quinta-feira, 3 de agosto de 2023

Ernest Hemingway, divino e humano

Por Urariano Mota*

Urariano Mota reflete sobre a figura de Ernest Hemingway a partir do mito, mas também em sua humanidade.

Em 21 de julho de 1899, nasceu Ernest Hemingway. Ele foi um escritor que, ao lado da sua genial literatura, teve uma imensa fama de beleza física, força e aventura másculas. Seria como uma extensão dos seus belos textos, como se a virilidade entrasse no terreno da literatura. Esse equívoco merece um sério reparo, quando o vemos na sua humanidade cotidiana. Vale a pena ler o que o seu neto John Hemingay publicou:

“Muitas pessoas ainda pensam em Ernest Hemingway em termos exagerados. Cinquenta anos depois de sua morte, ele é o Lord Byron do século XX, um gigante literário hipermacho, bebedor de rum, guerreiro e armado com pistolas, que se casou quatro vezes, teve inúmeras amantes e definiu o que era e, em muitos casos, ainda é ser um homem americano. É um retrato confortável e bem usado e, em parte, como eu mesmo o imaginava quando era garoto em Miami durante os anos 1960 e 1970. A imagem maior do que a vida e as façanhas do homem eram certamente mais empolgantes do que as de muitos outros escritores. Ele era escandalosamente real (“macho demais para ser verdade”, como meu pai costumava dizer) de uma forma exagerada, do tipo Quentin Tarantino. É claro que, anos mais tarde, quando escrevi Strange Tribe, descobri que Ernest não era a pessoa que eu pensava que fosse e que talvez tivesse mais em comum com meu pai, seu filho mais novo transexual, do que com os pescadores, soldados e toureiros de quem era amigo. Mas, mesmo com esse conhecimento e com a publicação de meu livro, as velhas ideias não morrem. Estou inclinado a acreditar que os mitos são imortais e que o papel exagerado que Ernest desempenhou na cultura americana após a Segunda Guerra Mundial teve muito a ver com a forma como o “papai” foi embalado pelas revistas pulp [revistas populares, de papel barato, vendidas em bancas e jornais] dos Estados Unidos….

O que foi irônico, pelo menos para mim, ao ler o livro All Man, Hemingway, 1950’s Men’s Magazine’s, and the Masculine Persona, de David M. Earle, foi ver como Ernest passou de representante da Geração Perdida e seus temas antimilitaristas e anticonformistas para alguém cuja imagem foi usada pela América corporativa para ajudar os veteranos de guerra que retornaram da Segunda Guerra Mundial a se conformarem com seus papéis de maridos e pais suburbanos em uma nação conservadora e agressivamente capitalista. Na verdade, os retratos de macho-alfa de Hemingway preencheram uma necessidade cultural, diz Earle, de reafirmar a masculinidade do país em uma época de ‘crise de gênero profundamente enraizada’. As mulheres haviam mudado durante a guerra, assumindo os trabalhos que os homens costumavam fazer, e nunca mais seriam tão submissas quanto antes. O passado de Ernest como um veterano ferido e seu estilo de vida glamoroso em Cuba como pescador e mulherengo poderiam ser usados como um modelo e um meio de controle social.”   

Quando se procuram os pés de barro em um ídolo, a gente sempre os encontra. Pude notar no meu próximo romance, inédito: “O negro, o criado negro de Hemingway que carrega os fardos do Senhor caçador na savana. O negro que escuta os diálogos em inglês do caçador Hemingway, que corre os maiores riscos na caçada ao leão, mas que nessa literatura não tem voz nem fala”.  

Mas muito acima dos pés de barro, a eternidade de Hemingway está na sua literatura. Na melhor entrevista do livro As entrevistas da Paris Review, que reúne os mais famosos escritores do século XX, recebemos estas lições, que se tornaram os segredos da profissão revelados para todos os escritores:

Hemingway: Você escreve até chegar a uma situação em que ainda dispõe de boa veia, e sabe o que vai acontecer depois….

Entrevistador: É necessário estabilidade emocional para escrever bem? Uma vez o senhor me disse que só conseguia escrever bem se estivesse apaixonado. Pode falar um pouco mais sobre isso?   

Hemingway: Que pergunta! Nota dez para a tentativa! Você pode escrever em qualquer ocasião, se as pessoas o deixarem sozinho e não o interromperem. Ou melhor, se você for bastante implacável a respeito. Mas a melhor escrita se dá quando você está apaixonado. Se não se importa, prefiro não falar mais sobre isso.  

Entrevistador: E quanto à segurança financeira? Pode ser um empecilho para escrever bem?

Hemingway: Se ela vier muito cedo, e se você amar a vida tanto quanto ama o trabalho, então vai precisar de muito caráter para resistir às tentações.

Entrevistador: Que exercício intelectual o senhor consideraria o melhor para o aspirante a escritor?

Hemingway: Digamos que ele deva enforcar-se, por descobrir que escrever bem é difícil a ponto de ser impossível. Então ele deve ser retirado da forca impiedosamente, e forçado por si próprio a escrever o melhor que possa para o resto da sua vida. Pelo menos terá, como ponto de partida, a história do enforcamento…Tentar escrever algo de valor permanente é uma tarefa de tempo integral, mesmo que só algumas horas por dia sejam gastas com a escrita em si. Pode-se comparar um escritor a um poço. Existem tantos tipos de poços quanto de escritores.

Entrevistador: Qual é o grau de completude, na sua mente, da concepção de um conto? O tema, o enredo ou um personagem podem mudar à medida que vai escrevendo?

Hemingway: Às vezes você já conhece a história. Às vezes vai montando-a à medida que escreve, sem fazer a menor ideia do que será o resultado. Tudo muda enquanto se move. É isso o que faz o movimento que faz o conto. Às vezes é um movimento tão lento, que nem parece mover-se. Mas sempre há mudança, e sempre há movimento…As verdes colinas da África não é um romance, mas foi escrito como a tentativa de escrever um livro absolutamente verdadeiro. Depois de escrevê-lo, escrevi dois contos, “As neves do Kilimanjaro” e “A vida breve e feliz de Francis Macomber”. Foram histórias que escrevi a partir do conhecimento e da experiência que adquiri na mesma longa expedição de caça cujo relato verdadeiro pretendi escrever em As verdes colinas da África.

Entrevistador: O senhor poderia dizer alguma coisa acerca do processo de transformar um personagem da vida real em ficcional?

Hemingway: Se eu explicasse como isso é feito, às vezes, o resultado seria um manual para advogados de acusação.

Entrevistador: O senhor faz distinção – como E.M. Forster – entre personagens ‘planos’ e ‘redondos’?

Hemingway: Se você descreve uma pessoa, o resultado é plano, como uma fotografia, e, do meu ponto de vista, é um fracasso. Se você a modela a partir do seu conhecimento, todas as dimensões estarão presentes.

Entrevistador: Quando não está escrevendo, o senhor permanece como um constante observador, sempre em busca de algo que lhe possa servir.

Hemingway: Com certeza. Se um escritor parar de observar, está acabado. Mas ele não precisa observar conscientemente, nem pensar de que modo isso lhe poderá servir. Talvez isto seja verdade no início. Mas, depois, tudo o que ele vê vai para a grande reserva das coisas que ele conhece ou viu. Se é que serve para alguma coisa saber disso, sempre escrevo a partir do princípio do iceberg . Há sete oitavos submersos, para cada parte que aparece. O Velho e o Mar poderia ter mais de mil páginas e conter todos os todos os personagens da aldeia e todos os processos de como eles ganhavam a vida, nasceram, foram educados, tiveram filhos, etc. Outros escritores já fizeram isso muito bem. Eu tentei aprender a fazer outra coisa. Primeiro, tentei eliminar tudo o que era desnecessário para transmitir a experiência ao leitor, de modo que, depois que ele ou ela ler, isso se se torne parte de sua experiência e pareça ter realmente acontecido. Isso é muito difícil de fazer e eu me esforcei muito para isso. De todo modo, pulando a maneira como se faz isso, tive uma sorte incrível  dessa vez e pude transmitir a experiência completamente, de uma maneira que antes tinha feito. A sorte foi que eu tinha um bom homem e um bom garoto, e, ultimamente, os escritores têm se esquecido de que essas pessoas ainda existem. Além disso, o mar é tão digno de escrever sobre ele quanto sobre o homem. De modo que tive sorte em tudo. Eu tinha visto o acasalamento do agulhão, conheço bem a respeito. Então, deixei isso de fora. Tinha visto um rebanho (ou bando) de mais de cinquenta cachalotes naquela mesma região marítima, e uma vez arpoei um que tinha uns dezoito metros de comprimento, mas o perdi. Deixei isso de fora. Deixei de fora todas as histórias que conheço da aldeia de pescadores. Mas o conhecimento é o que forma a parte submersa do iceberg.     

Entrevistador: O senhor já disse, creio eu, que a escrita maior advém de um senso de injustiça. Considera importante que um romancista seja dominado deste modo – por algum senso que o compele?

Hemingway: Um escritor sem um senso de justiça ou de injustiça estaria melhor editando o anuário de uma escola para crianças excepcionais do que escrevendo romances. O dom mais essencial para o bom escritor é um detector de merda, embutido e à prova de choque. É o radar do escritor, e todos os grandes escritores tiveram o seu.      

A frase de Hemingway nessa entrevista ao falar que “sempre escrevo a partir do princípio do iceberg”, e aplicando sua teoria à obra-prima O Velho e o Mar a frase “Deixei de fora todas as histórias que conheço da aldeia de pescadores. Mas o conhecimento é o que forma a parte submersa do iceberg”  tem gerado as maiores simplificações e equívocos. Virou autoajuda literária. Má literatura à revelia da intenção de Hemingway. Só falta medirem a temperatura do gelo de um texto. Quem for agora ao Google, verá 1.020.000 resultados para a busca “hemingway iceberg” (dados de 20.07.2023). No primeiro deles, a wikipédia informa que “A teoria do iceberg ou teoria da omissão é uma técnica narrativa elaborada pelo escritor estadunidense Ernest Hemingway. Como jovem jornalista, Hemingway teve que concentrar suas reportagens em eventos imediatos, com pouco espaço para contexto ou interpretação. Quando se tornou contista, manteve seu estilo minimalista, concentrando-se nos elementos superficiais sem discutir profundamente camadas subjacentes”(!!!!!!!). É claro, não foi  isso a que o escritor se referiu ao falar sobre seu método de escrita.  

Agora, imaginem o que seria de um escritor que jogasse fora, “jogasse ao mar” o seu maior conhecimento sobre a vida, pessoas e o mundo.  Imaginem, portanto, o tipo de literatura produzida assim: falha, fria e falsa. Na verdade, o escritor narra o seu melhor conhecimento, a sua experiência absoluta da vida, a sua dor e mágoa, e isso é impossível de largar submerso, entre sombras do purgatório. Não. O que ele quis dizer, de um modo sintético, é que não se pode contar tudo, todos os fatos sobre as pessoas em conto ou romance. Ou no conjunto de romances, um feito que nem o gênio de Balzac conseguiu com sua imensidão sobre a história e sociedade francesa, porque afinal, a vida é curta. Se assim é, o que ocorre? Todo o mundo sabe que ao contar uma história deve-se escolher o que contar. Uma seleção de acontecimentos, imaginados ou tidos. Eu não posso falar de Maria contando o que ela comeu em 20 de julho, o que bebeu, o que defecou, o que suspirou, o que amou e sofreu nesse dia e tudo junto. Seria tedioso e impossível. Então, o que se faz? Ao se contar um certo dia da personagem, ou muitos dias, escolhe-se o que é significativo da sua história, o que está no futuro da escrita que se quer narrar. E nessa ênfase, “elimina-se” o que não interessa contar, mas o autor sabe o que elimina, ele sabe quem é Maria, ele sabe a sua cor, a sua estatura, o seu bairro, o seu tempo. Ele sabe, mas escolhe o que deseja. E o que ele sabe dá substância e matéria ao espirito de Maria. Aí está o iceberg quente, de altíssima temperatura. O autor monta os fatos de Maria que lhe interessam. Assim posta, Maria não está na superfície, ela está inteira em sua dor quando faleceu sem dar à luz o filho. Esta é Maria!      

Nesta altura, vale muito a pena destacar a excelência de Hemingway em alguns contos, para mim, o melhor da sua obra. “As neves do Kilimanjaro”. Poderia ser dito: “Que conto!”. Nele, um escritor, com a perna gangrenada, espera um avião de socorro na selva. Enquanto isso, Hemingway reflete:

“Ele havia destruído seu talento por não usá-lo, por trair a si mesmo e àquilo em que acreditava, por beber tanto que embotou a borda de suas percepções, por preguiça, por preguiça e por esnobismo, por orgulho e por preconceito, por ganchos e por trapaças. Afinal, qual era o talento dele? Era um talento, sim, mas em vez de usá-lo, ele o havia comercializado. Nunca se tratava do que ele havia feito, mas sempre do que ele poderia fazer. E ele havia escolhido ganhar a vida com outra coisa em vez de uma caneta ou um lápis.”

“Os assassinos”. Devemos dizer mais uma vez: “Que conto!”. Nele há diálogos curtos, que cortam como quicé, num crescendo de tensão:

— Está olhando o quê? — Max encarou George.
— Nada.
— Estava, sim. Estava me olhando.
— Talvez ele estivesse brincando, Max — admitiu Al.
George riu.
— Você não tem que rir — disse Max a George. — Você não tem que estar rindo, entendeu?
— Entendi — falou George.
— Ele pensa que entendeu. — Max virou-se para Al. — Ele pensa que entendeu. Essa é boa.
— É um pensador — ironizou Al. Continuaram comendo”.

E o que dizer de “A vida breve e feliz de Francis Macomber”? Seria um conto sobre caçada, de um safári na África, na aparência. Mas Hemingway narra uma história que se constrói sobre o dilema ético da covardia (Francis Macomber, armado, corre em pânico de um leão ferido),  e da traição de um homicídio. E mais não devo acrescentar, porque a releitura me manteve suspenso entre a raiva e o espanto diante da canalhice ao final. É um conto magistral, digamos. (Aliás, é conto preferido do neto John Hemingway, a quem cito lá no começo destas linhas.)

E chegamos então a O Velho e o Mar, a obra-prima que lhe deu o Prêmio Nobel de Literatura. No bilhete com que acompanhou o envio dos originais ao editor, ele escreveu: “Eu sei que isso é o melhor que posso escrever na minha vida toda”. Na tentativa ridícula e inútil de resumir o livro em poucas linhas, cometo o crime: “ ‘Lutar contra os tubarões’, disse o velho. ‘Vou lutar contra eles até morrer’.”

No fim do livro, o escritor fala: “Em sua cabana, o velho estava dormindo novamente. O menino estava sentado ao lado dele, observando-o. O velho sonhava com os leões”.

Mas o que fica, definitivamente, de O Velho e Mar é: “O homem não foi feito para a derrota. Um homem pode ser destruído, mas não derrotado.”

Esse grande valor de humanidade, de luta contra a fraqueza natural de todos nós, dele próprio, portanto, dá a Hemingway uma dimensão divina. Mas é um divino naquele sentido dos gregos, do mito Prometeu que desejou o máximo para a humanidade, ao buscar o que a natureza humana poderia alcançar. Não importa que Hemingway, numa crise violentíssima de depressão, de perda de memória, o que para um escritor é fatal, não importa que ele tenha enfiado uma espingarda de dois canos na boca e atirado. A sua literatura fala mais alto: ainda que destruído no corpo, Hemingway não foi derrotado.

***
Urariano Mota  é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. É colunista do Vermelho. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, de O filho renegado de Deus (Bertrand Brasil, 2013), uma narração cruel e terna de certa Maria, vítima da opressão cultural e de classes no Brasil, do Dicionário Amoroso do Recife (Casarão do Verbo, 2014), e de A mais longa duração da juventude (Editora LiteraRUA) que narra o amor, política e sexo dos militantes contra a ditadura.

Fonte:  https://blogdaboitempo.com.br/2023/08/03/ernest-hemingway-divino-e-humano/

quarta-feira, 2 de agosto de 2023

Os olhares de Milan Kundera

 José Brissos-Lino

 Milan Kundera em Paris a 17 setembro de 1982 Francois LOCHON/Gamma-Rapho via Getty Images

No romance que o tornou famoso - A Insustentável Leveza do Ser, publicado em 1984 e depois adaptado para o cinema - Milan Kundera (1929-2023) fala de quatro categorias de olhar

Soube da morte do escritor checo, aos 94 anos, quando já estava a preparar este texto.

Na sequência da condenação de Kundera por ter criticado a invasão soviética da Checoslováquia em 1968, emigrou para França em 1975, desencantado com a Checoslováquia. Em 1981 adquiriu a nacionalidade francesa e passou a identificar a sua produção literária com o novo país passando a escrever em língua francesa.

Tornou-se então um dos mais importantes e premiados escritores do séc. XX, em especial por utilizar as suas personagens para fazer o contraste entre a vida quotidiana e o mundo das ideias. Kundera foi traduzido em cerca de 40 línguas, tornando-se assim um dos autores mais traduzidos em todo o mundo.

Juntamente com Václav Havel foi um dos artistas e intelectuais checos que se envolveram na Primavera de Praga, em 1968 antes da invasão soviética. O Partido Comunista da Checoslováquia, então no poder, retirou-lhe a nacionalidade em 1979, quando o escritor já vivia em França, e só em 2019 viria a reavê-la.

Kundera diz que “todos temos necessidade de ser olhados”, e fala de quatro categorias de olhar. O primeiro é o olhar do público em geral. Como é que as pessoas nos vêm? Quem não nos conhece tende a julgar pela aparência, por uma primeira impressão, por um simples momento em que nos viu ou ouviu mesmo sem ter interagido connosco.

O olhar dos outros, dos anónimos, fala mais deles, os que nos analisam, do que de nós, os sujeitos analisados. Esse olhar repousa sobre uma história de vida, um percurso único e um conjunto de instrumentos e condicionantes psicológicos e culturais do observador. Essa é uma razão muito forte para não deixarmos que o nosso locus de controlo seja externo, o que pode ser fatal à nossa autoestima.

A segunda forma de olhar que Kundera avança é o olhar familiar. O autor diz que alguns “não podem viver sem o olhar de uma multidão de olhos familiares”. Aqui já falamos dum universo social muito mais restrito mas ainda assim condicionado por uma estória de família, por eventuais incidentes de percurso, por uma hierarquia de valores, por uma estrutura talhada pela cultura e tradição de família, por um sistema de competição de natureza emocional ou económica, por sentimentos reactivos e movimentos que afastam ou aproximam. O olhar que provém da família pode ser um estímulo ou uma maldição, pois toca muito mais fundo do que o olhar dos estranhos, que não são do mesmo sangue.

O terceiro olhar é aquele dos que nos amam. É um olhar mais protegido, digamos assim, que não nos alarma nem faz desconfiar. O olhar de quem nos quer bem contribui para baixarmos os mecanismos de defesa e permite que olhemos para dentro de nós mesmos com maior liberdade e autonomia. Essa capacidade e circunstância torna-se assim caminho de cura emocional porque permite lidar mais livremente com o nosso interior e enfrentar os fantasmas pessoais.

O autor diz que os tais “precisam de estar sempre sob o olhar do ser amado”, o que constitui um risco quando esses olhos se fecham.

Finalmente, o humanista Kundera fala num outro olhar, o olhar imaginário “que são aqueles que vivem sob os olhares imaginários de seres ausentes”. Afinal, são os sonhadores, uma condição muito mais rara e que tem o condão de fazer o mundo avançar.

Mas talvez o mais decisivo dos olhares, afinal, seja outro, isto é, o nosso próprio olhar. A forma de avaliarmos honestamente o que somos e como estamos, sem estarmos parasitados por outros olhares circunstanciais do mundo à nossa volta. No fundo este será o olhar mais importante pois é através dele que afinamos o nosso ser, sem pressões nem constrangimentos.

E se formos pessoas de fé, então ainda podemos ir mais longe e ter a coragem de formular a pergunta que realmente interessa neste caso, acima de qualquer outra: e como é que Deus me vê?


*Doutorado em Psicologia, é especialista em Ética e em Ciência das Religiões; professor catedrático (ISP Atlântida, Luanda), diretor do Mestrado em Ciência das Religiões (Universidade Lusófona); coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e do NEPRE-Núcleo de Estudos em Psicologia da Religião e Espiritualidade; director das revistas científicas Ad Aeternum (Portugal) e Olhar Científico (Angola); investigador do CLEPUL (Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias, Universidade de Lisboa) e do LUSOGLOBE (Lusófona Centre on Global Challenges). Desenvolve há muitos anos intensa atividade em instituições culturais, humanitárias e de solidariedade social, algumas das quais fundou. Poeta e ficcionista.

Fonte: https://visao.pt/opiniao/vestigios-de-azul/2023-07-19-os-olhares-de-milan-kundera/

NOTAS SOBRE A IGREJA CATÓLICA EM PORTUGAL

 Anselmo Borges*    

A poucos dias do início da Jornada Mundial da Juventude, deixo aí, também a partir de perguntas de jornalistas, inclusivamente estrangeiros, algumas notas dispersas sobre a Igreja em Portugal.


Genericamente, diria que o seu estado geral é um pouco estagnado, falta dinamismo. Entre os pontos mais positivos, parece-me que é de justiça sublinhar, disso ninguém duvidará, o papel social que a Igreja presta aos mais vulneráveis, nomeadamente através das IPSS (instituições particulares de solidariedade social), um papel insubstituível, mas também através de outras instituições como o Banco Alimentar, as conferências vicentinas de São Vicente de Paulo… A Igreja desempenha também um papel importante, decisivo, na salvaguarda de valores essenciais, como a família, a dignidade humana, a solidariedade…


Aspectos negativos. Pouco dinamismo pastoral, um clero envelhecido… Sublinho que a Universidade Católica Portuguesa com a sua Faculdade de Teologia deveria desempenhar um papel mais activo e dinamizador na evangelização e quanto a questões de ética, nomeadamente de bioética…


Quero sublinhar que a Igreja Católica é ainda uma realidade pública reconhecida mesmo pelos media.


Neste contexto, é importante apresentar dados estatísticos. Segundo o Censos de 2021, os católicos constituem a grande maioria da população: 80,2% declara-se católica (em 2011, eram 88%); 14% diz não seguir nenhum credo religioso.  Um outro estudo, de 2022, sobre “Jovens, fé e futuro” revela que 56% dos jovens entre os 14 e 30 anos se afirmam católicos e 34% dizem rezar regularmente e participar em celebrações. Mariano Delgado, Director do Instituto para o estudo das religiões e o diálogo inter-religioso na Universidade de Friburgo/Suíça, faz notar que “quase nenhum outro país europeu conta com estatísticas tão favoráveis para a Igreja católica”. Note-se, por exemplo, que, segundo uma sondagem recente, mais de um terço da população italiana, 37%, se declara “não crente”.


Claro que a prática religiosa tende a cair devido à secularização e também ao modo das celebrações. Precisamos, também neste nível, de uma reforma profunda. As celebrações têm de ser mais vivas, pois correm o risco de serem um ritual seco. As homilias são, de modo geral, um desastre. Neste contexto, julgo que bispos e padres deveriam aceitar o desafio de passar para o outro lado, isto é, disfarçados, assistir entre os fiéis de modo a sentir o que levam dessas celebrações, tomando consciência de certo vazio.


Entre os maiores desafios está certamente uma secularização crescente, no sentido de a religião já não ser tão determinante como era para a autocompreeensão e realização das pessoas nas diferentes esferas da vida. Assim, cada vez mais há menos casamentos pela Igreja e aumenta o número de divórcios… O Estado legalizou o aborto, acaba de legalizar a eutanásia activa…


Mas tenho a convicção de que a Igreja ainda encontra um lugar no mundo moderno, um lugar central, pois é portadora da mensagem decisiva do Evangelho, a melhor notícia que a Humanidade ouviu ao longo da sua História. Como diz a própria palavra Evangelho, que vem do grego: notícia boa e felicitante. Jesus entregou à Humanidade o Evangelho, essa notícia boa e felicitante: Deus é bom, é Pai e Mãe, ama todos os seus filhos e filhas e o seu maior interesse é a alegria, a felicidade, a plena realização de todos. Portanto, a Igreja transporta consigo não só o mandamento da parte de Deus da justiça e da paz, mas também a mensagem do sentido último da existência: não caminhamos para o nada, mas para a plenitude da vida em Deus.


Assim, a transformação da Igreja só pode realizar-se verdadeiramente, se cada um, a começar pelos bispos, padres, cardeais, perguntar a si próprio: acredito verdadeiramente nesta mensagem?, ela é boa para mim?, para mim? De facto, só se a considerar existencialmente boa e felicitante para mim, poderei ir convictamente entregá-la aos outros também.


Como é natural, a confiança na Igreja viu-se abalada por causa dos abusos sexuais. Como diz um estudo acabado de ser publicado, 68% dos portugueses pensa que a imagem da Igreja  piorou no último ano precisamente ao ter de lidar com os resultados da investigação sobre os abusos sexuais.  Ao mesmo tempo, o estudo mostra que 72% achou bem ou mesmo muito bem que a Conferência Episcopal Portuguesa tenha criado a Comissão Independente para um estudo independente dos abusos da Igreja desde 1950, mas 42% pensa que a mesma Conferência Episcopal respondeu mal ou muito mal aos resultados que a Comissão apurou, enquanto 33% pensa que a sua actuação  foi “nem boa nem má”.


Numa outra sondagem sobre a confiança nas instituições, em relação à Igreja Católica 42% dizem tender a confiar e 53% tender a desconfiar.


É importante fazer notar que faz parte do programa da visita do Papa Francisco, para presidir à Jornada Mundial da Juventude, um encontro com um grupo de abusados.


Significativamente, desta mesma sondagem resulta que 79% crê que a Jornada Mundial da Juventude, com a presença do Papa Francisco, terá um impacto mais positivo do que negativo.   Pessoalmente, também penso isso e que, com a presença de mais de um milhão de jovens vindos de todos os Continentes e quase todos os países, de diferentes cores, línguas, culturas e credos, ela poderia constituir uma espécie de micro-ensaio de como um mundo em diálogo, em justiça e em paz é possível.


*Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 29 de julho de 2023

Jornalismo e internet casam bem?

 por

Jornalismo e internet casam bem? Foto: Ashni/Unsplash

Minha primeira experiência com computadores deu-se em 1987, na Zero Hora. A partir de 1992 sempre tive um computador da Apple em minha mesa. Perdi a conta dos modelos que possuí a partir do Classic. Quando voltei da França para Porto Alegre, corri atrás de uma conexão internet. Consegui graças a uma start-up (não se falava assim na época) chamada Conex. Em 1993, em Paris, comecei a acompanhar as movimentações de meus colegas André Lemos e Federico Casalegno, fundadores, na Sorbonne, Paris V, do Gretech, um grupo de estudos sobre tecnologia. Tomei conhecimento da atividade intelectual de um Pierre Lévy e de um Joël de Rosnay, pioneiros ousados nessa área do ponto de vista das ciências humanas e da abordagem transdisciplinar.

No fim do milênio, com meu colega de PUCRS Francisco Menezes, publicamos livros com títulos que falam por si: “Para navegar no século XXI: tecnologias do imaginário e cibercultura”, com textos de feras como os próprios Pierre Lévy, Joël de Rosnay, André Lemos, Federico Casalegno e mais Jean Baudrillard, Michel Maffesoli, Paul Virilio, Lucien Sfez, Gianni Vattimo e outros. Era o momento de um hype quase sem oposição. Depois, viria, com Dominique Wolton, a crítica à ideologia tecnicista em “Internet, e depois?” Wolton falava em regulação. Era apedrejado. Menezes e eu publicamos também o livro “A genealogia do virtual: comunicação, cultura e tecnologias do imaginário”. Fiz parte, por muitos anos, chegando a ser vice-coordenador, do GT Comunicação e Cibercultura, da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação”, da qual fui vice-presidente. Enfim, tenho passado a vida estudando a “cibercultura”.

Tudo isso para chegar a esta tese provocativa: internet e jornalismo ainda não se entendem bem. Mas terão de se entender cada vez mais. A internet só aceita o jornalismo em duas situações: se ele estiver atrás de uma marca muito forte (um portal como UOL, uma grife como New York Times); ou se puder ser convertido em entretenimento (humor, leveza, brincadeira). O restante patina. Paradoxalmente a internet, as redes sociais e tudo que elas carregam é o regime das marcas, da performance, da competição, do prestígio, sendo tudo medido, contado, comparado. Bom é o que tem mais seguidores, curtidas, replicações, etc. Darwisnismo digital absoluto. Internet é também o regime do riso fácil. Tudo o que não fizer rir e não estiver ancorado em marca apanha. Sério, não. Salvo se representar alguma causa muito específica e militante.

O jornalismo, como saber acumulado, é o regime da moderação, da exposição e do pluralismo, ainda que empresas não sigam o manual. O militante racionaliza; o jornalista busca a razão; o militante encobre, o jornalista descobre; o militante justifica, o jornalista expõe a contradição. Há uma campanha de esquerda e de direita tentando dizer que todo jornalista é um militante. Fake news. A diferença aparece rapidamente. O militante cobra do adversário o que encobre no seu campo; o jornalista cobra dos dois pelo mesmo critério. Nas redes sociais, o jornalista virou “isentão”. Mais uma estratégia para exigir que o jornalista se torne militante. Porém, cada campo cobrará do jornalista não ser isento, ou seja, militar no campo oposto.

Nessa pegada, o comentarista de futebol precisa assumir um clube para cativar os seus torcedores. Jornalismo pode e deve ser mais descontraído, mas não se confunde com entretenimento. A sua meta principal não é fazer rir. E não há mau humor nisso. Há separação. Por enquanto, o entretenimento dá de goleada no jornalismo da internet. Quem não entra no jogo é desqualificado como ultrapassado. Um aspecto curioso diz respeito aos gestores de redes sociais e adjacências, operadores do Google Analítico, que seriam capazes de fazer algo dar certo na internet (dizer internet é considerado simplório). É confundir indexação com promoção. Em geral, serve para dizer o que está bombando ou alvejar um público bem definido. Mas jornalismo não é falar do que está sendo falado nem se contentar com uma tribo. É falar do que ainda ninguém falou e que precisa ser revelado. Nessas combinações quem ganha quase sempre é o gerenciador, que evita as parcerias por resultado, preferindo garantir o seu de modo fixo.

Tudo isso, sem ironia, é importante, mas não é o decisivo. O mais importante continua sendo ter algo novo a dizer. E dizer isso da maneira mais eficaz possível, de preferência leve, porém, sem perder o peso, a profundidade, o significado, o valor, a própria definição.

Jornalismo continua sendo: contar o que alguém gostaria de silenciar; fazer falar do que ninguém estava falando por desconhecimento; descobrir o que alguém tem interesse em manter encoberto; produzir informações de modo profissional, o que custa dinheiro e deve ser pago por alguém (as vaquinhas, mesmo com nome em inglês, não dão conta a partir de certo patamar de cobertura, profissionalização e alcance, restando a publicidade e o cliente para pagar a conta, que sempre chega); produzir diferença substancial.

Jornalismo e internet são incompatíveis? Claro que não. O campo se amplia, oportunidades surgem, cresce a autonomia, viceja o contraponto, mas também as bolhas, a parcialidade e o modelo único do fazer rir, tomar o lugar do fato, dar-se o papel de protagonista.

Jornalistas têm vivido a ilusão de que podem fazer sucesso na internet praticando o que sabem e gostam. Não rola assim. Para muitos, que querem fazer jornalismo sem concessões, é o fim da linha.

De resto, nada contra o entretenimento. O novo tempo exige uma nova linguagem jornalística. Ainda assim, o jornalismo não pode se suicidar. Ele não se resume ao marketing nem à distração. O tempo do formalismo passou. Gol não precisa ser narrado de gravata. Eu mesmo, em meus longos anos de debates esportivos, sempre busquei o tom divertido, a ponto de que meus parceiros de programa me detestavam muitas vezes por não levar o futebol a sério. É só passatempo mesmo.

A nova linguagem jornalística, porém, ainda precisa nascer.

A estética de vídeo sapatênis dos coaches não é suficiente para ir além do caseirismo do que se produz no aconchego dos lares.

Matinal já é uma exceção que poderá fazer história.

Cabe, porém, fazer da internet o lugar natural do jornalismo.

*Jornalista. Escritor. Prof. Universitário.

Fonte:  https://www.matinaljornalismo.com.br/matinal/colunistas-matinal/juremir-machado/jornalismo-e-internet-casam-bem/ 02/08/2023

terça-feira, 1 de agosto de 2023

‘O amor é impossível’: conheça filósofo argentino que defende o fim da busca de relações eternas

Por Gustavo Borges

"El amor es imposible" é o novo livro do filósofo e apresentador Darío Sztajnszrajber
Darío Sztajnszrajber Foto: Paidós

 'O amor é impossível’: conheça filósofo argentino 
que defende o fim da busca de relações eternas'

Para Darío Sztajnszrajber, sociedade pode repensar ideia de perda ao fim de relacionamento se deixar de enxergar pessoas como propriedade; entenda suas ideias em novo livro

Cidade do México, 22 de julho (EFE) - Para o filósofo argentino Darío Sztajnszrajber, a sociedade deve reconsiderar o conceito de perda quando um relacionamento termina, o que é possível se a outra pessoa não for vista como propriedade.

“É preciso repensar a ideia da perda no amor. O que gera dor é o desamor, achar que a outra pessoa me pertence. Se você desarma essa crença, não perde no sentido de perder o que tinha”, disse Sztajnszrajber em entrevista à EFE da Cidade do México.

O escritor e apresentador de televisão lança no México El amor es imposible, um ensaio com oito teses que se propõe a desconstruir conceitos sobre o amor, com propostas filosóficas baseadas em histórias.

Para o filósofo argentino Darío Sztajnszzrajber, a sociedade deve repensar o conceito de perda quando o relacionamento de um casal termina
Para o filósofo argentino Darío Sztajnszzrajber, a sociedade deve repensar o conceito de perda quando o relacionamento de um casal termina Foto: Isaac Esquivel/EFE

“Gosto de fazer filosofia com o corpo. É um livro que fala a partir da filosofia, mas mexe com questões biográficas porque para mim não vale a pena uma filosofia que não comece do lugar mais estremecedor”, disse o autor.

O livro discute a impossibilidade do amor por vários motivos, entre eles: todos os amores são uma cópia do primeiro, o amor é inefável e sempre chega na hora errada, é incalculável e é sempre um desamor.

A metade da laranja

Com base em anos de leitura, diálogos e vivências, a obra de 376 páginas aborda o amor por diversos ângulos, até mesmo a carência, representada por uma teoria repetida em cartões postais e redes sociais: a ideia da outra metade da laranja.

“Se alguém é metade da laranja e sai em busca da outra metade, é porque antes era uma laranja inteira. Então houve algum castigo anterior, um corte. Por isso em meu livro proponho que o amor sempre vem depois do desamor”, explicou.

À maneira de O Jogo da Amarelinha, o canônico romance de Julio Cortázar, El amor es imposible pode ser lido do primeiro capítulo ao último ou com saltos para frente e para trás. Cada seção pertence a uma tese sobre o amor e pode ser tomada separadamente, como nas coletâneas de contos.

“Quem tiver interesse em ler que o amor é impossível porque é incalculável, pode ler essa parte e deixar as outras sete teses para lá. O livro é claro em demonstrar que o amor é impossível, partindo de gatilhos determinantes: o desamor, o destempo, a monogamia, o primeiro amor. O leitor tem a liberdade de escolher”, disse ele.

No meio da escrita de seu livro, Sztajnszrajber sofreu a morte dos pais: foi um golpe que alterou o processo de criação. O escritor tirou o pó das histórias humanas guardadas em sua memória e com base nelas fez filosofia.

Darío defende o conceito de “eu te amo, mas não preciso de você” em um relacionamento, embora aceite que é difícil colocá-lo em prática em uma sociedade que comercializa sentimentos.

“Seria importante se essas questões fossem planejadas. Então, sustentá-las no dia a dia é um processo”.

Abençoados sejam os beijos não dados

Filósofo argentino Darío Sztajnszrajber durante entrevista na Cidade do México
Filósofo argentino Darío Sztajnszrajber durante entrevista na Cidade do México  Foto: Isaac Esquivel/EFE

Sztajnszrajber olha para trás e se vê aos 9 anos de idade, em uma festa de aniversário na frente de uma menina chamada Silvia. É o primeiro amor, inocente, sem beijos, que acabou borrado na névoa do pior dilúvio: a passagem do tempo.

“Se eu a encontrasse hoje, talvez pudéssemos tomar um café e nada mais, porque as histórias não se redimem no futuro. Quando as histórias de amor das crianças alcançam redenção na vida adulta, isso nunca nos satisfaz porque o que motiva e inspira está pendente, não consumado”, disse ele.

O autor diz tudo isso com uma ideia muitas vezes recriada pelos poetas, que consideram abençoados os beijos que nunca foram dados, porque ficaram protegidos pelo mistério do que poderia ter sido.

“É um pouco a lógica do desejo. Quando se consegue o que se deseja, perde-se aquele tipo de ardor do desejo. [O que poderia ter sido] dá um charme porque a característica essencial do amor talvez seja o não consumado. Não esqueçamos que amar é ir em busca de algo que não sabemos o que é”, afirma.

/ TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

 Fonte: https://www.estadao.com.br/cultura/literatura/o-amor-e-impossivel-conheca-filosofo-argentino-que-defende-o-fim-da-busca-de-relacoes-eternas/

O poder da inteligência artificial no cruzamento entre ChatGPT e deepfakes

 Por Magaly Prado*

GPT-3.5 + ChatGPT: An illustrated overview – Dr Alan D. Thompson – Life  Architect

 Foi só a OpenAI lançar em novembro de 2022 o ChatGPT, a versão 3,5 conversacional e acessível a todos — não somente a empresas, como eram as versões anteriores do GPT (Generative Pre-trained Transformer) —, para que os especialistas em comunicação, matemática, computação, lógica, linguística, tecnologia da informação etc. começassem a se preocupar com os danos da inteligência artificial (IA) generativa. Esta se trata de um dos tipos da IA de nível narrow, ou seja, compartimentada e (ainda) limitada.

Apesar do cipoal de opiniões e estudos de pesquisas apresentados sobre a inovação tecnológica baseada em dados inseridos na sociedade das plataformas, até hoje vemos lives em que moderadores perguntam o que é e como funciona o GPT. Vale destacar: por “dados”, devemos considerar informações obtidas de determinado período no passado, com o intuito de prever efeitos no futuro.

Obviamente, internautas que estão a par do que se trata e já experimentaram ao menos uma pergunta ao robô simpático em eterno plantão, torcem o nariz, pois já sabem o básico: querem mais. Eles sabem, inclusive, que somos cada vez mais usados pelas máquinas e constatam que é imprescindível aguçar e explorar ao máximo a intencionalidade face à IA. Como isto é possível? Ao fazer perguntas de elevada qualidade — preferencialmente, advindas de um pensamento crítico — no proveito de se produzir um bom objeto de análise. Ainda, fazê-lo de forma contextualizada, sinalizando para qual finalidade, determinado público etc., de modo a obter respostas mais refinadas em tempo real.

Após a explosão de dados — matéria-prima de uso indiscriminado — nas últimas décadas, sabemos dos potenciais riscos à democracia ocasionados pela IA. A situação seria agravada pela conjuntura de crise da informação, crescente polarização social e política nas bolhas digitais, vigilância em ascensão e falta de proteção a nossos dados. Além disto, que softwares como o ChatGPT — treinados com big data para encontrar padrões estatísticos e determinar pesos e medidas — são perigosamente sofisticados para a superindústria da desinformação é algo pacificado nesta era pós-factual.

Diversidade e desordem informacional

Afinal, este tipo de IA simula e tenta imitar o cérebro humano agregando, inclusive, nossos desvalores. Convenhamos: somos recheados de crenças, discriminações, vieses de confirmação etc. que transpassam automaticamente os dados que são imputados aos algoritmos. Isto, sem contar o próprio viés (com dados incompletos) dos programadores e o da equipe desenvolvedora — muitas vezes formada com diversidade zero (não estou aqui me referindo à importância da diversidade de ideias ou à noção mais contemporânea em ESG/DEI identitária, de diversidade de gênero, étnica e afins, digo ao menos a mínima), fica baseada em dados não representativos da sociedade em questão. Tal problema fica mais evidente, por exemplo, na criação de perguntas essenciais no momento de entrevistar os dados: estas, muitas vezes, seriam impróprias ou insuficientes, por não espelharem as composições das comunidades pesquisadas.

Mas basta perseguir a lógica quando quem pergunta, seja humano ou outro bot, ao produzir um prompt (comando de texto e, de preferência, contexto) solicitando respostas de algo falso que, axiomaticamente, o resultado será igualmente falso. Nesse caso, não se trata de algo fora do alcance da informação, um erro ou alucinação — o que, por vezes, ocorre: é falso mesmo, exatamente de acordo com o que foi solicitado, comando após comando, amplificando a já instalada desordem informacional. Se o pedido ainda requereu o estilo de algum autor em particular, a resposta apresentada pode enganar ainda mais facilmente; afinal, a especificidade linguística melhora a aparência da farsa.

No alto da era algorítmica, em que a ética é apartada, o ChatGPT é configurado com algoritmos de grandes modelos de linguagem (LLM). Estes configuram uma distribuição de probabilidades sobre sequências de símbolos ou palavras, algo que revoluciona o processamento de linguagem natural e aprendizado profundo de máquina para reconhecimento e produção de textos semelhantes aos gerados por humanos, mentirosos ou não. Tal circunstância pode, inclusive, complicar ainda mais a situação quando o sistema entra em modo disruptivo de aprendizado autossupervisionado; ou seja, quando ele passa a aprender consigo mesmo, com elementos de caráter autônomo. Deste modo, a própria máquina nos leva a refletir sobre o estatuto moral dos sistemas de IA — assunto, porém, para outro artigo.

Sobre (des)confiança e deepfakes

Há que se ressaltar a falta de fontes e referências nas respostas dadas pelo ChatGPT, por exemplo: consequentemente, nem dá para checar a veracidade dessas informações digitais, tamanho é o remix. A ferramenta da OpenAI, a rigor, não produz nada genuinamente novo, não segue adiante. Ela apenas faz uma mescla do que já existe na internet para gerar um resumo — de forma mecânica e semiautônoma —, meramente respondendo ao que foi pedido, como se fosse escrito por um ser humano.

Trata-se de um total impedimento de seu uso pelo jornalismo, que credita sistematicamente as fontes das quais são retiradas as informações — especialmente em ambientes digitais, por conta da facilidade quanto à inserção de links para estudos, vídeos etc. Mesmo assim, a crescente desconfiança na imprensa escala com poucas flutuações há cerca de uma década, conforme registrado por pesquisas de Gallup, Edelman e Pew Institute, entre outros. Imagine se os jornalistas usarem o que esses robôs despejam — geralmente, com tom muito assertivo e 100% confiável — para, então, constatarmos que a verdade é muito diferente.

Quando do advento das deepfakes, imaginávamos que elas seriam o auge da desinformação. Afinal, é difícil contestar o vídeo de alguém falando algo ultrajante, que não disse, com imagens e voz produzidas por IA. O motivo: a atratividade e tradição de confiabilidade do relato via mídia audiovisual, que nem todos percebem quando é, digamos, recontextualizada. À semelhança lógica do aprendizado de máquina, existem várias ferramentas criativas como o DALL-E (agora, DALL-E 2) e o Midjourney. Estas produzem imagens mixadas desde criações anteriores a partir de prompts — e já provocam espanto e fascínio há alguns anos.

O AudioLM, por exemplo, trabalha a partir da mesma lógica: basta imputar um trecho de áudio (bruto ou não) para o robô sonoro mapear, clonar e continuar a gerar áudio produzido por um codec de áudio neural. No caso da criação sintética de falas derivadas de vozes humanas, o resultado esperado e, em boa parte, obtido, é sintaticamente correto e semanticamente consistente — e inclui sotaques, ritmos vocais e estilo do ser falante. A tecnologia do AudioLM também permite criar continuações coerentes — e agradáveis ao ouvido humano — para peças musicais, com instrumentos como o piano.

Caos irresistível

Estamos acostumados aos áudios de IA em Alexa, Siri, Jukebox e demais assistentes virtuais do gênero. Obviamente, são diferentes, pois necessitam de trabalho de transcrição e rotulação. No entanto, o uso em internet das coisas (IdC) é vasto e pode ser mais bem estudado quanto à verificação automática de sistemas de speaker. No AudioLM, bastam alguns segundos do áudio no prompt para o modelo de aprendizado de máquina usar processamento de linguagem natural e aprender os padrões do som. Esta possibilidade certamente configura grave ameaça cibernética aos sistemas biométricos de voz. Um adendo: ao contrário do ChatGPT, o AudioLM ainda não foi liberado de forma ampla para uso pelo público em geral.

No entanto, o ChatGPT como gerador de conversas, alucinantes ou não, ganhou outro atrativo na competição pela atenção do usuário. Este novo chamariz possui elementos viciantes e, de quebra, se aprimora com o reforço humano nessa experiência que envolve forte simbologia de caráter mental.

Consideremos por agora, em processos de dataficação, um exemplo que une uma deepfake news tanto de texto, vídeo, foto ou somente de áudio — cuja proliferação é grande em mensageiros instantâneos. Adicione a esta receita caótica uma farta dose da facilidade de produção de textos falaciosos que esses programas de LLM jorram velozmente, aos borbotões. Por fim, acrescente a possibilidade de o texto ser redigido em estilo autoral determinado e temos uma sedução blefante que revela ser a mais consistente — e perigosa — cacofonia informacional.

Resultado: trata-se de um plágio camuflado produzido desde um sistema computacional e a partir de um modelo de machine learning desenvolvido para melhorar a tomada de decisão automatizada por meio de redes neurais artificiais. Este aparato gera, com a lógica conexionista de seu algoritmo, a próxima palavra e, assim, por exposição e sucessivamente, monta uma variação de textos provenientes de uma mistura que, a rigor, pode mesmo não ter critérios definidos quanto à escolha de fontes. No limite, o processo criativo pode até buscar textos inverídicos, conspiratórios — e, ainda, os de teor odioso, que pelo grau de emoção que incitam, influenciam negativamente e aumentam o engajamento em certas redes, também pelo efeito de algoritmos que contribuem para a formação de bolhas.

Sabemos que quando o intento é maximizar interesse e relevância — seja qual e como for — para engajar, nada impede ações nessa sociedade pós-verdadeira em que vivemos. Um medo que impera diz respeito a como, entre uma variedade de tarefas linguísticas, as ferramentas algorítmicas aprendem habilidades para as quais não foram treinadas e que podem ficar fora do controle de seus programadores humanos pela dificuldade em fazer a engenharia reversa.

É importante considerar que o ChatGPT e tecnologias similares, como o Bard, do Google, são engenhos poderosos. Não são, meramente, ferramentas informativas; são, de fato, instrumentos criativos. Por isso, são necessárias reflexões e auditorias constantes nesses modelos de linguagem de IA generativa, de modo que possamos regularmente averiguar possíveis falhas éticas embutidas desde sua estrutura e até suas criações.

Afinal, os dados com que a IA trabalha são, em muitos casos, extraídos da própria internet, acarretando possíveis deformidades intencionais, como ocorrências tendenciosas de todo o leque de desinformação e toxicidade. Isto inclui, ainda, narrativas extremistas de todo tipo e seu subsequente uso nocivo por pessoas imprudentes — ou, pior, de má índole —, alimentando erros e espalhando parâmetros que passam a integrar o próprio algoritmo de nossos pensamentos.

* Pesquisadora na Cátedra Oscar Sala, do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP

Fonte:  https://jornal.usp.br/artigos/o-poder-da-inteligencia-artificial-no-cruzamento-entre-chatgpt-e-deepfakes/ 01/08/2023 - Imagem da Internet

Barbie – três ensaios de plástico

 Por ARI MARCELO SOLON, ALEXANDRE DE LIMA CASTRO TRANJAN & EBERVAL GADELHA FIGUEIREDO JR.*

Imagem: Ann H
Barbie é um filme ruim. Os únicos bons filmes são os soviéticos. 
Mas na Barbie há mais teoria jurídica
 do que numa aula de faculdade

Recentemente estreou o filme que marcou o movimento da indústria cinematográfica deste ano. Como no capitalismo neoliberal, a essência das coisas é o esvanecimento rápido, cremos que em breve a cor rosa e as discussões sobre o filme se tornarão absolutamente insuportáveis. Antes que isso aconteça, deixamos nossa reflexão, dividida em três ensaios, sobre este tempo histórico (julho/agosto de 2023).

I’m a Barbie girl, in a Barbie world

Barbie é um filme ruim. Os únicos bons filmes são os soviéticos. Mas na Barbie há mais teoria jurídica do que numa aula de faculdade. A obra traz a oposição entre o matriarcado e o patriarcado, conforme a Escola histórica. Há nela a oposição entre o arquétipo da mãe (animus) e o do pai (persona) que Jung tirou de Savigny.

Surpreendentemente, nele se discute o fim último da história segundo Hegel. Ele é soviético, americano ou japonês? Infelizmente, e talvez o filme esteja certo sobre isso, seria o modo de vida americano, em vez da sovietização. No capítulo IV da Fenomenologia do espírito, o fim da história consiste na mudança da consciência dos animais para os seres humanos. Na Barbieland, eles se tornaram humanos, mas não cidadãos. São pessoas estereotipadas. Isso não é Hegel, é uma má interpretação. É verdade que Hegel dizia que judeus eram incapazes de fazer tragédia. Mas eles são capazes de fazer comédia?

Agora, um spoiler: a mãe da Barbie, Ruth Handler, aparece no final do filme. Rindo, ela diz algo como “eu sou sua mãe, aquela que sonega impostos. Agora vá realizar seu sonho”. Na última cena do filme, Barbie vai para um escritório em Los Angeles. Não sabemos o porquê, mas ela diz “Eu sou Barbara Handler”. Mostram a placa do consultório, uma clínica de ginecologia. Como eu disse, um filme ruim e uma comédia ruim.

(Ari Marcelo Solon)

Life is plastic, it’s fantastic!

Escrevo de um hotel na Faria Lima. Carros assustadoramente grandes e excessivamente bem motorizados passam fazendo seu estrondo. Leio num blog que o barulho do motor é especialmente apreciado entre entusiastas, que amam carros potentes, mas preferem um mais barulhento a um mais potente, talvez porque mais valha a impressão de potência do que a potência em si. Aqui nas redondezas, parece que tudo é mais acelerado.

A arquitetura me oferece conforto suficiente para descansar, mas de alguma forma me faz sentir uma urgência para o trabalho. Tudo é veloz, e não falo só dos carros, nem dos aditivos que alguns dos encoletados apreciam, pelo que ouvi por aí. Deviam estar falando de aditivos para os carros, claro. Aqui giram as engrenagens do motor da acumulação pós-fordista do trópico de capricórnio.

No saguão, um desconforto ocular me acomete. Tudo é cor-de-rosa. Dos números dos quartos aos letreiros em neon com frases motivacionais. Há um elevador felpudo, todo rosa também. Campanha para o filme da Barbie misturada com identidade visual do hotel. Levo um tempo pensando se o estabelecimento paga à distribuidora pelos direitos de imagem ou se a companhia paga o hotel pela campanha de marketing. Deus do céu, quem pagaria para fazer propaganda de um produto? Olho para o espelho, única região não felpuda do elevador, e vejo o logo da Adidas no meu moletom.

De um jeito ou de outro, a campanha global de divulgação funcionou. Meus vinte reais se somaram ao que, à altura da publicação deste texto, já deve ter ultrapassado um bilhão de dólares. O mundo viu a boneca encarnar em Margot Robbie, e se deslumbrou com a brilhante direção de Greta Gerwig. Há um quê de autodepreciação no roteiro da obra, no que diz respeito à máquina produtiva que a concebeu. Claro, nada perto de falar contra o capitalismo.

Mas dizer que liberdade de expressão não deve se estender a grupos econômicos, sob pena de transformar a democracia (burguesa) em plutocracia (já o é), isso eles podem. Evidentemente, a crítica mais radical trazida pelo filme se destina ao patriarcado. Como pode uma máquina social que concebeu a divisão sexual do trabalho como conhecemos hoje, ao mesmo tempo produzir arte feminista, que debocha de seus CEOs, CFOs, CTOs, COOs ou sabe lá deus que outras siglas em inglês vão inventar para seus cargos?

Penso que o filme mais comercial do ano só pode ser crítico de algumas das facetas do capitalismo na medida em que a ideologia limita a si mesma como mecanismo dialético de estabelecimento máximo de seu poder. Se a libido paradoxalmente maximiza o gozo ao limitá-lo – como diria Tom Cruise em Vanilla Sky, “I’m a pleasure delayer” –, parece que é assim o fenômeno da ideologia. Ao abarcar críticas pontuais dentro do sistema, o que se opera é a forclusão da possibilidade de críticas radicais ao sistema. “Não odeie o capitalismo, nós também sabemos que há umas coisas meio ruins e que o castelo cor-de-rosa não existe. Mas nossa realidade é melhor que a sua fantasia comunista”.

Paro de devanear, saio do quarto e pego o elevador felpudo para tomar um café preto na padaria. No caminho, dezenas de homens vestindo camisas em azul claro caminham em bloco. Além dos trajes, seus cabelos, trejeitos e, mais importante, seus assuntos são padronizados. No meio dessa massa pasteurizada, tenho certeza de que cada um se acha especial, único, dotado de um pensamento independente. Ideológicos somos nós, claro.

Ao primeiro gole de café, amargo como a verdade, o descontentamento se esvai. Começo a gargalhar deles, de mim, do mundo. What a time to be alive.

(Alexandre de Lima Castro Tranjan)

You can brush my hair and take me everywhere

Barbie (2023) é um filme com fortes subtextos xamânicos. A princípio, essa afirmação pode parecer bastante estranha, mas uma análise cuidadosa do filme revela que a ontologia pressuposta por seu enredo pode muito bem ser descrita como “xamânico-platônica”. Há dois mundos metafisicamente distintos, o Mundo Real, no qual vivem os humanos, e a Barbielândia, habitada por representações fantasiosas de bonecas, ideias perfeitas e imortais (o princípio estético da “artificialidade autêntica” invocado pela própria diretora Greta Gerwig fortalece, tematicamente, a natureza lúdica e etérea da Barbielândia).

Esses dois mundos influenciam-se mutuamente, e a barreira entre eles não é intransponível. Alguns indivíduos são mais suscetíveis aos efeitos de eventos do outro mundo, e por isso são capazes de atuar como intermediários, a exemplo do que ocorre com a personagem Barbie Estranha. Ao ter seu corpo e alma desfigurados pelas brincadeiras impetuosas de crianças no Mundo Real, Barbie Estranha torna-se particularmente suscetível às forças de fora da Barbielândia, criando assim uma afinidade especial com o mundo humano.

Ela passa a ser uma estranha em seu próprio mundo, vivendo às margens dele. As demais barbies não a consideram completamente uma das suas, mas ao mesmo tempo, é a ela que recorrem sempre que enfrentam problemas relativos ao Mundo Real.Em outras palavras, Barbie Estranha é uma xamã, emissária e intérprete entre dois mundos radicalmente diferentes. Pode-se dizer que ela é acometida daquilo que Platão chama de theia mania (θεία μανία), “loucura divina”. Ela se assemelha, de certa forma, aos heyókȟa das culturas indígenas norte-americanas das Grandes Planícies, “palhaços” que, após terem vislumbrado os Wakíŋyaŋ (“Seres Trovejantes”), adquirem uma sabedoria ensandecida que os permite violar convenções sociais e suscitar reflexões profundas (WIN, 2011).

Similarmente, apesar de relegada às margens, ou talvez justo por causa disso, Barbie Estranha goza de prerrogativas exclusivas no mundo plástico e fantástico da Barbielândia, onde todas as demais devem ser sempre perfeitas e sublimes. Assim, a primeira aparição da personagem é um prelúdio da linha de fuga em relação a esse status quo no fim do filme, quando a personagem de America Ferrera sugere aos executivos da Mattel a criação de uma barbie que não se propõe a representar expectativas de performance irreal.

Em Oppenheimer (2023), o outro grande blockbuster de inverno (no hemisfério sul) de 2023, notoriamente estreando no mesmo dia em que Barbie, há mais de uma menção ao Bhagavad Gita, um importante texto sagrado do hinduísmo, religião pela qual J. Robert Oppenheimer nutria grande fascinação. Já em Barbie, por óbvio, não há qualquer menção ao Bhagavad Gita, mas bem que poderia haver alguma a outra obra, ainda mais antiga, do cânone literário indiano: o Rigveda. Datada de uma época em que o epicentro da civilização indiana ainda eram as margens do rio Indo, e não as do Ganges, a literatura rigvédica remonta às migrações indoarianas ao Subcontinente.

Evidências arqueológicas e textuais indicam que o cavalo ocupava um papel central na vida dos indoarianos do período védico, assim como em outras sociedades nindoeuropeias arcaicas, de caráter equestre (REDDY, 2006: 93). Além de equestres, há quem diga que tais sociedades eram também marcadamente patriarcais, tendo suplantado os matriarcados neolíticos pré-indoeuropeus em sua expansão movida por um ethos marcial implacável (ANTHONY, 1995). Talvez não seja por puro acaso que o deuteragonista masculino de Barbie, interpretado por Ryan Gosling, comicamente entenda o patriarcado como um governo de homens e cavalos.

De fato, o arco do personagem Ken pode ser encaixado na categoria de narrativas etiológicas sobre a ascensão da sociedade patriarcal às custas de um matriarcado primitivo. Uma das instâncias mais explícitas desse tropo encontra-se na cultura dos selk’nam, habitantes das ilhas da Terra do Fogo. Na cerimônia iniciática do Hain, os meninos selk’nam tornavam-se homens, conhecedores da verdadeira origem mitológica da cerimônia: em um passado mítico, as mulheres governavam os homens sem misericórdia, obrigando-os a fazer todos os trabalhos, desde a caça até as tarefas domésticas.

Enquanto seus maridos ocupavam-se de tudo, as mulheres reuniam-se em uma cabana cerimonial onde a presença masculina era estritamente proibida. Lá, a Lua, mais formidável entre as mulheres, determinou que cada uma delas deveria personificar um espírito, fazendo uso de pinturas corporais e máscaras, de modo a maravilhar e aterrorizar os homens, aprofundando-lhes a subjugação. Um dia, no entanto, o Sol, marido da Lua, ouviu os comentários jocosos e incriminadores das mulheres, expondo a conspiração feminina. Revoltados, os homens invadiram a cabana cerimonial do Hain e exterminaram todas as mulheres iniciadas, conhecedoras do segredo.

Desde então, o Sol persegue a Lua pelos céus, e os homens apropriaram-se da cerimônia do Hain, instaurando um regime de dominação patriarcal análogo àquele das mulheres dos tempos míticos (CHAPMAN, 1972: 198-200). O mito etiológico selk’nam sobre as origens do Hain e da hegemonia masculina exibe paralelismo inegável para com o enredo de Barbie, no qual Ken, após descobrir o patriarcado do Mundo Real, decide instaurar o mesmo regime na Barbielândia, invertendo os papéis sociais de homens e mulheres, ou, para ser mais acurado, kens e barbies (que, por serem imagens numênicas de brinquedos infantis, não podem ser considerados homens ou mulheres stricto sensu).

Muito se engana quem pensa que esse tipo de narrativa se encontra restrito à literatura arqueológica, a mitologias indígenas obscuras e a filmes sobre bonecas. O tema também se faz presente entre membros de determinadas facções político-ideológicas, em especial a direita masculinista. O melhor exemplo disso é a obra Bronze Age Mindset (2018), cujo autor, sob o pseudônimo de Bronze Age Pervert, ou BAP, tenta desconstruir os ideais igualitários da sociedade pós-iluminista, com sua releitura de Nietzsche à luz de valores homéricos.

Para Bronze Age Pervert, os ideais igualitários de nossos dias consistiriam, na verdade, em um atavismo, resquício de sociedades matriarcais pré-indoeuropeias, cuja principal instituição ele chama de Longhouse (casa comunal ou, mais literalmente, casa longa). Nas coletividades pautadas pela Longhouse, o potencial viril heroico estaria para sempre destinado à latência, pois os fortes e sãos seriam governados pelos fracos e escleróticos, e os homens, pelas matriarcas (PERVERT, 2018: 48).

A noção de que a vida comunal igualitária é avessa a ideais de virilidade heroica evidentemente não se sustenta. O próprio conceito de Longhouse apropriado pelo autor tem sua origem na cultura dos iroqueses, cujo nome para si mesmos, Haudenosaunee, pode ser traduzido como “Povo da Casa Longa”. A casa comunal pode ser considerada a principal instituição dos povos iroqueses, e de fato, as mulheres iroquesas possuíam poder político bastante notável, podendo inclusive nomear e depor chefes (RANDLE, 1951: 171), mas o heroísmo guerreiro viril também fazia parte da vida dos iroqueses.

As próprias mulheres valorizavam a coragem em batalha como uma virtude masculina, levando isso em conta na escolha de seus parceiros (RICHTER, 1983: 530). Fica claro que BAP tenta estabelecer uma dicotomia conceitual entre sociedades “iroquesas”, matriarcais e coletivistas, e “indoeuropeias”, patriarcais e individualistas, afirmando que é apenas no segundo tipo de sociedade que as “virtudes masculinas” podem desenvolver-se com plenitude. Trata-se, no entanto, de uma interpretação antropologicamente infundada.

(Eberval Gadelha Figueiredo Jr.)

*Ari Marcelo Solon é professor da Faculdade de Direito da USP. Autor, entre outros, livros, de Caminhos da filosofia e da ciência do direito: conexão alemã no devir da justiça (Prismas).

*Alexandre de Lima Castro Tranjan é doutorando em Filosofia e Teoria Geral do Direito na USP.

*Eberval Gadelha Figueiredo Jr. é bacharel em Direito pela USP.

Referências


WIN, Wambli Sina. Heyoka: a man taller than his shadow. Native Times, 2011. Disponível em: https://nativetimes.com/index.php/life/commentary/5149-heyoka-a-man-taller-than-his-shadow.

REDDY, Krishna. Indian History. Tata McGraw-Hill Education, 2006.

Anthony, David. Nazi and eco-feminist prehistories: ideology and empiricism in Indo-European archaeology. Nationalism, politics, and the practice of archaeology. Cambridge: Cambridge University Press, 1995.

CHAPMAN, Anne. Fin de Um Mundo: los Selknam de Tierra del Fuego. Ushuaia: Zaguer & Urruty Publications, 1972.

PERVERT, Bronze Age. Bronze Age Mindset. Online: Amazon Publishing, 2018.

RANDLE, Martha C. Iroquois Women, Then and Now. In Symposium on Local Diversity

in Iroquois Culture. William N. Fenton, editor. Bureau of American Ethnology Bulletin #149. Washington, 167-80. 1951.

RICHTER, Daniel . “War and Culture: The Iroquois Experience”. The William and Mary Quarterly. 40 (4): 528–559. 1983. doi:10.2307/1921807.JSTOR1921807.

Fonte:  https://aterraeredonda.com.br/barbie-tres-ensaios-de-plastico/?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=novas_publicacoes&utm_term=2023-08-01

Quando a decisão afeta todo mundo, ela deve ficar em mãos humanas

Paulo Fernando Silvestre Jr.*

Metrô de São Paulo lotado após fracasso de "big techs" que revolucionariam a mobilidade urbana -
Metrô de São Paulo lotado após fracasso de "big techs" que revolucionariam a mobilidade urbana - Foto: Wilfredor / Creative Commons

Em uma das cenas mais emblemáticas da animação WALL-E (2008), o comandante McCrea luta contra o piloto automático da futurista nave Axiom, cuja inteligência artificial havia decidido que permanecer vagando indefinidamente pelo espaço seria o melhor para seus passageiros. Já o comandante entendia que deveriam voltar à Terra depois de sete séculos, para repovoar o planeta.

Temos muito a aprender com essa cena. Dados nos ajudam enormemente a tomar boas decisões, mas eles não são suficientes. Em muitos casos, a melhor escolha depende do uso de nossas emoções, de nossa humanidade.

A inteligência artificial se baseia em padrões passados para traçar estratégias inéditas, mas ela é incapaz de alterá-los. Por isso, o piloto automático estava disposto até a liquidar seu comandante, pois trabalhava com a informação e uma diretiva de que a Terra era um local insalubre, da época em que a Axiom iniciou sua jornada. McCrea, por sua vez, diante de evidência de que o planeta teria se revitalizado, decidiu que valia a pena arriscar o regresso.

A presença da inteligência artificial vem crescendo geometricamente em nossas vidas. Muitas empresas buscam o desenvolvimento da “inteligência artificial geral”, aquela que não se limitará a desempenhar uma função específica, sendo capaz de “pensar livremente” sobre qualquer tema, como a mente humana. Seus gestores tentam convencer governantes e a população de vários países que esses sistemas seriam a melhor opção para melhorar a vida, “corrigindo imperfeições” de componentes da sociedade, como serviços públicos e instituições.

Se isso se concretizar, correremos sério risco de ver máquinas tomando decisões ruins, apesar de fundamentadas em informações corretas, a exemplo do piloto automático da Axiom. Quando uma escolha afeta a vida de todo mundo, é necessário muito mais que dados: precisamos de sentimentos e de subjetividade, para ver além da frieza dos algoritmos.

Vale lembrar que, na mesma animação, a Terra se tornou um lugar insalubre graças ao consumo desenfreado a partir de campanhas da megacorporação Buy-n-Large, que, em nome de “vender mais para fazer o bem a todos”, provavelmente foram criadas por algoritmos. Devemos evitar ao máximo que uma empresa tão poderosa assim exista, apesar de já termos várias candidatas ao cargo entre as gigantes de tecnologia.

Que fique claro: não combato a inteligência artificial! Pelo contrário, sou um entusiasta da tecnologia, que abre incríveis possibilidades para a humanidade nas mais diversas áreas. Apenas não podemos entregar todas as nossas decisões a máquinas.

Em outro contexto, mas perfeitamente aplicável aqui, o suíço Carl Jung, fundador da psicologia analítica, disse: “conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana.” Por isso, nossa crescente colaboração com as máquinas rende incríveis frutos, mas precisamos continuar controlando o timão da vida com nossa humanidade. 

* LinkedIn Top Voice e Creator, Mestre em Tecnologias da Inteligência e Design Digital, consultor de customer experience, mídia, cultura, reputação e transformação digital, professor, jornalista. @paulosilvestre

Fonte: https://www.linkedin.com/pulse/quando-decis%C3%A3o-afeta-todo-mundo-ela-deve-ficar-em-silvestre-jr-/?midToken=AQFbUYvKl-iOFQ&midSig=3EQDpHziH_1aU1&trk=eml-email_series_follow_newsletter_01-newsletter_hero_banner-0-open_on_linkedin_cta&trkEmail=eml-email_series_follow_newsletter_01-newsletter_hero_banner-0-open_on_linkedin_cta-null-1t0jv2~lkshiq72~r1-null-null&eid=1t0jv2-lkshiq72-r1

A ponte

 Por JOSÉ FABIO RODRIGUES MACIEL*

Imagem: Burak

A primeira vez que a desilusão se fez presente de forma intensa durante a aula foi quando uma moça discordou, de forma desrespeitosa, de uma colocação sua sobre religiosidade

“Viver sob este céu sufocante nos obriga a sair ou ficar. A questão é saber como se sai, no primeiro caso, e por que se fica, no segundo” (Albert Camus, O mito de Sísifo).

Era um dia chuvoso e escuro. Fazia frio além do normal para aquela época do ano. Ele saiu de casa com roupa social e de sapatos, municiado de um guarda-chuva grande e preto, o que não impediu suas meias de ficarem molhadas. Pelo visto o calçado que estava utilizando não era impermeável.

Antonio tinha um destino certo em sua mente turva: a ponte dos Remédios. Estava em busca da cura definitiva para a sua vida.

Até aquele momento ganhava o pão de cada dia como professor de filosofia em uma faculdade de terceira linha. Ficava perto do centro da cidade e recebia alunos principalmente dos bairros periféricos. Seu sentimento era que ludibriava, na maioria das vezes, esses meninos e meninas esperançosos, muitos dos quais gastavam quase todo o salário para pagar a mensalidade do curso.

Cada vez mais aumentava sua percepção de que não conseguia transmitir com adequada didática o conhecimento acumulado durante as mais de duas décadas de estudo sobre o tema. A impressão era que alguns alunos fingiam gostar dele, enquanto a maioria não demonstrava o menor interesse nos estudos que tinha sido até ali seu objetivo de vida, estudos pelo qual era apaixonado.

A decepção com a carreira de professor aumentava a cada dia, e diversos eram os motivos: salário reduzido, aumento de carga de trabalho administrativo, patrulhamento ideológico, desinteresse que não é mais nem dissimulado pelos alunos…. Antonio queria de alguma forma provar o valor daquilo que havia estudado com afinco e sem parar desde o fim de sua adolescência. Encasquetou que um filósofo como ele, para ser estimado, tem de pregar com o próprio exemplo. Estava com isso na cabeça quando saiu de casa naquela manhã chuvosa.

Em sala de aula, mesmo quando abordava as obras de filósofos como Nietzsche, achava sempre um jeito de apregoar enorme apego à vida. Tinha a percepção de que o papel a ser exercido pelo ser humano, nascido em um mundo absurdo, era o de ter consciência da sua vida, da sua revolta e da sua liberdade. Além disso, em sendo a vida um absurdo ela nem precisa ter um sentido para ser vivida.

No começo da carreira é quase certo que influenciou, com seus ensinamentos, alguns meninos e mais as meninas, que avançavam com o feminismo em revolta contra o sistema, buscando a defesa de uma vida cada vez mais livre do jugo masculino. Deve ter produzido alguns bons revolucionários e ótimas revolucionárias durante seus primeiros anos como professor.

Esse breve êxito embaçou seus olhos e deixou de perceber a transformação que ocorria bem embaixo de seu nariz. Teve a audácia de prever que as meninas seriam as principais responsáveis pela transformação da sociedade desigual em uma igualitária em todos os aspectos. Chegou a colocar essa responsabilidade sobre os ombros delas em seus discursos empolgados de final de semestre, cujas previsões nunca se concretizaram. Quando percebeu a nova realidade dos alunos e das alunas que recebia a cada semestre já era tarde.

A primeira vez que a desilusão se fez presente de forma intensa durante a aula foi quando uma moça discordou, de forma desrespeitosa, de uma colocação sua sobre religiosidade. Ela levou para o lado pessoal um posicionamento de Marx, como se o próprio professor tivesse formulado aquelas frases que constavam no texto indicado para leitura. Em outro momento o questionado foi Weber. A gota d’água que fez ele perceber a mudança radical em seus alunos foi quando começaram a citar em aula um astrólogo charlatão como se fosse o suprassumo da Filosofia. Tamanho choque o fez abrir os olhos para a triste realidade que se apresentava em sala de aula. Naquele momento sentiu que estava pregando para surdos!

Triste realidade, mas parte de seus alunos, em algum momento, transformaram-se em discípulos do pentateuco. Ao juntarem-se aos que eram adeptos do neoliberalismo excludente, juntos, pensavam mais em atacar as ciências do que aprender com os clássicos. E a filosofia foi alçada à condição de grande inimiga desses novos quase estudantes. Estar em sala de aula e enfrentar diariamente a ignomínia de grande parte dos alunos, nitidamente influenciados por políticos de poucos escrúpulos, começou a abalar seriamente a sanidade de Antonio.

Quando chegava em casa, depois de uma desmotivante jornada de aulas, demorava para dormir e muitas vezes só o álcool permitia certo descanso, interrompido por pesadelos que tinham sempre roteiros semelhantes: estava na aula e sentia forte dor de cabeça. Em seguida percebia que seu cérebro começava a ser devorado por zumbis vestidos de amarelo, enquanto todos seus livros eram atirados pelos estudantes em uma grande fogueira no centro da sala.

Seus dias estavam a cada dia mais insuportáveis. Ia se arrastando para a faculdade e voltava esgotado, como se tivessem sugado sua alma durante o tempo que lá permanecia. Nem com os colegas de trabalho conseguia se relacionar mais. Em vez de questionar se continuar no ofício de ministrar aulas valia a pena, passou a duvidar de sua capacidade como professor e estudioso.

De tanto se questionar, em uma tarde de verão veio a curiosidade pelas pessoas que provocam a morte por considerarem que a vida não vale a pena de viver. Inicialmente desprezou essas pessoas. Para ele gloriosos são os que morrem pelas ideias (ou ilusões) que lhes dão uma razão de viver e, ao mesmo tempo, a mesma razão para morrer.

Como não conseguia mais conversar nem com os colegas professores, voltou a fumar. A caminhada que fazia até a rua, os carros passando, os jovens conversando e as baforadas pausadas que se dispunha a dar funcionavam como anestesia para seus sentimentos sombrios de agora.

A filosofia tinha ensinado que viver não é e nunca será fácil, mas ir ao extremo de suprimir a própria vida em nome de uma causa não seria o mesmo que sucumbir à luta? Com esses pensamentos aproximava-se da ponte dos Remédios. Parece absurdo querer continuar uma vida tranquila, pacata, fingindo que o que presencia em sala de aula não é importante. A surrealidade a que foi alçado lhe deu a certeza da proximidade de uma existência distópica, sem sentido. Tudo lhe parecia absurdo, incongruente, incoerente, ilógico, estranho, bizarro, esquisito, kafkiano.

O que vem a ser a morte? Temê-la nada mais é do que parecer ter sabedoria, não tendo. Quem sabe se ela não é o maior de todos os bens para aquele que dela abdica? Impossível saber sem que se tenha a experiência da morte. E só morrendo se adquire essa experiência.

De novo voltou a pensar que a vida é um absurdo e exatamente por isso não precisa ter um sentido para ser vivida. Basta que seja utilizada para contemplar o próprio absurdo de nossa existência. E ao relembrar sua trajetória só divisou um futuro certo: revoltar-se contra o absurdo.

Antonio estava revoltado, pensando incongruentemente na antecipação da morte, o que seria uma renúncia em oposição à consciência e à revolta. Teve a certeza de que a aceitação do absurdo em seu limite máximo é tudo, mas ficou em dúvida se era de fato revolta.

Opondo racionalidade e irracionalidade começou a subir aqueles degraus laterais da ponte, que rangiam bem baixinho a cada passo que dava. Quanto mais avançava algo dentro dele retrocedia.

Podia ter escolhido uma profissão técnica; optou pela racionalização máxima da filosofia. Eram tantos devaneios a mexer com seus sentidos naquele momento que o vazio do conhecimento a ser adquirido dificultava a sinapse de seus neurônios. Estava com frio. O sangue quente devia ter esfriado ao acompanhar suas pretensões de transformar o mundo que minguavam dia a dia.

Quanto mais degraus escalava mais perceptível surgia a lâmina d’água cinza e malcheirosa do rio Tietê. O vento era frio e cortante, fazendo diminuir seus passos enquanto segurava com força o guarda-chuva para que não saísse voando. Chegou ao fim da escadaria e passou a caminhar lentamente ao lado do peitoral da ponte. Fechou o que o protegia das gotas que continuavam a cair e não percebeu quando a água começou a escorrer pelos seus cabelos em direção ao pescoço, que de tão frio não demonstrava mais pulsação.

Uma calma enorme dele tomou conta quando chegou ao centro do rio, que ficava abaixo da metade daquela ponte. Fechou bem o guarda-chuva, apontou-o para o rio e deixou que caísse… Foram alguns segundos de queda antes que fosse engolido pela correnteza perceptível, que trazia vários objetos descartados em muitos pontos da cidade. Nem o barulho dos carros que não paravam de passar foi suficiente para que deixasse de ouvir o contato do objeto atirado com a água. Aquele som o fez estremecer e sentiu uma ponta de inveja da água que tudo absorvia.

Abriu os braços e reclinou a cabeça para trás, sentindo que a chuva lavava sua alma e o livrava de todas as aflições. Não se conteve e chorou. Foi quando sentiu que seus pés estavam molhados e gelados. Algo se prenunciava naquele momento. E o absurdo aconteceu!

*José Fabio Rodrigues Maciel é mestre em direito pela PUC-SP. Autor, entre outros livros, de Manual de história do direito (Saraiva Jur).

Fonte:  https://aterraeredonda.com.br/a-ponte/?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=novas_publicacoes&utm_term=2023-08-01