domingo, 28 de maio de 2023

Poderia a felicidade ser subversiva?

 por *


Orquestra Voadora. Imagem retirada do site “Bloco tome conta de mim”

Vista antes como conservadora e burguesa, ela pode criar sensibilidades criativas e antissitêmicas — e ser chave para o bem viver e a cooperação. Diante de um mundo gris, é preciso novos vínculos afetivos e eróticos; nem repressores, nem coisificante


“Povos felizes não têm história”

A felicidade tem uma fama muito ruim hoje para o pensamento crítico. É considerada uma ilusão, mais uma injunção obrigatória, um sonho trapaceiro de classe média. 

Posto no Facebook uma frase de Pasolini a favor da felicidade e logo alguém responde: “Pasolini capacitista!” A felicidade cancelada.

No entanto, a relação entre felicidade e revolução tem sido muito próxima até recentemente. Um ligava seu destino à outra, como Pasolini chegou a dizer justamente na citação respondida.

A felicidade talvez tenha sido a forma europeia e ocidental de discutir o que hoje, na América Latina mais influenciada por tradições indígenas, chama-se “o bom viver” ou “o viver saboroso” (nas belas palavras de Francia Márquez). Ou seja, discutir a própria definição de vida boa.

Os grupos subalternos tinham suas próprias imagens de felicidade, a partir das quais disputavam com a concepção hegemônica. Imagens não só do futuro, de uma felicidade possível depois ou mais tarde, mas aqui e agora, relativa à experiências vividas no presente.

Por acaso esse potencial se esgotou? Será que a ideia de felicidade é algo agora apenas a ser desmontado, denunciado e desconstruído? Não existem imagens de plenitude e alegria fora das concepções hegemônicas? As centelhas de felicidade subversiva se apagaram para sempre?

Felicidade e revolução

Encontramos o primeiro elo entre felicidade e revolução nítido nos discursos públicos – Robespierre, Saint-Just ou Babeuf – durante a Revolução Francesa. 

“O ser humano nasceu para a felicidade e para a liberdade, em toda parte ele é escravo e miserável”, afirma Robespierre. Se o ser humano é escravo e miserável, não é por nenhuma fatalidade inscrita nas marcas de nascença, mas pela “corrupção do poder”. Ao poder mesmo como corrupção.

Corrupção de quê? Do “estado de natureza” segundo o qual se deveria legislar para devolver a liberdade, a virtude e a felicidade ao povo. Contra a promessa compensatória de uma felicidade só possível no outro mundo, a revolução espalha por toda parte a ideia de uma felicidade terrena e acessível a todos.

“A felicidade é uma ideia nova na Europa”, escreve Saint-Just como toque final de um texto-decreto sobre o confisco de bens dos inimigos da revolução e a indenização dos indigentes. A felicidade é possível e sua ferramenta é a política.

“Pertence às grandes assembleias criar a felicidade comum”. Uma legislação revolucionária de acordo com o estado de natureza pode tornar efetiva esta aspiração humana, dissolvendo as desigualdades sociais e promovendo os direitos necessários à assistência, ao trabalho, à educação. É a ideia do Estado social natural.

Os jacobinos apostaram na revolução permanente “enquanto houver apenas um pobre ou miserável na terra”, mas o processo terminou no ano II com a reação do Termidor. “A revolução congelou”, observa Saint-Just antes de silenciar para sempre.

O fracasso das revoluções comunistas do século XX

Na década de 1970, o filósofo alemão Herbert Marcuse refletiu com Jürgen Habermas e outros sobre sua própria trajetória política e intelectual. Tudo começou com um fracasso, diz ele, a derrota da revolução espartaquista de 1918-1919 na Alemanha.

“Fiz parte da última concentração de massa em que Rosa Luxemburgo falou; eu estava em Berlim quando ela e Karl Liebknecht foram assassinados. O que eu queria entender era como, com a presença de massas genuinamente revolucionárias, a revolução pôde ser derrotada. Por que o potencial revolucionário daquela época, historicamente raro, não só não foi aproveitado, como foi desperdiçado por décadas? Por que foi desativado diretamente? Significativamente, comecei estudando Freud”.

A derrota de 1918-19 antecipa outro fracasso: o das vitoriosas revoluções comunistas do século XX. Também nelas o potencial revolucionário das massas é inutilizado e o sonho coletivo de liberdade e felicidade se transforma em um pesadelo de terror e escravidão. Como é possível?

O que Marcuse pensa é que as revoluções são derrotadas não apenas por forças externas, como a repressão ou a cooptação de revolucionários, mas também por dinâmicas internas e inconscientes. Ao Termidor histórico-social acrescenta-se um “Termidor psíquico” cujo mistério deve ser penetrado para compreender algo da maldição das contrarrevoluções.

As revoluções comunistas do século XX retomam sem questionar o imaginário do progresso: desdobramento das forças produtivas, domínio da natureza e da fabricação de bens de consumo. O socialismo é definido como a redistribuição igualitária do progresso industrial, que Lênin resume em sua famosa fórmula: “o comunismo são os sovietes mais a eletricidade”.

O problema, diz Marcuse, é que esse imaginário já pressupõe um tipo de corpo. Somente o corpo reprimido e insatisfeito, que aprendeu a adiar o prazer e a se sublimar em ideais futuros, é capaz de impulsionar o progresso quantitativo infinito. Só esse tipo de corpo pode experimentar a vida como um trabalho sem prazer baseado na produtividade e na promessa de um futuro.

Como se “educa” esse corpo? Claro, a partir de todos os tipos de violência externa: nós os conhecemos bem graças às obras de Marx, Foucault ou Silvia Federici. Mas não só. O que Freud permite a Marcuse é pensar a “interiorização do poder” através do próprio fato cultural. 

O acesso à cultura e à linguagem impõe a cada ser humano o sacrifício do corpo pulsional em favor do princípio da realidade. O delegado do princípio de realidade dentro de cada um de nós é chamado de superego. Este vigilante interno, que tomamos como a voz da consciência moral, trabalha para manter a ordem com as armas mais eficazes que existem: o sentimento de culpa e dívida, a angústia à menor transgressão, o desejo de punição como redenção. E nessa estrutura (ontológica) que se enraízam os diferentes poderes histórico-sociais.

No caso do princípio de realidade capitalista, o mandato transmitido pelo superego é primeiro a renúncia pulsional em favor da produtividade. A pulsão amorosa (Eros) será reduzida à sexualidade genito-reprodutiva. E a pulsão destrutiva (Thanatos) será instrumentalizada contra os “inimigos do progresso” externos e internos: as paixões inúteis, inclinações à vagabundagem e à preguiça, tudo o que resiste a sacrificar a felicidade do presente à produtividade.

Agora podemos entender melhor o fracasso das revoluções comunistas do século XX: ao copiar o imaginário burguês do progresso como ele é, querendo simplesmente colocá-lo a serviço de outras finalidades, reproduziram o mesmo “tipo humano”, o corpo da renúncia pulsional e da sublimação ao futuro, o corpo sempre insatisfeito e infeliz.

Esse corpo se materializa na subjetividade que concebe a revolução como “trabalho”, a militância como “sacrifício”, o tempo como “espera” e o comunismo como sociedade da produtividade total. A luta pelo socialismo – e logo o próprio socialismo – se objetiva e reifica. O potencial pulsional e criativo das massas fica inutilizado. A revolução é derrotada por dentro.

A libertação de Eros

Ao contrário de Robespierre, não nascemos para a liberdade e a felicidade. O acesso à cultura nos predispõe antes à alienação e à infelicidade. A revolução política não é suficiente, pensa Marcuse, é necessária uma revolução cultural. Uma mudança radical na estrutura das necessidades pulsionais, invariante e ao mesmo tempo aberta à modificação histórica.

Essa revolução cultural consiste em reativar as forças eróticas reprimidas. A libertação como felicidade. O que é Eros? O impulso de proteger, enriquecer e embelezar a vida, o instinto de cooperação, a energia capaz de compor coletivos a partir de uma solidariedade sentida (e não apenas forçada), única força capaz de deter a destruição. 

A libertação de Eros é antes de tudo um protesto: contra o mundo da produtividade autopropulsada, da agressividade permanente e da instrumentalização de tudo. Sem esse fio negativo, sem esse poder de rejeição, Eros corre o risco de ser reduzido a uma mera compensação tolerada.

E também é uma afirmação. O aparecimento de um novo tipo de ligação entre os seres, as coisas e o mundo. Um vínculo sensível e afetivo capaz de cuidar de cada ser vivo como uma potência singular, como sujeito e não como objeto. Uma nova sublimação da energia libidinal, não mais repressiva ou compensatória, mas criativa.

A força de Eros, antes antecipada e reservada ao campo da estética, deve agora impregnar a vida toda: organizar o trabalho, orientar a construção de ambientes habitáveis, determinar as relações com a natureza, encharcar os espaços educativos.

Esta libertação implica uma outra temporalidade, não mais o tempo da espera infinita, mas o dos processos que trazem em si a recompensa. O tempo de amadurecimento, crescimento e desdobramento do que já está aí, como semente e potencia. O tempo do processo e não do progresso.

Implica um outro corpo, não mais o do militante sempre insatisfeito e em guerra com o mundo, sem nada a perder a não ser suas correntes, mas um corpo que tira sua força dos mil laços amorosos que já o prendem ao mundo: as formas de vida desejáveis, os territórios que habitamos, as memórias e histórias que nos constituem.

Em suma, implica uma nova concepção da revolução, como mutação antropológica, mudança de pele e surgimento de uma nova sensibilidade. Essa nova concepção, reivindicada teoricamente por Marcuse desde a década de 1950, vai se concretizar praticamente nos movimentos da década de 1960: os estudantes pacifistas contra a Guerra do Vietnã, o feminismo e as primeiras lutas ambientalistas, anticoloniais e raciais. Os diferentes atores do que Marcuse chamou de Grande Rejeição.

O mandato de desempenho

A Grande Rejeição não consegue derrubar o capitalismo, mas força uma reorganização geral em resposta. É o que se conhece como passagem entre fordismo e pós-fordismo, ou sociedade industrial e neoliberalismo; e implica também uma mudança profunda no nível psíquico e subjetivo, que é o que nos interessa agora. 

O sujeito industrial torna-se o sujeito performático dos nossos dias. Não mais definido pela renúncia pulsional, mas pelo envolvimento total na guerra econômica: entrega, motivação, participação. Não por obediência e conformismo, mas por desenraizamento e autossuperação constante. Não por ascetismo puritano, economia ou moderação, mas por excesso: hiperatividade, hiperexpressividade, hiperestimulação. 

A acumulação como principal característica do capitalismo é internalizada, tornando-se uma modalidade subjetiva e modo de vida. Além do próprio trabalho, afetando toda a existência.

O novo mandato do superego dita: “você deve sempre tirar vantagem, tirar o máximo proveito de cada situação”. A energia amorosa de Eros é subjugada sob todas as formas de hiper-sexualização. A energia destrutiva de Thanatos é instrumentalizada para a competição geral e a guerra de todos contra todos.

E o desconforto? Como fica o sofrimento psíquico nesse tempo de desempenho obrigatório? 

É a sensação constante de que o tempo está se acelerando, de que “não consigo chegar lá” ou “não tenho vida”. A sensação de estar sempre em falta, sempre em déficit, de não ser suficiente, de não fazer o suficiente, de não ter o suficiente. A dificuldade vivida na relação com o outro, sempre rival e nunca cúmplice, um constante medir-se pela inveja e pela frustração, uma exigência sufocante.

Se Freud ofereceu a Marcuse um esquema para pensar a internalização do poder, o psicanalista Jacques Lacan acrescentou posteriormente mais um elemento, bastante perturbador: o mandato do superego se regogiza. Somos nós mesmos que aceleramos a roda do hamster, que entramos na competição com o outro, que cobramos de todos e de tudo um resultado imediato.

Há uma alegria nisso tudo, uma satisfação na insatisfação, um certo apego emocional, uma espécie de vício. O reclamante basicamente não quer mudar nada, a vítima está satisfeita com sua posição.

Sem pensar profundamente em todas essas questões, sem entrar seriamente no “ninho de víboras” da subjetividade, os apelos à transformação social permanecem mero discurso, um cadáver na boca, a preparação de um novo Termidor psíquico.

A felicidade do desertor

E então, hoje, felicidade? Não, claro, a felicidade obrigatória do mandato de desempenho (“seja feliz, aproveite!”), mas a felicidade de justamente desfazer todos os comandos, a felicidade que subverte, a felicidade de Eros. 

Vamos ensaiar um pouco, sem negar outras possíveis linhas de interpretação, nem tê-las todas conosco. Hoje há quem abandone o emprego, quem rejeite o consumo como relação privilegiada com o mundo, quem dê as costas à política e aos meios de comunicação, quem se vá, quem desapareça. Grande Resignação, declínio, êxodo das cidades, novos comunalismos, mil tentativas de desligar e desacelerar a vida, desamor libidinal.

O pano de fundo da época, pelo menos no Norte global, é esse vasto movimento de afastamento dos mecanismos de ansiedade. Às vezes sozinho e outras em grupo, às vezes trocando de lugar e às vezes sem sair do lugar, às vezes com fala e outras vezes apenas por instinto. Não se trata exatamente de lutas ou movimentos sociais, mas de uma espécie de deslocamento de placas tectônicas, em que novas lutas e movimentos podem surgir. Estou pensando, por exemplo, na atual desidentificação geral em relação ao trabalho, considerado por décadas como a principal fonte de autorrealização e felicidade. Não pode faltar ao trabalho, porque é dinheiro e renda, mas toma distância.

Franco Berardi (Bifo) propõe a imagem da deserção para pensar esse movimento de retirada. A deserção vai além do simples desligamento momentâneo: uma licença médica, uma fuga, um verão. Porque implica precisamente um gesto de renúncia: de subtração e desapego do nó que nos prendia, de elaboração da armadilha em que estamos presos, de abertura a novos ritmos e respirações. 

A deserção implica uma ruptura subjetiva. Um corte com o gozo do desempenho. Uma perda de certas certezas às quais nos apegávamos e a passagem dessa angústia.

Atrever-nos a perder. Essa é a proibição por excelência sob o imperativo de desempenho: perder tempo e não fazer render, perder prestígio na disputa por visibilidade, perder posições na guerra econômica. A famosa síndrome FOMO (fear of missing out), o medo constante de perder algo, expressa essa terrível ansiedade.

O perdedor (el loser) é a figura mais desvalorizada do neoliberalismo, o espantalho com o qual nos assustamos e normalizamos. Mas só ousando perder podemos enfraquecer esse mandato do superego que nos mortifica. Perder, como diz Jorge Alemán, sem se identificar com o que se perde, sem melancolia. 

Perde-se, também, por amor. Como aconteceu na excepcional história de “Loco” Pérez, o jogador que abriu mão de um contrato de dois milhões de euros e caiu para a Terceira Divisão por seu amor de infância a La Coruña. Perder como forma de dar e doar-se sem cálculo, na fidelidade ao que verdadeiramente sustenta a vida.

Perder, não para depois ganhar, como dizem os atletas de elite e os loucos empresários, mas para aprender a viver em uma perda, no sentido de que o desejo – ao contrário do gozo – não acumula, fica à deriva o tempo todo, tem maré alta e baixa, se dissipa, constrói labirintos sem saída. 

A felicidade do desertor passaria por esse abandono da obrigação-alegria de ceder, de acumular, de controlar. Essa deserção pode se tornar um movimento coletivo, estratégico, organizado? Um movimento de engenheiros, técnicos e pesquisadores franceses, unidos em sua rejeição a “robotizar, mecanizar, otimizar, acelerar e desumanizar o mundo”, autodenominaram-se recentemente “os desertores felizes” e convidam a uma grande renúncia construtiva, criativa, ofensiva.

Marcuse fala em algum lugar sobre “felicidade sem mérito”. Não aquela que se consegue com esforço, aquela que se adquire ou conquista, aquela que é prêmio ou decretada, mas aquela que pode irromper, sem garantias e inesperadamente, justamente se ousarmos perder.


Referencias: 

Filosofía radical: conversaciones con Herbert Marcuse, Jürgen Habermas y otros, Gedisa (2018).

“La idea del progreso a la luz del psicoanálisis”, Herbert Marcuse (1969).  

La nueva razón del mundo, Pierre Dardot y Christian Laval, Gedisa (2013).

OutrasPalavras Pós-Capitalismo Publicado 26/05/2023 às 19:45 - Atualizado 26/05/2023 às 20:11 
 
Por Amador Fernánde-Savater, no CTXT | Tradução: Haroldo Gomes
 
* Amador Fernández-Savater (Madri, 1974) vai e vem entre o pensamento crítico e a ação política, buscando sempre seu encontro. É editor da Aquarela Livros, dirigiu durante anos a revista Archipiélago e participou ativamente em diferentes movimentos coletivos e de base em Madri. É autor de Filosofia e Ação (Editorial Limite, 1999), coautor de Red Ciudadana tras el 11-M; cuando el sufrimiento no impide pensar ni actuar (Acuarela Livros, 2008). Atualmente transmite na Rádio Círculo o programa Uma linha sobre o mar, dedicado à filosofia de garagem.
 
Fonte:  https://outraspalavras.net/pos-capitalismo/poderia-afelicidade-ser-subversiva/

Una poesía sobre la terrible condición humana

 por Juan de Marsilio

Chantal Maillard.jpg  

 Chantal Maillard

Obra poética reunida de Chantal Maillard

Desde el horror y el desencanto, la poeta belga-española escribe sobre cosas que duelen.

Nacida en Bélgica en 1951, Chantal Maillard reside en España desde sus catorce años. Filósofa, ensayista y poeta, en este último campo obtuvo, a partir de Hainuwele (1990), su primer libro, cierta atención de crítica y lectores. A partir de Matar a Platón (2004), que le valiera el Premio Nacional de Poesía de España, sus libros, recitales y performances han atraído de modo extraordinario a público y crítica.

En Lo que el pájaro bebe en la fuente y no es el agua, Virginia Trueba Mira reúne y estudia la obra poética de Maillard entre 2004 y 2020. Son textos complejos, variados en lo formal, que critican, desde el horror y el desencanto, la condición humana, como puede verse en el fragmento inicial de “Balbuceos”, sección del libro La herida en la lengua (2015),
.
En una de las que serían sus últimas noches de libertad, Friedrich Nietzsche sale de su alejamiento en el número 20 de la calle Milano. Es enero en Turín, y hace frío. Aprieta el nudo de la bufanda en torno al cuello de su abrigo. Va a cruzar la calle cuando, ante él, un caballo se desploma. El cochero, impaciente, lacera a latigazos el lomo del animal, que no puede tirar de la carga. El filósofo corre hacia él, se abraza a su cuello y, llorando, le pide perdón a nombre de la humanidad.
La Historia considera este episodio como uno de los síntomas de su locura.

En todos los poemarios la poeta rumia, lúcida y a la vez visceral, todo ese horror.

Matar a los hijos.
En 2020 Maillard dio una vuelta de tuerca al mito de Medea —cuya protagonista mata a sus propios hijos— y a la tragedia que Eurípides compuso sobre ese mito. En la Medea de Maillard la madre filicida afirma haber abreviado el sufrimiento de sus hijos,

Maté a mis hijos, sí. O esa fue
la historia que os contaron.
¿Qué utilicé: la soga, el cuchillo
el veneno? ¿Q quizás fue la ausencia?
¿Importa eso ahora?
.
Tan sólo aceleré el final de un proceso.
¿No condenamos todas
acaso a nuestros hijos? ¿No
destinamos su cuerpo tembloroso
a la muerte
en aquel mismo instante
en que los concebimos?
Y al expulsarlos
Del útero a la luz, ¿no os forzamos a
compartir la violencia
y el miedo de saber
que cada paso adelante es una resta?

Por debajo de la condena moral de la violencia y la injusticia humanas, hay en la obra de Maillard un horror metafísico ante un universo en el que llega a existir el Hombre, capaz de concebir la palabra “siempre”, pero obligado a morir. Leerla es aleccionador: para ayudarse a uno mismo y al prójimo a encarar vida y muerte, no sirven los diagnósticos facilistas que llevan a soluciones ilusorias.

La clave está al inicio del segundo fragmento de los “Balbuceos”,
.
RECLUIDO en un torreón a las orillas del río Neckar, en los últimos años de su vida, Friedrich Hölderlin, según se cuenta, a cualquier pregunta que se le hiciese, contestaba invariablemente “pallaksch, pallaksch, una expresión con la que se remeda el balbuceo de los niños pequeños. Celan alude a ello en el poema “Tubinga. Enero”,
.
Si viniera,
si viniera un hombre,
si viniera un hombre al mundo, hoy, con
la barba de luz de
los patriarcas:
debería,
si hablara de este
tiempo,
debería
sólo balbucir y balbucir,
siempre, siempre
asiasí. (“Pallaksch, Pallaksch”).
.
Era un mes de enero cuando los altos mandos de las SS se reunieron en Tubinga para decretar el exterminio del pueblo judío. Hay épocas, en efecto, en que la boca de un sabio no podría sino balbucir.

De inmediato la voz lírica se pregunta —de manera retórica— si ha habido alguna época libre de horror y sinsentido. Al recorrer Lo que el pájaro bebe... el lector no lo tiene fácil, pues los textos de Maillard son complejos en lo formal y fragmentarios, oscuros, casi crípticos. Tienen por nota común la desolación.

Experimental.
A lo largo de libros que componen este libro” escribe Miguel Morey en la Posdata, “se podrá comprobar que el trabajo de reinvención poética de Chantal Maillard es constante y manifiesto; quema sus naves una y otra vez para renacer nuevamente de sus cenizas”. Este carácter experimental se nota ya desde Matar a Platón, de relativa llaneza dentro del conjunto. En cada página hay un poema, y al pie, la voz lírica comenta que un amigo le ha pedido consejo sobre un libro que está escribiendo, titulado Matar a Platón, acerca del que Maillard escribe sin mostrarlo. Así, el poemario es un diálogo entre dos voces y un silencio. Luego vendrán, en los libros siguientes, poemas en prosa, poemas visuales, chispazos de tono aforístico, porque en tanto poeta, Maillard inicia este período maduro de su obra disponiendo de un arsenal técnico considerable, que amplía en sucesivas exploraciones. Pero lo que no domina, porque precede a la existencia de la poeta como persona, es la herida desde la que crea. Y la conciencia de esto ya es clara en Matar a Platón, al que pertenece el siguiente poema,
.
Mejor no diga nada.
Sería inútil. Ya ha pasado.
Fue una chispa, un instante. Aconteció.
Yo acontecí en ese instante.
Puede que usted también lo hiciera.
Suele ocurrir con los poemas:
terminan condensándose las formas
en nuestros ojos como el vaho
sobre un cristal helado;
las formas, con su herida.
Pues quien construye el texto
elige el tono, el escenario,
dispone perspectivas, inventa personajes,
propone sus encuentros, les dicta los impulsos,
pero la herida no, la herida nos precede,
no inventamos la herida, venimos
a ella y la reconocemos.

Hay que leer a Maillard aunque duela, aunque se discrepe con ella, aunque, por desgracia, le sobren los motivos para escribir así.
.
LO QUE EL PÁJARO BEBE EN LA FUENTE Y NO ES EL AGUA (Poesía reunida 2004–2020), de Chantal Maillard. Galaxia Gutenberg, 2022. Barcelona, 800 págs.

Fonte: https://www.elpais.com.uy/cultural/una-poesia-sobre-la-terrible-condicion-humana?utm_source=news-elpais&utm_medium=email&utm_term=Una%20poes%C3%ADa%20sobre%20la%20terrible%20condici%C3%B3n%20humana&utm_content=28052023&utm_campaign=Cultural

sábado, 27 de maio de 2023

De que serve amar?

Fabricia Hamu* 

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23/05/2023

No elevador, a conversa entre duas vizinhas era sobra a cantora Rita Lee, que morreu no último dia 8. “Fiquei impressionada com o marido dela. Cuidou da esposa até o final”, disse uma delas. “Câncer é uma doença difícil. Não é qualquer um que se dispõe a segurar a barra do parceiro. Sei de muita gente que pulou fora do casamento nessa situação” , completou a outra.

De fato, Roberto de Carvalho emocionou o público com seu amor por Rita Lee, sobretudo em uma de suas recentes entrevistas à TB, onde chorou em diversos momentos. No entanto, é interessante perceber como ele também chama a atenção pela atitude de fazer questão do afeto, do convívio e do cuidado com a mulher, mesmo nos piores momentos.

Lembrei-me de um vídeo do padre Fábio de Melo, onde ele falava sobre o amor e a inutilidade. Na ocasião, ele observava, muitas vezes, aqueles que nos cercam não amam a nós, mas o que fazemos por eles. Somos amados enquanto temos alguma utilidade para o outro. E alertara: “Só nos ama, só vai ficar até o fim, aquele que, depois da nossa utilidade, descobrir o nosso significado”.

Talvez, seja por isso, que tenhamos tanto medo de envelhecer e adoecer. Nessas horas, quando geralmente ficamos limitados e não podemos oferecer nada em troca, é que percebemos com clareza quem reconhece nosso valor. É o momento de enxergar aqueles que, para além dos benefícios que proporcionamos, nos amam pelo afeto, partilha e amizade que representamos.

A construção do nosso significado da vida do outro depende de nós e de uma dose de sorte. A nós cabe cuidar com carinho da relação, ofertando colo, escuta, respeito e disponibilidade. A o destino cabe a tarefa de permitir que toda essa dedicação floresça no coração daqueles com quem nos relacionamos, pois o fato de a semente ser plantada não implica que a árvore crescerá e criará raízes sólidas.

Além de fazer nossa parte, só nos resta torcer para que nosso afeto frutifique no coração do outro, como Rita Lee com sua família. O relato do filho João Lee, que compartilhou nas redes sociais o retorno à casa dos pais pela primeira vez, depois da morte da mãe, deixa claro que a dor da ausência da cantora não é maior do que o amor e a força que ela simboliza para ele.

“Saí do carro e fiquei em pé olhando para a casa. A casa em que passei os últimos dois anos. A casa onde vivi momentos difíceis e momentos especiais. Não conseguia dizer nada. Foquei em meus ouvidos extrassensíveis. Quem sabe ouviria o som da natureza, dos bichos, sei lá, algo que me trouxesse calma. No entanto, só consegui ouvir um silêncio absoluto”, contou João.

Depois de viver o impacto inicial do vazio trazido pela ausência da mãe, João percorrera a casa, tentando se conectar com ela. “Visitei todos os ambientes e cantinhos onde ela costuma ficar. Jantei sentado no lugar onde ela jantava na mesa, assisti à TV no seu lugar no sofá, fui ao quarto dela, abracei e cheirei suas roupas, deitei-me na cama e olhei para as estrelinhas do teto”, relatou ele.

Apesar do tour completo pela casa, João foi dormir sem ter conseguido o que mais queria: sentir a presença da mãe. Frustrado, ele decidiu sentar-se para ler o novo livro da cantora, lançado nesta segunda-feira e intitulado Outra Biografia. A obra documenta a descoberta do câncer que acabou levando-a à morte e toda a intimidade do processo do tratamento.

Ao terminar o livro, João encontrou o que procurava: a conexão com a mãe. As memórias de Rita Lee reforçaram ao filho seu significado e lhe trouxeram conforto e paz. O amor, mesmo na inutilidade, é de grande serventia. Ela dá sentido à vida, iluminando cada momento em que se faz presente, e à morte, preenchendo com gratidão e aprendizado o vazio por quem partiu,

*Jornalista. Mestre em Ralações Internacionais - Imagem da Internet

Fonte: https://opopular.com.br/magazine/de-que-serve-amar-1.3031269?utm_campaign=cronicas_da_semana_-_27052023&utm_medium=email&utm_source=RD+Station  19/05/2023

 

Rap espiritualista: “Contato imediato” é lançamento do Mano ET

 Redação, Desacato.info.

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Novo clip do rapper “Mano ET”, disponível no YouTube, traz olhar espiritual-crítico diante da realidade existente. O rapper e escritor, Cristian Breuer, reflete sobre o contexto individual e coletivo dos seres encarnados nesta terra. A produção é caracterizada como rap espiritualista, que segundo o artista no JTT-Manhã Com Dignidade, se refere a uma vertente musical voltada a consciência humana. Não se trata de religião, mas, especialmente da capacidade de seres humanos se libertar mentalmente. 

“Eu senti a necessidade de usar o rap para poder mandar uma mensagem com intuito espiritual que prega mais a questão da consciência humana, então, você saber discernir a sua realidade, como está sendo sua vida, como lida com as situações… as pessoas estão aprisionadas em um sistema político, financeiro, social que às vezes precisa ter uma cultura para vir e libertar as mentes” pontua.

Além disto, compreende-se como espiritualidade a capacidade de olhar de dentro para fora e não de fora para dentro. “É você agir como um ser consciente, autônomo”, destaca. Ao analisar a quantidade de pessoas aprisionadas mentalmente, Cristian, traz o exemplo dos defensores do fascismo e bolsonarismo. Exemplifica: “por que eles são chamados de gado? Porque estão aprisionados mentalmente”.

Em trecho inicial, afirma:

“Somos tão p equenos com uma alma infinita

Somos seres que criam a mente autodestrutiva

Em meio ao caos desse planeta ninguém mais se pergunta

Porque todos têm certeza enquanto eu nem cheguei na dúvida”

Neste contexto, o rapper explica que a construção deste conteúdo parte da compreensão do potencial mental de criarmos nossa realidade e como, apesar disto, há tantos seres perdidos em ilusões. Muitas vezes, por conta das condições socio-estruturais que vivem. “Então eu quiz mostrar isto na letra, mostrar este lado espiritual que liberta” destaca.

Fonte:  https://desacato.info/rap-espiritualista-contato-imediato-e-lancamento-do-mano-et/

Imagem da Internet

sexta-feira, 26 de maio de 2023

Sacerdotisas? Nem sacerdotisas nem sacerdotes

 Anselmo Borges

Anselmo Borges

Como foi possível ensinar e pregar que Deus mandou o seu Filho Jesus para ser crucificado, pagando assim a dívida infinita da Humanidade para com Ele? Desse modo, Deus aplacou a sua ira e reconciliou-se com a Humanidade. Esse seria um Deus no qual não se pode acreditar: um Deus sádico, bárbaro, vingativo. Face a esse Deus é preciso ser ateu. Esse não seria o Evangelho, uma notícia boa e felicitante, mas um Disangelho.

Pelo contrário, o que Jesus anunciou foi realmente o Evangelho, notícia boa e felicitante, repito. E fê-lo por palavras e obras. Esta é a notícia, a melhor notícia que a Humanidade ouviu na sua História: Deus é bom, é Pai e Mãe de todos e o seu interesse é a alegria, a felicidade, a realização plena de todos os seus filhos e filhas.

Nem todos estavam nem estão de acordo com esta mensagem, pois se Deus é bom eu também devo ser bom, se Deus não se vinga eu também não me posso vingar, se Deus é bom, Pai e Mãe de todos os seus filhos e filhas, não pode haver guerras de destruição e horror entre eles. A mensagem de Jesus ia contra os interesses de muitos, nomeadamente contra os interesses da religião oficial da lei, uma religião que oprimia o povo, e contra os interesses imperiais de Roma -- a finalidade dos impérios não é explorar? Por isso, os sacerdotes do Templo coligaram-se com Roma, julgaram Jesus, que foi condenado à morte e morte de cruz, a morte que os romanos davam aos escravos e subversivos. Jesus morreu assassinado pelos interesses dos que se opõem aos interesses de Deus, do Deus bom, Pai e Mãe de todos. Jesus não se acobardou, sacrificou-se até ao fim, até ao horror da morte na cruz, fazendo inclusivamente a experiência do aparente abandono de Deus, para dar testemunho da Verdade e do Amor.

 "Linguagem que provocou uma sacralização dos presbíteros, que está na base do nefasto clericalismo, que tanto tens combatido e criticado..."

Os discípulos fugiram, até Pedro, o primeiro Papa, se acobardou e negou o Mestre. Só as mulheres o acompanharam até à cruz. E a pergunta que fica sempre é esta: o que é que aconteceu para que os discípulos que, tristes e desiludidos, voltaram às suas vidas, pensando que tinha sido o fim, se reunissem de novo para irem anunciar que verdadeiramente aquele Jesus assassinado, crucificado, é o Messias, o Salvador, o Evangelho vivo? Mais uma vez, foram as mulheres. Nomeadamente, Maria Madalena foi a primeira a fazer a experiência avassaladora de fé de que aquele Jesus, o crucificado, está vivo para sempre em Deus. Deus é infinitamente poderoso, Jesus deu a vida por Ele, testemunhando o seu amor sem limites e, por isso, Deus não podia deixá-lo abandonado à morte, ressuscitou-o, Jesus está vivo para sempre na plenitude da Vida. E, lentamente, os discípulos foram fazendo a mesma experiência avassaladora de fé e reuniram-se e partiram, anunciando a boa notícia. E morreram por ela.

Muitos acreditaram e formaram-se comunidades por todo o lado. E viviam a alegria da fé, por palavras e obras. Souberam que Jesus, antes de entregar-se à morte por amor, celebrara uma ceia com os discípulos, uma ceia de despedida, pedindo que se lembrassem dEle. Assim, os novos discípulos celebravam banquetes festivos, recordando essa ceia, a Última Ceia, e lembrando Jesus, o que Ele disse, o que Ele fez, a sua morte, a sua ressurreição, e sabiam que Ele está presente. Quem presidia era algum cristão ou alguma cristã com uma casa melhor.

Com o tempo, foram escolhidos presbíteros e bispos, para a coordenação das comunidades, o anúncio da mensagem... Só mais tarde, nos séculos III-IV, quando os cristãos foram acusados de não oferecer sacrifícios à divindade, se interpretou a Eucaristia como sacrifício -- mactatio mystica Christi, cheguei a ler em manuais de Teologia -- e apareceram os sacerdotes, com a ordenação sacerdotal, e, desse modo, a divisão da Igreja, Povo de Deus, em duas classes: clero e leigos. No Novo Testamento, não se fala em sacerdotes, Jesus não ordenou sacerdotes, sacerdote é Jesus e o povo cristão é "povo sacerdotal". Com a ordenação sacra, foi surgindo o celibato, que se foi impondo como lei, e, evidentemente, por causa da impureza ritual, as mulheres foram excluídas.
Hoje, com a urgência da renovação profunda da Igreja, esta questão é decisiva. Neste sentido, o jesuíta José I. González Faus escreveu uma carta aberta a Francisco: "Estamos obrigados a procurar remédio para a exclusão da mulher." Começa por pôr em causa um duplo princípio na Igreja que Francisco, para negar a possibilidade de acesso da mulher ao presbiterado, foi buscar ao teólogo Urs von Balthasar: o princípio mariano (Maria mãe da Igreja) e o princípio petrino (Pedro é a rocha), sendo o primeiro superior ao segundo, mas fechando o acesso da mulher ao ministério eclesiástico. O equívoco está na falsa "sacerdotalização" do ministério, que poderia levar à ideia de "mulheres sacerdotisas", evocando "figuras pagãs como as prostitutas sagradas".

O que se impõe não é excluir a mulher. O que se exige, quando se atende ao Novo Testamento, é "a compreensão de que também o presbítero não é um sacerdote, por muito acostumados que estejamos a essa linguagem imprópria. Linguagem que provocou uma sacralização dos presbíteros, que está na base do nefasto clericalismo, que tanto tens combatido e criticado, Papa Francisco, e que foi causa de tanto abusos de todas as espécies. Comecemos, pois, nós, os homens ordenados, por despojar-nos dessa atribuição irreverente de sacerdotes."


Padre e professor de Filosofia.
Escreve de acordo com a antiga ortografia

Fonte:  https://www.dn.pt/opiniao/sacerdotisas-nem-sacerdotisas-nem-sacerdotes-16382716.html

Wagner e Nietzsche

 Miguel Romão*

O fundador do grupo paramilitar russo Wagner, Yevgueni Prigozhin

 O fundador do grupo paramilitar russo Wagner, Yevgueni Prigozhin

As declarações sucessivas, replicadas no consumo ocidental de informação, mas seguramente formatadas para consumo interno, dessa personagem sinistra que se chama Yevgueni Prigojin, o chefe russo do grupo Wagner, são difíceis de compreender. A não ser numa lógica, só na aparência ambivalente, de assunção de uma nova legitimidade interna e de, ao mesmo tempo, justificação dos danos que a demora e os fracos sucessos na guerra têm exibido.

Criticar abertamente os filhos das elites russas, que se passeiam pelas redes sociais, enquanto os filhos das pessoas comuns morrem em território ucraniano e são repatriados em caixões, ou dizer que o resultado da invasão russa foi, afinal, o de militarizar a Ucrânia e tornar o seu exército um dos mais fortes do mundo, não parece ser grande discurso motivacional. No entanto, se este discurso existe, e só poderá existir com o beneplácito ou o incentivo de Vladimir Putin, ele tem de visar precisamente a colocação de mais pressão sobre as únicas estruturas de poder paralelas ao poder de Putin: as forças armadas regulares e as elites que dominam a economia russa.

A guerra de Putin não está, portanto, a ser perdida por ele. Segundo este novo porta-voz, improvável há um ano, a guerra está a ser perdida pelos únicos elementos internos que podem ameaçar Putin, o exército e os oligarcas. Assim, nada melhor que limitar, desde já, com o foco nestes alvos, as suas eventuais veleidades futuras.

É certo que estas declarações podem evidenciar um nível de fragilidade adicional do atual poder russo. Mas, enquanto elas existirem, nas suas distintas declinações, não deixam de ser também um sinal de que o poder de Putin ainda subsiste. O contrário seria ainda mais perigoso, na verdade.

O grupo Wagner, criado a propósito da intervenção russa na Crimeia, em 2014, e depois utilizado em diversos pontos do mundo (e também em Moçambique e, alegadamente, em Angola e na Guiné-Bissau), oscila na sua caracterização, feita no ocidente, entre ser, na prática, uma divisão especial do exército russo e uma estrutura militar autónoma dependente apenas do presidente russo e dos seus interesses, dentro e fora da Rússia. A verdade, como tantas vezes sucede, pode bem estar no meio, para mais num contexto em que a duplicidade e a ambiguidade fazem parte do quotidiano e das regras do jogo.

Supostamente os mercenários ao serviço do Wagner ganham entre 1000 e 2000 dólares por mês, vendo ainda os condenados a penas de prisão, que compõem grande parte dos seus homens a combater na Ucrânia, atenuada ou anulada a sua pena. Parece pouco, para o que está em causa. Mas a pobreza objetiva e a ilusão de liberdade, também na guerra, são sempre fatores decisivos. E o mercado internacional de mercenários, como tantos outros, alimenta-se e aproveita-se disso mesmo. Pobreza e ilusão de liberdade são o dedo invisível no gatilho. E, como dizia Nietzsche, se a loucura é rara nos indivíduos, nos grupos, nas tribos, é afinal a regra.

*Professor da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa 

Fonte:  https://www.dn.pt/opiniao/wagner-e-nietzsche-16416180.html 26/05/2023

quinta-feira, 25 de maio de 2023

Alice Vieira: “Devia haver uma disciplina de Religião obrigatória”

Por | 24 Mai 2023

A escritora Alice Vieira, fotografada na sua casa da Ericeira, 31 de março de 2023. Foto © Clara Raimundo

A jornalista e escritora Alice Vieira, fotografada na sua casa da Ericeira. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS.

Alice Vieira acaba de celebrar 80 anos. Ou melhor: continua a celebrar, porque já teve pelo menos dez festas de aniversário e não vai ficar por aqui. Apesar de ter estado várias vezes muito perto da morte, ou talvez por isso mesmo, a escritora (que já publicou mais livros do que os anos que tem mas que continua a considerar-se, antes de tudo, jornalista) revela uma alegria de viver e um sentido de humor incomuns. Em entrevista ao 7MARGENS, foi por entre gargalhadas que recordou a sua descoberta da religião (já no liceu e sem que os pais, ateus, suspeitassem), a primeira Bíblia que recebeu (do homem com quem viria a casar), o primeiro presépio que fez (quando já tinham filhos) e a sua conversão ao catolicismo (cuja responsabilidade atribui a um grande amigo de quem sente muitas saudades: o cardeal Tolentino Mendonça). Esta quinta-feira, 25 de maio, e nos próximos dias 27 e 28, estará a dar autógrafos na Feira do Livro de Lisboa. Alguns, quem sabe, no livro que o próprio Tolentino a ajudou a escrever, Histórias da Bíblia Para Ler e Pensar, que gostava que todas as crianças pudessem conhecer. Depois, regressa à Ericeira, onde a entrevistámos, e onde mais gosta de estar… e de trabalhar. Sim, porque ainda em 2023 deverão sair mais três livros seus. A julgar pelo ritmo, ainda chega aos 100 – livros… e anos.

7MARGENS – Faz coleção de Bíblias, mas já estava na escola secundária quando teve o primeiro contacto com uma… Porquê tão tarde?

ALICE VIEIRA – Porque sou de uma família profundamente ateia! Lá por eu me chamar Alice de Jesus – que foi uma coisa que eu nunca percebi –, eles eram tão ateus, mas tão ateus, que quando eu era convidada para ser menina das alianças nos casamentos, nunca podia, porque eles nem me deixavam entrar dentro da igreja! Portanto, nunca fui à catequese, mas quando eu andava no liceu havia muitos pais que não deixavam os filhos terem a disciplina de Religião e Moral… E os meus nem sequer sabiam que a disciplina existia – e eu também não lhes disse [risos] –, só que ia.

E tive uma professora de Moral extraordinária… uma mulher muito, muito inteligente. E como é que ela dava a disciplina? Através da Bíblia! Como ela nos dava a Bíblia para ler, foi aí que pensei: “Isto é um livro muita giro!” [risos] Depois, quando saí do liceu, continuámos a escrever-nos até ela morrer… Era realmente uma pessoa extraordinária. E digo a toda a gente, mesmo às pessoas que não são religiosas: “Leiam a Bíblia, que é um grande livro: está lá tudo de bom e tudo de mau!” Portanto, foi só aí que tive o primeiro contacto com a Bíblia e foi essa professora que me abriu os olhos para a religião.

7M – Mas a primeira Bíblia da sua coleção só lhe seria oferecida uns anos mais tarde, por aquele que viria a ser o seu primeiro marido…

Exatamente! Eu conheci aquele que viria a ser o meu primeiro marido tinha 15 anos, quando trabalhava no Diário de Lisboa. O Mário [Castrim] era 23 anos mais velho do que eu e as pessoas nunca perceberam como é que uma pessoa podia ser comunista, que ele era, e católico. E ele dizia sempre que não tinha problema nenhum, e foi ele que me deu a minha primeira Bíblia, que é linda e diz assim: “A Bíblia destinada a ser lida como literatura”.

Ele dizia-me sempre: “Se precisares de alguma coisa, abre a Bíblia ao calhas e encontras lá tudo.” E essa Bíblia nunca sai de casa, as outras às vezes ainda empresto… Essa e outra que comprei há uns poucos de anos, que é “A Bíblia sem as partes chatas”. Essa também não vai para ninguém. É muito boa, porque ao lado ou em rodapé explica muitas coisas. É uma Bíblia americana, claro… Só podia! [risos] Eu já nem sei quantas Bíblias tenho…

7M – E também foi Mário Castrim o responsável pela sua conversão ao catolicismo?

Não! Foi o Tolentino [Mendonça], mais tarde. O Mário era católico, mas nunca me impôs nada… Nisso ele era muito correto, e nós éramos muito independentes… Até quando finalmente pudemos casar – ele já tinha sido casado antes, ainda não havia o divórcio, por isso foi muito complicado. Foi muito engraçado, porque eu saí do meu jornal, ele saiu do dele, fomos ali casar ao registo, ele voltou para o jornal dele e eu voltei para o meu… Depois lá fizemos uns diazinhos de lua de mel, a passear… mas poucos! As pessoas estavam todas contra o nosso casamento, por ele ser mais velho do que eu… Diziam que eu ia ser enfermeira dele, que eu ia ficar viúva muito cedo… Mas ele é que foi meu enfermeiro e morreu com oitenta e tal anos, por isso não fiquei viúva muito cedo! E aqueles que ao princípio criticavam acabaram por mudar de discurso. Foi o caso de uma tia minha, que no fim já dizia que o Mário tinha sido a melhor coisa que tinha entrado na nossa família.

Foi um caso mesmo de paixão… Não me lembro de nos termos zangado, assim uma zanga a sério… Nunca. Mas também foi por termos tido sempre uma relação com muita liberdade e respeito um pelo outro. Uma vez, estava eu no Diário de Notícias e o chefe de redação disse que precisava que no dia seguinte alguém fosse a Madrid. Eu disse: “Vou eu!” E uma colega minha, que era extremamente feminista, olhou para mim e disse: “Mas tu ainda não perguntaste ao teu marido se podias ir!” E eu respondi: “Para quê? Chego a casa e digo: Olha, amanhã vou a Madrid.” Ela ficou espantadíssima. Cada um tinha a sua vida e também foi isso que ajudou… Na vivência da fé, também era assim.

7M – Mas ele era praticante?

Era… de vez em quando! [risos] Às vezes, lá ia à missa, e eu ficava em casa. E não batizámos os nossos filhos, nem os pusemos na catequese, porque pensámos: “Depois quando crescerem, eles decidem”. O meu filho saiu ao meu marido e é profundamente comunista, não se batizou… a minha filha nem sei. Mas aquilo que eu quero, mais do que eles serem batizados ou católicos, é que eles sejam muito boas pessoas e realmente são. Depois, quando o Tolentino me levou para esse caminho, também aí não interferiu nada com eles.

Alice Vieira com cardeal José Tolentino Foto Direitos reservados

Alice Vieira com o cardeal José Tolentino Mendonça, em Lisboa, janeiro de 2020. Foto: Direitos reservados.

7M – Conte-me então a história da sua conversão!

Eu conheci o Tolentino há muitos anos quando ele tinha publicado o primeiro livro de poesia e estávamos na Feira do Livro de Frankfurt. Gostámos muito um do outro, rimo-nos muito, demos passeios… foi mesmo divertido! Cheguei cá e diz-me assim a minha editora: “Já sei que estiveste com o padre Tolentino…”. E eu: “O Tolentino é padre???” [risos] Ele não parecia nada padre… Agora parece, claro! Mas naquela altura não parecia nada! Continuámos a dar-nos muito e eu passei a ir à Capela do Rato – onde já tinha estado muito novita, muito antes do Tolentino, antes do 25 de Abril, quando houve ali uma vigília – que era assim uma coisa extraordinária…

Ele fazia uma coisa: pedia às pessoas que iam, àqueles que iam sempre, para levar consigo uma pessoa que não fosse católica, que até podia ser ateia, para lá estar, para ouvir e para depois falar… Na altura da Comunhão, havia muitos casais divorciados, e ele pedia-lhes que se aproximassem e fazia-lhes uma cruz na testa, [em sinal de bênção]. E até parecia Jesus Cristo com as crianças. Havia lá dois degrauzitos e os miúdos estavam lá todos sentados, ao pé dele! E não se portavam mal! Falava muito de arte, de pintura… Quando o meu marido morreu, ele fez uma homilia e uma missa tão bonita… Eu gostava muito dele… Depois foi não sei para onde, depois para a biblioteca [do Vaticano], e depois olhe… perdi-o! [Risos]

7M – Mas ficou a fé!

Ah, ficou a fé e ficou a amizade dele… Isso ficou tudo. Tem-me ajudado muito. Quando eu escrevi o livro Histórias da Bíblia Para Ler e Pensar, foi ele também que me dirigiu, que me corrigiu alguma coisa, que me disse “olha, se calhar era melhor também falares nisto”…

7M – Porque é que decidiu escrever um livro com histórias da Bíblia?

Isso começou assim: fui uma vez a uma escola de miúdos pequenos e a dada altura disse assim: “Olha, isso é aquilo que aparece na história ‘Corre, corre, cabacinha’… Vocês sabem a história, não sabem?” Mas ninguém sabia, nem os meninos, nem as mães dos meninos… E eu cheguei à editora e disse: “Vou fazer uma série de livros, de histórias tradicionais para os miúdos”. Fiz umas seis ou sete. E depois decidi também fazer um de histórias da Bíblia, que correu muito bem. Porque eu acho que, mesmo que uma pessoa não seja católica, como já disse há pouco, deve ler a Bíblia.

Em Inglaterra, a minha neta, quando era miúda, tinha uma disciplina de Religião, em que os meninos aprendiam as religiões que havia, iam ver templos hindus, iam ver mesquitas, igrejas protestantes, católicas, e depois falavam daquilo tudo. E liam a Bíblia, mas liam a Bíblia para ser comentada. Uma vez, fui buscá-la à escola e ela vinha pelo caminho a dizer “De São Mateus gosto, de São Lucas é que eu não gosto… Oh avó, aquilo é só ‘Faz isto, não faças aquilo!’.” [Risos] Eu acho que era importante e bom que essa disciplina também fosse obrigatória cá. Os miúdos agora não sabem nada sobre religião. Daí ter escrito o livro.

7M – E nos seus outros livros, de que forma é que a sua fé se manifesta?

Creio que não se manifesta… Nos meus livros, manifesta-se aquilo que eu sou, que é jornalista. Talvez neste último, Diário de Uma Avó e de um Neto Confinados em Casa, fale um pouco sobre isso. Aliás, o Nélson Mateus, que escreveu o livro comigo, foi um dos que eu levei à Capela do Rato. É ateu… e gostou muito! Não ficou religioso, mas gostou muito! [Risos]

 

Alice Vieira com Nelson Mateus na Capela do Rato em novemrbo 2019 Foto Direitos Reservados

Alice Vieira com Nélson Mateus na Capela do Rato, em novembro de 2019. Foto: Direitos Reservados.

7M – Diz muitas vezes que a sua vida dava um romance… Está nos seus planos uma autobiografia?

A minha editora já me pediu muitas vezes e eu digo que não. Mas tenho um amigo, a quem já entreguei diários e outras coisas que eu escrevi, e é ele que depois vai escrever, quando eu já estiver morta. Eu não gosto de ler autobiografias, por isso não iria escrever a minha! [Risos]

7M – Já publicou perto de 90 livros… Há mais algum na calha?

Sim, vai haver mais um volume do diário da avó e do neto e escrevi um livro com a Manuela Niza, durante a pandemia, que vai sair ainda este ano. Estou também a escrever um novo romance para adultos… E talvez gostasse de fazer mais um livro de poesia. Tenho quatro, mas a chatice é que só escrevo poesia quando estou apaixonada, e agora não estou… Vou ver se me apaixono por qualquer coisa, também não é preciso que seja um homem! [Risos]

7M – Mantém uma colaboração de longa data com a revista Audácia, dos Missionários Combonianos… O que representa para si?

Os Combonianos foram e são muito importantes para mim! Quem começou a trabalhar com eles foi o meu marido, que escrevia coisas para a revista, ia lá, e nunca esqueci que, quando ele esteve três meses no hospital, nesses três meses havia sempre um deles que estava lá a acompanhá-lo. O Partido Comunista nunca lhe mandou ninguém, nem pouco mais ou menos… Nem sequer telefonava a saber se ele estava melhor… nada!

Depois, o Mário morreu e eu naquela altura perguntei se não queriam que eu ficasse, não no lugar dele, claro, mas a fazer [o trabalho que ele fazia]. Fiquei e gosto muito deles, dou-me muito bem com eles… De vez em quando vou lá almoçar, são mesmo uma família.

7M – Deram-lhe outra perspetiva do que é a Igreja?

Sim, completamente, sobretudo por aquilo que eles querem… Eles não querem estar em São Sebastião da Pedreira, eles querem estar onde é preciso… De resto, eu tenho o meu mano Claudino (tratamo-nos por “irmãos”), que está no Congo e de vez em quando manda-me fotografias… Aquele sítio é uma coisa… Eu fico a pensar “Ai, desgraçado…”, mas ele nem pensar em sair dali, porque ali é que ele está bem. Tenho uma ligação forte com eles e vou mantendo o contacto pelo computador com os que estão lá fora. Fiz muitos amigos na Igreja… Se calhar tenho mais amigos dentro da Igreja do que fora!

Alice Vieira e Mário Castrim, nos finais dos anos 90, com o padre Albino Reis, então missionário comboniano, hoje na Diocese do Porto. Foto: Direitos reservados.

7M – Voltando à Bíblia, tem algum livro preferido?

Gosto muito de ler os Evangelhos, e o meu preferido é o de São Mateus, porque é o mais ativo.

7M – E a experiência que o Mário Castrim lhe aconselhou, de a abrir ao calhas quando precisa de algo, resulta?

Olhe que é mesmo verdade… Sobretudo quando estamos um bocado em baixo. É realmente de ter à cabeceira… Eu tenho três ali! E dou muitas.

7M – Além de colecionar Bíblias, também coleciona presépios… Como nasceu essa coleção?

Como disse, a minha família era ateia, e o Natal para a família era a árvore de Natal e acabava-se, ficava ali. Depois, eu cresci e os meus presépios começaram quando eu tive filhos. Foi então que passei a ter, e ainda tenho, um presépio enorme, que uns dias antes do Natal colocávamos numa mesa redonda grande. Era um presépio onde eles podiam mexer e era o que tinha mais graça, porque o que os meus filhos pequeninos punham no presépio era de chorar a rir. Punham os maus e os bons. Do lado dos maus, estavam o Darth Vader, e um romano… evidentemente. Também havia um tipo a tirar fotografias…

Depois fui comprando mais presépios. Onde quer que eu fosse, comprava um presépio. Já são cento e tal e ainda compro. Quando chega o Natal, é presépios por toda a parte! Em todas as mesas, na entrada… E às vezes quando eu vou às escolas, os miúdos sabem, e se é na altura do Natal também me dão. Tenho um que é um vaso, com duas colheres de pau, uma maior e outra mais pequena, que representam o São José e a Nossa Senhora, e depois uma colher ainda mais pequenina, que é o menino Jesus… Gosto muito desse. Depois tenho presépios que me mandam de sítios estranhíssimos… e são muito bonitos. Tenho um presépio russo, tipo matrioskas. Tenho um da Ericeira, com a Nossa Senhora, o São José e o menino Jesus a fazerem surf. Também tenho outro em que está a Virgem Maria a dormir, coitadinha, e o São José sentado a embalar o menino, mas com um ar muito chateado! [risos] Adoro o presépio, porque simboliza a família, a união, a abertura da família.

Alice Vieira junto a alguns dos presépios que tem expostos durante todo o ano na sua casa da Ericeira. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS.

7M – A Alice costuma dizer que é muito “nataleira”…

Ai, o mais possível… Eu começo o Natal, sei lá… Para aí em setembro! Para tirar as coisas todas, para pôr os presépios… Eu sou tão nataleira como sou de aniversários. Aprendi com a Alice no País das Maravilhas (que é outra coisa de que eu faço coleção), quando ela diz uma coisa muito certa: que celebra os aniversários e os desaniversários! Eu também celebro os desaniversários. O meu aniversário este ano já foi celebrado para aí umas dez vezes, e ainda hão de vir mais… Porque não podem estar todos ao mesmo tempo, de maneira que vêm uma vez uns, outra vez vêm outros, e pronto, assim é que eu gosto.

7M – Quando se celebram 80 anos, não é para menos…

Ah, mas se eu tivesse 40 ou 50 era a mesma coisa! [Risos]

7M – E como lida com a perspetiva da morte?

Eu já estive tantas vezes perto dela que já quase me habituei! A primeira vez foi quando nasceu a minha filha. Apanhei uma septicémia, a miúda já estava em casa com o pai e eu ainda estava no hospital… As pessoas já torciam todas a cabeça, já só me lembro de ver assim uma pessoa ao fundo… Mas safei-me. Depois, tive um cancro da mama e o médico, depois de eu lhe ter perguntado “Diga-me lá doutor, eu preciso de saber, quanto tempo é que tenho de vida?…”, deu-me dois anos. E eu disse “Dois anos de vida? Vão ser os melhores anos da minha vida!”

Fui viajar, foi na altura da queda do muro de Berlim, e eu estava lá, nessa altura… O que eu viajei!… Passaram os dois anos, três, quatro, e o dinheirito já faltava, não é? [Risos] Então pensei: “Eh pá, se calhar tenho de voltar para o Diário de Notícias”… E realmente voltei, e isto já foi há 33 anos! E ainda hoje o médico, que é médico da minha filha, diz “Eu juro que não percebo… É que não era só a mama, era o corpo todo da tua mãe que estava cheio de metástases… Todo, todo! A gente não conseguiu tirar…” Mas também nunca pensei muito na morte… É inevitável, todos nós morremos, não é? E depois quando lá chegar acima, eu aviso! [Risos]

7M – Sei que, também no velório do Mário Castrim, apesar de ser um momento de dor, manteve o bom humor…

É verdade! Quando recebi a notícia da morte dele, fiquei sem saber o que fazer… O meu irmão é que tratou de tudo: fato, sapatos… Mas esqueceu-se de ver os bolsos do casaco. No meio do velório, toca um telemóvel. Estava no bolso do casaco dele! E quem estava a telefonar era um velho amigo nosso, que se chamava José de Deus, e que o Mário tinha na lista de contactos apenas como “Deus”. Eu olhei, sorri e murmurei: “Já lá chegou!”. Aceitar a morte não é fácil, mas eu digo sempre que aquilo em que nós temos de pensar é no bom que foi ter as pessoas na nossa vida.

7M – Quem fala muito na importância do bom humor é o Papa Francisco…

É meu primo! [Risos] Eu explico como é que ele é meu primo: o meu apelido é Vassalo. Eu sou Vieira de Vassalo. E o Papa Francisco (eu leio tudo sobre ele e o que ele escreve) diz muitas vezes que a avó dele, que era italiana, se chamava Rosa Vassalo, e era uma grande mulher… Ora, os Vassalos são só uma família que tem dois grandes ramos: um em Malta e outro em Itália. Portanto, o Papa é meu primo! Se a avó dele era italiana e se chamava Vassalo, então com certeza que é meu primo…

7M – Já lhe escreveu a contar isso?

Já!

7M – E ele respondeu?

Respondeu! Respondeu assim com uma cartinha assinada, a dizer que agradecia muito e que talvez fosse verdade!

7M – Pode ser que em agosto se encontrem…

Ah, bem queria… Porque eu com ele, corpo a corpo, nunca estive.

7M – Esteve com o Papa Bento XVI… Como foi esse encontro?

Foi uma honra para mim, porque fui convidada para integrar um grupo de dez personalidades da cultura que o foram cumprimentar num encontro que houve no Centro Cultural de Belém, quando ele veio a Portugal em 2010. Disse logo que sim! Não quer dizer que ele fosse assim o Papa da minha vida, mas era o Papa…

Alice Vieira em encontro com o Papa Bento XVI, 12 maio 2010. © Daniel Rocha/Público, cedida pelo autor.

Alice Vieira foi uma das dez personalidades da cultura que tiveram oportunidade de saudar o Papa Bento XVI, aquando da sua vinda a Portugal, em maio de 2010. Foto © Daniel Rocha/Público, cedida pelo autor.

7M – Identifica-se mais com o Papa Francisco.

Sim, e tenho muito receio de quando ele morrer. Ele está muito velho, tem tido problemas de saúde… Esperemos que ele ainda aguente, porque tenho muito receio de quem é que vem a seguir a ele… veremos.

7M – O que mais aprecia nele?

A abertura dele, o dar-se com pessoas importantes de outras religiões, o ir aos sítios onde ele vê que é necessário ir, mesmo que seja muito longe. Dá a vida dele para os outros e é isso que me importa mais. E o facto de falar nas mulheres, nos homossexuais, o outro que vier a seguir não sei se vai falar disso…

7M – E a Igreja está a atravessar uma fase particularmente complicada…

Sim, a Igreja está a atravessar uma fase muito complicada, com isto dos abusos. Se os padres se pudessem casar, como os protestantes, já não havia abusos, ou havia muito menos. Eu acho até que um padre casado percebe muito melhor as dificuldades que as pessoas têm. A Igreja precisa de reforma e o Papa Francisco já está a fazer e fez bastantes, por isso é que eu tenho muitas dúvidas em relação ao que vem a seguir…

7M – Gostava que fosse o cardeal Tolentino?

Então não gostava… Quero dizer: não! Aí então é que ele não tinha mesmo tempo para mim! [Risos] Agora a sério, claro que gostava. Mas ele faz-me muita falta.

Fonte:  https://setemargens.com/alice-vieira-devia-haver-uma-disciplina-de-religiao-obrigatoria/?utm_term=Alice+Vieira%3A+a%3F%3F%3F%3FDevia+haver+uma+disciplina+de+Religiao+obrigatoriaa%3F%3F%3F%3F&utm_campaign=Sete+Margens&utm_source=e-goi&utm_medium=email