Há alguns anos, aprendíamos nas aulas de História do colégio que o capitalismo vem como um modelo econômico que contribui para o fim da escravização,
afinal, todos tinham de consumir para girar a engrenagem deste novo
sistema. Mas, com o tempo, vamos percebendo que a história é outra e que
a modernização, no mais amplo sentido da palavra, acaba criando formas de escravidão. O livro mais recente do professor José de Souza Martins evidencia justamente como capitalismo e escravidão
se configuram como duas faces da mesma moeda. “Uma linha central na
estrutura deste livro é, pois, a do desenvolvimento desigual do capital,
a de seus diferentes e combinados momentos e tempos, a contradição da
diversidade de suas temporalidades”, adianta.
Na entrevista, concedida por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU, Martins apresenta o livro e antecipa alguns pontos. Entre eles, o de que “foi a pobreza do camponês brasileiro que subsidiou os lucros
da indústria ao produzir sem lucro a alimentação da dieta operária, que
permitiu o sistemático e regular barateamento da reprodução da força de trabalho industrial,
reduzindo os dispêndios com capital variável em relação ao capital
constante e assegurando ao capital da indústria uma composição orgânica
alta, isto é, moderna e economicamente desenvolvida sem se tornar
socialmente desenvolvida”.
No fim das contas, o que revela em “Capitalismo e Escravidão a Sociedade Pós-escravista”
(Unesp, 2023) é que a “escravidão, ao se ‘modernizar’, não desaparece,
recria-se sob nova forma de escravidão para viabilizar a continuidade
dessa espécie de capitalismo da miséria própria dos setores da economia situados à margem do grande capital”. Martins detalha também que “a situação escravista
muda por fatores internos e externos e em consequência de seus próprios
resultados econômicos. A realidade social, no entanto, suscita novas formas de escravização
determinadas pelo fato de que o capital variável representado pelo
escravo é renda capitalizada, uma anomalia própria de economia
capitalista que depende desse recurso não capitalista para crescer”.

No livro de 2023, Martins detalha como capitalismo e escravidão de convertem em duas faces da mesma moeda | Foto: divulgação
O livro revisita antigas pesquisas do professor e faz uma crítica à sociologia de
hoje e suas análises sobre o tema. “Particularmente o último capítulo é
uma crítica sociologicamente densa às concepções simplificadoras do que
é de fato a escravidão que persiste. Isso porque
justamente é um livro não só do que é visível e cotidiano, mas também
das invisibilidades do real que só a ciência pode desvendar”, avalia.
Por fim, Martins faz memória a Dom Pedro Casaldáliga,
a quem também defere um reconhecimento nas primeiras páginas do livro,
pela contribuição que dá na sua formação enquanto sociólogo que vê e
sente o drama do mundo concreto.
José de Souza Martins (Foto: Unesp)
José de Souza Martins
é graduado em Ciências Sociais, mestre e doutor em Sociologia pela
Universidade de São Paulo – USP. Foi professor visitante da Universidade
da Flórida e da Universidade de Lisboa e membro da Junta de Curadores
do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de
Escravidão, de 1998 a 2007. Foi professor da Cátedra Simón Bolívar, da Universidade de Cambridge (1993-1994) e é professor titular aposentado da USP.
Está lançando o livro Capitalismo e escravidão na sociedade pós-escravista (Unesp, 2023). Entre outros livros seus, destacamos: Exclusão social e a nova desigualdade (Paulus, 1997), A sociabilidade do homem simples: cotidiano e história na modernidade anômala (Contexto, 2000), Linchamentos: a justiça popular no Brasil (Contexto, 2015), Do PT das lutas sociais ao PT do poder (Contexto, 2016) e Sociologia do desconhecimento: ensaios sobre a incerteza do instante (Unesp, 2021).
Confira a entrevista.
IHU – Como explica a persistência da escravidão na sociedade pós-escravista?
José de Souza Martins – O título deste meu novo livro, Capitalismo e escravidão na sociedade pós-escravista,
tem a peculiaridade de já enunciar o problema sociológico de que trata e
que o justifica no desafio metodológico que propõe. É um livro de
sociologia e não uma reportagem. Esta entrevista não é um resumo do
livro nem o substitui. É um estudo sobre o livro, um texto de sociologia do conhecimento, que situa e explica o livro, um complemento da obra.
Os clássicos dos estudos sobre escravidão, como Karl Marx e Max Weber, ainda que por meio de distintas orientações teóricas, entendem que o capitalismo
é um modo social e econômico da sociedade se reproduzir, indissociável
do trabalho livre na sua forma mais característica, a do trabalho
assalariado. Isto é, o trabalho do trabalhador que, privado dos meios de
produção e proprietário unicamente de sua força de trabalho, é
juridicamente igual a quem seu trabalho compra. Mas, nesse processo,
torna-se economicamente desigual ao comprador.
Essa é a contradição própria das relações capitalistas de produção, no enunciado de Marx. É o mercado de trabalho que determina a taxa de exploração do trabalho de que a desigualdade
resulta, é baseada no fato de que no mercado o vendedor aceita como
justo, pelo seu trabalho, o preço que o comprador julga justo.
Com a peculiaridade de que o trabalhador, como é ponto essencial da interpretação de Marx, é alienado sem o saber (a alienação como condição da exploração capitalista, isto é, do lucro,
sem a qual o capitalismo é inviável) julga vender ao capital, por preço
justo, seu trabalho, quando na verdade está vendendo seu tempo de
trabalho, que é outra coisa, sua capacidade de produzir mais valor do
que o retribuído em seu salário. Valor é uma coisa e preço é outra.
Salário é preço do tempo de trabalho e valor é o realizável no mercado.
Alienação
Objetivamente, como demonstra Marx em O Capital,
o capitalista compra uma coisa e o trabalhador lhe vende outra. Essa
desigualdade é permeada pelo autoengano, necessário a que o capital se
realize na reprodução ampliada: na suposição de que mais capital sai da
produção do que aquele que nela entra.
Assim, o capital se legitima, na ilusão do capitalista que o personifica, de que é ele que cria o lucro e não o trabalho.
Pode-se dizer, portanto, que o capitalista também tem sua alienação de
contrapartida na suposição de que é ele, o capital nele personificado, o
criador da riqueza crescente, de que isso vem de sua competência
empresarial. Vem dela, mas não fundamentalmente. Essa relação
contraditória e a teia de relações e mediações que a caracterizam se
expressam em realidades como a de que tratou Max Weber em A ética protestante e o “Espírito” do capitalismo, o capitalista como funcionário do capital, como o definiu Marx,
como se o capital não fosse seu, agindo como se estivesse a serviço
dele –interpretação baseada na parábola bíblica dos talentos, de que já
tratara o próprio Karl Marx, em nota de rodapé de O Capital. Ou a interpretação da relação entre religião e capitalismo, de Werner Sombart, em O burguês: contribuição à história moral e intelectual do homem econômico moderno.
Método dialético
A opção pelo método dialético, que aqui faço, entre
as alternativas que menciono, impôs-se porque o tema do trabalho criador
indireto de história e de possibilidades sociais é instrumento de
historicidade. O trabalho escravo estaria, disfarçadamente, situado nesse campo, mesmo à margem e anômalo na reprodução capitalista do capital? O atraso social e político do Brasil
não seria uma indicação nesse sentido? Este livro se situa, pois, na
sociologia da historicidade e não propriamente na sociologia da
história. São complexas as questões teóricas nele consideradas.
No trato sociológico do tema da escravidão atual, não se pode deixar de recorrer a Rosa Luxemburg, autora alemã, assassinada em 1919, que aponta, em O Capital, de Marx, a deficiência de não explicar como é que esse valor, a mais-valia, se realiza como capital se os trabalhadores da sociedade capitalista recebem menos do que vale seu trabalho. Não podem, pois, comprar parte dos produtos da relação capitalista
para que o valor contido nas mercadorias resultantes da produção não
paga se realize na circulação. A explicação que Marx dá à questão não a
explica.
Para Rosa Luxemburgo, a explicação que falta está na
interação do modo capitalista de produção com formas não capitalistas
de produção. Isto é, na troca de produção capitalista por produção não
capitalista, como a do trabalho escravo. Mas também com
a produção camponesa, sob forma não capitalista, sugerem os estudiosos
das sociedades camponesas, com os quais me identifico, porém, em minha
própria linha de interpretação, que indico em seguida. É uma explicação
que adia a solução da contradição, resolvendo-a hoje sem resolvê-la de
fato.
Desenvolvimento desigual do capital
Quando falo em “minha interpretação”, refiro-me à centralidade de que as questões propostas pelo capital
dependem da circunstância singular e peculiar de sua reprodução, que
não é a mesma nas diferentes sociedades. Uma linha central na estrutura
deste livro é a do desenvolvimento desigual do capital, a de seus diferentes e combinados momentos e tempos, a contradição da diversidade de suas temporalidades.
Nesse campo, na obra de Marx, está a significativa diferença entre os dois livros essenciais da crítica da economia política, Grundrisse e O Capital (este, inacabado). Como assinalou Henri Lefebvre, o primeiro sobre o desenvolvimento desigual do capital e o segundo sobre o seu desenvolvimento igual. Trata-se de uma distinção decisiva para situar e explicar o capitalismo e a escravidão
na sociedade pós-escravista. Realidades sociais como a brasileira só se
explicam dialeticamente na perspectiva crítica dos seis volumes das
duas obras.
Nesse ponto, retorno ao começo do meu projeto de estudo, de 1964, quando terminava o curso de graduação em Ciências Sociais na USP. De certo modo influenciado pelo antropólogo inglês Raymond Firth, na minha primeira pesquisa, em 1965. Era sobre a agricultura familiar, em especial a agricultura caipira.
Cujo modo de vida era tido, pelos sociólogos e antropólogos de então,
como modo da sociedade tradicional, adversa ao capitalismo.
O Cativeiro da Terra, aqui em edição de
2010 (Contexto), é um dos livros de Martins sobre este contexto do
trabalho no campo | Foto: divulgação
É uma persistência que indicava, aos olhos da época, resistência da
sociedade tradicional à mudança social. Nessa interpretação, essa
resistência era passiva aversão à modernização que o capitalismo
daqui aspirava e seus agentes supostamente desejavam, mas cujas
condições sociais não compreendiam. Não só os camponeses, mas até mesmo o
próprio empresariado e o operariado, como se a questão do atraso fosse
mera questão cultural.
Minha pesquisa fazia a crítica dessa perspectiva e sugeria que a agricultura tradicional era constitutiva do processo de reprodução ampliada do capital.
Ainda que “anômalo”, era componente necessário deste processo. Os que
perfilhavam as concepções do marxismo vulgar tentaram desqualificar
minha interpretação, definindo minha tese como de mera suposição de
“funcionalidade do atraso”, isto é, não dialética nem marxista. Não era,
de fato, marxista, até porque o marxismo não tem que ser uma condição
da pesquisa científica na sociologia. Era e é metodologicamente
marxiana, ou seja, dialética, na perspectiva sociológica de Henri Lefebvre e do seu método regressivo-progressivo. É o autor que traz a sociologia de Marx para a segunda metade do século XX.
O longo período de 59 anos que separa o projeto de seu resultado,
isto é, dos meus vários livros e artigos que da pesquisa e de seu
desdobramento resultaram, e este livro conclusivo, foi o tempo da
observação do desenvolvimento da crise do capitalismo subdesenvolvido e dos impasses do Brasil do atraso e da história lenta, como o defini em meu livro O poder do atraso.
O poder do Atraso (Hucitec, 1994), mais um livro de Martins | Foto: divulgação
Uma questão metodológica de que trato neste livro, fortemente presente no conjunto da obra de Marx,
expressa-se no inacabado da espera do desfecho das crises que definem e
dão sentido ao que é a totalidade concreta subjacente do real. Isto é,
contraditória do processo do capital, em movimento de totalização. A
totalidade é a referência metodológica da interpretação da realidade
social e histórica cambiante. O todo pressuposto pelo método não é um
sistema, mas um processo de totalização em curso, como o definiu Sartre,
o inacabado, o inacabável e o possível.
Nesse sentido, este livro, que lançamos agora, é antes de tudo um livro sobre o método dialético na sociologia,
na referência concreta e prática, principalmente da realidade
brasileira no momento das revelações de sua crise histórica de impasses
de uma sociedade capitalista atrasada, a de que o atraso se manifesta em
relações instrumentais que dele fazem fonte do lucro extraordinário
compensador da inferioridade econômica do nosso capitalismo subdesenvolvido. É o que lhe dá condições de através da escravidão, na taxa média de lucro,
equiparar-se ao capitalismo dos países desenvolvidos. Desse modo, é um
capitalismo que depende do “faz de conta” para se reproduzir como modo
de produção de lucro, a tragédia do crescimento econômico sem
desenvolvimento social, que se tornou doutrina de poder com o golpe de Estado de 1964.
Tradicionalismo agrário e capital
Minha hipótese de origem apontava, e a pesquisa confirmou, que o tradicionalismo agrário tinha uma função na reprodução ampliada do capital.
Descobri e ressaltei que essa agricultura não era mera agricultura de
roça, mas agricultura de produção direta dos meios de vida da família
trabalhadora com integração no sistema capitalista através dos
excedentes comercializáveis, calculadamente produzidos.
Foi com base nos lucros capitalistas decorrentes dessa produção não capitalista que a industrialização brasileira da primeira metade do século XX se deu. Foi a pobreza do camponês brasileiro que subsidiou os lucros da indústria ao produzir sem lucro a alimentação da dieta operária, que permitiu o sistemático e regular barateamento da reprodução da força de trabalho industrial,
reduzindo os dispêndios com capital variável em relação ao capital
constante e assegurando ao capital da indústria uma composição orgânica
alta, isto é, moderna e economicamente desenvolvida sem se tornar
socialmente desenvolvida.
Como foi e tem sido o trabalho escravo atual, a escravidão temporária e cíclica dos excedentes humanos da agricultura familiar nos intervalos da entressafra propicia o lucro extraordinário que subsidia a expansão capitalista da empresa agropecuária na Amazônia.
É o caso em que o trabalhador, sob a pobreza e a violência que o
subjuga, se torna de fato matéria-prima dos produtos dos setores do
agronegócio que se valem do seu trabalho.
Os primeiros resultados da pesquisa inicial, por inciativa do professor Florestan Fernandes, foram apresentados, em 1969, em artigos publicados em duas revistas de ciências sociais de circulação internacional, América Latina (do Centro Latino-americano de Pesquisas em Ciências Sociais, do Rio) e Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, da USP. E reunidos em meu livro Capitalismo e tradicionalismo (Pioneira, 1975). Também ele com título que aponta minha compreensão inicial da contradição estruturante do capitalismo no Brasil. São descobertas que inspiraram obras alheias sem citação das fontes.
Livro de Martins publicado em 1975 | Foto: divulgação
IHU – O senhor trabalha muito com o pensamento de Henri
Lefebvre. O que é essencial neste autor para compreender o trabalho e a
relação trabalho e escravidão? No que ele pode nos iluminar para a
construção de uma sólida análise sociológica acerca destes temas?
José de Souza Martins – Minhas preocupações
metodológicas com a questão do método para pesquisar, analisar e
explicar uma realidade social atrasada como a realidade brasileira
tiveram um desdobramento da maior importância no seminário semanal sobre
o método dialético que organizei e coordenei no curso de pós-graduação em Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, de 1975 a 1983.
Durante 18 anos, regularmente, em pequeno grupo, lemos, inicialmente, uma parte significativa da obra de Marx, desde a Contribuição à crítica da economia política,
cujo posfácio é um ponto de partida para a compreensão da questão do
método na obra desse autor. Entre outros, o seminário incluiu a leitura
(e releitura) d’O Capital, do Grundrisse, da Correspondência, os Manuscritos econômicos e filosóficos, Teorias da mais-valia, A ideologia alemã. Foi um trabalho que nos tomou 12 anos.
Após, propus que lêssemos durante mais seis anos uma parte
significativa das obras de Henri Lefebvre. Este é o mais importante
leitor e analisador da obra de Karl Marx, que podemos ler à luz do que Antonio Candido, que não está se referindo a Marx, em Formação da literatura brasileira, quando chama de “necessidades expressionais” de determinada época e sociedade.
Referências
Suas referências mais importantes começam com a crítica do marxismo vulgar e marxismo do poder, em 1938, com seu livro referencial, A consciência mistificada, e logo após a Segunda Guerra Mundial,
com os primeiros resultados da pesquisa de sociologia rural que fez em
sua aldeia de origem enquanto pesquisador disfarçado atuava na Resistência francesa, que resultará em seu livro O vale de Campan, cujos primeiros resultados foram os artigos que publicou na revista Cahiers Internationaux de Sociologie, entre 1949 e meados dos anos de 1950.
A interpretação de Lefebvre do método de Marx foi reconhecida por Sartre, em Questão de método,
como a mais importante formulação do método dialético, a do método
regressivo-progressivo, em que a persistência de relações sociais
datadas e pretéritas desvenda o real e, também, o que ainda não se
constituiu plenamente. O método não é um modelo formal, mas o
contraponto dos momentos e desencontros do próprio real. A sociologia de Lefebvre,
que tinha doutorado em sociologia rural, é uma sociologia marxiana, no
sentido de não se filiar às correntes marxistas vulgares do marxismo
partidário desvinculado da relação do pensamento com a práxis.
Método Lefebvre
O método de Lefebvre é trinário e não o binário do marxismo vulgar.
Na coexistência do presente contraditório, o método é dedutivo,
indutivo e transdutivo, investiga o passado que persiste, o presente
instável e o possível que já se anuncia no passado, fragmentário e
inconstituído, e no agora.
É, portanto, o método indispensável para reconhecer em que consiste a
historicidade de uma sociedade como a nossa, em que a prática
persistente da escravidão
como momento decorre de determinações sociais que a negam. Portanto, a
questão é a de descobrir que sociedade antagônica é a mediação de um
possível referido à utopia da comunidade e da família que, nessa
escravidão, se tornaram formas de resistência e de consciência crítica
das vulnerabilidades do capitalismo subdesenvolvido.
IHU – Como o senhor analisa a forma como viemos tratando
sociologicamente os dados sobre trabalho e escravidão no Brasil de hoje?
Em que medida temos conseguido avançar da “catação de dados”?
José de Souza Martins – O livro que lançamos agora,
particularmente o último capítulo, é uma crítica sociologicamente densa
às concepções simplificadoras do que é de fato a escravidão
que persiste. Isso porque justamente é um livro não só do que é visível
e cotidiano, mas também das invisibilidades do real que só a ciência
pode desvendar. A visibilidade da mera “catação de dados”, a de uma
concepção quantofrênica da informação sociológica empírica. Aquilo que
encobre ou mutila a visibilidade possível das contradições, das análises
enganosas.
Meu livro é uma crítica severa ao impressionismo pseudocientífico de narrativas superficiais, muito mais da cultura do espetáculo e da militância divorciada da práxis do que do possível das revelações da ciência. Como Lukács
já havia mostrado em História e consciência de classe, o marxismo
vulgar é sobretudo uma forma de interpretação do real própria do pensamento burguês e reacionário. Muito do que circula por aí e do que se diz por aí sobre a “escravidão contemporânea” é desse gênero.
IHU – Em seu livro, o senhor aponta que a escravidão
contemporânea “não tem sido a mesma ao longo do tempo que logo chegará
ao século e meio do período pós-escravista”. Como a escravidão
contemporânea vem se transformando ao longo dos séculos XX e XXI?
José de Souza Martins – Desde as fundamentadas observações, sobre a escravidão por dívida e o regime laboral do barracão, que Euclides da Cunha fez no Alto-Purus,
no começo do século XX, sucessivas e igualmente bem-feitas observações e
investigações ao longo desse largo período registram um fenômeno
claramente dialético: a situação escravista muda por fatores internos e
externos e em consequência de seus próprios resultados econômicos. A
realidade social, no entanto, suscita novas formas de escravização
determinadas pelo fato de que o capital variável representado pelo escravo é renda capitalizada, uma anomalia própria de economia capitalista que depende desse recurso não capitalista para crescer.
A escravidão, ao se “modernizar”, não desaparece, recria-se sob nova forma de escravidão para viabilizar a continuidade dessa espécie de capitalismo da miséria
própria dos setores da economia situados à margem do grande capital. No
entanto, há significativas limitações e mudanças de forma no emprego ou do trabalho escravo.
Entre elas, as que podemos constatar facilmente comparando a forma
violenta que assumia nos anos 1970, anos decisivos da expansão da
fronteira econômica na Amazônia, e o trabalho escravo posterior à criação do Grupo Executivo de Repressão ao Trabalho Forçado – GERTRAF, no governo FHC,
em 1995, tanto na redução das ocorrências quanto na relativa mitigação
das técnicas de violência da sujeição dos trabalhadores para disfarçar
os indícios de criminalidade.
Mesmo assim, o uso do trabalho escravo se expandiu sob a forma de terceirização. O que levou o governo FHC, em 2002, a criar uma comissão, que coordenei, no Ministério da Justiça, que preparou o Plano Nacional de Erradicação do Trabalho Infantil e Escravo,
que propunha a extensão da punição do trabalho escravo com a “lei da
maconha”, que preconiza o perdimento da propriedade em que se comprove o
uso do trabalho escravo em favor do programa de reforma agrária.
IHU – Quem é o sujeito sociológico da escravidão contemporânea e como ele é conformado?
José de Souza Martins – O sujeito sociológico da escravidão atual
não é uma pessoa. E muito menos uma pessoa conformada. É uma relação
social que coisifica e anula a pessoa do trabalhador transformado em
coisa.
Ao mesmo tempo, essa coisificação extrema é mediada pela significação
utópica da comunidade de origem e da família. A da pessoa situada à
margem da sociedade do capital, é na verdade expressão da sociabilidade
da margem, a que não se determina diretamente pelo capital e pelo capitalismo.
É um resíduo insurgente do passado camponês. O que a circunstância da opressão e exploração capitalista do trabalho,
de modo não capitalista, metamorfoseia em realidade historicamente
possível, como instrumentalização popular, em nome de valores da sua tradição conservadora
que só poderão ter sentido na superação, para o camponês, das
contradições do capitalismo subdesenvolvido que corrói a possibilidade
de sobrevivência de seu modo de vida e de seus valores.
IHU – O senhor abre seu livro com uma dedicatória a Dom Pedro Casaldáliga.
Gostaria que falasse um pouco mais sobre sua relação com este falecido
bispo de São Félix do Araguaia, no Mato Grosso, e sobre como observa a
luta dele com relação ao trabalho escravo e à liberdade.
José de Souza Martins – Nos anos 1970, eu estava iniciando minha pesquisa sobre a expansão capitalista na Amazônia, caracterizada por extrema violência, não só a do trabalho escravo, mas também a da expulsão de indígenas e camponeses de suas terras ancestrais. A pesquisa resultará no livro Fronteira – A degradação do Outro nos confins do humano.
Obra de Martins, fruto de pesquisa nos anos de 1970 em edição de 2009 (Contexto) | Foto: Divulgação
Eu precisava encontrar situações de apoio seguro para realizar meu trabalho. Em alguns estados recorri ao Serviço da Malária: Rondônia e Maranhão, que me dava acesso a moradores situados em lugares remotos do sertão e das áreas de violência. No Mato Grosso, recorri a Dom Pedro Casaldáliga, cuja carta pastoral de 1971 eu lera. Encontrei-o na Assembleia da CNBB, em Itaici. Ele me convidou para participar da assembleia da Prelazia em São Félix. Antes, ajudei-o a preparar o depoimento que daria na Comissão Parlamentar de Inquérito da Câmara dos Deputados, intimado que fora ele no que era um ardil para expulsá-lo do Brasil.
Depois disso, recebi dele sucessivos convites para reuniões semelhantes, como assessor ad hoc. Ele me introduziu na Comissão Pastoral da Terra – CPT Nacional e finalmente fiz parte da equipe que assessorou a assembleia dos bispos em Itaici, de que resultou o documento Igreja e Problemas da Terra. Sou autor do documento de apoio: Terra de negócio e terra de trabalho – Contribuição para o estudo da questão agrária no Brasil, publicado no mesmo ano de 1980, extensamente incorporado ao documento oficial.
Durante anos trocamos mensagens e nos encontramos muitas vezes. Ele batizou minhas filhas.
Experiência em Cuba
De certo modo, foi uma sugestão minha que resultou no convite que o levou a Cuba e ao encontro com Fidel Castro. Em 1980, Florestan Fernandes fora convidado a ir a Cuba
para fazer a pesquisa que resultaria no seu livro sobre o socialismo
naquele país. Ao voltar, ele me trouxe um convite do presidente da Casa das Américas para participar do júri do Prêmio Casa das Américas, de 1981, junto com Antonio Candido, João Ubaldo Ribeiro, Gianfrancesco Guarnieri e Marcio Souza.
Num dos dias, no saguão do hotel, fui procurado por um sujeito que me convidou para jantar. Explicou-me que Cuba queria entrar em contato com a Igreja Católica no Brasil para que na Igreja de Cuba se desenvolvessem as Comunidades Eclesiais de Base,
como aqui, a Igreja cubana fechada às questões do país. Ele propôs
também o meu encontro com o especialista em assuntos religiosos do
Partido. Foi um encontro interessante. Era um homem culto, especialista
em história das religiões, que me fez uma exposição sobre as religiões em Cuba.
Expôs-me que o governo cubano estava tendo problemas com a Igreja. O cardeal de Havana
falecera e já se passava longo tempo sem que um novo cardeal fosse
designado. O motivo, aparente do fechamento, fora a prisão de sacerdotes
católicos espanhóis que, de armas nas mãos, foram presos na invasão da Baía dos Porcos, em 1961, por paramilitares, organizada pela CIA. Os padres foram poupados do fuzilamento, por serem padres, enquanto os demais presos foram para o paredão. O problema de Cuba era, portanto, a suspensão do veto ao regime nas relações com a Igreja.
No jantar, para o qual eu recebera o convite, com o que me pareceu
então ser um agente do governo, a questão da Igreja foi o assunto.
Aparentemente, Florestan fora o intermediário do
convite que me viera porque ele supunha que eu poderia dar indicações
úteis ao estabelecimento da conexão entre o governo cubano e a CNBB. Eu de fato, não era a pessoa. Expliquei-lhe que isso deveria ser feito por meio de algum bispo brasileiro. Eu intuía que a CNBB estava interessada em fazer conexões desse tipo. Em 1986, Dom Luciano [Mendes de Almeida], que era secretário da CNBB, iria à União Soviética participar de um encontro com o Arquimandrita da Igreja Ortodoxa Russa, no clima da abertura política de Gorbatchev.
Tive oportunidade de ver um pouco de perto essa aproximação quando fui convidado a fazer uma conferência no Simpósio sobre "A crise da civilização e a pesquisa das vias para renovação do mundo", promovido pela Academia de Ciências Sociais da União Soviética, em Moscou, em 1989, já no período da abertura política. Nessa ocasião, fui a Zagorski participar de um encontro com o Arquimandrita da Igreja Ortodoxa para uma troca de ideias sobre a Teologia da Libertação.
Eu estava muito interessado na imensa relevância dessa aproximação
porque ela indicava mudanças sociais que davam início a um novo tempo na
sociedade brasileira.
Participei de outros encontros que me deram a medida de grandes
mudanças na Igreja e na esquerda no sentido de uma atenuação de
distâncias. Em 1997, participei como conferencista da Conferência
Internacional “Eredità e ricusazioni di fine millennio – Verso il secolo nuovo”, promovida pelo Comune di Roma, de que participou Mikhail Gorbachev. No ano seguinte participei, também como conferencista, do IV Congresso Internacional sobre Migrações e Refugiados, no Vaticano, presidido pelo arcebispo Hamao, de Tóquio, congresso que foi seguido a distância, atentamente, pelo Papa João Paulo II, conforme ficou claro no extenso texto que publicou no Osservatore Romano, no fim do evento, após ter recebido em audiência os participantes.
Aparentemente, estava se definindo um quadro de aproximação entre
governos e igrejas de países com os quais as relações políticas eram
difíceis. Na conversa com o funcionário cubano que me abordara no Hotel,
sugeri que a pessoa indicada para ir a Cuba era Dom Pedro Casaldáliga. Alternativamente, talvez fosse mais fácil convidar Frei Betto porque um dos articuladores das CEBs no Brasil.
Frei Betto acabaria sendo o convidado e do convite resultaria o livro “Fidel e a Religião”, livro que chegaria às mãos do Papa João Paulo II, que o comentou positivamente com Dom Eugênio Sales, cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro.
Livro de Frei Beto, em edição de 2016 (Companhia das Letras) | Foto: divulgação
Mais adiante, Dom Pedro Casaldáliga também seria convidado a ir Cuba, em 1999, e a encontrar-se com Fidel, com quem eu também me encontrara junto com os outros participantes do Júri do Prêmio. No fim das contas, em 1998, o Papa João Paulo II visitaria Cuba e se encontraria com Fidel Castro, as relações entre o Vaticano e aquele país regularizadas. Já não é mais pecado ir a Cuba.
Fonte:
https://www.ihu.unisinos.br/636140-a-escravizacao-se-moderniza-e-cria-formas-de-escravidao-para-viabilizar-o-capitalismo-da-miseria-entrevista-especial-com-jose-de-souza-martins