domingo, 28 de julho de 2024

O Papa Pio XII queria que o predador sexual clerical mais depravado da Igreja Católica fosse “tratado”

| 27 Jul 2024

Pio XII 
Pio XII: a última história sobre o seu pontificado relaciona-se com Marcial Maciel, 
fundador dos Legionários de Cristo. Foto: Direitos reservados

Documentos do Arquivo do Vaticano agora revelados em Itália mostram que o fundador dos Legionários de Cristo, Marcial Maciel Degollado, esteve para ser suspenso durante o pontificado de Pio XII, por ter abusado de dezenas de pessoas. Acabou apenas com ligeiras admoestações para se tratar.

“Aproxima-se rapidamente o tempo em que tudo o que está encoberto será revelado, e tudo o que é secreto será dado a conhecer a todos”, avisou Jesus. As suas palavras poderiam muito bem aplicar-se aos actos obscuros do icónico clero católico que estão enterrados nas entranhas de 85 quilómetros dos Arquivos Secretos do Vaticano.

Em março de 2020, quando o Papa Francisco ordenou a abertura dos arquivos de Pio XII (1939-1958), quase de certeza que sabia que os historiadores iriam destruir a já contestada reputação do seu antecessor como um pontífice que aquiesceu a Hitler e Mussolini durante os regimes nazi e fascista.

Os historiadores não iriam preocupar-se com a forma como Pio XII e os seus cardeais da Cúria lidaram com notórios criminosos sexuais clericais – a não ser que estivessem entre os muitos cardeais, bispos e padres que colaboraram abertamente com os nazis e os fascistas.

Mas continuam a aparecer novos pormenores nas cerca de 16 milhões de páginas, e o último a captar a atenção dos meios de comunicação social é a abordagem ambivalente de Pio XII ao padre Marcial Maciel Degollado, nascido no México – o fundador dos Legionários de Cristo ultra-conservadores e do movimento Regnum Christi.

Os mega-crimes de Maciel

Marcial Maciel: o maior angariador de fundos da moderna Igreja Católica era também um toxicodependente e pedófilo. Foto © Dominik Hoffmann | Wikimedia Commons

Marcial Maciel: o maior angariador de fundos da moderna Igreja Católica era também um toxicodependente e pedófilo. Foto © Dominik Hoffmann | Wikimedia Commons

Aclamado como “o maior angariador de fundos da moderna Igreja Católica Romana”, Maciel era um toxicodependente e pedófilo em série que abusou sexualmente de pelo menos 20 seminaristas e mais de 60 menores, entre os anos quarenta e setenta. Foi pai de três filhos com pelo menos duas mulheres e chegou a violar os seus próprios filhos.

Os crimes de Maciel foram replicados pelos Legionários. Uma investigação de 2019 identificou 33 padres e 71 seminaristas da ordem que abusaram sexualmente de menores nas últimas oito décadas. Um terço dos predadores clericais foram eles próprios vítimas de Maciel.

Maciel obrigou os seus legionários a fazerem votos privados, a nunca falarem mal dele e a denunciarem quem o fizesse. A ordem, semelhante a um culto, vilipendiava os ex-Legionários que sofriam abusos quando estes tornavam públicas as suas acusações. Só em 2009, os seus dirigentes inverteram radicalmente o rumo, reconhecendo que Maciel tinha gerado vários filhos.

Quatro papas, que sabiam dos seus graves delitos, fizeram vista grossa durante mais de 50 anos. Em 2006, o Papa Bento XVI deu a Maciel, de 85 anos, uma pena equivalente a uma palmada no pulso, restringindo-o a uma “vida de oração e arrependimento”. O predador em série morreu em 2008.

 

Uma bomba dos arquivos

 

No último domingo, 21 de Julho, o suplemento cultural do jornal italiano Corriere della Sera, La Lettura, provocou uma tempestade mediática depois de ter noticiado que Pio XII, o último pontífice “tradicionalista”, sabia da má conduta de Maciel. O jornal desenterrou dos arquivos um memorando de 1 de outubro de 1956 do arcebispo Giovanni Battista Scapinelli, o nº 3 da Congregação para os Religiosos do Vaticano, ordenando a desintoxicação de Maciel.

No rascunho original escrito por Scapinelli pode ler-se: “Vou ordenar-lhe que se trate, que abandone qualquer contacto com os seus alunos até que a congregação diga o contrário. E se ele não aparecer, dentro de dois dias, deve ser dada uma ordem preventiva a Maciel: ou vais tratar-te ou ficarás suspenso a divinis” (uma censura que priva um clérigo total ou parcialmente do seu cargo).

O segundo parágrafo do projeto, guardado numa pasta com a menção “Ordens religiosas masculinas”, afirma: “Por razões conhecidas pelo Santo Padre, foi suspenso do cargo de Superior.” Note-se que Pio XII não suspendeu Maciel do sacerdócio, mas do seu cargo de superior dos Legionários.

Um rascunho subsequente do memorando foi publicado em 2012 pelas vítimas mexicanas de Maciel no sítio espanhol intitulado La Voluntad De No Saber (“A vontade de não saber”). O rascunho mostra que Scapinelli riscou a sua ordem original que impedia Maciel de ter contacto com os seus seminaristas e apenas ordenou que Maciel recebesse tratamento para a sua dependência.

O rascunho contém uma página e meia extra de notas manuscritas de Scapinelli que relatam um encontro entre Maciel e o cardeal Giuseppe Pizzardo, que teve lugar a 2 de outubro.

Proibições suprimidas 

O cardeal Giuseppe Pizzardo, conhecido como “Rasputin”, tinha muita influência sobre Pio XII. Foto © Thomon | Wikimedia Commons

O cardeal Giuseppe Pizzardo, conhecido como “Rasputin”, tinha muita influência sobre Pio XII. Foto © Thomon | Wikimedia Commons

Para além dos dois rascunhos acima referidos, os arquivos da Secretaria de Estado do Vaticano contêm uma versão final do memorando, datada de 2 de outubro de 1956, que omite qualquer proibição de contacto com seminaristas ou ameaça de suspensão, e apenas exige que Maciel procure tratamento médico.

As restrições impostas a Maciel desaparecem após o encontro com Pizzardo, um prelado ultra-tradicionalista que era secretário do Santo Ofício (da Inquisição) na altura e amplamente conhecido no Vaticano pela alcunha de “Rasputin”.

Maciel respondeu à ordem do Vaticano em 3 de outubro de 1956, descrevendo a sua saúde como “satisfatória” e anexando um atestado médico. No entanto, concordou em obedecer “humildemente” e procurar tratamento. O predador concluiu, apresentando-se como vítima de uma “acusação caluniosa” e fornecendo uma lista de propriedades compradas pelos seus Legionários de Cristo, gabando-se do seu sucesso na angariação de fundos.

Massimo Franco, que divulgou a história no La Lettura, aponta Pizzardo como o “grande protetor” de Maciel. Os historiadores descrevem a enorme influência de Pizzardo sobre Pio XII. Pizzardo estava presente quando Pio XII (então cardeal secretário de Estado Eugenio Pacelli) assinou o acordo do Reich com Hitler em 1933.

 

“Psicose elefantina pelo poder”

Pio XI: Pizzardo era um dos seus favoritos, mas impopular entre muitos no Vaticano. Foto © DR

 

O prof. David Kertzer, no seu livro The Pope and Mussolini: The Secret History of Pius XI and the Rise of Fascism in Europe, que recebeu o Prémio Pulitzer, observa que Pizzardo era “um favorito de Pio XI, mas impopular entre muitos no Vaticano, que associavam a sua influência ao seu acesso ao dinheiro dos católicos americanos”.

Os seus próprios amigos lamentavam a sua “psicose mórbida e elefantina pelo poder e pelos cargos burocráticos”, escreve Kertzer, notando que “Pizzardo se tornou o principal canal do Papa para estes fundos americanos”. Pizzardo era tão influente que o cardeal Bonaventura Cerretti, prefeito do Supremo Tribunal da Signatura Apostólica, chamou a Pio XII um “escravo nas mãos de Pizzardo, que o movia como uma marioneta”.

Muitos católicos tradicionalistas, que consideram Pio XII como o último papa que defendeu a “verdadeira fé” antes de, na sua opinião, esta ter sido diluída pelos papas do Vaticano II, não só deixam passar a sua capitulação perante as ideologias religio-políticas pagãs do fascismo e do nazismo (como escrevo aqui), como também ignoram o seu historial em matéria de abusos sexuais por parte de clérigos (muitos dos quais estão agora a vir à luz nos arquivos).

 

O registo de Pio XII sobre os abusos sexuais do clero

 

Terão os nazis chantageado Pio XII com casos de abusos sexuais que terão sido conhecidos? Foto © U.S. National Archives and Records Administration
Terão os nazis chantageado Pio XII com casos de abusos sexuais que terão sido conhecidos? 
Foto © U.S. National Archives and Records Administration

 

Quando Pacelli era secretário de Estado, ocupou-se de uma questão espinhosa que estava a surgir na relação entre a Alemanha nazi e o Vaticano. Centenas de padres na Alemanha e na Áustria tinham sido acusados de abusos sexuais, incluindo o abuso de menores.

Uma pasta dos arquivos recentemente abertos tem a seguinte etiqueta: “Viena: Ordem para queimar todo o material de arquivo relativo a casos de imoralidade de monges e padres.” Estaria o Reich a usar estes casos para chantagear o Vaticano? Nunca saberemos, porque o Vaticano continua a recusar-se a permitir que os estudiosos examinem os seus ficheiros sobre os abusos sexuais clericais desse período (ou de outros períodos).

Na mesma pasta, outra nota ordena às cúrias episcopais e aos arquivos das congregações e ordens na Áustria que “todo o material relativo a casos de imoralidade de padres seja imediatamente e sem exceção queimado e também os números dos protocolos cancelados. (…) O assunto é extremamente delicado, mas muito urgente”.

Depois de se tornar Papa, no primeiro dos seus encontros secretos, em maio de 1939, com o príncipe Philipp von Hessen – que era a peça-chave nas negociações regulares entre Hitler e Pio XII – a dupla discutiu a crise dos abusos sexuais clericais. “Ninguém sabe que estamos a ter esta conversa. Nem mesmo os meus colaboradores mais próximos sabem”, garantiu o Papa ao príncipe.

 

Culto dos predadores sacerdotais

O antigo cardeal Theodore McCarrick, entretanto destituído: a grande maioria dos mais notórios predadores clericais são defensores de muitas práticas pré-Vaticano II. Foto © DR

 

Ironicamente, aqueles que apregoam a missa em latim como a bala de prata que salvará a Igreja Católica, e difamam o Vaticano II como o cavalo de Troia que trouxe os males do modernismo, do pluralismo religioso e da imoralidade sexual no seio do sacerdócio, não conseguem ver que a grande maioria dos mais notórios predadores clericais da Igreja foram todos ordenados antes do Vaticano II e celebraram piedosamente a missa em latim.

A lista é interminável, a começar pelo ex-cardeal Theodore McCarrick. Um relatório arrepiante publicado em junho de 2023 revela como 72 padres e seis freiras da Comunidade de São João usaram uma teologia desonesta para abusar sexualmente de 30 freiras, 69 leigas, 29 menores, 17 irmãos e 10 rapazes com menos de 15 anos.

O relatório admite o “papel central” desempenhado pelo fundador da ordem, o padre Marie-Dominique Philippe, nos abusos “sistémicos” e refere que o padre violou 20 mulheres, incluindo várias freiras. [ver 7MARGENS] O fundador da comunidade, venerado por muitos dos seus discípulos como um “santo”, tal como Maciel, sancionou uma “terceira via” de relações de “amizade amorosa” que envolvia uma dimensão sexual entre religiosos e religiosas “a par do casamento ou do celibato consagrado”.

Formou-se uma “teia de aranha” de relações entre padres predadores que envolveu o Padre Marie-Dominique Philippe e o seu irmão Padre Thomas Philippe, que também abusou em série de freiras e mulheres leigas.

“Por isso, tudo o que dissestes nas trevas será ouvido à luz, e o que segredastes em quartos privados será proclamado nos telhados”, profetizou Jesus. Sim, mesmo nas primeiras páginas dos jornais seculares e nas redes sociais, Nosso Senhor poderia muito bem ter avisado.

*Jules Gomes é doutor em estudos bíblicos pela Universidade de Cambridge. Atualmente, é jornalista acreditado pelo Vaticano, baseado em Roma, e autor de cinco livros e vários artigos académicos. Lecionou em seminários e universidades católicas e protestantes e foi teólogo canónico e diretor artístico da Catedral de Liverpool (Inglaterra). Este texto, cedido pelo autor, foi publicado com a autorização do The Streamonde o artigo original em inglês pode ser lido.

Fonte: https://setemargens.com/o-papa-pio-xii-queria-que-o-predador-sexual-clerical-mais-depravado-da-igreja-catolica-fosse-tratado/?utm_term=FEEDBLOCK%3Ahttps%3A%2F%2Fsetemargens.com%2Fefeed%3Degoi_rssfeed_xKnmS3HTbxoNOuINFEEDITEMS%3Acount%3D1FEEDITEM%3ATITLEENDFEEDITEMSENDFEEDBLOCK&utm_campaign=Sete%2BMargens&utm_source=e-goi&utm_medium=email 

Linguagem Corporal na negociação

 Alexandre Monteiro*

O corpo fala: dez dicas de linguagem corporal para vendedores - Jornal O  Globo

Os melhores negociadores tem a habilidade de emitir e interpretar as mensagens não verbais certas, nos momentos certos, e evitar erros que "matam" a negociação. Isto tem um peso enorme.

Numa altura em que o mundo está cada vez mais competitivo, com produtos e serviços semelhantes, as características destes mesmos produtos ou serviços deixam de ter uma maior relevância na escolha. Os melhores negociadores tem a habilidade de emitir e interpretar as mensagens não verbais certas, nos momentos certos, e evitar erros que «matam» a negociação. Isto tem um peso enorme.

Sinais a evitar que «matam» a negociação:

  • Contacto ocular fraco
  • Aperto de mão inadequado
  • Postura desleixada
  • Aparência descuidada
  • Incongruências entre o verbal e o não-verbal
  • Tocar na cara em demasia
  • Mão não visíveis (mão nos bolsos, atrás das costas ou debaixo da mesa)
  • Invadir o espaço pessoal da pessoa (aproximar-se demasiado ou colocar objetos na mesa da pessoa sem autorização)
  • Posturas cruzadas (cruzar braços e/ou pernas)
  • Gestos exagerados com as mãos (gesticular muito com as mãos ou mexer muito com os braços)
  • Gestos repetitivos (tamborilar com dedos, mexer em anéis, clicar constante com a caneta, abanar o corpo)
  • Não sorrir

A primeira fase é fazer com que a pessoa confie e goste de si e ser percebido como «amig@», caso contrário, por muito bom que o produto ou serviço seja, a pessoa vai desconfiar ou não vai dar importância, criando muitas barreiras à comunicação. 

Para evitar estas barreiras invisíveis, deve, em primeiro lugar, vestir-se como as pessoas esperam que se vista, de acordo com o segmento de mercado que representa. Vestir bem não é só usar fato e gravata ou um vestido formal, vestir bem é adequar a sua forma de vestir ao que os profissionais do mercado já fazem. Imagine que comercializa produtos para pessoas de produtos financeiros, faz todo o sentido vestir-se de forma formal, e aqui as cores que veste devem ser adaptadas ao tipo de produto, deverá usar o apontamento de cor vermelha para transmitir energia, poder e domínio e /ou a cor azul-escura se quer transmitir credibilidade e confiança. Se a indumentária não cumprir as regras, poderá ser entendido como uma falta de respeito, falta de credibilidade ou de incompetência, o que não é justo, mas na realidade acontece apesar de o tentarmos negar. 

Numa fase inicial é fundamental o uso da regra SOMA (*) com todas as pessoas que interage, e aguarde sempre pela reunião de pé, dar-lhe-á uma imagem de confiança e profissionalismo.

Existem sinais que estão mesmo à nossa frente e em que nem reparamos, no entanto dão-nos pistas muito valiosas. No caso específico da negociação, toda a informação é útil para antecipar, criar e adaptar a melhor estratégia.

A negociação pode decorrer no seu espaço ou no espaço da pessoa, e este fator é importante no sentido de como deve posicionar-se e de como deve demonstrar "domínio" subliminarmente desde o início da reunião. No seu espaço, «Não seja convidado em sua casa», a pessoa tem de ser o primeiro a entrar e o primeiro a sair da sala de reuniões. Para obter mais poder e controlo sobre a negociação, deve sentá-lo de costas para a porta de entrada e sentar-se de frente para a porta.

No espaço da pessoa, terá de observar o ambiente, para obter mais informação sobre a pessoa e sobre o que ele valoriza: o estado emocional dos colaboradores, o estado das paredes, o tipo e o estado das plantas, a limpeza das instalações, a inexistência de lâmpadas fundidas, se exibe certificados, o tipo de quadros, o tema dos posters, revistas ou autocolantes, as fotografias dos calendários, as fotografias da família.

Todos estes elementos dar-lhe-ão informação sobre a maneira de trabalhar da pessoa. Pelo estado emocional dos colaboradores verificará se se trata de uma organização mais ou menos conservadora ou autoritária; quanto mais cuidadas as instalações, mais valorizam os detalhes e a apresentação; se são zelosos e organizados, se exibem certificados e prémios, têm necessidade de demonstrar competência e valorização pessoal; o tema dos quadros, posters e calendários revela tipo de hobbies ou interesses; colocar fotografias da família na secretária valoriza o ambiente familiar. Analisar o ambiente dar-lhe-á pistas sobre como deve adaptar a comunicação e qual a melhor estratégia de exposição do produto ou serviço, saberá o que é importante para a pessoa e o que ele valoriza.

Numa negociação, ambas partes têm receios. Uma tem receio de não fechar o negócio, a outra tem receio de fazer um mau negócio. A linguagem corporal vai ajudar o negociador a ler, interpretar e influenciar a pessoa para fechar melhores negócios, e também pode ajudar a pessoa a conseguir melhores condições e evitar ser enganado.

Na negociação propriamente dita, para transmitir credibilidade e competência tenha em conta alguns fatores importantes que fazem com que a pessoa fique mais recetivo às suas propostas. Logo no início, sorria, cumprimente a pessoa, contornando quaisquer obstáculos, como a mesa ou a secretária, com um aperto de mão. Seja o primeiro a iniciá-lo, colocando a mão na vertical, exercendo a mesma força que a pessoa, referindo o nome da pessoa e, nesse momento específico, olhe-o olhos nos olhos, deixando a pessoa terminar o aperto de mão. No início, não use o aperto de mão em que cobre a mão da pessoa com a sua mão, poderá ser percebido como manipulador, em vez disso toque-lhe ligeiramente no antebraço. Ao negociar tem de ter em conta que as pessoas tem mais tendência a encarar as interações frente a frente como um desafio, tornando tudo mais difícil. Para anular o desafio, pode e deve usar esta técnica para minimizar esta «luta»: posicione-se ligeiramente ao lado, num ângulo de 150 em relação aa pessoa; este ligeiro movimento vai fazer com que a interação não seja percebido como um desafio, mas sim como colaboração.. Por fim, criar uma sintonia inconsciente, espelhar a pessoa, é uma das ferramentas mais poderosas para estabelecer uma ligação. O «espelhamento» irá fazer com que a pessoa sinta uma empatia e uma ligação consigo, sem ter a consciência de como isso aconteceu. Normalmente, quando se fala em espelhar, diz-se para «imitar» com um ligeiro atraso os gestos, posturas, palavras-chave, usar o mesmo calão, tom de voz e velocidade da fala. Esta «imitação» cria uma ligação inconsciente, só que nos tempos de hoje muitas pessoas já conhecem esta técnica do «espelhamento», o que pode pôr em causa o negócio. Por isso, partilho consigo uma técnica que cria o mesmo efeito, só que é mais simples, mais rápido e mais subtil.

Quando a pessoa terminar uma frase ou fizer uma pergunta, acene pelo menos três vezes o sinal «sim» com a cabeça, mas só fim das frases, porque se acenar constantemente é um sinal de submissão ou de desinteresse. Acenar no fim das frases funciona como um movimento hipnótico para gerar concordância e ligação. Irá reparar que a pessoa vai começar a acenar também. Quando ele o fizer, a ligação inconsciente estará feita. Acenar «sim» com a cabeça pode ser usado a seu favor para influenciar a pessoa a dizer que «sim» ao que lhe está a ser proposto, para isso terá de o fazer no fim da sua frase.

Após criar uma ligação, o negociador tem de ler e interpretar os sinais não verbais da pessoa tal como ouve as indicações de um GPS, e conduzir a negociação de acordo as instruções não verbais da pessoa. Ter como referência os sinais não verbais de interesse, desinteresse, conforto, desconforto, pedidos não verbais de mais informação, tendência de avaliação, torna mais fácil conduzir a negociação de acordo com os objetivos pretendidos, fazendo com que deixe de encarar o processo da negociação como um acaso ou aleatório.

 Sinais de interesse e desinteresse

Os sinais surgem em resposta a um sentimento ou intenção, tem de ter em atenção o que disse ou fez e o contexto antes de o sinal surgir, para adaptar logo a estratégia da negociação.

Interesse ou desinteresse

Interesse

Desinteresse

Acena «sim» com cabeça

Acena «não» com cabeça

Inclina-se para a frente

Inclina-se para a trás

Toma notas

Toca nos olhos ou ouvidos

Inclina ligeiramente a cabeça para o lado

Tira os óculos rapidamente

 

Conforto ou desconforto

Conforto

Desconforto

Sorri

Tem os lábios pressionados

Faz contacto ocular suave

Faz gestos repetitivos

 

Pedido de mais informação

Franze o sobrolho

Coça a cabeça

Puxa o lóbulo da orelha

 

Tendência de avaliação

Positiva

Negativa

Tem a mão no queixo com o polegar na bochecha

Tem a mão no queixo com o polegar por debaixo do queixo

Tem a mão no queixo e olha para cima

Fecha os olhos durante mais tempo do que o normal

Rói as hastes dos óculos

Fecha o caderno

Nenhum dos sinais confirma a 100% uma intenção ou avaliação, o objetivo é considerar estes sinais como indicadores que o ajudarão a ter consciência da mensagem mais verdadeira da pessoa.

Não julgue, desconfie e questione mais!

 *É profiler, palestrante internacional, autor dos bestsellers Os Segredos Que o Nosso Corpo Revela e Torne-se Um Decifrador de Pessoas, mentor de empresas do TOP20, celebridades, negociadores de alta performance, líderes e políticos.

Fonte:  https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/alexandre-monteiro/detalhe/linguagem-corporal-na-negociacao 

Fonte: https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/alexandre-monteiro/detalhe/linguagem-corporal-na-negociacao


La incertidumbre electoral en Venezuela

 Dhayana Fernández Matos*


Aunque las cifras muestran una clara ventaja del candidato de la oposición, esto no es suficiente para asegurar que será el eventual ganador y que, de mantenerse esta tendencia, sea proclamado por el órgano electoral.

Según una encuesta realizada en julio por la Universidad Católica Andrés Bello y la encuestadora Delphos, la intención del voto a favor del candidato de la Plataforma Unitaria Democrática (PUC), Edmundo González Urrutia es de 59,3% y para el candidato del Partido Socialista Unido de Venezuela (PSUV), presidente en funciones, Nicolás Maduro Mora, es de 34,8%. Esto implica una clara diferencia de más de veinte puntos porcentuales a favor de la PUC.

Aunque las cifras muestran una clara ventaja del candidato de la oposición, esto no es suficiente para asegurar que será el eventual ganador y que, de mantenerse esta tendencia, sea proclamado su triunfo por el órgano electoral, el Consejo Nacional Electoral (CNE).

Se sabe que una encuesta es la fotografía de un momento, pero no es lo único que se debe tener en cuenta para que se dé un cambio político, menos en un contexto tan complejo como el existente en el sistema político venezolano donde hay otros aspectos que se deben considerar.

Las vías y los caminos

Un hecho notorio en Venezuela es que no se está en presencia de un régimen democrático que respeta las reglas electorales, la separación de poderes y la institucionalidad. Se está ante un gobierno autoritario que tiene cooptadas todas las instituciones del Estado. Aunque se mantengan las distintas ramas del Poder Público, en la práctica, se siguen las indicaciones que llegan desde Miraflores.

Además, las jerarquías más altas de las Fuerzas Armadas, principalmente por interés personal y patrimonial, son afectas a Nicolás Maduro. Ante un escenario en el cual Edmundo González Urrutia obtuviera la mayor cantidad de votos y el gobierno de Maduro reconociera su triunfo, el gran reto sería asegurar la gobernabilidad ante una institucionalidad militar y unos poderes públicos claramente chavistas, incluida la Asamblea Nacional compuesta mayoritariamente por partidarios del gobierno. Al mismo tiempo, las actuaciones de las cúpulas militares y su respeto a la constitución y al Estado de Derecho serán de particular importancia.

También se debe tener en cuenta que, la asunción del nuevo presidente (en caso de que haya un cambio), sería en enero de 2025, lo que implicaría seis largos meses donde la situación interna puede ser particularmente compleja. Y, ante tanta incertidumbre, parece existir certeza de que luego de las elecciones presidenciales, habrá una transformación en Venezuela y, aunque no se sepa el rumbo, estará marcada por situaciones que podrían poner en jaque la gobernabilidad del país.

Otro factor es que a los líderes del régimen les puede resultar muy caro dejar el poder y sólo lo harían si no les quedara otra vía, lo que implicaría el establecimiento de canales para la negociación, con la desconfianza que se tiene en este mecanismo por los resultados que se han obtenido en las distintas instancias de diálogo que se han establecido entre la oposición, o parte de ella, y el gobierno de Maduro.

Si no hay negociación, en este escenario se ve muy difícil que Maduro deje el poder. Aquí el gran reto de la PUC es que esa alianza, que aglutina grupos tan diversos, logre acuerdos sobre este tema.

Pese a esto, se debe indicar que, como nunca antes en 25 años, hay mucha esperanza en la población –incluidas personas que han sido fieles seguidoras de Hugo Chávez, pero que se desmarcan de Nicolás Maduro–, de que el cambio es posible.

Camino a la “orteguización” del régimen

Las violaciones de los derechos humanos en general, y en particular los derechos civiles, políticos y las libertades son una práctica sistemática en el gobierno de Maduro.

Según el Foro Penal, organización no gubernamental de defensa de los derechos humanos, en el país hay un total de 301 personas consideradas presas políticas y sólo en 2024 se han realizado 114 detenciones arbitrarias, de las cuales 102 se vinculan con el equipo o con las giras de María Corina Machado y el candidato Edmundo González Urrutia.

El régimen de Maduro ha establecido, sin éxito, distintas estrategias para impedir que Machado y González Urrutia recorran el territorio venezolano: cierre de carreteras, obstáculos en el camino, sanciones tributarias a quienes les prestan algún tipo de colaboración o servicio durante el recorrido. Se han cerrado hoteles, restaurantes y otros establecimientos por alojarlos o por darles de comer. Pese a esto, hay personas que están dispuestas a correr el riesgo, otra muestra más del malestar generalizado.

A ello se suma la estrategia comunicacional del gobierno que busca infundir temor en la población señalando que, de no ganar Maduro, en el país “correrá un baño de sangre”, que sólo ellos pueden asegurar la estabilidad.

Este camino de amenazas, detenciones arbitrarias y violaciones de derechos guarda similitudes con lo realizado por Daniel Ortega, aunque Nicolás Maduro no es líder nicaragüense, ni el PSUV el Frente Sandinista de Liberación Nacional.

Como en el país centroamericano el régimen tiene control absoluto del órgano electoral; hay poca transparencia en el proceso electoral, lo que se demostró en la forma como se dio la inscripción de Edmundo González Urrutia. La instalación de las mesas y la certificación de los testigos electorales también será un tema al cual habrá que prestarle mucha atención el día de las elecciones para evaluar si hay ventajismo electoral de parte de quienes detentan el poder.

Cabe preguntarse si el fin último del régimen es instrumentalizar las elecciones con la intención última de mantener el poder, neutralizar toda oposición, dar un autogolpe, cometer fraude electoral siguiendo la ruta de sus amigos Daniel Ortega o Vladimir Putin.

El liderazgo de María Corina Machado

Formó parte con Leopoldo López y Antonio Ledezma, del ala más radical de la oposición. Fue partidaria de la abstención, del bloqueo económico de los Estados Unidos y su postura frente a la Mesa de la Unidad Democrática (anterior plataforma que unía a la oposición) era muy crítica. Las elecciones primarias de 2023 le dieron un nuevo aire, al resultar ganadora con más del 92% de los votos. Eso la catapultó como la líder indiscutible de la oposición venezolana.

Cabe destacar que su caso es sui generis en América Latina. Machado no contó con el apoyo de un liderazgo masculino que la impulsara, el suyo fue construido por sus propios medios y dándose algo inédito: es ella, una mujer, la que apoyó la candidatura de un hombre, de Edmundo González Urrutia, a quien trasladó su capital político. Su triunfo y el respaldo de la población han estado muy marcados por la desconfianza y deslegitimación sufrida por algunos líderes políticos de la oposición, entre ellos, el denominado presidente interino Juan Guaidó.

Durante esta campaña electoral, en la que ha recorrido el país, la llegada de Machado a poblaciones alejadas de los centros de poder ha aglutinado a las personas alrededor de su figura. En su discurso apela a la emotividad y a los sentimientos de las personas, quienes se sienten identificadas con sus palabras.

Los resultados electorales incidirán significativamente en su destino político. Un triunfo del candidato de la PUC podría fortalecer su liderazgo, pero una derrota electoral, independientemente de las razones por las que se produzca, podría suponer un costo político muy alto y ser aprovechado por quienes dentro de la unidad la adversan para responsabilizarla por no haber obtenido lo que se esperaba.

Edmundo González Urrutia, el candidato conciliador

En comparación con el discurso de María Corina Machado y otros líderes de la oposición, el de Edmundo González Urrutia es más comedido y abierto a una posible negociación para lograr la transición. En distintos momentos ha reiterado que “en Venezuela caben todos”, incluidos los afectos al chavismo.

Hay un sector radical que se opone tajantemente a negociar con el régimen, sin embargo, la transición política que tanto requiere Venezuela será imposible sin diálogo, sin consenso, sin darle cabida a los distintos actores políticos, incluidos los sectores chavistas. Esto no implica negar la necesidad del establecimiento de una Comisión de la Verdad, de esclarecimiento de los hechos y de la reparación a las víctimas por las violaciones de derechos humanos ocurridas durante los 11 años del gobierno de Nicolás Maduro.

Las palabras de González Urrutia resultan muy prudentes para momentos tan críticos como los que vive Venezuela.

Brasil y Colombia, la posición de los vecinos

Gustavo Petro y Luiz Inácio Lula da Silva, líderes de la izquierda latinoamericana, se han ido desmarcando del gobierno de Maduro, luego del proceso de inscripción de candidaturas presidenciales, donde fue clara la violación de los derechos políticos por parte del régimen venezolano y ante la presión de la opinión pública de sus respectivos países. Desde abril han intentado, sin éxito, que se firme un acuerdo en el que las partes se comprometan a acatar los resultados electorales.

Por su cercanía geográfica con Venezuela, es indudable que los resultados electorales tendrán repercusiones en sus países, siendo uno de los problemas más preocupantes (no el único) un nuevo éxodo migratorio.

Actualmente hay casi 8 millones de migrantes de nacionalidad venezolana que huyeron de su país debido a la crisis humanitaria y los resultados electorales pueden ampliar esta cifra. Los datos muestran que cada vez que hay una elección que favorece al régimen, aumenta significativamente la cantidad de personas que salen de Venezuela. De ocurrir nuevamente, Colombia y Brasil serían algunos de los destinos preferidos con los retos que eso implica.

Ante este panorama, en Venezuela se mantiene la expectativa, mezclada con temor, pero a su vez con esperanza de que es posible que se dé un cambio político. Aunque quede tan poco tiempo, no hay claridad al respecto, es por lo que se le pide a la comunidad internacional no que intervenga, sino que esté muy atenta a la manera como se desarrollan los acontecimientos y, además, que esté dispuesta a rechazar contundentemente las violaciones de derechos humanos que se puedan presentar en estos próximos días.

Doctora en Ciencias Políticas. Profesora investigadora de la Universidad Central de Venezuela y de la Universidad Simón Bolívar (Colombia). Integrante de la Red HILA y de la Red de Politólogas #NoSinMujeres.
Fonte:  https://latinoamerica21.com/es/la-incertidumbre-electoral-en-venezuela/

O novo é a desesperança

 

Na maior parte da América Latina, é o momento do “salve-se quem puder”, um processo alimentado pela desesperança resultante da constatação da magnitude dos problemas para os quais ninguém consegue apresentar soluções viáveis.

A promessa de mudança do século XX ficou para trás

1959 foi um ano que iniciou marcado pela revolução cubana. Washington sentiu o golpe e, em 1961, John Kennedy lançou a Aliança para o Progresso como alternativa destinada a competir com o comunismo tropical que proclamava a luta armada como a “parteira da história”, como Don Carlos havia proclamado. Em ambas as vias o objetivo era a mudança social, e sua necessidade era inquestionável. A aceitação da necessidade de transformação social presidiu os anos que se seguiram.

O século XXI deu origem a outro panorama na América Latina. É um panorama em que a mudança em nossas sociedades não só saiu da agenda, mas nem sequer é questão de atenção e debate. O progresso de todos foi substituído pelo progresso de cada um, revestido de um “empreendedorismo” que é proposto como caminho de realização pessoal a qualquer custo – grosseiramente, ou seja, tomando quem for necessário e sem escrúpulos – ou abertamente proposto como sair do país, rumo ao norte, para encontrar entornos mais propícios às aspirações de cada um, que não são mais percebidas como as dos outros.

É assim que estamos. A substituição de objetivos comuns por objetivos individuais ou familiares foi motivada por vários fatores. O primeiro é o fracasso das tentativas de transformação social iniciadas décadas atrás. As guerrilhas foram esmagadas de forma sangrenta e não deixaram herdeiros, nem mesmo rastros ou lembranças. Quem chegou ao governo com programas reformistas logo os abandonaram. As várias formas de “promoção popular”, geralmente financiadas por fontes de cooperação internacional, limitaram-se a apoiar alguns grupos sociais por períodos que terminaram quando o dinheiro acabou; na melhor das hipóteses, as realizações desses esforços foram similares às dos assistencialismos oferecidos por senhoras ricas e piedosas. E não deixaram sua marca.

O segundo fator foi a pregação neoliberal – que deveríamos chamar de neoconservadora –, que incutiu uma espécie de novo evangelho: seu futuro depende só de você; não espere para progredir com os demais, trabalhe por conta própria e o resto virá.

O estreitamento ou o fechamento dos canais de ascensão social para as maiorias e a capacidade de atração da proposta de “salvação individual” redefiniram o panorama. O pessimismo sobre o futuro do país empurrou qualquer otimismo para o canto do que todos podem alcançar. As pesquisas mostram essas tendências. E os intercâmbios pessoais ilustram o que agora é “o novo” na região.

A estrutura do narcotráfico

Convenhamos que há mais elementos que eram novos há algumas décadas e que agora estão normalizados. Provavelmente o mais importante é o narcotráfico, que nos surpreendeu quando suas primeiras notícias eram centradas na Colômbia. Mas depois, nem sempre atraindo muita atenção, o fenômeno se espalhou para países produtores de matérias-primas, como Peru e Bolívia, e depois para países de trânsito – toda a América Central e o México, mas também o Brasil, a Argentina e o Chile – para degradar suas sociedades e corroer seus Estados por meio da corrupção.

Em uma fase anterior, o narcotráfico pagava pelos serviços necessários com dólares dos mercados nos quais colocavam as drogas: primeiro os Estados Unidos e depois a Europa. Mas a ação judicial internacional complicou a transferência de dólares, levando à etapa atual, no qual os serviços locais são pagos com drogas. Para tornar os pagamentos efetivos, quem trabalha com as grandes redes de tráfico internacional ativou um mercado interno de consumo de drogas que afeta principalmente os jovens. Como sabemos, as drogas são distribuídas nas portas das escolas para criar consumidores. A questão da dependência tornou-se um problema de saúde pública.

Para “os empreendedores”, o narcotráfico criou uma ampla gama de ocupações que oferecem êxito imediato. Os degraus mais baixos da escada são as “mulas” – também chamadas de burriers – que os traficantes sacrificam quando necessário, denunciando-as aos “oficiais de plantão” que, em troca, deixam passar carregamentos reais. Os infelizes tornam-se alimento para as prisões, e o sistema judiciário lhes aplica “sentenças exemplares”. Enquanto isso, nos escalões superiores, fazem-se carreiras e seus ocupantes exibem níveis escandalosos de consumo. Que, na realidade, não escandalizam, mas provocam inveja, mesmo que alguns de seus personagens terminem a festa em um “acerto de contas”.

Enquanto esses processos se desenvolvem e se estendem a ponto de criar “zonas liberadas” – não pela luta armada, mas pela atuação impune de crimes –, a desigualdade deixou de figurar na agenda dos partidos políticos, os aumentos de impostos – ao menos no nível pago nos países do Norte – são considerados “expropriatórios” pelos neoconservadores, e o aparato estatal está cada vez mais fraco e corrupto; reduzido ao mínimo, negligencia a educação pública e a assistência médica.

Onde está a saída?

Há muitos anos, em meio a uma das crises cíclicas da Argentina, fiz essa pergunta a um taxista em Buenos Aires. “Em Ezeiza”, respondeu, sem brincar, referindo-se ao principal aeroporto da capital argentina. Na época, foi um comentário bem-humorado; hoje, sair do país é para muitos “a saída”. A maioria deles não se importa com o que fará; assumem que em qualquer profissão terão melhores oportunidades do que em seu país, onde quase todos os caminhos parecem estar fechados.

Deixar o país é uma opção crescente, sobretudo entre os mais jovens. No caso do Peru – que mesmo no contexto latino-americano aparece, talvez como a Guatemala, como um paciente com prognóstico reservado, para o qual não há tratamento conhecido – os emigrantes quadruplicaram desde a pandemia. Não há estatísticas confiáveis para respaldar o que sabemos por meio de milhares de histórias; como tem sido o caso dos salvadorenhos há muito tempo, todo peruano parece ter um ou mais parentes no exterior, um ou mais amigos.

Os países latino-americanos que, até relativamente pouco tempo atrás, pareciam ter um modo de vida estável e um Estado com certa força, agora estão descendo a ladeira. O Chile nos surpreendeu há alguns anos com uma explosão social que até agora não produziu nada de saudável. E o Equador acaba de nos surpreender com o surgimento de atores no negócio das drogas que permaneceram nos bastidores e agora estão reivindicando a posição de atores principais. 

Na maior parte da América Latina, é o momento do “salve-se quem puder”. Atualmente, esse processo é alimentado pela desesperança resultante da constatação da magnitude dos problemas para os quais ninguém consegue apresentar soluções viáveis.

Sociólogo do Direito. Estuda os sistemas de justiça na América Latina, assunto sobre o qual tem publicado extensivamente. Desempenhou-se como docente no Peru, Espanha, Argentina e México. É membro sênior de Due Process of Law Foundation.
Fonte:  https://latinoamerica21.com/pt-br/o-novo-e-a-desesperanca/


sexta-feira, 26 de julho de 2024

O princípio de autodestruição

Por Leonardo Boff*


Qual ciência é boa para a transformação mundial?

Os países que formam o G20, desde 2017, criaram uma articulação entre as academias de ciências dos países membros para elaborar subsídios científicos e tecnológicos para as suas reuniões anuais. O país que hospeda o G20 é responsável pela reunião desse grupo, no caso, o Brasil, onde ocorrerá a Cúpula no Rio de Janeiro em 2024. O grupo criou o nome Science20. Os estudos e debates foram concluídos no dia 2 de julho do corrente ano.

O tema é “Ciência para a transformação mundial”. Ele vem detalhado em cinco eixos temáticos – inteligência artificial, bioeconomia, processo de transição energética, desafios da saúde e justiça social.

Como se trata de algo muito importante – cabe uma análise criteriosa sobre as propostas feitas aos chefes de Estado e de Governo reunidos nessa Cúpula.

Como se trata do tema específico das áreas de ciência e tecnologia é natural que o resumo apresentado nas cinco temáticas se concentre nesses ramos de saber.

Entretanto, salta logo à vista que temos a ver com um discurso intra-sistêmico, sem questionar os pressupostos subjacentes a este sistema. Nele funciona o paradigma das ciências da modernidade que atomiza os saberes, é antropocêntrico, pois vê o ser humano separado da natureza, cujo eixo estruturador de sua prática é a vontade de poder/dominação sobre tudo e sobre todos. Inscreve-se, sem qualquer observação crítica, dentro do sistema do capital, criado por este paradigma, com todos os seus conhecidos mantras.

Neste sentido, no resumo publicado, não se vê nenhuma apropriação do novo paradigma holístico e relacional baseada na física quântica (Bohr/Heisenberg), cuja compreensão fundamental é sustentar que tudo é relacionado com tudo e nada existe fora da relação; na ciência introduzida por Albert Einstein da equivalência entre matéria e energia; nem na nova biologia e cosmologia, vistas em processo, por isso, como cosmogênese e biogênese.

Nem no discurso ecológico que desde seu fundador Ernst Haekel (1834-1919) que cunhou a palavra ecologia (1866) se considera a ecologia como a ciência das relações, porquanto todos os seres estão interligados entre si e todos em permanente diálogo com o ambiente. Isso o expressou claramente a Carta da Terra, assumida pela ONU (2003), como um dos documentos oficiais mais importantes da atual ecologia: “Nossos desafios ambientais, econômicos, políticos, sociais e espirituais estão interligados e juntos podemos forjar soluções includentes” (Preâmbulo, 4).O mesmo escreve o Papa Francisco em sua encíclica Sobre o cuidado da Casa Comum (2015).

Em vão encontramos no aludido resumo tal “interligação” e a busca de “soluções includentes”. Os temas correm paralelos sem se notar e interconexão sistêmica entre eles.

Entretanto; que fique claramente afirmado ser a ciência e a técnica fundamentais para o funcionamento de nossas sociedades complexas. Mas estamos também conscientes pela epistemologia contemporânea de que por detrás de todo saber vigoram interesses de toda ordem, também geopolíticos. Basta lembrar o livro clássico de Jürgen Habermas, Conhecimento e interesse (Unesp), filósofo e sociólogo da escola de Frankfurt.

Quais seriam esses interesses? O mais importante comparece na manutenção do atual sistema socio-econômico, o capitalismo, como modo de produção e sua expressão política, o neoliberalismo com seu mercado. Em seguida, a preocupação da potência dominante, os EUA, pela segurança no sentido de garantir um mundo unipolar, fundado na tecno-ciência e na produção de armas cada vez mais sofisticadas, muitas delas tão poderosas que podem liquidar com a vida humana. Em função deste propósito investem-se trilhões de dólares que, se aplicados, resolveriam o grave problema da fome, da saúde e da moradia para os milhões de marginalizados do atual sistema dominante.

Afora estas reflexões de viés teórico, cabe ressaltar os efeitos concretos deste tipo de ciência e de técnica desenvolvido a partir da modernidade e vigente ainda hoje. No afã de dominar tudo, criou-se o princípio de autodestruição com todo tipo de armas letais, o que mostra que a racionalidade técnico-científica se fez totalmente irracional.

A fúria por acumulação devastou praticamente todos os ecosistemas terrestres e marinhos. O consumo dos países opulentos exige mais de uma Terra e meia de bens e serviços, coisa que ela não pode atender: a conhecida “Sobrecarga da Terra”. A extração extremamente intensiva dos recursos naturais, alguns commons coletivos (como água, florestas e sementes), levou à crise ecológico-social de hoje.

Esta crise se mostra pelo aquecimento global que é sem precedentes desde o último período interglacial há 125 mil anos atrás. As temperaturas globais atingiram o recorde em 2023 e em 2024, chegando a 1,5ºC acima do período pré-industrial (1850-1900). As inundações e queimadas assolaram várias regiões como entre nós no Rio Grande do Sul e no Pantanal.

A desigualdade social é uma das realidades mais perversas: 1% mais rico possui mais da metade da riqueza mundial. A poluição do ar por mini-partículas é responsável por muitas doenças e anualmente por sete milhões de mortes prematuras. E poderíamos prosseguir com muitos outros efeitos danosos resultantes deste paradigma.

O importante é dizer que esta degradação do planeta Terra e da vida tem como principais agentes exatamente aqueles que se reúnem na Cúpula dos G20 (com algumas exceções): os Governos onde estão os poderosos e endinheirados deste mundo. É sintomático que no item “Justiça Social” não há uma palavra sobre a brutal desigualdade social mundial. Concentram-se na expansão do acesso universal à internet.

No item “Bioeconomia” esperávamos que se referisse à superação do tipo atual de economia, altamente excludente, centrada na produção de bens materiais. Ao invés de colocar, como o título sugere, a vida no centro e a ciência e tecnologia, a política e a economia a serviço da vida. Mas faz-se uma conclamação “para formular um quadro de políticas conjuntas que permite os países implantar programas de bioeconomia…melhorar a qualidade de vida e proteger os recursos naturais”.

Sem tocar no sistema acumulador e excludente, é um belo propósito como o Acordo de Paris de 2015 que não foi posto em prática. Tal propósito idealista vai contra a lógica do sistema dominante. Seguramente não será implantado.

Estas são algumas ponderações críticas às propostas dos técnicos e cientistas que serão apresentadas na Cúpula do G20 no Rio de Janeiro.

Ressalvo a proposta do Presidente Lula de formar uma Aliança Global contra a Fome e a Pobreza. Mas a verdade tem que ser dita: esse tipo de tecno-ciência, sem consciência, não é suficientemente bom para a transformação mundial. Se ficarmos apenas nos meios sem definir outros fins humanitários e ecológicos, sob outro paradigma, caminharemos na direção de uma catástrofe incomensurável.

Quanto de verdade e quanto de mudança de rumo suporta o espírito do capital? Eis a questão que dificilmente encontrará uma resposta.

*Leonardo Boff é teólogo, filósofo e escritor. Autor, entre outros livros, de Sustentabilidade: O que é – O que não é (Vozes). [https://amzn.to/4cOvulH]

Fonte:  https://aterraeredonda.com.br/o-principio-de-autodestruicao/?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=novas_publicacoes&utm_term=2024-07-25

A democracia “é mais importante do que qualquer título”, declara Joe Biden no primeiro discurso após desistir da reeleição

 Por

 

Foto oficial da Casa Branca por Adam Schultz – via fotospublicas.com

Segundo o presidente norte-americano, é hora de “passar a tocha” e essa é a “melhor maneira de unir a nação”

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, declarou nesta quarta-feira (24)  que reverencia seu cargo, mas diante do cenário atual a defesa da democracia “é mais importante que qualquer título”. O democrata falou aos eleitores pela primeira vez desde que anunciou, no domingo (21), que não concorrerá à reeleição pela Casa Branca, em novembro.

Eu reverencio este cargo, mas amo meu país mais. Foi a honra da minha vida servir como seu presidente. Mas na defesa da democracia, que está em jogo, acho que é mais importante do que qualquer título”, disse Biden, no Salão Oval.

Acredito que meu histórico como presidente, minha liderança no mundo, minha visão para o futuro da América, tudo isso merece um segundo mandato, mas nada pode impedir a salvação de nossa democracia. Isso inclui ambição pessoal”, prosseguiu o democrata. 

Em carta divulgada no domingo, nas redes sociais, Biden afirmou que estava desistindo da disputa para apoiar a candidatura de Kamala Harris, atual vice-presidente dos Estados Unidos. Segundo ele, seu foco agora é terminar o mandato e continuar atuando na defesa dos direitos dos estadunidenses, combatendo o ódio e o extremismo.

Decidi que a melhor maneira de seguir em frente é passar a tocha para uma nova geração. É a melhor maneira de unir nossa nação. Você sabe, há um tempo e um lugar para longos anos de experiência na vida pública. Há também um tempo e um lugar para novas vozes, vozes frescas – sim, vozes mais jovens. E esse tempo e lugar é agora”, explicou.

Eu fiz minha escolha. Eu divulguei minhas opiniões. Quero agradecer à nossa grande vice-presidente Kamala Harris. Ela é experiente. Ela é forte. Ela é capaz. Ela tem sido uma parceira incrível para mim e líder do nosso país. Agora a escolha cabe a vocês, povo americano: vocês fazem essa escolha (…) Os Estados Unidos terão de escolher entre seguir em frente ou retroceder; entre esperança e ódio; entre unidade e divisão. Temos de decidir se ainda acreditamos em honestidade, decência, respeito, fé na Justiça e na democracia”, completou Biden.

Fonte: https://jornalggn.com.br/eua-canada/democracia-mais-importante-que-qualquer-titulo-declara-biden/#google_vignette 

Gorro da Revolução Francesa é a mascote das Olimpíadas

Da Redação

 

FOTO: Denis Balibouse/Reuters - 9.mai.2024 - Mascote olímpica e paralímpica em Paris

25 de julho de 2024(atualizado 25/07/2024 às 13h27)

Phryge Olímpica foi escolhida por ser um símbolo da liberdade para os franceses. Chapéu vermelho também representará os Jogos Paralímpicos

A mascote das Olimpíadas de 2024 não é, como foi na maioria das edições anteriores do evento, um animal típico do país-sede. O símbolo dos Jogos que acontecem na França é um chapéu. 

Chamado de Phryge Olímpica, o barrete, ou gorro frígio, é um dos emblemas da Revolução Francesa. O presidente do Comitê Organizador dos Jogos de Paris, Tony Estanguet, disse que o chapéu vermelho foi escolhido por ser “um objeto muito conhecido” dos franceses e “um símbolo de liberdade”.

 

                   “Mais do que um animal, escolhemos um ideal”   

                                    Tony Estanguet presidente do Comitê Organizador Paris 2024

 

O gorro também é a mascote dos Jogos Paralímpicos, que começam em 28 de agosto, logo após as Olimpíadas. Mas para esse evento ele leva uma  prótese protética, conforme registrou o jornal O Globo.

O gorro foi nomeado a partir de Frígia, uma região que atualmente fica na Turquia, como explicou a BBC Brasil. Em entrevista ao site, o historiador Sergio Sánchez Collantes, da Universidade de Burgos, na Espanha, contou que uma série de eventos históricos conectaram o objeto à ideia de liberdade.

A touca cônica foi adotada na cor vermelha pelos republicanos que lutaram pela tomada da Bastilha em 1789, durante a Revolução Francesa, conforme contou o site do Globo Esporte. O movimento revolucionário derrubou a monarquia na França no século 18 e imprimiu no mundo ocidental os ideais de “liberdade, igualdade e fraternidade”. 

A abertura dos Jogos Olímpicos de Paris será nesta sexta-feira (26), embora fases classificatórias de algumas modalidades tenham começado. A distribuição das primeiras medalhas acontece no sábado (27), em esportes como judô, natação e skate. Ao todo, serão 329 pódios serão celebrados até o final do evento.

Fonte: https://www.nexojornal.com.br/extra/2024/07/25/phryge-mascote-olimpiadas-paris-2024-revolucao-francesa?utm_medium=email&utm_campaign=Nexo%20%20Hoje%20-%2020240725&utm_content=Nexo%20%20Hoje%20-%2020240725+CID_6a00f016e57bb6f896e6392fdce67616&utm_source=Email%20CM&utm_term=Saiba%20mais

 

quarta-feira, 24 de julho de 2024

Livro faz uma investigação minuciosa sobre a evolução do sentido de ser

Fernanda Torres *

No plano de fundo, vemos desenhado de forma insinuada o morro Dois Irmãos e a natureza adjacente, simbolizando a vista icônica da praia de Ipanema. Em primeiro plano, há uma mulher deitada na areia, lendo um livro. Vemos apenas suas pernas cruzadas, e os braços e mãos segurando o livro aberto. Do lado direito do livro, um texto digitado em azul indica o título do livro e seu autor: "The discovery of the mind", Bruno Snell. Do lado esquerdo do livro, uma coluna de texto tb digitado em azul mostra nomes de filósofos, escritores, poetas e dramaturgos gregos que são abordados no livro sendo lido: Homero, Hesíodo, Heráclito etc. (são 10 nomes). Ilustração de Marta Mello para coluna de Fernanda Torres de 25 de julho de 2024 - Marta Mello/Folhapress

 

Obra de Bruno Snell pesquisa caminho da literatura, poesia, teatro e filosofia até se chegar à ideia de mente e alma

Os dois anos de pandemia foram duros de suportar, mas confesso que o isolamento me trouxe uma grande alegria, ter tido tempo para ler a "Ilíada" e "A Odisseia", de Homero.

"A Odisseia" é imensa, extraordinária, mas, comparada à "Ilíada", é quase doméstica. O astuto Odisseu negocia saídas, evita feitiços, reconquista o lar e, apesar de perseguido e náufrago, parece possuir alguma ingerência sobre o próprio destino. Já os heróis da "Ilíada" são como fantoches nas mãos do Olimpo, mortais acossados pelo desejo volúvel dos eternos. A "Ilíada" é sobrenatural.

Sujeitos às desavenças e ao ciúme, os deuses olímpicos cultivam predileções, enfrentam crises conjugais e guardam estranha semelhança conosco. Talvez, a condição de imortais os impeça de se aniquilarem entre si e, por isso, venham ao mundo, como demônios alados, para usarem os homens como instrumento de suas ações. A fúria de Heitor, de Aquiles e a sanguinolência explícita dos combates se contrapõem, com igual medida, à dor e à fragilidade humana. É de uma grandeza acachapante, difícil de alcançar.

Meu filho mais velho está no mestrado de filosofia e me indicou um livro precioso, de 1953, que ajuda a entender o impacto da "Ilíada" no leitor desavisado. "The Discovery of the Mind", de Bruno Snell, para o qual não encontrei tradução em português, investiga o longo caminho, de Homero a Virgílio, percorrido pela literatura, a poesia, o teatro e a filosofia ocidental, até se chegar à ideia de mente e alma.

Em Homero, as palavras "psyche", "thymos" e "noos" se aproximam da noção de alma, sem possuir sentido idêntico ao de hoje. "Psyche" é o sopro de vida que nos sai pela boca no momento da morte; "thymos", o impulso vital, força motriz dos membros; e "noos" é aquilo que nos faz ver e imaginar. Nos três termos, corpo e alma ainda não se apartaram.

Na "Ilíada", toda decisão humana é fruto de intervenção divina. Snell usa de exemplo uma cena em que Aquiles ameaça sacar a espada contra Agamenon, mas é demovido da ideia por Atena. O autor poderia ter escrito que o herói ponderou e desistiu do ataque, mas não. Aquiles não possui o dom da reflexão, ela vem de fora, dos deuses, assim como o juízo, a temperança, a ira e o ódio.

Hesíodo, com "Os Trabalhos e os Dias", faria a passagem entre o heroísmo épico e a vida no campo. E dois séculos transcorreriam até que Heráclito separasse a carne do espírito, deslocando o logos para outra dimensão, a das profundezas do ser.

A introjeção permitiu à humanidade tomar posse de seus sentimentos. Poetas líricos, como Sapho e Pindar, passam a se referir a um profundo pensar e sentir, inexistente em Homero. "Há quem diga que um exército de cavaleiros é o que há de mais belo sobre a terra escura, mas eu digo que a coisa mais bela que existe é aquela a quem amo", escreve Sapho.

As tragédias de Ésquilo, Sófocles e Eurípedes fariam a revolução, promovendo a independência definitiva dos entes que habitam o andar superior. Demasiado sutil para o palco, o delicado desamparo da poesia lírica foi substituído pela ação e o realismo da cena. A premência do agir faz nascer algo novo, a consciência dos personagens.

Em "As Suplicantes", de Ésquilo, um coro de Danaides escapa do Egito e pede asilo na cidade de Argos. Diante do dilema de negar abrigo às fugitivas e ofender a Zeus, ou acolhê-las e comprar uma briga com os vizinhos, Pelasgos, o rei, pede um instante para pensar. "Pense", responde o coro, "pense e seja nosso protetor". Na "Ilíada", ninguém para para pensar.

Na "Medeia", de Eurípedes, a esposa traída, por livre e espontânea vontade, envenena os filhos para se vingar do marido. "Sei dos crimes que estou prestes a cometer, mas minha raiva é maior do que a minha razão." Eurípedes é como Nelson Rodrigues, amoral demais para uma sociedade que se pretende civilizar.

Os parricidas e infanticidas dos trágicos devem ser responsáveis pela expulsão dos poetas de "A República" de Platão. O ciclo das tragédias termina com a terra arrasada de Eurípedes e, graças ao uso do artigo definido, Sócrates e Platão substantivam adjetivos como virtuoso, bom, belo e justo, generalizando-os em conceitos como a virtude, o bem, o belo e o justo.

"The Discovery of the Mind" vai muito além deste tosco resumo, trata-se de uma investigação minuciosa, ancorada na gramática e na linguagem, sobre a evolução do nosso sentido de ser. Através de séculos de mudanças no emprego dos verbos, adjetivos e substantivos, dos pronomes e artigos, Snell esclarece o porquê do estupor da "Ilíada" numa garota de Ipanema, como eu.

Rogo à alguma editora pátria que o traduza e publique.

* Atriz e roteirista, autora de “Fim” e “A Glória e Seu Cortejo de Horrores”.

Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/fernandatorres/2024/07/livro-faz-uma-investigacao-minuciosa-sobre-a-evolucao-do-sentido-de-ser.shtml