Por António Marujo | 31 Mai 2023
O atraso na abertura dos arquivos do Vaticano
relativos ao pontificado do Papa Pio XII e da Segunda Guerra Mundial
“prejudicou o conhecimento da realidade”, diz o historiador Andrea
Riccardi, fundador da Comunidade de Santo Egídio, de Roma, e ministro da
Cooperação Internacional entre 2011 e 2013, no Governo italiano
liderado por Mario Monti. Para o historiador, os silêncios do Papa
Pacelli foram uma escolha para evitar males maiores, mas o que ele não
compreende é o silêncio de Pio XII depois da Guerra, sobre o
antissemitismo ou a perseguição aos judeus que se tinha verificado
durante o conflito.
No âmbito da reportagem A Lista do Padre Carreira,
uma parceria do 7MARGENS com a TVI que passa esta noite de quarta-feira
no Jornal Nacional daquela estação televisiva, Riccardi, autor de uma
vasta bibliografia sobre Pio XII e a Igreja Católica do século XX,
concedeu uma entrevista sobre o papel de Pio XII em relação aos judeus,
durante a Segunda Guerra Mundial, que a seguir se reproduz na íntegra.
Amanhã publicaremos, também na integra, a entrevista de Silvia Haia
Antonucci, responsável do Arquivo da Sinagoga de Roma.

Andrea
Riccardi durante a entrevista para a reportagem A Lista do Padre
Carreira, em Novembro de 2022, em Roma. Imagem: Miguel Bretiano
7MARGENS – Fala-se muitas vezes dos silêncios do Papa Pio XII. O que podemos dizer do seu papel durante a guerra?
ANDREA RICCARDI – Antes de mais, temos de pensar no que era o
Vaticano daquela época: uma pequena realidade isolada, primeiro num país
fascista e, depois, numa Roma ocupada pelos nazis. Pio XII viveu isto
tragicamente. Tinha a noção do que os nazis teriam feito à Igreja em
caso de vitória. Sabia que não haveria espaço para a Igreja numa Europa
nazi. E ao mesmo tempo sabia que no mundo comunista [também] não haveria
espaço, já havia grandes perseguições.
Pio XII assume a posição da Igreja Católica, a da imparcialidade,
tentando favorecer uma certa paz. Por outro lado, teve muito cedo
conhecimento da perseguição dos judeus. Eu trabalhei nos arquivos do
Vaticano e vi os relatórios: o Vaticano sabia, primeiro das perseguições
e, depois, do extermínio dos judeus. Há relatórios impressionantes: o
Governo polaco no exílio, até mesmo os Aliados, pressionavam Pio XII
para que interviesse contra Hitler.
7M – Mas o Papa não falou muito…
Temos de dizer que foram raras as palavras de condenação da parte de
Pio XII. Condenou as perseguições por causa da estirpe, que queria dizer
raça, mas concentrou-se sobretudo em ajudar. O momento mais alto da
ajuda da Igreja de Pio XII aos judeus foi durante a ocupação de Roma. De
8 de Setembro de 1943 até ao início de Junho de 1944 esta cidade foi
ocupada por nazis, que a controlaram, e a 16 de Outubro de 1943 os
alemães desencadearam uma razia aos judeus romanos: mais de mil judeus
romanos foram deportados para Auschwitz.
Nessa ocasião, o Papa interveio por vias diplomáticas, mas não
protestou. Multiplicou-se a ajuda da Igreja. Estamos em Santo Egídio,
num antigo mosteiro carmelita e também aqui estiveram escondidos alguns
judeus. Nos meios religiosos escondiam os judeus e à porta dos edifícios
religiosos havia um cartaz em italiano e alemão que dizia, assinado
pela autoridade alemã: “Este edifício pertence à Santa Sé. Estão
interditas perseguições.”
7M – E isso repetiu-se em muitos sítios…
Houve uma grande hospitalidade clandestina, não só aos judeus, mas
também a outros procurados, até mesmo a um líder comunista, Roveda, no
Seminário Lombardo; em Laterão, [basílica] extraterritorial [da Santa
Sé], estava todo o Comité de Libertação Nacional e o general [Roberto]
Bencivenga, chefe militar das forças de libertação em Roma, dos
partisans.
A hospitalidade da Igreja foi uma das escolhas principais de Pio XII.
Como se sabe, Pio XII, a partir da famosa [peça de teatro] do alemão
[Rolf] Hochhuth, foi acusado de silêncio. Os silêncios de Pio XII foram
uma escolha, não só sobre os judeus: ele também não teve discursos
críticos sobre a Polónia, país católico que estava a ser dividido pelos
alemães, exactamente por estar convencido que uma tomada de posição
pública teria aniquilado a Santa Sé.

Aviso
de protecção das casas religiosas de Roma durante a ocupação nazi de
Roma (1943-44), colocado pelas tropas nazis, proibindo perseguições e
rusgas.
7M – Mas como entender então o acolhimento nos mosteiros e casas religiosas?
Podemos dizer que fizeram isto espontaneamente? Os religiosos que
abriram os conventos de Roma, os seminários, fizeram-no espontaneamente
ou fizeram-no por ordem do Papa? É óbvio que, sem o consentimento do
Papa, um mosteiro de clausura não teria podido acolher refugiados ou
perseguidos. Houve um consentimento do Papa, mas houve também uma
iniciativa de base, sobretudo porque o risco era muito grande para os
superiores: a condenação à morte, o fuzilamento.
Foi então um favor do Papa, que num seu discurso falou de errantes,
ou seja, pessoas em fuga, e houve uma grande sensibilidade no mundo
católico [da qual] nasceram convivências inéditas com os judeus? Os
católicos nunca tinham vivido com os judeus dessa forma. Em Roma não
faltaram episódios deploráveis: quando os fascistas entraram no Colégio
Lombardo, encontraram alguns judeus escondidos; [ou quando] entraram na
Basílica de São Paulo de noite, [que motivou] um protesto por parte da
Santa Sé.
7M – O que significavam esses ataques?
Naturalmente que estes ataques dos fascistas eram favorecidos pelos
nazis para pressionarem o mundo eclesiástico. Os nazis sabiam [do que se
passava]? Penso que sabiam, mas no fundo não quiseram criar problemas
demasiado grandes com a Santa Sé e fechavam os olhos. É certo que não
sabiam tudo, mas quando num mosteiro estão escondidas 30-40 pessoas, é
fácil perceber-se e é fácil ver que precisam de comer.
Naturalmente Hitler tomaria medidas mais duras e falou-se de uma
deportação do Papa. Aliás, está documentado que Hitler deu ordem ao
comandante das SS, [Karl] Wolff, que interviesse no Vaticano, que
estudasse uma deportação do Papa. Wolff explicou a Hitler, e parece que o
conseguiu convencer, que uma tal deportação seria prejudicial, que em
Itália a situação era tranquila, que no fundo a Igreja não demonstrava
uma grande hostilidade com a ocupação alemã e que era conveniente evitar
[esse confronto]. Mas o Vaticano teve receio, tanto que o secretário de
Estado [do Vaticano, cardeal Luigi] Maglione disse aos diplomatas para
queimarem as suas próprias cartas. E encontrámos nas cartas vaticanas um
plano de defesa do Papa, caso os alemães entrassem.
7M – Quando o bairro de San Lorenzo foi bombardeado pelos Aliados, Pio XII foi lá, mas sobre a deportação dos judeus só fez declarações diplomáticas. Há
anos disse-me, em entrevista, que Pio XII era um prisioneiro de luxo no
Vaticano. Entre essa imagem e as críticas que lhe foram feitas está
sempre essa ambiguidade?
Pio XII saiu sozinho para ir a San Lorenzo, entre os bombardeados, um
episódio épico que ficou na consciência e na memória dos romanos. Com a
ocupação da cidade, o Papa nunca mais saíra do Vaticano. Apareceu uma
só vez à varanda da Praça de S Pedro para uma grande manifestação. Uma
só vez. Nunca mais falou nem à janela, nem para Itália, justamente
porque não reconhecia a situação de Roma, o governo da República Social e
a ocupação alemã.
Mas esta não é a única razão pela qual o Papa não saiu. Pio XII não
queria cortar completamente com a Alemanha, até para evitar um
agravamento das perseguições aos católicos, aos polacos e aos judeus. A
sua linha foi uma escolha diplomática, outros poderiam ter escolhido
outra via, mas Pio XII não quis pagar o preço da destruição da Igreja e
do fim do asilo.

Marino Mazzacurati, Os Horrores da Guerra.
Obra na igreja de Santa Maria in Trastevere (Roma), na sala onde foi
assinado o acordo de paz de Moçambique, em 4 de Outubro de 1992. Foto ©
António Marujo/7MARGENS
7M – Esse é o grande argumento da sua defesa?
Não defendo Pio XII, como sabe, mas não o acuso, porque a função do
historiador não é como a do juiz, a função do historiador é a de
entender e não julgar. Se calhar outro Papa teria feito de outra
maneira, mas os silêncios de Pio XII durante a guerra têm explicação,
percebem-se e compensam-se com o compromisso humanitário.
O que mais me abalou – falo disso no meu último livro La Guerra del Silenzio
– foi o silêncio depois da guerra. Porque Pio XII não falou da Shoah
depois da guerra? Da tragédia dos judeus? Esta é uma dúvida muito
importante. Porque não falou contra o antissemitismo? Há um silêncio de
Pio XII depois da guerra. E aqui há algumas explicações.
7M – Quais?
A primeira é a sensação de que a Leste os judeus tinham ido para o
poder com os comunistas, havendo alguns dirigentes, por exemplo na
Polónia e na Roménia, de origem hebraica. Na Polónia criou-se a ideia,
entre os católicos, que os judeus tinham vencido depois da guerra,
quando tinham sido exterminados. E também, na Palestina, o nascimento do
Estado de Israel e consequentemente um novo problema com os judeus,
entre judeus e palestinos e palestinos cristãos.
Além disso, depois da guerra Pio XII sentiu-se perseguido, vítima da
perseguição comunista e sentia que já não valia a pena falar sobre o que
aconteceu na guerra. No fundo, os católicos começaram a reflectir sobre
a Shoah – alguns fizeram-no antes – com o Concílio Vaticano II
[1962-65] e depois, como todos, com o processo [de Adolf] Eichmann.
Porque é necessário dizer que, por exemplo, o livro de Primo Levi sobre a
sua terrível experiência num campo de extermínio [Se Isto é Um Homem] ao princípio não encontrou editor, tão pouca era a sensibilidade em relação à tragédia judaica.
7M – Também a Alemanha e toda a Europa só falaram da guerra e do que aconteceu muito mais tarde.
Falou-se da Shoah mais tarde. E os alemães, tendo um país destruído, também se sentiram vítimas e não só carrascos.

Memorial
das Fossas Ardeatinas, em Roma, local onde os nazis fuzilaram 335
pessoas, depois do atentado na via Rasella, em 24 de Março de 1944. Foto
© António Marujo/7MARGENS.
7M – Falámos do bombardeamento de San Lorenzo pelos Aliados e
disse que foi um acontecimento importante para os romanos. Mas também o
atentado da via Rasella e depois o massacre das Fossas Ardeatinas,
foram importantes.
O terrível massacre das Fossas Ardeatinas…
7M – O atentado e o massacre ficaram na consciência do povo de Roma?
Permanece a memória das Fossas Ardeatinas que são um sacrário muito
comovente, terrível: esta cova onde foram mortos tantos judeus e não
judeus. Pio XII não queria que se combatesse por Roma e portanto, na
minha opinião, era contra o atentado da via Rasella. Mas todo o empenho
vaticano foi para que os alemães saíssem de Roma sem combater na cidade,
sem destruir as pontes.
Agora, às Fossas Ardeatinas vão os jovens, há uma memória… Foi a
minha avó que me contou que Pio XII foi a San Lorenzo, com a roupa
manchada de sangue – mito ou realidade, não se sabe. O Papa foi sozinho
de carro com mons. [Giovanni Battista] Montini [futuro Papa Paulo VI],
sem escolta. Em Julho de 1943 o Papa já era o ponto de referência em
Roma, como continuará a sê-lo, mesmo estando fechado no Vaticano,
durante os meses todos da ocupação, algo a que chamei o mais longo
Inverno.
Na minha opinião este é um ponto muito importante. Um historiador
italiano liberal, [Federico] Chabod, dizia: há uma grande autoridade em
Roma, o Papa. De facto, quer pelas ajudas alimentares, das paróquias,
quer pela autoridade moral, a defesa de Roma cidade aberta, [foi o Papa
que a fez]. Quando Roma foi libertada, o Papa assomou várias vezes à
janela e a Praça de São Pedro estava cheia com bandeiras vermelhas,
bandeiras italianas, bandeiras brancas e o Papa foi saudado como
protagonista da libertação de Roma.
7M – A historiadora Grazia Loparco estudou o acolhimento de
judeus em mosteiros, conventos e casas religiosas. E encontrou, em 200
casas religiosas, registos de cerca de 4000 pessoas acolhidas. Este é o
número final?
Não se pode dizer isso, porque descobrem-se sempre novos casos. Eu
concordo com os números da irmã Grazia Loparco. Renzo de Felice já tinha
falado de um número parecido. Eu comecei a estudar o acolhimento aos
judeus em 1975 – publiquei um ensaio e depois um livro, Roma città sacra?
– e à época tive ocasião de falar com muitos religiosos que ainda
estavam vivos e que eram testemunhas disso. Mas a esses 4000 judeus é
preciso juntar outros que foram acolhidos por famílias, às vezes
espontaneamente por amizade ou solidariedade, outras vezes porque essas
famílias faziam parte de uma rede das paróquias: o problema das famílias
não era só esconder, mas também dar de comer e as paróquias ajudavam.
O número pode ser maior. Falo das famílias escondidas no meu livro “O
mais longo Inverno”: falei com algumas, tenho alguns testemunhos, mas
pouco. Por exemplo no bairro Testaccio há o caso de uma família judia
escondida numa loja, que era visitada por uma velhota chamada Luísa, que
lhes levava comida e dizia “acolhia-vos em minha casa, mas não posso,
porque o meu genro é fascista”.

Papa
Pio XII: a abertura dos arquivos do seu pontificado “é muito
importante” e “fará perceber melhor esta história, a partir do
interior”, defende Riccardi. Foto: Direitos reservados
7M – A abertura do arquivo de Pio XII, que o Papa Francisco
ordenou, já mudou algo no modo de perceber o papel de Pio XII? Ainda
pode mudar mais?
O atraso da abertura dos arquivos vaticanos prejudicou o conhecimento
da realidade. No debate sobre os silêncios de Pio XII, os historiadores
trabalharam sobre fontes não vaticanas, ou seja, arquivos civis ou
arquivos pessoais. A abertura é muito importante e estou convencido de
que nos

Padre Joaquim Carreira na altura em que foi reitor do Colégio Português de Roma. Foto: Direitos reservados
fará perceber melhor esta história, a partir do interior. Mas não
devemos esperar encontrar sabe-se lá que segredos: encontraremos
passagens de uma história que com paciência vamos ter de reconstruir.
O Papa Francisco fez bem em tirar o nome de “Arquivo Secreto
Vaticano”, porque as pessoas pensavam que é o arquivo dos segredos. Eu
vi muitas coisas e podem existir mais e muito interessantes. Mas estou
convencido de que há muito trabalho, muitas coisas a perceber, e até
perceber as diferentes posições das personagens no Vaticano. Não são
todos iguais. Havia quem estivesse contra: o cardeal [Nicola] Canali era
absolutamente contra o acolhimento [de refugiados], até chegou a mandar
alguns embora do Seminário Lombardo. Havia monsenhor [Angelo]
dell’Acqua que era um pouco céptico. Havia um Montini muito empenhado –
aliás Montini era o homem de Pio XII que trabalhava com o acolhimento.
Montini tornou-se Paulo VI, que defendeu sempre Pio XII.
7M – Como olha para o papel do padre Joaquim Carreira?
A história do padre Carreira insere-se naquele esforço de religiosos e
religiosas, conventos, seminários, mosteiros, paróquias, de acolher os
romanos ou os italianos em dificuldade. Não só judeus, mas também
políticos, familiares de políticos que teriam sido perseguidos.
O caso do padre Carreira é muito interessante, porque é um português,
fora do ambiente italiano. Poderia ter dito como algumas vezes dizem os
eclesiásticos em Roma: “Eu não percebo a política em Itália.” Porque se
empenhou este homem? Poderia ter dito: “Eu sou estrangeiro.” Não o
disse, porquê? É necessário investigar, no meu entender, os motivos
religiosos, pessoais, evangélicos deste padre.
Não foram muitos os religiosos estrangeiros que cuidaram dos judeus
ou dos perseguidos em Roma e o padre Carreira foi um deles; outro é o
geral dos jesuítas, [o austríaco Wlodimir] Lodokowsky, que até tinha
mostrado um tom antissemita, ou um superior franciscano que até era
alemão. Mas o caso do Padre Carreira não é interessante só para os
portugueses, é interessante pela catolicidade. Ele expressa um
pensamento católico, não um pensamento português, numa altura em que
Portugal tinha uma forte identidade nacionalista. E coloca-se em risco e
poderia ter tido problemas muito sérios com os alemães, havia a pena de
morte. Poderia ter comprometido o Colégio Português, poderia ter tido
até problemas com a Igreja portuguesa e com o Governo. Por isso é bom
estudar este caso, que é muito interessante.
Fonte: https://setemargens.com/o-que-mais-me-abalou-foi-o-silencio-de-pio-xii-depois-da-guerra/?utm_term=Comiss%3F%3Fues+de+prote%3F%3F%3F%3F%3F%3F%3F%3Fo+de+menores+da+Igreja+ouviram+927+v%3F%3F%3F%3Ftimas&utm_campaign=Sete+Margens&utm_source=e-goi&utm_medium=email