sábado, 3 de novembro de 2012

Felicidade pode ser fugaz, mas ainda será

J. J. CAMARGO*

 

A medicina nunca se cansou de buscar soluções para interromper a dor, nossa feroz e eterna inimiga.

No final dos anos 70, alguém propôs uma técnica interessante, ainda que os benefícios fossem muito pouco duradouros.

A injeção intraraquidiana de soro fisiológico gelado determinava alívio satisfatório de dores intratáveis, como as decorrentes de invasão da coluna vertebral.

Numa época em que ainda não se conhecia os prodígios da analgesia peridural com morfina ou derivados, isto pareceu um avanço significativo. O método foi testado em dois pacientes com tumores avançados de esôfago e de pâncreas e o alívio doloroso foi imediato, ainda que o efeito desaparecesse depois de cinco ou seis horas.

Quando entrei no quarto do Camilo, portador de um câncer terminal com incontáveis metástases ósseas na coluna, ele estava encolhido, virado para a parede. Nos olhos inchados, havia uma dor multiplicada. Na final daquela tarde, a filha caçula casaria numa capela da Vila Assunção e ele não tinha a mínima condição de acompanhá-la ao altar. Impossível não sofrer com aquele sofrimento.

Saí do quarto estimulado por uma ideia meio louca: nós podíamos tentar colocá-lo naquela igreja. Esta que seria a última coisa maravilhosa de uma vida que fracassáramos em evitar que terminasse. E ele merecia isso.

Depois de conseguir a cumplicidade do anestesista e a parceria solidária do residente de plantão, anunciamos o projeto ao pobre homem, que chorava de dor e ria um riso de criança, imaginando a surpresa que haveria de causar. Um irmão foi convocado para buscar o seu melhor terno, cortou cabelo e barba e incorporou-se à trama caridosa.

As roupas trazidas eram do tempo de bonança, mas ataduras e compressas encheram os vazios de tronco e membros consumidos pela doença. Um pouco de ar injetado no pescoço encostou a pele no colarinho folgado e umas massagens enérgicas nas bochechas, agora sorridentes, devolveram um rosado saudável.

Com os cúmplices nas laterais, Camilo entrou na igreja com um sorriso capaz de suplantar ao de uma noiva muito feliz. Impressionante como alegria e gratidão reunidas na mesma cara, dão às pessoas um indiscutível ar de saúde. O festival de abraços na saída da igreja deixou uma lição definitiva: a felicidade não se mede por duração, mas por intensidade.

Quando ele voltou ao hospital, tarde da noite, pediu uma dose generosa de morfina porque a danada recomeçara e ele confessou que nunca se sentira tão cansado.

Antes de dormir, fez o plantonista prometer que, acontecesse o que acontecesse, a sua família não deveria ser avisada antes das nove horas da manhã.

Uma lua de mel sem notícias ruins seria seu último presente à filha amada.

Felicidade é urgente. A tristeza pode esperar.
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* Médico.
Fonte: http://www.clicrbs.com.br/zerohora/03/11/2012

Ricos deveriam se unir para combater crise mundial, diz ministro alemão

 G20
 Ministro alemão da Economia, Scheuble defende rigor fiscal mesmo com recessão

Os Estados Unidos e o Japão deveriam compartilhar com a Europa a responsabilidade por garantir a estabilidade econômica mundial, disse o ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schaeuble, indicando que a reunião do G20 neste fim de semana não deveria se concentrar somente na crise da zona do euro. Em uma entrevista concedida antes do encontro de ministros das finanças e chefes de bancos centrais do Grupo dos 20 no México, Schaeuble afirmou que as principais economias têm de promover reformas estruturais e consolidação fiscal para retomar a confiança do mercado e construir um crescimento sustentável.

O ministro disse ainda em respostas por e-mail a questões enviadas pela Reuters que não vê perigo de atraso na introdução das normas de Basileia III sobre o capital dos bancos, que devem começar a ser postas em prática em fases a partir de janeiro. Schaeuble não quer que o encontro de dois dias do G20, na Cidade do México, se concentre exclusivamente na crise da zona do euro em detrimento de outras questões urgentes, tais como o “abismo fiscal” enfrentado pelos Estados Unidos e os problemas da dívida do Japão.

– Os Estados Unidos e o Japão têm uma responsabilidade tão grande quanto os europeus (para assegurar a estabilidade). As economias do G20 têm de retomar decididamente a confiança por meio de reformas estruturais e políticas financeiras sustentáveis. Esta é a precondição mais importante para o fortalecimento das condições econômicas globais. Sem consolidação e reformas nós corremos o risco de mais perda de confiança e crescimento ainda menor. Nenhum crescimento sustentável pode ser construído sobre uma montanha de dívida – declarou o ministro, conhecido por sua defesa do rigor fiscal mesmo em épocas de recessão.

Nos Estados Unidos, a legislação existente vai elevar impostos e cortar gastos na casa dos 600 bilhões de dólares em 2013, a menos que os deputados tomem alguma medida. No entanto, republicanos e democratas ainda têm de chegar a um acordo sobre ações para evitar o “abismo fiscal”, que poderia levar à contração da economia.

O G20, que reúne as economias mais ricas e as emergentes, terá de avaliar seu progresso com base nas metas fixadas em sua cúpula de Toronto, dois anos atrás, acrescentou o ministro alemão. Na ocasião, os países desenvolvidos se comprometeram a cortar pela metade seu déficit orçamentário até 2013 e estabilizar a carga da dívida até 2015.

Espanha e Grécia

Schaeuble vem assumindo uma linha dura em relação à Grécia e outros membros mais fracos da zona do euro nestes três anos da crise da dívida soberana na região, insistindo em medidas de austeridade mesmo num momento em que suas economias mergulham mais fundo na recessão.

Mas ele fez comentários mais amenos sobre a Espanha, ao dizer que está no “caminho certo” e há sinais – vistos por exemplo na redução dos custos salariais e na conta corrente – de que os balanços da economia estão melhorando.
Schaeuble reiterou que a Grécia, ainda emperrada em conversações difíceis com seus credores internacionais, com a finalidade de evitar a bancarrota, tem de implementar as duras medidas que prometeu.
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Por Redação, com agências internacionais - de Berlim -02/11/2012
Fonte:  http://correiodobrasil.com.br/ricos-deveriam-se-unir-para-combater-crise-mundial-diz-ministro-alemao/539588/#.UJSsk4UVky4

Edgar Morin: “O perigo pode nos salvar”

O filósofo francês Edgar Morin (Foto: Pedro Abude) 
 

O pensador francês diz que o risco de uma catástrofe global pode oferecer novo rumo à humanidade


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O pensador francês Edgar Morin, de 91 anos, é dono de incontáveis memórias. Filho único de uma família judia, testemunhou, quando jovem, em Paris, a expansão nazista de Adolf Hitler. Na Segunda Guerra Mundial, a fim de combater os alemães, foi para o campo de batalha pela Resistência Francesa. Aderiu, em 1941, ao Partido Comunista, do qual seria expulso anos mais tarde por criticar Josef Stalin. Assumiu-se ateu. Escreveu dezenas de livros que viraram referências para universidades de todo o mundo. Criou teorias influentes, como a do “pensamento complexo” — que disseca a racionalização humana. Criticou sistemas econômicos e políticos. Hoje fala dos perigos do progresso tecnológico.
Tido como um dos grandes intelectuais vivos, Morin está no Brasil para trazer à tona algumas dessas passagens de sua vida. Ele está lançando, pela editora SESC SP, três volumes em português de seus Diários: Diário da Califórnia (256 páginas, R$49), Um ano sísifo (560 páginas, R$59) e Chorar, amar, rir, compreender (404 páginas, R$49). Escritos em diversas etapas da vida do autor, as obras misturam reflexões de fatos históricos com passagens da vida particular, como a traição de um amigo e a doença de sua mulher, Edwige, que morreu em 2008.
De fala pausada e olhar sereno, Morin concedeu uma entrevista a ÉPOCA, no hotel em que está hospedado, em São Paulo, onde disse como enxerga o futuro da humanidade. Para ele, que se define com um “otipessimista”, a grande saída para um mundo próspero continua sendo a educação. Quer que o mundo faça uma reforma completa no sistema educacional. “Hoje só há os especialistas que veem os problemas em pedaços”, diz. “Os conhecimentos fragmentados nos impedem de ver e conceber os problemas fundamentais, que são globais.”

ÉPOCA - Em muitos de seus artigos, o senhor afirma que o mundo está caminhando rumo ao abismo. Sintomas disso são as guerras religiosas, as catástrofes ambientais e as crises financeiras. É possível frear essa autodestruição?
Edgar Morin -
Espero que sim. A experiência histórica mostra que as mudanças chegam de modo que nenhuma previsão é capaz de captar. Pense nos períodos antes das religiões. Precisou haver uma pessoa marginal, desviante, como Buda, Jesus Cristo ou Maomé, para que surgissem. O mesmo vale para os sistemas políticos. O capitalismo surgiu com o avanço das técnicas no mundo feudal. O socialismo começou com três ou quatro pensadores e em 20 anos ganhou força. Todos esses exemplos surgiram de forma inesperada, contra a corrente. Então, se agora não podemos ver uma possibilidade de mudar, não significa que não exista. Temos que ampliar nossas visões. Agora não temos uma consciência geral de como lidar com todas as ameaças: econômicas, ambientais, entre outras. Tenhamos como o exemplo o tema da biosfera. Em junho, houve a Rio+20, onde não se chegou a um acordo global. Isso só ocorreu porque os interesses nacionais e particulares são mais fortes que o interesse comum e global. Somente com o agravamento da situação global chegaremos a essa consciência em comum. Há uma frase do poeta alemão Friedrich Hölderlin (1770-1843) que resume: “Onde há perigo, cresce também o que salva”. O perigo pode nos salvar. Acredito que, quando se faz presente, o perigo dá uma possibilidade de consciência de ação. Estamos chegando a esse período. É um terreno instintivo, e a regeneração é sempre mais lenta. Espero que mudemos com o crescimento dos perigos.

ÉPOCA - Desde 2008, passando pelas manifestações do ano passado até a crise econômica nos países europeus, muito se falou em sinais de um colapso do capitalismo. O senhor acha que pode haver um sistema mais eficaz?
Morin -
O modo fundamental para impedir a dominação e a especulação financeira nas várias nações do mundo é a criação de um novo meio de tomada de decisões em nível planetário. As nações não têm poder suficiente para impedir as multinacionais. Temos a necessidade de organizarmos instituições comuns que não existem na ONU (Organização das Nações Unidas) para tratar dos problemas mais perigosos, complexos e terríveis do nosso tempo — como o controle das armas nucleares.

ÉPOCA - Qual é o papel do intelectual no mundo atual?
Morin -
O papel dos intelectuais é expor os problemas fundamentais e globais para todo ser humano. Eles devem olhar para as tensões. Hoje só há os especialistas que veem os problemas em pedaços. Nosso sistema de educação também é de separação. Os conhecimentos fragmentados nos impedem de ver e conceber os problemas fundamentais, que são globais. Existe uma reforma do conhecimento que é necessária, e este é também o papel dos intelectuais. Mas não basta os intelectuais exporem os problemas fundamentais. Precisam não se iludir. No passado, muitos intelectuais se iludiram. 

 "As pessoas buscam esperança e salvação. 
A questão do nosso tempo é encontrar 
um caminho que não seja de ilusão."

ÉPOCA - Como evitar as ilusões? A reforma na educação que você propõe teria esse papel?
Morin -
Fiz três livros sobre as necessidades de uma reforma na educação. É mais do que uma revolução pedagógica. Hoje todos os sistemas educacionais fazem uma separação dos saberes em compartimentos. Precisamos religá-los para que as mentes possam conceber e tratar problemas fundamentais e globais. Devemos introduzir na educação questões como a possibilidade de equivocar-se e de encontrar conhecimentos pertinentes. Também temas como a limitação da compreensão humana, o aprendizado para enfrentar incertezas e a compreensão do significado de uma mundialização de uma história planetária. São tópicos fundamentais para nos dar a possibilidade de enfrentar os problemas vida. Precisamos de tudo isso para um futuro melhor.

ÉPOCA - Nos últimos anos, vemos uma popularização dos livros de autoajuda. Muitos autores agrupam temas como filosofia e sociologia, simplificando-os em passos simples para uma vida prática. Como o senhor vê esse movimento?Morin - Vivemos uma época de impulsos, de interrogações, de medos. Nesse momento as pessoas procuram caminhos e salvação. É evidente que chegam os profetas. Grandes, pequenos e os falsos profetas. É normal isso. Muitas crenças do passado, sabemos, foram grandes ilusões. As pessoas buscam esperança e salvação. A questão do nosso tempo é encontrar um caminho que não seja de ilusão. 

ÉPOCA - O senhor também se mostra um crítico do progresso tecnológico. Em meio a tantas descobertas, o senhor vê questões preocupantes que deveriam ser abordadas com mais frequência. Por quê?
Morin -
O progresso tecnológico e científico tem duas cargas distintas: uma benéfica e outra de manipulação. É o caso do descobrimento da energia nuclear, que também era e é utilizada para criar armas de destruição em massa. Tem também as manipulações múltiplas de cérebro, da genética e muitos outros perigos que se apresentam como benévolos. Nós vemos tudo a partir de uma ciência biológica que está contaminada pelo proveito do capitalismo. Há muitos interesses por detrás. Quanto ao avanço da tecnologia e da inteligência artificial, a questão é sempre dominá-las e não ser dominados por elas. Penso que é uma luta permanente.
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Reportagem por  GUILHERME PAVARIN
Fonte:  http://revistaepoca.globo.com/cultura/noticia/2012/10/edgar-morin-o-perigo-pode-nos-salvar.html

“É o aquecimento global, estúpido!”

 
A capa da revista americana Bloomberg Business Week apenas diz “É o aquecimento global, estúpido!” sobre uma foto de Nova York inundada pela passagem do furacão Sandy. A reportagem mostra como alguns cientistas relacionam a força do furacão às mudanças climáticas provocadas pela humanidade – em especial pelos próprios americanos. A frase é uma alusão ao slogan da campanha de Bill Clinton contra George Bush (pai). Na ocasião, a campanha de Clinton repetia: “É a economia, estúpido!”, para justificar a ênfase nas questões econômicas. A frase virou um bordão da política. Agora, às vésperas da eleição presidencial nos EUA, o furacão pode balançar as convicções dos eleitores. Em um ano marcado por um recorde de calor, por secas sem igual e agora pelo furacão, os americanos começam a aceitar a realidade das mudanças climáticas. Resta ver como isso se reflete nas urnas.
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Fonte:  http://www.criacionismo.com.br/2012/11/02

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Longa do Pablo Trapero recupera trabalho social de padres em favelas .

 
Trapero orienta Martina, sua mulher, Renier e Darín no set de “Elefante branco”, novo filme do diretor sobre a dura realidade argentina
Foto: Divulgação
 Trapero orienta Martina, sua mulher, Renier e Darín no set de “Elefante branco”, 
novo filme do diretor sobre a dura realidade argentina. Divulgação

Quando “Elefante branco” estreou nos cinemas de Buenos Aires, em maio passado, o filme do argentino Pablo Trapero, que chega às salas brasileiras nesta sexta-feira, disputou público em pé de igualdade com “Os Vingadores”, o blockbuster sobre a liga de super-heróis americanos. Um feito surpreendente para uma produção local, de orçamento modesto, sobre dois padres que lutam contra todas as dificuldades para implantar projetos sociais dentro de uma favela nos arredores da capital argentina.

— Foi uma boa surpresa, porque não se trata de um filme comercial, e seus protagonistas não são, necessariamente, personagens atraentes ao gosto popular. As comunidades miseráveis e violentas também não são um fenômeno novo na Argentina, ele só se agravou com a crise econômica de 2001. Mas acho que os argentinos estão começando a entender que é preciso ver o que está acontecendo com o país, e que o presente está relacionado ao passado — diz o diretor de 31 anos.

O título refere-se a uma construção faraônica, iniciada no final dos anos 1930, destinada a abrigar o maior hospital da América Latina, projeto abandonado pelos governos que se sucederam. O prédio virou abrigo para sem-teto e, eventualmente, acabou atraindo populações carentes, muitos vindo de fora da província, e até imigrantes pobres de outros países, dando origem a uma das mais populosas favelas da cidade, abrigo também de traficantes e usuários de drogas.

Nos anos 1970, durante a ditadura militar argentina, padres progressistas iniciam ações sociais na área, mas acabam encontrando oposição dentro da própria Igreja Católica e interferências do tráfico.

Dono de um cinema atento às realidade social do país, Trapero tenta problematizar todas essas questões na história do padre Julián (Ricardo Darín, ator-fetiche do diretor), que convida um amigo de longa data e de lutas sociais, o padre Nicolás (o belga Jéremie Renier, ligado ao cinema dos irmãos Dardenne), para ajudá-lo na construção de casas populares na favela. Nicolás acaba de sobreviver ao massacre de uma vila no interior da floresta amazônia, perpetrado por milicianos.

— Na Argentina dos anos 1970, havia dois tipos de Igreja, uma de direita, que apoiava os militares, e outra de esquerda, representada por padres argentinos e de outros países do Terceiro Mundo, que realizavam trabalhos sociais em fábricas e bairros pobres, em diferentes regiões do país. Os padres revolucionários eram vistos como párias por todo mundo; hoje em dia são reconhecidos por seu trabalho social. Julián é um herdeiro desse grupo — explica o autor de “Leonera” (2008) e “Abutres”(2010).

Sentimento de culpa

Coescrito por Trapero, Alejandro Fadel, Martín Mauregui e Santiago Mitre, “Elefante branco” entrelaça o drama social de uma comunidade inteira com os destinos de seus mais dedicados salvadores. Ao convidar Nicolás para ajudá-lo em sua missão paroquial, padre Julián, na verdade, tenciona preparar o amigo para substituí-lo como líder religioso dentro da comunidade. Ao mesmo tempo em que Nicolás nutre um grande sentimento de culpa por ter sobrevivido ao massacre e luta contra a atração que sente por Luciana (Martina Gusman, mulher do diretor e atriz de seus filmes), assistente social que apoia a causa de Julián, o jovem padre se envolve cada vez mais no dilema da construção de habitações populares, paralisado por falta de fundos do governo. Os problemas pessoais e comunitários acabam saindo do controle dos obstinados protagonistas, rumando para um desfecho trágico.

— O filme não é sobre nossa situação social em si, mas sobre personagens opostos, pessoas que vivem das tragédias dos outros — entende Trapero. — Aqui, os protagonistas dão suas vidas para melhorar a de outras pessoas menos favorecidas. Eles põe a própria vida em risco pela causa. Nos dias de hoje, essa atitude pode ser vista como ingênua, não só na Argentina, mas no mundo inteiro. Estão, portanto, mais próximos da ficção do que da realidade.

Embora tenha ganhado fama internacional contando histórias sobre o lado menos glamouroso da realidade argentina — “Elefante branco” faria parte de uma trilogia sobre o lado de Buenos Aires que não estão nos catálogos turísticos da cidade, iniciado com o filme “Leonera” —, Trapero foge do rótulo de cineasta militante. Refuta mesmo a ideia de uma ponte com os filmes de fundo neorrealista dos Dardenne, simbolizada pela presença de Renier no elenco de “Elefante branco”.

— Há uma grande tradição no cinema da América Latina de temas sociais e político. O que não gosto nesse tipo de cinema é quando os temas vêm antes do filme. Não sou uma sociólogo, um jornalista ou advogado para fazer uma denúncia. Já se fizeram muitos filmes que reclamavam sobre a realidade, e ninguém quis vê-los, porque não foram feitos da maneira apropriada. Cinema tem linguagem e regras próprias, elas têm que vir antes do assunto.
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Morte anunciada de um canalha


Eduardo Levy*

A obsessão pela vida privada de ricos e poderosos

O americano não é mais curioso pela vida dos ricos e poderosos do que o brasileiro. Muito menos do que os italianos de Fellini, que popularizou o termo “paparazzo”, ou do que os ingleses, que definiram a audácia e violência com que o negócio hoje funciona. Sim, um negócio que paga centenas de milhares de dólares por uma foto escandalosa e tesouros de similar valor por fofocas que estimulem o interesse dos leitores e espectadores.
Mas os americanos desenvolveram a mórbida relação de amor e ódio com os famosos e a alimentam todos os dias. Fingem que não passa de boa intenção, de como veem em alguém caído no chão a oportunidade de oferecer segunda chance. Bobagem. O americano, em geral, não é bem-intencionado. Mas povo algum é mais rápido em afirmar o contrário. Eles adoram ver o acidente de trem de pertinho, gostam da morte anunciada, dos altos muito altos somente para a queda ser maior. Caso recente: Charlie Sheen.

Charlie Sheen enlouqueceu de vez há cerca de dois anos. Com histórico de exageros, era uma questão de tempo para que a bomba-relógio explodisse, acelerada pelo interesse do público e consequente sucesso de sua sitcom, “Two and a half men”. Quanto mais parecia se enrolar, mais atraía a atenção. Parou na cadeia diversas vezes, centros de reabilitação para dependentes de drogas e sexo (*), até que passou dos limites já dilatados, e o estúdio se viu obrigado a demiti-lo. Era, então, o ator mais bem pago da televisão, ganhando uma besteira de US$2 milhões por cada episódio.

O mundo de Charlie finalmente veio abaixo. Por um breve momento. Logo os tabloides e talk shows passaram a oferecer pequenas fortunas para que o ator desse entrevista. Seus agentes e assessores de imprensa criaram um monólogo baseado em suas aventuras com o qual Charlie percorreu teatros de Leste a Oeste do país sempre com lotação esgotada, e uma nova sitcom foi criada como seu veículo de “volta” ao olimpo da TV. “Anger management”, “Tratamento de choque” no Brasil, foi desenvolvido e gravado às pressas e lançado no verão daqui com audiência recorde. Os índices foram caindo rapidamente, mas mesmo assim a Fox, dona da FX, se viu forçada a comprar mais 90 episódios ao final da primeira temporada, termos absurdos em um mundo em que shows de verdadeiro valor artístico são cancelados depois de poucas semanas se não provarem que têm tração.

Fico imaginando se (quando), caso os números continuem a cair nas próximas temporadas, algum executivo vai achar a maneira de fazer Charlie implodir. Afinal, é fórmula de sucesso. Difícil vai ser encontrar algo original: ele já fez parte de uma rede de prostituição, distribuição, uso e abuso de drogas e álcool, foi acusado de violência física contra mulheres. Só coisa boa que merece a nossa atenção, não é?

Essa obsessão não é exclusiva. Muitos vieram antes dele com resultados diversos, devo reconhecer. Robert Downey Jr. — esse, sim, verdadeiramente talentoso, mas com tendências autodestrutivas — aprontou e reaprontou. Tirou o maior proveito de sua segunda chance, reergueu a carreira e hoje é dos atores mais requisitados mundo afora. Já Lindsay Lohan abusou de sua segunda, terceira, quarta e quinta chances. Expulsa de sets de filmagem, restaurantes ou hotéis, a menina-prodígio esqueceu que não é mais menina e até os paparazzi parecem ter se cansado de suas travessuras. As tentações são muitas, ainda mais quando todos ao seu redor dizem que você é um deus ou deusa, que tudo pode, que todos te amam e nada pode impedir sua ascensão.

O amor virá ódio, o ódio, pena, e a pena, amor novamente. Afinal, essa terra tão justa oferece aos seus filhos todas as oportunidades. É o acidente de carro com mortos e feridos na autoestrada. Todos param para ver. É a condição humana e, ainda mais predominante, na sociedade americana.

Relendo o que escrevi até aqui, acho que minha posição não está muito clara: não estou criticando Charlie ou mesmo o mundo onde vivo. Estou apresentando os fatos e também gostaria de tirar proveito. Assim sendo, informo que Leopoldo foi preso por agressão a um policial ontem pela manhã, morrerá de overdose de heroína amanhã, sexta-feira, providencialmente no Dia de Finados. A ressuscitação acontece domingo às 13hs, mas pode atrasar até o fim da tarde se der praia. A partir de segunda-feira os interessados com propostas para cinema e comerciais devem entrar em contato diretamente com a redação do jornal. Obrigado.

(*) dependente de sexo no Brasil também é conhecido por outro termo científico: homem.
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* Colunista do Jornal o Globo


Vergonha alheia

 Luciano Pires*


Sigo com interesse o programa The Voice Brasil na Rede Globo. Programas de calouros são criação do rádio, muito anteriores ao surgimento da televisão. Existe até uma história muito saborosa envolvendo Elza Soares e Ari Barroso em 1950. Elza, com 13 anos de idade e um filho doente que viria a morrer de fome, foi como caloura ao programa que Ari apresentava na Rádio Tupi. Elza, uma menina pobre, magrinha e mal vestida, ao entrar foi recebida com uma pergunta pelo apresentador:

- De que planeta você vem, minha filha?

- Do planeta fome.

O resto é história.

Qualquer brasileiro que ouviu rádio ou assistiu televisão nos últimos 80 anos sabe o que é um programa de calouros. A pessoa acha que tem algum talento e se apresenta para um grupo de “jurados” que premiará ou punirá a performance. Não sei como era antes, mas lembro de vários programas, especialmente do Chacrinha, um dos que mais abusava dos calouros, levando pessoas sem qualquer talento para serem ridicularizadas em público. Aquilo era divertido e no meio das baixarias sempre aparecia alguém que fazia o velho guerreiro perguntar:

- Vai para o trono ou não vai?

A alma daqueles programas era a vergonha alheia que sentíamos por gente que soltava a voz desafinada em público. E quanto mais feia, mal vestida e desengonçada a pessoa, mais sucesso fazia. 

 "E parece haver um prazer mórbido em ver alguém passar um constrangimento. Não é que gostemos de ver, é que a situação nos traz o prazer do alívio daquele
 “ainda bem que não foi comigo.”


A vergonha alheia é causada pelos tais neurônios-espelho, que simulam em nosso cérebro as mesmas sensações de medo, prazer, alegria e vergonha que observamos em outras pessoas. E parece haver um prazer mórbido em ver alguém passar um constrangimento. Não é que gostemos de ver, é que a situação nos traz o prazer do alívio daquele “ainda bem que não foi comigo.”

Mas os marqueteiros da mídia há muito descobriram essa fascinação mórbida e tiram todo proveito para garantir audiência. Ou as vídeo-cassetadas do Faustão são o quê? O processo de seleção de programas como Ídolos? As bebedeiras e baixarias do Big Brother Brasil? Claro, a cada demonstração de constrangimento alheio a audiência sobe...

Muito bem. Mas o The Voice Brasil é diferente. O programa é focado no mérito e não tem um processo de seleção que mostra gente ruim. Os “calouros” são de altíssima qualidade, gente que canta excepcionalmente bem. O resultado é que não existe vergonha alheia, só admiração plena e a torcida pelos melhores entre os melhores. Raul Gil tem há anos algo parecido em seu programa, mas sem a plástica, sem a audiência, sem a produção e o enredo que a Globo apresenta.

Quanto termino de assistir ao The Voice Brasil, fica a sensação boa de ter visto gente competente desempenhando seu melhor. Muito melhor que sentir vergonha alheia.

Não haverá uma lição aí?
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*Luciano Pires é editor do Café Brasil. Publica seus artigos às sextas-feiras.
Fonte: http://www.portalcafebrasil.com.br/02/11/2012