segunda-feira, 13 de março de 2017

Marcos Piangers: “Somos a melhor geração de pais, a mais esforçada e a mais preocupada”

É defensor dos pais participativos e vira as costas 
às mentiras da paternidade. O humorista e autor 
do livro "O Pai é Top" explica porque é 
que ainda há pais reféns dos 
preconceitos do passado.
É difícil não ficar a olhar para ele: os olhos são claros como a água e a barba empresta-lhe algum carisma. Marcos Piangers fala com vontade e ritmo, e não tem receio de partilhar a sua história enquanto conversa com o Observador num escritório situado no coração do Chiado. Pai de duas raparigas, Anita e Aurora, o brasileiro é autor do livro “O Pai é Top” (editora Planeta), o resultado de dois anos de crónicas sobre a experiência da paternidade, à venda em Portugal desde meados de fevereiro.

Além de pai a tempo inteiro, Piangers, de 36 anos, apresenta o programa de rádio “Pretinho Básico”, assina colunas de opinião em vários jornais brasileiros, dá palestras (já passou inclusive pelas conferências TEDX) e tem vídeos na internet com mais de 30 milhões de visualizações. A agenda de trabalho parece cheia, muito cheia, mas sobrou tempo para, em entrevista, falar sobre como ainda prevalece a ideia de que o homem é uma figura dura, que paga as contas e dá “tapa na bunda” dos filhos em vez de os encher de mimos. Sobre como a sociedade perpetua as desigualdades de género, coisa que os homens só “enxergam quando têm filhas ou uma mulher guerreira”. E sobre como esta é a melhor geração de pais que alguma vez existiu.

Piangers é um pai babado e otimista que, num tom divertido, fala e escreve sem papas na língua: “Acho que é bem libertador e bem importante perceber que a gente já é a melhor geração de pais, a mais esforçada e a mais preocupada. E que a melhor escola não é uma instituição, é a sua casa. O seu filho vai aprender mais com você, com seus exemplos. Quanto mais perto você estiver, melhor.”

O livro está à venda em Portugal por 10,90€.

O livro está escrito num tom divertido mas começa com um assunto muito sério, com a história da mãe que ponderou abortar quando estava grávida de si. Nunca conheceu o seu pai?
Em pequeno, a minha mãe ainda acreditava que ia reencontrar meu pai biológico e que, talvez, o meu pai biológico pudesse participar do meu crescimento. Quando eu tinha uns dois anos a gente ia muito para a praia. A gente vivia num balneário como Cascais, se chamava Florianópolis, e a minha mãe me levava muito para a praia, onde eu ia de barraca em barraca encostando nas coisas. Numa dessas caminhadas na praia — a mãe atrás para eu não cair — eu encostei num homem que era o meu pai. Eles [o pai e a mãe] não se viam há muito tempo, o meu pai já tinha mudado de cidade e a minha mãe ainda tinha esperança de que ele ficasse sensibilizado. Encostei no meu pai, ele olhou para mim — uma criancinha tão bonitinha, loirinha –, olhou para a minha mãe, reconheceu-a e voltou a olhar para mim. Viu quem eu era, viu que eu era filho dele e virou a cara, como se nada tivesse acontecido. Naquele momento a minha mãe percebeu que eu não tinha pai. Que aquele acontecimento biológico, aquela união sexual que eles tiveram, aquela aventura, não fazia parte da minha construção, da minha vida, porque ele não queria fazer parte. Naquele momento ela disse “então tá, então é comigo”. Bateu no peito e pegou em mim. As amigas contam que ela ficou muito nervosa, foi um momento muito chocante, mas a partir daí ela me passou a criar sozinha. Eu não tive ninguém me registando como pai. Depois de anos, quando ela namorou um outro homem que foi o pai da minha irmã, aí ele me registou. Mas ela assumiu a criação sozinha.
Uma amiga estava dirigindo, chovia bastante naquela terça-feira. As duas estavam nervosas, a situação, o temporal, as ruas alagadas. E a ilegalidade do que faziam. (…) Estavam há vários minutos sem conversar, em silêncio total dentro do carro. (…) A minha mãe estava indo me abortar.” (“O Pai é Top!”, pág. 17)
Chegou a saber quem ele era?
Quando eu perguntava quem era meu pai, ela me dizia: “Tu não tem pai, relaxa que tu não tem”. Em 2015 ela descobriu que tinha cancro e para não, enfim, talvez para não morrer… ela me falou o nome dele. Quando ela me disse o nome aquilo foi libertador porque eu estava pensando [durante a infância] que o meu pai era o Darth Vader ou um jogador de futebol, alguém famoso ou rico, mas não. O meu pai é uma pessoa normal e no Brasil isso é super comum — no Rio de Janeiro, mais de 60% das mulheres que têm filhos pelo sistema de saúde público são mães solteiras; mais de 60% não tem homem, os filhos não são reconhecidos. Quando a minha mãe me falou o nome do cidadão, eu falei “pô… então é só um cara”. Foi libertador para mim porque eu passei muito da minha infância revoltado com isso — “Ah, a minha mãe não sabe de nada, não sabe quem é meu pai”. Eu podia ter usado essa energia durante este tempo todo pensado em minha mãe em vez do meu pai. Em vez de pensar em alguém que não existe, pensar em alguém que existe, que está do meu lado me tratando bem, que cuida de mim. Esse foi um momento decisivo, que aconteceu há dois anos, mais ou menos quando o livro foi lançado.

Foi uma grande coincidência…
Foi, porque quando eu escrevi esta abertura [a introdução do livro], eu mostrei para ela e ela estava com cancro. Ela disse “então vem cá que eu vou-te falar” e aí ela contou. Isso não está no livro mas foi isso que aconteceu. Eu não fui atrás dele, mas a minha mulher foi, sorrateiramente. Botou o nome do Facebook, descobriu quem era o cara e foi falar com ele. Ela disse que queria falar com ele e ele respondeu logo “eu sei, eu sou o pai do Marcos”. Isso só me confirma que ele sabia o tempo todo e que não me veio procurar. Não tenho problema com isso porque a minha mãe estava sempre lá. Família é afeto, família é amor. É isso que a gente não percebe muitas vezes: muita gente, por causa do livro, me vem procurar dizendo que querem encontrar seu pai biológico… Eu entendo essa necessidade de achar a origem, mas o que digo para todo o mundo é: “Você tem afeto, em algum lugar você tem afeto, na sua mulher ou nos seus filhos, isso é a sua família”. Às vezes você vai procurar seu pai e se dececiona. Todos me contam que se dececionaram — é claro, primeiro ele abandonou a sua mãe, é evidente que ele não é uma pessoa incrível; em segundo lugar, ele é um estranho, você não tem convivência com ele. É um esforço para você conhecer novamente um ser humano e, depois de tanto tempo, tentar amar aquela pessoa.

"Muitos homens querem participar na paternidade mas não têm esse referencial, esse exemplo, ficam achando que o homem que participa é efeminado, que é a mulher que manda nele. No momento em que se envolve, ele percebe a realização de ser um pai participativo."  
 
A falta de um pai fê-lo ser um pai melhor?
Acho que tem uma influência, mas todos os dias eu trocaria essa minha experiência pela de um pai presente. Eu acho que tem influência. Quando a minha mulher engravidou, eu fiquei muito feliz porque queria substituir aquela falta que tive durante toda a minha vida, com as minhas filhas. Mas se eu tivesse um pai amoroso, presente, participativo e carinhoso, eu teria também essa felicidade de ter um filho e teria, além de tudo, um referencial, de poder perguntar para o meu pai: “Pai, o que é que eu faço?”. Não acho que o abandono é uma coisa boa na minha história, acho que é uma coisa ruim que a gente conseguiu reverter, que com a ajuda da minha mãe, das minhas filhas e da minha mulher, a gente conseguiu dizer “não”. Agora não vai ter mais abandono na minha família, vou dizer às minhas filhas para escolherem um cara legal.

Há falta de representatividade dos pais homens na paternidade? E este é um tema tabu?
Acho que melhora a cada dia. Quantos mais livros e blogues houver sobre pais participativos, mais a gente quebra essa escravidão do homem macho e pagador de contas — é uma escravidão que não só atrapalha a mulher por causa do machismo, que a diminui, como é ruim para a criança, que muitas vezes tem um pai distante e só ganha tapa na bunda, e também é bom para o homem. Há cerca de duas semanas estava falando numa conferência sobre a importância de a gente [pais homens] estar mais próximo dos filhos, quando um senhor se levantou, começou a chorar à frente de toda a gente — havia mais de mil pessoas no auditório — e disse que queria ter ouvido isso antes, que passou a vida toda achando que o padrão de pai é esse durão. Ele disse que trocaria todo o tempo que ficou trabalhando para ficar mais tempo com os seus filhos. Se for quebrado, este preconceito vai ser muito libertador para a mulher, para a criança e para o próprio homem. Muitos homens querem participar na paternidade mas não têm esse referencial, esse exemplo, ficam achando que o homem que participa é efeminado, que é a mulher que manda nele. No momento em que se envolve, ele percebe a realização de ser um pai participativo. Quando você passa por momentos complicados — trocar a fralda, levar na escola, cuidar quando tem febre –, você é um herói. E lá na frente, quando você vê esse filho caminhando ou falando alguma coisa bonita, você chora porque você fez aquilo, você participou naquele processo.
Além de jornalista e escritor, Piangers é seguido por milhares de pessoas no Youtube. 
© Hugo Amaral/Observador
Somos a geração pró-educação e construtivista, a geração que mais disse eu te amo para seus filhos. Por Deus! Somos a geração que se preocupa com a quantidade de sódio na água mineral! Nossos pais nos davam água da torneira pra beber! Somos os melhores pais da história, com certeza!” (“O Pai é Top!”, pág. 35)
Escreve que somos a geração de pais com mais culpa e, ao mesmo tempo, que somos os melhores pais do mundo. Como assim?
A gente saiu de uma geração que era mais distante. O objetivo dos nossos pais era colocar-nos na universidade. Normalmente nosso avô foi muito simples, nosso pai trabalhou para caramba para a gente ter um bom estudo e aí a gente já tem tudo isso: estamos numa classe social legal, estamos estudando e, agora, a gente tem filho. O filho já não tem aquela utilidade que tinha há cem anos, quando trabalhava para a gente na venda, na roça ou na empresa. Então, agora a gente tem filho porquê? É meramente uma questão emocional. A gente tem filho como realização, a gente tem um filho de forma otimista, a gente diz: “O meu filho vai ser melhor do que eu, o mundo dele vai ser melhor que o meu”. Essa geração de pais — mais as mães, mas os pais homens também — é a geração preocupada: será que a escola do meu filho é perfeita, será que a alimentação do meu filho é boa, será que estou dizendo sim, dizendo não, será que cedo nas coisas certas, será que estou dando os livros corretos? É uma culpa… mas desapega, meu! Porque você só vai aprender a ser pai do seu filho. Quanto mais tempo você gastar com o seu filho, mais você vai poder ser um melhor pai para aquele filho — isso é essencial para seu filho ficar mais seguro, para a sociedade melhorar e para a sua mulher ter mais espaço na sua vida profissional. Acho que é bem libertador e bem importante perceber que a gente já é a melhor geração de pais, a mais esforçada e a mais preocupada. E que a melhor escola não é uma instituição, é a sua casa. O seu filho vai aprender mais com você, com seus exemplos, do que com a escola e com os amigos. Quanto mais perto você estiver, melhor.

Mas só somos melhores graças aos nossos pais e aos pais deles, não concorda?
Acredito que é uma evolução. A gente tinha pais muito rígidos que, com o tempo, foram percebendo que não tem porquê ser assim. Tem alguns pais que foram virando avós e foram percebendo isso, que agora dizem: “Porque é que eu perdi tanto tempo sendo grosseiro, ríspido e distante?”. Uma vez me disseram que a gente só aprende a ser filho quando é pai. Isso é um facto, isso aconteceu comigo. Depois que eu fui pai, eu percebi: a minha mãe me falava tanta coisa, “não faz isso, não faz aquilo” e eu pensava “ah, ela não sabe de nada”. Agora eu entendo a minha mãe. Me disseram também que a gente só aprende a ser pai quando é avô, porque quando você é avô, você não tem mais a pressão da educação, da culpa, da comida, do dinheiro… Os maiores arrependimentos das pessoas no leito de morte são: “deveria ter passado mais tempo com a minha família”, “deveria ter valorizado a minha mulher”, “deveria ter visto os meus filhos crescerem”. Nunca é “deveria ter preenchido mais relatórios e ter ido a mais reuniões”.

"Acho que é bem libertador e bem importante perceber que a gente já é a melhor geração de pais, a mais esforçada e a mais preocupada. E que a melhor escola não é uma instituição, é a sua casa."
Pai novo, fiz tudo aquilo que me diziam, do apartamento maior ao carro quatro portas, depois dos quais precisei trabalhar mais para poder dar conta das prestações. (…) Comprar a fralda mais barata significava amar menos meu filho. Roupa de brechó, nem pensar. De brinquedos caros está o nosso armário cheio. De culpa também, por ter que passar muito tempo no trabalho.” (“O Pai é Top!”, pág. 23
Quando soube que ia ser pai, disseram-lhe que precisava de ter um carro e uma casa maior, que tinha de trabalhar mais. Será que se confunde a possibilidade económica de dar o melhor às crianças com o amor?
Claro que sim, o tempo todo. A gente, esta geração com culpa, que não tem tempo para nada, terceiriza tudo. A gente terceiriza afeto com presentes, a educação com a escola, a alegria com Netflix e os tablets. E se você olhar, não é você que está criando seu filho, é esse monte de outras coisas. Se essa é a sua opção de vida, OK. Vejo que muitos pais empurram assim os filhos, mas a minha opção, e acho que a de vários pais, é a de degustar esse momento, de entender que os próximos 20 anos vão ser passados do lado destas pessoas. Eu vou aproveitar isso. Podem ser 20 anos mágicos da sua vida que, às vezes, você perde porque está nessa correria. Eu prefiro trabalhar menos — disse não para vários empregos que me pagavam muito bem — para poder estar mais tempo com as minhas filhas. Não tem que ver com dinheiro.

Quando o homem que é treinado para ser o pagador de contas descobre que a mulher está grávida, a primeira coisa que pensa é: “vou ter de trocar de apartamento, de carro e vou ter de trabalhar mais”. Quando recebi a notícia pensei exatamente isso, e me lembro que depois que a minha filha nasceu percebi que não é tão mais caro ter filhos, é um pouquinho mais caro. Você não precisa de comprar a fralda ou a papinha mais cara. A possibilidade de o pai estar por perto é melhor para todo o mundo. Hoje em dia vejo muito pai que fica depois do expediente no computador porque ele não quer estar em casa, ele quer fugir daquela vida familiar. Ele fica no banheiro horas porque ele quer fugir, tem medo, ele não foi treinado para a paternidade e ele está inseguro. O que o livro tenta fazer é dizer “Mano, calma. Vai dar tudo certo, é divertido e legal. Dá trabalho, mas é legal, é porreiro”.

Escreve que todo o pai é otimista. Porquê?
Hm, hm. Não existe nenhum outro motivo para ter filho hoje. Os nossos filhos não vão trabalhar para a gente, eles vão gastar dinheiro e, muito provavelmente, não vão trazer esse retorno — a não ser que sejam um Cristiano Ronaldo. Mas no geral você tem filho por algo que é maior do que você, você tem filho porque você acredita que pode ser incrível. Um filho é a capacidade que você tem de ser eterno, de passar as suas ideias para uma pessoa. Para que isso se perpetue você precisa cuidar da ecologia, você precisa que o seu filho seja melhor, mais bondoso, mais humano. Então o pai se torna num otimista. Hoje tenho medo que aconteça uma hecatombe ecológica por causa das minhas filhas, é por isso que eu quero que o mundo seja melhor.
Para o autor brasileiro, o mais importante não é a casa e o carro grande, antes o tempo passado 
com as duas filhas. © Hugo Amaral/Observador 

Por um lado, ser-se pai é um ato de fé. Por outro, a partir do momento em que se é pai nunca mais se deixa de ter medo.
A violência é muito grande no Brasil e eu tenho muito medo de perder as meninas. Esse é o meu maior medo. Mas talvez o medo que eu também tenho é que as minhas filhas não explorem as suas potencialidades. Ou porque elas se sentem intimidadas, ou porque a sociedade é muito machista e, por vezes, diminui as mulheres. Esse é o meu medo. Eu realmente acredito num futuro melhor. A tecnologia e o conhecimento estão espalhados — hoje a minha filha pega no celular e aprende a falar francês, ela lê coisas a que eu não tinha acesso. Quanto mais informação ela tiver, com alguém dizendo “vai por aqui, vai por ali”, e quanto mais pessoas dessa idade crescerem com essa informação abundante, mais elas vão poder usar isso para o bem. Claro que tenho esses medos, mas da perspetiva de que a nossa vida é tão curta — 70 ou 80 anos não é nada, passa assim [Marcos estala os dados] –, prefiro acreditar num futuro brilhante.
Cansei de levar minha filha na creche, de vê-la chorando e dizendo que não queria entrar na creche, uma menininha gordinha de dois anos implorando ‘só hoje, papai. Buááááá. Não quero ir pra escola, papai”, e trazê-la de volta pra casa pra que a minha mulher faça o trabalho. Minha mulher é muito melhor em entregá-la na escola.” (“O Pai é Top!”, pág. 31)
Fala muito na questão das igualdades de género. Se tivesse tido filhos em vez de filhas também destacaria estes tópicos?
É uma preocupação muito egoísta da minha parte porque o homem não consegue enxergar as diferenças de género. Quando alguém me dizia “a mulher faz o mesmo trabalho que o homem e ganha menos”, eu respondia “será que é verdade?”. O homem não enxerga, ele é cego para essa questão. Quando eu tive duas meninas eu comecei a perceber. As meninas são mais inteligentes do que os homens nas escolas — elas aprendem a ler antes, sabem matemática melhor, falam, se levantam e a letra é mais bonita — então, porque é que as meninas, que na escola são brilhantes, chegam ao mercado de trabalho e passam a ser piores ou ganham menos? Isso passa pelo conceito de “não, não te vou contratar, você vai engravidar”. Aí você começa a ver. Cara, tem sim um problema de género e isso é duro porque o homem só enxerga quando tem filha ou quando tem mulher que é muito guerreira, caso contrário ele não percebe. Cegueira completa. A gente não consegue enxergar o quanto a sociedade é machista. Falo disso com culpa porque precisei de duas meninas para entender que há algo de errado.

"Cara, tem sim um problema de género e isso é duro porque o homem só enxerga quando tem filha ou quando tem mulher que é muito guerreira, caso contrário ele não percebe. Cegueira completa. A gente não consegue enxergar o quanto a sociedade é machista." 
 
Em Portugal, o conceito “licença parental” foi instaurado em 2009, contrariando o conceito de licença de maternidade. Como é no Brasil e qual é a sua posição sobre o assunto?
É uma briga minha, para que tenha mais licença de paternidade. É muito estranho que a mulher possa ficar, no Brasil, cinco meses em casa e o homem apenas três dias — algumas empresas dão 20, mas por lei são três dias. É muito estranho porque assim se está dizendo ao homem que ele não precisa de participar, que ele fez o filho e que, agora, só precisa de o registar e de voltar para o trabalho. É um recado muito ruim para o homem. Aí eu defendo que o homem deveria ter uma licença de paternidade grande. Um amigo meu me disse “Mas Piangers, se houver uma licença de paternidade grande, o meu chefe vai-me olhar e achar que tive filhos só para ficar de licença e não me vai dar a promoção depois que eu voltar”. E eu falei para ele “assim você está provando tudo o que as mulheres passam quando engravidam”. Quando você se coloca no lugar da mulher, você começa a ver. Isto é injusto há muito tempo para a mulher.

Quais foram as maiores mentiras que já lhe contaram sobre como é ser-se pai?
Primeiro, a mentira de que o dia do parto é o dia mais bonito da nossa vida e que é amor à primeira vista. Não é. Outra mentira que as redes sociais nos contam, é a beleza de um bebé dormindo: as fotos no Instagram são sempre lindas, ninguém posta um bebé cheio de cocó ou de vómito porque não fica bem na foto. É uma mentira. Você tem de estar preparado para os piores dias, e existem dias muito difíceis. E tem essa mentira crónica de que ter filho é muito caro e você tem de trabalhar muito para conseguir ter um carro e uma casa. Acho que isso é uma mentira tremenda. Tem muita gente muito feliz com muito pouco. Tem muita criança feliz em escola pública. É uma mentira que nos contam, de que temos de ganhar horrores para sermos bons pais.

Uma das mentiras enunciadas vai de encontro à ideia de que a maternidade não é assim tão cor de rosa.
E não é. É muito trabalhoso, mas porque é trabalhoso é que a gente se apaixona. Porque se fosse fácil alguma coisa estava errada; se fosse fácil você nem valorizava o seu filho. Ter filho é muito cansativo e isso não nos dizem.

"Uma mentira que as redes sociais nos contam é a beleza de um bebé dormindo: as fotos no Instagram são sempre lindas, ninguém posta um bebé cheio de cocó ou de vómito porque não fica bem na foto. É uma mentira. Você tem de estar preparado para os piores dias, e existem dias muito difíceis." 
 
Ao longo do livro fala dos privilégios de ser pai. Como vê as pessoas que não querem ser pais por opção?
São sortudos [risos]. Acho que quando você não tem filhos, a sua vida é muito mais fácil. É muito mais fácil não ter filhos. É uma experiência que eu tive a sorte de ter, porque me sinto um sortudo. Depois de você ter filhos, você não imagina uma vida sem. Mas eu não acho que uma pessoa que tem filho seja melhor do que a que não tem. Acho que você pode ser gentil, bondoso, desapegado, fazer bem para o próximo. Nesse sentido acho que sou uma pessoa pior porque eu precisei de ter filhos para me tornar uma pessoa melhor, e precisei de filhas para perceber a questão de género. Algumas pessoas são incríveis e maravilhosas sem filhos, só que sinto uma certa pena porque é uma experiência incrível, muito deslumbrante.
Estava empolgado com a caça aos ovos de chocolate este ano, mas anunciaram lá em casa que não vai ter chocolate. Faremos uma caça aos ovos de quinoa. Ouvi dizer que é moda entre os pais mais modernos e nossas filhas poderão devorar este belo regulador intestinal enquanto tomam um delicioso suco verde de couve. Será uma Páscoa divertida. (…) Minhas páscoas eram um horror. Tenho nove primos e todos nos reuníamos na sala enquanto os tios espalhavam chocolate pela casa do vô.” (“O Pai é Top!”, pág. 42 e 43)
No livro escreve que não entende porque é errado infantilizar as crianças. Acha que há quem leve a paternidade demasiado a sério?
Talvez [risos]. Tem uma frase — eu não me lembro de quem é a frase –, mas ele diz mais ou menos assim: “Eu não respeito ninguém que não leve o humor a sério e eu adoro pessoas que tratam coisas sérias com humor”. Ou seja, a única coisa séria no mundo é o humor, é a diversão. Sempre se disse à criança para ficar quieta. Eu já vejo o outro lado: acho que é deslumbrante o que aprendemos com as crianças. As crianças são muito divertidas. Você fala com um adulto e ele sempre se resume: “O que é que você faz? Sou engenheiro”. Você é muito mais. Se perguntar isso a uma criança, ela vai dizer que é o Batman. O mundo infantil não se leva a sério, aí tudo é bonito e divertido.

O que de mais importante aprendeu com as suas filhas?
Aprendi a perguntar sempre porquê, a me questionar. A criança está sempre perguntando “porquê”. Dizemos “vai para a escola” e ela responde “porquê?”, e assim sucessivamente. E quando você faz essas perguntas, você começa a pensar: “É verdade… Porquê?! Porque preciso de um diploma se nunca me pediram um diploma? Porque é que eu tenho de ir para a faculdade se os empregos do futuro ainda não existem? Porque é que tenho de ficar tanto tempo na escola se já me esqueci de tudo?” Acho muito importante quando a gente se começa a questionar. Quando você pergunta “porquê” a si mesmo, você encontra a sua principal motivação na vida. Aprendo o tempo todo com o universo infantil. Às vezes os nossos filhos só nos estão dando dicas de como a nossa vida pode ser mais legal.
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Reportagem por  Ana Cristina Marques
Fonte:  http://observador.pt/especiais/somos-a-melhor-geracao-de-pais-a-mais-esforcada-e-a-mais-preocupada/ 12/03/2017

Como se sente uma mulher que, de alguma forma, não ama seu filho?

 Luiz Felipe Pindé*
 Iluistração Pondé 13/03
Escrevo para não me sentir só. Sei disso há muito tempo. Hoje não é muito fácil uma vez que muita gente é ressentida e ofendida. Muitos escrevem com medo do leitor ou do seguidor. A praga de querer agradar acomete grande parte de nós. 

Muita gente tem muitas causas e eu nenhuma. Não quero salvar o mundo de nada. Suspeito de quem diz se preocupar com as crianças da África ou com as "minorias". Ninguém é mais perigoso do que gente "com causa". Sua crueldade vem regada a certeza moral, ingrediente suficiente para o ódio sempre. O ódio tem sempre uma causa que o justifique, mesmo entre os "melhores". 

Mas recebo muitos e-mails que me fazem ter alguma esperança no mundo. Pelo menos num mundo habitado por pessoas que tentam lidar com sua opacidade e falta de sentido. Pessoas que lutam contra uma culpa lancinante, com traumas suficientes para ter o suicídio como constante hipótese no horizonte, e sem qualquer expectativa de bondade como imagem no espelho. 

Apenas pessoas sem esperança me dão alguma esperança. Pessoas que há muito perderam a capacidade de se enganar acerca das próprias virtudes. Pessoas que desistiram do amor. Que trabalham razoavelmente (como diria Freud) e levantam pela manhã com alguma dignidade. Tomam banho, escovam os dentes. Às vezes, um café da manhã na padaria. "Bom dia!" dito ao moço da copa. "Na graxa e na canoa, por favor". Um sorriso da menina do caixa pode salvar o dia. 

Muitas vezes é mais fácil amar o mundo graças aos desesperados do que graças aos bons. Se um dia o mundo for tomado pelo bem, se tornará, seguramente, um lugar inabitável. O ar só é respirável graças ao pecado. Essa é a falha suprema de toda teoria universalista do amor. 

Algumas histórias me encantam pela sua dimensão de impasse. Há poucos dias recebi um e-mail de uma leitora (que concordou que eu escrevesse sobre ela, sem dar referências, é claro) que me contava um exemplo desses impasses que escapam ao debate mais histérico, típico do mundo contemporâneo em que as pessoas enlouquecem com suas certezas em seu Facebook. 

Como muitas mulheres, infelizmente, ela sofreu um estupro quando jovem. O modo como muitos homens, ainda, tratam as mulheres, merece mesmo um protesto. Nunca entendi de onde vem essa raiva que muitos homens nutrem contra essas que são nossas parceiras no mundo e na vida. 

Desse estupro nasceu uma criança, criança esta que nunca foi amada e desapareceu quando mais velha. "Melhor assim!", vê-la causava desgosto à mãe porque ela era a materialização do estupro. 

Claro, defensores de causas veriam aqui, com certeza, um dos típicos casos para um aborto. Gravidez fruto de violência sexual deveria ser facilmente interrompida. Outros, do lado oposto, diriam coisas como "a criança não tem culpa" de ter sido filha de uma estupro. Por que não dá-la para adoção? 

Nem uma nem outra, a criança conviveu com o horror da mãe diante de sua simples existência como lembrança de que foi violentada um dia. Será que os defensores do amor materno universal veriam aqui um caso de disfunção materna? E os defensores do direito ao desamor materno conseguiriam financiamento em bancos para uma ONG a favor do direito ao desamor materno como forma de empoderamento? 

Como se sente uma mulher que, de alguma forma, não ama seu filho ou filha? Que ficaria feliz em não saber onde ela está, nem se está viva? Feliz por ela ter desaparecido do mapa. O que a moçada do "odeie seu ódio" diria disso? Ou dos direitos humanos? Ou os tarados pela família? 

Amar não é uma questão de direitos. Ninguém tem o direito de ser amado. A realidade aqui é cega para com esses supostos princípios éticos. 

Espero que essa mãe continue resistindo à hipótese do suicídio todas as manhãs. Que os livros que lê a ajude perceber que nenhum de nós sabe a fórmula da vida (mesmo que alguns vendam livros mentindo sobre isso). Espero que essa criança, hoje adulta, encontre em algum canto desse mundo sem Deus um pouco de paz para sua alma, presa do fato de ter sido gerada num momento de profunda desgraça. 
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* Filósofo, escritor e ensaísta, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, discute temas como comportamento, religião, ciência. Escreve às segundas.
Imagem  Ricardo Cammarota
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2017/03/1865903-como-se-sente-uma-mulher-que-de-alguma-forma-nao-ama-seu-filho.shtml 13/05/2017

domingo, 12 de março de 2017

Satish Kumar, seguidor de Ghandi, propõe nova relação do ser humano com a natureza


Satish Kumar em um campo de cereal no norte da Índia não esconde sua reverência pela natureza (Foto: © Haroldo Castro/ÉPOCA)

Ex-monge jainista lança livro em São Paulo. Ele participou dos movimentos de não violência, andou por três continentes e fundou na Inglaterra uma escola referência em sustentabilidade

GISELLE PAULINO (TEXTO) E HAROLDO CASTRO (FOTOS) – DA ÍNDIA
09/03/2017 -
Longe de ter uma vida convencional, Satish Kumar é uma das pessoas mais carismáticas e encantadoras que podem existir no mundo. Aos 80 anos, o indiano de estilo mignon, acolhedor e de palavras dóceis, prega a simplicidade por onde passa. Difícil descrever alguém que não se apega a rótulos.

Nascido em uma família jainista do Rajastão, na Índia, Satish renunciou ao mundo aos 9 anos de idade para se tornar um monge. Por quase dez anos, dedicou-se aos ensinamentos religiosos e à espiritualidade. Acordava antes do sol nascer e, na companhia de outros monges, andava pela cidade para receber doações e alimentos. Durante grande parte de seu dia, ele ficava recluso em meditação, quase sem contato com as pessoas. A família aprovava: para os jainistas é uma grande honra ter um filho mantendo a tradição religiosa. Mas, com o passar do tempo, até mesmo os pais deixam de visitar seus filhos no monastério.

Sua rotina mudou ao ler o livro Minha experiência com a verdade – em inglês, My experience with truth –, escrito por Mahatma Gandhi. Foi quando entendeu que a verdadeira espiritualidade deveria ser praticada no dia a dia, e não dentro de um mosteiro. “Ficar ali não me levaria às mudanças que eu acreditava”, diz Satish. “Para mudar o mundo, é preciso viver nele.”

Satish deixou a vida de monge para se juntar aos movimentos de Gandhi. Ao lado de Vinoba Bhave, principal discípulo de Mahatma Gandhi, ele andou por toda a Índia num movimento de reforma agrária famoso por seguir a filosofia da não violência.

A vida de Satish Kumar foi marcada por grandes caminhadas e ainda hoje caminha com seus alunos (Foto: © Haroldo Castro/ÉPOCA)

Mas suas longas caminhadas estavam apenas começando. Notícias sobre a possibilidade da guerra nuclear nos anos 1960 fizeram com que Satish empreendesse uma jornada pela paz que o levou da Índia aos quatro países então detentores da bomba atômica: Rússia, França, Inglaterra e Estados Unidos. A viagem deveria obedecer a algumas condições colocadas por seu guru. Ele deveria fazer o percurso a pé para ter tempo de observar os lugares por onde passava. Deveria permanecer vegetariano, pois era importante manter a paz com o mundo animal. E, finalmente, como se tratava de um movimento pela paz, o guru sugeriu ainda que ele prosseguisse sem levar nenhum dinheiro. Seria preciso confiar na bondade e generosidade das pessoas que encontrasse pelo caminho. 

Foram dois anos e meio na estrada. Satish passou frio no inverno da Rússia e chegou a ser preso na França. Mas teve a oportunidade de conversar com grandes líderes como Bertrand Russell e Martin Luther King. “Quando alguém me acolhia em casa, agradecia a compaixão. Quando dormia à beira da estrada, aproveitava a oportunidade de ver as estrelas”, diz.

Quando a aventura terminou, Satish queria regressar à Índia. Mas um convite para ficar na Inglaterra como editor da revista Resurgence, uma das principais vozes do pensamento ecológico da Europa, falou mais alto. “A Índia já tem muitos ghandianos, a Inglaterra não tem nenhum. Fique aqui, Satish”, teria dito E.F. Schumacher, economista  alemão, autor do consagrado O negócio é ser pequeno: um estudo de economia que leva em conta as pessoas – em inglês, Small is beautiful, a study of economics as if people mattered.

Satish aceitou o convite. Os pensamentos do economista, que prega uma economia budista na qual a produção é feita pelas pessoas para atender às necessidades do povo com material local e energia renovável, inspiraram a criação do Schumacher College, escola de Ecologia Profunda e Ciências Holísticas localizada na pequena cidade de Totnes, em Devon, no sudoeste da Inglaterra. Sua filosofia ensina que qualquer vida no planeta deve ser preservada não por ser essencial à vida humana, mas por ter o mesmo direito de permanecer na Terra que o homem. “No lugar de conquistar, devemos reverenciar a natureza”, ensina Satish. “Não devemos acreditar na supremacia humana sobre os outros seres.”
Quando está na natureza, Satish Kumar aprecia todo momento (Foto: © Haroldo Castro/ÉPOCA)

Foi no Schumacher College que encontrei Satish Kumar pela primeira vez. Ele conversava com alunos e escutava a história de cada um. À noite, sentávamos em roda e ele contava fatos de sua infância na Índia, ao lado da mãe, antes de se tornar monge. Falava do conceito da não violência, palavra tão pouco compreendida pelos ocidentais e tão necessária nos dias de hoje.

Satish inspirou também a criação de uma escola semelhante ao Schumacher College na fazenda de conservação de agrobiodiversidade Navdanya, na Índia, da ambientalista Vandana Shiva. Os dois locais se tornaram destinos obrigatórios para mim.

Satish Kumar dá aula sobre os pensamentos de Ghandi na fazenda Navdanya, no norte da Índia (Foto: © Haroldo Castro/ÉPOCA)

Uma das grandes lições do Schumacher College é entender que nenhuma profissão é melhor do que a outra e que ninguém é superior. “O que vale um médico quando estamos com fome?”, pergunta Satish. “De que adianta um engenheiro quando nossa casa está suja? Tudo tem sua importância relativa.”

Seguindo esses pensamentos, a escola propõe formas inusitadas de aprendizado. Os alunos ajudam a limpar o prédio, cozinham e trabalham na horta. Satish também participa. Pelo menos uma vez por semana, gosta de reunir seus alunos para preparar a refeição da escola. Nesse momento, a cozinha se torna então uma grande sala de aula. Enquanto ensina receitas de pratos indianos, conversa sobre os mais diversos assuntos.

São esses momentos que deixam saudades desse lugar tão especial na Inglaterra. Um dado curioso é que os brasileiros se tornaram os maiores frequentadores desse colégio inglês, além dos nativos. Em 2014, com a criação da Escola Schumacher Brasil, todos esses conhecimentos ficaram mais perto. A iniciativa foi da brasileira Juliana Schneider, aluna do curso de mestrado do Schumacher College, que voltou ao Brasil e empreendeu algo inspirado no que aprendeu lá.

Satish Kumar e Juliana Schneider em São Paulo em dezembro de 2015. Satish regressa ao Brasil para o lançamento de sua segunda obra traduzida ao português  (Foto: © Haroldo Castro/ÉPOCA)

Em março, Satish vem ao Brasil lançar seu livro Solo, alma e sociedade: uma nova tríade para nossos tempos. Combinando filosofia e sabedoria oriental com sua vasta experiência de vida, Satish propõe uma nova relação do homem com o planeta e ele mesmo.

“Primeiro, é preciso aprender a cuidar do solo. Viemos do solo e voltaremos ao solo. O solo é uma metáfora do meio ambiente. Cuidando do solo, aprendemos também a cuidar de nós mesmos. Somente então estaremos prontos para cuidar da sociedade”, afirma. “Tem gente que quer cuidar do mundo, mas ainda não aprendeu a cuidar de si.”
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Fonte:  http://epoca.globo.com/sociedade/viajologia/noticia/2017/03/satish-kumar-seguidor-de-ghandi-propoe-nova-relacao-do-ser-humano-com-natureza.html - 09/03/2017

Temer, Trump e as mulheres

Dorrit Harazim*

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Os presidentes do Brasil e dos Estados Unidos têm em comum a seleção de uma equipe singular pela exclusão da mulher

Os dois presidentes não dispensam uma gravata. Donald Trump ostenta a dele como farol do que alardeia ser seu irresistível macho power. Ele as prefere escarlates. As gravatas de Michel Temer, recatadas também fora “do lar”, compõem a armadura do homem público aferrado aos marcadores sociais de sua geração. São dois chefes de Estado septuagenários. Recasados há mais de uma década com mulheres bem mais jovens, conseguem mantê-las encasteladas da imprensa, dosam sua exposição pública, e tentam blindá-las contra a voracidade das mídias sociais.

Trump e Temer têm tudo para nutrir um genuíno desprezo mútuo pelo estilo do outro. Mas eles têm em comum a seleção de uma equipe singular pela exclusão de mulheres: até agora são apenas duas as nomeadas pela Casa Branca e pelo Palácio do Planalto.

Na quarta-feira 8 de março, também tiveram em comum as respectivas declarações em homenagem ao Dia da Mulher. À primeira vista o brasileiro cometeu uma cascata constrangedora de “gafes”: assegurou os compatriotas de sua “convicção do quanto a mulher faz pela casa”, do quanto ela é “capaz de indicar os desajustes de preços em supermercados”, e garantiu melhores perspectivas do ingresso da mulher no mercado de trabalho, “além de cuidar dos afazeres domésticos”.

Em comparação, Trump, de quem podia se esperar o pior dadas as barbaridades que proferira durante a campanha (“Consigo agarrar qualquer mulher pela xoxota” foi a mais famosa), soou normal. Homenageou o fundamental papel feminino nos Estados Unidos e no mundo, e garantiu ter “um respeito tremendo pelas mulheres e pelos vários papéis que elas desempenham, vitais para nossa sociedade e economia”. O americano foi apenas mais bem assessorado.

Como escreveu a colunista Míriam Leitão, Temer não cometeu uma ”gafe” de momento, que tentou corrigir no dia seguinte por um texto menos pré-diluviano. O presidente do Brasil não se expressou mal. Sua visão do papel da mulher foi sincera, genuína, é aquela mesmo — arcaica, à margem das questões de gênero. Isto, em 2017.

Trump, por seu lado, apesar da penca de citações escabrosas contra mulheres e dos relatos cabeludos que afloraram durante a campanha, convive com o crescimento da força de trabalho feminino — do braçal ao executivo — desde que nasceu até se tornar o empresário bilionário que é hoje. Ainda assim, chegou a presidente dos Estados Unidos falando de mulher como carne e referindo-se a muitas delas publicamente como lixo. Isto, em 2017.

Semanas atrás a professora de Clássicos de Cambridge e da Royal Academy of Arts, Mary Beard, deu uma instigante palestra no British Museum londrino. Após fazer um rico histórico das raízes da separação real, cultural ou imaginária entre poder e mulher na civilização ocidental, ela propôs uma reflexão mais profunda sobre o próprio conceito de poder. Devemos procurar dissociá-lo da noção de elite.

Independentemente dos avanços já alcançados, o nosso modelo de pessoa em posição de poder continua a ser um só: masculino. Nem mesmo um garimpo no Google em centenas de páginas de cartunistas conseguiu resultado diferente: a mulher poderosa sempre está traçada com jeitão de homem. Simplesmente ainda não conseguimos formar outra imagem.

Também no mundo real, pensa Beard, não devem ser apenas conforto e praticidade que levam líderes políticas como Angela Merkel e Hillary Clinton (ou Dilma Rousseff) a optar por confortáveis jaquetas e calças compridas. O figurino as insere melhor no jogo do poder, no qual, como já dizia Elizabeth I, é preciso ter “coração e estômago de um rei”.

Vale lembrar que Donald Trump, em sua primeira semana como presidente e antes de saber que sigilos vazam na Casa Branca, estabeleceu normas de trabalho seguidas com rigor pela equipe: para os homens, terno bem cortado e gravata; para as mulheres, “trajes femininos”.

Beard nos convida a repensar o que é poder, a redefini-lo, ao invés de continuar a tabular os progressos femininos apenas pela métrica convencional. Se a proporção de parlamentares mulheres refletisse as políticas de gênero de um país, por exemplo, o Parlamento de Ruanda não teria o dobro da representação feminina da Grã-Bretanha (60% a 30%). O poder tabulado na conquista de cobiçados “tetos de vidro”, ou em número de CEOs e assentos no topo dos poderes Executivo e Legislativo seria apenas a sua forma mais visível — e mais elitista, estreita, associada a prestígio e individualidade.

Nesses termos, sustenta a professora, é mais fácil perpetuar as mulheres, enquanto gênero, excluídas da estrutura social codificada como masculina.

Uma forma de repensar o poder seria desmembrá-lo do prestígio público a que está historicamente acoplado. Concebê-lo como atributo, não como posse, como uma força colaborativa paralela à sua forma convencional. “O que tenho em mente”, diz Beard, “é a habilidade de ser eficaz e de ter o direito de ser levada a sério também em conjunto. Este é um tipo de poder que tantas mulheres sentem não ter — mas querem ter ”.

Ela cita como exemplo o movimento político mais influente nos Estados Unidos da era pré-Trump, o Black Lives Matter, fundado por três americanas cujo nome ninguém perguntou.

Considerando-se que, pela última avaliação do Fórum Econômico Mundial, o Brasil levará 95 anos para alcançar plena igualdade de gênero, qualquer visão fora da curva merece atenção. E urgência. O Brasil não precisa de um presidente que lhe diga o quanto a mulher faz pela casa, pelo lar. Precisa de um país onde as mulheres mostram ao presidente a sociedade da qual são parceiras iguais.
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* Dorrit Harazim é jornalista
Fonte:  http://oglobo.globo.com/opiniao/temer-trump-as-mulheres-21046456 12/03/2017
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"Mentiras de Trump acirram alienação nos EUA", diz professor de Yale

 Bruce Ackerman is Sterling professor of law and political science at Yale, and the author of Before the Next Attack. Foto Divulgacao ***DIREITOS RESERVADOS. NÃO PUBLICAR SEM AUTORIZAÇÃO DO DETENTOR DOS DIREITOS AUTORAIS E DE IMAGEM***

A ignorância de Donald Trump sobre assuntos internacionais aliada a seu espírito belicoso representa uma ameaça para o mundo –e uma eventual reeleição do republicano em 2020 seria um golpe do qual a tradição constitucional norte-americana jamais se recuperaria. 

São afirmações do constitucionalista Bruce Ackerman, que caracteriza Trump como um autoritário com perfil semelhante ao de personagens como Silvio Berlusconi, o midiático ex-premiê italiano. 

Ackerman, 73, acredita que a Suprema Corte terá de assumir responsabilidades para conter os impulsos de Trump e preservar o sistema de freios e contrapesos da democracia americana, mas tem dúvidas se isso ocorrerá. 

Professor de direito e ciência política na Universidade Yale, ele é autor de quase 20 livros e contribui regularmente com artigos para publicações dos EUA e da Europa. 

Ackerman acredita que a democracia americana se desviou das premissas originais dos chamados "pais fundadores", num cenário já bastante diverso daquele em que elas foram formuladas. 

Em 2010 lançou o livro "Declínio e Queda da República Americana", no qual afirmava que no século 21 os EUA elegeriam um presidente marcado por autoritarismo, extremismo e irracionalidade. A vitória de Trump deu à sua análise ares de profecia. 

Progressista (preferiu o democrata de esquerda Bernie Sanders a Hillary Clinton) e partidário do parlamentarismo, ele aponta as mudanças sofridas pelo processo de seleção nas prévias partidárias (que passaram a incorporar eleitores), como um fator decisivo para a emergência de lideranças e candidatos que se desgarram do centro em busca de apoio nos extremos do espectro político. 

Na entrevista que segue, feita em troca de e-mails, ele expõe parte de suas análises e preocupações. 

Folha- No seu livro "Declínio e Queda da República Americana", lançado em 2010, o sr. afirmava que as mudanças no sistema político a partir da segunda metade do século passado aumentariam substancialmente as chances de o país eleger no século 21 um presidente marcado pelo extremismo, pelo unilateralismo e pela irracionalidade. Parece aplicar-se perfeitamente ao caso de Trump. O sr. poderia resumir essas mudanças e explicar em linhas gerais por que elas levariam a esse novo padrão de liderança política?
Bruce Ackerman - Entre 1830 e 1970, os candidatos presidenciais foram selecionados em convenções políticas controladas por líderes partidários de grandes Estados. Eles tinham apenas um interesse primordial: vencer a próxima eleição. Como consequência, eles nomeavam candidatos que poderiam recorrer ao eleitor médio. 

Mas desde a década de 1970, o candidato é diretamente selecionado pelos eleitores nas eleições primárias, que tipicamente têm baixa afluência, sob controle de ativistas de esquerda e direita.
Esses extremistas estão interessados em promover sua ideologia votando em candidatos mais radicais de direita ou de esquerda. Foi o que aconteceu no caso de Trump, com uma série de candidatos mais moderados dividindo o voto de centro-direita. 

Alguém disse que Trump é o primeiro presidente de estilo latino-americano dos EUA, no sentido de que ele se comporta como uma espécie de neocaudilho. Até que ponto o tradicional sistema de freios e contrapesos pode conter os impulsos aparentemente irracionais e caóticos do presidente?
A aliança entre Vargas e Roosevelt era uma aliança de caudilhos? Eu não acho que essa seja uma linha de indagação proveitosa. O surgimento de candidatos a ditadores está associado ao sistema presidencialista, que frequentemente concede vitória a um candidato que só tem apoio genuíno da minoria e que, no entanto, assalta o Congresso e os tribunais num esforço para estabelecer sua supremacia. 

Como os meus ex-colegas de Yale, Juan Linz e Al Stepan, acredito que o sistema parlamentarista proporciona uma base muito mais estável para a democracia. Foi um dia triste aquele em que os brasileiros rejeitaram a opção parlamentarista após o impeachment de Collor, no plebiscito de 1993. A atual crise brasileira tem suas raízes nessa decisão. 

Voltando à América, a Suprema Corte deve desempenhar um papel crucial a curto prazo na manutenção do sistema de controles e contrapesos. Não sei se demonstrará a coragem necessária. 

Por que faltaria coragem?
Existe uma doutrina de "questão política" bem estabelecida no direito constitucional americano que permite uma deferência judicial em relação aos poderes políticos, em condições mal definidas [questões políticas não seriam questões legais e portanto não seriam judicializáveis, ficando fora do escopo da Suprema Corte]. É possível que a maioria da Corte faça uso dessa doutrina e se recuse a se pronunciar sobre os méritos de iniciativas presidenciais controversas. 

Um dos pontos importantes de sua análise é o crescente papel dos militares no sistema político. A proposta de Trump de aumentar o orçamento militar pode ser vista como um sinal disso? Surpreendentemente, ele assumiu um tom mais institucional e moderado em seu discurso ao Congresso, no qual enfatizou a importância de reforçar os gastos militares. 

Os EUA conquistaram a hegemonia nas Américas sem a necessidade de um grande Exército permanente. Em 1940, seu Exército somava menos de 250 mil soldados, enquanto a França tinha quase um milhão de militares. Ao criar um enorme Exército permanente após a Segunda Guerra, o Congresso estabeleceu uma série de mecanismos para manter o controle civil. 

Ao nomear recentemente generais ativos para chefiar o Departamento de Defesa e o Departamento de Segurança Interna, Trump violou esses princípios de controle civil. Seus esforços para aumentar o já enorme orçamento dos EUA representam uma aceleração dessa dinâmica militarista. Um dos aspectos mais ameaçadores de Trump é sua extraordinária ignorância no que se refere a assuntos internacionais e sua excepcional belicosidade. 

Quanto ao recente discurso do presidente ao Congresso, só demonstra sua capacidade de ler um teleprompter por 75 minutos sem interrupção. Como seus posteriores tuítes irresponsáveis sobre o presidente Obama sugerem, não foi indicativo do caráter de sua administração. 

O sr. disse numa entrevista que vê um presidente esquerdista sendo eleito após Trump. Que tipo de esquerdista o sr. imagina?
Você tocou numa grande diferença entre os EUA e países como Brasil, Reino Unido, França e Japão. Em todos esses lugares, a centro-esquerda está profundamente desorganizada e desanimada. 

Nós temos uma centro-esquerda forte nos EUA. A questão é se esse movimento se organizará em torno de um líder atraente e responsável. Talvez Elizabeth Warren [67, senadora democrata]. Mas seria melhor se o próximo candidato democrata emergisse de uma geração mais jovem. 

A propósito, o sr. acredita que Trump terá um segundo mandato? Ele pode sofrer um processo de impeachment?
Com os republicanos no controle da Câmara e do Senado, não há nenhuma chance de que Trump seja afastado antes das eleições do Congresso de 2018. Se os democratas obtiverem uma forte vitória em 2018, os republicanos poderão decidir que outra campanha de Trump em 2020 levará tanto à derrota na Presidência quanto a novas perdas do Legislativo. 

Apenas uma coisa é clara: se Trump ganhar em 2020, a tradição constitucional americana sofrerá um golpe do qual nunca poderá se recuperar. 

Como o sr. vê o papel da mídia no atual cenário? Trump tem sucesso em suas tentativas de lançar factoides, criar "fatos alternativos" e desqualificar a imprensa tradicional? Ou o jornalismo profissional tem funcionado como contrapeso?
Juntamente com os tribunais, o jornalismo tem desempenhado um papel crucial na manutenção dos princípios democráticos fundamentais a curto prazo. Os americanos –incluindo muitos conservador– estão cada vez mais alienados pelos tuítes livres de Trump. E essa alienação só aumentará na medida em que as mentiras continuarem. 
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Reportagem por 

Uma ética da Mãe Terra, nossa Casa Comum

Leonardo Boff* 
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É um fato cientificamente reconhecido hoje que as mudanças climáticas, cuja expressão maior se dá pelo aquecimento global é, num grau de certeza de 95%, de natureza antropogênica, Quer dizer, possui sua gênese num tipo de comportamento humano violento face à natureza.

Este comportamento não está de sintonia com os ciclos e ritmos da natureza. O ser humano não se adapta à natureza mas a coage a se adaptar a ele e a seus interesses. O interesse maior que domina já há séculos se concentra na exploração desapiedada dos bens e serviços naturais em vista da acumulação ilimitada. Junto a isso segue a dominação de outros povos, o colonialismo e o imperialismo.

A forma como a Mãe Terra demonstra a pressão sobre seus limites intransponíveis é pelos eventos extremos (prolongadas estiagens de um lado e enchentes devastadoras de outro, nevascas sem precedentes por uma parte e ondas de calor insuportáveis por outra parte).

Face a tais eventos, a Terra se tornou o claro objeto da preocupação humana. As muitas COPs (Conferência das Partes), organizadas pela ONU acerca do aquecimento global, nunca chegavam a uma convergência. Somente na COP21 de Paris, realizada de 30 de novembro a 13 de dezembro de 2015 se chegou, pela primeira vez, a um consenso mínimo, assumido por todos: evitar que o aquecimento chegue aos 2 graus Celsius. Lamentavelmente essa decisão não é vinculante. Quem quiser pode segui-la mas não existe nenhuma obrigatoriedade nem penas, como o mostrou o Congresso norte-americano que vetou as medidas ecológicas do Presidente Obama. Agora o Presidente Donald Trump as nega rotundamente como algo sem sentido e enganoso. Esse negacionismo da maior potência do mundo é ameaçador para todos e para a Terra.

Está ficando cada vez mais claro que a questão é antes ética do que científica. Vale dizer, a qualidade de nossas relações para com a natureza e para com a Casa Comum não eram e não são adequadas, antes, são destrutivas.

Citando o Papa Francisco em sua inspiradora encíclica Laudato Si: sobre o cuidado da Casa Comum” (2015): “Nunca maltratamos e ferimos a nossa Casa Comum como nos últimos dois séculos… Essas situações provocam os gemidos da irmã Terra, que se unem aos gemidos dos abandonados do mundo, com um lamento que reclama de nós outro rumo”(n.53).
Precisamos, urgentemente, de uma ética regeneradora da Terra. Esta deve devolver-lhe a vitalidade vulnerada a fim de que possa continuar a nos presentear com tudo o que sempre nos galardoou. Será uma ética do cuidado, do respeito a seus ritmos, da compaixão e da responsabilidade coletiva.

Mas não é suficiente uma ética da Terra. Precisamos fazê-la acompanhar por uma espiritualidade. Ela lança suas raízes na razão cordial e sensível. De lá nos vem a paixão pelo cuidado e um compromisso sério de amor, de responsabilidade e de cuidado para com a Casa Comum. Bem o expressou no final da encíclica do bispo de Roma, Francisco, ao enfatizar “uma paixão pelo cuidado do mundo, uma mística que nos anima com uma moção interior   que impele, motiva e encoraja e dá sentido à ação pessoal e comunitária”(n.216).

O conhecido e sempre apreciado Antoine de Saint-Exupéry, num texto póstumo, escrito em 1943, Carta ao General “X” afirma com grande ênfase: ”Não há senão um problema, somente um: redescobrir que há uma vida do espírito que é ainda mais alta que a vida da inteligência, a única que pode satisfazer o ser humano”(Macondo Libri 2015, p. 31).

Num outro texto, escrito em 1936, quando era correspondente do “Paris Soir”, durante a guerra da Espanha, leva como título “É preciso dar um sentido à vida”. Aí retoma o tema da vida do espírito. Aí afirma:”o ser humano não se realiza senão junto com outros seres humanos, no amor e na amizade; no entanto, os seres humanos não se unem apenas se aproximando uns dos outros, mas se fundindo na mesma divindade. Num mundo feito deserto, temos sede de encontrar companheiros com os quais con-dividimos o pão”(Macondo Libri p.20). No final da “Carta do General “X” conclui: “Como temos necessidade de um Deus”(op.cit. p.36).

Efetivamente, só a vida do espírito confere plenitude ao ser humano. Ela representa um belo sinônimo para espiritualidade, não raro identificada ou confundida com religiosidade. A vida do espírito é mais, é um dado originário de nossa dimensão profunda, um dado antropológico como a inteligência e a vontade, algo que pertence à nossa essência. Ela está na base do nascimento de todas as religiões e caminhos espirituais.

Sabemos cuidar da vida do corpo, hoje uma verdadeira cultura com tantas academias de ginástica. Os psicanalistas de várias tendências nos ajudam a cuidar da vida da psiqué, para levarmos uma vida com relativo equilíbrio, sem neuroses e depressões.

Mas na nossa cultura, praticamente, esquecemos de cultivar a vida do espírito que é nossa dimensão radical, onde se albergam as grandes perguntas, se aninham os sonhos mais ousados e se elaboram as utopias mais generosas. A vida do espírito se alimenta de bens não tangíveis como é o amor, a amizade, a convivência amiga com os outros, a compaixão, o cuidado e a abertura ao infinito. Sem a vida do espírito divagamos por aí, sem um sentido que nos oriente e que torna a vida apetecida e agradecida.

Uma ética da Terra não se sustenta sozinha por muito tempo sem esse supplément d’ame que é a vida do espírito. Ele nos faz sentir parte da Mãe Terra a quem devemos amar e cuidar.
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*Leonardo Boff é articulista do JB online e autor de Ética e Espiritualidade: como cuidar da Casa Comum, Vozes 2017.
Fonte:  https://leonardoboff.wordpress.com/2017/03/12/uma-etica-da-mae-terra-nossa-casa-comum/

Por que choram os pais?

PIANGERS*

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As pessoas se perguntam por que pais choram tanto em apresentações artísticas.

Por que choram vendo vídeos tremidos de seus filhos pequenos.

Há pais que choram em apresentações esportivas.

Há pais que choram quando os filhos aparecem na TV, dando entrevista por qualquer coisa. Por que choramos?

É uma experiência difícil de explicar.

Com o nascimento dos filhos, descobrimos que existe um mundo além de nós mesmos.

Passamos noites em claro, pagamos pesadas contas, percebemos que temos agora uma missão: cuidar pra sempre de uma outra pessoa.

Percebemos a dificuldade da primeira febre, o esforço dos primeiros passos, o desengonçar das primeiras apresentações escolares. Se nossos filhos decidem seguir uma carreira difícil, se decidem ser artistas, bailarinos, esportistas, choramos porque sabemos que sua vida não será fácil.

Ele terá que se dedicar, passar por frustrações, ele terá que se privar de tantas coisas.

Choramos porque queremos protegê-los de tudo.

Queremos que o mundo seja bom pra eles.

Filhos que optam por uma carreira desafiadora são, no fundo, nossos heróis.

Para um pai, é profundamente emocionante descobrir que nosso filho tem um talento, uma espécie de dádiva, algo que pode ser até que tenha herdado de nós mesmos.

Nossos filhos se tornam a nossa chance de sermos também grandes artistas, esportistas.

Nossos filhos nos dão uma segunda chance de sonharmos.

De sermos brilhantes, depois de crescidos.

Choramos em apresentações artísticas porque vimos tudo o que eles passaram, acompanhamos seu sofrimento.

Choramos saudades, frustrações, conquistas.

Choramos agradecidos.

Choramos por conseguirem o que tanto queriam.

Por estarem felizes.

Por serem realizados.

Choramos por existirem.
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Marcos Daniel Piangers Barros é um radialista, apresentador e colunista brasileiro. Formou-se em jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina. Colunista da ZH
Fonte: http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a9745634.xml&template=3916.dwt&edition=30800&section=1026 11/03/2017
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Canção das mulheres


LYA LUFT*
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  • (Há vários anos, publiquei, possivelmente aqui mesmo, na minha primeira passagem por esta casa, uma coluna com esse título, e coloquei também num livro, Pensar é Transgredir. Hoje, nesta semana de homenagem às mulheres, decidi republicar aqui, com alguns aditamentos.)

    Que o outro saiba quando estou com medo e me tome nos braços sem fazer perguntas demais.

    Que o outro note quando preciso de silêncio e não vá embora batendo a porta, mas entenda que não o amo quando preciso de um pouco de quietude.

    Que o outro aceite que me preocupo com ele, não se irrite com minha solicitude, e, se ela for excessiva, saiba me dizer isso com delicadeza ou bom humor.

    Que o outro perceba minhas fragilidades e não ria de mim nem se aproveite disso.

    Que se eu faço uma bobagem o outro goste um pouco mais de mim, porque também preciso poder fazer tolices tantas vezes.

    Que se estou apenas cansada o outro não pense logo que estou nervosa, ou doente, ou agressiva, nem diga que reclamo demais.

    Que o outro sinta quanto me dói a ideia da perda e fique um pouquinho mais comigo nesses momentos – em lugar de voltar correndo ao seu cotidiano profissional, como se aquela fosse a sua única vida.

    Que se começo a chorar sem motivo porque tive um dia daqueles o outro não se irrite se não consigo explicar direito o que foi, mas tenha um pouco de paciência: um abraço carinhoso resolve muita coisa.

    Que se estou numa fase ruim o outro seja meu cúmplice, mas sem fazer alarde nem dizendo “Olha que estou tendo muita paciência com você!”, como se estivesse me fazendo um grande favor.

    Que se me entusiasmo por alguma coisa o outro não a despreze nem me chame de ingênua, nem queira fechar essa porta necessária que se abre para mim, por mais tola que lhe pareça.

    Que quando sem querer eu digo uma coisa bem inadequada diante de mais pessoas o outro não me exponha nem me ridicularize.

    Que quando levanto de madrugada e ando pela casa o outro não venha logo atrás de mim reclamando: “Mas que chateação essa sua mania, volta pra cama!”.

    Que se eu peço um segundo drinque no restaurante o outro não comente logo: “Poxa, mais um? Você não ia cuidar as calorias?”.

    Que se eu eventualmente perco a paciência, perco a graça e perco a compostura em público o outro ainda assim me ache linda e me console.

    Que se alguma vez eu lhe perguntar se ainda sou importante para ele, e se ainda me ama, ele não responda meio agressivo: “Ué, mas eu não estou aqui?”.

    Que o outro – filho, amigo, amante, marido – não me considere sempre disponível, sempre necessariamente compreensiva, mas me aceite com naturalidade quando não estou podendo ser nada disso.

    Que, finalmente, o outro entenda que, embora às vezes eu me esforce, não sou, não quero, nem devo ser um tipo de mulher-maravilha. Sou apenas uma pessoa, vulnerável e forte, incapaz e gloriosa, assustada e audaciosa, amorosa e independente: uma mulher.
    ----------------
    * Escritora. Colunista da ZH
    Fonte:  http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a9745942.xml&template=3916.dwt&edition=30800&section=70
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sábado, 11 de março de 2017

“O século XXI é a era dos populismos”

PÚBLICO -


Cartaz de campanha do referendo para limitar imigração 
na Suíça Arnd Wiegmann /REUTER.

Muito antes de o populismo estar na moda e em destaque nos jornais e nas sondagens, já Cas Mudde o estudava. Este cientista político holandês radicado nos Estados Unidos é por isso uma das vozes mais autorizadas para ajudar a entender 
o actual estado da política.

sexta-feira, 10 de março de 2017

OITO RAZÕES A FAVOR DO PAPA

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Francisco fala dos problemas de hoje com a linguagem de hoje e, para isso, nem precisa de ver televisão.
Uns dias depois do atentado contra o Charlie Hebdo, o Papa Francisco disse que “não se pode provocar, não se pode insultar a fé dos outros, não se pode ridicularizar a religião dos outros”. Na altura, escrevi aqui as oito razões que me levavam a discordar do Papa. Hoje, chegou o momento de fazer a crónica-espelho prometida ao Hugo Torres, então nosso editor de comunidades, que teve de gerir os leitores indignados. Crentes ou ateus, temos oito grandes razões para aplaudir este Papa.

1. Francisco é um reformista e enfrenta os católicos retrógrados. Com elegância e sem medo. Três exemplos. a) Abriu a possibilidade de os católicos divorciados e recasados poderem receber a comunhão, uma forma de reconhecer as novas família e não alienar (ainda mais) católicos. Para um ateu, os sacramentos são uma abstracção, mas esta abertura foi o que mais enfureceu os conservadores. b) Demitiu o grão-mestre da Ordem de Malta, o príncipe britânico Matthew Festing, que afastara um cavaleiro alemão que fechara os olhos ao uso de preservativos num projecto de saúde. c) E há anos faz frente ao cardeal americano Raymond Burke, um sonso e intriguista que trava um combate feroz contra os católicos progressistas. Burke é amigo de Steve Bannon (o amigo de Donald Trump), apoia a ideia de um muro a separar os EUA do México, e diz que o "feminismo radical" criou vários problemas à igreja, entre os quais os abusos sexuais de menores. É a ala radical de Burke que acusa Francisco de ter criado uma “confusão sem precedentes na Igreja Católica”. É caso para dizer: viva a confusão.

2. Francisco defende os refugiados muçulmanos todos os dias. Tanto que os seus críticos dizem que está "quase obcecado” e "nem consegue ver que o Islão é uma religião agressiva”, como disse esta semana, ao Financial Times, o professor de História italiano Roberto de Mattei. Autor de vários livros, Mattei repete ideias extraordinárias como os tsumanis serem "castigos divinos" e o Império Romano ter desaparecido por causa do "contágio da homossexualidade".

3. Francisco leva a sério os problemas do ambiente e das alterações climáticas.

4. Mostra aos 80 anos que ser moderno não tem a ver com a idade que temos, mas com a cabeça que temos. Foi ele que disse: "Se uma pessoa procura Deus de boa vontade e é gay, quem sou eu para a julgar?" Foi ele que alargou a todos os padres o poder de absolver as mulheres que abortam.

5. Francisco é o autor das duas melhores expressões do século: "Alzheimer espiritual" e "terrorismo da intriga". O tema da intriga é uma constante. O Papa critica a intriga dentro e fora do Vaticano ("os que dizem mal do seu vizinho são hipócritas e não têm a coragem de reconhecer as suas próprias limitações") e coloca-a na lista das "15 doenças" do nosso tempo. As outras incluem o exibicionismo, o “excesso de trabalho”, “a excessiva planificação” e o "sentir que somos indispensáveis”. A esses deu um conselho: visitem um cemitério e vejam o nome de tantos que “se achavam imortais, imunes e indispensáveis”.

6. Francisco fala dos problemas de hoje com a linguagem de hoje e, para isso, nem precisa de ver televisão (coisa que não pratica desde 1990). Fala dos telemóveis: “O que aconteceria se tratássemos a Bíblia como tratamos os nossos telemóveis? Se andássemos sempre com a Bíblia connosco ou pelo menos com uma versão de bolso? ‘Esqueci-me do telemóvel — Oh! Volto para trás à procura dele.' Se as pessoas lerem as mensagens de Deus como lêem as mensagens do telemóvel…”. Fala da guerra: “Estamos na III Guerra Mundial aos bocadinhos. E fala-se de uma possível guerra nuclear como se fosse um jogo.” E da noção ridícula de que amamentar em público é obsceno e erótico — para não falar do argumento dos “fluidos corporais”: "Amamentem os vossos filhos com naturalidade e sem medo, como Maria". Já agora, quantos Papas enviaram um inquérito às dioceses de todo o mundo para medir o fosse entre o que os católicos pensam e o que ouvem na missa? Um: Francisco.

7. Francisco não acredita em muros e é o mais radical político anti-Trump.

8. Last, but not least, Francisco prefere bons ateus a maus católicos.
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TEXTO por - Português de Portugal.
FONTE:https://www.publico.pt/2017/03/10/mundo/noticia/oito-razoes-a-favor-do-papa-1764622

quinta-feira, 9 de março de 2017

A ascensão das mulheres e a transformação do capitalismo

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“ Todas as economias obtêm ganhos em poupança e produtividade quando as mulheres têm acesso 
ao mercado de trabalho” Christine Lagarde

Nunca as mulheres tiveram tanto poder e oportunidades nas empresas; quando se confirmam como “líderes centradas”, podem ser a chave para um futuro melhor para os negócios e para a sociedade | por Joanna Barsh

As mulheres foram longe. Hoje, ainda nos Estados Unidos, há 40 milhões de mulheres a mais no mercado de trabalho do que em 1970. Somos metade da força profissional, obtemos mais da metade dos diplomas universitários e ganhamos mais da metade dos empregos de nível de entrada das empresas do ranking Fortune 500

Mais uma boa notícia é que aumenta o consenso de que, nas organizações, as mulheres, como arquétipos, aperfeiçoam os processos de tomada de decisão, injetam criatividade e inovação, aumentam o percentual de solução de problemas. 

Elas ainda enriquecem o ecossistema corporativo como um todo, porque mostram maior empatia com os diversos stakeholders. E, quando três ou mais mulheres chegam ao topo de uma empresa, a saúde e a lucratividade desta tendem a melhorar, conforme as estatísticas. 

Além disso, as mulheres fomentam especialmente o crescimento da economia. Segundo Christine Lagarde, do Fundo Monetário Internacional (FMI), “todas as economias obtêm ganhos em poupança e produtividade quando as mulheres têm acesso ao mercado de trabalho. Não se trata apenas de uma questão moral, filosófica ou de oportunidades iguais… Simplesmente, faz sentido econômico”.

As barreiras, entre as quais estão os fatores culturais, são bem conhecidas de todos. Com frequência, as mulheres que chegam ao topo têm de atuar muito melhor do que os homens. 

Nossas pesquisas na Europa e nos Estados Unidos mostram que para as mulheres, em comparação com os homens, ainda é duas ou três vezes mais difícil evoluir em cada estágio da carreira. As vencedoras mencionam coragem, perseverança, trabalho duro e resiliência como fatores-chave para conseguir os avanços. 

No entanto, já se conhece a solução: intervenções estruturais –algumas controversas, como cotas– podem combater essas distorções.

Como os contrários às cotas argumentam que elas não são meritórias, enfraquecem a competitividade e são injustas com as mulheres que já chegaram lá, essa solução encontra muita resistência. É uma das razões pelas quais o progresso das mulheres em algumas empresas ainda é tão lento.
Liderança centrada
Sabemos que a maior parte das mulheres na trilha da liderança opta por funções de staff, o que limita seu potencial de avanço. Outras deliberadamente reduzem o ritmo, preferindo papéis que sejam mais controláveis. Algumas simplesmente desaprovam as políticas da companhia em níveis mais altos e as rejeitam. Em todos os casos, parece haver uma ideia de que chegar ao topo da carreira é algo incompatível com a vida pessoal.

Quando comecei a entrevistar profissionais mulheres para uma de minhas pesquisas, porém, identifiquei algumas que amavam atuar no topo e que tinham vida fora do trabalho também. Essas mulheres abriram caminho para darmos forma a uma abordagem de liderança que valoriza atributos femininos. E eu a chamo de “liderança centrada”.

Sabe o que líderes centradas fazem de diferente?

• Lideram com base em algo que tenha significado, tirando proveito de forças, suas e de outros, e construindo propósito compartilhado –algo de longo prazo e que tenda a ter impacto positivo.

• Entendem desafios sobretudo como oportunidades de aprendizado, substituindo padrões de comportamento reativos.

• Alavancam confiança alheia para criar relações com as pessoas e com a comunidade e forte senso de pertencimento.

• Mobilizam os outros por meio da esperança, combatendo o próprio medo de assumir riscos e de agir de maneira ousada sobre as oportunidades.

• Injetam energia positiva e renovação no ambiente mantendo o desempenho alto.

Há evidências quantitativas de que essa abordagem é muito atraente para os homens, já que acena com grandes possibilidades de virada do jogo para os negócios. 

Esse tipo de liderança se espalharia pelas empresas de maneira mais ampla? Ou pela sociedade? Não podemos dizer ao certo, mas, em companhias nas quais a liderança centrada feminina está se fortalecendo, há resultados notáveis.
Virando o jogo
Tendo encontrado milhares de mulheres e homens em lugares tão distantes uns dos outros, tais como Brasil, Malásia, Arábia Saudita e Suécia, tenho a sensação de que uma enorme onda global está em formação. 

Parte dessa onda são os líderes do “capitalismo consciente”, conceito que John Mackey e Raj Sisodia desenvolvem em seu livro de 2013, Capitalismo Consciente: Como Liberar o Espírito Heroico dos Negócios (ed. HSM).

Como a liderança centrada, o capitalismo consciente coloca o propósito no centro de tudo. Com base nos dois princípios de Adam Smith –de que as pessoas buscam os próprios interesses e são simpáticas às necessidades de outros–, o capitalismo consciente argumenta que a maximização de lucros de curto prazo, à custa do valor para os stakeholders, pode levar a riscos perigosos, perda de valores morais e erosão de marca.

No entanto, a onda é lenta. “Estamos apenas começando a falar dessas coisas”, costuma dizer Raj. “Estou otimista em relação à mudança, mas tenha em mente que estamos apenas no estágio inicial de uma longa jornada”, insiste ele.

Por que líderes e empresas são lentos para aderir à causa? Claramente, as pressões de curto prazo e recompensas da comunidade financeira trabalham no sentido contrário do capitalismo consciente. É necessário haver visão e coragem para deixar o paradigma atual e suas enormes benesses pessoais de lado.

É aí que entram as mulheres. Mais mulheres na alta gestão nos ajudariam a chegar a uma distribuição mais consciente e sustentável de capital e recursos? Acho que sim.

Confirmamos, em nossas pesquisas, que mulheres na liderança tendem a investir diferentemente –por exemplo, priorizam saúde, educação, infraestrutura comunitária e erradicação da pobreza. 

Porém mais mulheres líderes transformarão o jogo capitalista sozinhas? Acho que não. Não até que mais homens se juntem a elas para fazer o movimento adquirir massa crítica.

Há mesmo evidências de que o desejo de uma forma mais consciente de capitalismo está ganhando impulso. Em uma pesquisa global com cerca de 64 mil pessoas, John Gerzema e Michael D’Antonio descobriram que dois terços dos entrevistados concordaram que “o mundo seria um lugar melhor se homens pensassem mais como mulheres”, “planejando o futuro”, sendo “leais”, “flexíveis”, “pacientes”, “colaborativos”, “empáticos”, “não egoístas”. 

Podem homens e mulheres mudar o jogo liderando juntos? Sim. O Walmart já começou a fazer isso. Mas cotas ajudariam.

O caso eBay

O eBay, conhecida plataforma de e-commerce, evoluiu significativamente em equidade de gênero ao longo dos últimos três anos. De 2011 a 2013, o número de mulheres em cargos de chefia cresceu 30%.
O número foi resultado de uma iniciativa liderada pelo CEO, John Donahoe, que tinha essa meta como uma questão pessoal, por acompanhar de perto a trajetória e as dificuldades da própria esposa.
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O processo começou na cúpula, envolvendo o nível de diretoria para cima, tanto para que se pudesse ter mais controle como para criar modelos que inspirassem os níveis inferiores.
A fim de demonstrar seu compromisso, e apostando nas melhorias que a diversidade poderia trazer para a empresa, Donnahue se dispôs a ser, pessoalmente, mentor de cinco mulheres. Em pouco tempo, os demais diretores fizeram o mesmo e, de repente, as gestoras já discutiam planos de desenvolvimento de carreira com seus superiores. 

John Donaho e  usou métricas o tempo todo, como já fazia em outras áreas. Segundo artigo da equipe de RH publicado no informe da McKinsey & Company, o engajamento do alto escalão e as métricas se revelaram mais importantes do que as próprias políticas de RH.


Joanna Barsh é diretora emérita da firma de consultoria McKinsey em Nova York e coautora dos livros How Remarkable Women Lead e Centered Leadership.
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© McKinsey Quarterly Editado com autorização. Todos os direitos reservados. (www.mckinseyquarterly.com)
Esta matéria foi publicada originalmente na HSM Management nº 109 e atualizada em março de 2017.
Fonte:  http://www.revistahsm.com.br/lideranca-e-pessoas/ascensao-das-mulheres-e-transformacao-do-capitalismo/