sexta-feira, 2 de junho de 2023

Tecnomagia segundo Vincenzo Susca

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Tecnomagia segundo Vincenzo Susca

Italiano, doutor em sociologia pela Sorbonne, professor na Universidade de Montpellier, Vincenzo Susca é autor de livros e textos que captam como poucos o ar do tempo, entre eles Pornocultura, viagem ao fim da carne (Sulina) e Tecnomagia, estasi, totem e incantesimi nella cultura digitale (Edizioni Mimesis). Professor convidado do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da PUCRS, ele está em Porto Alegre para falar de paisagens midiáticas e imaginário. Nesta entrevista, ele dá uma mostra de suas ideias.

O que é a tecnomagia?

Vincenzo Susca – É a condição na qual a relação entre os seres humanos e a tecnologia muda completamente. Desde o Renascimento que a tecnologia era um dispositivo a serviço dos seres humanos para gerir o mundo, governá-lo, controlá-lo, enfim, de modo racional. Nos últimos séculos, perdemos o controle da tecnologia. Passamos a ser dominados por ela. Já não utilizamos a tecnologia fundamentalmente por razões racionais, pragmáticas, funcionais ou ideológicas, mas nos deixamos possuir por ela. A tecnomagia é o retorno da lógica do totem, encantamento dependente da técnica em meios outrora governados supostamente pela razão.

A inteligência artificial fortalece a tecnomagia ou representa uma ameaça para o ser humano? 

Susca – O ser humano perdeu o centro do mundo. Deu um passo atrás em relação à tecnologia, mas também em relação à natureza. É curioso e até mesmo paradoxal ver que estamos sendo superados pela tecnologia e também pela natureza. Se pensamos na covid-19 e no aquecimento global, vemos o quanto temos sido atropelados pela natureza e pela técnica. A inteligência artificial faz parte de todas essas dimensões que ultrapassam o Homem. Já não somos pensadores, mas pensados. Somos, como dizia McLuhan, os reprodutores da tecnologia. Precisamos aprender a viver com isso e a ter um papel a desempenhar. O interessante nisso tudo do ponto de vista da tecnomagia é que não se trata apenas de um passo atrás, mas de um passo de dança. Abandonamos a marcha do progresso e buscamos novo equilíbrio. A dança implica dependência e capacidade de interagir e jogar com o outro. Essa dança, para mim, é uma espécie de êxtase no coração da distopia.

A pandemia de covid-19 acelerou a midiatização da vida?

Susca – A pandemia radicalizou o fato de que nossa vida já estava sendo midiatizada, que vivíamos nas telas e para as telas. A pandemia nos levou a uma imersão total na dimensão midiática. Ao final, percebemos que o físico, o presencial, a praça pública, nossos corpos são a continuidade daquilo que vivemos na mídia, nas redes sociais, nas séries de televisão. Mesmo o nosso corpo agora parece se adaptar às nossas identidades digitais. Pensemos no uso das operações plásticas, no poliamor e na fluidez sexual. Todas essas dimensões remetem a uma mudança de pele, ao desejo de ser diferentes, múltiplos, tudo o que vem da cultural digital. Estamos tão acostumados a mudar a foto do perfil, trocar de avatar e de nickname que levamos essa lógica para o nosso próprio corpo.

Estamos na era da pornocultura?

Susca – A pornocultura, característica da nossa época, está aquém e além do sexo, que obviamente nunca esteve tão visível e acessível. Significa que estamos sempre em contato com o outro, entremeados, uns nas mãos dos outros. Georges Bataille tinha esta bela definição a propósito da dimensão erótica, dizia que perdemos o controle de nós mesmos. A pornocultura é este estágio em que a intimidade, a vida privada, está exposta, nas mãos dos outros, com ou sem a questão sexual. A porneia, na Grécia, era a prostituta. Somos agora todos de certo modo prostituídos, não por nos vendermos, mas por estarmos à disposição dos outros.

O que o Brasil te diz?

Susca –  O Brasil, como Michel Maffesoli disse um dia, é um laboratório da carnavalização da existência, com essa grande capacidade de, apesar de tudo, viver o êxtase, a festa e o dia a dia, mesmo em momentos trágicos. O que nos resta, nestes tempos neoliberais de enormes desigualdades sociais, é aprender com os brasileiros a arte e a tática da resistência.

*Jornalista. Escritor. Prof. Universitário

Fonte:  https://www.matinaljornalismo.com.br/matinal/colunistas-matinal/juremir-machado/tecnomagia-segundo-vincenzo-susca/?swcfpc=1

Andrea Riccardi: “O que mais me abalou foi o silêncio de Pio XII depois da Guerra”

Por | 31 Mai 2023

O atraso na abertura dos arquivos do Vaticano relativos ao pontificado do Papa Pio XII e da Segunda Guerra Mundial “prejudicou o conhecimento da realidade”, diz o historiador Andrea Riccardi, fundador da Comunidade de Santo Egídio, de Roma, e ministro da Cooperação Internacional entre 2011 e 2013, no Governo italiano liderado por Mario Monti. Para o historiador, os silêncios do Papa Pacelli foram uma escolha para evitar males maiores, mas o que ele não compreende é o silêncio de Pio XII depois da Guerra, sobre o antissemitismo ou a perseguição aos judeus que se tinha verificado durante o conflito. 

No âmbito da reportagem A Lista do Padre Carreira, uma parceria do 7MARGENS com a TVI que passa esta noite de quarta-feira no Jornal Nacional daquela estação televisiva, Riccardi, autor de uma vasta bibliografia sobre Pio XII e a Igreja Católica do século XX, concedeu uma entrevista sobre o papel de Pio XII em relação aos judeus, durante a Segunda Guerra Mundial, que a seguir se reproduz na íntegra. Amanhã publicaremos, também na integra, a entrevista de Silvia Haia Antonucci, responsável do Arquivo da Sinagoga de Roma.

Andrea Riccardi

Andrea Riccardi durante a entrevista para a reportagem A Lista do Padre Carreira, em Novembro de 2022, em Roma. Imagem: Miguel Bretiano

7MARGENS – Fala-se muitas vezes dos silêncios do Papa Pio XII. O que podemos dizer do seu papel durante a guerra?

ANDREA RICCARDI – Antes de mais, temos de pensar no que era o Vaticano daquela época: uma pequena realidade isolada, primeiro num país fascista e, depois, numa Roma ocupada pelos nazis. Pio XII viveu isto tragicamente. Tinha a noção do que os nazis teriam feito à Igreja em caso de vitória. Sabia que não haveria espaço para a Igreja numa Europa nazi. E ao mesmo tempo sabia que no mundo comunista [também] não haveria espaço, já havia grandes perseguições.

Pio XII assume a posição da Igreja Católica, a da imparcialidade, tentando favorecer uma certa paz. Por outro lado, teve muito cedo conhecimento da perseguição dos judeus. Eu trabalhei nos arquivos do Vaticano e vi os relatórios: o Vaticano sabia, primeiro das perseguições e, depois, do extermínio dos judeus. Há relatórios impressionantes: o Governo polaco no exílio, até mesmo os Aliados, pressionavam Pio XII para que interviesse contra Hitler.

7M – Mas o Papa não falou muito…

Temos de dizer que foram raras as palavras de condenação da parte de Pio XII. Condenou as perseguições por causa da estirpe, que queria dizer raça, mas concentrou-se sobretudo em ajudar. O momento mais alto da ajuda da Igreja de Pio XII aos judeus foi durante a ocupação de Roma. De 8 de Setembro de 1943 até ao início de Junho de 1944 esta cidade foi ocupada por nazis, que a controlaram, e a 16 de Outubro de 1943 os alemães desencadearam uma razia aos judeus romanos: mais de mil judeus romanos foram deportados para Auschwitz.

Nessa ocasião, o Papa interveio por vias diplomáticas, mas não protestou. Multiplicou-se a ajuda da Igreja. Estamos em Santo Egídio, num antigo mosteiro carmelita e também aqui estiveram escondidos alguns judeus. Nos meios religiosos escondiam os judeus e à porta dos edifícios religiosos havia um cartaz em italiano e alemão que dizia, assinado pela autoridade alemã: “Este edifício pertence à Santa Sé. Estão interditas perseguições.”

7M – E isso repetiu-se em muitos sítios…

Houve uma grande hospitalidade clandestina, não só aos judeus, mas também a outros procurados, até mesmo a um líder comunista, Roveda, no Seminário Lombardo; em Laterão, [basílica] extraterritorial [da Santa Sé], estava todo o Comité de Libertação Nacional e o general [Roberto] Bencivenga, chefe militar das forças de libertação em Roma, dos partisans.

A hospitalidade da Igreja foi uma das escolhas principais de Pio XII. Como se sabe, Pio XII, a partir da famosa [peça de teatro] do alemão [Rolf] Hochhuth, foi acusado de silêncio. Os silêncios de Pio XII foram uma escolha, não só sobre os judeus: ele também não teve discursos críticos sobre a Polónia, país católico que estava a ser dividido pelos alemães, exactamente por estar convencido que uma tomada de posição pública teria aniquilado a Santa Sé.

nazismo, Roma,

Aviso de protecção das casas religiosas de Roma durante a ocupação nazi de Roma (1943-44), colocado pelas tropas nazis, proibindo perseguições e rusgas.

7M – Mas como entender então o acolhimento nos mosteiros e casas religiosas?

Podemos dizer que fizeram isto espontaneamente? Os religiosos que abriram os conventos de Roma, os seminários, fizeram-no espontaneamente ou fizeram-no por ordem do Papa? É óbvio que, sem o consentimento do Papa, um mosteiro de clausura não teria podido acolher refugiados ou perseguidos. Houve um consentimento do Papa, mas houve também uma iniciativa de base, sobretudo porque o risco era muito grande para os superiores: a condenação à morte, o fuzilamento.

Foi então um favor do Papa, que num seu discurso falou de errantes, ou seja, pessoas em fuga, e houve uma grande sensibilidade no mundo católico [da qual] nasceram convivências inéditas com os judeus? Os católicos nunca tinham vivido com os judeus dessa forma. Em Roma não faltaram episódios deploráveis: quando os fascistas entraram no Colégio Lombardo, encontraram alguns judeus escondidos; [ou quando] entraram na Basílica de São Paulo de noite, [que motivou] um protesto por parte da Santa Sé.

7M – O que significavam esses ataques?

Naturalmente que estes ataques dos fascistas eram favorecidos pelos nazis para pressionarem o mundo eclesiástico. Os nazis sabiam [do que se passava]? Penso que sabiam, mas no fundo não quiseram criar problemas demasiado grandes com a Santa Sé e fechavam os olhos. É certo que não sabiam tudo, mas quando num mosteiro estão escondidas 30-40 pessoas, é fácil perceber-se e é fácil ver que precisam de comer.

Naturalmente Hitler tomaria medidas mais duras e falou-se de uma deportação do Papa. Aliás, está documentado que Hitler deu ordem ao comandante das SS, [Karl] Wolff, que interviesse no Vaticano, que estudasse uma deportação do Papa. Wolff explicou a Hitler, e parece que o conseguiu convencer, que uma tal deportação seria prejudicial, que em Itália a situação era tranquila, que no fundo a Igreja não demonstrava uma grande hostilidade com a ocupação alemã e que era conveniente evitar [esse confronto]. Mas o Vaticano teve receio, tanto que o secretário de Estado [do Vaticano, cardeal Luigi] Maglione disse aos diplomatas para queimarem as suas próprias cartas. E encontrámos nas cartas vaticanas um plano de defesa do Papa, caso os alemães entrassem.

7M – Quando o bairro de San Lorenzo foi bombardeado pelos Aliados, Pio XII foi lá, mas sobre a deportação dos judeus só fez declarações diplomáticas. Há anos disse-me, em entrevista, que Pio XII era um prisioneiro de luxo no Vaticano. Entre essa imagem e as críticas que lhe foram feitas está sempre essa ambiguidade?

Pio XII saiu sozinho para ir a San Lorenzo, entre os bombardeados, um episódio épico que ficou na consciência e na memória dos romanos. Com a ocupação da cidade, o Papa nunca mais saíra do Vaticano. Apareceu uma só vez à varanda da Praça de S Pedro para uma grande manifestação. Uma só vez. Nunca mais falou nem à janela, nem para Itália, justamente porque não reconhecia a situação de Roma, o governo da República Social e a ocupação alemã.

Mas esta não é a única razão pela qual o Papa não saiu. Pio XII não queria cortar completamente com a Alemanha, até para evitar um agravamento das perseguições aos católicos, aos polacos e aos judeus. A sua linha foi uma escolha diplomática, outros poderiam ter escolhido outra via, mas Pio XII não quis pagar o preço da destruição da Igreja e do fim do asilo.

Marino Mazzacurati, "Os Horrores da Guerra", Sant'Egidio

Marino Mazzacurati, Os Horrores da Guerra. Obra na igreja de Santa Maria in Trastevere (Roma), na sala onde foi assinado o acordo de paz de Moçambique, em 4 de Outubro de 1992. Foto © António Marujo/7MARGENS

7M – Esse é o grande argumento da sua defesa?

Não defendo Pio XII, como sabe, mas não o acuso, porque a função do historiador não é como a do juiz, a função do historiador é a de entender e não julgar. Se calhar outro Papa teria feito de outra maneira, mas os silêncios de Pio XII durante a guerra têm explicação, percebem-se e compensam-se com o compromisso humanitário.

O que mais me abalou – falo disso no meu último livro La Guerra del Silenzio – foi o silêncio depois da guerra. Porque Pio XII não falou da Shoah depois da guerra? Da tragédia dos judeus? Esta é uma dúvida muito importante. Porque não falou contra o antissemitismo? Há um silêncio de Pio XII depois da guerra. E aqui há algumas explicações.

7M – Quais?

A primeira é a sensação de que a Leste os judeus tinham ido para o poder com os comunistas, havendo alguns dirigentes, por exemplo na Polónia e na Roménia, de origem hebraica. Na Polónia criou-se a ideia, entre os católicos, que os judeus tinham vencido depois da guerra, quando tinham sido exterminados. E também, na Palestina, o nascimento do Estado de Israel e consequentemente um novo problema com os judeus, entre judeus e palestinos e palestinos cristãos.

Além disso, depois da guerra Pio XII sentiu-se perseguido, vítima da perseguição comunista e sentia que já não valia a pena falar sobre o que aconteceu na guerra. No fundo, os católicos começaram a reflectir sobre a Shoah – alguns fizeram-no antes – com o Concílio Vaticano II [1962-65] e depois, como todos, com o processo [de Adolf] Eichmann. Porque é necessário dizer que, por exemplo, o livro de Primo Levi sobre a sua terrível experiência num campo de extermínio [Se Isto é Um Homem] ao princípio não encontrou editor, tão pouca era a sensibilidade em relação à tragédia judaica.

7M – Também a Alemanha e toda a Europa só falaram da guerra e do que aconteceu muito mais tarde.

Falou-se da Shoah mais tarde. E os alemães, tendo um país destruído, também se sentiram vítimas e não só carrascos.

Fossas Ardeatinas, Nazismo, Roma

Memorial das Fossas Ardeatinas, em Roma, local onde os nazis fuzilaram 335 pessoas, depois do atentado na via Rasella, em 24 de Março de 1944. Foto © António Marujo/7MARGENS.

 

7M – Falámos do bombardeamento de San Lorenzo pelos Aliados e disse que foi um acontecimento importante para os romanos. Mas também o atentado da via Rasella e depois o massacre das Fossas Ardeatinas, foram importantes.

O terrível massacre das Fossas Ardeatinas…

7M – O atentado e o massacre ficaram na consciência do povo de Roma?

Permanece a memória das Fossas Ardeatinas que são um sacrário muito comovente, terrível: esta cova onde foram mortos tantos judeus e não judeus. Pio XII não queria que se combatesse por Roma e portanto, na minha opinião, era contra o atentado da via Rasella. Mas todo o empenho vaticano foi para que os alemães saíssem de Roma sem combater na cidade, sem destruir as pontes.

Agora, às Fossas Ardeatinas vão os jovens, há uma memória… Foi a minha avó que me contou que Pio XII foi a San Lorenzo, com a roupa manchada de sangue – mito ou realidade, não se sabe. O Papa foi sozinho de carro com mons. [Giovanni Battista] Montini [futuro Papa Paulo VI], sem escolta. Em Julho de 1943 o Papa já era o ponto de referência em Roma, como continuará a sê-lo, mesmo estando fechado no Vaticano, durante os meses todos da ocupação, algo a que chamei o mais longo Inverno.

Na minha opinião este é um ponto muito importante. Um historiador italiano liberal, [Federico] Chabod, dizia: há uma grande autoridade em Roma, o Papa. De facto, quer pelas ajudas alimentares, das paróquias, quer pela autoridade moral, a defesa de Roma cidade aberta, [foi o Papa que a fez]. Quando Roma foi libertada, o Papa assomou várias vezes à janela e a Praça de São Pedro estava cheia com bandeiras vermelhas, bandeiras italianas, bandeiras brancas e o Papa foi saudado como protagonista da libertação de Roma.

7M – A historiadora Grazia Loparco estudou o acolhimento de judeus em mosteiros, conventos e casas religiosas. E encontrou, em 200 casas religiosas, registos de cerca de 4000 pessoas acolhidas. Este é o número final?

Não se pode dizer isso, porque descobrem-se sempre novos casos. Eu concordo com os números da irmã Grazia Loparco. Renzo de Felice já tinha falado de um número parecido. Eu comecei a estudar o acolhimento aos judeus em 1975 – publiquei um ensaio e depois um livro, Roma città sacra? – e à época tive ocasião de falar com muitos religiosos que ainda estavam vivos e que eram testemunhas disso. Mas a esses 4000 judeus é preciso juntar outros que foram acolhidos por famílias, às vezes espontaneamente por amizade ou solidariedade, outras vezes porque essas famílias faziam parte de uma rede das paróquias: o problema das famílias não era só esconder, mas também dar de comer e as paróquias ajudavam.

O número pode ser maior. Falo das famílias escondidas no meu livro “O mais longo Inverno”: falei com algumas, tenho alguns testemunhos, mas pouco. Por exemplo no bairro Testaccio há o caso de uma família judia escondida numa loja, que era visitada por uma velhota chamada Luísa, que lhes levava comida e dizia “acolhia-vos em minha casa, mas não posso, porque o meu genro é fascista”.

Pio XII

Papa Pio XII: a abertura dos arquivos do seu pontificado “é muito importante” e “fará perceber melhor esta história, a partir do interior”, defende Riccardi. Foto: Direitos reservados

 

7M – A abertura do arquivo de Pio XII, que o Papa Francisco ordenou, já mudou algo no modo de perceber o papel de Pio XII? Ainda pode mudar mais?

O atraso da abertura dos arquivos vaticanos prejudicou o conhecimento da realidade. No debate sobre os silêncios de Pio XII, os historiadores trabalharam sobre fontes não vaticanas, ou seja, arquivos civis ou arquivos pessoais. A abertura é muito importante e estou convencido de que nos

Padre Joaquim Carreira na altura em que foi reitor do Colégio Português de Roma. Foto: Direitos reservados

Padre Joaquim Carreira na altura em que foi reitor do Colégio Português de Roma. Foto: Direitos reservados

fará perceber melhor esta história, a partir do interior. Mas não devemos esperar encontrar sabe-se lá que segredos: encontraremos passagens de uma história que com paciência vamos ter de reconstruir.

O Papa Francisco fez bem em tirar o nome de “Arquivo Secreto Vaticano”, porque as pessoas pensavam que é o arquivo dos segredos. Eu vi muitas coisas e podem existir mais e muito interessantes. Mas estou convencido de que há muito trabalho, muitas coisas a perceber, e até perceber as diferentes posições das personagens no Vaticano. Não são todos iguais. Havia quem estivesse contra: o cardeal [Nicola] Canali era absolutamente contra o acolhimento [de refugiados], até chegou a mandar alguns embora do Seminário Lombardo. Havia monsenhor [Angelo] dell’Acqua que era um pouco céptico. Havia um Montini muito empenhado – aliás Montini era o homem de Pio XII que trabalhava com o acolhimento. Montini tornou-se Paulo VI, que defendeu sempre Pio XII.

7M – Como olha para o papel do padre Joaquim Carreira?

A história do padre Carreira insere-se naquele esforço de religiosos e religiosas, conventos, seminários, mosteiros, paróquias, de acolher os romanos ou os italianos em dificuldade. Não só judeus, mas também políticos, familiares de políticos que teriam sido perseguidos.

O caso do padre Carreira é muito interessante, porque é um português, fora do ambiente italiano. Poderia ter dito como algumas vezes dizem os eclesiásticos em Roma: “Eu não percebo a política em Itália.” Porque se empenhou este homem? Poderia ter dito: “Eu sou estrangeiro.” Não o disse, porquê? É necessário investigar, no meu entender, os motivos religiosos, pessoais, evangélicos deste padre.

Não foram muitos os religiosos estrangeiros que cuidaram dos judeus ou dos perseguidos em Roma e o padre Carreira foi um deles; outro é o geral dos jesuítas, [o austríaco Wlodimir] Lodokowsky, que até tinha mostrado um tom antissemita, ou um superior franciscano que até era alemão. Mas o caso do Padre Carreira não é interessante só para os portugueses, é interessante pela catolicidade. Ele expressa um pensamento católico, não um pensamento português, numa altura em que Portugal tinha uma forte identidade nacionalista. E coloca-se em risco e poderia ter tido problemas muito sérios com os alemães, havia a pena de morte. Poderia ter comprometido o Colégio Português, poderia ter tido até problemas com a Igreja portuguesa e com o Governo. Por isso é bom estudar este caso, que é muito interessante.

Fonte: https://setemargens.com/o-que-mais-me-abalou-foi-o-silencio-de-pio-xii-depois-da-guerra/?utm_term=Comiss%3F%3Fues+de+prote%3F%3F%3F%3F%3F%3F%3F%3Fo+de+menores+da+Igreja+ouviram+927+v%3F%3F%3F%3Ftimas&utm_campaign=Sete+Margens&utm_source=e-goi&utm_medium=email

Por que o mundo não precisa do G7

 por *


 Imagem: Doug Mills/The New York Times

Ele impõe endividamento ao Sul global; e a austeridade e “abertura” que não praticam. Seu propósito é prolongar a velha ordem que sustenta seus privilégios. Agora, atacam a China: não pode conceber alternativas à globalização predatória

Por Vijay Prashad para o Instituto Tricontinental de Pesquisa Social 

Durante a cúpula do Grupo dos Sete (G7) em maio de 2023, líderes da Alemanha, Canadá, França, Itália, Japão, Reino Unido e Estados Unidos visitaram o Museu Memorial da Paz de Hiroshima, perto de onde a reunião foi realizada. Não fazer essa visita teria sido um ato de imensa descortesia. Apesar de muitos pedidos para que os EUA pedissem desculpas por terem lançado uma bomba atômica sobre uma população civil em 1945, o presidente estadunidense Joe Biden esquivou-se. Em vez disso, escreveu no livro de visitas do Memorial da Paz “que as histórias deste museu nos lembrem de nossas obrigações de construir um futuro de paz”.

As desculpas, ampliadas pelas tensões de nosso tempo, assumem papéis sociológicos e políticos interessantes. Um pedido de desculpas sugeriria que os bombardeios de Hiroshima e Nagasaki, em 1945, estavam errados e que os EUA não terminaram a guerra contra o Japão na posição de líder moral. Um pedido de desculpas também exporia a contradição da decisão dos EUA, apoiada totalmente por outras potências ocidentais mais de 70 anos depois, de manter uma presença militar ao longo da costa asiática do Oceano Pacífico (uma presença construída com base nos bombardeios atômicos de 1945) e de usar essa força militar para ameaçar a China com armas de destruição em massa acumuladas em bases e navios próximos às águas territoriais chinesas. É impossível imaginar um “futuro de paz” se os EUA continuarem a manter sua estrutura militar agressiva que vai do Japão à Austrália, com a intenção expressa de disciplinar a China.

O primeiro-ministro do Reino Unido, Rishi Sunak, recebeu a missão de alertar a China ao revelar a Plataforma de Coordenação do G7 sobre Coerção Econômica, com a finalidade de rastrear as atividades comerciais chinesas. “A plataforma abordará o uso crescente e pernicioso de medidas econômicas coercitivas para interferir nos assuntos soberanos de outros Estados”, disse Sunak. Essa linguagem bizarra não demonstra autoconsciência da longa história de colonialismo brutal do Ocidente nem o reconhecimento das estruturas neocoloniais – incluindo o estado permanente de endividamento imposto pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) – que são coercitivas por definição. No entanto, Sunak, Biden e os outros se vangloriam com a certeza de que sua posição moral permanece intacta e que eles têm o direito de atacar a China por seus acordos comerciais. Esses líderes sugerem que é perfeitamente aceitável para o FMI – em nome dos países do G7 – exigir “condicionalidades” de países endividados, enquanto proíbe a China de negociar quando empresta dinheiro.

Curiosamente, a declaração final do G7 não mencionou a China pelo nome, mas apenas ecoou a preocupação com a “coerção econômica”. A frase “todos os países” – e não a China, especificamente –, sinaliza uma falta de unidade dentro do grupo. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, por exemplo, usou seu discurso no G7 para alertar os EUA sobre o uso de subsídios industriais: “precisamos oferecer um ambiente de negócios claro e previsível para nossos setores de tecnologia limpa. O ponto de partida é a transparência entre o G7 sobre como apoiamos a manufatura”.

Uma reclamação dos governos ocidentais e dos think tanks é que os empréstimos chineses para o desenvolvimento contêm cláusulas “sem Clube de Paris”. O Clube de Paris é um órgão de credores bilaterais oficiais criado em 1956 para fornecer financiamento a países pobres que tenham sido avaliados pelos processos do FMI, estipulando que eles devem se comprometer a realizar uma série de reformas políticas e econômicas para garantir fundos. Nos últimos anos, o montante de empréstimos concedidos por meio do Clube de Paris diminuiu, embora a influência do órgão e a admiração que suas regras rígidas conquistam sigam firmes. Muitos empréstimos chineses – especialmente por meio da Iniciativa do Cinturão e Rota (ICR) – recusam-se a adotar as cláusulas do Clube de Paris, pois, como os professores Huang Meibo e Niu Dongfang argumentam, isso poderia inserir as condicionalidades do Clube de Paris do FMI nos contratos de empréstimo. “Todos os países devem respeitar o direito de outros países de fazer suas próprias escolhas, em vez de considerar as regras do Clube de Paris como normas universais que devem ser observadas por todos”, escrevem. A alegação de “coerção econômica” não se sustenta se as evidências apontarem que os credores chineses se recusam a impor as cláusulas do Clube de Paris.

Os líderes do G7 se apresentam diante das câmeras fingindo ser representantes do mundo cujas opiniões são as de toda a humanidade. Os países do G7, porém, representam apenas 10% da população mundial, enquanto seu Produto Interno Bruto (PIB) combinado é de apenas 27% do PIB global. Esses são Estados demográfica e economicamente cada vez mais marginais que querem usar sua autoridade, em parte derivada de seu poder militar, para controlar a ordem mundial. Não se deve permitir que uma parcela tão pequena da população humana fale por todos nós, pois suas experiências e interesses não são universais nem podemos confiar que deixem de lado seus próprios objetivos locais em favor das necessidades da humanidade.

Na verdade, a agenda do G7 foi claramente definida em sua origem, primeiro como o “Grupo da Biblioteca”, em março de 1973, e depois na primeira cúpula do G7 na França, em novembro de 1975. O “Grupo da Biblioteca” foi criado pelo secretário do Tesouro dos EUA, George Schultz, que reuniu os ministros das finanças da França (Valéry Giscard d’Estaing), da Alemanha Ocidental (Helmut Schmidt) e do Reino Unido (Anthony Barber) para realizar consultas privadas entre os aliados do Atlântico. No Château de Rambouillet, em 1975, o G7 se reuniu no contexto da “arma do petróleo” empunhada pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) em 1973 e da aprovação da Nova Ordem Econômica Internacional (NOEI) nas Nações Unidas em 1974. Schmidt, que foi nomeado chanceler alemão um ano após a formação do Grupo de Bibliotecas, ponderou sobre esses acontecimentos: “É desejável declarar explicitamente, para a opinião pública, que a atual recessão mundial não é uma ocasião particularmente favorável para elaborar uma nova ordem econômica de acordo com certos documentos da ONU”. Schmidt queria acabar com o “dirigismo internacional” e com a capacidade dos Estados de exercer sua soberania econômica.

A NOEI teve que ser interrompida, disse Schmidt, porque deixar as decisões sobre a economia mundial “na mão de funcionários em algum lugar da África ou em alguma capital asiática não é uma boa ideia”. Em vez de permitir que os líderes africanos e asiáticos opinassem sobre questões globais importantes, o primeiro-ministro do Reino Unido, Harold Wilson, sugeriu que seria melhor que as decisões sérias fossem tomadas pelo “tipo de pessoas sentadas ao redor desta mesa”.

As atitudes privadas demonstradas por Schmidt e Wilson persistem até hoje, apesar das mudanças drásticas na ordem mundial. Na primeira década dos anos 2000, os EUA, que começaram a se ver como uma potência mundial incomparável, exageraram militarmente em sua Guerra ao Terror e economicamente com seu sistema bancário não regulamentado. A guerra contra o Iraque (2003) e a crise de crédito (2007) ameaçaram a vitalidade da ordem mundial administrada pelos EUA. Durante os dias mais sombrios da crise de crédito, os países do G8, que na época incluíam a Rússia, pediram aos países superavitários do Sul Global (especialmente China, Índia e Indonésia) que os ajudassem. Em janeiro de 2008, em uma reunião em Nova Délhi (Índia), o presidente francês Nicolas Sarkozy disse aos líderes empresariais: “Na cúpula do G8, oito países se reúnem por dois dias e meio e, no terceiro dia, convidam cinco nações em desenvolvimento – Brasil, China, Índia, México e África do Sul – para discussões durante o almoço. Isso é uma injustiça com os 2,5 bilhões de habitantes dessas nações. Por que esse tratamento de terceira classe para eles? Quero que a próxima cúpula do G8 seja convertida em uma cúpula do G13”.

Durante esse período de fraqueza no Ocidente, falou-se que o G7 seria encerrado e que o G20, que realizou sua primeira cúpula em 2008 em Washington, seria seu sucessor. As declarações de Sarkozy em Délhi foram manchetes, mas não se converteram em políticas. Em uma avaliação mais privada – e verdadeira – em outubro de 2010, o ex-primeiro-ministro francês Michel Rocard disse ao embaixador dos EUA na França, Craig R. Stapleton: “precisamos de um instrumento em que possamos encontrar soluções para esses desafios [o crescimento da China e da Índia] juntos – assim, quando esses monstros chegarem em 10 anos, poderemos lidar com eles”.

Os “monstros” estão agora no portão, e os EUA reuniram seus arsenais econômicos, diplomáticos e militares disponíveis, incluindo o G7, para sufocá-los. O G7 é um órgão antidemocrático que usa seu poder histórico para impor seus interesses restritos a um mundo que está enfrentando uma série de dilemas mais urgentes. É hora de fechar o G7 ou, pelo menos, impedir que ele imponha sua vontade na ordem internacional.

Em seu discurso de rádio em 9 de agosto de 1945, o presidente dos EUA, Harry Truman, disse: “o mundo notará que a primeira bomba atômica foi lançada em Hiroshima, uma base militar. Isso porque, nesse primeiro ataque, queríamos evitar, na medida do possível, a morte de civis”. Na realidade, Hiroshima não era uma “base militar”. Era o que o Secretário de Guerra dos EUA, Henry Stimson, chamou de “alvo virgem”, um local que escapou do bombardeio do Japão pelos EUA para que pudesse ser um campo de testes válido para a bomba atômica. Em seu diário, Stimson registrou uma conversa com Truman, em junho, sobre o raciocínio por trás do ataque a essa cidade. Quando ele disse a Truman que tinha “um pouco de receio de que, antes que pudéssemos nos preparar, a Força Aérea bombardearia o Japão de tal forma que a nova arma [a bomba atômica] não iria ter um terreno justo para mostrar sua força”, o presidente “riu e disse que entendia”.

Sadako Sasaki, de dois anos de idade, era uma das 350 mil pessoas que viviam em Hiroshima na época dos bombardeios. Ela morreu dez anos depois de cânceres associados à exposição à radiação da bomba. O poeta turco Nazim Hikmet ficou comovido com a história dela e escreveu um poema contra a guerra e o confronto. As palavras de Hikmet deveriam ser um alerta para Biden, hoje, por rir da possibilidade de um novo conflito militar contra a China:

Eu venho e fico em cada porta
Mas ninguém ouve o meu andar silencioso.
Eu bato mas fico invisível
Pois estou morta, pois estou morta.

Eu tenho apenas sete anos, embora tenha morrido
Em Hiroshima há muito tempo.
Tenho sete anos agora como tinha naquele então.
Quando as crianças morrem, elas não crescem.

Meus cabelos foram queimados por uma chama flamejante.
Meus olhos escureceram; meus olhos se cegaram.
A morte veio e transformou meus ossos em pó
E este foi espalhado pelo vento.

Eu não preciso de frutas, não preciso de arroz.
Não preciso de doces, nem mesmo de pão.
Eu não peço nada para mim
Pois estou morta, pois estou morta.

Tudo o que eu peço é que haja paz.
Você luta hoje, você luta hoje
Para que as crianças do mundo
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quinta-feira, 1 de junho de 2023

O diabo: possessões diabólicas e exorcismo

Anselmo Borges*

 

Dado o interesse que o diabo desencadeia -- reuniram-se ainda há pouco tempo em Roma 241 alunos, vindos de 42 países, para um curso para futuros "expulsadores de demónios" --, volto ao tema, retomando, porque facilita a reflexão, uma conversa que tive há anos na televisão com a jornalista Fátima Lopes. Uma reflexão sobre o diabo, as possessões diabólicas, demoníacas, e os exorcismos.

Fica aí o essencial da conversa, prevenindo que nem sempre será literal.

Antes de mais, vamos começar por explicar às pessoas o que é isto do exorcismo.

Comecemos por aí.

O exorcismo parte do princípio de que há diabo e que o diabo, por vezes, se mete dentro de uma pessoa.

Atormenta as pessoas.

Não atormenta só. Mete-se mesmo dentro de uma pessoa e então vem o padre, e só pode ser um padre que esteja nomeado pelo bispo da diocese para isso, para expulsar, tirar o diabo de dentro da pessoa.

Dito isto, se me pergunta se eu acredito nisso, não, não acredito.
Mas não acredita que o diabo possa entrar para dentro da pessoa ou não acredita no próprio diabo?

Eu não acredito no diabo. O diabo é o contrário de símbolo, que significa reunião, coincidência (por exemplo, uma aliança no dedo de alguém remete para outra aliança no dedo de outra pessoa, o que significa que há entre elas uma união). A palavra diabo também vem do grego, diábolos, que significa aquele que separa, que dispersa, que desune, que traz zaragatas e problemas à vida. Se me pergunta se há diabo, eu não acredito. Aliás, o diabo não está no Credo, no Credo cristão. Jesus não pregou o diabo, Jesus pregou o Reino de Deus, o Evangelho, o Mistério último, que é Deus enquanto Pai/Mãe. O Evangelho é uma notícia boa, como diz a própria palavra, e felicitante, que traz alegria, felicidade, às pessoas. Há alguma notícia mais felicitante do que esta? Deus gosta de todas as pessoas, Deus gosta de si, de mim, foi isto que Jesus veio dizer. Deus ama-nos, ama todos os homens e mulheres, independentemente da sua condição, independentemente de se ser católico ou não, ama os ateus, ama-nos enquanto filhos e filhas, porque Ele é um Pai/Mãe querido e bom. Deus não nos criou para a sua maior honra e glória, não, Deus criou-nos por causa de nós, porque é amor e quer a nossa felicidade. Esta é uma notícia boa e felicitante, o Evangelho de Jesus.

Concordo plenamente consigo. Mas como, se na Igreja Católica, se fala às vezes, não todos, mas há quem fale, desta figura do diabo? É uma coisa extremamente intimidante; a figura do diabo põe-nos em sentido!

Claro. Veja, não é por acaso que o diabo até tem tantos nomes: é o Diabo, é o Satanás, é o Belzebu, é o Mafarrico, é o Lúcifer e, frequentemente, aquilo que eu noto é que há pessoas que não acreditam em Deus, mas acreditam no diabo. Eu assisti uma vez a um debate na Alemanha -- eu era muito amigo do maior biblista do século XX, católico, professor na Universidade de Tubinga, Herbert Haag, e também conheci pessoalmente um dos maiores filósofos do século XX, alemão também, Ernst Bloch, ateu. Eles tiveram uma vez um debate e veja: o padre a dizer que não havia diabo e o ateu a dizer que havia diabo. Já viu?

Fico baralhada!

É uma baralhada, é! Porque há muitas pessoas que não acreditam em Deus, no Deus de Jesus, por culpa também, às vezes, da Igreja e dos padres, que, em vez de pregarem o Evangelho, esta notícia boa e felicitante, em vez de pregarem o Evangelho, pregam o Disangelho, que é uma notícia má, uma notícia que não traz alegria e felicidade, mas traz medo. E muitas vezes prega-se o diabo por causa do medo; é que, se as pessoas tiverem medo, é mais fácil exercer o poder sobre elas e controlá-las. Ora, é preciso dizer a verdade: Jesus não pregou o diabo, pregou o Reino de Deus, a alegria do Evangelho.

Mas agora diga-me uma coisa, pois não podemos perder de vista este tema do exorcismo. O que me está a querer dizer é que, quando alguém, por exemplo, diz: eu tenho que chamar aqui um padre habilitado para fazer um exorcismo porque esta pessoa está possuída, porque esta pessoa está o que for, isto não faz sentido. Então, o que se passa com essa pessoa que tem comportamentos estranhos, desajustados, alucinações às vezes, coisas esquisitas? Se não é o diabo, é o quê?

Jesus ajudou as pessoas e é isso que a Igreja e os padres e todos devemos fazer: ajudar as pessoas e ajudá-las com os meios que nós temos.

Foi isso que Jesus pediu, não pediu outra coisa...

Exacto. Se Deus é amor, ama-nos, gosta de nós, devemos gostar de nós e uns dos outros, é isso, e ajudarmo-nos. De facto, muitas vezes, na altura, atribuía-se ao diabo doenças, depressões, que nós hoje sabemos que são do foro psicológico ou psiquiátrico e, portanto, devemos ajudar as pessoas mandando-as ao médico, mandando-as ao psiquiatra. É isso que é preciso fazer. Não se pode de modo nenhum continuar a atribuir ao diabo aquilo que efectivamente é de outra ordem. Nós hoje, felizmente, sabemos mais da mente, sabemos mais do cérebro...


*Padre e professor de Filosofia.
Escreve de acordo com a antiga ortografia

Fonte:  https://www.dn.pt/opiniao/o-diabo-possessoes-diabolicas-e-exorcismos-16422815.html

‘Jornadas de junho foram um grande aprendizado para a classe política’, diz Alckmin

Por Vera Rosa

 

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Geraldo AlckminVice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio

Governador de São Paulo em 2013, atual vice-presidente refuta qualquer comparação entre aqueles protestos e os atos antidemocráticos de 8 de janeiro

ENTREVISTA


BRASÍLIA – O vice-presidente Geraldo Alckmin estava à frente do Palácio dos Bandeirantes quando os protestos de junho de 2013 tomaram conta das ruas. Governador de São Paulo à época, Alckmin deu ordem para que sua equipe sempre atendesse o então prefeito Fernando Haddad (PT).

O aumento das passagens de ônibus havia sido adiado em janeiro daquele ano, a pedido da presidente Dilma Rousseff e a contragosto de Haddad, sob o argumento de que era preciso evitar o repique na inflação. Alckmin concordou, então, em segurar a tarifa do metrô e dos trens. Cinco meses depois, os dois decidiram, juntos, aumentar o preço do transporte público em R$ 0,20 – de R$ 3 para R$ 3,20. E aí veio a revolta.

“As jornadas de junho foram um grande aprendizado para a sociedade e para a classe política”, afirmou o vice-presidente ao Estadão. “Aqueles movimentos começaram pela esquerda e acabaram desaguando em agendas de direita, inclusive com oposição à democracia representativa.”

Alckmin e Haddad recuaram do aumento dezessete dias após terem anunciado os R$ 0,20 a mais – preço que, ainda assim, estava abaixo da inflação. “Faço o que o senhor quiser. Se quiser manter a tarifa, eu mantenho. Se quiser voltar atrás, também volto. Estamos juntos”, dizia o governador ao prefeito.

Em entrevista ao Estadão, vice-presidente avalia resultado político das manifestações de junho de 2013, que completam uma década
Em entrevista ao Estadão, vice-presidente avalia resultado político das manifestações de junho de 2013, que completam uma década Foto: Pedro Kirilos/Estadão

Quase uma década depois, foi Haddad quem apadrinhou a aliança entre o ex-tucano e Luiz Inácio Lula da Silva, selando o acordo mais improvável da cena política. Hoje no PSB, Alckmin apoiou o impeachment de Dilma, embora sempre tenha mantido relação cordial com ela. Haddad foi contra, mas as conversas com a companheira de partido nunca foram descontraídas.

Na sua avaliação, o que provocou os protestos de junho de 2013? Qual foi o momento mais tenso que o sr. viveu naquele período?

Vários fatores. Havia naquele momento, inclusive, questões externas ao Brasil, como os movimentos populares que vinham acontecendo em outros lugares do mundo na primeira década deste século. Mas é óbvio que a reivindicação pela redução dos preços dos bilhetes do transporte público levou às ruas outras demandas reprimidas da sociedade, como a melhoria dos serviços públicos de um modo geral. Um governante, ao menos um governante que tenha vocação para cuidar das pessoas e do Estado, precisa estar sempre atento às inquietações da sociedade. Eu diria que o mais difícil foi manter o equilíbrio entre o direito do povo de se manifestar livremente e a garantia da lei e da ordem, de forma que o Estado não fosse paralisado ou capturado pelos que usavam métodos violentos e até criminosos de reivindicação. Acho que conseguimos.

Mas a Polícia Militar foi criticada tanto por cometer excessos como por cruzar os braços. O então prefeito Fernando Haddad chegou a pedir a demissão do comandante-geral. Como o sr. responde?

O comandante foi mantido e o tempo mostrou o acerto da nossa decisão.

Manifestantes se reúnem no Largo da Batata, em São Paulo, em junho de 2013
Manifestantes se reúnem no Largo da Batata, em São Paulo, em junho de 2013 Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Quais as consequências das jornadas de junho para o País?

Olhando em retrospectiva, elas foram um grande aprendizado para a sociedade e para a classe política. Como sempre busquei o diálogo do início ao fim daquele processo, entendo que uma das consequências foi mostrar que é preciso a união de todos os entes para tentar compreender as demandas da população. No meu caso, posso dizer que reforcei minha convicção na importância do diálogo e da escuta às demandas dos cidadãos, que muitas vezes não têm como nem onde se expressar.

O ex-presidente Fernando Henrique foi consultado à época pelo governo Dilma sobre a possibilidade de apoiar uma proposta de reforma política. O sr. conversou com ele sobre o assunto?

O presidente Fernando Henrique Cardoso sempre teve uma postura republicana e democrática, e, também, sempre foi conhecido por ser um reformista. Na ocasião, ele considerou o momento oportuno para debater a reforma política, ainda que não tivesse participado da discussão sobre os termos com que a reforma seria feita.

Atos de vandalismo no Vale do Anhangabaú, durante manifestação de junho de 2013
Atos de vandalismo no Vale do Anhangabaú, durante manifestação de junho de 2013 Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Há quem diga que a explosão de descontentamento de 2013 foi o ‘ovo da serpente’. Aqueles movimentos impulsionaram a extrema-direita e deram origem ao bolsonarismo no País?

Em termos ideológicos, entendo que aqueles movimentos começaram pela esquerda e acabaram desaguando em agendas da direita, inclusive com oposição à democracia representativa, viabilizando partidos e políticos. Difícil dizer se eles deram origem ao bolsonarismo. Acho que o mais correto seria dizer que inauguraram um período novo no jeito como os brasileiros decidiram manifestar algumas de suas convicções, que era indo às ruas para protestar, às vezes com uma dose de contundência um tanto exagerada, mas legítima quando feita de maneira civilizada e pacífica.

Foi a partir daquela época que o sr. se aproximou de Haddad, que, anos depois, teve a ideia de uma aliança sua com o atual presidente Lula?

A relação entre a Prefeitura de São Paulo e o governo estadual é inevitável. Estão na Grande São Paulo 20 milhões de habitantes, sendo que, na cidade, mais de 12 milhões, ou seja, um quarto da população do Estado. Nós temos parcerias nas áreas de mobilidade, saneamento, educação, mas, claro, a crise criou um momento de solidariedade, que favoreceu a construção de uma resposta conjunta. E foi o que aconteceu. O interesse dos brasileiros deve ser maior do que as desavenças partidárias. Foi com esse mesmo interesse, de garantir a democracia e reconstruir o País, que surgiu a aliança com o presidente Lula.

O sr. vê alguma semelhança entre os protestos de 2013 e os ataques de 8 de janeiro na Praça dos Três Poderes?

Nem em forma nem em conteúdo. Como as investigações estão indicando, os ataques de 8 de janeiro foram orquestrados e financiados por gente que despreza a democracia e não aceita o resultado das urnas. Em nenhum momento do que ocorreu neste ano houve qualquer apelo democrático. Em 2013, aconteceram episódios de violência, que, sempre é bom dizer, deve ser repudiada, de direita, de esquerda ou de centro. Mas eles, geralmente, ocorriam no final das manifestações, promovidos por grupos minoritários e longe de expressar a vontade da maioria. Já em 8 de janeiro o que pretendiam os participantes era a prática de crimes contra o Estado brasileiro.

Fonte: https://www.estadao.com.br/politica/jornadas-junho-2013-10-anos-manifestacoes-geraldo-alckmin-aprendizado/