domingo, 28 de janeiro de 2024

500 anos sem Camões (parte 1)

 António Carlos Cortez*

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2024 é o ano em que celebramos, para além dos 500 anos do nascimento de Camões, o fim de 50 anos de fascismo em Portugal. Luís de Camões deveria ser devidamente evocado como uma voz que jamais se deixou domesticar, por muito que os sucessivos regimes - da Monarquia agonizante oitocentista ao republicanismo; da ditadura de Salazar à democracia saída de Abril - se tenham servido do autor de Os Lusíadas para exaltar as suas políticas e ideologias.

Falou-se de tudo a pretexto de Camões: da gesta dos Descobrimentos, dos amores por infantas, de prisões e de exílios, de tenças e de sentenças, de amores por Dinamene, da miséria suportada à custa dum escravo, Jau, esmolando em nome do poeta-mártir nessa Ásia madrasta. Falou-se de uma gruta, de uma ilha, de uma leitura ocorrida em Sintra, perante um rei. Construiu-se de Camões a imagem do ideólogo da “fé e do império”. Fez-se dele o símbolo da resistência entre 1580 e 1640. E de novo Camões, erguido, no quadro mental do Romantismo, a pai da pátria, em 1880. Falou-se dele, já em tempos recentes, como ocidental branco, europeu e católico aberto à experiência do Outro, em jeito de poeta da alteridade, um Camões mais cool requentadamente servido nos pratos indigestos ora dum neo-lusitanismo hipócrita, ora dum europeísmo cínico. Mas, que se faz pela sua poesia? Pelo seu teatro? De que modo Camões é, de facto, hoje um poeta lido por portugueses já nascidos no século XXI, filhos do TikTok e do WhatsApp? Que lhes diz Camões? Salvo as iniciativas isoladas deste ou daquele centro de investigação, desta ou daquela companhia de teatro, deste ou daquele poeta, ou romancista, celebramos 500 anos - mas sem Camões.

Em 2024 multiplicar-se-ão os discursos sobre Portugal, que não exactamente sobre a obra do poeta. O nosso país como arauto de uma fraternidade e de um ecumenismo ímpares; discursos sobre Camões como embaixador do “ser português” que, em 2024, servirá aos políticos para fazerem o auto-elogio, mascarado de agradecimento pátrio, das políticas de integração num país onde nepaleses, indianos, paquistaneses, ucranianos, mas também portugueses, brasileiros, russos, vivem aos magotes, têm trabalhos precários e, mercê das vidas esmagadas, nunca encontrarão poesia alguma no seu quotidiano. O facto é este: Portugal, já em tempo de regresso à Europa, depois do trauma de África e do enclausuramento fascista num rectângulo medieval até 1974; Portugal, em 2024, como em 1986; como em 1933 ou em 1910 - Portugal continua a desprezar as artes e, muito em especial, Camões. 
Lê-lo, compreendê-lo, admirá-lo como autor maior do Quinhentismo europeu e um dos que mais profundamente pensaram sobre a condição humana, essa é, para mim, a verdadeira homenagem que lhe devemos. E este é o nó górdio do nosso intricado problema mental: não lemos Camões num país que se diz de poetas. E, claro, não apreciamos a arte. Disso Camões sabia melhor que ninguém: quem não sabe arte não a aprecia, escreveu, radiografando os poderosos. Nas estrofes 78 a 87 do Canto VII fustiga os que, ingratos, o condenaram “a tamanhas misérias”; vitupera os que, hipócritas, o denegriram (“A troco dos descansos que esperava / Das capelas de louro que me honrassem / Trabalhos nunca usados me inventaram / Com que tão duro estado me deitaram”). Condenação do país em toda a linha, justificadamente. 

Não cantará, nessa nova Proposição, os que procuram a lisonja no seu canto; não cantará os que antepõem o seu interesse ao interesse colectivo; nem cantará “Nenhum que use de seu poder bastante / Para servir a seu desejo feio, / E que, por comprazer ao vulgo errante”- isto é: para agradar à opinião do povo, sempre manipulável - “Se muda em mais figuras que Proteio” (não fará o elogio dos cínicos e dos que mudam de forma, como o deus Proteu, o das mil faces). Tão-pouco exaltará os ambiciosos, os que querem subir “a grandes cargos (…) / Só por poder com torpes exercícios / Usar mais largamente de seus vícios” (84, 3-8). Não eternizará os que exploram “o suor da servil gente” (86, 4), nem os oportunistas e ladrões que “com pouco experto peito” (inexperientes na governação) “Razões aprende[m] e cuida[m] que é prudente, / Para taxar, com mão rapace e escassa, / Os trabalhos alheios que não passa[m].” (86, 6-8).

Um Camões assim lido, com as pausas e a cadência e o tom certos, quem não o ouviria?
Um Camões lúcido e vertical, mas que também assume “em prisões baixas fui um tempo atado”; que sabe que cometeu erros, que houve má-fortuna, que amou (e desamou), vivendo intensamente. Um épico sui generis que na, sua epopeia negra, sabe que já não há heróis, restando-lhe olhar para o passado e a partir desse passado apelar a que saibamos o valor do exemplum.

No ensino, falta-nos Camões. O exemplum. Falta-nos saber o “como diz” dos textos do lírico e do épico. Não o que dizem, mas como dizem esses textos. Saber ler Camões e todos os outros poetas que estão à espera, porque expulsos dos curricula. Ler, com Camões, a poesia de Sá de Miranda e a de Bernardim, sonetos dos barrocos e o verso livre dos neoclássicos; associar Camões ao simbolismo de Pessanha; compreender de que modo Camões ecoa na mitologia dum António Nobre e dum Pascoaes - todos estes autores, como um sem-número de poetas contemporâneos, são desconhecidos dos estudantes. Tudo à espera: poetas, textos, ideias, textos fortes - tanto a que os jovens têm direito e não lhes é dado, como devia ser.

Ler significa, em contexto escolar e universitário (e ler ao longo dos anos), fortalecer o amor à vida em época de fascínio pela morte. Significa até mesmo, lendo Camões, mergulhar nas longas meditações sobre o destino (as dez canções!) e o absurdo; significa fazer o caminho da inter e da transtextualidade: platonismo e neoplatonismo, a arte da pintura no maneirismo, a lição de Horácio: a poesia como pintura. Quer dizer: Camões, como Cesário, poderia ter escrito “Pinto quadros por letras, por sinais” - e isso leva a que, olhando para um seu poema, o leitor tenha de imaginar a cena descrita num vilancete, numa glosa, numa elegia. Poesia de Camões ou o da imagem, o trabalho intelectual guiado pela faculdade da imaginação.

Ler Camões, hoje nas escolas portuguesas, implica admitir que, nestes 500 anos, este não é um autor admirado, ou que suscite a curiosidade da maioria dos alunos. Leccionado no 3º ciclo e no Secundário, o Lírico e o Épico são, normalmente, motivo não de mistério, mas de reacção boçal: “Que seca!”, dizem uns. “Que difícil!”, dizem outros. Entre a aridez e a dificuldade de o trazer ao convívio dos alunos, os professores ora desistem, ora repetem por tentativa-e-erro o ensino da poesia de Camões. Muitos fazem-no da pior maneira: dá-se-lhes uma bateria de poemas (normalmente sonetos) e em turmas de 28, 29, 30 adolescentes, cada aluno apresentará oralmente um soneto ao calhas! Avalia-se (assim se diz) a oralidade e a autonomia do aluno. Mas para quem jamais contactou com um soneto na vida escolar, é esta a melhor forma de ler Camões? Julgo que a classificação de orações a partir das oitavas de Os Lusíadas era, em todo o caso, mais didáctica e pedagógica que esta prática de pôr os alunos a falar (a analisar, dizem) sobre o que não sabem.

Uma das questões prévias que devemos colocar na leccionação da poesia e, sobretudo, da poesia de Camões, prende-se com o facto de a biografia, como lembrava David Mourão-Ferreira, apesar de poder ajudar, não explicar uma obra. E, no caso do nosso poeta, pouco sabemos sobre a sua vida. Onde nasceu? Em que ano, de facto? Se estudos como os de José Maria Rodrigues, de Hernâni Cidade, de Jorge de Sena, de Leodegário de Azevedo Filho, de A. J. da Costa Pimpão, de Aguiar e Silva, de Helder Macedo, de Vasco Graça Moura, Maria Vitalina Leal de Matos; de António Cirurgião, de Américo da Costa Ramalho e de Rita Marnoto, entre tantos outros, esclareceram muito do autor de “Aquela cativa”, mais importantes são pelo que propõem, metodicamente, acerca da linguagem e ideias do autor das Rythmas. 

Houvesse preocupação por se fazerem manuais escolares verdadeiramente apelativos, com textos críticos exigentes, e talvez fosse possível, nas aulas, aprender a comentar a poesia de Camões tendo em conta a produção ensaística. Mas, em toda a linha, salvo excepções, Camões é ainda vítima de novos modos de impressionismo: para as provincianas questões de género, para causticar a sua visão eurocêntrica, colonialista; para enfim, o tresler e pô-lo ao serviço de novas inquisições. Tudo isto sem que se entenda que o passado pede, ao leitor do século XXI, que conheça as categorias mentais, estéticas e éticas dos diversos passados da História.

A poesia é, como arte, o passado feito presente, estoicamente. O trabalho nas aulas deveria estar centrado nisso que Vítor Aguiar e Silva chamava a lógica textocêntrica de toda a lição. Olhar para o trabalho oficinal de Camões ao nível sintáctico. Debruçarmo-nos sobre os engenhosos hipérbatos (“Oh! ocioso e cego pensamento! / Ainda eu imagino em ser contente?” (soneto 91), sobre a polissemia de determinadas palavras (“pena”, “cativa”, “fogo”), compreender a meditação dialéctica da existência, a fina argúcia com que retirou de episódios vividos ou observados, da sabedoria popular ou da sabedoria livresca, determinadas lições, tudo isso - bem lido nas aulas - poderia conquistar novos leitores. O trabalho das imagens, a conceptual arquitectura dos seus versos, lugares onde tensão e contradição do humano são ditos num português que atinge aquela “temperatura” que Ruy Belo dizia ter de haver na verdadeira poesia, isso temos de ser capazes de dar a quem hoje não tem Camões.

Leia-se em voz alta, atentos à prodigiosa imaginação e virtuosismo gramatical, poético, destes versos: “Ah, falso pensamento, que me enganas! / Fazes-me pôr a boca onde não devo, / Com palavras de doudo, e quase insanas! / Como alçar-te tão alto assi me atrevo? / Tais asas, dou-tas eu, ou tu mas dás? / Levas-me tu a mim, ou eu te levo? / Não poderei eu ir onde tu vás? / Porém, pois ir não posso onde tu fores, / Quando fores, não tornes onde estás.”. Não é sublime?
Estou certo de que, bem lido, levando à compreensão o “como diz” de Camões, ele seria nosso, 500 anos depois.


*Professor, poeta e crítico literário

Fonte: https://www.dn.pt/7206960917/500-anos-sem-camoes-parte-1/

O que me impede de transformar a aldeia que habito em vez de invejar a do lado?

Por Leandro Karnal*

'Pinheiros no Pântano', de Van Gogh

 'Pinheiros no Pântano', de Van Gogh Foto: 'Pinheiros no Pântano', 
de Van Gogh (1884)/Museu Van Gogh

Você é invejoso e ressentido. Eu sou invejoso e ressentido. O papa é. Elon Musk é. Impossível não ser

Viajante do meu Brasil, estive em uma cidade de Santa Catarina, para palestrar. O motorista nos pegou no aeroporto de Chapecó. Fomos a um município mais ao oeste. Na volta, reclamou dos buracos e problemas em uma estrada. Comentou: “Só asfaltam bem até Chapecó. Depois, abandonam. Só existem coisas boas entre Chapecó e o litoral...”.

O ressentimento é o que Espinosa e outros chamariam de “paixão triste”. Meu corpo e minha alma (no sentido do filósofo holandês) possuem conatus, ou seja, um esforço para continuar vivos. A potência para existir está na nossa essência. Quando o corpo revela seu conatus, chama-o de apetite. Quando é a alma, mostra-se como desejo. Apetites e desejos são expressões vitais. Enquanto os temos, a vida percorre nosso ser.

Nossa capacidade de existir dialoga com desejo, alegria e tristeza. Ao meu redor, eu, um pedaço finito do universo, sou confrontado por muitas coisas maiores e mais fortes. Quando aumenta minha potência de agir, sou alegre; quando ela escasseia, sou triste. Aqui, a teoria de Espinosa servirá muito à tradição clínica sobre a potência do sujeito.

A (potência) de existir do outro parece maior. Ao meu redor, há pessoas, famílias, cidades e países mais fortes, mais harmônicos, mais bonitos, mais ricos. Isso leva ao duplo diálogo entre inveja e ressentimento. Recebi menos do que eu gostaria. Outros, e parece que isso é aleatório, receberam mais. O mundo brilha além de Chapecó. Infelizmente, nasci aquém, menos, menor... Isso é uma paixão triste e cáustica que me fará rancoroso com o mundo imaginado além das fronteiras de Chapecó.

Inimigas da potência de criar, ferrugem lenta e inexorável do projeto de seguir adiante, as paixões tristes são um verdadeiro mal do século da vida pública. Inveja e ressentimento constroem posts, multiplicam protestos, elaboram teorias e continuam corroendo o que poderia ser bom.

Você é invejoso e ressentido. Eu sou invejoso e ressentido. O papa é. Elon Musk é. Impossível não ser. O mais importante – umas se conhecem mais do que outras. Por medo ou virtude, algumas se controlam de forma distinta. Outros se deixam dominar. Os que sorriem quando gostariam de esmurrar são chamados de calmos. Variam a intensidade e o grau de controle e de autoconhecimento. O que é constante? A lava quente corre sob toda a crosta terrestre, sob cada pessoa. Há terrenos com vulcões e terremotos; há os muito estáveis. Sob todos, a pressão poderosa da nossa natureza agressiva. Não é Hobbes ressuscitado. É experiência de vida. Aprendi a temer gente tranquila tanto quanto aprendi a acudir quando houver silêncio de um grupo de crianças na sala ao lado.

“Conhece a ti mesmo” brilhou no templo de Delfos e na calva socrática. Como usar o conhecimento contra a paixão triste ressentida?

O primeiro passo é pensar que alguns dados tão somente escondem minha dor. Será mesmo que todas as estradas são perfeitas do outro lado? Minha dor escondeu-se em uma convicção de dados confusos? Trazer a luz do conhecimento para iluminar cada ponto sombreado da minha consciência pode ser um bom começo.

Segundo: se há mais felicidade daquele lado, por que eu permaneço neste? Melhor – o que me impede de transformar a aldeia que habito em vez de invejar a do lado?

Terceiro: o que explica o brilho maior do vizinho é apenas a sorte? O acaso genético e social? Haverá algo na rotina dele que me ajude a compreender de outra forma? Como paixões “envergonhadas”, inveja e ressentimento costumam mascarar-se sob outros conceitos, geralmente mais elevados. Injustiça existe. Apesar disso, nem sempre explica tudo.

Como paixões tristes, inveja e ressentimento esvaziam a potência do indivíduo. Trata-se de refazer protagonismo não para pensar o absurdo de que tudo depende de você ou que seu desejo muda o universo, todavia para reinserir força e energia no seu projeto biográfico. O mundo se apresenta assim, injusto inclusive. O que eu faço a partir do dado real que percebo ao meu redor? Como me incluo? De que forma abandono a posição de observador amargurado e entro no jogo?

O mais dramático da tristeza ressentida é que ela se construiu como uma zona de conforto fabulosa. É uma sala VIP da inatividade. “O jogo é de cartas marcadas e nada pode ser feito” esconde muita coisa. Sim, o jogo tem alguns aspectos bons e outros completamente equivocados. Se é um jogo ruim, não fique chorando ao lado dos jogadores. Afaste-se, crie o seu próprio, mude aquele: qualquer coisa, mas faça.

O ano de 2024 chegará ao seu segundo mês. As promessas de ano-novo já mostram ferrugem precoce. Daqui a pouco, o carnaval, a Páscoa... em seguida, o meio do ano e, em um piscar de olhos, Natal e ano-novo. Esse texto vai para um motorista, no desejo de que ele não se aposente daqui a 30 anos, dizendo que os buracos eram intensos do lado dele, mas o Paraíso algumas cidades além. O primeiro conselho de um coach foi quando Deus disse a Adão, na pior hora deste: “Você vai ganhar o pão com o suor do seu rosto”. Coach honesto, o Criador não prometeu mudança de mentalidade – sugeriu trabalho duro. Esperança com suor tapa buracos da paixão ressentida. 

* Historiador, escritor, membro da Academia Paulista de Letras, colunista do Estadão desde 2016 e autor de 'A Coragem da Esperança', entre outros

Fonte: https://www.estadao.com.br/cultura/leandro-karnal/o-que-me-impede-de-transformar-a-aldeia-que-habito-em-vez-de-invejar-a-do-lado/

sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

Bye, bye, Uncle Sam

Por PAULO NOGUEIRA BATISTA JR*

Os Estados Unidos em decadência, por Noam Chomsky | Esquerda

Hoje quero tratar de um tema de longo prazo, de natureza “estrutural” por assim dizer. Refiro-me ao declínio do Ocidente, mais especificamente à sua parte principal – o declínio dos Estados Unidos, a superpotência que até há pouco tempo dominava o planeta. Esse declínio tem várias dimensões e se mostra inexorável. Não obstante, os Estados Unidos, seus aliados e satélites resistem a aceitá-lo, resistem de forma sistemática e feroz. Como nas tragédias gregas, a resistência ao destino não faz mais do que acelerar a sus concretização.

Acostumados, há vários séculos, a dar as cartas, a ditar regras e a impor as suas vontades, os americanos e europeus fazem de tudo para negar a realidade, mesmo sendo ela objetiva e implacável. A queda ano após ano do peso relativo dos EUA e cia. em termos demográficos e econômicos é clara e cristalina. A população dos países de alta renda corresponde a apenas 15% da população mundial e tende a continuar caindo. A economia da China já é maior do que a dos Estados Unidos há algum tempo, em termos de paridade de poder de compra (a forma mais correta de fazer comparações internacionais).
Na China, os EUA encontram o seu maior rival, mais ameaçador do que outros rivais com que se defrontaram em outras épocas. A União Soviética foi um rival militar, mas não econômico. O Japão foi um rival econômico, mas não militar. A China é as duas coisas ao mesmo tempo.

Os chineses, durante muitos anos, proclamaram a esperança de que a sua ascensão poderia ser pacífica. Não sei se realmente acreditavam nisso – os chineses são muito dissimulados –, mas proclamavam o tempo todo o mantra da sua “ascensão pacífica”. Essa esperança se espatifou no período Trump. Ficou evidente que os EUA estão dispostos a bloquear e prejudicar o desenvolvimento da China, mesmo que isso possa trazer danos a seus interesses econômicos de curto prazo. A palavra de ordem é obstruir, se possível sufocar, a expansão econômica e política da China. Biden manteve essa política, chegando a aprofundá-la.

Os resultados têm sido pífios. A economia da China acusou alguma desaceleração, em parte por causa das sanções econômicas impostas pelos EUA, mas continua crescendo mais que os países do Ocidente e mais do que a média mundial. Refletindo o seu crescente poderio econômico, a China cresce politicamente e se mostra presente em todas as áreas do mundo, inclusive no Hemisfério Ocidental. Os EUA esperneiam, mas não conseguem deter a onda chinesa.

E cometem erros palmares, que aceleram o seu declínio econômico e político. O principal deles foi ter iniciado uma outra grande confrontação – com a Rússia, em torno da Ucrânia. Superestimando suas forças e capacidades, os americanos se julgaram capazes de confrontar a China e a Rússia simultaneamente. A Rússia e a China levam a melhor até agora. Além disso, a hostilidade dos americanos aproximou russos e chineses como nunca.

Essas confrontações têm levado os EUA a medidas extremas, entre elas a militarização do dólar e do sistema financeiro ocidental para punir severamente os países hostis. O ápice dessa militarização foi o congelamento de cerca de US$ 300 bilhões de reservas internacionais da Rússia em represália à invasão da Ucrânia em 2022. Um abalo importante para a Rússia, mas também para o dólar. Sofreu a confiança na moeda americana e no sistema financeiro ocidental, já abalada por medidas do mesmo tipo adotadas contra outros países. Os EUA, ironia da história, mostram-se os piores inimigos do dólar.

O declínio dos EUA tem uma dimensão especificamente política, que aparece na baixa qualidade dos seus líderes, na disfuncionalidade do seu sistema político e na descrença de grande parte da população nas eleições e nas instituições. A ninguém escapa que o dinheiro é que governa. A democracia converteu-se em plutocracia. Mais grave: em kakistocracia o governo dos piores. Alguma dúvida? Basta ver quem foi presidente da maior potência do planeta em tempos recentes: George W. Bush (eleito não uma, mas duas vezes), Donald Trump (eleito uma vez, talvez uma segunda em 2024) e Joe Biden. Impressionante sucessão de mediocridades.

Para completar o quadro adverso, os EUA arcam com o imenso prejuízo político de apoiar o comportamento criminoso de Israel na faixa de Gaza. Até satélites matriculados vacilam um pouco em acompanhar os americanos nessa empreitada funesta e onerosa. Por que os EUA se mostram dispostos a incorrer nesse custo extraordinário? Basicamente por causa de outra antiga disfuncionalidade da plutocracia americana: a força do lobby israelense, que há muito tem levado a política externa dos EUA a subordinar-se à política de Israel. Agora, que Israel parte para o vale tudo, os EUA pagam boa parte do preço. Nunca esteve tão desmoralizado o discurso ocidental de defesa dos valores e direitos humanos.
Em uma frase: perda de expressão econômica, demográfica e política dos EUA; China, Rússia e Israel; lideranças americanas fracas e despreparadas. Tempestade perfeita. Bye, bye, Uncle Sam. Os EUA têm muitos recursos e a despedida vai ser longa, mas já começou.

Não se deve descartar que os EUA e seus aliados ainda consigam reagir a essas tendências e eventos desfavoráveis. Estão sempre tentando e lançam mão de todos os recursos, inclusive a violência. As superpotências são mais perigosas, leitor, quando entram em declínio. Mas é difícil imaginar que a tendência histórica possa ser revertida. Americanos, aliados e satélites vão continuar esperneando, mas o seu destino parece estar traçado.

***

Uma versão resumida deste texto foi publicada na revista Carta Capital.

*O autor é economista, foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS em Xangai, de 2015 a 2017, e diretor executivo no FMI pelo Brasil e mais dez países em Washington, de 2007 a 2015. Lançou no final de 2019, pela editora LeYa, o livro O Brasil não cabe no quintal de ninguém: bastidores da vida de um economista brasileiro no FMI e nos BRICS e outros textos sobre nacionalismo e nosso complexo de vira-lata. A segunda edição, atualizada e ampliada, foi publicada em 2021.

Nova IA do Google gera vídeos de bichos em situações surreais; veja

Por Pedro S. Teixeira - São Paulo

Oito quadros mostram imagens de vídeos criados pelo Google: Há um barco, um panda dirigindo um carro, um elefante andando debaixo da água, um floco de neve, um sorvete derretendo, um ursinho de pelúcia andando pela cidade, uma preguiça lendo e um gato tocando piano
 Vídeos gerados pela inteligência artificial do Google não apresentam inconsistência na imagem ou na sequência de ação - Reprodução/Google

Resultado divertido representa avanço técnico ao possibilitar sequências de imagens fictícias coerentes

Inteligência Artificial e destruição de empregos

 Por Celso Ming

Uso de IA no mercado de trabalho tende a intensificar as desigualdades, afirma especialista.

O uso da tecnologia deve causar grandes impactos no futuro mercado de trabalho e aumentar as desigualdades, avalia especialista


À medida que avança a utilização da tecnologia de inteligência artificial (IA), cresce o temor de destruição de empregos e complicam-se os desafios das autoridades para lidar com a novidade.

A substituição de atividades profissionais em consequência do avanço da tecnologia é coisa antiga. A criação da lâmpada elétrica, por exemplo, matou o emprego dos acendedores de lampiões. E, muito antes disso, as máquinas automáticas tomaram o lugar das ocupações repetitivas nas fábricas, o que levou, no início da Revolução Industrial, ao ludismo, o movimento dos trabalhadores que se puseram a quebrar as máquinas.

No entanto, ao mesmo tempo que novas tecnologias extinguiram profissões, outras oportunidades foram criadas. Sempre que isso aconteceu, a sociedade conseguiu se adaptar às mudanças e gerou mais empregos e com melhor remuneração.

Estudo recente do Fundo Monetário Internacional (FMI) concluiu que, em todo o mundo, cerca de 40% das ocupações sofrerão o impacto produzido pelo inevitável crescimento da utilização da IA. Esse impacto não será uniforme. Em países industrialmente desenvolvidos, o porcentual de ocupações expostas aos efeitos da IA deverá ser ainda maior, de alguma coisa em torno de 60%.

Mas este não será o único efeito a ser criado pela nova tecnologia. Aumentará também a produtividade tanto do trabalho quanto da produção.

A grande questão com a adoção da IA generativa, como é o caso do ChatGPT e de tantas outras tecnologias que estão sendo lançadas, é que ela exige respostas mais rápidas, uma vez que essas tecnologias seguem sendo desenvolvidas para imitar ou até mesmo substituir com vantagem as atividades humanas.

Na avaliação do pesquisador e coordenador de Humanidades do Centro de Inteligência Artificial da USP, Glauco Arbix, os principais sinais que indicam que esta revolução tecnológica pode ser um pouco diferente da passado são os impactos nos empregos de maior qualificação, como os dos advogados, jornalistas, professores, contadores e tradutores. O uso massivo da IA também leva ao risco de aumentar a desigualdade, tanto de gênero quanto de raça e de qualificação no mercado de trabalho global.

“Ainda que não estejam claros os empregos que deixarão de existir ou que serão sufocados pela IA, é quase consenso que esse avanço aumentará as atuais desigualdades. Isso significa que o mercado de trabalho ficará muito mais segmentado; oferecerá menos empregos bem remunerados, tende a rebaixar uma outra massa de trabalhadores e outros que, simplesmente, ficarão desempregados”, adverte Arbix.

A chave para superar esse cenário, imagina Arbix, é o aumento do investimento em formação e requalificação profissional. Embora venha experimentando fortes recuos nos índices de desemprego, o Brasil ainda enfrenta a baixa qualidade dos seus profissionais.

O futuro do trabalho passa pela melhora da educação e do treinamento, já que os empregos que exigem mais análises tendem a ser poupados. Um estudo divulgado nesta semana por pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês) mostrou que ainda não é economicamente viável a substituição de empregos por  inteligência artificial. Somente 23% dos trabalhadores, medidos em termos de salários em dólares, poderiam ser, de fato, substituídos.

“Não há respostas simples, ainda mais porque a tecnologia vai avançando de forma muito rápida. Dá tempo? Para uma parte terá de dar porque será fundamental treinar e requalificar as pessoas. Uma outra ficará para trás e isso gera outros debates, como o da renda básica universal, por exemplo”, explica Glauco Arbix, pesquisador da USP. /COM PABLO SANTANA

 *Jornalista e comentarista de economia

 25/01/2024 | 19h20

Fonte: https://www.estadao.com.br/economia/celso-ming/inteligencia-artificial-e-destruicao-de-empregos/

quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

A escravização se moderniza e cria formas de escravidão para viabilizar o “capitalismo da miséria”.

 Por: João Vitor Santos | 23 Janeiro 2024

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Entrevista especial com José de Souza Martins

Sociólogo apresenta seu mais recente livro, “Capitalismo e escravidão na sociedade pós-escravista”, antecipando pontos centrais aprofundados na publicação

Resgate de trabalhadores em situação análoga à escravidão da colheita de palha de Carnaúba em 2013 | Foto: Sérgio Carvalho/MTE


Há alguns anos, aprendíamos nas aulas de História do colégio que o capitalismo vem como um modelo econômico que contribui para o fim da escravização, afinal, todos tinham de consumir para girar a engrenagem deste novo sistema. Mas, com o tempo, vamos percebendo que a história é outra e que a modernização, no mais amplo sentido da palavra, acaba criando formas de escravidão. O livro mais recente do professor José de Souza Martins evidencia justamente como capitalismo e escravidão se configuram como duas faces da mesma moeda. “Uma linha central na estrutura deste livro é, pois, a do desenvolvimento desigual do capital, a de seus diferentes e combinados momentos e tempos, a contradição da diversidade de suas temporalidades”, adianta.

Na entrevista, concedida por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU, Martins apresenta o livro e antecipa alguns pontos. Entre eles, o de que “foi a pobreza do camponês brasileiro que subsidiou os lucros da indústria ao produzir sem lucro a alimentação da dieta operária, que permitiu o sistemático e regular barateamento da reprodução da força de trabalho industrial, reduzindo os dispêndios com capital variável em relação ao capital constante e assegurando ao capital da indústria uma composição orgânica alta, isto é, moderna e economicamente desenvolvida sem se tornar socialmente desenvolvida”.

No fim das contas, o que revela em “Capitalismo e Escravidão a Sociedade Pós-escravista” (Unesp, 2023) é que a “escravidão, ao se ‘modernizar’, não desaparece, recria-se sob nova forma de escravidão para viabilizar a continuidade dessa espécie de capitalismo da miséria própria dos setores da economia situados à margem do grande capital”. Martins detalha também que “a situação escravista muda por fatores internos e externos e em consequência de seus próprios resultados econômicos. A realidade social, no entanto, suscita novas formas de escravização determinadas pelo fato de que o capital variável representado pelo escravo é renda capitalizada, uma anomalia própria de economia capitalista que depende desse recurso não capitalista para crescer”.

No livro de 2023, Martins detalha como capitalismo e escravidão de convertem em duas faces da mesma moeda | Foto: divulgação

O livro revisita antigas pesquisas do professor e faz uma crítica à sociologia de hoje e suas análises sobre o tema. “Particularmente o último capítulo é uma crítica sociologicamente densa às concepções simplificadoras do que é de fato a escravidão que persiste. Isso porque justamente é um livro não só do que é visível e cotidiano, mas também das invisibilidades do real que só a ciência pode desvendar”, avalia. Por fim, Martins faz memória a Dom Pedro Casaldáliga, a quem também defere um reconhecimento nas primeiras páginas do livro, pela contribuição que dá na sua formação enquanto sociólogo que vê e sente o drama do mundo concreto.

José de Souza Martins (Foto: Unesp)

José de Souza Martins é graduado em Ciências Sociais, mestre e doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo – USP. Foi professor visitante da Universidade da Flórida e da Universidade de Lisboa e membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, de 1998 a 2007. Foi professor da Cátedra Simón Bolívar, da Universidade de Cambridge (1993-1994) e é professor titular aposentado da USP.

Está lançando o livro Capitalismo e escravidão na sociedade pós-escravista (Unesp, 2023). Entre outros livros seus, destacamos: Exclusão social e a nova desigualdade (Paulus, 1997), A sociabilidade do homem simples: cotidiano e história na modernidade anômala (Contexto, 2000), Linchamentos: a justiça popular no Brasil (Contexto, 2015), Do PT das lutas sociais ao PT do poder (Contexto, 2016) e Sociologia do desconhecimento: ensaios sobre a incerteza do instante (Unesp, 2021).

Confira a entrevista.

IHU – Como explica a persistência da escravidão na sociedade pós-escravista?

José de Souza Martins – O título deste meu novo livro, Capitalismo e escravidão na sociedade pós-escravista, tem a peculiaridade de já enunciar o problema sociológico de que trata e que o justifica no desafio metodológico que propõe. É um livro de sociologia e não uma reportagem. Esta entrevista não é um resumo do livro nem o substitui. É um estudo sobre o livro, um texto de sociologia do conhecimento, que situa e explica o livro, um complemento da obra.

Os clássicos dos estudos sobre escravidão, como Karl Marx e Max Weber, ainda que por meio de distintas orientações teóricas, entendem que o capitalismo é um modo social e econômico da sociedade se reproduzir, indissociável do trabalho livre na sua forma mais característica, a do trabalho assalariado. Isto é, o trabalho do trabalhador que, privado dos meios de produção e proprietário unicamente de sua força de trabalho, é juridicamente igual a quem seu trabalho compra. Mas, nesse processo, torna-se economicamente desigual ao comprador.

Essa é a contradição própria das relações capitalistas de produção, no enunciado de Marx. É o mercado de trabalho que determina a taxa de exploração do trabalho de que a desigualdade resulta, é baseada no fato de que no mercado o vendedor aceita como justo, pelo seu trabalho, o preço que o comprador julga justo.

Com a peculiaridade de que o trabalhador, como é ponto essencial da interpretação de Marx, é alienado sem o saber (a alienação como condição da exploração capitalista, isto é, do lucro, sem a qual o capitalismo é inviável) julga vender ao capital, por preço justo, seu trabalho, quando na verdade está vendendo seu tempo de trabalho, que é outra coisa, sua capacidade de produzir mais valor do que o retribuído em seu salário. Valor é uma coisa e preço é outra. Salário é preço do tempo de trabalho e valor é o realizável no mercado.

Alienação

Objetivamente, como demonstra Marx em O Capital, o capitalista compra uma coisa e o trabalhador lhe vende outra. Essa desigualdade é permeada pelo autoengano, necessário a que o capital se realize na reprodução ampliada: na suposição de que mais capital sai da produção do que aquele que nela entra.

Assim, o capital se legitima, na ilusão do capitalista que o personifica, de que é ele que cria o lucro e não o trabalho. Pode-se dizer, portanto, que o capitalista também tem sua alienação de contrapartida na suposição de que é ele, o capital nele personificado, o criador da riqueza crescente, de que isso vem de sua competência empresarial. Vem dela, mas não fundamentalmente. Essa relação contraditória e a teia de relações e mediações que a caracterizam se expressam em realidades como a de que tratou Max Weber em A ética protestante e o “Espírito” do capitalismo, o capitalista como funcionário do capital, como o definiu Marx, como se o capital não fosse seu, agindo como se estivesse a serviço dele –interpretação baseada na parábola bíblica dos talentos, de que já tratara o próprio Karl Marx, em nota de rodapé de O Capital. Ou a interpretação da relação entre religião e capitalismo, de Werner Sombart, em O burguês: contribuição à história moral e intelectual do homem econômico moderno.

 

Método dialético

A opção pelo método dialético, que aqui faço, entre as alternativas que menciono, impôs-se porque o tema do trabalho criador indireto de história e de possibilidades sociais é instrumento de historicidade. O trabalho escravo estaria, disfarçadamente, situado nesse campo, mesmo à margem e anômalo na reprodução capitalista do capital? O atraso social e político do Brasil não seria uma indicação nesse sentido? Este livro se situa, pois, na sociologia da historicidade e não propriamente na sociologia da história. São complexas as questões teóricas nele consideradas.

No trato sociológico do tema da escravidão atual, não se pode deixar de recorrer a Rosa Luxemburg, autora alemã, assassinada em 1919, que aponta, em O Capital, de Marx, a deficiência de não explicar como é que esse valor, a mais-valia, se realiza como capital se os trabalhadores da sociedade capitalista recebem menos do que vale seu trabalho. Não podem, pois, comprar parte dos produtos da relação capitalista para que o valor contido nas mercadorias resultantes da produção não paga se realize na circulação. A explicação que Marx dá à questão não a explica.

Para Rosa Luxemburgo, a explicação que falta está na interação do modo capitalista de produção com formas não capitalistas de produção. Isto é, na troca de produção capitalista por produção não capitalista, como a do trabalho escravo. Mas também com a produção camponesa, sob forma não capitalista, sugerem os estudiosos das sociedades camponesas, com os quais me identifico, porém, em minha própria linha de interpretação, que indico em seguida. É uma explicação que adia a solução da contradição, resolvendo-a hoje sem resolvê-la de fato.

Desenvolvimento desigual do capital

Quando falo em “minha interpretação”, refiro-me à centralidade de que as questões propostas pelo capital dependem da circunstância singular e peculiar de sua reprodução, que não é a mesma nas diferentes sociedades. Uma linha central na estrutura deste livro é a do desenvolvimento desigual do capital, a de seus diferentes e combinados momentos e tempos, a contradição da diversidade de suas temporalidades.

Nesse campo, na obra de Marx, está a significativa diferença entre os dois livros essenciais da crítica da economia política, Grundrisse e O Capital (este, inacabado). Como assinalou Henri Lefebvre, o primeiro sobre o desenvolvimento desigual do capital e o segundo sobre o seu desenvolvimento igual. Trata-se de uma distinção decisiva para situar e explicar o capitalismo e a escravidão na sociedade pós-escravista. Realidades sociais como a brasileira só se explicam dialeticamente na perspectiva crítica dos seis volumes das duas obras.

 

Nesse ponto, retorno ao começo do meu projeto de estudo, de 1964, quando terminava o curso de graduação em Ciências Sociais na USP. De certo modo influenciado pelo antropólogo inglês Raymond Firth, na minha primeira pesquisa, em 1965. Era sobre a agricultura familiar, em especial a agricultura caipira. Cujo modo de vida era tido, pelos sociólogos e antropólogos de então, como modo da sociedade tradicional, adversa ao capitalismo.

O Cativeiro da Terra, aqui em edição de 2010 (Contexto), é um dos livros de Martins sobre este contexto do trabalho no campo | Foto: divulgação

É uma persistência que indicava, aos olhos da época, resistência da sociedade tradicional à mudança social. Nessa interpretação, essa resistência era passiva aversão à modernização que o capitalismo daqui aspirava e seus agentes supostamente desejavam, mas cujas condições sociais não compreendiam. Não só os camponeses, mas até mesmo o próprio empresariado e o operariado, como se a questão do atraso fosse mera questão cultural.

Minha pesquisa fazia a crítica dessa perspectiva e sugeria que a agricultura tradicional era constitutiva do processo de reprodução ampliada do capital. Ainda que “anômalo”, era componente necessário deste processo. Os que perfilhavam as concepções do marxismo vulgar tentaram desqualificar minha interpretação, definindo minha tese como de mera suposição de “funcionalidade do atraso”, isto é, não dialética nem marxista. Não era, de fato, marxista, até porque o marxismo não tem que ser uma condição da pesquisa científica na sociologia. Era e é metodologicamente marxiana, ou seja, dialética, na perspectiva sociológica de Henri Lefebvre e do seu método regressivo-progressivo. É o autor que traz a sociologia de Marx para a segunda metade do século XX.

O longo período de 59 anos que separa o projeto de seu resultado, isto é, dos meus vários livros e artigos que da pesquisa e de seu desdobramento resultaram, e este livro conclusivo, foi o tempo da observação do desenvolvimento da crise do capitalismo subdesenvolvido e dos impasses do Brasil do atraso e da história lenta, como o defini em meu livro O poder do atraso.

O poder do Atraso (Hucitec, 1994), mais um livro de Martins | Foto: divulgação

Uma questão metodológica de que trato neste livro, fortemente presente no conjunto da obra de Marx, expressa-se no inacabado da espera do desfecho das crises que definem e dão sentido ao que é a totalidade concreta subjacente do real. Isto é, contraditória do processo do capital, em movimento de totalização. A totalidade é a referência metodológica da interpretação da realidade social e histórica cambiante. O todo pressuposto pelo método não é um sistema, mas um processo de totalização em curso, como o definiu Sartre, o inacabado, o inacabável e o possível.

Nesse sentido, este livro, que lançamos agora, é antes de tudo um livro sobre o método dialético na sociologia, na referência concreta e prática, principalmente da realidade brasileira no momento das revelações de sua crise histórica de impasses de uma sociedade capitalista atrasada, a de que o atraso se manifesta em relações instrumentais que dele fazem fonte do lucro extraordinário compensador da inferioridade econômica do nosso capitalismo subdesenvolvido. É o que lhe dá condições de através da escravidão, na taxa média de lucro, equiparar-se ao capitalismo dos países desenvolvidos. Desse modo, é um capitalismo que depende do “faz de conta” para se reproduzir como modo de produção de lucro, a tragédia do crescimento econômico sem desenvolvimento social, que se tornou doutrina de poder com o golpe de Estado de 1964.

 

Tradicionalismo agrário e capital

Minha hipótese de origem apontava, e a pesquisa confirmou, que o tradicionalismo agrário tinha uma função na reprodução ampliada do capital. Descobri e ressaltei que essa agricultura não era mera agricultura de roça, mas agricultura de produção direta dos meios de vida da família trabalhadora com integração no sistema capitalista através dos excedentes comercializáveis, calculadamente produzidos.

Foi com base nos lucros capitalistas decorrentes dessa produção não capitalista que a industrialização brasileira da primeira metade do século XX se deu. Foi a pobreza do camponês brasileiro que subsidiou os lucros da indústria ao produzir sem lucro a alimentação da dieta operária, que permitiu o sistemático e regular barateamento da reprodução da força de trabalho industrial, reduzindo os dispêndios com capital variável em relação ao capital constante e assegurando ao capital da indústria uma composição orgânica alta, isto é, moderna e economicamente desenvolvida sem se tornar socialmente desenvolvida.

Como foi e tem sido o trabalho escravo atual, a escravidão temporária e cíclica dos excedentes humanos da agricultura familiar nos intervalos da entressafra propicia o lucro extraordinário que subsidia a expansão capitalista da empresa agropecuária na Amazônia. É o caso em que o trabalhador, sob a pobreza e a violência que o subjuga, se torna de fato matéria-prima dos produtos dos setores do agronegócio que se valem do seu trabalho.

Os primeiros resultados da pesquisa inicial, por inciativa do professor Florestan Fernandes, foram apresentados, em 1969, em artigos publicados em duas revistas de ciências sociais de circulação internacional, América Latina (do Centro Latino-americano de Pesquisas em Ciências Sociais, do Rio) e Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, da USP. E reunidos em meu livro Capitalismo e tradicionalismo (Pioneira, 1975). Também ele com título que aponta minha compreensão inicial da contradição estruturante do capitalismo no Brasil. São descobertas que inspiraram obras alheias sem citação das fontes.

Livro de Martins publicado em 1975 | Foto: divulgação

IHU – O senhor trabalha muito com o pensamento de Henri Lefebvre. O que é essencial neste autor para compreender o trabalho e a relação trabalho e escravidão? No que ele pode nos iluminar para a construção de uma sólida análise sociológica acerca destes temas?

José de Souza Martins – Minhas preocupações metodológicas com a questão do método para pesquisar, analisar e explicar uma realidade social atrasada como a realidade brasileira tiveram um desdobramento da maior importância no seminário semanal sobre o método dialético que organizei e coordenei no curso de pós-graduação em Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, de 1975 a 1983.

Durante 18 anos, regularmente, em pequeno grupo, lemos, inicialmente, uma parte significativa da obra de Marx, desde a Contribuição à crítica da economia política, cujo posfácio é um ponto de partida para a compreensão da questão do método na obra desse autor. Entre outros, o seminário incluiu a leitura (e releitura) d’O Capital, do Grundrisse, da Correspondência, os Manuscritos econômicos e filosóficos, Teorias da mais-valia, A ideologia alemã. Foi um trabalho que nos tomou 12 anos.

Após, propus que lêssemos durante mais seis anos uma parte significativa das obras de Henri Lefebvre. Este é o mais importante leitor e analisador da obra de Karl Marx, que podemos ler à luz do que Antonio Candido, que não está se referindo a Marx, em Formação da literatura brasileira, quando chama de “necessidades expressionais” de determinada época e sociedade.

Referências

Suas referências mais importantes começam com a crítica do marxismo vulgar e marxismo do poder, em 1938, com seu livro referencial, A consciência mistificada, e logo após a Segunda Guerra Mundial, com os primeiros resultados da pesquisa de sociologia rural que fez em sua aldeia de origem enquanto pesquisador disfarçado atuava na Resistência francesa, que resultará em seu livro O vale de Campan, cujos primeiros resultados foram os artigos que publicou na revista Cahiers Internationaux de Sociologie, entre 1949 e meados dos anos de 1950.

A interpretação de Lefebvre do método de Marx foi reconhecida por Sartre, em Questão de método, como a mais importante formulação do método dialético, a do método regressivo-progressivo, em que a persistência de relações sociais datadas e pretéritas desvenda o real e, também, o que ainda não se constituiu plenamente. O método não é um modelo formal, mas o contraponto dos momentos e desencontros do próprio real. A sociologia de Lefebvre, que tinha doutorado em sociologia rural, é uma sociologia marxiana, no sentido de não se filiar às correntes marxistas vulgares do marxismo partidário desvinculado da relação do pensamento com a práxis.

Método Lefebvre

O método de Lefebvre é trinário e não o binário do marxismo vulgar. Na coexistência do presente contraditório, o método é dedutivo, indutivo e transdutivo, investiga o passado que persiste, o presente instável e o possível que já se anuncia no passado, fragmentário e inconstituído, e no agora.

É, portanto, o método indispensável para reconhecer em que consiste a historicidade de uma sociedade como a nossa, em que a prática persistente da escravidão como momento decorre de determinações sociais que a negam. Portanto, a questão é a de descobrir que sociedade antagônica é a mediação de um possível referido à utopia da comunidade e da família que, nessa escravidão, se tornaram formas de resistência e de consciência crítica das vulnerabilidades do capitalismo subdesenvolvido.

 

IHU – Como o senhor analisa a forma como viemos tratando sociologicamente os dados sobre trabalho e escravidão no Brasil de hoje? Em que medida temos conseguido avançar da “catação de dados”?

José de Souza Martins – O livro que lançamos agora, particularmente o último capítulo, é uma crítica sociologicamente densa às concepções simplificadoras do que é de fato a escravidão que persiste. Isso porque justamente é um livro não só do que é visível e cotidiano, mas também das invisibilidades do real que só a ciência pode desvendar. A visibilidade da mera “catação de dados”, a de uma concepção quantofrênica da informação sociológica empírica. Aquilo que encobre ou mutila a visibilidade possível das contradições, das análises enganosas.

Meu livro é uma crítica severa ao impressionismo pseudocientífico de narrativas superficiais, muito mais da cultura do espetáculo e da militância divorciada da práxis do que do possível das revelações da ciência. Como Lukács já havia mostrado em História e consciência de classe, o marxismo vulgar é sobretudo uma forma de interpretação do real própria do pensamento burguês e reacionário. Muito do que circula por aí e do que se diz por aí sobre a “escravidão contemporânea” é desse gênero.

 

IHU – Em seu livro, o senhor aponta que a escravidão contemporânea “não tem sido a mesma ao longo do tempo que logo chegará ao século e meio do período pós-escravista”. Como a escravidão contemporânea vem se transformando ao longo dos séculos XX e XXI?

José de Souza Martins – Desde as fundamentadas observações, sobre a escravidão por dívida e o regime laboral do barracão, que Euclides da Cunha fez no Alto-Purus, no começo do século XX, sucessivas e igualmente bem-feitas observações e investigações ao longo desse largo período registram um fenômeno claramente dialético: a situação escravista muda por fatores internos e externos e em consequência de seus próprios resultados econômicos. A realidade social, no entanto, suscita novas formas de escravização determinadas pelo fato de que o capital variável representado pelo escravo é renda capitalizada, uma anomalia própria de economia capitalista que depende desse recurso não capitalista para crescer.

A escravidão, ao se “modernizar”, não desaparece, recria-se sob nova forma de escravidão para viabilizar a continuidade dessa espécie de capitalismo da miséria própria dos setores da economia situados à margem do grande capital. No entanto, há significativas limitações e mudanças de forma no emprego ou do trabalho escravo. Entre elas, as que podemos constatar facilmente comparando a forma violenta que assumia nos anos 1970, anos decisivos da expansão da fronteira econômica na Amazônia, e o trabalho escravo posterior à criação do Grupo Executivo de Repressão ao Trabalho Forçado – GERTRAF, no governo FHC, em 1995, tanto na redução das ocorrências quanto na relativa mitigação das técnicas de violência da sujeição dos trabalhadores para disfarçar os indícios de criminalidade.

Mesmo assim, o uso do trabalho escravo se expandiu sob a forma de terceirização. O que levou o governo FHC, em 2002, a criar uma comissão, que coordenei, no Ministério da Justiça, que preparou o Plano Nacional de Erradicação do Trabalho Infantil e Escravo, que propunha a extensão da punição do trabalho escravo com a “lei da maconha”, que preconiza o perdimento da propriedade em que se comprove o uso do trabalho escravo em favor do programa de reforma agrária.

 

IHU – Quem é o sujeito sociológico da escravidão contemporânea e como ele é conformado?

José de Souza Martins – O sujeito sociológico da escravidão atual não é uma pessoa. E muito menos uma pessoa conformada. É uma relação social que coisifica e anula a pessoa do trabalhador transformado em coisa.

Ao mesmo tempo, essa coisificação extrema é mediada pela significação utópica da comunidade de origem e da família. A da pessoa situada à margem da sociedade do capital, é na verdade expressão da sociabilidade da margem, a que não se determina diretamente pelo capital e pelo capitalismo.

É um resíduo insurgente do passado camponês. O que a circunstância da opressão e exploração capitalista do trabalho, de modo não capitalista, metamorfoseia em realidade historicamente possível, como instrumentalização popular, em nome de valores da sua tradição conservadora que só poderão ter sentido na superação, para o camponês, das contradições do capitalismo subdesenvolvido que corrói a possibilidade de sobrevivência de seu modo de vida e de seus valores.

 

IHU – O senhor abre seu livro com uma dedicatória a Dom Pedro Casaldáliga. Gostaria que falasse um pouco mais sobre sua relação com este falecido bispo de São Félix do Araguaia, no Mato Grosso, e sobre como observa a luta dele com relação ao trabalho escravo e à liberdade.

José de Souza Martins – Nos anos 1970, eu estava iniciando minha pesquisa sobre a expansão capitalista na Amazônia, caracterizada por extrema violência, não só a do trabalho escravo, mas também a da expulsão de indígenas e camponeses de suas terras ancestrais. A pesquisa resultará no livro Fronteira – A degradação do Outro nos confins do humano.

Obra de Martins, fruto de pesquisa nos anos de 1970 em edição de 2009 (Contexto) | Foto: Divulgação

Eu precisava encontrar situações de apoio seguro para realizar meu trabalho. Em alguns estados recorri ao Serviço da Malária: Rondônia e Maranhão, que me dava acesso a moradores situados em lugares remotos do sertão e das áreas de violência. No Mato Grosso, recorri a Dom Pedro Casaldáliga, cuja carta pastoral de 1971 eu lera. Encontrei-o na Assembleia da CNBB, em Itaici. Ele me convidou para participar da assembleia da Prelazia em São Félix. Antes, ajudei-o a preparar o depoimento que daria na Comissão Parlamentar de Inquérito da Câmara dos Deputados, intimado que fora ele no que era um ardil para expulsá-lo do Brasil.

Depois disso, recebi dele sucessivos convites para reuniões semelhantes, como assessor ad hoc. Ele me introduziu na Comissão Pastoral da Terra – CPT Nacional e finalmente fiz parte da equipe que assessorou a assembleia dos bispos em Itaici, de que resultou o documento Igreja e Problemas da Terra. Sou autor do documento de apoio: Terra de negócio e terra de trabalho – Contribuição para o estudo da questão agrária no Brasil, publicado no mesmo ano de 1980, extensamente incorporado ao documento oficial.

Durante anos trocamos mensagens e nos encontramos muitas vezes. Ele batizou minhas filhas.

Experiência em Cuba

De certo modo, foi uma sugestão minha que resultou no convite que o levou a Cuba e ao encontro com Fidel Castro. Em 1980, Florestan Fernandes fora convidado a ir a Cuba para fazer a pesquisa que resultaria no seu livro sobre o socialismo naquele país. Ao voltar, ele me trouxe um convite do presidente da Casa das Américas para participar do júri do Prêmio Casa das Américas, de 1981, junto com Antonio Candido, João Ubaldo Ribeiro, Gianfrancesco Guarnieri e Marcio Souza.

Num dos dias, no saguão do hotel, fui procurado por um sujeito que me convidou para jantar. Explicou-me que Cuba queria entrar em contato com a Igreja Católica no Brasil para que na Igreja de Cuba se desenvolvessem as Comunidades Eclesiais de Base, como aqui, a Igreja cubana fechada às questões do país. Ele propôs também o meu encontro com o especialista em assuntos religiosos do Partido. Foi um encontro interessante. Era um homem culto, especialista em história das religiões, que me fez uma exposição sobre as religiões em Cuba.

Expôs-me que o governo cubano estava tendo problemas com a Igreja. O cardeal de Havana falecera e já se passava longo tempo sem que um novo cardeal fosse designado. O motivo, aparente do fechamento, fora a prisão de sacerdotes católicos espanhóis que, de armas nas mãos, foram presos na invasão da Baía dos Porcos, em 1961, por paramilitares, organizada pela CIA. Os padres foram poupados do fuzilamento, por serem padres, enquanto os demais presos foram para o paredão. O problema de Cuba era, portanto, a suspensão do veto ao regime nas relações com a Igreja.

No jantar, para o qual eu recebera o convite, com o que me pareceu então ser um agente do governo, a questão da Igreja foi o assunto. Aparentemente, Florestan fora o intermediário do convite que me viera porque ele supunha que eu poderia dar indicações úteis ao estabelecimento da conexão entre o governo cubano e a CNBB. Eu de fato, não era a pessoa. Expliquei-lhe que isso deveria ser feito por meio de algum bispo brasileiro. Eu intuía que a CNBB estava interessada em fazer conexões desse tipo. Em 1986, Dom Luciano [Mendes de Almeida], que era secretário da CNBB, iria à União Soviética participar de um encontro com o Arquimandrita da Igreja Ortodoxa Russa, no clima da abertura política de Gorbatchev.

Tive oportunidade de ver um pouco de perto essa aproximação quando fui convidado a fazer uma conferência no Simpósio sobre "A crise da civilização e a pesquisa das vias para renovação do mundo", promovido pela Academia de Ciências Sociais da União Soviética, em Moscou, em 1989, já no período da abertura política. Nessa ocasião, fui a Zagorski participar de um encontro com o Arquimandrita da Igreja Ortodoxa para uma troca de ideias sobre a Teologia da Libertação. Eu estava muito interessado na imensa relevância dessa aproximação porque ela indicava mudanças sociais que davam início a um novo tempo na sociedade brasileira.

Participei de outros encontros que me deram a medida de grandes mudanças na Igreja e na esquerda no sentido de uma atenuação de distâncias. Em 1997, participei como conferencista da Conferência Internacional “Eredità e ricusazioni di fine millennio – Verso il secolo nuovo”, promovida pelo Comune di Roma, de que participou Mikhail Gorbachev. No ano seguinte participei, também como conferencista, do IV Congresso Internacional sobre Migrações e Refugiados, no Vaticano, presidido pelo arcebispo Hamao, de Tóquio, congresso que foi seguido a distância, atentamente, pelo Papa João Paulo II, conforme ficou claro no extenso texto que publicou no Osservatore Romano, no fim do evento, após ter recebido em audiência os participantes.

Aparentemente, estava se definindo um quadro de aproximação entre governos e igrejas de países com os quais as relações políticas eram difíceis. Na conversa com o funcionário cubano que me abordara no Hotel, sugeri que a pessoa indicada para ir a Cuba era Dom Pedro Casaldáliga. Alternativamente, talvez fosse mais fácil convidar Frei Betto porque um dos articuladores das CEBs no Brasil.

Frei Betto acabaria sendo o convidado e do convite resultaria o livro “Fidel e a Religião”, livro que chegaria às mãos do Papa João Paulo II, que o comentou positivamente com Dom Eugênio Sales, cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro.

Livro de Frei Beto, em edição de 2016 (Companhia das Letras) | Foto: divulgação

Mais adiante, Dom Pedro Casaldáliga também seria convidado a ir Cuba, em 1999, e a encontrar-se com Fidel, com quem eu também me encontrara junto com os outros participantes do Júri do Prêmio. No fim das contas, em 1998, o Papa João Paulo II visitaria Cuba e se encontraria com Fidel Castro, as relações entre o Vaticano e aquele país regularizadas. Já não é mais pecado ir a Cuba.

Fonte: https://www.ihu.unisinos.br/636140-a-escravizacao-se-moderniza-e-cria-formas-de-escravidao-para-viabilizar-o-capitalismo-da-miseria-entrevista-especial-com-jose-de-souza-martins