quinta-feira, 1 de novembro de 2012

“A universidade deve reagir à mercantilização do conhecimento”

Boaventura fala sobre a universidade como
 veículo das transformações sociais 
e promete convocar plateia da 
Aula da Inquietação para uma
 "rebeldia competente"

Importante defensor da atuação da universidade nas transformações políticas e econômicas, o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos chegou à Capital Federal para convocar a comunidade da Universidade de Brasília e do Distrito Federal a se engajar numa utopia possível e emergencial. Nesta terça-feira, 30, todos terão a oportunidade de reencontrar a mensagem do estudioso na Aula da Inquietação, que acontece às 10h, no Teatro de Arena do campus Darcy Ribeiro.
Além disso, o sociólogo recebeu, na noite de segunda-feira, 29, o título de Doutor Honoris Causa. A cerimônia aconteceu no Memorial Darcy Ribeiro e contou com a saudação feita pela filósofa Marilena Chaui. Professora da Universidade de São Paulo, declarou que se sentia honrada por saudar o sociólogo português. “É uma honra participar. Mas, antes de tudo, é uma honra para a UnB e para a academia brasileira receber um pensador desse porte”, elogiou.
Marilena Chaui explicou que o professor Boaventura de Sousa Santos é o criador de duas posições teóricas importantes. “Ele desenvolveu a crítica da razão indolente: uma forma de interpretar a ciência, a política e a cultura que, ao fim e ao cabo, impede a sociedade de ver adequadamente o real; e a proposta de superar o etnocentrismo, o eurocentrismo e a razão cognitiva instrumental, dominante na ciência e na tecnologia”, explicou a filósofa. A professora definiu a obra de Boaventura de Sousa Santos como inovadora, instigante e afirmou que ela propõe uma mudança radical e benéfica na maneira de encarar a ética, a política e a cultura.
Antes da cerimônia, o professor português conversou com a UnB Agência e falou um pouco sobre a importância da universidade nas transformações sociais advindas da crise econômica mundial, sobre o combate a mercantilização do conhecimento e a necessidade de garantir a inclusão social e a democratização do saber. Ele também defendeu as ações afirmativas e abordou políticas sociais e econômicas do Governo Dilma Rousseff. Ao final, o português prometeu, na Aula da Inquietação, provocar estudantes e professores a uma "rebeldia competente". 

Qual o lugar e a missão da universidade neste momento, de tantas e profundas mudanças sociais e econômicas?
Boaventura de Sousa Santos: A universidade sofre atualmente com os embates políticos e sociais provocados pela crise e recebe pressões para que se submeta às necessidades do mercado. Isso é mais nítido na Europa e nos Estados Unidos, mas pode ser percebido também em países do Hemisfério Sul. 
Do século XIX para cá, as universidades foram instituições que tiveram papel importante na construção do Estado e na democratização do saber, ainda que só recentemente grupos como os indígenas e os negros tenham conseguido algum tipo de inserção nesse ambiente.
Por isso, hoje a universidade é mais necessária do que nunca. E ela tem a missão de preservar a democratização do saber, desde que resista às pressões pela mercantilização do conhecimento. Não podemos valorizar apenas os saberes que dão origem às patentes, ou seja, aquele conhecimento com valor de mercado. É necessário dar incentivos para as ciências humanas e sociais, para aqueles departamentos que não criam produtos, mas ajudam a preservar saberes valiosos para os povos. Conhecimentos que não podem ser vendidos, de culturas tradicionais como as comunidades remanescentes de quilombos, por exemplo.  

Mas a universidade pode mudar, ou ajudar a mudar as relações sociais vigentes atualmente?     
Boaventura de Sousa Santos: O que estamos vendo atualmente é que a sociedade perde sua coesão à medida que a crise avança. Basta ver os protestos e os conflitos que acontecem na Grécia, na Itália e na Espanha. Nesse sentido, a universidade ajuda a manter a coesão social, mas apenas na medida em que preserva a tradição do pensamento crítico e que se torna mais inclusiva. Do contrario, se submetendo às necessidades do capital, ela deixa de ser parte da solução e passa a contribuir com os problemas sociais.
Uma das dificuldades enfrentadas pela academia, atualmente, está justamente nos mecanismos de avaliação dos professores e pesquisadores. Os parâmetros são restritos e se submetem a certo conjunto de publicações e de pesquisas, normalmente em inglês. Já existem reações, por exemplo na Inglaterra e na França, a esses mecanismos restritivos; critérios que não compreendem adequadamente iniciativas importantes como as atividades de extensão e outras ações comunitárias e sociais realizadas ou acompanhadas por pesquisadores, professores ou estudantes, de universidades.

Uma lei recente alterou a destinação das vagas universitárias em instituições federais de ensino superior do Brasil. Criou-se um conjunto de cotas com recorte em escolaridade, renda e raça. Qual a sua opinião sobre isso?
Boaventura de Sousa Santos: Sou um apoiador das ações afirmativas e saudei a iniciativa pioneira de instituições como a Universidade de Brasília, quando adotou o sistema de cotas para negros; bem como as várias iniciativas propostas pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva.
Entendo que a democracia racial, por exemplo, é uma aspiração legítima, mas que precisa ainda ser construída. Ela não existe na realidade e a sociedade deve apoiar medidas legais – previstas, inclusive, na Constituição – para combater injustiças históricas cometidas contra diversos grupos, como as populações negras ou indígenas. 
São iniciativas coerentes e amplas e não devem se limitar à educação. Sou também a favor de cotas para o serviço público, por exemplo. Agora, é claro que as ações afirmativas buscam corrigir injustiças históricas; portanto, elas têm um caráter transitório, limitado no tempo. Mas, ao contrario de muitos grupos que as acusam de desrespeitar o mérito, acredito que o verdadeiro mérito deve buscar a igualdade entre os grupos, respeitando as diferenças. Devemos lutar pela igualdade sempre que as diferenças nos discriminem e lutar pelas diferenças sempre que a igualdade nos descaracterize.

E as políticas sociais no Brasil hoje?
Boaventura de Sousa Santos: Reconheço a importância das iniciativas de desenvolvimento com redução das desigualdades sociais realizadas nos últimos dez anos. O Programa Bolsa Família, por exemplo, é uma iniciativa reconhecida como exemplar em todo o mundo. Hoje existe mais equilíbrio e distribuição de renda do que a alguns anos. Não podemos negar o fato de que a classe média cresceu de 38% para 53% da população.
Mas diversas iniciativas de desenvolvimento tem me preocupado. O desrespeito às comunidades rurais e aos indígenas na fronteira agrícola, o aumento da violência do campo, o fortalecimento da economia baseada em commodities e em minérios, com desrespeito ao meio ambiente, são problemas urgentes e que precisam ser combatidos.  

VIDA E OBRA – Boaventura de Sousa Santos nasceu em Coimbra, em 1940 e têm Doutorado em Sociologia do Direito pela Universidade de Yale (1973). É professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e leciona também nas Universidades de Wisconsin-Madison e de Warwick. Além disso, dirige o Centro de Estudos Sociais da Faculdade de Economia e o Centro de Documentação 25 de Abril da Universidade de Coimbra.
O português chegou a morar numa favela do Rio de Janeiro, nos anos 1970. Ele escolheu o Brasil como cenário para compreender as raízes das injustiças econômicas e sociais e debater um novo caminho para o mundo. Suas ideias costumam ser evocadas em discussões que envolvem os temas mais sensíveis da atualidade.
Assiduamente convidado a participar de atividades na Capital Federal, a primeira aproximação de Boaventura de Sousa Santos com a UnB aconteceu ainda na década de 1970, quando seus textos foram pela primeira vez alvos de debates em seminários na UnB. A aproximação foi uma das principais inspirações para a criação do grupo de pesquisa O direito achado na rua, hoje linha de pesquisa da Faculdade de Direito. A corrente de pensamento, da qual o reitor José Geraldo de Sousa Junior é um dos criadores e principais defensores, incorpora ao pensamento jurídico as práticas normativas desenvolvidas no seio das comunidades e dos movimentos sociais. Boaventura participou de vários volumes da série de livros publicados sobre tema.
Em seu trabalho recente, o sociólogo vêm provocando os agentes sociais a repensar o modo de produção do conhecimento dentro da universidade e defende uma aproximação com os movimentos sociais do mundo. Para Boaventura de Sousa Santos, vêm deles as iniciativas que, de fato, podem transformar a sociedade.
Para o autor de A Crítica da Razão Indolente, é preciso criticar radicalmente as verdades estabelecidas. “As teorias críticas que hoje vigoram no mundo foram produzidas pelos países do Hemisfério Norte. As experiências inovadoras de hoje estão acontecendo no Hemisfério Sul e é para elas que o mundo tem que olhar”, afirmou. Ele também defende que a tradição e as culturas mais antigas, como os movimentos indígenas e os povos africanos, possuem experiências capazes de criar políticas públicas e transformar a sociedade.
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Reportagem Cristiano Torres - Da Secretaria de Comunicação da UnB
Fonte:  http://www.unb.br/noticias/unbagencia/unbagencia.php?id=7260
Imagem da Internet

Olha isso: Pequenos delitos

Fabio F. Storino*

 
Nos encontros dos praticantes de locksport, a atividade recreativa de destravar fechaduras, os modelos mais comuns (de pinos móveis em um cilindro) são frequentemente destravados em menos de 10 segundos. Presentes ao menos desde o Antigo Egito, travas são hoje ubíquas e fazem parte de um contrato social baseado, de certo modo, na desconfiança mútua. Mas, diante da falibilidade das nossas fechaduras, quem, afinal, estamos querendo barrar com elas? Na verdade, as pessoas predominantemente honestas.

Não se está falando aqui (necessariamente) de evitar que vizinhos roubem vizinhos. A existência de uma fechadura impede com maior frequência situações mais ordinárias: “Poxa, estou sem açúcar para terminar meu bolo. Acho que darei um pulinho no João, que não está em casa, e pegar um pouco emprestado. Logo mais eu reponho, ele nem vai perceber!” O economista Dan Ariely, autor de diversos estudos que enterraram de vez a ideia de um agente econômico plenamente racional (o Homo economicus dos livros-texto de Microeconomia), há tempos se dedica a entender por que trapaceamos. Em A Mais Pura Verdade sobre a Desonestidade, Ariely relativiza o modo binário como classificamos as pessoas, entre “honestas” e “desonestas”. Em tempos de julgamento do mensalão pelo Supremo, uma visão menos maniqueísta sobre o assunto é oportunamente provocadora.

Com exceção de uma minoria profundamente honesta e outra profundamente desonesta, a grande maioria das pessoas trapaceia – mas apenas um pouquinho. Em um experimento conduzido pela equipe de Ariely, pessoas eram pagas caso completassem uma tarefa de maneira bem-sucedida. Ao se eliminar o risco de serem pegas – uma fragmentadora destruía as “provas do crime” –, o nível autodeclarado de sucesso aumentava (assista a seu TEDtalk). Até aí, nenhuma surpresa.

O modelo racional prevê que as pessoas pesam os benefícios da trapaça contra seus custos/riscos. Dados os custos, quanto maiores os benefícios, mais as pessoas trapaceariam, portanto. Mas não foi o que Ariely encontrou: ao multiplicar por 20 o valor pago no experimento acima, menos pessoas declararam ter completado a tarefa com sucesso. Trapacear por mais parece impor um custo maior à nossa consciência. Por outro lado, quando um ator presente na mesma sala trapaceava descaradamente, os demais membros daquele grupo reportavam o dobro de sucesso do que o grupo de controle. Ao que parece, a desonestidade é contagiosa (ver estudo).

Estudo publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences concluiu que pessoas mais afluentes são mais propensas a trapacear. Numa observação no mundo real, motoristas de carros mais baratos violaram 8% de uma determinada norma de tráfego, enquanto os de carros mais luxuosos, 30%. Já em laboratório, após uma rodada de jogo de dados (na qual os mais ricos também trapacearam mais), foram casualmente oferecidas aos participantes balas que seriam destinadas a crianças em um experimento ao lado. Sim, você adivinhou corretamente: pessoas de maior status socioeconômico tiraram mais doces da boca das crianças.

Nada de novo sob o sol: se a ganância corrompe, a decência nos compele a não destravar a fechadura do vizinho. Mas não seria possível vivermos em um mundo sem travas?
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* Fabio F. Storino é coordenador de TI e Gestão do Connhecimento do Centro de Estudos em Sustentabilidade (GVces).
(Página 22)
Fonte:  http://mercadoetico.terra.com.br/01/11/2012

“É mudando o mundo que a gente se transforma”

Um disjuntiva atormenta, não raro, aqueles que buscam superar o capitalismo, em época de incertezas e após o fracasso do socialismo estatista. Onde concentrar energias, para a construção do “outro mundo possível”? Na mudança pessoal das atitudes, que pode contagiar pelo exemplo? Ou transformando as estruturas que, por multiplicarem a lógica do lucro máximo, produzem permanentemente desigualdade, alienação e depredação da natureza?
Talvez a pergunta (e a angústia despertada por ela) sejam desnecessárias e até contraproducentes, pensa alguém com décadas de ativismo junto aos movimentos sociais. Carlos Alberto Libânio Christo, o “Frei Betto” considera que ambas respostas, se absolutas, podem conduzir a um labirinto. A crença na mudança apenas “a partir das estruturas”, desenhou o fracasso da União Soviética e das experiências que seguiram seu projeto. Mas esquecer as grandes reformas, e focar apenas no indivíduo, produz ilusões como a da igreja católica – de cujos colégios, muito bem intencionados, “continuam saindo políticos corruptos”…
Frei Betto tem uma alternativa a estas duas escolhas apartadas. Ele quer ver as mudanças de atitude pessoal convertidas em esforços pela transformação mais ampla do mundo. Uma como complemento da outra, nunca enquanto oposição. Para demonstrar que é possível, recorre a alguns exemplos.
Que tal uma reforma agrária? O Brasil é, junto com a Argentina, um dos dois países das Américas que nunca rompeu com o latifúndio. Ao permitir que milhões de produtores praticassem a diversidade, tendo acesso à terra, esta transformação não estimularia práticas sustentáveis e orgânicas, opostas às do grande agronegócio?
Se nos desencantamos tanto com a colonização das instituições pelo poder econômico, por que não imaginar uma grande reforma política – profunda o suficiente para proibir os grupos privados de financiar campanhas eleitorais, e “comprar” parlamentares e governantes? Diante de uma mídia que age como partido político, sonega informações aos cidadãos e ataca, na prática, a liberdade de expressão, a saída não seria uma redistribuição das concessões públicas de TV e rádio, e programas de incentivo à produção de conteúdos na blogosfera?
Frei Betto lança, em suma, um desafio. E se a mesma criatividade capaz de produzir atitudes pessoais transformadoras for mobilizada para desenhar políticas públicas de sentido oposto às atuais? E se nossas visões de mundo – que valorizam a igualdade, a colaboração, novas relações entre ser humano e natureza – puderem ser traduzidas, também, em grandes mudanças estruturais?
Ligado à Teologia da Libertação, escritor e assessor de movimentos sociais, Frei Betto já tinha uma longa história de luta política quando se tornou assessor especial do presidente Lula e coordenador de mobilização social do programa Fome Zero, em 2003 e 2004. Preso pelos militares entre 1969 e 1973, recebeu em 1982 o Prêmio Jabuti pelo livro Batismo de Sangue, em que descreve a participação dos frades dominicanos na resistência à ditadura. A entrevista publicada a seguir é o resultado de um diálogo com a jornalista Júlia Magalhães, no âmbito da pesquisa sobre a participação política no Brasil que o instituto Ideafix realizou para o IDS (Instituto Democracia e Sustentabilidade).

Outras Palavras – Qual é sua percepção sobre a participação política do cidadão brasileiro?
Frei Betto – Diria que, no geral, o brasileiro se interessa pouco por política e acaba entrando no engodo dos políticos, que procuram passar o sentimento de nojo pela política. Quem tem nojo da política é governado por quem não tem. Tudo o que os maus políticos querem é que a gente tenha bastante nojo, para que fiquem à vontade nas suas maracutaias.
Contudo, me surpreendeu a mobilização através das redes sociais no 7 de setembro [de 2011]. Até então, só evangélicos, gays e os que são a favor da liberação da maconha ocupavam as ruas. Foi muito positivo ver em várias cidades do Brasil a manifestação contra a corrupção, pela transparência dos votos dos deputados e senadores, pela reforma política, pela reforma agrária, pela auditoria da dívida externa.
Temos infelizmente uma democracia meramente delegativa: vamos às urnas a cada dois anos delegar a nossa representação a um vereador, deputado, presidente, mas temos muito pouco grau de participação. Estamos ainda longe de uma democracia verdadeiramente representativa, principalmente dos setores populares, e mais longe ainda de uma democracia participativa em que sociedade política e sociedade civil dialoguem de igual para igual.

OP – Como o cidadão pode participar de forma mais efetiva?
FB – Haveria dois canais prioritários: primeiro as escolas, que são unidades políticas, mas não têm consciência disso. Elas acabam deixando seus alunos vulneráveis à mídia, principalmente à tevê e à internet, em termos de formação política. O segundo seria a própria mídia, se ela tivesse interesse em formar cidadãos. Mas a mídia tem interesse em formar consumistas, porque é movida pela publicidade. A cidadania tem um espírito crítico, e o espírito crítico é um antídoto ao consumismo. A consciência cidadã da nação brasileira melhoraria muito se o ministério da Educação, os diretores e professores, os donos de escolas tivessem consciência de que a escola deve formar prioritariamente cidadãos, não consumistas e não mão de obra qualificada para o mercado de trabalho.

OP – Você citou questões importantes. Quais os grandes temas que mobilizam a sociedade brasileira, hoje, a seu ver?
FB – Infelizmente os temas que mobilizam a sociedade brasileira não são os que interessariam. Gostaria que a sociedade brasileira se mobilizasse pela reforma agrária, pela reforma política, por reformas de estrutura que o Brasil deseja desde que me entendo por gente. A estrutura fundiária do Brasil nunca foi mexida. Somos, com a Argentina, os dois únicos países das três Américas que nunca passaram por uma reforma agrária. As pessoas se mobilizam pela liberalização da maconha, por fatores evangélicos etc – tudo bem, é um direito delas. Mas infelizmente não se mobilizam por uma reforma política que acabe de fato com a impunidade e a imunidade dos políticos. Não adianta só sairmos nas ruas e gritar “abaixo a corrupção”. Qualquer pressão nesse sentido é positiva, mas insuficiente: a corrupção só vai acabar no momento em que houver mecanismos institucionais capazes de coibir e punir os corruptos e os corruptores. Falta essa consciência na sociedade brasileira.

OP – Existe um discurso bastante presente na atualidade, que é de descrença nas instituições e busca por transformação através dos indivíduos. Qual é sua opinião a respeito?
FB – A Igreja investiu durante séculos nessa utopia de que, mudando as pessoas, mudaríamos o mundo. Basta ver os colégios católicos, dos quais saíram notórios políticos corruptos. O método inverso foi tentado pelo socialismo soviético e não deu certo. Portanto, as estruturas e as pessoas mudam umas às outras.
A questão não é o que vem primeiro, o ovo ou a galinha: são as duas coisas. As pessoas só mudam mudando o mundo. Explico: não adianta querer que seu filho não jogue a caixa de chicletes na rua, se você joga um maço de cigarros, porque a criança é mimetista. Não adianta querer que os políticos não sejam corruptos se eles sabem que não há punição para a corrupção. Então precisamos criar um projeto de sociedade na qual desvios como a corrupção e o nepotismo sejam rigorosamente punidos – e mudar, ao mesmo tempo, os padrões do sentido da vida humana.
Hoje a vida humana está reduzida à busca do prazer, no sentido hedonista da riqueza, do poder, e não das virtudes subjetivas. Isso está levando a uma desumanização que é setorizada pelo crescimento do consumo de drogas. No fundo, o que o drogado está dizendo é: “quero ser feliz e sei que a felicidade não está fora de mim. Mas, como não tenho um sentido de vida que me provoque um ânimo, um entusiasmo, busco na química esse efeito”.

OP – Como é possível mudar isso, você vê um caminho?
FB – Volto a dizer: através da escola e da mídia. Mas, para isso, seria preciso ter um Estado que regulasse a mídia, ignorando essa falácia de que regular mídia é censura. Na verdade, censura é quando um determinado canal de televisão convoca um grupo de formadores de opinião para um debate e determina a exclusão de Frei Betto – porque ele é progressista, de esquerda, solidário a Cuba. Isso é censura, democracia da boca para fora. Na hora de debater o 11 de setembro, a crise econômica, a guerra da Líbia nos grandes veículos de comunicação, você não vê opiniões divergentes.
Um fato recente demonstra bem o que estou dizendo: enquanto os juros subiam, o Banco Central era autônomo. Agora que os juros caem, o Banco Central perde autonomia. Na verdade, a queda dos juros não interessa ao setor financeiro, então eles inventam essa falácia de que é perda de autonomia do Banco Central.

 "...estamos cada vez mais reduzidos a 
um consumismo exacerbado que 
esgarça as relações humanas, 
que substitui os valores humanos por objetos. 
Ou seja: sou, perante você, tanto mais 
valorizado quanto mais bens eu consumo, 
ou tanto menos quanto menos
bens eu possuo."

OP – Esse é um discurso sobre liberdade bastante presente. Queria que você falasse mais sobre isso.
FB – Por exemplo, você lê uma coisa no jornal e fica indignada: que liberdade de expressão tem para contestar? É liberdade deles, para eles. A população tem muito pouco canal de manifestação. A democracia existe para uma minoria que tem poder aquisitivo. Que liberdade tem uma faxineira cuja família mora no Nordeste de visitar essa família? Que garantia tem de que o filho dela vai chegar à universidade?
Estamos falando em liberdade para uma minoria, esses 8 milhões de brasileiros que pagam impostos – mas somos quase 200 milhões! Liberdade, hoje, no Brasil, é ir ao mercado escolher sua marca de cerveja. Não se pode escolher entre diferentes modelos de sociedade. Sequer é permissível que democracia e capitalismo não sejam considerados sinônimos.

OP – O consumo é um grande tema, hoje?
FB – Sim, porque estamos cada vez mais reduzidos a um consumismo exacerbado que esgarça as relações humanas, que substitui os valores humanos por objetos. Ou seja: sou, perante você, tanto mais valorizado quanto mais bens eu consumo, ou tanto menos quanto menos bens eu possuo. São as mercadorias que eu porto que me agregam mais ou menos valor social. Isso é um processo de reificação do ser humano, de desumanização brutal. Temos que lutar contra isso.

BF – E de que forma esse apelo ao consumo se reflete na política?
FB – O apelo ao consumo cria condicionamentos, cria consciência. Como os políticos são financiados por grandes empresas, são incapazes de proibir, no Congresso Nacional, que no Brasil uma criança possa ser ator ou atriz de peças publicitárias; ou que a publicidade de alimentos notoriamente nocivos seja veiculada nos meios de comunicação. Os políticos estão com o rabo preso com essas grandes empresas que financiam suas campanhas, e aí o silêncio é conivência.

 "Qual é o sentido de um programa 
como o Big Brother? A meu ver, 
é um programa perverso, jamais deixaria 
um filho, com menos de 16 anos, 
assistir àquele programa.
Ele sequer tem um momento em 
que se discute um poema do Drummond, 
da Adélia Prado, nada. 
É absolutamente permissivo, pornográfico, 
um programa de animalização 
do ser humano – e no entanto tem 
a maior audiência da tevê brasileira."

OP – Qual sua opinião a respeito da discussão sobre o controle social das mídias no Brasil?
FB – A mídia radiofônica e televisiva pertence à União – embora seja gerida como se pertencesse a determinadas famílias. E as concessões, que têm prazo determinado, são renovadas automaticamente. Então é preciso, sim, um grande controle social sobre a mídia.
Para um médico que faz uma safadeza, como o Roger Abdelmassih, que abusava de pacientes mulheres, existe um conselho de medicina que pune. Isso não existe na mídia. Se uma revista arrasa com você, você vai levar anos tentando processá-la, e dificilmente terá recursos para obrigá-la a reconhecer que mentiu a seu respeito. Um jornalista que notoriamente falseia notícias, degrada a imagem de pessoas do bem, dificilmente será punido; não conheço um único caso. Agora, conheço o caso de um veículo que recorrentemente emite uma imagem execrável de pessoas de bem, como a revista Veja.

OP – A criação de um conselho para fazer o controle social das mídias, por exemplo, seria uma forma de participação política da sociedade?
FB – Claro. Deve ser formado por pessoas que sejam independentes dos veículos de comunicação e entendam de formação de opinião, de mídia. E essas pessoas existem. Qual é o sentido de um programa como o Big Brother? A meu ver, é um programa perverso, jamais deixaria um filho, com menos de 16 anos, assistir àquele programa. Ele sequer tem um momento em que se discute um poema do Drummond, da Adélia Prado, nada. É absolutamente permissivo, pornográfico, um programa de animalização do ser humano – e no entanto tem a maior audiência da tevê brasileira.

OP – Como você vê o jovem nesse contexto?
FB – Os jovens acabam convencidos de que essas figuras consumistas de Big Brother etc. são seus ídolos. Alguns são vulneráveis a esse apelo pelo poder, riqueza e beleza; e sofrem muito porque esse apelo é para um em cada 10 mil. Os demais sofrem uma grande frustração, que gera depois depressão e consumo de drogas, porque não conseguem realizar os anseios embutidos na mídia.

 "Nossa liberdade hoje é muito restrita,
as pessoas têm medo da rua, do público, 
estão cada vez mais engaioladas 
em prisões de luxo. Estamos abrindo 
mão de nossa liberdade em nome da segurança
 – e isso é grave."


OP – E a questão das redes sociais?
FB – As redes são o que há de mais democrático para veicular informação e mobilização, embora também veiculem violência, pedofilia, pornografia. Dois governos foram derrubados graças às redes sociais, o da Tunísia e o do Egito. A internet é um veículo que convoca, mas é muito aleatória, por isso acho que deveria haver um controle, um sistema pelo qual se pudesse evitar convocação de violência, vandalismo.
É o momento das escolas introduzirem a educação para a internet nos seus currículos. Não tem educação para a leitura, saber o que é um clássico? Então, tem que ter educação para a internet, para a televisão, para o olhar. Estamos em uma era imagética, e, no entanto, na escola a educação literária é mais forte que a imagética. É preciso despertar na garotada esse espírito crítico diante da telinha, seja da tevê, seja do computador; senão eles vão sofrer com um fluxo muito grande de informações e deformações, não conseguem estabelecer a síntese cognitiva, e acabam sendo vítimas inconscientes do próprio veículo que utilizam. Ficam sem referências.

OP – O sociólogo polonês Zygmund Bauman diz que segurança sem liberdade é escravidão, e liberdade sem segurança é caos. Você concorda com isso?
FB – Concordo, o problema é que estamos cada vez mais em busca de segurança. Nossa liberdade hoje é muito restrita, as pessoas têm medo da rua, do público, estão cada vez mais engaioladas em prisões de luxo. Estamos abrindo mão de nossa liberdade em nome da segurança – e isso é grave.

OP – Nesse contexto de transformações, quais as mais significativas da sociedade brasileira nos últimos anos?
FB – Em primeiro lugar o governo Lula, porque tirou 30 milhões de pessoas da miséria, acabou com a dívida externa, tornou o país soberano e independente, principalmente frente aos Estados Unidos e ao bloco ocidental. Estabeleceu programas sociais com recursos consideráveis, o que governos anteriores não tinham feito, e o sistema de crédito. O que mudou a face do país e permitiu que o Brasil tenha passado, até agora, pela crise financeira desencadeada a partir de de 2008, foi justamente o fato de o governo Lula ter estabelecido um sistema de crédito e de políticas sociais que veio a aquecer o mercado interno, que é muito robusto no Brasil. Foi o que vi de mais significativo no Brasil nos últimos anos.

 "Praticamente o lazer do brasileiro é ver telenovela
 ou ir ao culto, à igreja, onde ele entra 
em contato com o transcendente, o mágico. 
Isso tem uma força muito grande no universo popular porque o ajuda a emergir das dificuldades
 e sofrimentos. Só uma pequena minoria 
 tem acesso a uma ociosidade criativa."

OP – E com relação ao exercício da cidadania?
FB – Cresceu a consciência de cidadania, dos diretos do consumidor, dos direitos humanos, mas ainda estamos muito distantes de vencer preconceitos, discriminações. Talvez esses acirramentos – espancamento de homossexuais, crimes previstos na Lei Maria da Penha –, tudo isso seja sintoma de que estamos avançando, porque antes essas coisas aconteciam mas ninguém falava, e agora elas são notícia, passíveis de ação policial. Então creio que vem crescendo, sim, a consciência de que temos direito à cidadania, à pluralidade cultural, à diversidade religiosa, e não devemos fazer do divergente o diferente. Não devemos cair no fundamentalismo de uma postura que quer se impor a outra, mas praticar tolerância.

OP – Em relação ao mercado de trabalho: as pessoas trabalham cada vez mais, às vezes doze, catorze horas. Como isso interfere na construção de uma sociedade?
FB – Interfere na construção das relações familiares, porque os pais não dão atenção suficiente a seus filhos, não é reservado tempo para lazer, para atividades culturais. Até porque os grandes aglomerados urbanos de classe média-baixa não têm acesso a equipamentos sociais que lhes permitam curtir o esporte, a cultura, a arte. Você vai pela periferia são prédios e prédios, casas e casas, casebres e casebres, raramente vê um campo de futebol, um teatro, cinema então nem pensar. Praticamente o lazer do brasileiro é ver telenovela ou ir ao culto, à igreja, onde ele entra em contato com o transcendente, o mágico. Isso tem uma força muito grande no universo popular porque o ajuda a emergir das dificuldades e sofrimentos. Só uma pequena minoria tem acesso a uma ociosidade criativa.

OP – Como vê a relação entre política e religião?
FB – A política é a forma de organizar nossa convivência social e a religião é a forma de imprimir à nossa resistência um sentido transcendente. São coisas que se complementam em nossas vidas, mas nem sempre é fácil estabelecer as distinções para fazer a sadia conexão. Há muito fundamentalismo de um lado e de outro: aqueles que querem fazer da sua religião uma proposta política e aqueles que querem fazer da política uma verdadeira religião, com partidos que têm papas, cardeais, bispos, crenças, dogmas intocáveis.

OP – Que desafios a relação entre política e religião nos coloca, levando em conta a diversidade de religiões e crenças?
FB – O desafio é desenvolver uma cultura de tolerância religiosa – mas estamos longe disso. Algumas confissões religiosas têm tamanho domínio da mídia que inoculam o horror ao espiritismo, às tradições afro-brasileiras, como a mídia americana cria horror ao islamismo. Hoje, uma pessoa que se diz muçulmana é vista como potencialmente terrorista, tanto que, após 2001, cresceu enormemente o número de muçulmanos agredidos com muita violência, nos Estados Unidos. O simples fato de alguém parecer um muçulmano já é fator de suspeita, de preconceito.

OP – O Brasil é um país enorme, com uma diversidade gigantesca. O que seria uma nova política que representasse todos esses grupos e realidades?
FB – Para o Brasil ser um país melhor, o ponto número um é fazer uma reforma agrária. Para além de 100 quilômetros dos grandes centros urbanos, ainda se encontra muita miséria, absoluto abandono de educação e saúde. Só vamos vencer esse contraste e evitar a inchação das cidades, como vem ocorrendo, no dia que houver reforma agrária. Ela é uma exigência de modernização do capitalismo brasileiro – não estou nem falando de socialismo.
Enquanto o Brasil não mexer na sua estrutura social, a desigualdade vai permanecer. Você pode até fazer essas políticas, como o Lula e a Dilma estão fazendo, de atenuar os grandes problemas. Atenuar, não resolver. Por exemplo, se o Bolsa Família acabar hoje, essas famílias que dependem da União vão voltar para a miséria, porque o Bolsa Família não conseguiu realizar aquilo que o Fome Zero se propunha fazer, que era tornar as famílias produtoras da própria renda. O próprio governo que criou o Fome Zero acabou com ele, transformou um programa que era emancipatório em um programa compensatório, como o Bolsa Família. Então você tem melhorias que não são estruturalmente asseguradas.

OP – Você imagina novas formas de fazer política?
FB – Quero uma reforma política que mude a estrutura do país: o financiamento público de campanha, fim do caixa dois, punição severa a quem praticar isso; fim dos lobbies do grande capital, de bancos, indústrias; Ficha Limpa rigorosa – isso seria uma reforma política. Também a proporcionalidade de representação da população de cada estado: é um absurdo um estado como o Amapá eleger o mesmo número de senadores de um estado como São Paulo. É preciso limpar a estrutura política brasileira, tem muito resquício da ditadura. Estabelecer a fidelidade partidária, acabar com o voto secreto – elejo um deputado e não sei como ele votou no processo da deputada corrupta que foi filmada prostituindo-se politicamente. Política tem que ser transparente e é preciso que haja uma lei garantindo isso – o que só vai acontecer com pressão popular.

OP – Existem hoje mecanismos de “transparência” que disponibilizam as contas governamentais, mas a população muitas vezes não sabe nem fazer a leitura daquilo.
FB – E mesmo fazendo a leitura, você jamais desconfiaria que no ministério dos Transportes houve desvio de 628 milhões de reais, porque o que está lá parece tudo certinho, depois é que a investigação mostra que não. É preciso aprofundar o sistema de transparência no país, como também a Comissão de Ética da República, que não pune ninguém, é sempre conivente e leniente com os corruptos.

 "Uma Adélia Prado, Fernanda Montenegro, 
 gostaria que elas fossem chamadas 
a opinar numa instância da República. 
O Brasil está cheio de pessoas íntegras, 
honestas, acima de qualquer suspeita."

OP – Que valores caracterizariam esse novo modelo?
FB – Primeiro, você jamais permitir que alguém com ficha suja ou processo na justiça seja candidato. Segundo, que, em sendo candidato, faça como foi aprovado agora na Espanha: seja obrigado a abrir sua contabilidade, seu patrimônio. Terceiro, que todas suas atitudes sejam públicas, nada secreto. Não sou especialista, mas como cidadão creio que é preciso uma reforma política que acabe com a impunidade e a imunidade desses políticos.

OP – Você consegue identificar pessoas que possam refletir esses anseios?
FB – Claro. Fábio Comparato, Dom Paulo Evaristo Arns, Ricardo Kotscho, Washington Novaes, Samuel Pinheiro Guimarães, Raduan Nassar, Chico Buarque, enfim, tem milhares de pessoas honestas, transparentes, corajosas. Uma Adélia Prado, Fernanda Montenegro, gostaria que elas fossem chamadas a opinar numa instância da República. O Brasil está cheio de pessoas íntegras, honestas, acima de qualquer suspeita.

OP – Como você vê a vida e a coabitação das futuras gerações neste pequeno planeta?
FB – A curto prazo, minha visão é pessimista. Acho que a crise financeira vai se agravar, os miseráveis vão invadir cada vez mais o espaço dos ricos, dos que estão bem de vida – porque não há muro, não há polícia, não há lei que detenha o fluxo do mundo do pobre para o mundo do rico. É uma questão de sobrevivência, e quando se trata de sobrevivência a legalidade vem abaixo. Vão crescer os grupos de direita, os governos despóticos, os preconceitos, os fundamentalismos de ambos os lados. Isso tudo vai se agravar daqui para 2020.

 "O outro passa a ser encarado como alguém que, 
de alguma maneira, deve corresponder 
aos meus interesses, sem que se criem vínculos
 de alteridade, parceria 
e solidariedade."

Não sei o que vai ser do futuro, mas talvez seja necessário passar por esse inferno para cair a ficha de que precisamos criar um novo modelo de sociedade. Uma sociedade baseada em outros parâmetros, e não no preconceito, na imposição, na guerra, no belicismo, no consumismo. Antigamente um rádio durava uma geração inteira, hoje um aparelho de última geração se torna anacrônico em dois anos, superado. O computador, então, nem se fala.
Estamos reciclando objetos, mas também estamos reciclando pessoas e valores. Hoje as relações pessoais estão sendo mercantilizadas. Isso já ocorria nas relações de trabalho, mas agora se transfere para a vida social. O outro passa a ser encarado como alguém que, de alguma maneira, deve corresponder aos meus interesses, sem que se criem vínculos de alteridade, parceria e solidariedade.

OP – Uma sociedade baseada em outros parâmetros implicaria outro sistema de produção?
FB – Claro, de produção e sobretudo de distribuição, para evitar que a excessiva riqueza seja acumulada nas mãos de poucos. Na minha opinião isso é um acinte, e não um direito. Precisaríamos promover a distribuição de renda, acabar com o direito de herança, pelo menos na proporção atual; no caso de herança acima de determinado patamar, 80% deveriam ir para o Estado, como o governo francês determinou em setembro de 2012 [75%].
Aplicar mais em educação e saúde. As pessoas pagam impostos excessivos, mas não têm um mínimo de direitos sociais, como acontece na Suécia, na Finlândia, na Alemanha – nesses países você paga muito imposto mas está seguro de que, precisando, vai ter retorno. Precisamos de mudanças profundas de institucionalização e de mentalidade.
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Reportagem por  Júlia Magalhães, do Outras Palavras
(Brasil de Fato)
Fonte: http://mercadoetico.terra.com.br/arquivo/%E2%80%9Ce-mudando-o-mundo-que-a-gente-se-transforma%E2%80%9D/?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=mercado-etico-hoje
Destaques do Blog

A última entrevista de Jorge Luis Borges

“Não criei personagens. Tudo o que escrevo é autobiográfico. Porém, não expresso minhas emoções diretamente, mas por meio de fábulas e símbolos. Nunca fiz confissões. Mas cada página que escrevi teve origem em minha emoção.”

publicado em
O escritor morreu alguns meses depois de ter concedido a entrevista ao jornalista e apresentador Roberto D’Ávila, em 1985

Jorge Luis Borges nasceu em 1899 na cidade de Buenos Aires, Argentina, e morreu em Genebra, Suíça, em 1986. Entrelaçando ficção e fatos reais, Borges concentrou-se em temas universais, o que lhe garantiu reconhecimento mundial. É considerado o maior escritor argentino de todos os tempos e um dos mais importantes nomes da história da literatura.
Na entrevista, que foi concedida em julho de 1985 ao jornalista Roberto D’Ávila, Jorge Luis Borges fala sobre a infância, a cegueira, a morte. Afirma que o fracasso e o sucesso são impostores. E traduz o seu amor pela literatura em uma frase: “Se recuperasse a visão eu não sairia de casa. Ficaria lendo os muito livros que estão aqui, tão perto e tão longe de mim”. Borges morreria menos de um ano depois de ter concedido a entrevista.  (Carlos Willian Leite)

Fale-me de sua infância, de suas memórias...
Minhas primeiras memórias são da biblioteca de meu pai. Não me recordo de uma época em que não soubesse ler e escrever. Meu pai era professor de psicologia e me disse que a memória começa aos 4 anos de idade. Aprendi a ler e escrever entre os 3 e 4 anos. A biblioteca de meu pai era essencialmente de livros ingleses. De modo que quase tudo que li na vida foi em inglês e depois em outros idiomas, já que, em 1915, fomos para Genebra e tive que estudar francês e também bastante latim. Depois disto, eu me ensinei alemão para ler Schopenhauer. Mas antes passei pela poesia e pelos expressionistas alemães: Johannes Becher, Wilhelm Klemm, Kafka e outros. Quando perdi a vista como leitor em 1955, para não “abound in loud self pity”, para não abundar em sonora autocomiseração, como diz Kipling, empreendi o estudo do inglês arcaico. Depois estive duas vezes na Islândia e estudei um pouco do escandinavo antigo. O islandês é a língua mãe do sueco, do dinamarquês e, parcialmente, do inglês. Agora pensei em estudar japonês ou chinês, que são idiomas tão estigmatizados.

Das leituras da infância, o que mais lhe impressionou?
“As Mil e Uma Noites”. Livros de diferentes épocas da vida de Kipling, que comecei a ler quando criança. Sempre gostei muito dos atlas e das enciclopédias. Curiosa­mente, continuo a comprar livros. Não posso lê-los. Aqui tenho, por exemplo, uma excelente enciclopédia italiana, a Garzanti, tenho duas edições da Brockhaus, alemã, e uma edição da Britânica. Gosto muito. Acho que é a melhor leitura para um homem ocioso e curioso como eu. Infelizmente perdi a vista. Se eu a recuperasse, não sairia desta casa. Ficaria lendo os muito livros que estão aqui, tão perto e tão longe de mim. Mas perdi a vista. Diversos países me convidam para dar conferências. Vou agora à Califórnia, à Nova York e depois à Roma. Depois volto à Roma no fim do ano para falar de meus livros. Continuo a escrever. Que mais posso fazer? É que não gosto do que escrevo. Nesta casa não encontrará um só livro meu. Por que quem sou para ficar ao lado de Euclides da Cunha, Camões ou com Montaigne? Não sou ninguém! Continuo a adquirir livros porque gosto de estar rodeado por eles. Como quando era menino, já que minhas primeiras lembranças são de livros e acho que minhas últimas o serão também. Quanto à minha memória, a única coisa que consigo lembrar são citações, mas, dos fatos de minha vida, me esqueci. As datas, não me lembro de nenhuma. Tenho lembranças de meus pais a quem adorava, dos meus amigos. Agora meus amigos estão embaixo da terra.

E as lembranças dos amores?
Agora estão menos vivas. Lem­bro-me de uma frase muito triste de Emerson: “Life itself becomes a quotation”. “A própria vida se converte numa citação.” Tenho a memória cheia de versos em tantos idiomas. E continuo escrevendo. Bem, escrevendo é uma metáfora; ditando. Como passo boa parte do tempo sozinho, vou povoando esta solidão com projetos literários. Não vão durar muito porque, aos 85 anos, não se tem muito por vir. Entretanto minha mãe morreu aos 99 anos com o terror de chegar aos 100. Eu tentava convencê-la de que os 100 são uma superstição. Mas, mesmo assim, o número 100 a apavorava. Quando fiz 80, achei horrível. Espero não chegar aos 90. Eu preferiria morrer esta noite. Agora não, porque quero conversar um pouco com você. Quando vocês se forem, eu morro. Eu gostaria. Assisti a várias agonias no curso de minha excessivamente longa vida. Minha mãe acreditava em Deus, eu não. Todas as noites lhe pedia que a levasse durante o sono. Uns meses antes de fazer 100 anos morreu, que era o que queria. Ela acordava de manhã e chorava ao ver que não tinha morrido durante a noite e se preparava para outro dia.

Como é a cegueira?
Uma das primeiras cores que se perde é o negro. Perde-se a escuridão e o vermelho também. Vivo no centro de uma indefinida neblina luminosa. Mas não estou nunca na escuridão. Neste momento esta neblina não sei se é azulada, acinzentada ou rosada, mas luminosa. Tive que me acostumar com isto. Fecho os olhos e estou rodeado de luz, mas sem formas. Vejo luzes. Por exemplo, naquela direção, onde está a janela, há uma luz, vejo minha mão. Vejo movimento mas não coisas. Não vejo rostos e letras. É incômodo mas, sendo gradual, não é trágico. A cegueira brusca deve ser terrível. Mas se pouco a pouco as coisas se distanciam, esmaecem... No meu caso, comecei a perder a vista desde o momento em que comecei a enxergar. Tem sido um processo de toda minha vida. Mas a partir de 55 anos, não pude mais ler. Passei a ditar. Se tivesse dinheiro, teria uma secretária, mas é muito caro. Não posso pagar.

Nunca ficou desesperado por causa da cegueira?
Não. Como foi um processo lento, não houve um momento patético. Mas se uma pessoa perde a vista de repente, pode, inclusive, pensar em suicídio.

O sr. já pensou em suicídio?
Quando era jovem, sim. Mas quando a pessoa é jovem, quer ser o príncipe de Hamlet, Byron, Edgar Alan Poe, ou Baudelaire. Mas agora procuro a serenidade. As pessoas são muito boas para mim. Claro. Sou um velhinho inofensivo. Quem vai me molestar? Não pertenço a nenhum partido político. Sou um velho anarquista spengleriano. Principalmente neste país, as pessoas se interessam muito por política. Eu não. Mas tenho minha consciência tranquila. Falei e escrevi contra Perón. Minha mãe, minha irmã e um sobrinho meu estiveram presos. Ameaçaram-me de morte, mas eu sabia que, se alguém lhe ameaça de morte, você não corre nenhum perigo. Depois vieram todos esses governos. Falei contra o terrorismo, muitas vezes, contra a ditadura militar. Depois escrevi contra uma possível guerra com o Chile. Contra a invasão das Malvinas, escrevi dois poemas e uma milonga, que foi proibida pelo governo.

Pode recitar?
Não me lembro. Tenho um poema que se intitula “Juan Lopez y John Ward”. São dois rapazes, um argentino e um inglês, que poderiam ter sido amigos, mas que se matam na guerra. Tenho uma milonga que se chama “Milonga del Muerto” sobre um soldado que morreu na guerra. As pessoas riem um pouco dessa guerra, mas toda guerra é terrível, até mesmo uma pequena como essa. Morreram 2000 argentinos e 500 britânicos. Conversei com sodados que me disseram que se tivessem um rifle na mão teriam matado seus oficiais. Os sargentos quando viram, fugiram e deixaram os soldados. É que não eram soldados; eram recrutas. Era gente trazida das províncias semitropicais do norte e os mandaram às cercanias do Polo Sul combater soldados verdadeiros. Eram todos rapazinhos de 18 ou 20 anos, ainda que houvesse uma superioridade numérica grande.

Quais foram as grandes sensações de sua vida?
São as grandes sensações da vida de todo homem. O amor, a amizade, a leitura, o gosto por escrever, embora não goste do que escrevo. Nesta casa não há livros meus nem sobre mim. A partir dos 30 anos, não li uma única linha que se escreveu sobre mim. Sei que há bibliotecas inteiras, mas não li nada. Acho que deve-se viver para o futuro. Quando publico um livro, não sei se teve êxito, se está vendendo. O que disse a crítica. Meus amigos sabem que não devem falar do que escrevo.

Por que?
Porque é incômodo falar da própria pessoa. Prefiro falar de outros autores. Deve acontecer o mesmo com outros escritores. Há uma frase muito bonita de Kipling que fala sobre o fracasso e o sucesso. O fracasso e o sucesso são impostores. Ninguém fracassa tanto como imagina. Ninguém tem tanto sucesso como imagina. Além disso, o que importa o sucesso e o fracasso? No fim das contas, todos seremos esquecidos, o que aliás é melhor. Não creio em imortalidade pessoal. Meu pai dizia: “Quero morrer eternamente — corpo e alma”. Segundo a Bíblia, depois dos 70, tudo é aflição. Mas eu diria que antes também. Não é preciso fazer 70 anos para conhecer a aflição. Segundo a tradição, os 33 são a idade perfeita, porque é quando morre Cristo e nasce Adão. Adão nasceu aos 33 anos. Na Idade Média, houve uma discussão muito séria sobre se Adão tinha ou não umbigo. Adão não pode ter umbigo porque não nasceu de mãe, porque foi criado do pó por Deus. Mas, ao mesmo tempo, se lhe falta o umbigo, é imperfeito. Então Adão tem que ter umbigo, embora não tenha tido cordão umbilical. Isto se discutiu com toda seriedade durante muito tempo. Havia teólogos encarniçados em ambos os lados. Sir Thomas Brown, um escritor do século 18, diz “The man without a navel lives in me”. “O homem sem umbigo vive em mim”; ou seja: “Adão vive em mim; sou também o primeiro homem”.

O sr. leu muitos de livros?
Não. Li muito poucos. Sempre reli os mesmos livros. Não conheço a literatura contemporânea. Desde que perdi a vista como leitor em 1955, não li nada de novo.

Mas quando era menino, na biblioteca de seu pai, lia muito?
Não lia muito. Folheava os livros. Não creio que tenha lido quase nenhum livro do princípio até o fim, salvo livros de filosofia. Romances li muito poucos. Para mim, o romancista é Conrad.

O sr. leu pouco, mas sua vida é a literatura. A realidade para o sr. não importa muito. O que importa são as sensações?
Se eu tivesse interesse na realidade europeia, leria jornais. Nunca li um jornal na vida. Pra que lê-los? É tudo bobagem. Só falam de viagens de presidentes, congressos de escritores, partidas de futebol. Por isso gostaria de recuperar a visão para poder folhear um livro, escolher o que vou ler ou omitir. Quase não li romances na vida, fora Joseph Conrad, que para mim é o romancista. Fracassei com grandes romances, com Zachary, com Flaubert.

Mesmo com “Cem Anos de Solidão” o sr. não foi até o fim?
Com “Cem Anos”, não. Completei no máximo 50 anos. Mas é um excelente livro. Gostaria de conhecer o autor.

Não o conhece?
Não tive oportunidade. E possivelmente nunca terei. Ele vive na Colômbia, não? Estive duas vezes na Colômbia. Todo mundo foi muito amável comigo, sobretudo porque sou um ancião inofensivo. Inimigos pessoais não tenho. Às vezes me ameaçam de morte, mas por telefone, o que não tem nenhuma importância. Se uma pessoa quer matar a outra, não avisa porque seria um imbecil. Bem, os assassinos são imbecis.

Queria mudar um pouquinho a assunto. Queria que o sr. falasse do amor.
Ocupou tanto lugar na minha vida, que ocupa pouco em minha obra. Estive casado por três anos e compreendemos que o único modo de continuarmos amigos era a separação. Mas agora também não somos amigos porque não a vejo nunca. Não sei se morreu ou não.

Quer dizer que o sr. acha que o casamento mata mais que o amor?
Três anos de casamento foram um pouco onerosos.

Fale-me de seu sentimento por Buenos Aires.
Mudou tanto a cidade... Já não a conheço... Nasci aqui no centro de Buenos Aires: Rua Tucumán, quatro ou cinco quadras daqui. Toda a Buenos Aires era de casas baixas com terraços, pátios, campainhas manuais. Só havia algumas casas altas perto da praça do Congresso. A cidade toda tinha casas com pátios, poços. Sempre havia uma tartaruga no fundo para comer os bichos: uma espécie de filtro vivo. Buenos Aires mudou completamente. Minha mãe se lembrava des­ta rua sem calçamento.

Mas o sr. é um homem universal, tem todos os sangues...
Não tenho tantos. Meu bisavô era lisboeta. Era Borges de Mon­corvo, uma cidadezinha de Trás-os-Montes. Depois tenho uma maioria de sangue espanhol, uma avó inglesa, algum sangue judaico-português e, muito distante, algum sangue normando dos Bittencourt, uma família de Rouen, noroeste da França. Devo ter ainda algum sangue escandinavo e isto é tudo. Mas eu trato de ser cosmopolita, de ser digno deste planeta.

A sua genialidade vem de que lado?
Não tenho genialidade de ne­nhuma espécie. Sou apenas um pequeno escritor sul-americano, um mínimo argentino.
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Fonte:  http://www.revistabula.com/31/10/2012

Coma os morangos

 Regis Filho / Valor
 Rubem Alves: "Jovem não fala retrato, fala foto. 
Tenho que escrever rápido porque não
 sei quando vou partir"

- “Tempus fugit”. Portanto, “carpe diem”. O tempo voa. Então, colhamos o dia. Vivamos o momento, pois envelhecer é só canseira e enfado. É como a luz do crepúsculo, que vai se transformando rápida e melancolicamente, até o mergulho final na escuridão da noite. O pior da velhice, entretanto, é que as pessoas passam a nos tratar por diminutivos, como fazem com as crianças. “Você está doentinho?” “Quer um docinho?” É humilhante.

Essas  imagens sobre o envelhecer são descritas pelo escritor, psicanalista e teólogo Rubem Alves em seu livro “Pimentas - Para Provocar Um Incêndio Não É Preciso Fogo” (Planeta), no qual trata dessa “fase crepuscular” da vida com poesia, ironia e melancolia. São 74 fragmentos sobre temas variados — educação, política, poesia, céu e inferno e passagens curiosas do Antigo Testamento — de um autor que completou 79 anos em setembro.

Ele soa um pouco triste ao telefone, falando da varanda de seu apartamento, na cidade de Campinas.   “O tempo me foge. Não tenho mais tempo para escrever um romance. Não tenho mais tempo para escrever uma coisa com começo, meio e fim. ‘Pimentas’ é uma coleção de fragmentos - sou um retratista. Outra palavra que revela idade.” 

Leia abaixo a entrevista na íntegra.

Valor: O senhor conta no livro um episódio engraçado sobre um “flerte” no metrô que não terminou como gostaria. Como foi isso?
Rubem Alves: Eu descobri que estava velho numa situação surpreendente. Isso foi há vinte anos. Estava em São Paulo, peguei o metrô, estava lotado. Eu era jovem, pernas fortes, segurei no balaústre e comecei a olhar para os rostos das pessoas. Rostos contam histórias. Olhando para as pessoas você pode imaginar contos, muitas coisas. Eu estava ali, imaginando as crônicas que poderia escrever, quando vi uma moça me olhando com mansidão, quase com ternura. Eu fiquei comovido com aquele olhar. Eu olhava para ela, ela olhava para mim. Percebi que ela devia estar comovida com a minha presença. Houve um momento de suspensão romântica. Pensei: manchete do meu conto — ‘Rubem Alves encontra inesperadamente no metrô o grande amor de sua vida’. Comecei a ter fantasias. Foi nesse momento que ela me fez um gesto de carinho. Ela se levantou e me ofereceu o lugar. Quando ela fez isso, é como se dissesse para mim: o senhor (certamente ela estava pensando em senhor, não em você) não pertence ao meu mundo. O senhor deve ter pernas bambas. Naquele instante eu percebi que estava perto dela, mas estava muito longe dela. Ela era uma moça e eu era um velho. A partir dali o tema da velhice começou a ser importante para mim. Comecei a prestar atenção no que acontece com as pessoas quando elas se descobrem velhas. Fiz então uma série de observações sobre isso. 

 "A percepção é que a hora de partir está chegando.
 O crepúsculo é essa consciência de 
que o tempo passa rapidamente, 
a vida passa rapidamente."

Valor: Cite algumas.
Alves: A gente é velho quando as moças nos oferecem lugar no metrô. A gente é velho quando uma moça lhe dá o braço para ajudar a subir a escada e você tem que aceitar a delicadeza. Eu agora tenho que ter cuidado, tenho que olhar pro chão e medir os meus passos. Coisas que eram naturais - andar, subir escada, descer escada - coisas simples passam a não ser mais.

Valor: Mas o senhor não está se concentrando muito no aspecto físico do envelhecimento?
Alves: É, mas o olhar das pessoas também muda.

Valor: O que muda nesse olhar?
Alves: Você deixa de ser o homem másculo, viril, objeto de contemplação das jovens, e passa a ser um ser crepuscular. O que é o crepúsculo? Nele, o tempo passa muito mais rápido. Neste instante, eu estou sentado aqui na minha varanda, o céu está muito azul, o tempo está parado. Assim é a juventude — na juventude, o tempo para. Mas quando chega o crepúsculo, começa a haver transformações rápidas no céu. Rapidamente, as cores vão se alterando, o azul fica verde, o verde fica amarelo, amarelo fica abóbora, abóbora fica vermelho, o sol está se pondo, tudo fica roxo e logo o céu está mergulhado na escuridão. A percepção é que a hora de partir está chegando. O crepúsculo é essa consciência de que o tempo passa rapidamente, a vida passa rapidamente.

 "Uma das coisas da velhice é o cansaço. 
Dá uma canseira de viver, sabe? 
Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
 Mas a gente não tem mais disposição 
para fazer a obra nascer."

Valor: O senhor cita numa das crônicas o livro de Eclesiastes, quando fala do envelhecer como os anos nos quais o homem não encontra mais prazer nenhum.
Alves: Sim, a gente descobre que o tempo é curto. Aqui na minha varanda tem duas frases que mandei gravar em madeira - Tempus Fugit. Se o tempo foge, eu preciso correr. Então mandei gravar Carpe Diem, colha o dia. Viva o momento. Mas isso dá uma tristeza na gente.

Valor: Envelhecer também não é sobre perder a capacidade de sonhar? A sua escrita, contudo, revela uma pessoa que não perdeu essa capacidade. Que sonhos o senhor tem cultivado?
Alves: Tem uma frase de Fernando Pessoa que diz assim - Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. Talvez essa pressa em produzir tenha a ver com essa sensação de que os dias passam muito rapidamente . Comecei a ler esses dias um livro enorme de John dos Passos, um livro monumental. Eu não tenho mais tempo para escrever livros enormes. O tempo me foge. Não tenho mais tempo para escrever um romance. Não tenho mais tempo para escrever uma coisa com começo, meio e fim. “Pimentas” é uma coleção de fragmentos - sou um retratista. Olha aí, eu já disse uma palavra que revela a idade. Jovem não fala retrato, fala foto. Eu tenho que escrever rápido porque não sei quando é que vou partir.

 "Agora, a felicidade aqui da minha varanda
 é ver os ipês, que teimam em florescer. 
Para florescer eles têm que perder todas as folhas.
 Árvore pelada, na cabeça da gente, 
 está se preparando para morrer. 
Mas em vez de morrer o que os ipês fazem? 
Eles florescem."

Valor: O senhor parece cansado.
Alves: Uma das coisas da velhice é o cansaço. Dá uma canseira de viver, sabe? Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. Mas a gente não tem mais disposição para fazer a obra nascer. A gente tem que agarrar o que resta. Gosto de contar a história de um homem que ia caminhando pela floresta, a mata estava escura. De repente, ele ouve o rugido de um leão e sai correndo, mas como está escuro ele cai num precipício. Ele se agarra a um galho preso no abismo, olha para cima, o leão, para baixo, o abismo; então ele nota que bem à sua frente está brotando um galho com uma fruta vermelha. É um morango. Ele estende o braço e come o morango e se delicia. As pessoas perguntam - qual o final da história? O homem caiu? E eu respondo, não tem final, é só isso mesmo. Você não entendeu? Quem está pendurado sobre o abismo sou eu, é você , todos estamos sobre o abismo, portanto, o que nos resta a fazer é comer os morangos.

Valor: E quais são os morangos que o senhor tem apreciado atualmente?
Alves: São coisas pequenas, simples. Ontem, por exemplo, ouvi pela internet a Pour Elise, de Beethoven, tocada num órgão feito de taças de cristal, um som inesperado, que vai surgindo aos poucos. Qual é a importância disso? Nenhuma! Mas me feliz naquele momento.

Valor: Na realidade, não deveríamos viver sempre desse jeito, ter essa capacidade de tirar alegria de coisas pequenas?
Alves: O Guimarães Rosa tem uma frase verdadeira: alegria, só em raros momentos de distração.  Agora, a felicidade aqui da minha varanda é ver os ipês, que teimam em florescer. Para florescer eles têm que perder todas as folhas. Árvore pelada, na cabeça da gente, está se preparando para morrer. Mas em vez de morrer o que os ipês fazem? Eles florescem. No livro conto a história de uma escola que organizou uma exposição de desenhos dos alunos sobre coisas que escrevi. A professora perguntou para as crianças: quem é Rubem Alves? E uma menina respondeu: Rubem Alves é um homem que gosta de ipês amarelos. Isso é muito comovente.
 
Valor: Algumas crônicas falam sobre educação, de uma maneira crítica, e da proximidade entre velhos e crianças. “As crianças nos salvam de um envelhecimento triste.”
Alves: Os avós estão mais próximos dos netos que os pais. Os pais ficam preocupados em colocar o filho em escola forte, para passar no maldito vestibular. É uma perda de tempo isso, as escolas não ensinam a sabedoria da vida, e os avós não têm tanto essa preocupação com desempenho. A alma dos velhos é muito parecida com a alma das crianças.

 "Quem tem muitas vinganças a realizar 
faz mosaicos de infernos, diz o 
[filósofo Gaston] Bachelard. 
Deus não tem vingança 
nenhuma a realizar. 
Se é que Deus existe. 
Deus não pune nada, 
vai punir o quê?"

Valor: Nos fragmentos, o senhor fala também sobre céu e inferno. Uma frase que me chamou a atenção é: “É inimaginável que um Deus de amor castigue com sofrimentos eternos pecados que foram cometidos no tempo”.  Qual a sua ideia de inferno?
Alves: São Tomás de Aquino tem uma frase horrenda que diz que “Deus e os salvos contemplam, dos céus, os condenados, dos estertores da sua agonia, para que sua alegria se cumpra”. Quem foi que criou o inferno? Não foi o diabo. Se Deus é onipotente, então o inferno é produto da vontade de Deus. Eu já acreditei nisso, sabe? Já perdi o sono por causa disso. Quem tem muitas vinganças a realizar faz mosaicos de infernos, diz o [filósofo Gaston] Bachelard. Deus não tem vingança nenhuma a realizar. Se é que Deus existe. Deus não pune nada, vai punir o quê? Um pobre mortal que foi enrolado pelas artimanhas da estupidez humana? Acreditar que o universo tem essa dimensão de vingança? Deus não está se vingando de seus desafetos. Além disso, os pecados humanos são cometidos no tempo — por uma pessoa que vai viver setenta, oitenta anos. E o inferno é por toda a eternidade, é para sempre. Se eu fosse Deus mandaria um castigo para todas as pessoas que pensaram essas coisas horríveis de mim. O mesmo castigo que aconteceu entre o povo de Israel e os filisteus lá no Velho Testamento. Ele castigou com uma praga terrível — todos os filisteus ficaram tomados de hemorróidas.  Numa região que não tinha nem um riachinho onde pudessem se refrescar.

Valor: O senhor cita esse e outros episódios muito esquisitos do Antigo Testamento. Um deles é sobre o profeta Eliseu, amigo de Elias.
Alves: O que tem de maluquice no Velho Testamento, de maldade... O profeta Eliseu era discípulo de Elias. Eliseu era  vaidoso e tinha muita raiva por ser careca. Mas ele era muito poderoso. Um dia, Eliseu estava caminhando pela estrada e vinham em sua direção 42 crianças, que começaram a rir dele. Sabe o que ele fez? Ele invocou o poder de Jeová, que fez sair do mato duas ursas que devoraram as crianças. E o profeta, sem se comover com isso, simplesmente continuou a sua caminhada. Não fez nada para defendê-las. Tá lá na Bíblia.

 "As mudanças vêm de dentro, quando alguma coisa começa a operar dentro da gente e a gente 
 começa a perceber os absurdos."

Valor: É difícil convencer as pessoas que o Deus do Antigo Testamento é o mesmo do Novo Testamento?
Alves: Ah, eu não tento mais convencer ninguém de nada. As pessoas acreditam no que querem acreditar. As mudanças vêm de dentro, quando alguma coisa começa a operar dentro da gente e a gente começa a perceber os absurdos. Tem que separar o trigo do joio. Na Bíblia tem coisas lindas - o Senhor é meu pastor, nada me faltará, conduz-me por águas tranquilas.. Ainda que  eu ande pelo vale da sombra da morte não temerei mal algum porque tu estás comigo ...

Valor: Pura poesia.
Alves: Poesia. Veja o que aconteceu bem agora. Aqui na minha varanda, acabo de ouvir um barulho. Olhei e vi que tinha entrado uma cigarra pela janela. Você sabe que as cigarras são seres subterrâneos, elas vivem nas raízes das árvores. Elas não veem nada. Mas há um momento em  que alguma coisa diz para esses seres subterrâneos: cigarra, está na hora de se transformar num ser alado. Então elas saem da terra, sobem o tronco das árvores, tiram a casca dura que as envolve e ganham asas. Daí elas cantam, cantam, cantam. Cantam para quê? Para celebrar o amor, para chamar os machos. Depois de realizar o amor, elas esperam a morte.

Valor: Por que razão o senhor terminou um livro tão poético com um assunto tão árido quanto a diabetes?
Alves: Para chamar a atenção dos diabéticos para o fato de que eles e eu estamos pendurados sobre o abismo e vai chegar a nossa hora. E por isso a gente precisa tomar cuidado, a menos que você queira morrer. Para dizer às pessoas que vivam bem. Cuidem da vida, não vão comer bombom, porque bombom é bom, mas melhor é ficar vivo.
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Reportagem Por Marília Camargo Cesar | Valor
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Imagem :ipê amarelo, da Internet

Mecânica quântica explica a existência da alma?

Guilherme de Souza* 


m 31.10.2012 as 17:00
Em uma tentativa de inserir na ciência os conceitos de “alma” e “consciência”, os cientistas Stuart Hameroff (diretor do Centro de Estudos da Consciência na Universidade do Arizona, EUA) e Sir Roger Penrose (físico matemático da Universidade de Oxford, Inglaterra) criaram a teoria quântica da consciência, segundo a qual a alma estaria contida em pequenas estruturas (microtúbulos) no interior das células cerebrais.

Eles argumentam que nossa “consciência” não seria fruto da simples interação entre neurônios, mas sim resultado de efeitos quânticos gravitacionais sobre esses microtúbulos – teoria da “redução objetiva orquestrada”. Indo mais longe: a alma seria “parte do universo” e a morte, um “retorno” a ele (conceitos similares aos do Budismo e do Hinduísmo).

De acordo com Hameroff, experiências de quase morte estariam relacionadas com essa natureza da alma e da consciência: quando o coração para de bater e o sangue deixa de circular, os microtúbulos perdem seu estado quântico. “A informação quântica contida neles não é destruída, não pode ser; apenas se distribui e se dissipa pelo universo”.

Se o paciente é trazido da beira da morte, essa informação volta aos microtúbulos. “Se o paciente morre, é possível que a informação quântica possa existir fora do corpo, talvez de modo indefinido, como uma alma”, acrescenta.

Embora a teoria ainda seja considerada bastante controversa na comunidade científica, Hameroff acredita que os avanços no estudo da física quântica estão começando a validá-la: tem sido demonstrado que efeitos quânticos interferem em fenômenos biológicos, como a fotossíntese e a navegação de pássaros.

Vale ressaltar que Hameroff e Penrose desenvolveram sua teoria com base no método científico de experimentação e em estudos feitos por outros cientistas, ao contrário do que ocorrem em casos de “pseudociência” em que simplesmente se acrescenta a física quântica como “ingrediente legitimador” de teorias sem fundo científico. Basta aguardar para ver se outros experimentos e estudos validam as descobertas da dupla.

Confira um vídeo sobre a pesquisa de Hameroff e Penrose (conteúdo em inglês):
http://www.dailymail.co.uk/sciencetech/article-2225190/Can-quantum-physics-explain-bizarre-experiences-patients-brought-brink-death.html?ITO=1490
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*Jornalista empenhado e ilustrador em treinamento. Curte ciência, cultura japonesa, literatura, jogos de videogame e outras nerdices. Tem alergia a música sertaneja e acha uma pena que a Disco Music tenha caído no esquecimento.
Fonte: http://hypescience.com/31/10/2012

Bruxas ou Bíblia?

  Felipe Lemos*
Doces ou travessuras? É a pergunta tradicional feita há muitos anos por crianças em várias partes do mundo, inclusive em alguns lugares do Brasil, no tal Halloween ou Dia das Bruxas, que é lembrado no 31 de outubro. Não se sabe bem a origem da data, mas tem a ver com cultos pagãos da antiga Europa e com tradições que conduzem ao Dia dos Mortos. Pessoas, sobretudo os pequenos, saem de casa fantasiadas de bruxas ou bruxos, ou mesmo de monstros, em uma estranha honra ou reconhecimento a algo que talvez nem entendam exatamente do que se trata. 
 
Enquanto isso, do outro lado da rua, em uma igreja cristã, a amnésia histórica tomou conta dos cristãos que, um dia, de alguma forma, estiveram ligados a um episódio emblemático ocorrido também num 31 de outubro (de 1517), no distante castelo de Wittenberg, na Alemanha. Ali, um monge questionador e sincero temente a Deus, chamado Martinho Lutero, afixou na porta do castelo o que se convencionou chamar de as 95 teses sobre justificação pela fé. Talvez não saibamos de memória o conteúdo do que Lutero escreveu, mas sabemos que ele questionava atitudes, conceitos e ensinamentos contrários à Bíblia. E mais ainda: ele exaltava a Bíblia como regra de fé para os que se dizem seguidores de Cristo. 
Mas a pergunta hoje é outra. Aliás, há outras indagações. O que está sendo mais bem promovido: o Halloween ou a Reforma Protestante? O que é mais lembrado pela sociedade, especialmente a que se autodeclara cristã e conhecedora da Bíblia Sagrada? 
O tempo vai passando, mas o Halloween é visto na TV, nas lojas de brinquedos, nos adereços dos supermercados, dos shoppings, nas escolas e ouso até acreditar que em algumas igrejas. A atmosfera do Dia das Bruxas é sentida em vários ambientes e trata de impregnar a todos quantos for possível. Virou moda. É produto tipo exportação para crianças e adolescentes que sabem o que devem fazer nesse dia se quiserem estar em harmonia com a data, mas não sabem, talvez, quem foi Lutero, desconhecem o que diz na Bíblia e são hesitantes ao falar do próprio Jesus Cristo. 
Não adianta culpar a Europa antiga e nem a atual por seu desprezo à origem protestante. A responsabilidade é minha e é sua também, que está lendo esse texto. O cristianismo bíblico precisa estar na mente da sociedade, especialmente de crianças, adolescentes e jovens. A Bíblia, contudo, será lembrada com amor, carinho e interesse se for realidade para esse grupo. Eles precisam ver exemplos de adultos, pais, professores, líderes, que realmente consideram o livro sagrado do cristianismo como algo sagrado mesmo. Sagrado, não porque seja intocável, mas porque é a Palavra de Deus válida para hoje e para sempre. Palavra que levou um homem solitário como Lutero a escrever cartas ao líder máximo de sua igreja, à época, pedindo que se observassem os ensinos ali contidos. Que o levou a defender a fé inabalável em Jesus Cristo como suficiente para salvação sem necessidade de indulgências, obras de sacrifício físico, misticismos inventados por inescrupulosos aproveitadores do fervor sincero. 
E então? A maior propaganda da Bíblia parece ser uma vida em harmonia com ela. Halloween é forte, principalmente porque o espírito de reformadores, como Lutero, hoje é fraco. Na falta de seguidores fieis e equilibrados da Bíblia, o povo prefere bruxas, doces e travessuras no 31 de outubro. 
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(Felipe Lemos é jornalista e assessor de imprensa da Igreja Adventista na América do Sul)
Fonte:  http://www.criacionismo.com.br/2012/10/31