quarta-feira, 27 de outubro de 2021

“Vivemos uma crise de justiça”, diz Mary Robinso

 Mary Robinson: Existe intercorrelação entre injustiça de gênero, racial, pobreza e social, que a covid tornou evidente — Foto: Victor Boyko/Getty Images

Mary Robinson: Existe intercorrelação entre injustiça de gênero, racial, pobreza e social, que a covid tornou evidente — Foto: Victor Boyko/Getty Images

Ex-presidente da Irlanda defende mudança por meio de atuação coletiva, gestão, ciência e compaixão

Por Daniela Chiaretti — De Berlim

26/10/2021

A pandemia ensinou ao menos quatro lições à comunidade global - que o comportamento coletivo faz diferença, assim como a gestão dos governos, a ciência e a compaixão. Esses aprendizados podem ser aplicados para combater a crise climática, na visão da primeira mulher a presidir a Irlanda, Mary Robinson. “Precisamos ouvir os cientistas climáticos  exatamente da mesma maneira e com exatamente a mesma seriedade”, diz ela.

Robinson é tida como uma política transformadora na Irlanda, identificada com a luta pelos direitos humanos, políticas de gênero, combate ao racismo e à desigualdade. Há alguns anos adicionou a justiça climática no cardápio.

“Digo com humildade que cheguei tarde ao tema climático”, reconhece. “Agora não consigo falar em mudança do clima, não parece suficiente. Falo só em emergência climática e justiça climática. Vivemos uma crise, e é uma crise de justiça”, disse ela em entrevista exclusiva ao Valor.

“Justiça Climática” é o nome do livro de depoimentos que publicou em 2018 e será lançado em webinar no dia 28. A edição em português, pela editora Civilização Brasileira, é resultado de uma parceria entre o Instituto Alana e a rede de advogados da Laclima com apoio do Instituto Clima e Sociedade (iCS) e do Consulado da Irlanda em São Paulo.

Advogada, Robinson foi Alta Comissária dos Direitos Humanos entre 1990 e 1997. Preside o The Elders - Os Anciãos -, grupo que atua em direitos humanos, justiça, paz e clima e tem como membros o ex-secretário geral da ONU Ban Ki-Moon e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Há poucos dias emitiram uma declaração curta, forte e objetiva para os governos que se reúnem no G-20 e na COP do clima, em seguida: é preciso distribuir melhor os recursos do financiamento climático. A seguir, os principais trechos da entrevista:

Valor: Na introdução do livro a senhora traça um paralelo do que podemos aprender com a pandemia e usar na crise climática.

Mary Robinson: A pandemia tem sido devastadora. Está exacerbando todas as desigualdades. Os impactos não são iguais nas diferentes partes do mundo. Tem sido muito pior para as regiões mais pobres do planeta e as regiões mais pobres dos países. E porque o mundo inteiro foi afetado, há lições que podemos aprender com a covid.

Valor: Quais seriam?

Robinson: Creio que há quatro lições que podemos tirar deste período. A primeira é que o comportamento humano coletivo pode fazer diferença, porque foi isso que nos protegeu antes de termos as vacinas. A estratégia de ter distanciamento social, de lavar as mãos, de usar máscaras. Tudo isso foi novo para todos e todos tendo estes cuidados nos protegeu, até certo ponto. E aí vieram as vacinas.

Valor: E o segundo aprendizado?

Robinson: O segundo ponto é que governos importam. Podemos ver isso nos países que conseguiram manejar bem a pandemia. Estou feliz em dizer que um número grande de países que enfrentaram bem a pandemia era liderado por mulheres - Jacinda Ardern [primeira-ministra da Nova Zelândia], Angela Merkel na Alemanha teve problemas, mas conseguiu enfrentá-los bem; na Noruega [liderada pela primeira-ministra Erna Solberg], na Dinamarca [liderada pela primeira-ministra Mette Frederiksen], na Islândia [chefiada pela primeira-ministra Katrín Jakobsdóttir]. Elas levaram a sério suas responsabilidades e tiveram melhores resultados que outros países. Em Bermuda, em Taiwan, a mesma coisa. Governança faz diferença.

“Não havia muita empatia sobre o clima quando só os países mais pobres estavam sofrendo”

Valor: Qual foi a terceira lição da pandemia?

Robinson: Que a ciência faz muita diferença. É notável a forma como os cientistas cooperaram e trabalharam para obter as vacinas. Não pensávamos que poderíamos ter uma única vacina em curto prazo. Em vez disso, obtivemos várias vacinas diferentes em várias partes do mundo. Se se olhar para a realidade da covid, víamos políticos lado a lado em coletivas à imprensa todos os dias, porque seus ministros e representantes do governo precisavam seguir o que dizia a ciência da saúde se quisessem enfrentar a covid, e saber quando reabrir os países e cidades, e não fazer isso cedo demais. Precisamos ouvir os cientistas climáticos exatamente da  mesma maneira e com exatamente a mesma seriedade.

Valor: E o quarto aprendizado?

Robinson: É mais sutil, mas muito importante: a compaixão faz diferença. Eu vi em tantos países, e pessoas me contaram - porque todos foram afetados, as pessoas se tornaram mais conscientes dos que mais sofreram em seus países. Então houve apoio a comunidades, campanhas de distribuição de alimentos, as pessoas falavam de que era preciso ajudar os mais afetados. Esta é a empatia que vem do sofrimento. Não havia muita empatia sobre o clima quando só os países mais pobres estavam sofrendo. Lamento, mas quando eu falava de justiça climática, não estavam muito interessados. Agora que os impactos atingiram fortemente o hemisfério Norte, está se começando a ter empatia com a questão do clima também. Empatia e solidariedade são muito importantes e é o que o mundo precisa.

Valor: Quando a sra. começou a pensar em justiça climática?

Robinson: Falo com bastante humildade quando reconheço como me atrasei em me dar conta dos impactos da mudança do clima. Quando fui presidente da Irlanda, de 1990 a 1997, fiz alguns discursos sobre o ambiente, mas eu não conectava com o clima. Não era um tema no meu país e não era um tema para mim.

Valor: A senhora esteve na Rio 92, em 1992?

Robinson: Não, mas acompanhei a conferência de perto. Mas eu estava mais ligada ao aspecto ambiental da conferência do que do clima. Quando me tornei Alta Comissária para os Direitos Humanos da ONU [de 1997 a 2002] comecei a pensar na importância da mudança do clima, mas com um interesse científico e técnico. Não via a conexão com os direitos humanos. Comecei a trabalhar depois na pequena organização que fundei, a Realizing Rights [criada em 2002 com foco em novas alianças de direitos humanos e igualdade de gênero nos esforços para enfrentar os desafios globais] e trabalhávamos em países africanos nos direitos que realmente importam se você não os tem, como comida, saúde, água, educação, gênero, segurança e paz. Parece-me extraordinário que eu tenha perdido isso. Foram as Maldivas que, em 2004, relacionaram o tema a direitos humanos no Conselho de Direitos Humanos da ONU. Isso foi muito importante. E agora, no último encontro do conselho se reconheceu o direito humano a ter acesso a um meio ambiente saudável. Mas tudo isso aconteceu depois do meu tempo. Assim, quando me dei conta, vi que isso é uma injustiça total, um tema de direitos humanos fundamental. E a partir daí eu só podia falar da crise climática e de justiça climática. Falar de mudança do clima, para mim, não parecia mais ser suficiente. Estamos em uma crise e é uma crise e é uma crise de justiça. Agora estou feliz que estes termos são usados pelos jovens, sempre foram empregados pelas comunidades indígenas e estão sendo muito mais disseminados.

Valor: Em seu livro, a sra. descreve uma cena triste, o momento em que testemunha a extinção de uma geleira.

Robinson: Eu tive duas experiências fortes. Não pude acreditar como fui afetada pela lembrança de ver uma geleira morrer na Islândia. Senti aquele momento profundamente. Logo depois fui a uma expedição científica à Groenlândia. Na primeira manhã chegamos a este lugar com icebergs e lugares lindos, nos pediram para ficarmos sozinhos e “ouvir as geleiras”. Não entendi o que aquilo queria dizer. E então escutei um barulho, como o de trovões e de vez em quando, algo similar ao disparo de armas. Mas isso não era natural. Sabíamos que aquilo estava errado. Eu me vi ali sentada, e comecei a chorar. Estou quase chorando novamente agora só de lembrar. Ainda estou muito chocada. Estamos esmagando a natureza injustamente. A natureza é nossa amiga, mas pode virar um inimigo e, em vez de absorver todo o carbono, podemos ver o permafrost derreter etc. Foi uma lição grande para mim. Não creio que coloquei ênfase o suficiente em Soluções Baseadas na Natureza ou na regeneração até o momento em que fui para a Islândia e Groenlândia no verão de 2019.

Valor: O secretário-geral da ONU António Guterres diz que com a natureza não se negocia.

Robinson: Isso mesmo. O papa Francisco teve uma conversa com o ex-secretário geral da ONU Ban Ki-Moon, que vejo muito porque é um Elder também, e ele conta que o papa disse “Deus perdoa a todos. Nós, às vezes, perdoamos os outros. A natureza, nunca”. Em outras palavras, a ciência é implacável.

“Vocês têm uma sociedade civil maravilhosa. Temos que separar uma governança ruim do povo brasileiro”

Valor: Em seu livro a sra. conta depoimentos e histórias com esperança. Por quê?

Robinson: Bem, primeiro, porque histórias. Tive uma conversa com o editor das minhas memórias e ele me perguntou como ia meu trabalho com clima. Lembro que respondi dizendo que estava frustrada porque tenho a impressão que a mensagem não chega às pessoas. Eu disse que devíamos contar mais histórias e ele me disse que, seu escrevesse, publicaria. A mudança do clima pode afetar as pessoas terrivelmente, mas também pode trazer o melhor delas. O melhor em coragem, em construir resiliência, em esperança. Fiquei tão inspirada por cada uma das pessoas com quem conversei. E quis ser estratégica na hora de escolher as histórias que queria contar.

Valor: Estratégica como?

Robinson: Queria contar sobre pessoas do mundo rico sofrendo pelo clima. Nos Estados Unidos encontrei duas histórias - a de uma cabeleireira que sofreu com o pós-Katrina destruindo seu salão e sua casa, e se tornou uma ativista. E no Alasca, que vem sofrendo terrivelmente com a erosão pela água do mar. Mas foi difícil encontrar essas histórias. Se eu estivesse procurando agora seria outra coisa. Poderia falar sobre a inundação em Alemanha e Bélgica, fogos em Portugal, Espanha e França. Poderia falar da Califórnia. Veja quanto o mundo mudou mesmo desde 2018, quando o livro foi publicado. O clima está impactando o hemisfério Norte agora de uma maneira que sempre afetou o hemisfério Sul. Esta é a primeira injustiça climática.

Valor: Há conexões entre as injustiças globais?

Robinson: Existe uma intercorrelação entre a injustiça de gênero, injustiça racial, injustiça da pobreza e a injustiça social, que a covid tornou evidente porque exacerbou as desigualdades e mostrou as conexões entre elas.

Valor: Na visão da ex-ministra do Meio Ambiente Izabella Teixeira, na COP de Paris foi preciso lutar contra o negacionismo. e agora a luta é contra o fatalismo climático. A senhora concorda?

Robinson: Ela está certa. Tem gente que diz este problema é muito grande e que já que não se pode fazer nada, melhor tocar a vida. Temos que encorajar as pessoas a não fazer isso. Digo a todos que é preciso fazer três passos. O primeiro é tornar a crise climática algo pessoal na vida cotidiana e isso quer dizer reciclar com mais cuidado, mudar a dieta, mudar o jeito que nos locomovemos. Caminhar mais, andar mais de bicicleta é bom para a ansiedade climática. A segunda coisa é ficar bravos com quem tem mais responsabilidade e não está fazendo o que deveria. São governos ao redor do mundo, cidades, autoridades locais, negócios. O terceiro passo é o mais importante - em 2030 temos que cortar emissões de um modo que deixemos a natureza respirar. Temos que imaginar cidades mais verdes, áreas rurais com mais água, reflorestamento. E temos que nos animar, porque só desta forma as pessoas estarão motivadas.

Valor: Sobre a COP 26, a mensagem dos “Elders” foi bem forte.

Robinson: Pensamos que temos que ser mais explícitos e firmes sobre o que está errado, quem está fazendo errado, dar nomes. Não somos diplomatas. Somos anciões. Não queremos criticar injustamente, mas temos que ser claros. O G-20 está chegando. Escrevi a todos os membros do G-20 em nome dos Elders. Escrevi à Itália e à França dizendo que deveriam contribuir mais com finanças climáticas. Escrevi a países que não  revisaram suas NDCs ou àqueles que não têm NDCs ambiciosas. Temos uma voz moral.

Valor: Por que a sra. apelou pela liderança da China?

Robinson: Sim, mas também espero boa cooperação entre os EUA e China. O que temos agora, pós-presidente Donald Trump, é uma má situação em que ambos os lados se demonizam. Isso não é nada bom. O mundo tem que ter mais cooperação.

Valor: Também falaram em mais recursos financeiros para adaptação.

Robinson: Sim. Ban Ki-Moon foi co-chair da comissão de adaptação. Precisamos que 50% dos US$ 100 bilhões sejam destinados à adaptação. Não creio que teremos isso acordado na COP26, mas precisamos fazer mais. Adaptação constrói resiliência e faz todo sentido. Também temos que falar em perdas e danos, porque os choques climáticos estão provocando danos além da possibilidade de adaptação nos países mais carentes e pequenos que já foram devastados por furacões, chuvas ou secas. Não tem mais como se adaptar. O apoio a perdas e danos têm que estar sobre a mesa, tem que ser uma agenda. Deve ser levado mais a sério pelo mundo rico, que está com medo de ter que pagar muito, mas na realidade, é responsável. Tem que assumir a responsabilidade.

Valor: E o Brasil?

Robinson: Vocês têm uma sociedade civil maravilhosa, especialistas em clima. Temos que separar uma governança ruim do povo brasileiro. Não se pode demonizar o país por ter um mau governo. Faço o mesmo com a Australia.

Valor: A sra. acredita que o processo da Convenção do Clima é importante?

Robinson: Para mim o processo é fraco, ao forçar a UNFCCC ter consenso em suas decisões. É um dos foros internacionais mais importantes, mas um dos mais fracos. Mas pense como Paris foi importante. Não foram apenas China e os EUA a nos ajudar a ter um acordo. Foram as pequenas ilhas, os povos indígenas, a sociedade civil.

Valor: A sra. mencionou o direito a ter acesso a um ambiente saudável. Por que é importante?

Robinson: É parte da Constituição de vários países, mas não estava na ONU. Importante que o Conselho dos Direitos Humanos tenha dado esse passo. O grupo de empresários do B Team fez muita pressão para que o Reino Unido apoiasse a decisão. Esperaria que a maioria dos negócios estivesse alinhado assim, mas não está. Ao menos temos líderes.

Fonte: https://valor.globo.com/mundo/noticia/2021/10/26/vivemos-uma-crise-de-justica-diz-mary-robinson.ghtml

terça-feira, 26 de outubro de 2021

Escuta-me, é uma revolução.

 Enzo Bianchi*

 https://blog.acelerato.com/wp-content/uploads/2019/03/escuta-ativa.jpg

“Escutar é uma operação sempre a ser aprendida e renovada, mas é laboriosa! Às vezes, a escuta do outro não é interessante, é até enfadonha. A escuta de quem é diferente nos desestabiliza, a escuta de quem é nosso inimigo nos angustia, nos fere”, escreve Enzo Bianchi,


A quem me pergunta: “Qual é o primeiro mandamento, o mais urgente?”, respondo sem dúvidas, é o mandamento da escuta. Escute!

De fato, está significativamente à frente dos dez da tradição judaico-cristã, porque sem o exercício da escuta não podemos observar as dez palavras que fazemos remontar a Moisés.

A escuta, exercício que nos acompanha desde a vida intrauterina, exercício sempre em função, e por isso o ouvido está sempre aberto e não podemos fechá-lo. É a escuta que nos torna capazes de falar, que nos permite colocar o outro e torná-lo próximo, mesmo que distante, mesmo que invisível, que nos habilita ao diálogo, à palavra transversal, à relação. Parece que especialmente hoje existe uma recusa à escuta diretamente proporcional ao desejo, à pretensão de falar, de intervir, de se manifestar. Em todos os níveis. Da família, onde há as palavras “Escute! Está me escutando? Nunca me escuta!”, à vida em sociedade, na qual o primado é dado aos ruídos, às informações obsessivas, às tempestades de mensagens que nos chegam sonoramente também nas redes sociais. Não há tempo para colocar-se à escuta, não há desejo de ouvir o outro, e assim a escuta é retirada por distrações e compromissos que nos pedem para preferir ser ativos à suposta passividade da escuta.

Porém, a escuta não é passividade, requer certo silêncio, uma atenção à palavra que nos é dirigida; sempre é preciso empenhar a mente e coração para realmente escutar. Quem sabe escutar está ciente que até a postura do seu corpo pode estar disposta à escuta ou negar qualquer acolhimento à palavra que vem de fora. Penso também que, para quem quer guardar a vida interior, seja necessário escutar o próprio silêncio, e nele a voz das próprias profundidades, da consciência para cada ser humano, de Deus para o crente... Escutar é uma operação sempre a ser aprendida e renovada, mas é laboriosa! Às vezes, a escuta do outro não é interessante, é até enfadonha.

A escuta de quem é diferente nos desestabiliza, a escuta de quem é nosso inimigo nos angustia, nos fere.

Porém, só na escuta acendemos relações, sustentamos histórias de amor, percorremos caminhos de tolerância e de reconciliação, porque a escuta nos descentraliza, o outro que escuto é incorporado por mim, para que o outro em mim se torne um bem que me habita no íntimo. Nos últimos dias, os políticos fizeram muitas vezes a promessa de ouvir as pessoas, de ouvir as cidades que os elegeram e, ao mesmo tempo, na Igreja Católica começou pela primeira vez a iniciativa chamada "sinodal" de escutar a todos, sim, escutar até aqueles que até ontem tinham apenas que escutar as hierarquias e nunca fazer ouvir sua própria voz. A escuta seria uma revolução sem precedentes, mas é urgente em todos os níveis para uma convivência mais humana e bela.

Imagem da Internet

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/613970-escuta-me-e-uma-revolucao-artigo-de-enzo-bianchi

Pandemia estabelece novas regras do sono

Cena de "O Clube da Luta" — Foto: Divulgação 

Cena de "O Clube da Luta" — Foto: Divulgação

A vida profissional amarrava a maioria de nós a um horário único para todos; vamos torcer para que isso mude

Por Simon Kuper, Financial Times

23/10/2021

Quando passo algum tempo em Madri, fico maravilhado com as manhãs. Esta é uma cidade que dorme tarde. Na primeira vez que cheguei aqui, fiquei vagando antes das 9h da manhã à procura de algum café, apenas para encontrar suas portas ainda fechadas.

Os espanhóis acordam em horários que os americanos já estão no trabalho. Eu sei que a Espanha tem problemas com o sono: as pessoas aqui dormem, em média, 30 a 40 minutos a menos por noite do que a média dos europeus, possivelmente porque estão no fuso horário errado. Em 1940, o ditador Franco passou o país ao fuso alemão, para mostrar solidariedade com Hitler, e nunca mais ninguém voltou os relógios para o fuso de antes.

De qualquer forma, as manhãs tardias da Espanha são o que busquei por toda minha vida. Sempre achei que os horários tradicionais de entrada na escola e no trabalho me obrigavam a sair da cama cedo demais. Muitas outras pessoas, claramente, sentem o mesmo: durante as medidas de confinamento da pandemia, quando quem trabalhava em casa pôde, repentinamente, escolher os próprios horários para acordar, a maioria passou a dormir até mais tarde.

Vamos torcer para que a atual revolução nas práticas de trabalho institucionalize essa liberdade. Antes da pandemia, a vida profissional amarrava a maioria de nós a uma tabela de horários única para todos os tipos de pessoas.

Os americanos se deram particularmente mal. “Working nine to five, what a way to make a living” (trabalhar das nove às cinco, que jeito de ganhar a vida), canta Dolly Parton. Na realidade, porém, o horário mais comum de início do trabalho para a maioria dos americanos em 2015 foi entre 7h45 e 7h59 (o que pode ser uma das muitas explicações para a atual grande onda de “Eu me demito” em andamento nos Estados Unidos).

Cena de "O Feitiço do Tempo" — Foto: Divulgação

Cena de "O Feitiço do Tempo" — Foto: Divulgação

A entrada no trabalho ao amanhecer favorecia as pessoas com o cronotipo (a inclinação do ciclo de sono, determinada geneticamente) de “pássaros madrugadores”. Walter Mischel, o psicólogo criador do famoso “experimento do marshmallow”, percebeu que ficava satisfeito em acordar às 5h, de forma que era frequente ele já ter trabalhado duas horas quando a maioria dos demais ainda mal começa a se automedicar à base de café. O executivo-chefe da Apple, Tim Cook, diz acordar antes da 4h.

Dada a tola associação entre acordar cedo e a virtude, aqueles com inclinações a passarinhos eram considerados trabalhadores dedicados. Eles, então, se tornaram chefes e passaram a definir os horários para o resto de nós. Em geral, também não eram afeitos a cochilos: a “siesta” deveria ser reconhecida como uma solução mundial para a produtividade, mas, em vez disso, tem sido em grande medida objeto de perseguição, até na Espanha.

“Os horários padronizados de trabalho forçam as corujas [de hábito noturno] a um ritmo antinatural de sono-despertar”, escreve Matthew Walker em “Por que nós dormimos - a nova ciência do sono e do sonho” (ed. Intrínseca). “O desempenho no trabalho das corujas, como um todo, pelas manhãs é bem inferior ao ideal, e elas são impedidas ainda mais de mostrar seu verdadeiro potencial de desempenho no fim da tarde e no início da noite, já que o horário padrão de trabalho acaba antes”.

Além disso, as “corujas”, em particular, sacrificam horas de sono para chegar ao trabalho em horários ridículos. Antes da pandemia, cerca de 30% dos americanos tinham em média seis horas ou menos de sono por noite.

Compromissos em horários demasiado cedo são especialmente nocivos para adolescentes, que naturalmente acordam mais tarde. “As escolas começam cedo demais”, declara sem meias palavras a agência federal americana Centro de Prevenção e Controle de Doenças (CDC). A Academia Americana de Pediatras recomenda que as escolas comecem as aulas do ensino fundamental II e do ensino médio às 8h30 ou depois. Ainda assim, nos EUA, em 2014, 93% das escolas de ensino médio e 83% das de ensino fundamental II iniciavam as aulas antes desse horário, deixando as crianças “pescando” de sono na classe.

“Quanto mais tardio o cronotipo, pior os resultados na escola”, disse o cronobiólogo alemão Thomas Kantermann. As pessoas escolhem suas profissões, em parte, com base nos cronotipos. Os “pássaros madrugadores” se dão bem como padeiros ou professores, enquanto os jornais matutinos tradicionalmente eram feitos pelas “corujas”: claro, antes da chegada da internet, o pico do trabalho se dava à noite, quando a edição do dia seguinte era “colocada na cama”.

Mas, seja como for, os hábitos de sono dos adultos foram modelados pelo trabalho — parte da hegemonia do capitalismo sobre nossos corpos, argumenta o antropólogo Matthew Wolf-Meyer.

Abandonei o escritório e comecei a trabalhar em casa em 1998. Descobri nisso uma vida de maior produtividade: em vez de vagar pelos corredores do escritório atordoado demais para funcionar bem, me levanto quando me sinto suficientemente dormido (muitas vezes até volto um pouco para a cama depois de pegar as crianças da escola) e tiro um cochilo revigorante de 20 minutos à tarde. Tenho o raro privilégio de viver em meu horário natural.

A pandemia estendeu esse direito a dezenas de milhões de novos trabalhadores remotos. Durante o lockdown, a maioria deles começou seus dias mais tarde, embora não houvesse vida noturna para deixá-los acordados mais tempo.

No outono britânico passado, por exemplo, a jornada média de trabalho de quem trabalhou em casa começou às 10h45 (e também terminou tarde). Em estudo internacional com 113 mil pessoas em 20 países, Ju Lynn Ong, da Universidade Nacional de Cingapura, e outros descobriram que o início mais tarde, assim como a convergência dos horários de despertar nos dias da semana e nos fins de semana, ajudaram a diminuir a média dos batimentos cardíacos em repouso — um indicador de boa saúde.

Tendo em vista que o trabalho remoto veio para ficar, a moral é óbvia. Deixem as pessoas escolherem seus próprios horários de início de trabalho, sempre que possível. Pode ser necessário definir alguns horários essenciais, em que todos da equipe estejam trabalhando — entre 10h e 15h, digamos —, mas, fora isso, vamos destronar a tirania dos madrugadores, preferencialmente depois de dar uma boa cochilada de protesto. (Tradução de Sabino Ahumada)

Fonte: https://valor.globo.com/eu-e/noticia/2021/10/23/pandemia-estabelece-novas-regras-do-sono.ghtml?VALOR-POST-TOP-24H-item-sel-10,top,0e32de05-03de-434f-b068-6b9bde9da4cc