quarta-feira, 29 de maio de 2024

E se fossem todos embora as religiosas, os religiosos e os padres LGBTQ+?

Artigo de Gabriel 

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29 Mai 2024

Tal qual a mulher siro-fenícia (Mc 7, 24-30), os cristãos queers permaneceram e insistem em ficar, mesmo que seja para comer as migalhas dos cachorrinhos. Tocado por esses testemunhos, o pontífice disse ao chileno vítima dos abusos sexuais: “Juan Carlos, que você é gay não importa. Deus te fez assim e te ama assim, e eu não me importo. O Papa te ama assim. Você precisa estar feliz como você é”. Sim, Deus ama as pessoas LGBTQ+, o Papa ama as pessoas LGBTQ+... Mas por que a Igreja ainda não consegue sequer aceitar os religiosos, as religiosas e os padres queers que buscam o caminho da castidade, tal qual os religiosos, as religiosas e os padres heterossexuais? 

O artigo é de Gabriel dos Anjos Vilardi, jesuíta, bacharel em Direito pela PUC-SP e bacharel em Filosofia pela FAJE. É mestrando no PPG em Direito da Unisinos e integra a equipe do Instituto Humanitas Unisinos – IHU

Eis o artigo.

"Se uma pessoa é gay e busca a Deus, quem sou eu para julgá-la?”, afirmou corajosamente o Papa Francisco no início do seu pontificado, em julho de 2013. E, nesses quase onze anos, muitas outras declarações e gestos positivos foram feitos em direção aos católicos LGBTQ+, para o horror dos setores conservadores. Entretanto, para surpresa de muitos, em recente encontro reservado com a Conferência Episcopal Italiana (CEI), Bergoglio teria reiterado a proibição de aceitar nos seminários candidatos homossexuais.

A despeito da polêmica sobre o uso consciente ou não de uma expressão com conotação ofensiva, este não se trata do foco principal da questão. Apesar de se reconhecer que pela linguagem se perpetuam discriminações e estigmatizações intoleráveis, nesse caso há o benefício da dúvida em razão do italiano não ser a língua materna do papa. O que causa perplexidade para alguns é como uma pessoa, que tem se mostrado tão aberta à acolhida amorosa dos católicos queers, pode reafirmar um posicionamento tão duro e excludente como esse?

Conforme oportuno texto escrito pelo jesuíta Ty Wahlbrink, em agosto de 2023, muitos movimentos concretos foram feitos pelo papa jesuíta a fim de ajudar a Igreja a ser um espaço amigável para as pessoas LGBTQ+. Mais do que avançar no magistério oficial, foram as atitudes pastorais do pontífice que mudaram a atmosfera eclesial. Entre eles pode-se destacar seu pedido de perdão pelas ofensas causadas pela Igreja às pessoas gays (2016), o apoio dado às uniões civis entre casais do mesmo sexo (2020) e a orientação para que os bispos não apoiem leis que criminalizem a homossexualidade (2023).

Em uma carta manuscrita em espanhol (sem os muitos filtros da Cúria) ao encontro de Pastoral LGBTQ+ Outreach, por meio do padre jesuíta James Martin, Francisco disse que “Deus é Pai e não renega nenhum de seus filhos” pois “o ‘estilo’ de Deus é ‘proximidade, misericórdia e ternura’". Ao professar que a “Igreja é uma mãe e reúne todos os seus filhos”, o papa argentino foi além e denunciou que ‘uma Igreja seletiva’, de ‘puro sangue’, não é a Santa Madre Igreja, mas sim uma seita”. Mãe, não uma malvada madrasta!

Perseguida e condenada ao ostracismo por décadas, a religiosa estadunidense Jeannine Gramick, cofundadora do New Ways Ministry (importante espaço de acolhida a pessoas LGBTQ+ nos EUA), foi “reabilitada” por meio de uma intensa correspondência trocada com o pontífice, que culminou em 2023 com uma, alguns anos antes inimaginada, visita cheia de significados. Em uma dessas cartas, agradecendo o apostolado de Ir. Gramick, Francisco reconheceu: “você não teve medo da proximidade e na proximidade você ‘sentiu a dor’ e sem condenar ninguém, mas com ‘ternura’ de uma irmã e uma mãe’”.

No final do ano passado veio a declaração do Dicastério para a Doutrina da Fé Fiducia Supplicans em que se autorizou as bençãos aos casais do mesmo sexo. Uma verdadeira brecha para alguns, uma posição de coragem para outros, a medida trouxe esperança para a comunidade católica queer. Em entrevista a revista Credere, no dia 8 de fevereiro, o jesuíta foi firme às reações histéricas dos fiscais da moral e dos bons costumes:

"Os pecados mais graves são aqueles que se disfarçam com uma aparência mais 'angelical'. Ninguém se escandaliza se eu abençoo um empresário que talvez explore as pessoas: e isso é um pecado muito grave. Enquanto se escandaliza se eu abençoo um homossexual... Isso é hipocrisia! Devemos respeitar a todos. Todos! O cerne do documento é a acolhida".

Contudo, deve-se frisar que a doutrina sobre a família e o casamento foram reafirmadas também nos últimos anos e inúmeras declarações foram dadas condenando uma suposta “ideologia de gênero”. No mais recente documento Dignitas Infinitas se condenou a transição de gênero. Tal rechaço trouxe dor e incompreensão por parte das pessoas transexuais e suas respectivas famílias, que já vivem um grau de marginalização imensurável.

No encontro que manteve com os bispos italianos, na semana passada, o papa voltou à posição do Dicastério para o Clero de 2016, que por sua vez reafirmava uma decisão da Congregação para a Educação Católica de 2005 – aprovada por Bento XVI, com “critérios de discernimento vocacional relativos às pessoas com tendências homossexuais em vista de sua admissão ao seminário e às ordens sagradas”. Nesse sentido aponta o parágrafo 199 da Ratio Fundamentalis:

"Em relação às pessoas com tendências homossexuais que se aproximam dos Seminários, ou que descobrem tal situação no decurso da formação, em coerência com o próprio magistério, a Igreja, embora respeitando profundamente as pessoas em questão, não pode admitir ao Seminário e às Ordens Sagradas aqueles que praticam a homossexualidade, apresentam tendências homossexuais profundamente radicadas ou apoiam a chamada cultura gay”.

Não é a primeira vez que o pontífice entra nessa questão. Já em 2018 em reunião similar a essa, Francisco teria dito “se houver dúvida de homossexualidade, melhor não deixar entrar no seminário”. Daquela vez, também como essa, as reações de consternação e decepção foram veementes. Afinal, para além das discussões teológicas ou dos estudos de gênero pertinentes, uma pergunta se sobressalta com perplexidade. Desconhece o pontífice que existem centenas de milhares de religiosos e religiosas, bem como padres diocesanos homossexuais?

Obviamente, a resposta deve ser negativa. Afinal, mesmo do alto dos seus 87 anos, sendo filho do seu tempo e da formação recebida, Francisco é um homem inteligente, sensível e perspicaz. Com toda a certeza se relacionou, ao longo de sua vida como religioso e bispo, com muitos outros consagrados, consagradas e padres LGBTQ+. Tenha vindo tal condição ao seu conhecimento – de modo direto ou indireto – ou não, esse é um fato. Essas pessoas existiram e existem!

É quase uma certeza que tenha tido, inclusive, amigos e companheiros LGBTQ+ próximos, sem mencionar alguns professores e superiores, que lhe marcaram indelevelmente a própria vida e vocação. No mesmo sentido ocorreu quando foi bispo de Buenos Aires. Pessoas que foram e lhe são caras, sendo incontestável e estando fora de qualquer dúvida o bem que fizeram e fazem ao santo Povo de Deus, na e como Igreja. Estaria disposto Francisco a abrir mão e a descartar todas essas pessoas que incansavelmente dedicam suas vidas para cumprir sua missão, na construção do Reino de Deus?

Por ainda ser um temido tabu, existem poucos dados sobre a real proporção de pessoas LGBTQ+ que fazem parte da vida religiosa consagrada e do clero secular. Todavia, deve-se evitar a hipocrisia como vem pedindo o papa, sabe-se que a proporção é considerável e não pode ser desprezada. Assim como os heterossexuais, entre os padres e os religiosos queers existem os que vivem sua vocação com mais ou menos fidelidade, vivendo crises e alegrias, momentos de consolação e de desolação. Como qualquer ser humano no seu seguimento de Jesus.

Para qualquer observador atento – e nem é preciso ser um dos pares para o afirmar, como o podem atestar inúmeros leigos e leigas comprometidos – sãos muitos os consagrados, as consagradas e os padres homossexuais que vivem um apostolado frutuoso e dão testemunho do amor de Deus em paróquias, colégios e obras sociais. Está consciente o Papa Bergoglio do sofrimento que sua posição e suas declarações causam a essas pessoas?

Na própria assembleia dos bispos italianos, não imaginava Francisco que entre seus irmãos de episcopado haveria alguns que são gays? Quando insiste em fechar as portas para os candidatos e as candidatas à vida religiosa e ao sacerdócio, entende o papa que está prescindindo de um número relevante de trabalhadores e trabalhadoras apaixonados para a messe do Senhor? O que aconteceria com a Igreja se os cristãos e as cristãs LGBTQ+ deixassem não só os seminários, as paróquias e as ordens e congregações religiosas, mas também as pastorais, as comunidades eclesiais e o todo o trabalho voluntário que prestam como membros do Povo de Deus?

Certa feita, a teóloga feminista Ivone Gebara, religiosa da Congregação de Nossa Senhora – Cônegas de Santo Agostinho, observou com lucidez “não sei falar do futuro, mas no presente o que ocorre é que muitas mulheres saem da Igreja”, continua, “a Igreja já perdeu os operários, já perdeu o campesinato, e irá perder as mulheres que pensam”. Também os religiosos e os padres LGBTQ+, se não são bem-vindos e bem-vindas, deveriam sair do corpo eclesial deixando a Igreja ainda mais mutilada?

O papa provavelmente não possui noção – ou talvez a tenha e por isso siga nesse caminho – da magnitude de como seus gestos de ternura e acolhida misericordiosa repercutem na comunidade dos católicos queers. Aqui no Brasil, em julho de 2014, foi criada a Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT, com um manifesto que afirmava “nós, cristãs e cristãos católic@s LGBT reunid@s em nosso I Encontro Nacional, no Rio de Janeiro, somos filhas e filhos de Deus e da Igreja”. Sem dúvida, um sopro alentador de vitalidade da Igreja dos últimos e perseguidos, tal qual Jesus de Nazaré.

Desde o princípio, Francisco tem buscado romper muros e fossos ao se reunir com os católicos LGBTQ+ e abrir-se à escuta atenciosa de seus dramas e sonhos. Deve ter ouvido seguidas vezes a humilhação de relatos perpassados por discriminações e exclusões eclesiais, ao mesmo passo que deve ter visto em seus olhos o desejo de serem tratados como membros plenos da Igreja. Esse contato amoroso certamente ajudou a desfazer inúmeras barreiras e preconceitos que o velho religioso poderia ainda humanamente carregar.

Tal qual a mulher siro-fenícia (Mc 7, 24-30), os cristãos queers permaneceram e insistem em ficar, mesmo que seja para comer as migalhas dos cachorrinhos. Tocado por esses testemunhos, o pontífice disse ao chileno vítima dos abusos sexuais: “Juan Carlos, que você é gay não importa. Deus te fez assim e te ama assim, e eu não me importo. O Papa te ama assim. Você precisa estar feliz como você é”. Sim, Deus ama as pessoas LGBTQ+, o Papa ama as pessoas LGBTQ+... Mas por que a Igreja ainda não consegue sequer aceitar os religiosos, as religiosas e os padres queers que buscam o caminho da castidade, tal qual os religiosos, as religiosas e os padres heterossexuais?

Nesta terça-feira (28), o diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, Matteo Bruni, leu um comunicado que diz que “o Papa nunca pretendeu ofender ou expressar-se em termos homofóbicos, e se desculpa com quem se sentiu ofendido pelo uso de um termo, referido por outros”. Por fim, reiterou que “na Igreja há lugar para todos, para todos! Ninguém é inútil, ninguém é supérfluo, há espaço para todos. Assim como somos, todos”. Todos, todos, todos... Até os LGBTQ+!

O Papa Francisco é o papa da misericórdia e tem feito muito bem à Igreja e como Igreja. Um sucessor de Pedro amado e admirado não só pela imensa maioria do Povo de Deus, mas também e especialmente, pela vida religiosa consagrada e por muitos do clero. Não se desconhece a complexidade de muitas situações e os fortes grupos de pressão com que precisa hábil e pacientemente lidar.

Por isso, a via da escuta aberta e desarmada deve continuar a ser valorizada. Um caminho para aprofundar ou confirmar suas convicções seria se reunir com algumas das pessoas LGBTQ+ que integram a vida religiosa e o sacerdócio – e não se terá dificuldade em encontrá-las, bem como com as jovens vocações queers que estão em busca de responder ao chamado do Senhor. 

Ao se romper uma perniciosa e doentia cultura do silenciamento – que deseja manter tantos trancafiados nos armários das sacristias, muitos testemunhos genuínos da vida religiosa e do clero LGBTQ+ aflorariam com uma intensidade que surpreenderia a muitos e edificaria a outros tantos. Afinal, as relações deveriam sempre estar assentadas sobre a confiança e a transparência entre bispos e superiores religiosos e os consagrados e padres LGBTQ+, sem quaisquer receios de perseguição ou incompreensão excludentes. Se Deus criou tais pessoas e as ama assim, como já afirmou sabiamente o papa do fim do mundo, por que Ele as excluiria dessas vocações? É tempo de escutar e discernir o que diz o Espírito! Que a Divina Ruah afaste qualquer medo e continue a dar força e coragem ao Papa Francisco para implementar as reformas necessárias! Que a revolução do amor não seja interrompida!

Fonte:  https://www.ihu.unisinos.br/639855-e-se-fossem-todos-embora-as-religiosas-os-religiosos-e-os-padres-lgbtq-artigo-de-gabriel-vilardi

O pesadelo dos chefes: geração Z é a mais difícil de liderar, mostra pesquisa

Por Bryan Robinson


Apesar da má reputação no mercado, profissionais mais jovens trazem contribuições únicas e têm o poder de transformar os ambientes de trabalho

Enquanto os profissionais da geração Z são criticados por colegas e chefes por serem “rebeldes”, se recusarem a seguir as exigências corporativas e apresentarem problemas de comportamento, esses jovens argumentam que possuem perspectivas e habilidades únicas que podem ser vistas como mais saudáveis, criativas e produtivas.

Eles pressionam por maior flexibilidade e equilíbrio entre vida profissional e pessoal do que as gerações anteriores tinham. Também trazem novas prioridades, como senso de propósito e olhar para a diversidade. Mas será que a Geração Z é a única que busca isso? Esses profissionais são realmente tão complicados quanto algumas pessoas afirmam?

Profissionais da geração Z devem demonstrar iniciativa e podem se destacar pelas habilidades tecnológicas
A geração mais desafiadora no trabalho

Quase metade (45%) dos mais de 600 gerentes de contratação entrevistados apontam a Geração Z como a mais desafiadora para se trabalhar, segundo pesquisa da Resume Genius, plataforma de criação de currículos. Até 45% dos recrutadores da Geração Z compartilham desse sentimento.

    Geração Z (45%)
    Geração Y (26%)
    Geração X (13%)
    Boomers (9%)
    Não tenho certeza (7%)

Os resultados, divulgados no Relatório de Profissionais da Geração Z de 2024, mostraram que, assim como os Boomers tinham preocupações com os Millennials, essa nova geração agora enfrenta críticas semelhantes. “A Geração Z pode ter uma má reputação, mas tem o poder de transformar os ambientes de trabalho para melhor”, afirma Geoffrey Scott, gerente sênior de contratação da Resume Genius. “Eles já causaram impacto, mas não vieram para quebrar tudo. Eles trazem uma combinação única de talento e ideias ousadas que podem renovar a força de trabalho.”

Leia mais em: https://forbes.com.br/carreira/2024/05/o-pesadelo-dos-chefes-geracao-z-e-a-mais-dificil-de-liderar-mostra-pesquisa/?utm_campaign=forbes_daily_-_2905&utm_medium=NewsDaily&utm_source=Social.

terça-feira, 28 de maio de 2024

Nos salvaremos a partir do princípio-esperança

Leonardo Boff*

 Certeza da salvação – Revista Adventista

         A grande enchente que está assolando o Rio Grande do Sul é um dos sinais  mais inequívocos, dado pela Mãe Terra, dos efeitos extremamente danosos das mudança climática. Já estamos dentro dela. Não adianta os negacionistas se recusarem em aceitar a esse dado. Os fatos falam por si. Dentro de pouco chegarão na vida de todas as pessoas, ricos e pobres, como chegou a todos na maioria cidades ribeirinhas daquele estado.

         Ocorreu uma surpreendente aceleração do processo de aquecimento global e não se cumpriu o decidido no Acordo de Paris de 2015 segundo o qual se previa uma redução drástica de  gazes de efeito estufa para não aumentarmos a temperatura de 1,5ºC até 2030. Quase nada se fez: em 2022 foram lançadas na atmosfera 37,5 bilhões de toneladas de CO² e em 2023 foram 40,8 bilhões de toneladas.Tudo foi excessivo. Em razão disso  alguns climatólogo sustentam que antes de 2030 como previsto, o aquecimento se antecipou. Por volta de 2026-2028 o clima da Terra se estabilizaria em torno de 38-40ºC e em alguns lugares com números mais elevados.

         A temperatura de nosso corpo está por volta de 36,5ºC. Imaginem se pela noite a temperatura ambiente se mantiver por volta de 38ºC? Muitos, entre os idosos e crianças, não aguentarão e poderão até morrer. E para todos será uma grande agonia. Sem falar da perda da biodiversidade e das safras de alimentos,necessários para a sobrevivência.

        Quem viu claro o estado da Terra foi um representante dos povos originários, aqueles que se sentem Terra e parte da natureza, uma liderança yanomami Dário Kopenawa:” A Terra é nossa mãe e sofre há muito tempo. Como um ser humano que sente dor, ela sente quando invasores, o agronegócio, mineradoras e petroleiras derrubam milhares de árvores e cavam fundo no solo, no mar. Ela está pedindo ajuda e dando avisos para que os não indígenas parem de arrancar a pele da Terra.”

       Como continuamos arrancando a pele da Terra e agravando a mudança climática, o potencial de esperança está chegando ao limite. Cientistas deixaram claro que a ciência e a técnica não poderão reverter esta situação, apenas advertir da chegada de eventos extremos e mitigar suas consequências desastrosas.Chegamos à atual situação global simplesmente porque grande parte da população desconhece a real situação da Terra e a maioria dos chefes de Estado e os CEOs das grandes empresas preferem continuar a lógica da produção ilimitada, arrancada da natureza e do consumo sem limites, a ouvir as advertências das ciências da Terra e da vida. Não se fez a lição de casa. Agora a fatura amarga chegou.

       O que ocorreu no Sul do Brasil é apenas o começo. Os desastres ecológicos vão se repetir com mais frequência e de forma cada vez mais grave em todas as partes do planeta.

Onde vamos buscar energias para ainda crer e esperar? Como foi dito com sabedoria: “quando não há mais razão para crer, então começa a fé; quando não há mais razão para esperar,então começa a esperança”. Como disse com acerto o autor da epístola aos Hebreus (por volta dos anos 80):” A fé é o fundamento do que se espera e a convicção das realidades que não se veem”(11,1).A fé vê o que não se vê com os simples olhos carnais. A fé vê, com os olhos do espírito que é o nosso profundo, a possibilidade de um mundo que ainda virá, mas que, seminalmente mas ainda invisível, está entre nós. Por isso a fé se abre à esperança que é sempre ir além do que é dado e verificado. A fé e a esperança fundam o mundo das utopias que forcejam por se realizar historicamente.

Aqui vale o princípio-esperança. O filósofo alemão Ernst Bloch cunhou a expressão principio-esperança. Ele representa um motor interior que sempre está funcionando e alimentando o imaginário e o inesgotável potencial da existência humana e da história. O Papa Francisco na Fratelli tutti afiança: “a esperança nos fala de uma realidade enraizada no profundo do ser humano, independentemente das circunstâncias concretas e dos condicionamentos históricos em que vive” (n. 55). Assumir este princípio-esperança hoje,nesta nova fase da Terra, é extremamente urgente.

O princípio-esperança é o nicho de todas as utopias. Ele permite continuamente projetar novas visões, novos caminhos ainda não trilhados e sonhos viáveis. O sentido da utopia é sempre nos fazer andar (Eduardo Galeano), sempre superar dificuldades e melhorar a realidade. Como humanos, somos seres utópicos. É o princípio-esperança que nos poderá salvar e abrir  uma direção nova para a Terra e seus filhos e filhas.

         Qual a nossa utopia mínima, viável e necessária? Ela implica, antes de mais nada, a busca da humanização do ser humano.Ele se desumanizou pois se transformou no anjo exterminador da natureza. Só recuperará sua humanidade se começar  a viver a partir daquilo que é de sua natureza: um ser de amorização, de cuidado, de comunhão, de cooperação, de compaixão, de ser ético e de ser espiritual que se responsabiliza por seus atos para que sejam benfazejos para o todos. Pelo fato de não ter criado espaço a esses valores e princípios, fomos empurrados na crise atual que pode nos conduzir ao abismo.

Essa utopia viável e necessária se concretiza sempre, caso tenhamos tempo, dentro das contradições, inevitáveis em todos os processos históricos. Mas ela significará um novo horizonte de esperança que alimentará a caminhada da humanidade na direção do futuro.

Desta ótica nasce uma nova ética.  Por todos os lados surgem forças seminais que buscam e já ensaiam um novo padrão de comportamento humano e ecológico. Representará aquilo que Pierre Teilhard de Chardin desde seu exílio na China em 1933 chamava de noosfera. Seria aquela esfera na qual as mentes e os corações (noos em grego) entrariam numa nova sintonia fina, caracterizada pela amorização, pelo cuidado, pela mutualidade entre todos, pela espiritualização das intencionalidades coletivas.Dizia um aforismo antigo:”quando não sabes para onde vais, regresse para saber de onde vens”. Temos que regressar à nossa própria natureza de onde viemos, pois, ela contém as  indicações para onde ir: pra aqueles valores acima enunciados que nos tirarão da crise.

No meio de tanto abatimento e melancolia pela situação grave do mundo, nisso cremos e esperamos.

*Leonardo Boff escreveu, Habitar a Terra, Vozes 2022; Cuidar da Casa Comum: pistas para protelar o fim do mundo, Vozes 2024.

Fonte:  https://leonardoboff.org/2024/05/28/nos-salvaremos-a-partir-do-principio-esperanca/

"Já há muita 'frocciagine' ('mariconería')". O Papa Francisco convida os bispos italianos a não admitirem seminaristas gays

 A reportagem é de Iacopo Scaramuzzi, publicada por La Repubblica, 27-06-2024.

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Numa reunião a portas fechadas, Bergoglio faz um comentário que deixou mais de um prelado surpreso. O NIET de 2016, a abertura da CEI à assembleia de Assis no ano passado, o adiamento ditado pelos grupos de trabalho sinodais.


A palavra faz mais de um bispo pular. O homem conhece bem os excessos verbais, o encontro é a portas fechadas, a conversa informal, mas quando o Papa Francisco usa essa palavra, 'frocciagine' (“maricas”), há um momento de suspensão na sala.

Diálogo sem rede

Vaticano, antigo salão sinodal, segunda-feira, 20 de maio. Bergoglio encontra-se com a Conferência Episcopal Italiana reunida para a assembleia da primavera. Desde o início do pontificado é o momento de um intercâmbio sem rede, de perguntas e respostas longe dos jornalistas, de discussão fraterna mas franca. Uma oportunidade este ano para levantar uma questão que há muito questiona os prelados italianos, se devem ou não admitir no seminário candidatos abertamente gays ao sacerdócio. O Pontífice argentino, várias fontes que concordam com o La Repubblica, afirma sem hesitação que não devem ser admitidos e, em tom de brincadeira, acrescenta que já existe demasiadas “maricas” nos seminários italianos.

Conselhos de bispos

O diálogo afeta os mais de 270 bispos presentes, alguns concordam com ela, outros não, e nas reuniões das horas seguintes é um dos temas que mais se repete, ora com risos, ora com perplexidade. E quando os rumores começam a vazar das salas sagradas, há um certo constrangimento no Vaticano. A notícia não está confirmada, o diálogo foi a portas fechadas.

O cerne dos seminários

Os seminaristas homossexuais têm sido tema de debate há meses. Em novembro passado, em Assis, a assembleia de outono dos bispos italianos aprovou uma nova Ratio trainingis sacerdotalis, ou seja, o regulamento para os seminários em Itália. Texto que aborda os mais diversos aspectos da preparação para o sacerdócio - da formação permanente à educação afetiva, do acompanhamento vocacional à proximidade ao povo de Deus - e que ainda não foi publicado porque, desde então, está sob apreciação do Dicastério para o Clero para aprovação final. Durante a discussão em Assis, uma das questões que mais dividiu a assembleia foi a questão de admitir ou não seminaristas gays.

A linha, até agora, tinha sido seguir as indicações do mesmo dicastério que, numa instrução de 2005 (quando o Papa Bento XVI era Papa) confirmada em 2016 (quando o Papa Francisco era Papa), estabelecia que "o A Igreja, embora respeite profundamente as pessoas em questão, não pode admitir no Seminário e nas Ordens Sagradas aqueles que praticam a homossexualidade, têm tendências homossexuais profundamente enraizadas ou apoiam a chamada cultura gay”. Uma definição que, no entanto, gerou alguma ambiguidade: como podemos medir se as “tendências homossexuais” estão “profundamente enraizadas”?

A abertura de Assis

Entre posições mais progressistas e mais conservadoras, na assembleia de Assis os bispos italianos questionaram a possibilidade de abordar a questão de forma diferente, sentindo-se encorajados precisamente pela abertura do Papa Francisco para com os homossexuais. A CEI aprovou uma alteração, contestada por um número significativo de bispos mas aprovada por maioria, que, tanto quanto sabemos, se limitava a distinguir entre atos e tendências, reiterando a obrigação do celibato para todos os seminaristas, tanto homossexuais como heterossexuais, abrindo assim a porta dos seminários, com efeito, aos candidatos homossexuais ao sacerdócio comprometidos com a escolha do celibato.

Vidas duplas

Durante a reunião de uma hora e meia com o Papa na semana passada, dois ou três bispos quiseram voltar ao assunto, e um em particular perguntou explicitamente a Francisco o que fazer quando um candidato abertamente homossexual bate às portas do seminário. E o Papa respondeu de forma firmemente negativa: ao mesmo tempo que sublinha o respeito que é devido a cada pessoa independentemente da sua orientação sexual, o sentido do seu raciocínio, é necessário estabelecer limites e prevenir o risco de quem, gay, vai acaba por levar uma vida dupla, continuando a praticar a homossexualidade, ao mesmo tempo que sofre ele próprio desta dissimulação. A reflexão terminou com uma piada sobre “maricas” que já existe em alguns seminários italianos.

Aberturas e fechamentos

Se parece contradizer a linha de mente aberta de Francisco em relação à comunidade LGBT+, o conceito na verdade não é novo para ele. Já em 2018, e novamente numa reunião a portas fechadas com os bispos italianos, ele aconselhou: “Se você tiver a menor dúvida, é melhor não deixá-los entrar”. Jorge Mario Bergoglio, em particular, está preocupado com a atmosfera em vários seminários italianos que conhece bem, onde a homossexualidade é acompanhada por uma fixação em ritos e vestimentas litúrgicas e uma concepção hiperclerical da Igreja. É neste sentido que ao longo dos anos, de forma mais geral, ele tem trovejado contra a “rigidez” de alguns seminaristas e desde o início do seu pontificado tem alertado contra o risco de considerar o seminário “um refúgio para muitas limitações que podemos ter, um refúgio para deficiências psicológicas ou um refúgio porque não tenho coragem de seguir em frente na vida e procuro lá um lugar que me defenda".

Um prazo distante

Ainda com este propósito, nos últimos meses Bergoglio criou, no âmbito do Sínodo em curso, dez grupos de trabalho que devem aprofundar teologicamente o maior número de questões, incluindo uma revisão "com uma perspectiva sinodal missionária" da Ratio Fundamentalis Institutionis Sacerdotalis, documento básico sobre o sacerdócio e os seminários. Um trabalho que previsivelmente demorará muito, congelando também a nova regulamentação dos seminários italianos. E é improvável que ele não seja influenciado pela observação do Papa sobre “maricas”.

Fonte: https://www.ihu.unisinos.br/639821-ja-existe-muito-bicha-o-papa-francisco-convida-assim-os-bispos-italianos-a-nao-admitirem-seminaristas-gays

Benigni: de Berlinguer ao beijo com o Papa "Nós, a frente ampla"

Por Domenico Agasso

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28 Mai 2024

“Santidade, gostaria de lhe abraçar, lhe beijar, não sei como lhe demostrar carinho, amor, poderia dançar um tango aqui na sua frente. Mas antes de entrar, dois guardas suíços me disseram: aqui você pode fazer qualquer coisa, só uma coisa você não pode fazer, tocar no Papa. Mas desde que me disseram isso, eu só quero fazer isso. Mas eu posso lhe dar um beijo, de que servem os beijos se não forem dados? É um beijo que vem de todos eles, que vale por 100 mil.” Roberto Benigni, em frente à Basílica de São Pedro, deixa de lado o protocolo, aproxima-se de Francisco que está rindo com gosto, abraça-o e beija-o duas vezes no rosto. Rugidos da Praça. O espetáculo-monólogo do vencedor do Oscar, após a Missa e o Angelus do Pontífice, encerra o Dia Mundial das Crianças (DMC).

A reportagem é de Domenico Agasso, publicada por La Stampa, 27-05-2024. A tradução é de Luísa Rabolini.

Na primeira fila também está Giorgia Meloni (com a filha Ginevra), cumprimentada por Benigni “Sra. Primeira ministra". A primeira-ministra sorri, que se encontrou em particular durante a manhã com Bergoglio.

Piadas, citações, incentivos, inspirações, humor, profundidade, meditações, ternura.

O artista toscano se diverte, andando de um lado para o outro no adro da igreja. É um rio caudaloso, o diretor e ator de 71 anos que comoveu o planeta com “A vida é bela”.

Ele revela que quando criança queria ser papa e quando o dizia “todos caíam na gargalhada. Então decidi ser comediante, se tivessem se ajoelhado eu teria sido papa”. Afinal, “esta é a cidade do Senhor, tudo é possível, até que um de vocês se torne Papa, talvez o primeiro africano ou asiático da história. Ou de Testaccio. Ou uma mulher! A primeira mulher papa na história, caramba, se falaria disso até na Lua. Pensem que coisa!”

Ironiza sobre a rodada eleitoral: “Talvez nas próximas eleições eu me candidate, junto com o senhor, Santidade, vamos fazer juntos uma frente ampla. Vamos colocar na chapa o nome de Jorge Mario Bergoglio, conhecido como Francisco: vamos vencer de cara." As 50 mil pessoas na Praça de São Pedro riem. Todos: o Papa, crianças e cardeais, freiras e monsenhores, pais e voluntários, turistas e sacerdotes. E o prefeito Roberto Gualtieri. E a Chefe do Governo.

Gradualmente, as palavras do ator toscano tornam-se reflexivas. Ele observa que “O mundo é governado por pessoas que não sabem o que é a misericórdia, o que é o amor. Por isso, cometem o mais estúpido dos pecados, a guerra: uma palavra ruim, que suja tudo. Precisamos pôr um fim a isso. Por que quando as crianças brincam de guerra, assim que alguém se machuca param, fim de jogo, mas, em vez disso, aqueles que fazem a guerra não param na primeira criança que se machuca? A guerra deve acabar! Impossível?

Ele cita Gianni Rodari e lembra que os contos de fadas podem se tornar realidade: de fato, ensinam às crianças que os dragões existem, mas que os dragões podem ser derrotados".

Benigni afirma que na história da humanidade “apenas uma boa ideia foi expressa. Eu ouvi isso de Jesus, no Sermão da Montanha: ‘Bem-aventurados os misericordiosos’. Isto é: ‘Sejam profundamente bons.’"

Ele relança o convite de São João Paulo II: “Peguem a sua vida e façam dela uma obra-prima”. Indica os passos: “A vida é isto: amor, conhecimento e uma compaixão infinita pela dor que atravessa a humanidade". Cada um de “vocês é protagonista de uma história que nunca mais se repetirá. Vocês são os heróis. Façam as coisas difíceis! Sonhem!". Sem medo de errar: “Não se preocupem, tentem de novo, os erros são necessários, úteis e às vezes até bonitos. Pensem na Torre de Pisa. Aproveitem e amem o que vocês fazem. Vocês têm que desempenhar seu ofício da melhor maneira, como Michelangelo fez com esta cúpula." Ele retoma a exortação de Wojtyla: “’Não tenham medo!’. Eu os vejo aqui prontos para alçar voo, então façam isso! Construam um mundo melhor! Nós não conseguimos. Tentem fazer as coisas bonitas, tornem os outros felizes, e para fazer isso vocês precisam ser felizes."

Em seguida, indica o grande objetivo: "Não há nada mais bonito no mundo do que a risada de uma criança! E se um dia todas as crianças do mundo, sem excluir ninguém, puderem sorrir juntas, será um grande dia, será o dia mais bonito da história do mundo!".

Poucos minutos antes, o Papa pediu para rezar “pela paz”. Agradeceu aos organizadores do DMC, a começar pelo coordenador Padre Enzo Fortunato e pelo vice Aldo Cagnoli. E marcou encontro para o próximo: setembro de 2026, novamente em Roma.

Fonte:  https://www.ihu.unisinos.br/639838-o-diabo-benigni-de-berlinguer-ao-beijo-com-o-papa-nos-a-frente-ampla

Deus é o culpado?

Artigo de Eduardo Haas

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"Cuidado: não digas que Deus mandou esta tragédia para nos dar lições. A tragédia aconteceu. E nós podemos aprender algo dela.", escreve Eduardo Haas, padre da Diocese de Montenegro, no Rio Grande do Sul, e pároco da Paróquia Cristo Redentor, de Tupandi, no Vale do Caí.

Eis o artigo.

Por que o Rio Grande do Sul vive este tempo dramático de enchentes, deslizamentos e tanto sofrimento? Tenho sido questionado se é um “recado de Deus” para nós. Vi, para minha tristeza, até padre dizendo que isso está acontecendo porque “Deus quer o RS de joelhos”. Vamos com calma.

Tentemos clarear algumas coisas e não demos a culpa da catástrofe para Deus.

Sugiro ler os capítulos 6 a 9 do livro do Gênesis. É a história do Dilúvio. Interessam-nos aqui os versículos 14 e 15 do capítulo 9: “Quando eu cobrir de nuvens a terra, aparecerá o meu arco nas nuvens, e me lembrarei da aliança que firmei entre mim e vós e todo ser vivo de toda a carne, e as águas não mais se transformarão em dilúvio para destruir toda a carne”.

Deus promete não mais servir-se de dilúvios para tentar exterminar o mal do mundo. Deus sabe que raramente aprendemos pela dor. Quando passa a crise, nós voltamos a viver como antes: consumindo desenfreadamente, produzindo resíduos (lixo) que não acabam mais, desrespeitando os limites da natureza em nome do “necessário” crescimento econômico.

Quando somos terrivelmente surpreendidos pelos eventos climáticos sem precedentes ficamos sem resposta. Não sabemos exatamente porque isso acontece. Possivelmente não há uma única causa, mas um somatório de fatores. O que não podemos é usar interpretações simplistas para o fato.

Eu não acredito num Deus que destrua a sua própria criação, mate pessoas, traumatize criança, gere fome, sede e medo entre seus filhos e filhas. Decididamente, não! Deus é Pai, Deus é amor, Deus é bondade. Ele não é o culpado daquilo que está acontecendo.

Eu vejo Deus presente em meio a esta destruição. Ele sofre com cada uma das pessoas atingidas. Ele é a força dos sobreviventes, dos desalojados. Ele é a motivação dos voluntários e dos que atuam na linha de frente no resgate e assistência às vítimas. Ele é a caridade que anima tantos grupos – religiosos ou não – a se organizarem para ajudar. No meio da dor Deus caminha conosco.

Nós podemos tirar lições de tudo o que está acontecendo, sim. A natureza nos impõe limites, mesmo que não queiramos aceitar. Temos um estilo de vida perigoso, pois o consumo-descarte é exagerado. Precisamos rever muita coisa. Podem ser tiradas lições em meio à dor. Mas, cuidado: não digas que Deus mandou esta tragédia para nos dar lições. A tragédia aconteceu. E nós podemos aprender algo dela.

Nós estamos vivos e, por isso, vamos reconstruir. É difícil, é sofrido, é trabalhoso, é lento. Somos mais fortes do pensamos. Como disse dom Leomar Brustolin, “em meio a tanta escuridão, algumas pessoas brilham como estrelas de solidariedade”.

Que Deus nos acompanhe, dê força e paciência!

Fonte:  https://www.ihu.unisinos.br/639811-deus-e-o-culpado

“Desmasculinizar a Igreja?”

Por | 25 Mai 2024


 

 “Assumindo uma postura de escuta da voz das mulheres, nós, homens, colocamo-nos na posição de escutar alguém que vê a realidade a partir de uma perspetiva diferente e somos, assim, levados a rever os nossos projetos, as nossas prioridades. Às vezes, sentimo-nos desorientados. Às vezes, aquilo que ouvimos é tão novo, tão diferente da nossa maneira de pensar e de ver, que nos parece absurdo, e sentimo-nos intimidados. Mas esta desorientação é saudável, faz-nos crescer.”

É desta forma que o Papa Francisco reage aos três estudos reunidos em “Desmasculinizar a Igreja?” – Análise crítica dos “princípios” de Hans Urs von Balthasar, livro que será publicado pela Paulinas Editora nesta semana, e que será apresentado na Feira do Livro de Lisboa, no próximo domingo, dia 2 de junho, às 18 horas. Intervêm o dominicano frei José Nunes, Teresa Toldy, autora do livro Deus e a Palavra de Deus nas Teologias Feministas, e Teresa Bartolomei, do Centro de Investigação em Teologia e Estudos de Religião (CITER), da Universidade Católica Portuguesa. Os textos correspondem às intervenções das teólogas Lucia Vantini e Linda Pocher, bem como do teólogo Luca Castiglioni, numa reunião do Conselho dos Cardeais, a convite do Papa.

“A quem reivindica relações mais justas e evangélicas entre homens e mulheres na Igreja, é costume responder com uma redutora reproposta do «princípio mariano-petrino» de Hans Urs von Balthasar (1905-1988), um dispositivo que deveria valorizar as diferenças, mas que, na realidade, marginaliza as mulheres, idealizando-as, e funciona como legitimação de privilégios e injustiças”, lê-se na síntese de apresentação do livro. É daí que parte o contributo de Lucia Vantini, “propondo a redescoberta das mulheres reais, interrogando a consciência masculina e dando vida a uma cultura do nós, da complexidade, da interconexão, da liberdade da diferença e na diferença.

Luca Castiglioni recupera o “menos conhecido «princípio joanino», reflete sobre a «masculinidade tóxica» na subjetividade e no agir dos ministros ordenados, e propõe caminhos de mudança no exercício da autoridade e de descoberta da reciprocidade na relação com as mulheres”. Finalmente, o terceiro estudo, de Linda Pocher, apresenta uma releitura de duas cenas bíblicas que dizem respeito à mãe de Jesus. “Distanciando-se de visões estereotipadas e abstratas, deixa entrever uma história de forte protagonismo feminino: a mãe de Jesus é, juntamente com outras mulheres, discípula e mistagoga.”

É precisamente deste capítulo que o 7MARGENS reproduz a seguir um excerto, em pré-publicação, omitindo aqui as notas de rodapé, as referências bíblicas e a numeração dos subtítulos.

 

Maria e as outras: Discípulas e mistagogas  

Linda Pocher, FMA

«E os seus discípulos acreditaram nele»: as mulheres nas comunidades de João

Foto © djero.adlibeshe yahoo.com / Shutterstock

Foto © djero.adlibeshe yahoo.com / Shutterstock

Uma tradição diferente

É sabido que o Evangelho de São João – partindo da experiência única de vida itinerante no seguimento do Mestre, culminada na sua Páscoa de morte e ressurreição –, no decurso de duas ou talvez três gerações de crentes, desenvolveu uma tradição autónoma e diferente da dos sinóticos. Contudo, tal como os sinóticos, também João, enquanto recorda e medita os acontecimentos vividos por Jesus e pelos seus contemporâneos, pinta um retrato da comunidade cristã no seio da qual tais memórias e meditações recebiam forma de texto escrito.

Ao contrário dos sinóticos, o quarto Evangelho apresenta episódios mais desenvolvidos e tende a caracterizar de maneira mais aprofundada e complexa as suas personagens, tanto masculinas quanto femininas. No círculo dos discípulos estão presentes mulheres e homens: «Juntamente com a peculiaridade de cada um, estão presentes elementos comuns que vão além das determinações de género. Todos debatem (em sentido lato) com Jesus sobre questões teológicas que, no seu cerne, dizem respeito sobretudo à compreensão da sua própria pessoa. Mulheres e homens confessam a sua fé nele, conduzem outros até Jesus e desempenham, portanto, parte ativa no anúncio.»

João, tal como Marcos, não reporta nenhum episódio da vida escondida do Senhor e abre o seu Evangelho com o testemunho do Batista. Apesar disso, a primeira mulher a entrar em cena no seu Evangelho é precisamente a mãe de Jesus. A sua figura é apresentada aos leitores no final da chamada «semana inaugural», que culmina com o sinal de Caná, que sintetiza e antecipa o significado e o fim da missão do filho que se cumprirá na sua glorificação, para a qual ele próprio convida os leitores através do apelo ao mistério da «hora».

 

O sinal das bodas

Giotto di Bondone, As Bodas de Caná

Giotto, Bodas de Caná: um episódio que se pode ler a partir da experiência da comunidade pós-pascal.

Também o episódio das bodas de Caná, portanto, tal como o da Visitação, pode ser lido a partir da experiência da comunidade pós-pascal. O primeiro indício de que esta é a chave que também o evangelista tinha em mente encontra-se precisamente no início da perícope, na referência ao «terceiro dia»: o dia da ressurreição. As bodas, de resto, evocam o tema do banquete escatológico e o motivo bíblico da reviravolta inesperada – que se encontra também no Magnificat –, com o fracasso da festa a transformar-se numa bênção sobreabundante. A água das talhas de pedra para a purificação, transfigurada em vinho novo, recorda a passagem já realizada na primeira comunidade cristã: dos ritos antigos para o único sacrifício do único cordeiro, que derrotou de uma vez por todas a escravidão da morte do pecado.

Se o começo da perícope remete o leitor diretamente para a Páscoa, a sua conclusão, apresentando a primeira formação da comunidade dos discípulos, no seguimento de Jesus e juntamente com a mãe e os seus irmãos, revela a intenção claramente eclesiológica do autor. Deve-se notar, também, que os grupos de que é composta esta primitiva comunidade coincidem com os indicados por Lucas no sumário que antecede a narração da Pentecostes. Uma diferença significativa consiste no facto de que as mulheres estão ausentes como grupo específico – estariam elas no grupo dos discípulos, sem mais especificações? – e de que a mãe não é chamada pelo nome. Uma das particularidades do quarto Evangelho consiste precisamente no facto de Maria nunca ser chamada pelo nome. Os termos «mãe» e «mulher», os prediletos do evangelista, sugerem a interpretação da sua figura como ícone da nova comunidade nascida da Páscoa e do papel mistagógico dos crentes em relação àqueles que se aproximam dela com o desejo de verem e conhecerem quem é Jesus. O forte peso simbólico atribuído a esta figura, todavia, não exclui de todo a possibilidade de ela ter sido modelada precisamente a partir da impressão vivenciada pelos discípulos a respeito da presença e ação de Maria no seio da comunidade apostólica, tal como sugerido também por Lucas nos Atos dos Apóstolos. Também porque o quarto Evangelho goza de uma relação particularmente íntima e prolongada no tempo, a partir da Páscoa, entre a sua testemunha privilegiada – o misterioso discípulo amado – e a mãe do Senhor.

No que respeita à caracterização de Maria, a narrativa das bodas de Caná sublinha, de maneira particular, a sua atenção ao momento concreto da existência e a sua capacidade de intervir de maneira decidida, mas discreta, tecendo relações e abrindo espaços nos quais cada membro da comunidade pode encontrar o Senhor e aprender a pôr-se ao serviço do próximo. A reflexão feminista reconhece nela uma mulher que sabe defraudar as expetativas da feminilidade idealizada: «Longe de se calar, fala; longe de ser passiva, age; longe de ser recetiva aos olhos do homem, vai contra os seus desejos, trazendo-o, por fim, para o seu lado; longe de provocar uma situação desagradável, assume a responsabilidade na situação, organizando as coisas de maneira a beneficiar quem precisa, incluindo ela própria. As suas palavras têm um toque de profecia; lamenta o facto, anunciando ao mesmo tempo uma esperança.»

Nem a relação entre a mãe e o filho é apresentada de maneira idealizada. Maria mostra-se, antes de mais, capaz de estar cara-a-cara com Jesus, que já não é uma criança necessitada de proteção e de cuidados, mas um homem adulto e independente. Ele, por seu lado, chamando-a por «mulher», coloca-a no mesmo plano das outras discípulas, que o quarto Evangelho nos dará em breve a conhecer. Usando o mesmo termo, o Ressuscitado dirigir-se-á a Maria Madalena no jardim do sepulcro. Também Maria consegue o sinal em virtude da sua fé, ou seja, do seu ser discípula, e não por um suposto privilégio ou obrigação a que Jesus se submeteria em nome da piedade filial.

A palavra dirigida aos serventes, com efeito, é um convite à fé, que suscita adesão por força do testemunho. E é este testemunho que permite que os novos discípulos acedam à comunidade dos crentes em Jesus. Sem deixar de ser a mãe, mas aceitando que a relação com o filho se transfigure, assim como a água se torna vinho, Maria junta-se, como discípula exemplar entre os outros discípulos, à companhia das suas irmãs, «a Samaritana, Marta de Betânia, Maria de Betânia, Maria de Magdala, e um grande número de outras mulheres, recordadas e esquecidas, reconhecidas pelo amor e pelo testemunho apostólico que deram de Cristo». Discípula e mistagoga, portanto, mas não sozinha, juntamente com outras e outros que constituem a comunidade: «Depois disto, desceu para Cafarnaúm, Ele, a sua Mãe, os seus irmãos e os seus discípulos, mas não permaneceram ali muitos dias».

 

Jesus e as mulheres

Noli me tangere, Triciano, 1512: Nos encontros com as mulheres descritos pelo evangelista João, a fé é uma dinâmica de reconhecimento recíproco.

Ticiano, Noli me tangere, 1512: Nos encontros com as mulheres descritos pelo evangelista João, a fé é uma dinâmica de reconhecimento recíproco.

Se é verdade, portanto, que João apresenta com o mesmo cuidado e atenção tanto as personagens femininas como as masculinas, isso não significa que não seja possível identificar algumas características comuns às discípulas de Jesus. A primeira consiste numa específica modalidade de aceso à pessoa de Cristo, ou seja, por via pulchritudinis: «O impacto da cristofania nas vicissitudes das protagonistas é descrito em chave estética, que é propriamente o elo entre a experiência de discipulado e o enquadramento esponsal nas narrações.» Ou seja, as mulheres do quarto Evangelho sentem-se fascinadas e atraídas por Jesus, o qual, porém, não se serve nunca dessa atração para as dominar, revelando-se um homem, em simultâneo, não receoso e não violento, capaz de apreço sereno, de amizade e de respeito, em aberto contraste com aquilo que hoje designamos como patriarcado e os seus preconceitos.

Nos encontros com as mulheres descritos pelo evangelista João, a fé é, por isso, uma dinâmica de reconhecimento recíproco: enquanto reconhece a dignidade, o desejo de plenitude e de partilha espiritual e a disponibilidade para a missão das mulheres, Jesus é reconhecido e proclamado Mestre e Senhor por elas. O espaço que, deste modo, se cria no seio da relação permite a Jesus revelar abertamente a sua identidade, coisa que, em João, acontece somente com a Samaritana e com Marta. Em troca do acesso à sua intimidade, Jesus recebe das mulheres uma fidelidade até ao risco de morte e a sua capacidade de ficar com Ele, inclusivamente no momento mais duro, no limiar entre a vida e a morte, quando a maior parte dos homens, assustados, fugiu.

A segunda característica consiste no facto de que o encontro com o Senhor as impele a saírem dos papéis tipicamente femininos: pelo que sabemos, a Samaritana não regulariza a sua posição matrimonial, mas torna-se uma intrépida anunciadora do Evangelho; Maria de Betânia, figura introvertida e silenciosa, «com o gesto da unção realiza uma ação simbólica de carácter profético. Ao contrário do que acontece no Cântico dos Cânticos, não é permitido a Maria Madalena lançar-se para os braços do seu amado reencontrado, mas recebe um anúncio e transmite-o. Em relação a Marta, a narração começa com uma discussão teológica e com a sua confissão de fé, enquanto no segundo episódio ela desempenha um papel menor (…), mas o termo “servir” (diakoneo) poderia implicar um cargo bem mais importante».

 

O modelo da partilha de responsabilidade e das tarefas

O Evangelho de João, portanto, testemunha, comparativamente a Lucas, a escolha de uma comunidade de viver e anunciar, mulheres e homens juntos, a fé em Jesus Cristo, sem divisões de campos ou apropriação de tarefas. Isso não significa, no entanto, que a presença simultânea de homens e mulheres na Igreja joanina não fosse fonte de tensões dentro e fora da comunidade eclesial. Dessas tensões dá testemunho o próprio Evangelho, quando fala do espanto dos discípulos ao encontrarem Jesus a conversar com uma mulher junto ao poço de Jacob ou quando relata o desacordo de Judas em relação ao gesto da unção em Betânia.

Em suma, não parece que «fosse considerado normal uma discussão teológica entre Jesus e as mulheres e o mesmo se diga da sua atividade como missionárias. O Evangelho de João poderia também querer promover o ideal de uma fraternidade/sororidade entre discípulos no seu comum relacionar-se com Jesus como alternativa a uma comunidade estruturada hierarquicamente. Facto é, porém, que, para o evangelista, semelhante igualdade masculino/feminino é não só uma hipótese como também um auspício».

 

O único kerigma no poliedro das comunidades de ontem e de hoje

Mulheres e a ressurreição. Imagem © Watchtower Online Library

As mulheres na ressurreição de Jesus: a verdadeira novidade cristã é o kerigma da morte e ressurreição de Cristo. Imagem: © Watchtower Online Library

Do ponto de vista estritamente histórico, a presença de mulheres entre os discípulos itinerantes contemporâneos de Jesus é atestada pelos Evangelhos e é considerada verosímil por todos os estudos mais recentes. Trata-se, porém, provavelmente, não de jovens mulheres solteiras, mas de mulheres adultas, livres de obrigações familiares: podiam ser viúvas com filhos adultos ou, então, mulheres casadas que já tinham criado – ou que não tinham tido – filhos a quem os maridos permitiam que deixassem o lar; ou ainda, quem sabe, poderia tratar-se de casais cujos membros seguiam, juntos, Jesus.

É muito provável que, num primeiro momento, a experiência de discipulado vivida por elas implicasse uma paridade de facto e uma partilha de vida com discípulos homens que, depois, com o andar do tempo e a progressiva institucionalização da Igreja, foram dando prioridade a formas de convívio consideradas mais «respeitadoras» pelo contexto social e cultural em que as comunidades – cada vez mais estáveis – se formavam e cresciam.

Do ponto de vista teológico, a grande novidade cristã, a verdadeira novidade cristã, que a Igreja continua a proclamar em fidelidade à tradição apostólica, é o kerigma da morte e ressurreição de Cristo. É a possibilidade de aceder, pela fé, à ressurreição do Senhor que liberta, expulsando o espetro do medo da morte. Para as mulheres cristãs, desde o primeiro momento, a liberdade dos filhos e das filhas de Deus assumiu uma tonalidade particular, porque se a morte foi derrotada para sempre, então o matrimónio e a procriação já não são um mandamento, uma obrigação que, com a sua carga de trabalho a todos os níveis, impede o acesso a outros tipos de presença no mundo, tanto em casa como na sociedade.

Se a maternidade já não é uma obrigação, se é apenas uma possibilidade, uma escolha, entre homem e mulher já não há diferenças, e ambos são um em Cristo Jesus. É a partir desta boa notícia que se deve contextualizar a explosão de consagrações virginais na Igreja antiga, que eram possíveis também às pessoas batizadas após o matrimónio, já que não diziam respeito à condição fisiológica do corpo, mas à decisão de se pôr completamente ao serviço do Reino, como Cristo.

Na comunidade dos ressuscitados com Cristo, por isso, as mulheres, já não são chamadas bem-aventuradas porque pariram. Nem sequer são bem-aventuradas por terem conservado a sua virgindade. São bem-aventuradas porque acreditaram, oferecendo, assim, o próprio corpo e o próprio coração a Deus para que Ele possa realizar grandes coisas nelas e através delas.

A comunidade de Lucas e a comunidade de João, com esforço e discernimento, escutando as tensões no seio da própria Igreja e olhando para a tradição e para a cultura, souberam imaginar formas diferentes e, no entanto, igualmente capazes de anunciar ao mundo essa novidade. Se assim não tivesse sido, não teríamos conseguido conhecê-la, não teria de algum modo chegado até nós e não poderíamos, consequentemente, estar aqui, hoje, a falar dela e a refletir sobre ela.

É evidente que tarefas deste género não se esgotam de uma vez para sempre. Escutar de novo a boa notícia e buscar a forma ou as formas eclesiais mais adequadas para que hoje possa ser ainda anunciada é o que a Igreja, com esforço, tem tentado fazer através do processo sinodal. Ainda que as soluções identificadas não possam deixar de ser parciais e imperfeitas, é precisamente essa incompletude e imperfeição a deixar aberta a porta ao futuro, às novidades de Deus, ao contributo que as crentes e os crentes são e serão chamados a dar de geração em geração.

 Fonte: https://setemargens.com/desmasculinizar-a-igreja/

segunda-feira, 27 de maio de 2024

¿ES LÍCITO BAUTIZAR A LOS RICOS?

VICTOR CODINA*

Batismo: 85.700 imagens, fotos e ilustrações stock livres de ...
¿Es lícito bautizar a los ricos?, ETS, octubre 1974, 16-18


La pregunta es provocadora. Y de algún modo nueva. Pero no es de ningún modo
ociosa.
Toda la problemática del bautismo se ha centrado en estos últimos años en torno a la
edad del bautismo: ¿bautismo de niños o bautismo de adultos? Evidentemente no solo
se discutía un problema cronológico sino un problema teológico y pastoral.
Una conferencia pronunciada por Karl Barth en Suiza en 1943 inició una gran
controversia acerca del bautismo de los niños. Según el teólogo protestante, la praxis del
bautismo de los niños es una grave herida en el seno de la Iglesia. Gracias a ella, la
Iglesia se ha convertido en una iglesia multitudinaria y nacional, una iglesia popular
(Volkskirche), en lugar de ser una iglesia confesante, que conoce el don de Dios y se
compromete libremente por la fe.
Otras voces, del campo protestante, se sumaron a la de Barth: su hijo Markus Barth,
Leenhardt, Kurt Aland... Pero también se alzaron opiniones en contra de Barth,
singularmente las de O. Cullmann, R. Mehl, J. Jeremías, quienes defienden la praxis
eclesial por creerla fundada en la tradición más primitiva de la Iglesia, e incluso en el
Nuevo Testamento.
El problema del bautismo de los niños es uno de estos temas troncales que implican
toda la teología: la noción de fe y de gracia, la teología del pecado original, la evolución
del dogma, la relación praxis y reflexión teológica, la libertad, la imagen de iglesia, los
problemas de la iglesia primitiva, la noción de comunidad, el concepto de sacramento,
el papel de la familia en la fe de los hijos, la posibilidad de fundamentar bíblicamente la
praxis sacramental de la Iglesia, etc. El problema del paidobautismo incluso tiene
implicaciones políticas: siempre que se ha planteado el problema de la separación entre
Iglesia y Estado, se ha discutido el problema del bautismo de los niños. Al Estado
confesional y al Estado unido a la Iglesia no le interesa el planteo de este tema, pues
debilita su unidad nacio nal-católica...
El mundo teológico germánico se ha interesado en este tema, pero preferentemente
desde un ángulo teórico y a veces de controversia católico-protestante. Hoy día junto a
los motivos más teológicos se añaden consideraciones de tipo liberal: el respeto a la
libertad de los niños, que no debe ser condicionada por nada. Fieles a su tradición y a su
talante teórico, los alemanes publican gruesos volúmenes concienzudamente trabajados
y bien fundamentados sobre el tema. El libro dirigido por W. Kasper, Christsein ohne
Entscheidung ode soll die Kirche Kinder Taufen?, publicado en 1970, puede ser un
ejemplo típico.
El área francesa se ha interesado más bien por las dimensiones pastorales del problema.
Dentro de la mentalidad de "Francia país de misión", los pastores se interrogan si es
legítimo continuar bautizando a niños de familias descristianizadas. Han comenzado a
ensayarse experiencias pastorales, que los franceses han calificado con nombres
sonoros: "pastoral du délai", "baptême par étappes"... En algunas diócesis
descristianizadas, p. e. en Arras, se ha ensayado la dilación del bautismo, a la que ha
VÍCTOR CODINA
precedido una catequesis de los padres. El bautismo por etapas o escalonado, defendido
por Boureau y Bonnard, tiende a separar cronológicamente los diversos momentos del
rito bautismal, desde un rito de acogida ("rite d'accueil"), hasta la administración del
bautismo, pasando por la evangelización, catequesis, profesión de fe y petición libre del
bautismo. Últimamente, algunos teólogos han dado al problema una nueva orientación,
enmarcando el tema del bautismo dentro del conjunto más amplio de la iniciación
cristiana, que contiene como momentos sacramentales el bautismo, la confirmación y la
eucaristía. Moingt, por citar tan solo un ejemplo, ha propuesto un nuevo modelo de
iniciación cristiana que parta del rito de acogida del niño y culmine en la confirmación
del adulto.
En Italia y en España, el problema ha sido vivido predominantemente desde el ángulo
pastoral. El pastoralista italiano Grasso admite una dilación para los casos de familias
descristianizadas, pero no para los niños de familias creyentes. También en España, en
algunos lugares (p. e. en Sta. Coloma de Gramenet) se ha iniciado una pastoral de
dilación para instruir y catequizar a los padres que desean bautizar a sus hijos.
Si resumimos todo lo dicho, podríamos afirmar que desde presupuestos teóricos (mundo
germánico) y pastorales (mundo europeo latino) se inicia una corriente que,
tímidamente, pero con claridad va pasando del bautismo precoz al bautismo diferido, y
que evidentemente apunta al bautismo de adultos como modelo ideal, por lo menos para
ciertos ambientes y situaciones culturales del contexto de Europa occidental.
Sin embargo este planteo, aceptable, no parece suficiente. Reducir la problemática del
bautismo (o de la iniciación cristiana, para ser más complexivos) a un problema de
tiempo, de catequesis, de búsqueda de modelos nuevos, de mayor libertad personal,
puede conducir a una cierta miopía. Si no fuera tópico, podríamos decir que este planteo
es un planteo eminentemente burgués: se preocupa del individuo, de la libertad, de la
cultura, de la formación intelectual y catequética del bautizando. Pero olvida las
dimensiones estructurales del problema.
Porque el niño recién nacido, lo mismo que el adulto consciente y bien catequizado,
pertenece a una sociedad concreta, a un estamento social, a un país, a un grupo de
naciones. No es lo mismo ser hijo de unos emigrantes sicilianos o andaluces, que
pertenecer a una familia de banqueros suizos. No es lo mismo ser hijo de un presidente
de veinte consejos de administración que ser hijo de un obrero de una fábrica. No es lo
mismo nacer en un chalet de Pedralbes que nacer en Bellvitge. No es lo mismo ser
analfabeto que poseer varios títulos universitarios. No es lo mismo coger cada día el
metro a las cinco de la mañana, que ir en coche a la oficina a las diez. No es lo mismo
pasar vacaciones en un crucero a Escandinavia que irse al pueblo del que se ha
emigrado. ¿Por qué seguir? Es algo evidente, aunque sea humillante confesarlo.
Todas las cuestiones que sobre el bautismo se han levantado estos años han prescindido
de este problema. Quizás este problema es difícil de comprender desde Alemania o
desde Suiza... Los franceses han sido más sensibles, igual que los españoles. Pero
quizás de un modo insuficiente. Han sido los pastores de ambientes obreros
descristianizados los que se han preguntado, con razón, sobre la legitimidad de
continuar con una praxis que se iba convirtiendo en rutina, folklore, magia, superstición.
De ahí ha surgido la necesidad de entablar un diálogo con los padres de estos ambientes
populares y prepararlos para el bautismo. Esta es una labor sumamente laudatoria. Pero
la pregunta es: los padres de los ambientes ricos, aunque culturalmente conozcan muy
bien el dogma y la moral cristiana, ¿están más preparados que los padres de los barrios
para bautizar a sus hijos? ¿Por qué se da por supuesto que los padres de las zonas
residenciales están más cerca de la comprensión de lo que es el bautismo que los de los
barrios?
Tal vez estemos ahora en situación de comprender la pregunta provocadora de este
artículo: ¿es licito bautizar a los ricos? Esta pregunta trasciende la cuestión del bautismo
precoz o diferido: afecta a los niños y a los adultos, porque introduce un elemento
nuevo, no individual, sino estructural.
Si abrimos la Escritura podemos constatar claramente que existe a lo largo de toda la
historia de Israel y de la Iglesia una preferencia por los pobres y una crítica muy dura de
las riquezas y sus peligros. Es conocida la denuncia de los profetas de Israel contra los
ricos que oprimen al pobre, y todos sabemos que Jesús se inscribe en esta línea
profética. El Nuevo Testamento subraya la dificultad que para la salvación constituyen
las riquezas. Los evangelistas sinópticos nos transmiten, después del pasaje del joven
rico, unas advertencias de Jesús sobre el peligro de las riquezas y sobre la dificultad de
que un rico entre en el reino de los cielos: "Es más fácil que un camello entre por el ojo
de una aguja, que el que un rico entre en el reino de Dios" (Lc 18,25; cfr. Mt 19,23-26,
Mc 10,23-27). Esta dificultad de salvación se debe a que las riquezas y su seducción,
ahogan la semilla de la Palabra de Dios (Mc 4,19 y paralelos Mt 13,22, Le 8,14). Según
la carta de Santiago, las riquezas conducen fácilmente a la explotación y a la opresión
(St 2,5-7). Lucas, muy explícito en este tema, llama a las riquezas injustas (Lc 16,9),
condena al rico epulón por el solo hecho de ser rico (Lc 16,19s), porque la riqueza cierra
el corazón y centra la atención del hombre en los proyectos egoístas de "engrandecer
sus graneros", como el rico insensato de la parábola (Lc 12,1621). A las
bienaventuranzas, siguen en Lucas las maldiciones a los ricos, a los que están hartos, a
los que ríen y viven despreocupados de los demás (Lc 6, 2426).
En la evolución actual de la sociedad y de la historia, hoy comprendemos que el ser rico
o el ser pobre no son hechos aislados, sino que están estructuralmente ligados y que son
dependientes. Según la formulación, que se hizo ya famosa, del Obispo de Huesca,
Javier Osés, si hay ricos es porque hay pobres. Es decir, la situación de bienestar supone
actualmente un disfrute opresivo de los bienes de la tierra, ya que hay muchos que no
tienen lo suficiente para vivir como personas. Y lo mismo vale de países ricos, de
continentes ricos, de clases ricas. El rico vive sumergido en una estructura tal, que
fácilmente se deja llevar a aceptarla, reforzarla y mantenerla, con detrimento de los que
padecen sus injustas consecuencias. Vive en un clima profundamente contaminado, en
una situación en la cual el escuchar la palabra y ponerla en obra se hace muy difícil,
porque lo más opuesto a las exigencias de la Palabra es el egoísmo. El rico se halla
sumergido en una estructura que es opuesta al reino. Si el reino es compartir fraternidad
entre todos los hombres, las riquezas poseídas en abundancia dificultan vivir estos
valores.
Teológicamente, podemos hablar de estructuras de pecado y de injusticia, de
encarnaciones y cristalizaciones del pecado del hombre, que fácilmente arrastran al
pecado. Y la teología contemporánea ve en este pecado del mundo la formulación más
profunda y a la vez más bíblica del pecado original. También aquí la teología tiene el
gran peligro de pensar demasiado abstractamente. Los teólogos de Latinoamérica,
continente pobre y oprimido, afirman que el pecado original para los europeos es
concretamente que toda su riqueza, su cultura, su poder está construido con la sangre de
los negros y de los indios, con las rapiñas de los colonizadores y con las injusticias de
siglos de explotación de los países del llamado tercer mundo. Y no olvidemos que estos
países ricos y colonizadores son los tradicionalmente llamados "países cristianos".
Ahora podemos ver toda la gravedad de la cuestión: por el bautismo, se entra a formar
parte de la Iglesia de Jesús, se incorpora el bautizando al misterio pascual de la muerte y
resurrección de Jesús, se recibe el Espíritu de filiación y se remite el pecado, el original
y los personales, si los hay. Pero concretamente cuando el bautizando pertenece a una
familia, a una clase, a una región o a un continente rico, existe el gravísimo riesgo de
que el bautismo, en lugar de hacer pasar de la muerte a la vida, bendiga y sacralice una
situación estructural injusta.
Respondiendo a Karl Barth, podríamos decir que la grave herida para la Iglesia no es
tanto el haber admitido a niños al bautismo, sino el que estos niños (lo mismo que
muchos adultos) pertenezcan a las familias opresoras de la humanidad, y a los países
opresores de los pobres. Éste es el gran escándalo, éste el gran contrasigno de la Iglesia.
El sacramento, que debería remitir el pecado, parece bendecir los pecados de los
individuos y de las sociedades... Al lado de esto, el escándalo de que la Iglesia haya
abrazado a gente poco formada, poco culta, poco catequizada, es mínimo. Porque esta
gente suele ser muchas veces la más pobre y la más miserable. Si la Iglesia ha de ser
una iglesia confesante, es preferible la confesión veterotestamentaria, de muchos
marginados, a la confesión verbalmente ortodoxa de los escribas, fariseos, ricos y
poderosos de hoy...
La pregunta inicial se hace ahora más urgente: ¿es realmente lícito bautizar a los ricos?
Esta pregunta reproduce la que los evangelistas ponen en boca de los que escucharon las
palabras de Jesús sobre los peligros de las riquezas: "Pues, ¿quién se podrá salvar?" (Lc
18,26 y paralelos). Y recuerda el comentario de Clemente de Alejandría al tema de la
salvación del rico. Más recientemente, el obispo de Ivrea, Luigi Bettazzi, ha escrito una
pastoral sobre ¿Evangelizar a los ricos? (L'església entre els homes, Saurí, Montserrat
1974, p 41-66).
Evidentemente, "Lo imposible para los hombres, es posible para Dios" (Lc 18,27). La
salvación de los ricos, su evangelización, su bautizo pertenecen al orden de la gracia de
Dios, que es capaz de convertir y de cambiar el corazón. Jesús entró en casa de Zaqueo,
y con él llegó la salvación a aquella casa (Lc 19,9). Pero en Zaqueo hubo una
conversión: "Daré la mitad de mis bienes a los pobres y si en algo defraudé a alguien, le
devolveré el cuádruplo" (Lc 19,8). Y los sumarios de los Hechos de los Apóstoles nos
muestran que el fruto de la conversión pascual y de la comunidad realmente cristiana es
la participación y la disponibilidad total, incluso económica, movida por el amor
evangélico que Jesús inauguró (Hechos 2,42-47; 4,32-35).
Es posible evangelizar y bautizar al rico. Con tal que se opere una radical conversión,
una metanoia, un cambio de corazón, de actitud, de mentalidad. "La evangelización del
rico -dice Bettazzies- hoy más que nunca una invitación a la conversión, porque él, más
que los demás, está envuelto en la seducción de los bienes terrenos, está más tentado
que los demás a subordinar el trabajo y la persona de los demás a su propio lucro".
Supone persuadirle que el pecado original, es decir, la estructura de pecado que nos
rodea, debe ser objeto continuo de lucha del cristiano, y que el bautismo nos da fuerzas
para ello, siguiendo a Jesús muerto y resucitado. Sin esta conversión y sin esta lucha
continua, el bautismo se degrada a algo mágico y folklórico, y produce a la Iglesia una
herida realmente grave.
Sólo en estas condiciones es licito el bautismo de los ricos. Y por tanto el bautismo de
los ricos (niños o adultos) supone algo más que una catequesis doctrinal. Supone, para
utilizar términos de la misma liturgia bautismal, un exorcismo. Hemos de dar al
exorcismo su profundo sentido cristiano, desmitificándolo de todas las adherencias
culturales del pasado. Significaría pedir al Señor que libere del egoísmo, toda
connivencia con estructuras económicas capitalísticas, de toda opresión, de toda
mentalidad explotadora, del consumismo y de las nuevas formas de esclavizar a
nuestros hermanos. Solo el poder de Dios y la fuerza del Espíritu de Jesús es capaz de
liberarnos de este género de demonios...
Sólo bajo estas condiciones y después de estos exorcismos el rico puede ser admitido a
la Iglesia. Y solo así se podrá evangelizar a los pobres, cuya mayor dificultad reside en
ver que el nombre de Jesús es tomado en vano por aquellos que les explotan...
Quizás ésta sea la aportación de la teología de los países pobres a los teólogos de los
países ricos: recordarles que además de la dilación, no se olviden el exorcismo. Quizás
esto es muy difícil de comprender desde Suiza. Pero desde el tercer mundo es muy fácil.
Hasta los analfabetos lo comprenden..

*Víctor Codina, nascido na Espanha, é sacerdote jesuíta e teólogo latino-americano. Licenciado em Filosofia e Letras pela Universidade de Barcelona, em Teologia pela Universidade de Innsbruck, e doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma.