de contação de histórias, mas não é Chapeuzinho Vermelho ou os três porquinhos, e sim coisas que tinham a ver com pessoas que a gente conhecia.”

“Calunguinha”, que também foi selecionado pelo Sound Up, busca uma forte conexão com o cotidiano da criança. O podcast é baseado em acontecimentos do dia a dia do jovem personagem, como o bullying que sofre por conta de seu cabelo ou a doença da avó, através dos quais a mãe de Calunguinha vai recontando histórias importantes do povo preto. Cada episódio é narrado por um convidado especial, o que inclui Lázaro Ramos, Margareth Menezes e Luedji Luna. “Todas essas histórias passam por nós de alguma maneira. Sobre a Luisa Mahin [quituteira que teria participado dos levantes de escravos na Bahia do século 19], nossa comida tem muita influência dos povos em que ela estava inserida. Então, com brasileiros, essas histórias nos atingem mas não recebem nome. Para nós, dar nomes a essas pessoas é importante.”

 Arte Maria Luiza Bastos-Tigre @malu.tigre

Histórias de vida

Se, num primeiro momento, o impacto é apenas lúdico, ouvir histórias também permite à criança desenvolver mecanismos para que uma lição ou atividade se torne mais interessante, afirma o neurologista Diogo Haddad. “Mais tarde, ela vai conseguir usar essa imaginação para aprender coisas formais, sair de situações adversas e até desenvolver habilidades no trabalho.”

Oito meses após a entrevista original, com a pandemia mais controlada, Ignez diz que ainda não pôde retomar as aulas de memória. Principalmente por conta do marido, que está doente e requer cuidados constantes. Já as visitas dos netos e bisnetos, com os quais mantém uma relação próxima, têm acontecido com frequência. Só que os jantares, em vez de semanais, passaram a ser mensais. “A coisa de toda quarta-feira infelizmente acabou. A família ficou muito grande”, conta Ignez. “A convivência é uma coisa muito boa. Ficamos mais amigos, um se interessa pelo outro. É uma pena que a pandemia tenha partido isso.”

Mesmo com o período de distanciamento, a neta Clarice Rios ainda leva fresca na cabeça uma pequena anedota sobre a primeira vez em que Ignez foi visitar a cidade de Ouro Preto, aos 15 anos de idade. “Como a nossa tataravó era de lá, ela jura que conhecia as ruas da cidade mesmo sem nunca ter ido”, conta. Para Rios, é um exemplo de como a avó vivencia na pele as histórias que conta.

Ignez confirma a lembrança. “Realmente fiquei muito aflita porque conhecia tudo sem nunca ter estado lá. Sabia que, quando fosse virar uma esquina, ia encontrar um chafariz. Numa farmácia, perguntei ao atendente se ali já tinha sido a casa de um médico e ele confirmou”, relembra. “História de vida cada criança faz a sua. Sei disso muito bem porque das coisas que aconteceram quando era menina, até hoje eu lembro.”

Fonte: https://gamarevista.uol.com.br/semana/me-conta-a-sua-historia/contar-historias-e-bom-para-a-memoria/?utm_source=NexoNL&utm_medium=Email&utm_campaign=anexo

Previsões para a morte da inteligência artificial

Marcelo Coelho*

  

Imagem: Convergência Digital

Não entendo por que razão, com todo esse avanço, meu computador continua burro. Ainda me faz perguntas idiotas para saber se sou de fato humano

Vejo que a inteligência artificial já consegue fazer trabalhos escolares, sinfonias, e talvez artigos melhores do que os meus.

Anunciam que, logo logo, você nem vai precisar conversar com parentes pelo telefone; a máquina reproduz a sua voz e diz o que você diria para cada interlocutor.

Que seja! Poderei desenvolver o meu Alzheimer sem que ninguém perceba – e, quem sabe, até morrer sem causar tristeza ao meu círculo mais próximo.

O que não entendo é por que razão, com todo esse avanço, meu computador continua burro. Ainda me faz perguntas idiotas para saber se sou de fato humano.

A menos irritante exige apenas que eu clique numa rodelinha – e pronto, eles ficam satisfeitos. Sou humano; mas será que toda a IA ainda não foi capaz de clicar naquela rodelinha no meu lugar?

E, depois, que diferença isso faz? Será que eles querem ter certeza de que eu mesmo, em carne e osso, foi quem assinou a newsletter do “Pet News Daily”? Ou que foi este que vos fala o pateta que comprou um depilador de orelhas e narinas recarregável com luz solar?

Provavelmente, se em vez de mim houvesse uma inteligência artificial digitando no teclado, esse tipo de gasto já teria sido evitado automaticamente.

“Não, ele não precisa provar que é humano... só mesmo um humano seria tonto o bastante para entrar neste programa de fitness para gatos de estimação.”

Se minha humanidade se define pela capacidade de encontrar uma bicicleta na calçada, as coisas não vão nada bem. E isso por diversas razões

O mais comum é que, além de clicar na rodelinha, me peçam uma espécie de teste visual. “Clique nas imagens que contêm semáforos.” É sempre esse tipo de imagem chata: ônibus, bicicletas, pontes, barcos.

Não dava para mostrar imagens mais interessantes? Que tal distinguir entre dinossauros e trapezistas? Por que não me pedem para identificar chapéus, aquários, pipocas?

Se minha humanidade se define pela capacidade de encontrar uma bicicleta na calçada, as coisas não vão nada bem. E isso por diversas razões.

Primeira: a tal inteligência artificial precisa melhorar muito, se não consegue resolver esse problema.

Segunda razão: espera-se pouquíssimo de um ser humano, se é apenas isso que ele precisa fazer para ser quem é.

Terceira razão, a mais preocupante. Talvez nem eu seja muito humano, porque com frequência eu sou reprovado no teste.

Aquela manchinha ali no canto, pode ser considerada um carro? Ou é a caçamba de uma moto? Chamo aquilo ali de semáforo ou é só um poste? Opa, opa, esqueci de clicar na mais óbvia das faixas de pedestres.

Calma, ainda há esperança. Mostram-me um código de letras e números, do tipo Y2vaaPQP. Só que às vezes as letras estão completamente tortas, como se metidas debaixo d’água. Peço um novo código, também ilegível.

Na terceira tentativa, acaba dando certo. Pelo menos ainda não cheguei ao ponto de pedir que a Mah Qui Nah So Le Tre para mim.

Enquanto isso, minhas senhas se multiplicam, se complicam, são recusadas ou despertam, no computador, sinais de alerta: mude a senha! Adote nosso sistema que unifica todas as senhas numa só (tentei: é um inferno).

De resto, leio que com os avanços da computação quântica nenhuma senha valerá mais coisa nenhuma.

Prevejo um final para todo esse progresso.

A loja só vai confiar em você, e você só confiará na loja, se você for até o balcão pessoalmente, onde estarão suspensos o velho rolo de papel pardo e o carretel ensebado de barbante. Com dedos grossos e reais, o vendedor apertará as teclas pretas e vermelhas de uma grande caixa registradora decorada com fustões de prata, parente dos órgãos barrocos, dos realejos, dos taxímetros Capelinha.

O trabalho da faculdade, antes feito no computador, será substituído pela sombria adrenalina da prova oral, diante de uma banca de “lentes” severíssimos, enrugados, cadavéricos – e ainda assim humanos.

Você será chamado de volta à velha mesa de madeira escura no escritório, com um pote de cola Tenaz num canto. Coçará a cabeça diante de um relatório, e perguntará: “quem foi o imbecil que escreveu isso?”

Nascerá dentro de você uma onda calorosa de simpatia humana, dirigida até aquele careca sentado a quatro mesas de distância: “só pode ter sido o Esteves”.

E eis que a burrice humana, farta de tanta inteligência artificial, terá finalmente o reconhecimento que merece.

*Marcelo Coelho é jornalista, com mestrado em sociologia pela USP (Universidade de São Paulo). Escreveu três livros de ficção (“Noturno”, “Jantando com Melvin” e “Patópolis”), dois de literatura infantil (“A professora de desenho e outras histórias” e “Minhas férias”) e um juvenil (“Cine Bijou”). É também autor de “Crítica cultural: teoria e prática” e “Folha explica Montaigne”, além de três coletâneas com artigos originalmente publicados no jornal Folha de S.Paulo (“Gosto se discute”, “Trivial variado” e “Tempo medido”).

Fonte: https://www.nexojornal.com.br/colunistas/2023/Previs%C3%B5es-para-a-morte-da-intelig%C3%AAncia-artificial

Declínio do protestantismo?

Artigo de Fúlvio Ferrario*

 https://www.ihu.unisinos.br/images/ihu/2023/03/02_03_lutero_foto_reproducao.png

02 Março 2023

"Parece emergir o seguinte cenário: de um lado, o mundo rico, fortemente secularizado; de outro, uma minoria 'nórdica' conservadora cristã e um cristianismo meridional global que não passou pelas revoluções culturais modernas", escreve Fúlvio Ferrario, teólogo italiano e decano da Faculdade de Teologia Valdense, em Roma, em artigo publicado por Confronti, março-2023.

Eis o artigo. 

No início do século 21, o cristianismo protestante clássico provavelmente está passando pela crise mais violenta de sua história. É inevitável referir antes de mais os dados estatísticos, que vêem uma redução dramática no número de todas as igrejas protestantes tradicionais na Europa e América do Norte. A própria relevância cultural do protestantismo no debate público está em queda livre.

Não basta citar presenças únicas e significativas (na política, por exemplo, mulheres como Angela Merkel e Ursula von der Leyen): é bastante claro que, se e quando uma voz cristã se faz ouvir em contexto europeu ou mundial, não é protestante. 

A cultura e a espiritualidade protestantes desenvolveram-se no quadro da modernidade, influenciando-a profundamente e, ao mesmo tempo, sendo influenciado por ela. Nos últimos 60 anos, esse diálogo áreas interessadas da vida e da cultura que poderíamos definir como altamente visíveis, entre as quais as mais relevante me parece ser a mudança nas relações de gênero na sociedade e a compreensão da sexualidade humana.

De várias formas, o protestantismo procurou entender pelo menos algumas das tradições cristãs inovações que surgiram na história. A ordenação ao ministério pastoral de pessoas de ambos os sexos é um caso paradigmático.

Segundo os que deram este passo, não se trata de uma simples transposição eclesial de práticas sociais; pelo contrário, este último constituiu um estímulo para um repensar teológico sobre a  doutrina do Espírito Santo e seus dons. Certamente não é um discurso idêntico, mas com analogias que podem ser feitas com relação a muitas questões, éticas e outras. 

Bem, o mínimo que se pode dizer é que esse esforço, bem intencionado e conduzido com notável compromisso, não foi retribuído em termos de consentimento. A opinião pública secular tomou nota disso de forma distraída e em todo caso fria, considerando-o uma tentativa um tanto pálida de atualizar um "produto", a fé cristã, aliás obsoleta. Mais radical ainda foi a condenação das outras Igrejas.

Quanto à ortodoxia e ao catolicismo, não há motivo para surpresa. A primeira faz da impermeabilidade à história (obviamente mitológica, mas proclamada com convicção) uma espécie de bandeira. Já o segundo se declara aberto ao diálogo com o mundo em transformação, mas gostaria de ditar suas condições.

Entre ortodoxia e catolicismo, no entanto, desenvolveu-se, com evidências particulares a partir de pontificado de João Paulo II, uma espécie de "consenso antiprotestante".

De fato, a "suspeita do protestantismo" é repetidamente lançada contra setores do mundo católico que, mais ou menos timidamente, afirmam querer se diferenciar do monolito romano.

Por mais paradoxal que pareça (e de fato é), o mesmo mundo evangélico e pentecostal, em si tradicionalmente pouco "ecumênico", parece envolvido nesse diálogo, com base nos "valores familiares", na "defesa da vida" e afins.

Igualmente veemente, porém, é o protesto do cristianismo, mesmo e precisamente evangélico, do Sul do mundo, para com as irmãs e irmãos dos países ricos. Não são poucas as famílias protestantes que se separaram ou ameaçam se separar, por exemplo, em questões relacionadas a pessoas de orientação homossexual.

As igrejas africanas, asiáticas, latino-americanas, muitas vezes em crescimento, expressam em termos inequívocos sua rejeição drástica a posições consideradas desprovidas de qualquer fundamento bíblico.

Assim, parece emergir o seguinte cenário: de um lado, o mundo rico, fortemente secularizado; de outro, uma minoria "nórdica" conservadora cristã e um cristianismo meridional global que não passou pelas revoluções culturais modernas.

Nesse quadro, o protestantismo clássico, como expressão de um cristianismo interessado no diálogo com o horizonte secular, acabaria de fato esmagado.

Se isso constitui uma tragédia apenas para o protestantismo, ou um drástico empobrecimento para a fé cristã como tal, permanece, na minha opinião, uma questão em aberto.

* Teólogo italiano e decano da Faculdade de Teologia Valdense

Fonte:  https://www.ihu.unisinos.br/626601-declinio-do-protestantismo-artigo-de-fulvio-ferrario

Castells: o que (não) penso sobre o ChatGPT

  Manuel Castells*

https://www.ihu.unisinos.br/images/ihu/2023/03/02_03_inteligencia_artificial_flickrcc_deepak_pal_iqlect.png

02 Março 2023

"Em resumo, o ChatGPT3 é uma ferramenta impressionante que tem potencial para revolucionar muitas indústrias e setores. No entanto, também representa riscos que devem ser considerados e manejados cuidadosamente. É importante que trabalhemos juntos para assegurar que as aplicações da inteligência artificial sejam éticas e responsáveis, e que sejam utilizadas para o bem-estar humano, o avanço da justiça social e a inovação responsável", escreve Manuel Castells, sociólogo espanhol, em artigo gerado pelo ChatGPT3, publicado por La Vanguardia e reproduzido por Outras Palavras, 01-03-2023. A tradução é do Antonio Martins.

Eis o artigo.

O ChatGPT3 é a mais recente versão da plataforma de linguagem natural desenvolvida pela OpenAI, e representa um marco no avanço da inteligência artificial (IA), quanto a processamento e geração de linguagem natural.

Em termos simples, o ChatGPT3 é capaz de processar e gerar respostas de linguagem natural numa ampla gama de idiomas e dialetos, incluindo o espanhol [e o português], e adaptar-se ao tom e estilo das consultas que recebe. Além disso sua impressionante capacidade para processar grandes quantidades de dados o converte em uma ferramenta valiosíssima para aqueles que buscam extrair conhecimento de grandes conjuntos de dados.

Ainda que a capacidade do ChatGTP3 para processar linguagem natural seja impressionante, ele também apresenta alguns desafios e preocupações importantes. Em primeiro lugar, sua capacidade para gerar respostas de linguagem natural convincentes converte-o numa ferramenta potencialmente perigosa para a geração de notícias falsas e a difusão de informação enganosa nas redes sociais.

Em segundo lugar, como uma ferramenta que pode automatizar muitas tarefas, também apresenta o risco de substituir trabalhadores humanos em muitas indústrias e setores, o que poderia ter consequências sociais e econômicas negativas.

Apesar destes riscos, há muito que celebrar no desenvolvimento do ChatGPT3. Em particular, sua capacidade para processar grandes quantidades de dados e gerar respostas precisas e relevantes tem o potencial de ser uma ferramenta muito útil para os profissionais da investigação e análise de dados. Também pode ser uma ferramenta muito valiosa para as empresas, especialmente na atenção ao cliente, já que o ChatGPT3 pode oferecer respostas automatizadas às consultas dos clientes, melhorando a eficiência dos processos de atendimento.

Quanto ao impacto que o ChatGPT3 poderia ter no mercado de trabalho, é importante levar em conta que, ainda que a automatização e a inteligência artificial possam deslocar os trabalhadores de algumas tarefas, também podem criar novas oportunidades de emprego em outros campos. Portanto, é importante que os líderes empresariais e políticos trabalhem juntos para garantir que os benefícios da inteligência artificial sejam distribuídos de maneira justa, e que os trabalhadores tenham as habilidades e formação necessárias para se adaptar a um mercado de trabalho em constante mudança.

Em resumo, o ChatGPT3 é uma ferramenta impressionante que tem potencial para revolucionar muitas indústrias e setores. No entanto, também representa riscos que devem ser considerados e manejados cuidadosamente. É importante que trabalhemos juntos para assegurar que as aplicações da inteligência artificial sejam éticas e responsáveis, e que sejam utilizadas para o bem-estar humano, o avanço da justiça social e a inovação responsável.

[Este texto foi gerado até aqui pelo ChatGPT3, a partir de minha demanda: “Escreva uma nota de opinião sobre o ChatGPT3 como se fosse Manuel Castells”. Agora tudo é possível.]

*Sociólogo espanhol.

Fonte: https://www.ihu.unisinos.br/626612-castells-o-que-nao-penso-sobre-o-chatgpt

Morin e o horror bélico: mesmo em nome da civilização, a guerra é uma barbárie

 Roberta De Monticelli*

 https://www.ihu.unisinos.br/images/ihu/2023/03/02_03_hiroshima_pos_bomba_pixabay.jpg

02 Março 2023

Pforzenheim, fevereiro de 1945. A Alemanha já está vencida. Mas a Royal Air Force, com um ataque de 367 bombardeiros, não desiste de arrasar essa cidadezinha alemã, causando a morte de 17 mil civis. Assim começa o extraordinário livreto de Edgar Morin intitulado “Di guerra in guerra: dal 1940 all’Ucraina invasa”, lançado ao mesmo tempo em Paris e Milão (Ed. Cortina) nestes dias.

Eis o artigo.

Ele começa com o choque de horror que o tenente Edgar Nahoum, de 24 anos, que já havia entrado para a resistência aos 21 anos (com o nome clandestino, que permaneceria com ele como nom de plume, de Edgar Morin), reprimiria rapidamente, como ele nos conta, dizendo a si mesmo: “É a guerra”. No mesmo mês, 1.300 bombardeiros anglo-americanos aniquilaram a desmilitarizada cidade da arte de Dresden, causando mais de 300 mil mortes.

Di guerra in guerra: dal 1940 all’Ucraina invasa, de Edgar Morin | Foto: Divulgação

E ainda estavam por vir as centenas de milhares de mortes civis pela bomba atômica em Hiroshima e Nagasaki em agosto. Cerca de 60% dos civis normandos mortos no desembarque na Normandia se deveram aos bombardeios dos libertadores.

Essa breve sequência inicial dá o mote de todo o pequeno livro, que é uma cura de choque contra a remoção da barbárie que aceitamos que se desencadeasse em nome e em prol da civilização e da democracia, como voltamos a fazer hoje. Ainda mais indizível e extrema foi a barbárie removida da luz ofuscante da justa causa.

Uma réstia de ar puro

A fim de abrir uma réstia de ar puro no confinamento das nossas consciências fechadas, Morin acusa-se, enganando a si mesmo: “Foi muito mais tarde, depois da invasão da Ucrânia, que ressurgiu em mim a consciência da barbárie dos bombardeios realizados em nome da civilização contra a barbárie nazista”. Não é verdade, ele sentiu isso desde então. Mas foi preciso um homem de 102 anos para nos dizer que ainda temos tempo para acordar.

Um homem de 100 anos pode falar com a voz de um menino. Foi um regime tecido de mentiras, gulags e assassinatos que contribuiu de forma essencial para libertar a Europa do nazismo. Foram a primeira derrota alemã frente a Moscou e a entrada dos Estados Unidos na guerra, ambas em dezembro de 1941, que levaram Hitler, em janeiro de 1942, à decisão de exterminar todos os judeus do continente. Foi um país cujo nome por si só evoca em nós as ideias de liberdade, igualdade e fraternidade que reprimiu a aspiração à liberdade do povo argelino com o sangue de um dos maiores massacres da história.

É como se, olhando para o nosso passado, pudéssemos verificar de todos os pontos de vista a verdade daquilo que Vassilij Grossmann disse sobre Stalingrado: que foi “a maior vitória e a maior derrota da humanidade”.

A voz do centenário e do menino é a voz da fenomenologia: capaz de fazer reviver tudo o que passou na plenitude sensível em que foi vivido e, ao mesmo tempo, dotada de uma visão de longo alcance, que aferra o conjunto e o desígnio do tempo, suas figuras invariantes.

Essa fenomenologia das figuras da guerra – de sua consciência alucinada, mas apodítica – é tão evidente quanto desarmante, como se a criança que está em nós, em quem Platão já saudava o filósofo, dissolvesse finalmente o medo nas palavras mais simples, que mostram o rei nu e a sua vergonha, e a nossa. A histeria de guerra, em primeiro lugar. Aquela “conversão de um sintoma imaginário em um sintoma da realidade”.

É aquela que produz a demonização total do inimigo, jogando na fogueira tanta lenha de ódio a ponto de queimar as relações futuras de gerações inteiras, de censurar escritores, músicos, esportistas, apenas por sua nacionalidade, e, finalmente, de romper amizades que pareciam profundas e que recuam diante do incompreensível barulho das fanfarras.

A “espionite”, ou seja, a crença de que o nosso campo está infestado de espiões pagos pelo inimigo – e sabemos algo sobre isso depois de deixar que qualquer um que ousasse levantar uma sobrancelha de dúvida fosse alistado entre os putinianos.

A criminalização, que é a forma com que o fanatismo mata a política transformando-a em guerra ou prolongando a guerra em rajadas de mentiras e em cemitérios de omissão, como sabemos desde a Guerra Fria.

A radicalização, que em nível micro se transforma em destruição dos tecidos familiares e afetivos – como ocorreu com a guerra da Iugoslávia em 1991, como também ocorre hoje nas fronteiras entre a Rússia e a Ucrânia – e em nível macro se transforma em escalada, como aquela que em 1945, com a revelação do poder de autodestruição que já estava nas mãos do ser humano, mudou radicalmente e de uma vez por todas os antigos argumentos em defesa de uma guerra justa.

Como é estranho que tantas inteligências brilhantes não tenham se dado conta disso. E que tantos “jornalecos” tenham se esquecido daquela evidência do mal maior – a destruição da civilização humana sobre a terra – que finalmente havia levado, no século passado, a duas conquistas morais que podíamos acreditar que eram irreversíveis.

Uma delas é a arquitrave normativa da chamada comunidade internacional, encarnada em inúmeras instituições, mas tão brutalmente desatendida na realidade: a Declaração Universal dos Direitos Humanos. A outra é aquela que Aldo Capitini, o nosso grande teórico da não violência, chamou de desmantelamento dos nacionalismos.

Ambas as conquistas reduzem enormemente a legitimidade da guerra como método de resolução das disputas internacionais, prospectando aquelas concessões de soberania em benefício de amplas democracias supranacionais que a União Europeia realizou em parte.

As responsabilidades da União Europeia e dos Estados Unidos

Morin não poupa a União Europeia da acusação de não ter querido evitar o desastre da guerra civil iugoslava, assim como não poupa Israel de ter varrido, ao se autoproclamar um Estado judeu, a solução de um Estado democrático binacional, enquanto destruía a de dois Estados por meio da contínua expansão dos assentamentos coloniais.

E o grande velhinho não é terno com “as nossas mídias”, concentrados no imperialismo da Grande Rússia e “mudos sobre o outro imperialismo que intervêm em todos os lugares do globo, muitas vezes contrariando as convenções internacionais, como a Rússia na Ucrânia”. Não é de se admirar que Morin deixe se sobressair no fim do livro a figura de Mikhail Gorbachev, “herói da humanidade que fez cessar a Guerra Fria em nome daquela ‘casa comum’ que é a terra para todos os humanos”.

Finalmente, depois de ter distinguido três guerras em uma (a continuação da guerra interna entre o poder ucraniano e a província separatista, a guerra russo-ucraniana e “uma guerra político-econômica internacionalizada antirrussa do Ocidente animada pelos Estados Unidos”), Morin se surpreende pelo fato de que “tão poucas vozes se levantem em favor da paz nas nações mais expostas. É surpreendente ver tão pouca consciência e tão pouca vontade na Europa (...) em promover uma política de paz”.

Toda a vida humana tem a ver com o fato de se posicionar, escreveu Edmund Husserl, introduzindo a distinção entre tomar partido, ou inclinar-se, e consentir com aquilo que temos razão para acreditar que é verdade, até que se prove o contrário e independentemente daquilo que pensam os companheiros.

Morin não oferece ao leitor a infindável bibliografia que tem às suas costas (cerca de 80 livros traduzidos em cerca de 30 línguas), mas apenas um século de vida vivida tomando posições que o tempo provou que são justas e bem fundamentadas, todas elas. Uma vida de ação na sua juventude partidária e na sua maturidade como intelectual público, é claro, mas sobretudo uma vida de pesquisa, infinita.

No fundo, o pensamento da complexidade, apesar dos seis volumes de “O método”, nos quais se desdobra da natureza à ética, distingue-se pela mais humanística das aspirações: se você busca a verdade, busque-a toda, mesmo que saiba que conhecerá – se tudo der certo – uma pequena parte dela.

Na história política do mundo, que é “planetária” desde os primórdios do século XX, isso significa: nunca ignore as razões de nenhuma parte e, sobretudo, nunca ignore a parte de mal que suas escolhas podem envolver
 
* O comentário é da filósofa italiana , professora da Universidade San Raffaele, de Milão, publicado em Domani, 01-03-2023. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
 
Fonte:  https://www.ihu.unisinos.br/626595-morin-e-o-horror-belico-mesmo-em-nome-da-civilizacao-a-guerra-e-uma-barbarie
 

Edgar Morin: “A guerra é sempre uma espiral para o abismo”

 

https://www.ihu.unisinos.br/images/ihu/2023/03/02_03_guerra_na_ucrania_onu.jpg

02 Março 2023

A invasão da Ucrânia leva o filósofo e sociólogo francês de 101 anos a refazer os acontecimentos bélicos que atravessaram sua vida: a Segunda Guerra Mundial, Argélia, Iugoslávia, Iraque...

A reportagem é de Mauro Ceruti, publicada por Avvenire, 26-02-2023.

Publicamos o prefácio do filósofo Mario Ceruti ao último livro de Edgar Morin, Di Guerra in Guerra: de 1940 à Ucrânia invadida (Raffaello Cortina, 104 páginas). “Quanto mais a guerra piora, mais difícil e mais urgente é a paz. Vamos evitar uma guerra mundial. Seria pior que a anterior", são as últimas linhas do livro. Edgar Morin é um dos pensadores mais importantes do nosso tempo, uma autoridade intelectual e moral reconhecida em todo o mundo.

Mas foi também protagonista, desde muito jovem, dos acontecimentos que marcaram a história europeia e mundial, tanto com a ação como com o pensamento. E, regenerando a nobre tradição do ensaísmo à la Montaigne, ele aceitou essas suas experiências também por meio de um diário e da escrita de memórias. Neste pequeno mas profundo livro, com a sua singular capacidade de conceber a complexidade do humano, reflete sobre a tragédia da guerra que voltou a assolar o coração da Europa, através da invasão da Ucrânia pela Rússia.

Hoje, com 101 anos, esta nova guerra traz de volta as terríveis memórias das guerras que marcaram a sua longa vida: a Segunda Guerra Mundial, a Guerra da Argélia, a Guerra da Iugoslávia, a Guerra do Iraque, o persistente conflito israelo-palestino... Aqui ele conta como a guerra na Ucrânia o faz reviver os horrores das guerras que conheceu: a destruição em massa, cidades destruídas, edifícios destruídos, inúmeras mortes de militares e civis, influxo de refugiados, tortura, crimes de guerra... E ele conta como voltar aos horrores de todas essas guerras é sempre essencial para entender os perigos sem precedentes da guerra atual.

Mas para isso, alerta, é urgente dotarmo-nos de um pensamento capaz de compreender como o maniqueísmo absoluto cegante, a propaganda mentirosa, a criminalização não só dos exércitos mas também dos povos inimigos, dos delírios, das ilusões sempre renovadas... E, para isso, mais uma vez põe-nos à disposição não só o seu pensamento crítico, mas sobretudo o seu (complexo) eu: pensamento crítico, lembrando-se de seus erros e de suas ilusões; seus autoenganos; suas auto-ocultações; suas justificativas; a difícil consciência da barbárie dos bombardeios em nome da civilização contra a barbárie nazista; o horror vivido em Pforzheim completamente destruída, um horror que, hoje ele escreve, "eu rapidamente me contive, dizendo a mim mesma: “É a guerra”; o horror sentido pelas atrocidades nazis e racistas, nos países ocupados, e sobretudo na URSS, que, escreve aqui, "escondeu de nós resistentes e antinazis o horror dos bombardeamentos para aterrorizar as populações civis, o horror dos campos de Hitler que então, ele escreve novamente, "nos fizeram ignorar o horror do Gulag soviético"; em suma, refletindo sobre a difícil compreensão de como, “por mais certa que tenha sido a resistência ao nazismo, a guerra do Bem acarreta o Mal em si”. Este exercício de auto-observação torna-se assim o laboratório de um pensamento complexo, que visa buscar em si, antes mesmo nos outros, a origem recorrente do erro, da ilusão e da mentira.

Morin reflete como, face aos horrores da guerra, é fundamental saber não simplificar, porque "toda a guerra encarna o maniqueísmo, a propaganda unilateral, a histeria bélica, a espionagem, a mentira, a preparação de armas cada vez mais mortíferas, os erros e as ilusões, inesperados e surpresas". E chama a atenção para um fato incontornável: a nova guerra acontece no momento em que domina por toda parte um pensamento incapaz de conceber a complexidade dos fenômenos, um pensamento linear, mecanicista, que fragmenta o que na realidade está intimamente ligado. Um pensamento incapaz de conceber o inesperado, os efeitos perversos e imprevistos de nossas intenções.

É sobretudo um pensamento incapaz de reconhecer o caráter inédito da condição humana em nosso tempo, surgida de forma inesperada e explosiva em Hiroshima em 1945, com a explosão da primeira arma nuclear, que tornou a humanidade capaz de autossupressão. Esta ameaça de morte para toda a humanidade tornou-se agora mais forte com a difusão e sofisticação das armas nucleares em um contexto planetário cada vez mais interligado, mas não solidário. E é precisamente esse aumento simultâneo de poder e interdependência que torna o contexto global perigosamente sensível à possibilidade de uma catástrofe.

Refazendo suas experiências, Edgar Morin relembra as formas como se deu a radicalização dos conflitos e identifica na radicalização o traço comum e mais perigoso das guerras de seu século, como nos casos exemplares da Guerra da Argélia e da Guerra da Iugoslávia. Soa o alarme, destinado a despertar as consciências, enquanto correm o risco de cair no mesmo tipo de sonambulismo que acompanhou a descida ao abismo da Segunda Guerra Mundial: hoje aumentou a possibilidade de derivar para um abismo catastrófico, possibilidade alimentada por erros e ilusões, de capilares e sofisticadas propagandas unilaterais, senão enganosas da mídia.

Com a crescente espiral de ódio entre agressor e agredido, na Guerra Ucraniana, a radicalização do conflito agrava-se e amplifica-se cada vez mais, e assim, não só, como sempre, conduz às piores atrocidades, como pode hoje conduzir às mais trágicas para toda a humanidade. Estas páginas são o testemunho lúcido e apaixonado de um século de vida excepcional. Um texto esclarecedor para nos guiar neste momento de perigo para a nossa humanidade, escrito, como observa o próprio autor, "para que estes oitenta anos de lições de história nos ajudem a enfrentar o presente com total lucidez, a compreender a urgência de trabalhar para paz e evitar a pior tragédia de uma nova guerra mundial".

Fonte:  https://www.ihu.unisinos.br/626605-edgar-morin-a-guerra-e-sempre-uma-espiral-para-o-abismo