sexta-feira, 28 de junho de 2024

O poder do amor

 Por CRISTIANA AGUIAR*

Amor - Significado, definições, exemplos e FAQ

De acordo com a ciência da felicidade, relacionamentos são a nossa maior fonte de alegria. Eles têm um potencial enorme para nos causar dores, mas também são a melhor forma de cura. Somos curados através dos relacionamentos.

Qual o maior impeditivo para a construção de relações saudáveis? Essa pergunta de milhões pode ser respondida não de forma categórica ou presumida, mas com uma frase que sintetiza várias outras: falta de disposição.

Relacionamentos exigem de nós disposição para ouvir, ceder, compreender antes de ser compreendido, doar, contribuir, amar.

Como dito na canção do Renato Russo, "ainda que eu falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria..." Letra extraída do texto bíblico escrito no livro de 1 Coríntios capítulo 13, que diz também: "o amor tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta."

Parece que estas palavras estão em dissonância com uma era em que não temos tempo a perder. A era do "clique" não sabe esperar, tudo é para ontem.

Estes dias estava conversando com uma amiga que me disse que está aprendendo a celebrar conquistas. Quando conquistamos algo, parece que já estamos olhando para o próximo passo, nos perdemos do tempo da celebração, da contemplação.

Acredito que essa cultura também chegou nas relações. É preciso satisfazer anseios tão rapidamente que nem dá tempo de conhecer o outro.

Mas como vou me relacionar com quem eu não conheço? E como conhecer alguém que não se apresenta? Como se apresentar, se estão todos distanciados através de uma vitrine digital?

Estamos cada vez mais conectados, todo mundo junto, poucos temos de perto. O mundo físico pode dar mais trabalho, mas ele é o mais eficiente quando falamos de relacionamentos, de trocas, de afetos.
Pensando no mundo corporativo, fala-se tanto sobre entregas de resultados, performance, metas e bônus, mas em alguns casos fica esquecida a palavra "pessoas".

Curiosamente, o Instituto Gallup publicou um estudo demonstrando que ter um melhor amigo no trabalho engaja até 7 vezes mais o colaborador.

Já imaginou o líder que consegue aumentar o engajamento da sua equipe em 700% investindo em amizades? É fácil pensar que, se eu gosto de uma pessoa, vou desejar o melhor para ela, vou procurar contribuir com seu sucesso, vou espontaneamente fazer coisas que a agradam. Pense no líder que é amado por seus liderados.

Infelizmente, pesquisas revelam que 87% dos colaboradores ao redor do mundo são descomprometidos com o trabalho.

Uma pessoa tem aproximadamente 45 anos de vida profissional, se considerarmos que em média troca-se de chefia a cada 3 anos, uma pessoa tem aproximadamente 15 chefes ao longo da vida. Estudos têm demonstrado que apenas 15% são considerados bons líderes por seus liderados.
Procure lembrar dos chefes que você teve. Quantos você considera inspiradores, pessoas capazes de ter ideias e apontar caminhos para o alcance dos objetivos? Muito dessa estatística se deve à falta de habilidade para construir relações saudáveis, construir pontes, ao invés de muros. O líder precisa amar a sua equipe.

Amor é diferente de paixão. Embora seja maravilhoso se apaixonar, a paixão suspende temporariamente o juízo. Ela suspende a noção de tempo e espaço. Quando estamos com a pessoa amada parece que só existem nós dois no universo.

A paixão energiza, mas se durar muito, consome. A gente não pensa em outra coisa...
Já o amor, cuida! Por isso líderes que amam seus liderados fazem toda a diferença, eles celebram as conquistas e se responsabilizam também pelos fracassos.
Logo, a paixão arrebata a alma, mas só o amor constrói.

* CEO da Jeito Certo Consultoria. Especialista em Gestão de Negócios e Pessoas

Fonte: https://www.jb.com.br/brasil/opiniao/artigos/2024/06/1050620-o-poder-do-amor.html

Chico: oitenta anos de olhar

Por MARIA CLARA BINGEMER

Aos olhos de Chico - ISTOÉ Independente

Quem vê Chico Buarque fica imediatamente impressionado com o tamanho e a cor de seus olhos. Verdes? Azuis? Uma mistura de ambos? O fato é que aqueles olhos claros tomam a frente da cena e captam a atenção de quem ouve suas canções, acrescentando ao encanto que elas provocam.

Não faria muito sentido aqui homenagear o poeta e compositor maior da nossa música e de tantas outras coisas nossas – escritos, romances, peças de teatro – apenas pela beleza da cor de seus olhos. Por isso já de saída, nesta crônica de celebração pelos seus 80 anos, esclarecemos que não se trata tanto de olhos, mas de olhar. Em meio a tantas celebrações que o artista deve estar recebendo ao longo desta semana e especialmente no dia de hoje, quero celebrar seu olhar.

O olhar é mais que a paisagem que os olhos físicos conseguem desvendar através da retina. Trata-se da consciência e percepção de alguém, no caso um indivíduo sobre si mesmo e igualmente sobre outros indivíduos, outros coletivos e sobre o mundo que o circunda e no qual vive. Para a filosofia, o olhar está ligado à contemplação, à Theorein (Theoria), ou seja, ao pensar que se dá no gesto primeiro da atenção às coisas até a visão das ideias e conceitos.

Chico tem esse olhar aberto e atento para a realidade e as coisas. Suas composições sempre revelaram essa abertura consciente e crítica que percebe a injustiça e a opressão da realidade. Seu talento revelou em várias peças esse olhar agudo de cidadão brasileiro, alguém que embora nascido em família com meios e posses, formado em boas escolas e com possibilidades de beber da imensa cultura do intelectual que era seu pai não perdia a perspectiva da totalidade do real, consciente de que sua situação não lhe dava privilégios, mas sobretudo responsabilidade. Esse olhar aparece no lindo fado “Tanto Mar,” quando celebra a vitoriosa revolução dos cravos em Portugal, ao mesmo tempo em que questiona a ditadura que ainda persistia no Brasil. Igualmente na canção “Vai passar” que resgata as agruras do continente erguido e construído por pobres e pretos que encontram na música e na dança “uma alegria fugaz” que mostra a evolução da liberdade que os transforma em barões e príncipes mas só dura “até o dia clarear”; ou o pungente “Cálice”, que recorrendo à oração derradeira de Jesus antes da Paixão denuncia as torturas e a censura em seu país.

O olhar de Chico pousa-se também com ternura e compaixão sobre a alteridade daqueles e daquelas que formam o tecido da paisagem humana que observa. Com sua lira, destaca personagens que estão presentes no cotidiano brasileiro e denuncia suas tragédias pessoais, assim como o modo inclemente pelo qual são tratados. Todos sentimos e sofremos juntos com seu “Pedro Pedreiro” esmagado por uma rotina devoradora de esperar; ou com o operário de “Construção” que ama sua mulher pela última vez antes de cair feito um pássaro e encontrar a morte no chão ao lado do prédio que erguia com sua mão, seu suor e seu sangue todos os dias; ou ainda com a trans “Geni” a quem todos desprezam e que depois será a que salvará a cidade condenada; a “Carolina” que fica na janela vendo o tempo passar e tantos e tantas outras. É sobre a alteridade que forma coletivos que o poeta canta triste e melancolicamente, como “Gente Humilde”; ou irônica e divertidamente como o “Malandro” que aposentou a navalha, sustenta mulher e filhos chacoalhando diariamente num trem da Central para ir ao trabalho e sobreviver.

No entanto, o mais importante olhar que aqui desejo celebrar nesta festa de 80 anos do poeta é aquele que é lançado sobre a mulher. E não apenas sobre, mas a partir da mulher. O talento de Chico é tanto e a musa que o toma tão poderosa que ele chega a compor “como se fosse “ mulher, ou melhor “sendo” mulher. A inspiração liberta a anima que em sua lira convive com o animus de seu gênero masculino e fala com os sentimentos, as palavras, as emoções, as raivas das mulheres que povoam suas composições com abundância e destaque. As vezes anônimas como a garota de programa que é daquelas que só dizem sim e depois viram a página do “Folhetim” ou a esposa abandonada durante as noites que depois recebe o marido devasso em casa em “Com açúcar com afeto”, composição polemica, que Chico declarou que não faria hoje; ou Joana de “Notícia de Jornal” que atentou contra a existência num humilde barracão e é mais uma mulata triste que errou e ao voltar ao barracão percebe que “não se volta ao que acabou”.

O olhar verde/azulado (ou será azul/esverdeado?) contempla suas coexistentes representantes do outro gênero e lhes dá voz. E ao fazê-lo, são as próprias mulheres que se identificam e se encontram em sua arte e por isso tanto o admiram. Graças a suas canções muitas mulheres tomaram consciência da submissão indevida que suportavam caladas, ou criaram coragem para tomar posições que antes pensavam dever aguentar sem reclamar; ou deram o salto para entregar-se a um amor que antes lhes dava medo.

Por tudo isso e muito mais é justo hoje celebrar o olhar de Chico que sabe contemplar e enxergar longe e traduzir na magia das palavras o que percebem seus olhos ao se abrirem sobre a realidade de seu país e seus habitantes, sobretudo as mulheres. Que venham oitenta mais, oitenta vezes oitenta para esse artesão da língua e bardo da condição humana. Parabéns!

*Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “O mistério e o mundo: Paixão por Deus em tempos de descrença” (Editora Rocco), entre outros livros.

Fonte:  https://www.jb.com.br/cadernob/chico-buarque-80-anos/2024/06/1050622-chico-oitenta-anos-de-olhar.html

Joe Biden é um bom homem e um bom presidente. Ele precisa se retirar da disputa com Trump

Por Thomas Friedman * (The New York Times)

Presidente Joe Biden e ex-presidente Donald Trump no primeiro debate da eleição americana.

 Presidente Joe Biden e ex-presidente Donald Trump no primeiro debate da eleição americana.  Foto: Gerald Herbert/Associated Press

Biden seria saudado por fazer algo que Trump nunca faria: colocar o país acima de si. Eleitores merecem processo aberto em busca de candidato democrata que possa unir o partido e o país

Assisti ao debate entre Joe Biden e Donald Trump sozinho em um quarto de hotel em Lisboa e chorei. Não consigo me lembrar de um momento mais desolador na política da campanha presidencial americana em minha vida - justamente por causa do que ele revelou: Joe Biden, um bom homem e um bom presidente, não tem condições de concorrer à reeleição. E Donald Trump, um homem malicioso e um presidente mesquinho, não aprendeu nada e não esqueceu nada. Ele é o mesmo lança-chamas de mentiras que sempre foi, obcecado por suas queixas - nada perto do que será necessário para que os Estados Unidos liderem o mundo no século XXI.

A família Biden e a equipe política devem se reunir rapidamente e ter a mais difícil das conversas com o presidente, uma conversa de amor, clareza e determinação. Para dar aos Estados Unidos a maior chance possível de deter a ameaça de Trump em novembro, o presidente deve se manifestar e declarar que não concorrerá à reeleição e que está liberando todos os seus delegados para a Convenção Nacional Democrata.

O Partido Republicano - se seus líderes tivessem um pingo de integridade - exigiria o mesmo, mas não o fará, apenas porque eles não fazem. Isso torna ainda mais importante que os democratas coloquem os interesses do país em primeiro lugar e anunciem que será iniciado um processo público para que diferentes candidatos democratas disputem a indicação - prefeituras, debates, reuniões com doadores, etc.

Sim, poderia ser caótico e confuso quando a convenção democrata começasse, em 19 de agosto, em Chicago, mas acho que a ameaça de Trump é suficientemente grave para que os delegados pudessem rapidamente se unir e nomear um candidato de consenso.

Se a vice-presidente Kamala Harris quiser concorrer, ela deve fazê-lo. Mas os eleitores merecem um processo aberto em busca de um candidato presidencial democrata que possa unir não apenas o partido, mas o país, oferecendo algo que nenhum dos homens no palco de Atlanta fez na noite de quinta-feira: uma descrição convincente de onde o mundo está agora e uma visão convincente do que os Estados Unidos podem e devem fazer para continuar a liderá-lo - moral, econômica e diplomaticamente.

* Jornalista estadunidense, atualmente editorialista do jornal The New York Times. 

Fonte:  https://www.estadao.com.br/internacional/joe-biden-e-um-bom-homem-e-um-bom-presidente-ele-precisa-se-retirar-da-disputa-com-trump/

Igreja e teologia: pensando na fronteira

 Por  Roberto Oliva*

 https://www.ihu.unisinos.br/images/ihu/2022/09/05_09_papa_francisco_foto_poder_360.jpg

"Os sinais das fronteiras não podem, portanto, ser domesticados. A abordagem de Francisco aos chamados “valores inegociáveis” é plenamente interpretada à luz deste contexto teológico que não degrada, mas alarga os horizontes do depósito da fé. A sua tenacidade em relação aos problemas sociais e políticos expressa o desejo de habitar as fronteiras sem excluir o diálogo com pessoas de outras religiões ou correntes culturais",

Eis o artigo.

Os sinais da história e dos acontecimentos humanos, complexidades a acolher e decifrar, constituem o espaço imprevisível no qual a inteligência da fé só pode caminhar na ponta dos pés. Esta reserva do inesperado surge nas fronteiras, nessas fronteiras lábeis entre o conhecido e o desconhecido, onde os códigos e as definições experimentam uma tímida limitação. Fronteiras são situações em que o inesperado emerge, provocando novas questões, penetrando o presente com a energia inovadora do futuro.

Antigamente, finis terrae representava o fim do mundo conhecido e o início do desconhecido: onde as fronteiras geram o sabor da imaginação. Existem as fronteiras da Igreja, mas também as fronteiras – aparentemente – fora da Igreja que expressam uma profecia “secular” por vezes revolucionária. O resumo final da primeira sessão do Sínodo sobre a sinodalidade (outubro de 2023) reiterou a urgência de uma teologia capaz de discernimento partilhado sobre as chamadas questões controversas em vista da sessão de outubro próximo. A teologia é útil na medida em que não só vai até à fronteira, mas surge a partir das fronteiras.

Francisco, o Papa que veio do fim do mundo, recorda muitas vezes que "ensinar e estudar teologia significa viver numa fronteira, na qual o Evangelho vai ao encontro das necessidades das pessoas às quais deve ser anunciado de forma compreensível e significativa" (Carta à Pontifícia Universidade Católica Argentina, 3 de março de 2015).

A escolha de realizar a sua primeira viagem apostólica a Lampedusa constitui um sinal a decifrar: a partir das periferias humanas onde os rejeitados – neste caso os migrantes – tornam-se pedras fundamentais de um cristianismo que assume o olhar dos oprimidos. As lágrimas e o choro de quem mora na fronteira tornam-se um ensinamento de vida para quem - residente no centro - acredita que tem que ensinar sem aprender mais nada. As fronteiras são sinais que se encontram na realidade, por isso o Papa Francisco reitera frequentemente que “a realidade é superior à ideia”.

Aqui está contida a proposta de um cristianismo que vai além do modelo tradicional em que as ideias são aplicadas às histórias das pessoas. Deixar-se desafiar pelas fronteiras permite buscar nas experiências concretas possíveis migalhas de autenticidade amadurecidas após jornadas dolorosas coloridas de feridas e de libertação.

Por isso, a teologia e a catequese devem acolher a experiência das diferentes fronteiras humanas e espirituais: evitando o risco de anunciar o Evangelho a partir de um laboratório asséptico, onde o contacto com a humanidade concreta se torna acessório e os princípios prevalecem sobre a lógica da mudança.

Os sinais das fronteiras não podem, portanto, ser domesticados. A abordagem de Francisco aos chamados “valores inegociáveis” é plenamente interpretada à luz deste contexto teológico que não degrada, mas alarga os horizontes do depósito da fé. A sua tenacidade em relação aos problemas sociais e políticos expressa o desejo de habitar as fronteiras sem excluir o diálogo com pessoas de outras religiões ou correntes culturais.

Toda fronteira, quando dói, também deixa uma marca indelével: isso vale também para experiências ligadas à afetividade. Pela primeira vez num documento magisterial (Amoris laetitia) aparece (18 vezes) a palavra “fragilidade”, entendida já não como um problema a conter, mas como uma fronteira sobre a qual o Evangelho não deixa de lançar a sua luz: “bom notícia aos pobres, libertação aos presos, visão aos cegos” (Lc 4,14-21).

*Escreve presbítero da Diocese de San Marco Scalea, Itália, em artigo publicado por Settimana News, 20-04-2024.

Fonte:  https://www.ihu.unisinos.br/640807-igreja-e-teologia-pensando-na-fronteira

Bolívia. Zúñiga disse que a tentativa de golpe falhou porque seus reforços demoraram a chegar

 A reportagem é de Axel Schwarzfeld*

https://www.ihu.unisinos.br/images/ihu/2019/11/20_11_protesto_bolivia_reununcia_jeanine_foto_twitter_fotos_publicas.jpg

O Ministro do Governo, Eduardo del Castillo, informou que pelo menos uma dúzia de soldados bolivianos foram detidos, enquanto vários países ao redor do mundo se uniram na condenação do motim.

O governo da Bolívia informou esta quinta-feira que o chefe militar demitido Juan José Zuñiga, que liderou na quarta-feira um grupo de soldados para assumir a sede do Executivo boliviano, confessou que não conseguiu cumprir os objetivos do levantamento porque os seus reforços demoraram para chegar. Além disso, o governo negou versões que sugeriam que se tratava de um autogolpe para aumentar a popularidade do presidente Luis Arce.

A Ministra da Presidência da Bolívia, María Nela Prada, leu à imprensa a entrevista que a Polícia realizou com Zúñiga após sua captura. Segundo ela, ao perguntar ao general por que os objetivos do levante não foram alcançados, ele admitiu que as unidades da Viacha e o pessoal da Marinha e da Aeronáutica não conseguiram chegar a tempo. O ministro acrescentou na conferência que todos os bolivianos são chamados a defender a democracia no seu país e a não usar o que aconteceu politicamente para ver como obter lucros para fins pessoais.

Também considerou falsas, inconcebíveis e temerárias as declarações de Zúñiga de que Arce lhe pediu para dar o golpe, sustentando que se trata de um pequeno recorte para tentar distorcer o ocorrido. “São declarações totalmente imprudentes que vão contra o respeito à nossa Constituição e à nossa democracia ”, disse Prada. “O que vivemos é uma tentativa de golpe, um golpe fracassado que foi travado”, sublinhou.

“As instituições devem ser respeitadas”

Depois que a calma voltou à sede do governo, o ex-presidente Evo Morales se manifestou em suas redes sociais, onde também anunciou a suspensão das mobilizações que seu espaço convocou para repudiar o ocorrido. “Apreciamos todas as expressões de solidariedade e apoio à democracia boliviana expressadas por presidentes, líderes políticos e sociais do mundo”, afirmou. "Estamos convencidos de que a democracia é a única forma de resolver qualquer diferença e que as instituições e o Estado de direito devem ser respeitados . Reiteramos o apelo para que todos os envolvidos neste motim sejam presos e julgados", disse ele.

O que aconteceu na quarta-feira também gerou algumas divergências no partido no poder. "Eles zombaram do país. Este presidente não sabe mais fazer upload de sua imagem (...) o autor intelectual é Luis Arce e David Choquehuanca e o autor material é (Juan José) Zuñiga", disse o vice-presidente do Movimento Al Socialismo (MAS), Gerardo García.

O deputado Héctor Arce Rodríguez chamou o motim de um show entre Zúñiga e Arce. Na mesma linha, a deputada Luisa Nayar destacou em suas redes sociais: “Os bolivianos vivem um espetáculo político incrível, montado pelos irresponsáveis, incapazes e corruptos, que são inquilinos da equivocadamente chamada Casa Grande del Pueblo”. E acrescentou: “Usaram um general maluco para ‘tomar’ a Praça Murillo com tanques, à vista e surpresa de alguns transeuntes distraídos”.

Uma dúzia de presos

Enquanto isso, o Ministro do Governo da Bolívia, Eduardo del Castillo, informou em entrevista coletiva que pelo menos uma dezena de soldados bolivianos foram detidos por seu suposto envolvimento na tentativa de golpe de Estado, entre eles seus líderes: General Juan José Zúñiga e Almirante Juan Arnez Salvador. O ministro afirmou que os detidos estão sob custódia, enquanto as autoridades continuam a tentar identificar toda a rede de apoio que foi mobilizada para a realização do levantamento.

Na tarde de quarta-feira, Zúñiga liderou um grupo de soldados fortemente armados e tanques que tomou a Praça Murillo, em frente à sede do Governo de Luis Arce, e, após arrombar a porta do prédio, o chefe militar demitido disse à imprensa que estava iria mudar o gabinete do governo e que procurou restaurar a democracia na Bolívia.

Luis Arce e seu gabinete permaneceram na sede do Executivo e, enquanto Zuñiga e seu grupo militar mantinham pressão externa, mudou os comandantes das três Forças Armadas Bolivianas. Zúñiga e seus seguidores recuaram após a mudança de comando militar e, momentos depois, o líder militar demitido foi capturado no quartel-general do Estado-Maior.

Condenação global

A trama golpista recebeu amplo repúdio na quarta-feira por parte dos governos de vários países do continente como Brasil, Argentina, Estados Unidos, Colômbia, Guatemala, entre outros. Nas últimas horas, somaram-se condenações da Rússia, Espanha e França.

O Ministério das Relações Exteriores da Rússia rejeitou e considerou inaceitável o que aconteceu na Bolívia. “A solução política de qualquer diferença política interna na Bolívia é um imperativo ”, sublinhou o ministério num comunicado, ao mesmo tempo que apela a todas as forças e estruturas políticas construtivas na Bolívia para que se unam na busca pela consolidação da sociedade boliviana, para garantir a estabilidade e a soberania da Bolívia. o Estado Plurinacional.

O Ministro das Relações Exteriores espanhol, José Manuel Albares, comemorou perante a imprensa o retorno à calma na Bolívia após a tentativa de golpe de Estado e advertiu: “O Governo da Espanha nunca tolerará nem permitirá que haja, através de forças militares força, uma tentativa de regressão e ruptura da democracia e da ordem constitucional na Bolívia" .

Numa breve declaração, um porta-voz adjunto do Ministério dos Negócios Estrangeiros francês disse que o seu país condena a tentativa de ataque à democracia na Bolívia e apelou ao respeito pela ordem constitucional . O porta-voz também expressou apoio ao governo boliviano, bem como solidariedade à população.

Dúvidas e certezas

A respeito destes acontecimentos, o Ministro da Defesa da terceira presidência de Evo Morales, Javier Zavaleta. Ele explicou à Página|12 que o motim deixa certezas e dúvidas em termos políticos. “As maiores certezas que deixa é que o desgoverno chegou ao nível das Forças Armadas . Eu diria todo o sector da segurança, porque o comportamento da polícia também não tem sido muito profissional nem muito organizado”, considerou.

Disse também que as Forças Armadas foram gravemente afetadas porque não foi o comandante-em-chefe quem promoveu o golpe, mas sim um subordinado (Zúñiga). “Este ato foi uma insubordinação e uma violação da cadeia de comando . Incidentes semelhantes já tinham ocorrido em 2019, e este último acontecimento mostra uma deterioração das instituições militares”, descreveu Zavaleta, sustentando que Zúñiga tentou canalizar o descontentamento da população com a situação. do país. “Ele falou sobre a necessidade de mudar a classe política, que os políticos deveriam fazer as coisas bem ”, acrescentou.

Entre as dúvidas deixadas pelo motim, segundo o ex-ministro, está a relação de Luis Arce com Zúñiga. “O general Zúñiga é um grande amigo do presidente Arce e o apoia no cargo há dois anos. Até horas antes do golpe. Portanto, não se entende exatamente quando essa confiança foi quebrada e quem traiu quem”, frisou.

“Outra dúvida que fica é a abrangência que esse golpe deve ter tido, porque participaram apenas algumas unidades militares. “Um golpe acaba finalmente com sequestros, assassinatos de autoridades... Quando há golpe, eles não perguntam. por favor, deixem de lado, mas há uso de armas de fogo, violência”, explicou. “Ontem esses extremos não foram alcançados e a questão é por quê. Algo deu errado? Sua intenção era apenas ficar lá? Ou foi mal planejado? “São dúvidas que permanecem ”, acrescentou.

A última questão que Zavaleta considerou é se se tratou de um autogolpe , como propôs Zúñiga. “Para uma pessoa que está detida e que é praticamente um prisioneiro dizer isto, a sua palavra é pouco credível . Mas devemos considerar que este comandante está a falar de um dos seus amigos”, observou.

Nesta quinta-feira, os bolivianos voltaram à normalidade em meio aos questionamentos que deixaram várias horas de altíssima tensão em La Paz.

* Publicada por Página|12, 28-06-2024.

Fonte:  https://www.ihu.unisinos.br/640830-bolivia-zuniga-disse-que-a-tentativa-de-golpe-falhou-porque-seus-reforcos-demoraram-a-chegar

quinta-feira, 27 de junho de 2024

Mercado digital cresce e muda comportamento de editoras, livreiros e leitores

Por Bárbara Neves*

 Mercado digital cresce e muda comportamento de editoras, livreiros e leitoresFoto: Tomaz Silva/ Agência Brasil

Apesar da franca ascensão dos conteúdos digitais, que respondem por 8% do faturamento das editoras, livreiros apostam no leitor que valoriza o livro físico e os espaços de leituras presenciais

Vendas de livros sofreu retração de 5% em 2023 na comparação com ano anterior. Mesmo assim, faturou R$ 4 bilhões no ano passado, com alterações no perfil dos leitores

“A CBL acredita que as livrarias físicas desempenham um papel importante como espaços culturais e de promoção da leitura.” A afirmação da presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL), Sevani Matos demonstra a importância dos ambientes literários para além da economia. Em um país com uma população tão grande como a do Brasil (215,3 milhões de pessoas de acordo com o Censo do IBGE 2022), apenas 16% das pessoas maiores de 18 anos compraram um livro em todo o ano passado.

Esse é o cenário apresentado pela CBL em pesquisa feita pela Nielsen BookData em dezembro de 2023. Entre os gêneros, as mulheres são as que mais leem, formando um percentual de 57% do total dos compradores. A renda também é importante: 34% da classe A e 25% da B, compram livros e, em contraponto, só 13% da classe C e 5% da D possuem esse hábito.

Mercado digital cresce e muda comportamento de editoras, livreiros e leitores

O faturamento das editoras com conteúdo digital apresentou um crescimento nominal de 39% em 2023, destaca Sevani, da CBL

Foto: CBL/ Divulgação

Em entrevista ao Extra Classe a presidente da CBL, Sevani Matos afirmou que houve uma queda nas vendas em 2023 em relação ao ano anterior. “Em 2023, as editoras registraram faturamento de R$ 4 bilhões nas vendas ao mercado, o que representa decréscimo nominal de 0,8%. Segundo a pesquisa, o setor registrou retração no faturamento de 5,1% em termos reais, considerando a variação do IPCA de 4,62%, na comparação com 2022.

Sobre o impacto nas vendas dos e-books e audiolivros, a dirigente destaca o crescimento desse mercado em diversas análises e comparações. “O faturamento das editoras com conteúdo digital apresentou um crescimento nominal de 39% em 2023. Esse crescimento foi impulsionado principalmente por plataformas educacionais e bibliotecas virtuais, que registraram altas nominais de 68% e 59%, respectivamente. Nos últimos cinco anos, o faturamento com conteúdo digital cresceu 158% em termos reais​​. Em 2023, os conteúdos digitais corresponderam a 8% no faturamento das editoras (impresso + digital), isso significa um aumento de 2 pontos percentuais em relação ao ano anterior.”

Questionada em relação a percepção da instituição sobre os diversos fechamentos de livrarias no país, a presidente surpreendeu ao revelar que há de fato espaço para esse mercado mesmo com a concorrência das vendas on-line. “A CBL acredita que as livrarias físicas desempenham um papel importante como espaços culturais e de promoção da leitura. De acordo com um estudo, publicado na 5ª edição do Anuário Nacional de Livrarias, com levantamento de dados de 2023, o Brasil tem 2.972 livrarias. Dados da Associação Nacional de Livrarias mostram que, desde 2022, foram inaugurados mais de 100 novos estabelecimentos. Atualmente, temos quase 3 mil livrarias em nosso território. Mas ainda há muito espaço para outras”, aponta.

Formação de leitores

Mercado digital cresce e muda comportamento de editoras, livreiros e leitores

Para Luísa, que devora livros desde a infância, a estética da obra e o conteúdo são determinantes na hora de comprar uma obra física: “dificilmente compro e-book”, confidencia

Foto: Acervo Pessoal/ Divulgação

Sevani ainda ressalta a importância de iniciativas do poder público que incentivem a leitura. “O Brasil é um país grande e em muitas cidades ainda não existem livrarias. É importante a adoção de medidas que favoreçam a concorrência saudável, iniciativas que favoreçam a abertura de novas livrarias e permitam sua sobrevivência. Além disso, é urgente a implantação de políticas públicas robustas e eficientes para ampliar o número de leitores e desenvolver o hábito da leitura no Brasil.”

A estudante de jornalismo, Luísa Bell, 22 anos, revela que ainda pequena criou o hábito de ler livros com a sua mãe. Mas foi por volta dos 12 anos, com o “Diário de um Banana” e livros do John Green que virou uma bookwarm (leitora ávida). Sua preferência é pelos livros físicos: “Dificilmente compro um e-book. Faço uso do kindle (leitor digital) para ler livros que ficam gratuitos e às vezes assino o kindle unlimited (livros sob demanda) quando tem promoção de três meses por R$ 3,00”.

Luísa também leva em conta se a história é intrigante, avalia a beleza da capa e se a obra será adaptada para o cinema ou tv, para ler antes de assistir a nova versão. Nos últimos anos, ela leu, em média, de 10 a 14 livros por ano e possui o padrão de sempre comprar em promoções como black friday e aniversário das lojas, além de sempre pedir livros de presente de Natal e aniversário.

O sócio-fundador da editora L&PM, Ivan Pinheiro explica quais são as estratégias para atrair novos leitores e manter os antigos: “Fazer o nosso trabalho focando em obras de qualidade, reservando um espaço nobre na nossa programação para livros destinados a um público jovem. É política prioritária da empresa reforçar e ampliar a nossa coleção L&PM Pocket, – a maior coleção de livros de bolso do Brasil – com cerca de 1.500 títulos publicados, mais de 30 milhões de exemplares vendidos e com enorme trânsito entre os leitores jovens.”

Questionado sobre a concorrência dos e-books, ele afirma que a editora já produz materiais para esse mercado. “A L&PM tem mais de mil títulos em plataformas digitais. Nosso trabalho é criar e disponibilizar conteúdos que poderão ser consumidos em plataformas físicas ou digitais. Qualquer conteúdo que a L&PM produza só pode ser comercializado com a autorização da editora. Fora disso, é pirataria, é crime. Não temos preocupações com “concorrência” de e-book, pois nós produzimos e-book e estes não ocupam mais do que 6% do faturamento da empresa”, destaca.

Editores e livreiros

Mercado digital cresce e muda comportamento de editoras, livreiros e leitores

Livros digitais respondem por 6% do faturamento da LP&M, revela Pinheiro

Foto: Divulgação

Ivan ressalta que não há como estipular o custo médio de produção de um livro. “Cada livro tem um custo, dependendo de formato, número de páginas, tradução, se houver, cor, se houver, ilustrações, etc, etc, etc. Impossível ‘chutar’ um custo, pois além dos custos diretos, há os custos indiretos com funcionários, instalações, etc.” O sócio-fundador também destacou quais são os títulos mais vendidos pela editora: “A L&PM tem dezenas de lançamentos neste ano de 2024. A coleção de bolso é responsável por mais de 50% do faturamento da empresa. Nela estão best sellers modernos e clássicos , como Agatha Christie, Freud, Fernando Pessoa, Millôr Fernandes, Martha Medeiros, James Joyce, Jack Kerouac, Moacyr Scliar, Charles Bukowski, Nietzsche, Mario Quintana, Kafka, Eduardo Bueno, Eduardo Galeano, Balzac”.

O sócio e livreiro da Macun Livraria, Pedro Nambuco, explica que pelo fato do espaço ter inaugurado há apenas oito meses ainda não é possível cravar as preferências do público, mas a curadoria prioriza a variedade de títulos. “Percebemos que o consumo principal dos livros são de lançamentos. Então, por exemplo, Vemos-nos em agosto, de Gabriel García Márquez, tem vendido bastante e neste mês ele está como o mais vendido. Mas também já tivemos outro perfil de livro mais vendido, da literatura nacional, Tudo é Rio, de Carla Madeira, foi bastante vendido. Tem um autor gaúcho pelo qual temos um apreço muito grande, que também vende bastante, que é o José Faleiro. Então, a nossa livraria, como tem essa dimensão de ser um espaço com curadoria por indicação geográfica, abrange literatura do mundo todo e também literatura brasileira, seja por regiões, estados, enfim”, descreve.

Leitores em busca de novas experiências

Mercado digital cresce e muda comportamento de editoras, livreiros e leitores

De acordo com a CBL, as mulheres leem mais e correspondem a 57% do universo de consumidores de livros

Foto: Fernando Frazão/ Agência Brasil

Para o livreiro, o importante é ler, seja comprando na livraria, seja pegando um livro emprestado. “Há clubes de leitura que têm frequentado bastante o espaço e vêm se repetindo esses encontros. Então identificamos um padrão de consumo que é justamente vinculado a essa experiência, vivência. Falamos muito numa coisa que é a construção de memória, acreditamos muito nesse diferencial dessa experiência aqui no nosso endereço. Viemos de uma influência, bebendo nessa dimensão do que foi o modernismo brasileiro, nosso nome vem de Macunaíma, que é uma personagem do Mário de Andrade. Criamos, de certa forma, um conceito que tem essa questão de criação ficcional também, então, o quanto nos aproximamos dessa dimensão imaginária, o que faz com que nosso público queira consumir essa experiência, vivência,” ressalta Nambuco sobre o comportamento dos clientes.

Ele afirma que a pandemia foi determinante para se perceber a concorrência das vendas on-line, mas reforça que o isolamento fez com que as pessoas necessitassem de encontros presenciais e que isso se refletiu também no mercado literário. “Existe um comportamento das pessoas nesses momentos pós-pandemia, quando elas precisam e querem vivenciar essa experiência presencial. Então, acho que temos o presencial como um elemento que qualifica a relação de compra e venda de livros. Nesse sentido, reconhecemos e identificamos que o mercado de venda de livros on-line representa uma fatia extremamente considerável desse mercado, porém estamos num outro nicho que é justamente as livrarias de rua e agora já atendemos uma comunidade que vai além do nosso bairro”, conclui Pedro.

Como pode-se perceber, é difícil estipular um perfil dos leitores brasileiros, mas já é possível tirar algumas conclusões como o fato de que, mesmo em constante crescimento, o mercado digital não dificilmente levará ao fechamento de livrarias nem haverá uma migração em massa de leitores do físico para o e-book, já que as duas modalidades se completam. Também é possível perceber que até as editoras mais tradicionais estão buscando se adaptar ao novo mercado literário e aos jovens leitores, mas sem deixar de fidelizar e agradar os consumidores antigos.

*Bárbara Neves é estagiária de jornalismo. Matéria elaborada com supervisão de Valéria Ochôa.

Finte:  https://www.extraclasse.org.br/cultura/2024/06/mercado-digital-cresce-e-muda-comportamento-de-editoras-livreiros-e-leitores/?utm_source=news+27%2F06&utm_medium=news+27%2F06&utm_campaign=news+27%2F06&utm_id=news+27%2F06&utm_term=mercado+liter%C3%A1rio&utm_content=mercado+liter%C3%A1rio