quarta-feira, 28 de junho de 2023

“Imploro-te não abuses” de Patrick C. Goujon, quando um padre foi vítima de abuso

P. Andreas Lind, sj*

Com o relato de Patrick aprendemos que não falar, não assumir o abuso, a injustiça, leva a vítima a experimentar uma negação que, ao invés de apagar, intensifica a dor.

Chegou, finalmente, às livrarias portuguesas o célebre livro de Patrick Goujon. Publicado pelas Paulinas, Imploro-te não abuses contém o relato íntimo e corajoso de uma vítima de abuso sexual. Trata-se de um tema delicado que, aqui, é abordado de forma pessoal e comovente. A particularidade do relato é a vítima ser, neste caso, um padre. Com efeito, Patrick não se expressa apenas como vítima de abuso, mas também enquanto sacerdote jesuíta. É nessa qualidade que ele relê a sua história de vida. Não se descrevem propriamente os abusos, mas o processo de tomada de consciência de alguém que foi vítima e, para o assumir, precisou de tempo, muito tempo, e de muita ajuda.

Aos 48 anos, Patrick voltou à infância, nas suas experiências mais traumáticas, num momento em que a sua mãe se encontrava doente, todos os dias acamada à espera do seu telefonema. O relato toca-nos. É impossível que a sinceridade das suas palavras, tecidas num estilo poético, não nos afete. Sem pudor em apresentar a sua fragilidade, Patrick acaba por revelar imensa força. Afinal, assume a vergonha, o medo, a dúvida, o sentimento de culpa, a impotência em sofrer, de não perdoar. Mas tem a força para o dizer. No fundo, ele narra-se conosco. E, dessa forma, liberta-se.

Sendo vítima, e reconhecendo toda a injustiça que lhe infligiram, Patrick vive para além do ressentimento. E isso comove-nos. Não se fecha num ódio ressabiado. Nem exige que um justiceiro restabeleça a vida perdida. Pelo contrário, solta-se com arte conduzindo-nos, através das suas palavras, à reconciliação que vai fazendo com a sua própria história.

Sendo vítima, e reconhecendo toda a injustiça que lhe infligiram, Patrick vive para além do ressentimento. E isso comove-nos. Não se fecha num ódio ressabiado. Nem exige que um justiceiro restabeleça a vida perdida.

Foram muitos anos de negação. Sem se aperceber que tentava silenciar subconscientemente o trauma, o seu corpo acabou por gritar de dores. Não podia ser de outra forma, pois “a negação não esquece”, apenas “conserva” (p. 23). As dores físicas nas costas levaram-no a consultar inúmeros médicos. Sujeitou-se a sucessivas terapias, desde as que os reumatólogos aconselhavam até às soluções sugeridas pelos osteopatas. Dado o insucesso dos analgésicos e das massagens, acabou por tentar curar-se nas medicinas alternativas. E quanto às dores, essas continuavam. Os médicos não sabiam o nome da sua doença. Mas ele não se livrava das crises periódicas que lhe afetam os dias e o sono das noites.

Foi, então, que as dores físicas começaram a subir para os seus «lábios» (p. 10), não fossemos nós seres psicossomáticos. A ferida na sua alma afetava todo o corpo. Era isso o que estava a acontecer. Patrick foi compreendendo, pouco a pouco, que a cura só poderia resultar de um processo de articulação entre corpo, mente e história de vida.

A ferida na sua alma afetava todo o corpo. Era isso o que estava a acontecer. Patrick foi compreendendo, pouco a pouco, que a cura só poderia resultar de um processo de articulação entre corpo, mente e história de vida.

Foram fundamentais as palavras que um médico lhe proferiu: aquele «Cuida-te!» ia ressoando no seu coração (p. 19). E, assim, ele começou a viver a experiência de dor cada vez menos como um mero «paciente», para se tornar cada vez mais num «sujeito»: numa pessoa que procura não ter de se sujeitar a dores desproporcionadas. Despoletou, então, o processo de libertação.

O seu relato mostra-nos como a fragilidade humana não se desvanece com a força da coragem e da fortaleza, de quem não desiste em caminhar num processo de cura.  Com o seu livro, Patrick ajuda-nos a perceber que a denúncia não se faz apenas para castigar o abusador. Trata-se, sobretudo, de um passo fundamental no processo de reconciliação e de cura das dores psicossomáticas. Pessoas da sua confiança, muitas vezes ligadas à Igreja, não compreendiam por que razão ele desejava, a dado momento, falar, denunciar, apresentar queixa. Depois de tantos anos, pensavam que talvez fosse melhor pôr uma pedra sobre o assunto, e seguir em frente… Mas fugir à realidade da sua história não o ajudava a libertar-se da mágoa, do rancor, do sofrimento.

Com o seu livro, Patrick ajuda-nos a perceber que a denúncia não se faz apenas para castigar o abusador. Trata-se, sobretudo, de um passo fundamental no processo de reconciliação e de cura das dores psicossomáticas.

Com o relato de Patrick aprendemos que não falar, não assumir o abuso, a injustiça, leva a vítima a experimentar uma negação que, ao invés de apagar, intensifica a dor. Uma vez cometido o abuso, é preciso reconhecê-lo. Uma vez feita a injustiça, não podemos viver a fazer de conta que nada foi, e já passou. Não passou. Está lá. E, por isso, convém falar. Não esqueçamos o que Patrick nos diz: «o que sofria nas minhas costas subiu para os meus lábios.» (p. 10)

Nesse sentido, notamos como foi importante, para Patrick, ter percebido que outras pessoas também tinham sido vítimas do mesmo padre. É estranho, mas ele sentiu alguma alegria e paz quando lhe descreveram experiências semelhantes à sua, perpetradas pelo mesmo abusador. Afinal, havia uma comunidade de vítimas da qual ele fazia parte. Terminou, assim, o medo do trauma ser fruto da imaginação de uma memória antiga, que aquela criança nunca quis ter. Quando alguém lhe disse que o tal padre, cujo nome Patrick não proferia sem gaguejar, era mesmo pedófilo, aí ele compreendeu: «Não estava a delirar (…) Eu estava certo.» (p. 29)

A consciência de ter sido vítima de abuso sexual foi-se ganhando, progressivamente, com o conforto de amigos e também com a surdez de algumas esferas eclesiais. Patrick acabou por perceber que, «se a culpa é apenas do agressor, a responsabilidade é eclesial.» (p. 77)

Contudo, reconhece que o respeito pelos procedimentos canónicos nunca é suficiente. Embora a observância de regras claras, justas e transparentes seja importante para que as decisões não fiquem sujeitas à arbitrariedade dos superiores hierárquicos, é preciso adotá-las numa abertura à particularidade de cada pessoa. Neste aspeto, o relato de Patrick promove a empatia pessoal não só com o leitor, mas também no tratamento destas questões pelas autoridades competentes. É interessante perceber, neste contexto, como a vítima, ao assumir hoje cargos de responsabilidade, tende a sentir uma «raiva desproporcionada» perante a incapacidade de evitar injustiças que todos nós vamos assistindo nas instituições, limitadas e finitas, deste mundo – e desta Igreja (p. 22).

Por último, pode-nos surpreender aquela que talvez apareça como a grande particularidade deste relato: quem foi vítima em criança de um padre é, hoje, um sacerdote jesuíta. É compreensível o espanto do inspetor da política, depois de acolher o relato: «E, no entanto, você hoje é padre. Como é possível?» (p. 59) Patrick levou a questão a sério. Tem-na rezado até aos dias de hoje. O seu relato dá-nos a sensação de estarmos diante de alguém que, desde muito cedo, deseja viver como Jesus: uma vítima que se recusa entrar na lógica da violência. Abrir os braços na cruz é amar sem possuir. Esse amor, Patrick quer vivê-lo no seu celibato. É assim que ele se vai curando.

Tem-na rezado até aos dias de hoje. O seu relato dá-nos a sensação de estarmos diante de alguém que, desde muito cedo, deseja viver como Jesus: uma vítima que se recusa a entrar na lógica da violência. Abrir os braços na cruz é amar sem possuir. Esse amor, Patrick quer vivê-lo no seu celibato. É assim que ele se vai curando.

Patrick reconhece não ter o poder do perdão. Pede que Deus lhe conceda essa graça. Não nega a sua ferida. Nem se cala dela. Talvez seja esse o preço da alegria e da verdadeira liberdade.

* Doutorado em Filosofia em 2020 pela Université de Namur, é docente na Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da UCP - Centro regional de Braga.

Fonte:  https://pontosj.pt/opiniao/imploro-te-nao-abuses-de-patrick-c-goujon-quando-um-padre-foi-vitima-de-abuso/

Encontrando uma ideia pela qual vale a pena viver e morrer

 
“A primeira pergunta que naturalmente procuramos responder é qual a relação entre religião, 
cinema e literatura com o filósofo dinamarquês e o que há de fundamental entre eles? Kierkegaard 
nasceu no início de século XIX, ou seja, antes da invenção do cinema, 
o que torna essa relação menos clara. Contudo, o que conecta 
o cinema com os temas supracitados é também 
o que nos conduz a Kierkegaard: a narrativa.” Foto © Tom Swinnen / Pexels

Este é o meu primeiro texto para o jornal digital 7MARGENS. Quando recebi a oportunidade para escrever neste espaço sobre religião, cinema e literatura, pensei em iniciar escrevendo sobre o que há em comum nesses temas, sobre os quais tenho conduzido as minhas reflexões enquanto investigador em Ciência da Religião. Além disso, o que para mim é imprescindível não é apenas o caráter teórico dessa relação, mas como aquilo que se apresenta de modo fundamental entre a religião, o cinema e a literatura, também se mostra como crucial à subjetividade. Nesse sentido, também será meu objetivo neste espaço refletir com o leitor acerca da existência humana; isso significa dizer que as reflexões estarão endereçadas àquelas questões com que lidamos cotidianamente em nossas vidas – isso, se permitimos que a existência se torne um problema para nós. Desse modo, o autor que constantemente aparecerá por aqui é o filósofo dinamarquês Søren Aabye Kierkegaard (1813-1855).

A primeira pergunta que naturalmente procuramos responder é qual a relação entre religião, cinema e literatura com o filósofo dinamarquês e o que há de fundamental entre eles? Kierkegaard nasceu no início de século XIX, ou seja, antes da invenção do cinema, o que torna essa relação menos clara. Contudo, o que conecta o cinema com os temas supracitados é também o que nos conduz a Kierkegaard: a narrativa. Se de imediato podemos apontar para um aspecto comum entre religião, cinema e literatura é para o aspecto narrativo que esses temas compartilham. Toda narrativa implica uma jornada. Essa jornada é a aventura que fazemos em nossa trajetória, na qual enfrentamos inúmeros desafios. Kierkegaard foi um pensador que se preocupou em pensar os problemas concretos da existência. Seu pensamento é de difícil classificação, pois sua vasta obra dialoga com a teologia, a psicologia, a literatura e a filosofia. Essa complexidade não é um subterfúgio para o autor se tornar incompreensível; se ela existe é porque ele está lidando com um âmbito em que qualquer redução ou simplificação não lhe permite pensar profundamente a existência e a subjetividade humana.

Para pensar a existência, Kierkegaard construiu narrativas e utilizou personagens para fazer experiências psicológicas e apresentar possibilidades de vida. Além disso, o teatro, a literatura, bem como a filosofia e a teologia, foram fundamentais e serviram de inspiração a Kierkegaard para ele refletir em suas obras sobre os problemas mais cruciais da vida de um indivíduo, pois permitiram que o autor navegasse nessas águas desconhecidas no meio das suas tempestades. Nesse sentido, caso o autor fosse do nosso tempo, certamente ele estaria indo regularmente ao cinema para observar o que essas narrativas comunicam à condição humana. Seria formidável ver a reação de Kierkegaard diante de diretores como Ingmar Bergman e Terrence Malick, bem como vê-lo lidando com as obras de José Saramago, Albert Camus e Emil Cioran. Mas se isso tudo é importante é porque diz respeito a nós, sobre quem somos, sobre o que significa existir e o que significa ser humano. A vida nos coloca uma questão sobre o sentido de nossas vidas e de nossas jornadas.

Acontece que chegará o momento na vida em que teremos de escolher o que fazer com ela. Não apenas recebemos a dádiva da existência, mas com ela também herdamos uma tarefa. Em dinamarquês, a palavra que designa tarefa é opgave, sendo que gave significa precisamente dádiva[1].  Desse modo, uma tarefa consiste em realizar algo a respeito daquilo que lhe foi dado. Se a partir do momento em que começamos a respirar, existir passa a ter um caráter necessário, o que significa que não escolhemos se queremos ou não existir, com essa necessidade nasce também a escolha. Seja lá qual for a circunstância em que nos encontramos, essa escolha implicará na decisão acerca da pergunta sobre o que devemos fazer com a vida que nos foi dada.

Kierkegaard foi um autor que se preocupou com sua interioridade; para ele não bastava descobrir uma verdade objetiva, ele precisava encontrar aquela verdade que fosse verdade para ele, aquela verdade pela qual vale a pena viver e morrer[2]. Portanto, é diante dessa perspectiva, dessa busca incessante que travamos nas narrativas de nossas vidas, que procurarei refletir sobre a religião, o cinema e a literatura.  A tarefa será a de enfrentar os problemas que constituem nossa existência e a de buscar, na tessitura das narrativas, aquela verdade capaz de encontrar sentido e transformar a existência naquilo que ela é: dádiva.

Referências

KIERKEGAARD, Søren. Søren. Kierkegaard’s Journals and notebooks. Volume 1. Copenhagen: 2007. Princeton University Press.
ROOS, Jonas. “Retroceder para avançar: pressupostos para a compreensão da existência como tarefa em Kierkegaard”. v. 24 n. 2 (2021): Numen – Revista de estudos e pesquisa da religião. Acesso em 19/06/2023. Link: https://periodicos.ufjf.br/index.php/numen/article/view/38372

[1] Para uma compreensão mais aprofundada sobre o conceito de opgave, bem como da relação entre existência e tarefa, ver: ROOS, Jonas. “Retroceder para avançar: pressupostos para a compreensão da existência como tarefa em Kierkegaard”. v. 24 n. 2 (2021): Numen – Revista de estudos e pesquisa da religião. Acesso em 19/06/2023. Link: https://periodicos.ufjf.br/index.php/numen/article/view/38372, p. 136.
[2] Em uma carta registrada de 1 de agosto de 1835, Kierkegaard reflete sobre o que ele deveria fazer. Ele escreve que precisava encontrar uma verdade que fosse verdade para ele, uma verdade pela qual vale a pena viver e morrer. Irei abordar mais este tema nos próximos textos. (Journal AA ,12, p. 19)

*Presley Henrique Martins é graduado em Filosofia e mestre em Ciência da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Brasil. Atualmente, é doutorando em Ciência da Religião pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), conduzindo parte do seu período de pesquisa na University of Copenhagen – Københavns Universitet, Dinamarca. Pesquisa o pensador dinamarquês Søren Kierkegaard, bem como a relação entre religião, existência, literatura e cinema. | 27 Jun 2023

Fonte: 

https://setemargens.com/encontrando-uma-ideia-pela-qual-vale-a-pena-viver-e-morrer/?utm_term=FEEDBLOCK%3Ahttps%3A%2F%2Fsetemargens.com%2Fefeed%3Degoi_rssfeed_xKnmS3HTbxoNOuINFEEDITEMS%3Acount%3D1FEEDITEM%3ATITLEENDFEEDITEMSENDFEEDBLOCK&utm_campaign=Sete+Margens&utm_source=e-goi&utm_medium=email

 

A guerra da Ucrânia vista por um russo em Paris

por

A guerra da Ucrânia vista por um russo em Paris  
Foto: Kremlin/Divulgação

As milícias Wagner deram um susto em Vladimir Putin. Ele usou esse grupo de mercenários de ultradireita para atiçar fogo em Donbass, região ucraniana de maioria russa. A guerra andou e Putin viu sua massa de manobra voltar-se contra ele por motivos escusos, mas cristalinos: poder. Em Paris, o russo Ilia Kiriya, especialista em comunicação e mídia, membro do Conselho Editorial da revista Hermès, dirigida pelo sociólogo Dominique Wolton no Centro Nacional de Pesquisa Científica da França (CNRS), não hesitou em designar, quando o abordei, quem tem razão no conflito: “A Ucrânia”, disse. Aproveitei para questioná-lo sobre como vê o relato da guerra nos jornais ocidentais. Segundo ele, há certo viés na medida em que a cobertura é francamente favorável aos ucranianos. Essa afirmação, porém, não altera para ele o principal: a Rússia invadiu a Ucrânia. Ponto final.

Há três meses, Kiriya mudou-se para a Universidade de Grenoble. A vida na Rússia para quem tem opiniões como a dele poderia ficar perigosa. Criticar o governo e o seu papel no conflito podem dar cadeia. Quem o faz, pode até mesmo ser considerado traidor. A população russa, explicou, está saturada da guerra, mas consome o que a imprensa oficial lhe serve e, no geral, apoia a visão fornecida por Vladimir Putin. Mas, afinal, por que Putin atacou a Ucrânia? “Antes de tudo para ter um inimigo externo capaz de lhe permitir criar uma situação interna favorável eliminação de qualquer oposição”. E aquela ideia de retomar o projeto da “Grande Rússia” ou algo do gênero embutido na mitologia da nação? “Uma ideologia que Putin constrói para consumo interno”, esclarece. Nada de muito heroico.

Preciso e direto, Kiriya fulmina com risos impiedosos as teses sobre a desnazificação da Ucrânia: “Isso é ridículo. Não passa de putismo primário, grosseiro, propaganda oficial disseminada por toda parte. Não é sério”. O mesmo tipo de raciocínio ele usa para rechaçar o argumento de que Putin teria agido para salvar a população de Donbass da perseguição ucraniana”. Para Kiriya o antiamericanismo da esquerda ocidental não pode cegá-la. Pensar assim não o impede de caracterizar o presidente ucraniano Zelensky de populista e demagogo. Em outras palavras, se outras palavras são mesmo necessárias, Putin nem sequer tem uma megalomania para chamar de sua ou uma narrativa grandiosa para iludir os tolos. A intenção da operação que desencadeou de seu gabinete não alça voo: rasteja. Resume-se a ter pretextos para sufocar partidos de oposição ao seu regime, calar a boca dos insatisfeitos mais insistentes e silenciar a mídia que o rejeita.

Pergunto se o número de mortos anunciado pelas partes ou divulgado na imprensa corresponde aos fatos, diz que não há como saber. Boa parte da esquerda brasileira não esconde por quem bate o seu coração. É isso que se chama negativamente de ideologia. Ver o mundo a partir de uma lente que distorce os fatos para que eles correspondam a uma narrativa prévia. 

Complexidade pode ser frustrante. Quebra lentes e convicções.

*Jornalista. Escritor. Prof. Univeristário

Fonte:  https://www.matinaljornalismo.com.br/matinal/colunistas-matinal/juremir-machado/a-guerra-da-ucrania-vista-por-um-russo-em-paris/?utm_source=Assinantes&utm_campaign=912aad8298-EMAIL_CAMPAIGN_2023_06_27_10_20_COPY_01&utm_medium=email&utm_term=0_-d1a92a32c7-%5BLIST_EMAIL_ID%5D&mc_cid=912aad8298&mc_eid=02eb3e5cec

Como um espinho no coração que impele para o caminho

Andrea Monda*

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/7/72/Frontispiece_promessi_sposi.jpg/450px-Frontispiece_promessi_sposi.jpg

Autor Alessandro Manzoni
Gênero romance histórico
Data de publicação 1827

Na habitual saudação depois do Regina Coeli, na manhã de 28 de maio, o Papa começou por recordar o poeta e romancista Alessandro Manzoni, do qual há uma semana, a 22 de maio, foram comemorados os 150 anos da morte. Elogiando a sua arte literária, o Papa recordou-o como «cantor das vítimas e dos últimos» e referiu-se depois à história narrada na sua obra-prima, o romance Os Noivos, que ele muito aprecia.

Durante estes dez anos, Francisco falou muitas vezes dos poetas, da arte e da literatura em particular, como quando, por exemplo, ao regressar da viagem ao Oriente, se referiu ao “défice de poesia” que aflige os países ocidentais. Para não falar de Dostoievski, muitas vezes citado especialmente sobre o tema da liberdade, ou de Virgílio ou do próprio Dante, a quem o Papa quis dedicar uma inteira carta apostólica, a Candor lucis aeternae.

Estas referências contínuas revelam não só a amplitude das leituras de Jorge Mario Bergoglio, mas também a profundidade da sua visão de crente e de pastor, ou seja, não estamos numa área marginal da sua vida de homem de fé, mas no seu coração. Neste sentido, é esclarecedor ler o artigo do padre Antonio Spadaro, publicado no número de 4 de março de La Civiltà Cattolica, sobre A Literatura na formação do Papa Francisco, e, mais ainda, as próprias palavras que o Papa pronunciou no discurso de sábado 27 de maio aos participantes na conferência da La Civiltà Cattolica com a Georgetown University «A estética global da imaginação católica».

No início deste discurso, depois de ter citado Dante e Dostoievski, o Papa afirmou que «as palavras dos escritores me ajudaram a compreender-me a mim próprio, o mundo, o meu povo; mas também a aprofundar o meu coração humano, a minha vida pessoal de fé e até a minha tarefa pastoral, inclusive agora neste ministério. Assim, a palavra literária é como um espinho no coração que impele à contemplação e te põe a caminho. A poesia é aberta, lança-te para outro lado».

Uma afirmação poderosa: a poesia é também um instrumento para aprofundar a própria fé. Mas um instrumento que deve ser manuseado com cuidado, porque é «como um espinho no coração». Nada de idílico, não é um passeio entre as flores, mas uma experiência dramática, se não abismal. Este espinho assemelha-se, mas não é o “espinho na carne” do qual São Paulo fala na sua segunda carta aos Coríntios, que mortifica e afasta o risco da soberba. Certamente há um risco também na literatura se esta se tornar uma fuga da realidade, uma alienação frustrante que leva Mallarmé a suspirar no poema Brisa marinha «A carne é triste, sim, e eu li todos os livros». Mas este é um espinho que não mortifica, antes vivifica, pois, diz o Papa, impele à contemplação e ao caminho. Passando (um pouco abruptamente) de Mallarmé para Ian Fleming, vem-me à mente uma personagem de uma história do famoso agente 007 que, tendo levado um tiro no coração, não está (ainda) morto, apesar de a bala continuar a aproximar-se do órgão vital e de este facto ter, como efeito secundário, o “privilégio” ambivalente de já não sentir qualquer dor física.

O espinho no coração do qual fala o Papa desenvolve o efeito contrário: não anestesia, mas torna hipersensível. A palavra literária consegue este efeito: aumenta (a palavra “autor” vem do verbo latino augeo: aumentar, fazer crescer) e faz crescer a experiência de vida do leitor, que se torna mais sensível, adquire um olhar mais amplo, agudo e profundo. O artista sente “mais” e, ao sentir, permite que os outros sintam. O artista é um instrumento transmissor; ao receber um “choque” (de dor ou de alegria) da vida, volta a pô-lo em circulação, com o seu cunho único e inconfundível, o seu estilo que o distingue de mil outros artistas.

Este papel de oposição à tendência, muito forte atualmente, de procurar formas de se “anestesiar” faz do poeta e de cada artista uma figura fundamental no corpo social. Porque a arte sacode e desperta as consciências. No seu discurso de sábado, o Papa explicou que os artistas são «a voz das inquietações humanas», aquelas inquietações que muitas vezes acabam «enterradas nas profundezas do coração». Deste ponto de vista, disse o Papa, «bem sabeis que a inspiração artística não é apenas reconfortante, mas também inquietante, pois apresenta tanto as belas realidades da vida como as trágicas», pelo que a tarefa dos artistas é ser «criativos, sem domesticar as inquietações, vossas e da humanidade. Receio este processo de domesticação, porque tira a criatividade, tira a poesia. Com a palavra da poesia, recolher os desejos inquietos que habitam o coração humano, para que não arrefeçam e não se apaguem».

No dia 21 de novembro de 2009, no encontro com os artistas na Capela Sistina, Bento xvi citou Platão para dizer que «uma função essencial da verdadeira beleza, [...] consiste em comunicar ao homem um “sobressalto” saudável, que o faz sair de si mesmo, o arranca à resignação ao conformar-se com o quotidiano, fá-lo também sofrer, como uma seta que o fere, mas precisamente desta forma o “desperta” abrindo-lhe de novo os olhos do coração e da mente, pondo-lhe asas, elevando-o. A expressão de Dostoievski que estou para citar é sem dúvida ousada e paradoxal, mas convida a refletir: “A humanidade pode viver — diz ele — sem a ciência, pode viver sem pão, mas unicamente sem a beleza já não poderia viver, porque nada mais haveria para fazer no mundo. Qualquer segredo consiste nisto, toda a história consiste nisto”. Faz-lhe eco o pintor Georges Braque: “A arte existe para perturbar, enquanto a ciência tranquiliza”. A beleza chama a atenção, mas precisamente assim recorda ao homem o seu destino último, volta a pô-lo em marcha, enche-o de nova esperança, dá-lhe a coragem de viver até ao fim o dom único da existência. A busca da beleza da qual falo, evidentemente, não consiste em fuga alguma no irracional ou no mero esteticismo».

A inquietação, a perturbação que os artistas provocam, torna-se uma obra fundamental porque é vital, no sentido literal, uma fonte de vida. Sobretudo para o cristão, que encontra ajuda no trabalho dos poetas que consiste, recorda Francisco, em «dar vida, dar corpo, dar palavras a tudo o que o ser humano vive, sente, sonha, sofre, criando harmonia e beleza. É um trabalho evangélico que também nos ajuda a compreender melhor Deus, como o grande poeta da humanidade. [...] não deixeis de ser originais, criativos. Não percais a maravilha de estar vivos!». Esta última exortação, que o Papa repetiu duas vezes, é quase idêntica à que Chesterton escreveu na sua Autobiografia publicada em 1937, no ano seguinte à sua morte: «Este foi o meu primeiro problema, o de levar os homens a compreender a maravilha e o esplendor de estar vivos». A arte como antídoto contra o tédio e a tristeza e, acrescenta Francisco, «a mentalidade do cálculo e da uniformidade, um desafio ao nosso imaginário».

Poder-se-ia dizer que é um antídoto contra a “previsibilidade”. O poeta argentino Borges comparou de certo modo a filosofia e a poesia, ambas geradas pelo espanto, e observou que «sem dúvida, a nossa existência é um facto curioso. [...] o facto de nos espantarmos com a vida pode ser a essência da poesia. A poesia consiste em sentir as coisas como estranhas [...] A única diferença é que, no caso da filosofia, a resposta é dada de uma forma lógica, enquanto na poesia se utiliza a metáfora».

* Jornalista e escritor italiano, direttore de L'Osservatore Romano dal 18 dicembre 2018. Andrea Monda ...

Fonte: https://www.osservatoreromano.va/pt/news/2023-06/por-022/como-um-espinho-no-coracao-que-impele-para-o-caminho.html - Imagem da Internet

 

Você fala javanês? A sagacidade de um enganador causa graça nos textos e nos palcos

 Leandro Karnal*

Livro do escritor Lima Barreto na Livaria da Vila, na Vila Madalena.

Livro do escritor Lima Barreto na Livaria da Vila, 
na Vila Madalena.  Foto: Tiago Queiroz/Estadão
 
Celebrado conto de Lima Barreto conta a história 
de um jovem que precisa lutar para sobreviver 
e engana para alcançar seus objetivos; 
malandros astuciosos são um 
eixo literário tradicional

O Homem que Sabia Javanês é um celebrado conto de Lima Barreto (1881-1922). Um jovem chamado Castelo precisa lutar para sobreviver. Em Manaus, finge-se de bruxo. No Rio de Janeiro, candidata-se a um cargo raro: professor de javanês. Como desconhece a língua, estuda alguns poucos dados para enganar. Crê que jamais poderão verificar a densidade dos seus conhecimentos. Inicia aulas particulares para um barão idoso. Castelo termina como membro do corpo diplomático brasileiro e é aclamado como um gênio. Tudo sem... falar javanês.

O carioca Lima Barreto ironiza a superficialidade, a empostação e o ridículo das convenções do Brasil da República Velha. Muita cena e pouco conteúdo são o cenário para que malandros possam agir com mais tranquilidade.

Malandros astuciosos são um eixo literário tradicional. Ulisses é destacado na sua capacidade de enganar troianos, um ciclope gigante, uma feiticeira como Circe e pretendentes à mão de sua esposa. João Grilo foi celebrado em Portugal e no Brasil até ser imortalizado na obra O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna. Desde a Idade Média, a Península Ibérica relembra Pedro Malasartes (por vezes com z). Herdamos a personagem na tradição brasileira. Mazzaropi o encarnou no cinema há muitos anos e, recentemente, foi revivido por Jesuíta Barbosa.

O público ama o “pícaro” que consegue se safar de situações embaraçosas, explorando os defeitos dos outros, especialmente vaidade e ambição material. Pode ser um rei como Ulisses, uma personagem do Nordeste, como João Grilo, ou um caipira como Pedro Malasartes.

A sagacidade de um enganador causa graça nos textos e nos palcos. Castelo não apenas jamais foi desmascarado na sua mentira sobre javanês como termina celebrado. João Grilo mente em todo o Auto e ainda escapa do inferno, ganhando uma segunda chance graças ao apelo a Nossa Senhora (ele a invoca com versos jocosos). Vale lembrar que a aparente simplicidade de Pedro Malasartes coloca no chinelo seus enganadores.

Agora, a contradição: moral exaltada de malandros em tudo, mas exigência de governantes ilibados, piedosos, incapazes da mentira. Heróis picarescos que nos encantam e políticos astutos que nos irritam: seria uma contradição em si? Parece que estamos em assimetria entre admiração picaresca e projeção política moralista.

Bem, acredito que você e eu não falamos javanês. Suspeito que desconfiaríamos da afirmação de que alguém sabe a língua complexa. Então, pelo menos, podemos evitar o voto em quem acha que fala javanês. Pangarep-arep é esperança em javanês. Eu acho...

* Historiador. Escritor. Prof. Universitário

Fonte:  https://www.estadao.com.br/cultura/leandro-karnal/voce-fala-javanes-a-sagacidade-de-um-enganador-causa-graca-nos-textos-e-nos-palcos/?j=659891&sfmc_sub=495497372&l=8503_HTML&u=20258362&mid=534001280&jb=3003&utm_medium=newsletter&utm_source=salesforce&utm_campaign=conectado&utm_term=20230628&utm_content=

terça-feira, 27 de junho de 2023

O mito da rebeldia de Mafalda.

Por Isabella Cosse.

 No jornal italiano Il Messaggero, Mafalda foi consagrada como “a rebelde por excelência”

A simpática personagem Mafalda, da história em quadrinhos, conquistou fama mundial durante os anos de ascensão do neoliberalismo. Mas seu sucesso foi devido ao seu compromisso obstinado com as causas sociais que a austeridade e o individualismo desenfreado pareciam ter enterrado.


A consagração da Mafalda em todo o mundo é o fenômeno que marca as últimas décadas de sua história. A cada aniversário, sua popularidade cresce e seu significado social e simbólico muda.

Não pretendo — não poderia — tratar aqui do grande número de episódios — celebrações, edições, exposições, interpretações — que cercaram essa ascensão global. Mas planejo compreender o porquê da tira ter permanecido relevante e quais foram seus principais significados ao longo do tempo.

Com esse desafio em mente, e conforme o objetivo inicial, estudo aqui os novos formatos e canais de circulação no mercado, a expansão do público e as ressignificações que Mafalda teve dentro e fora da Argentina entre o final de 1980 e o início de 2010.

A questão da relevância coloca no centro a tensão entre uma personagem que continua viva — podemos comemorar seus 50 anos —, mas cujo poder simbólico exige que a tira tenha deixado de ser produzida no passado para permitir constantes reproduções.

O problema envolve o status simbólico de Mafalda, que, de acordo com a hipótese que orienta este parágrafo, adquiriu um status sagrado nos últimos vinte e cinco anos. Ela se tornou um mito. Por mito entendo, como Mircea Eliade o descreveu, uma história de “valor inestimável” que oferece modelos exemplares para a conduta humana porque confere significado à existência.

O mito, segundo Eliade, expressa, aprimora e codifica crenças, protege princípios morais e oferece regras práticas para os homens em sua vida social. O autor terminou seu livro em 1963 chamando a atenção para a conexão entre o mito e a mídia de massa. Citando o primeiro ensaio de Umberto Eco sobre o Super-Homem, ele explicou que os quadrinhos canalizavam as “nostalgias secretas” do “homem moderno” que, diante da frustração, sonhava em se tornar um “herói”, ou seja, um “personagem excepcional”.

No decorrer deste artigo, voltarei a essas ideias, mas adiantarei meu argumento. A história de Mafalda nessas últimas décadas vinculou diferentes marcos na criação social e cultural de um mito. A história em quadrinhos — e a história de seu surgimento — expressava um tempo original que condensava “façanhas” (comportamentos, virtudes, moralidades) significativas para as classes médias de diferentes países, cujas condições materiais de existência e suas identidades forjadas trinta anos antes estavam sendo fraturadas.

A criação de momentos marcantes possibilitou que esses significados fossem revividos, transmitidos e atualizados socialmente; permitiu que, aniversário após aniversário, eles assumissem novos significados que os fizeram perdurar. Foi esse processo, estudado nestas páginas, que fez de Mafalda um fenômeno cultural significativo em escala global que ainda é válido hoje.

Consagração global em um contexto neoliberal

As comemorações de Mafalda adquiriram um caráter global com o 25º aniversário. A organização de homenagens na Argentina, na Espanha e na Itália, mais ou menos em uma cadeia de eventos, aumentou o impacto das assessorias de imprensa internacionais na divulgação do evento. As reverberações das notícias — sobre o aniversário, as comemorações, a história da tira — formaram uma espiral em ascensão, na qual cada evento retroalimenta os seguintes.

Nesse tipo de competição de mídia, Mafalda se tornou uma manchete obrigatória, o que, só por esse efeito, deu a ela maior apelo de mídia e, com isso, importância simbólica. A história da origem da tira colaborou por si só. Ela tinha todos os ingredientes para fazer uma história brilhar: um personagem específico e famoso sobre o qual se conheciam histórias interessantes, até mesmo glamourosas, mas que também tinha valor político e cultural e mobiliza a subjetividade dos leitores.

O fato de a história em quadrinhos não ter uma data exata de criação e de ter envolvido um processo como sua origem (desde os primeiros esboços até sua aparição na imprensa) fez com que, por muito tempo, as comemorações se estendessem quase como um continuum no tempo. Como vimos no parágrafo anterior, a natureza processual do nascimento deu uma certa elasticidade com relação à data, o que facilitou a multiplicação de homenagens.

Assim, a publicação do inédito Mafalda e a exposição retrospectiva, o foco das comemorações na Argentina, foram reproduzidas no ano seguinte na Itália e na Espanha. Naquela época, a Europa estava passando por um boom de análises de memória e retrospectivas ao comemorar os 200 anos da Revolução Francesa e duas décadas do Maio Francês.

As comemorações, que sempre favorecem o balanço do passado e as projeções do futuro, com o prestígio produzido pelas cifras gordas, foram colocadas no centro da opinião pública e dos debates políticos. As controvérsias estavam no legado — o significado político que isso tinha no presente — do passado revolucionário.

A questão ganhou densidade em relação à geração rebelde de 1968. Não apenas porque sua classificação histórico ainda era pouco consolidado, mas também porque as sociedades europeias estavam passando por um processo político e social que confrontava as bandeiras levantadas duas décadas antes pelo movimento estudantil e operário.

O efeito político da comemoração explodiu em um campo ideológico dividido, mas em uma época marcada pela crise do socialismo — o Muro de Berlim havia caído em 1989 — e pela ascensão da direita. Por um lado, havia aqueles que estavam prontos para criticar a criação de uma “geração sagrada” e, com ela, a de ocasiões “nostálgicas” e “melancólicas” que revalorizariam as “aventuras de esquerda”. E, por outro lado, aqueles que estavam prontos para recuperar o “espírito” de 1968 com a celebração da ação coletiva, o ideal emancipatório e a imaginação utópica.

A comemoração de Mafalda estava inserida nesse contexto. O jogo de imaginar o destino dos personagens colocou em movimento, como na Argentina, projeções e avaliações da geração dos anos 1960. Na Espanha, onde o aniversário foi antecipado na mídia, a questão estava ligada à discussão argentina. Deve-se lembrar que as declarações de Quino imaginando Mafalda como uma pessoa desaparecida — que assumiram enorme importância e circulação — apareceram pela primeira vez na mídia espanhola, Cambio 16, em um artigo assinado pela argentina Norma Morandini.

Um ano depois, quando Mafalda foi publicada pela Lumen, um artigo no jornal ABC argumentou que Quino, ao imaginar Mafalda como uma pessoa desaparecida, estava se esquecendo de que “sua filhinha se juntou aos golpistas das páginas do Primera Plana”, na campanha de imprensa que levou o General Onganía ao poder. A crítica que o cartunista, como vimos, havia feito a si, colaborou para produzir um distanciamento do universo dos “mafaldos” ‘ — nas palavras do artigo — que ele caracterizou como “adultos com corpos de crianças”.

É claro que as projeções não envolviam apenas a realidade argentina. Pelo contrário, elas estavam entrelaçadas com o significado que os quadrinhos tinham na Espanha. A própria Morandini enfatizou a importância dos pontos em comum: “Feminista antes de seu tempo, crítica da televisão, preocupada com a ecologia, o destino da humanidade e a invasão dos amarelos, Mafalda pertencia a uma típica família de classe média que poderia muito bem ter nascido em Madri, Buenos Aires ou Roma”.

Com nostalgia, ela se lembrou de uma tira onde a “garota intelectualizada” reconhecia que “se você não se apressa em mudar o mundo, então é o mundo que muda você”. A mesma ironia sarcástica foi reconhecida nos registros espanhóis, coletados pelo jornalista, que projetaram em Mafalda as críticas aos rebeldes de 1968. Como o leitor deve se lembrar, muitos imaginavam que ela havia renegado seus ideais.

O aniversário, com a reiteração ad infinitum da história de origem, mobilizou a lembrança daqueles que foram jovens nos anos 60. Ela recuperou os tempos da certeza de um futuro melhor que unia o coletivo e o pessoal, o político e o íntimo. A memória trouxe de volta uma sensação nostálgica porque a lembrança dos tempos de juventude foi acompanhada pela consciência do fracasso político dos programas de mudança radical.

O sucesso duradouro da história em quadrinhos, que continuava a ser vendida como nos “melhores tempos”, ou seja, “aqueles em que essa menina argentina era considerada uma verdadeira contestadora”, possibilitou compartilhar a denúncia da ordem neoliberal. Essa visão pode até ser encontrada no final de outro artigo do jornal ABC: “Esperemos que, mesmo que apenas na memória de Quino, essa garota […] ainda pense que os Beatles poderiam ter sido os melhores presidentes do mundo”.

Não era possível que esse passado voltasse. Nem mesmo Mafalda poderia voltar à vida, como Quino reiterou várias vezes. Aí estava a atração de brincar de imaginá-la como adulta. Nesse mecanismo, Mafalda inédita representou uma inovação: possibilitou recuperar a emoção de encontrar tiras desconhecidas e atualizar o ato social de lê-las.

Ela restabeleceu uma comunidade de pertencimento entre aqueles colegas que tinham conhecimento suficiente de quadrinhos para se interessar por um livro cult, mas que também compartilhavam um espaço ideológico que dava sentido à sua leitura. Desse ponto de vista, os quadrinhos podem ser vinculados a outras expressões culturais, legadas pela década de 1960, que simbolizavam o pertencimento a um espaço progressista e de esquerda, coalizado como resistência à ascensão do neoliberalismo.

Essa ligação, por exemplo, foi mencionada no El País, de Madri, quando relatou que o livro tinha um desenho do personagem destinado a El sur también existe, de Joan Manuel Serrat, com poemas de Mario Benedetti, que não foram incluídos no álbum. Houve “um mal-entendido entre um catalão e um andaluz”, nas palavras do próprio Quino, uma anedota que, por si só, traía a sensibilidade decorrente da empatia artística e ideológica. Não é coincidência que, nesse contexto, Mafalda tenha começado a ser publicada no La Vanguardia, o histórico jornal catalão localizado no campo do Partido Socialista, que, quando reformou seu design, acrescentou-a, em 1989, à contracapa de sua revista.

Os resultados mobilizados pelo aniversário não foram apenas políticos. As comparações com o passado também envolveram a classe média. Como Horácio Eichelbaum, jornalista argentino radicado na Espanha, apontou, Quino havia filmado com Mafalda “dia após dia as violentas altercações entre as ambições e os limites de uma classe média emergente”. Em seus termos, o sucesso contínuo do quadrinho na Europa se deve ao fato de que “as classes médias europeias [são] as que persistem nessa luta entre as ambições e os limites da realidade”.

Na Argentina, ele argumentou que, diferentemente, “esses limites se tornam intransponíveis e as ambições foram para o sótão das lembranças”. Ele estava certo: a classe média dos anos 1980, e não apenas a geração de jovens dos anos 1960, se reconheceu no fracasso dos vários sonhos que pareciam tê-la afundado. O fenômeno, no entanto, não foi apenas argentino. Na Europa, o desemprego subiu de 4,2% em 1970 para 9,2% no final da década de 1980 e para 11% em 1990 nos países da Comunidade Europeia; a distribuição de renda entre os trabalhadores e as condições de trabalho pioraram no contexto da desindustrialização.

Na Itália, o lançamento de Mafalda 25, a compilação de desenhos inéditos publicados em italiano pela editora Bompiani, tornou o quadrinho visível para a opinião pública. Mafalda manteve sua importância. No país onde Quino continuou a passar longos períodos, a tira continuou a ser publicada no jornal Il Messaggero, e Mafalda foi consagrada como “a contestadora por excelência”.

Como o L’Unità havia escrito pouco antes, sua protagonista era considerada uma “bruxinha feminista”, nascida no auge do movimento das mulheres e uma “garota terrível” que, colocada em uma “família normal”, havia se tornado uma bomba pronta para explodir. Foi por esse motivo, segundo ela, que seu criador teve de silenciá-la em 1973.

Quando o livro de desenhos inéditos foi publicado, a imprensa se baseou nas declarações do próprio Quino, que, após lembrar que sua criação era filha da era dos Beatles, de Che Guevara e da descolonização da África, afirmou que: “Tudo isso não significa mais nada. Agora as pessoas só querem ganhar o máximo de dinheiro possível no menor tempo possível. Não há espaço para ilusões infantis e meus olhos estão cada vez menos sensíveis, menos ingênuos. É por isso que não consegui desenhá-la novamente”.

A consagração internacional foi decisiva na América Latina. A imprensa costumava reproduzir telegramas de agências internacionais com informações sobre as celebrações em diferentes países. A referência ao sucesso na Europa era obrigatória. Isso valorizava a notícia, mas também mobilizava o orgulho na América Latina.

No México, o sucesso de Mafalda, como o leitor deve se lembrar, sustentou o rápido crescimento da editora Nueva Imagen, mas na década de 1980, com a forte desvalorização do peso mexicano, a editora foi à falência. Ela foi vendida — com a transferência dos direitos da tira — para a Editorial Tusquets, que continua a publicá-la até hoje.

Nesse contexto, Mafalda inédita circulou no México na versão das Ediciones de la Flor. Sua aparição foi celebrada em 1988 como parte da participação de Quino na Feira do Livro de Guadalajara. Naquela ocasião, a revista Plural, editada por intelectuais de esquerda, fez circular muitos dos desenhos inéditos. Como o colunista explicou em um longo artigo, no México, assim como em outros países, Mafalda era “o deleite de um público leitor variado que se identifica com suas posições de protesto no ambiente familiar e escolar, e em seus julgamentos e avaliações da situação no mundo”.

O significado ideológico dessa posição foi reforçado pelo fechamento da nota, na qual Quino confessou seu desconforto e sua posição política de uma forma nunca vista antes, mas que se tornaria cada vez mais frequente no futuro: “Acho o capitalismo uma porcaria, acho que é o pior de todos os sistemas, mas os países socialistas estão retrocedendo um pouco em sua ortodoxia […] Tendo perdido líderes como Che Guevara, Ho Chi-Minh, Mao, João XXIII, estou muito desorientado”.

Em resumo, Mafalda reviveu uma sensibilidade que parecia derrotada pela crueza pragmática dos planos neoliberais e dos discursos individualistas. Foi possível transformá-la em um legado contínuo de resistência. Nesse contexto, a publicação dos desenhos inéditos revigorou a história das origens, expandindo sua circulação e alimentando-a com anedotas em uma narrativa ordenada. A história tinha os ingredientes de um mito.

Ao lê-la, as pessoas podiam recriar eventos coletivos, ligados à sua própria memória, para dar sentido ao presente. Como resultado, a reiteração da história pela mídia parecia não ter um ponto de amadurecimento. Nos anos seguintes, a história original, aquele tempo perdido, seria recriada em um cenário real.

* ISABELLA COSSE é  pesquisadora do Instituto de Pesquisa em Estudos de Gênero da Universidade de Buenos Aires e autora de Mafalda: história social e política (FCE, 2014), cuja versão revisada em inglês foi publicada sob o título Mafalda: A Social and Political History of Latin America’s Global Comic (Duke University Press, 2019).

Tradução: Gercyane Oliveira.

Fonte:  https://desacato.info/o-mito-da-rebeldia-de-mafalda-por-isabella-cosse/#more-307235

Disputar Junho ontem com as armas de hoje

Por Rafael Burgos*

 FOTO: MAIKON NERY

Sem ceder à armadilha de Chronos, temos um compromisso retroativo com 2013: o passado se faz aqui e agora.

Muitos leitores provavelmente conhecem um famoso ditado Iorubá, segundo o qual Exu matou um pássaro ontem com uma pedra que só jogou hoje. Nossa dificuldade em alcançá-lo, numa primeira leitura, talvez explique nosso fracasso coletivo em entender o fenômeno Junho de 2013. Ambos decorrem de nossa precária imersão na lógica temporal do Ocidente capitalista, o tempo de Chronos.

Dentro dessa perspectiva, eventos políticos de uma década atrás são apreendidos com o distanciamento de quem, sucumbindo à aceleração capitalista, transforma o passado em elemento solto, sem valor e sem referência de continuidade. Dessa pressa em elaborar o tempo que passou, inevitavelmente, nascem análises preguiçosas, que encerram um evento multifacetado numa caixinha com começo, meio e fim.

Certa vez perguntaram a Mao Tsé-Tung sua opinião sobre a Revolução Francesa e o líder chinês respondeu que ainda era cedo para ter alguma conclusão. Antes crítica do capitalismo que devora nossa experiência subjetiva do tempo e da história, em sua interpretação majoritária de Junho de 2013, a esquerda brasileira cede à aceleração que, por definição, encerra qualquer possibilidade de elaborar traumas, sejam eles individuais ou coletivos.

Passados dez anos daquele acontecimento, prevalece, afinal, a tese do Ovo da Serpente, segundo a qual Junho teria gestado um caldo de transformação que, necessariamente, desembocaria no fascismo brasileiro. Nesse olhar desatento e arbitrário de dez anos depois, encerra-se uma narrativa hollywoodiana em que as ruas parem a antipolítica e o combo de vilões impeachment-Lava Jato-Bolsonaro trata de amarrar um destino previamente concebido.

E assim cedemos à tradição conservadora da política da inevitabilidade, segundo a qual acomodar-se aos pequenos ganhos seria preferível ao ímpeto revolucionário que pode colocar tudo a perder. Por ironia do destino, não é a extrema direita brasileira, mas a esquerda que, em sua reação a Junho, leva adiante o paradigma liberal do fim da história – como quem quer dar um ponto final ao trauma não elaborado.

Se para Francis Fukuyama o liberalismo pós-Guerra Fria representava o fim da história do Ocidente, para a esquerda brasileira pós-Junho, a Nova República representou o fim de uma história possível, marcada, em seu episódio final, por importantes avanços sociais, porém modestas transformações em nossa estrutura de desigualdade.

Desafiar este fim inevitável, segundo essa interpretação, fez germinar o tal Ovo da Serpente. Assim, contamos, dez anos depois, a história de Junho pela gramática que nos ensinaram filósofos da tradição conservadora. Será esse o (modesto) legado que queremos deixar, como esquerda, às gerações futuras diante do mais impactante evento social das últimas décadas?

Se cedermos ao tempo de Chronos, tão amigo do capitalismo liberal, acabaremos, fatalmente, transformando a história em mercadoria, na infantil ilusão de que, diante de um trauma, haja alguma saída além de confrontá-lo. A esquerda brasileira tem pressa e, à diferença de Mao, dispõe de ótimas teses sobre a Revolução Francesa.

Um dos pensadores da filosofia do acontecimento, o filósofo francês Alain Badiou, na mesma linha dos Iorubá, nos ensina algo precioso sobre nossa relação não linear com o tempo, e o potencial político que reside nessa descoberta. Na lógica circular, retroativa, que rege o acontecimento, quebra-se a cronologia de Chronos para fazer emergir uma outra temporalidade, a de um acontecimento cujas causas decorrem do seu próprio desfecho.

Imergir nessa lógica, em nosso caso, implica a coragem de admitir que Junho não somente não acabou como pode ser reconstruído, desde o começo, a partir do que fizermos de agora em diante. Com Badiou, aprendemos que o potencial verdadeiramente revolucionário da ação política não está em superar o impossível, mas, simplesmente, em romper com a medida das coisas de tal forma que o impossível tenha sido possível.

É esse paradigma acontecimental que coloca Junho na mesma distância entre a tragédia e a revolução, entre o começo do fim e o fim dos velhos começos, de onde podemos vislumbrar, retroativamente, uma nova forma de começar, de disputar um passado que ainda não foi – que, a depender do futuro, poderá ter sido.

Contra o conservadorismo dos que se apegam à conciliação de classes da Nova República, a própria extrema-direita pode nos ensinar a acreditar na lógica acontecimental, tendo levado à liderança do país o até então irrelevante, líder impossível, deputado Jair Bolsonaro. Sem ceder às armadilhas de Chronos, talvez haja um caminho: disputar Junho ontem com as armas de hoje, e com a sabedoria chinesa de que eventos recentes não se interpretam – se lutam.

***
Rafael Burgos é jornalista e mestrando em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, onde atua como bolsista CNPq. Organizador do livro Escombro: um diário da máquina do ódio (Kotter Editorial)

Fonte:  https://blogdaboitempo.com.br/2023/06/27/disputar-junho-ontem-com-as-armas-de-hoje/

Fui bater nas Filipinas

 Por Gaudêncio Torquato

chatgpt hallucination

Por uma dessas curvas que as tecnologias abrem todos os dias, fui bater nas Filipinas. E tive a surpresa de ser apresentado a um xará, com apetrechos informativos iguais ao nome e sobrenome de quem assina este artigo. Surpreso, vi-me habitando o país de Imelda Marcos (lembram-se?), a mulher do ditador Ferdinando, aquela que tinha uma coleção de 1,2 mil pares de sapatos. Um fenômeno de reencarnação, coincidência ou um drible perpetrado pela comunicação tecnológica nesses tempos de falsidades e meias verdades?

A jogadora que tentou me driblar tem o nome de IA, Inteligência Artificial. Marquei um encontro com a cuja, e batemos ligeiro papo sobre nós e outros personagens. Designada pelo gênero feminino, apesar de fazer parte de todos os gêneros, mesmo os indistinguíveis na sopra de letras com que são nomeados, ela confessou não ter emoções e, portanto, não iria responder à protocolar pergunta, “como está você”? Absolutamente racional, impunha limites para se comportar na linguagem.

Limites que se apresentaram no início do papo. Propus que me ajudasse a caminhar pelos jardins que circundavam a Academia de Platão, na vizinhança de Atenas. Meu sonho era dialogar um pouquinho com o filósofo. Resposta frustrante: não posso lhe ajudar. Não tenho poder para transportar pessoas ao passado ou ao futuro. Mas posso lhe ajudar com informações sobre o que Plato (assim mesmo) pensava. Aceitei e engatilhamos a conversa.

Continuo a perguntar: qual a diferença ou semelhança entre os tempos de Platão e os dias de hoje em matéria de corrupção? Sem grandes diferenças, respondeu. Desde sempre, os políticos agem de acordo com seus interesses, deixando de cumprir os deveres funcionais. Os verdadeiros estadistas, lembrou, devem ser motivados pelo desejo de servir o povo com profunda compreensão de justiça. Corruptos, então, como se deduz, existiam ontem e existem hoje.

Indaguei da senhora, equipada de artificial inteligência, como lembrou, se corremos o risco de vivenciar uma Terceira Guerra Mundial. Mais uma vez, foi peremptória: não tem condição para garantir essa probabilidade, porque não dispõe de capacidade de prever o futuro. Foi um gesto de modéstia e sinceridade, conclui. Mas fez a ressalva de que é possível trabalhar para soluções pacíficas e evitar conflitos, usando-se, para tanto, ferramentas da diplomacia e da cooperação entre nações. A interlocutora, desse modo, abriu uma fresta para a ocorrência de eventos que classificou como “catastróficos”. E clamou: temos de estar cientes de riscos potenciais e tomar medidas para mitigá-los.

No terreno do conhecimento sobre este figurante, a gentil madame pisou em falso. Fui parar nas Filipinas, na figura de um consultor político. Ocorre que a teia informativa que abrigava o filipino encaixava-se plenamente em minha trajetória. Por isso, reagi: quero saber sobre o fulano nascido em Luis Gomes, RN, Brasil. A senhora deve estar errada. Imediatamente, ela pediu desculpas, reconheceu que se confundiu e passou novas informações, incluindo as tarefas de jornalista, que também desenvolvo. Mesmo com palavras novas, o conteúdo foi o mesmo.

Sabia que o ChatGPT 4, mais avançado, abrigava a possibilidade de criar imagens a partir de uma situação descrita. Tanto que um amigo acionou a jovem senhora IA, que lhe mandou impressionantes desenhos de descrições para imagens que ele pediu: gatos brancos, de olhos amarelados; gatos pretos, de olhos esverdeados; um gato na praia chuvosa, usando guarda-chuva, um par de fotos de nossos ancestrais. Desenhos fantásticos.

Tenho poucas incertezas. Entre elas, a de que a IA, mesmo com a ligeireza para alinhavar trilhões de referências e encaminhar respostas em segundos para curiosos, não será capaz de se esquivar do cérebro humano. Que terá condição de distinguir entre a obra do autor e o plágio. Peguei no pé da aclamada IA quando contestei o painel sobre o tal pensador filipino. E leio que pegaram na mentira a última modelagem do ChatGPT, que usou informações falsas para cumprir rapidamente a tarefa que lhe foi pedida. Viveremos tempos de guerra entre a decisão humana e os dribles tecnológicos. Ufa!
 
 
* Escritor, jornalista, professor titular da Escola de Comunicações e Artes da USP e consultor político
 
Fonte:  https://jornal.usp.br/articulistas/gaudencio-torquato/fui-bater-nas-filipinas/  26/06/2023
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segunda-feira, 26 de junho de 2023

Sobre o silêncio: há muitos silêncios (

 Anselmo Borges*

 QUIET POR FAVOR Imagens De Bancos De Imagens

24 Junho 2023 — 00:41

Numa conferência sobre o silêncio, comecei por pedir um minuto de silêncio. E em silêncio perguntei-me como é que os participantes - este, aquela - terão ocupado esse minuto. A pergunta coloca-se aliás em relação a todos os minutos de silêncio pedidos em diversas circunstâncias. Sim, como se ocupa esse minuto de silêncio? Evidentemente, vai depender também das circunstâncias e de quem pede esse minuto.

Afinal - e isso é decisivo -, há muitos tipos de silêncio. Logo de início, é essencial entender que há os maus silêncios, alguns abomináveis, que é preciso exorcizar; depois, aqueles que a vida nos traz: uns impostos por situações dramáticas, outros, silêncios da decência humana, outros ainda, silêncios abençoados, que nos vêm ao encontro na exultação da vida; impõe-se, em terceiro lugar, reflectir sobre uma cultura da pausa e do silêncio e ouvir o silêncio, se quisermos ser verdadeiramente humanos e não perder o essencial.

A. Comecemos pelos primeiros, os maus silêncios. Só exemplos.

O silêncio faltoso ou mesmo pecador. Quando, na confissão, as pessoas me pediram ou pedem para fazer perguntas, a única pergunta que fiz ou faço é: "Há alguém com quem não fala?". Negar a palavra a alguém, ao menos uma saudação, um "bom dia", "boa tarde", "boa noite", é uma forma de agressão. Tradicionalmente, até se usava uma expressão bela: para saudação, dizia-se "salvar" alguém, de tal modo que a pessoa que não foi saudada sentia-se tão magoada que dizia ou diz: "Imagine: nem me deu a salvação, essa pessoa não me salva", e isso equivale a: "trata-me como se eu fosse um ninguém".

Como é uma falta não pegar ao menos no telefone e dirigir uma palavra de saudação, de conforto, de solidariedade, a alguém que está na solidão, uma solidão que pode ser mortal. Como é mortal o silêncio que "ouvimos" num restaurante, por exemplo, com pais e filhos todos a dedar e sem uma palavra entre eles...

O silêncio mortalmente cobarde. Tantos que deviam uma palavra de explicação para o mal feito, mas abotoam-se no silêncio. A todos os níveis. Nem uma palavra de desculpa... E era obrigatório denunciar as injustiças, repor a verdade, mas isso não foi, não é, feito por medo e cobardia..., silêncio criminoso. Que dizer do silêncio e do encobrimento dos abusos sexuais do clero...

O silêncio indelicado, egoísta. Não houve, não há, uma palavra de gratidão por um favor, uma atenção, uma delicadeza. Por ocasião de uma festa, num aniversário, no meio de um pesar, pessoal ou familiar, não há a lembrança de uma palavra.

O silêncio amuado. O miúdo ou até já não miúdo, que amua, senta-se a um canto em silêncio torcido.

O silêncio manhoso. Alguém poderia obter uma vantagem para a sua vida. Isso não aconteceu, por causa do silêncio invejoso de alguém.

O silêncio irresponsável. Pessoas caíram na vida, porque alguém fez silêncio, não avisou.

O silêncio ignorante. Alguém devia responder, saber para formar, mas não responde, não forma, porque não sabe, é culpadamente ignorante.

B. 1. Passamos aos silêncios que a vida traz, na sua dramaticidade.

O silêncio aterrado. Perante a iminência de um desastre brutal e inevitável..., a acontecer, não há tempo para palavras, fica-se em silêncio. Estava com uns amigos, quando surgiu a notícia: em França, um homem atacou com uma faca quatro crianças. Ficámos estarrecidos, em silêncio, não há palavras...

O silêncio recolhido. Perante a morte, sobretudo inesperada, de alguém muito, muito querido, muito querida..., no encontro com familiares e amigos, só restam um abraço, muito, muito apertadamente afectuoso, e um rosto em lágrimas. Na morte, somos remetidos para o silêncio, o silêncio que ela mesma constitui - o que dizemos exactamente, quando dizemos que alguém morreu? E aí está, do seu lado e do nosso lado, o silêncio fundo, misterioso, inabarcável, de um cemitério. O cemitério está num silêncio sepulcral e toda a nossa tagarelice, mesmo quando se é "uma picareta falante", cai no silêncio.

O silêncio de chumbo. Perante certas catástrofes e alguns funerais, faz-se "um silêncio de chumbo".

B. 2. Silêncios que a vida requer na sua decência.

O silêncio imposto. Uma autoridade (o pai, a mãe, um professor...) manda calar e faz-se imperativamente silêncio.

O silêncio obrigatório. O segredo da confissão, por exemplo, é inviolável e tem de ser mantido em silêncio. Também há o segredo de justiça. A propósito: a quantas pessoas confiaria um segredo?

O silêncio secreto. Ai! Se tantos silêncios apenas balbuciados por cada um, cada uma saíssem do silêncio!...

O duplo silêncio da admiração positiva. No mausoléu de Immanuel Kant na antiga Königsberg, Prússia oriental, actual Kaliningrado, um enclave russo, encontra-se uma placa com o seu texto célebre, que diz o duplo silêncio: o silêncio admirativo e o silêncio imperativo da consciência que grita: "Duas coisas enchem o ânimo de uma admiração e de uma veneração sempre novas e crescentes quanto mais frequentemente e com maior persistência delas se ocupa a reflexão: o céu estrelado acima de mim e a lei moral dentro de mim."

O silêncio do espanto perturbado. Afirmando-se o ser humano animal racional, o que dizer perante o aumento crescente de armamento, incluindo o nuclear, de tal modo que a Humanidade corre cada vez mais o risco de pôr fim a si própria, num suicídio colectivo?

*Padre e professor de Filosofia. Escreve de acordo com a antiga ortografia 

Imagem da Internet

Fonte: https://www.dn.pt/opiniao/sobre-o-silencio-ha-muitos-silencios-1-16578308.html

Há erros, mas fidelidade à Ressurreição pode e sabe resistir

| 25 Jun 2023

 Mosteiro de S. Salvador, Paços de Ferreira: “A grande parte do povo, que vivia nos pequenos centros, nos campos e nas montanhas, conhecia pouco da fé cristã e as práticas religiosas eram substancialmente as pagãs.” Foto © Miguel VeigaMosteiro de S. Salvador, Paços de Ferreira: “A grande parte do povo, que vivia nos pequenos centros, nos campos e nas montanhas, conhecia pouco da fé cristã e as práticas religiosas eram substancialmente as pagãs.” Foto © Miguel Veiga

ContrEconomia (6) –


“A piedade está para a religião como a poesia para a literatura: é o seu ponto mais alto… no entanto, com uma diferença: poetas, poucos o são; piedosos, todos podem ser”.
Giuseppe de Luca, Introdução à História da Piedade

 

A época da Contra-Reforma é também um tempo importante para a liturgia que se torna “espetáculo” distante do povo e isto influenciará muito a cultura económica latina.

Depois de O Mercado e o Templo, o 7MARGENS publica agora uma nova e importante série de textos de Luigino Bruni, coordenador da iniciativa A Economia de Francisco. Nestes textos, o investigador fala sobre a empresa e a sua organização, e as interpelações que a situação contemporânea coloca à consciência religiosa e cristã, para concluir que a biodiversidade é uma lei fundamental também nas empresas.

A Ressurreição é o centro da fé cristã. Porém, nem sempre foi o centro também da piedade popular católica. A história do cristianismo conheceu muitos “eclipses da Ressurreição. Um, particularmente longo, aconteceu durante a época da Contra Reforma. Uma premissa. A Idade Média criou a sua civilização distinguindo a vida monástica da vida civil. A imaginação de uma Idade Média toda cristã diz-nos algo de verdade se olharmos apenas para mosteiros e abadias e para as porções do mundo que os monges e as monjas conseguiam contagiar. 6-1 A cultura cristã era essencialmente um assunto monástico e de algumas elites urbanas, mas a grande parte do povo, que vivia nos pequenos centros, nos campos e nas montanhas, conhecia pouco da fé cristã e as práticas religiosas eram substancialmente as “pagãs” – latinas, célticas, saxónicas, picenas… –, com algumas influências cristãs que, frequentemente, se limitavam a nomes novos para antigos ritos, espíritos e divindades. Deste ponto de vista, o cristianismo não era a cultura de massa da Idade Média.

Com a Reforma, desaparece também a distinção entre mosteiro e povo. Depois de Lutero, as regiões protestantes fecharam os mosteiros e procuraram transformar o mosteiro em cidade. O ora et labora saiu das abadias e tornou-se a lei ética de toda a civilização protestante, numa liturgia laical. Os monges de antes tornaram-se os “trabalhadores”, o trabalho (labora) incorporou no seu interior a oração (ora). Também no mundo católico se superou aquela dicotomia medieval. Com a Contra Reforma, o povo vive um seu novo e inédito protagonismo religioso. Mas, aqui, foi a religião a apossar-se do trabalho: os “monges” de antes tornaram-se os devotos, a piedade invadiu o trabalho. Assim, enquanto o norte da Europa começava a inventar o capitalismo, no sul católico o trabalho, a grande herança medieval dos artesãos e dos mercadores, foi absorvido por uma devoção que, progressivamente,  preencheu toda a vida do povo. A criação de uma «Europa dos devotos» (Louis Châtellier) foi um projeto intencional religioso e social do Concílio de Trento, um plano muito ambicioso. Os bispos e o Papa tomaram consciência da estado substancialmente pagão de muita população “cristã”. Começou, assim, uma nova ação popular na Europa e, logo a seguir, nos continentes. Um projeto imenso e impressionante: a grande difusão do catolicismo no mundo moderno é o resultado da refundação popular contrarreformista.

“Batizar” a religiosidade mestiça do campo e do povo

Goa, Lava-pés na arte indo-europeia: “Um projeto imenso e impressionante: a grande difusão do catolicismo no mundo moderno é o resultado da refundação popular contrarreformista.” Foto © Miguel Veiga

Goa, Lava-pés na arte indo-europeia: “Um projeto imenso e impressionante: a grande difusão do catolicismo no mundo moderno é o resultado da refundação popular contrarreformista.” Foto © Miguel Veiga

 

A primeira e fundamental estratégia do projeto tridentino foi “batizar” a religiosidade mestiça do campo e do povo. A Igreja Católica fez, na época barroca, algo de parecido ao que tinham feito os cristãos em relação ao mundo greco-romano nos primeiros séculos, que tomaram muitas das práticas religiosas existentes e construíram sobre elas a nova religião. Analogamente, as novas ordens, os bispos e os párocos formados nos seminários deram novo significado a todo o sagrado que encontraram. E nasceu a cultura barroca. São os séculos da explosão das imagens sagradas, das edículas nas encruzilhadas, dos padroeiros em cada aldeia, dos santos padroeiros em todas as áreas e momentos da vida. E, graças ao novo culto, finalmente popular, nasceu a cultura cristã – toda a cultura de massa nasce dum culto, inclusive o culto capitalista. A religião cobriu todo o espaço e todo o tempo da vida, a liturgia já não era prerrogativa só dos monges e tornou-se a vida do povo. De facto, o espaço e o tempo são marcados e ensinados como espaço e tempo sagrados. Os lugares (urbanos e rurais) foram marcados por uma infinidade de símbolos e o tempo das famílias tornou-se uma forma simplificada de “liturgia das horas”. O tempo sagrado penetrou no horizonte humano conduzindo ao culto do Purgatório e das suas “almas”, que se tornaram habitantes omnipresentes do novo mundo.

Tudo muda. Com o Humanismo (pelo menos, depois de Giotto), as igrejas eram decoradas também com cenas terrestres, com mulheres e homens da cidade ao lado de Cristo e dos santos. Com a arte barroca, os temas representados são cada vez mais os celestes (Maria glorificada) e as igrejas são inundadas por miríades de anjos.

A terra prometida torna-se a outra vida

Basílica de Mafra, Anunciação: “Com a arte barroca, os temas representados são cada vez mais os celestes (Maria glorificada) e as igrejas são inundadas por miríades de anjos.” Foto © Miguel Veiga

Basílica de Mafra, Anunciação: “Com a arte barroca, os temas representados são cada vez mais os celestes (Maria glorificada) e as igrejas são inundadas por miríades de anjos.” Foto © Miguel Veiga

 

A terra prometida torna-se a outra vida, o ideal do homem torna-se o anjo: «E, agora, olha para os que se encontram no cimo da escada: são homens com o coração de Anjos ou Anjos com o corpo de homens» (Francisco de Sales, Introdução à verdadeira devoção). Numa homilia para o dia de Páscoa, de finais do século XVII, o grande pregador jesuíta Paolo Segneri, famoso pelos seus diálogos com as caveiras, exclamava assim: «Que também sofra este corpo miserável, seja macerado, que se mortifique e, com artes ainda mais horríveis, seja destruído; abençoado seja! O trigo tem de florescer, mas não pode florescer se não apodrecer” (Quaresimalidel padre Paolo Segneri, 1835, pg. 233) – e era este o sermão pascal; deixo ao leitor imaginar o de Sexta-Feira Santa!

Nesta longa noite escura do concreto humano e do corpo explodem naturalmente a exaltação da morte, as muitas irmandades, as companhias do sufrágio, a veneração das relíquias. Algumas destas práticas já estavam presentes na Idade Média, mas agora já não são um assunto de elites citadinas ou nobres: nasce a verdadeira piedade popular. A única vida que conta é a futura. O culto dos mortos torna-se mais importante do que o culto dos vivos. A conhecida frase de Lutero sobre o cristianismo romano – «uma religião de vivos ao serviço dos mortos» – torna-se verdadeira realidade na civilização barroca. É o eclipse da Ressurreição nesta terra. A vida cristã é principalmente construída à volta da dor, interpretada e teorizada como «moeda agradabilíssima a Deus». Nasce um “catolicismo da Sexta-Feira Santa”, por vezes do Sábado Santo, sem nunca chegar ao Domingo. E um cristianismo sem Domingo torna-se facilmente desumano, onde Deus já não é o Deus bíblico libertador dos homens, mas o seu consumidor, como os ídolos. Nenhuma religião pode ser amiga de Deus se, para exaltar Deus, rebaixa o homem, se para aumentar o amor a Deus pede para aumentar a dor humana.

Não surpreende, pois, que entre os séculos XVI e XVII se desenvolvam, no mundo católico, as Vias-Sacras e, com estas, toda uma proliferação de imagens, pinturas, santinhos, pagelas, capelas, Montes Santos. A energia vital e espiritual do povo foi assim orientada para práticas devocionais não-geradoras, nalguns aspetos inócuas, mas noutros aspetos, dissipativas e tóxicas, que não ajudaram nem a religião nem a sociedade, que se afastavam da boa nova de ágape do Nazareno. 

E, aqui, encontramos um outro dado, que parece paradoxal, com consequências interessantes para a economia. Enquanto a vida espiritual dos indivíduos se tornava cada vez mais centrada nas penitências, na cultura da culpa, na dor necessária para merecer o purgatório…, as liturgias coletivas tornavam-se cada vez mais emocionais. Talvez como forma inconsciente de compensação, quando o penitente, mortificado e oprimido por cilícios, cordões e pelo terror da morte, chegava à igreja ou participava numa procissão, todos os seus sentidos eram solicitados e satisfeitos: o olfato (incenso), o tato (imagens para tocar), a audição (música e cânticos), a vista (pinturas, relíquias, espetáculos), o gosto (o Pão eucarístico). 

Procissões, explosões sensoriais

Procissão em Vila Nova de Cerveira: “Quando o penitente participava numa procissão, todos os seus sentidos eram solicitados e satisfeitos.” Foto © Miguel Veiga

Procissão em Vila Nova de Cerveira: “Quando o penitente participava numa procissão, todos os seus sentidos eram solicitados e satisfeitos.” Foto © Miguel Veiga

Procissões (Corpo de Deus), peregrinações, missas, Vias-Sacras eram explosões sensoriais num mundo dominado pela dor e pelas caveiras. 

Numa teologia e numa Igreja de Sexta-feira Santa, as liturgias eram, pelo contrário, experiências corpóreas agradáveis. Aquele corpo, desprezado e desvalorizado pela teologia e nos confessionários, era acariciado pela liturgia. A carne castigada em privado consolava-se (um pouco) em público.

Mas é precisamente aqui que se insinua um argumento tão delicado quanto necessário. A liturgia, sobretudo a Missa, assume cada vez mais, para os fiéis leigos, uma forma de espetáculo, onde o sacerdote, separado, sacramental e espacialmente, do povo, “produz” um bem (a Eucaristia) que os cristãos “consomem” sem participar na sua produção, sem ter de o co-gerar ativamente. Os fiéis tornam-se consumidores do bem litúrgico porque esta era a experiência concreta que o povo fazia. Ao contrário do mundo protestante, onde a Santa Ceia era gerada pela comunidade (não pelo ministro), a liturgia eucarística da Contra Reforma criou no tempo (como um fator entre muitos) uma cultura do consumo que, da religião, se estendeu naturalmente à vida económica e civil, onde o cidadão tende a esperar o “pão” do outro, sem sentir a necessidade de o co-gerar (bastaria pensar na nossa cultura dos impostos ou no assistencialismo). Reforçámos a nossa itálica tendência para competir com os outros através dos bens de consumo e, assim, uma cultura posicional, rival e invejosa que, ainda hoje são doenças socioeconómicas do nosso país.

Portanto, não ficámos muito surpreendidos quando, com alguns colegas (A. Smerilli, V. Pelligra, P. Santori) fizemos um estudo empírico sobre como alguns países protestantes e países católicos tinham reagido, durante o confinamento, às liturgias on-line (Thegnosticpandemic, 2022). Dos dados, surgiu um mundo católico menos preocupado do que o protestante pelo abandono da Missa presencial. Nos nossos cromossomas religiosos e sociais, talvez ainda esteja ativo o legado de séculos de “Missas espetáculo”, vividas como experiências de consumo. Assim como não admira que, ainda hoje, os países de tradição católica superem em muito os países predominantemente protestante pelo tempo “consumido” diante da televisão (fonte: OfCom, Reino Unido).

Dores reais, choros de verdade

Museu de Guimarães, Pietá: “Os mais velhos não entendiam o latim nem a teologia, mas as ‘grandes dores’ de Jesus e de Maria compreendiam-nas muito bem porque eram também as suas. Num mundo religioso espetacular, choravam de verdade diante das imagens cobertas de sangue e lágrimas verdadeiras. Foto © Miguel Veiga

Museu de Guimarães, Pietá: “Os mais velhos não entendiam o latim nem a teologia, mas as ‘grandes dores’ de Jesus e de Maria compreendiam-nas muito bem porque eram também as suas. Num mundo religioso espetacular, choravam de verdade diante das imagens cobertas de sangue e lágrimas verdadeiras.” Foto © Miguel Veiga

 

O que contámos é apenas uma parte da história. A outra parte diz-nos que o povo é maior do que as ideologias. Em criança, recordo que durante os funerais se recitava uma oração incompreensível. Em adulto descobri que era o famoso DiesIrae: «DiesIrae, dies illa solvet saeculum in favilla…». Os meus conterrâneos de Ascoli tinham-na transformado em «Diasilla, Diasilla, secula in seculasfavilla: peço-te, Jesus, meu Jesus de grande dor». Os mais velhos não entendiam o latim nem a teologia, mas as “grandes dores” de Jesus e de Maria compreendiam-nas muito bem porque eram também as suas. E, assim, num mundo religioso espetacular, choravam de verdade diante das imagens que estavam cobertas de sangue e lágrimas verdadeiras. E quem sabe o que pensavam, no seu coração, ao tocarem as imagens ou nas suas Vias-Sacras. 

Acredito que rezavam de outra maneira, que transformavam cada dia o DiesIrae no «meu Jesus de grande dor».

Isto no-lo recorda também um maravilhoso cântico siciliano, onde Maria, na manhã da paixão, sai de casa à procura do seu filho. Encontra um ferreiro e começa um diálogo maravilhoso (traduzido): «“Oh, querido mestre, que fazeis a esta hora?”. «Faço três pregos, especialmente para o Senhor”. “Oh, querido mestre, não os façais; neste momento vos pago o dia e o trabalho”. “Oh, querida Mãe, não posso; caso contrário, em lugar de Jesus colocam-me a mim”. Mal Nossa Senhora ouviu esta resposta, fez virar o mundo, terra e mar, de cabeça para baixo».

Salvámo-nos de teologias parciais e erradas porque os homens – sobretudo as mulheres – souberam dizer à religião coisas que esta não queria nem sabia ouvir e viraram mundo, terra e mar de cabeça para baixo. E, assim, com o seu amor-dor infinita, mil vezes fizeram ressuscitar a sua religião. E continuam a fazê-lo. Páscoa Feliz.

Luigino Bruni é coordenador da iniciativa A Economia de Francisco, que decorreu em setembro de 2022 sob impulso do Papa e escreve regularmente no jornal italiano Avvenire dedicando esta série de crónicas à empresa e à sua organização. O 7MARGENS publica os textos por cedência do autor. 

Tradução: P. António Antão e João Cambão; revisão: P. António Bacelar; Edição fotográfica: António José Paulino e Miguel Veiga. Edição final: 7MARGENS.

Fonte:  https://setemargens.com/ha-erros-mas-fidelidade-a-ressurreicao-pode-e-sabe-resistir/?utm_term=FEEDBLOCK%3Ahttps%3A%2F%2Fsetemargens.com%2Fefeed%3Degoi_rssfeed_xKnmS3HTbxoNOuINFEEDITEMS%3Acount%3D1FEEDITEM%3ATITLEENDFEEDITEMSENDFEEDBLOCK&utm_campaign=Sete+Margens&utm_source=e-goi&utm_medium=email