terça-feira, 7 de novembro de 2017

Crise dos sacerdotes em debate

 
 João Miguel Tavares e Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada

O livro Senhor Bispo, o pároco fugiu serviu de pretexto a uma reflexão sobre a vida dos padres e a crise por que tantos passam. A apresentação ficou a cargo dos cronistas João Miguel Tavares, leigo, e o Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada.

 João Miguel Tavares, jornalista e cronista, lembra a sua experiência na diocese de Portalegre-Castelo Branco de onde é originário. «A dimensão humana do padre diocesano sempre me fascinou, porque, no contexto do meu contacto com dioceses do Alentejo, estamos a falar de uma vida dura. Tendem a ser pessoas profundamente isoladas e de terem a seu cargo um trabalho imenso de igrejas atrás de igrejas e de andar centenas de quilómetros para acudir a todas aquelas pessoas.» Daí que o tema da obra o tenha «interessado bastante»: «um padre esmagado pela burocracia e que se tornou funcionário e nem sequer é de Deus, mas da paróquia».

 

 João Miguel Tavares defende que hoje em dia, «os padres são mais precisos do que nunca e é por isso que temos de cuidar deles». Nas sociedades em que «matámos Deus e ficou uma enorme cratera no seu lugar, as pessoas têm muitas angústias». Na apresentação da obra, o jornalista fez uma analogia: «Um bom padre é um PT (Personal Trainer) da alma. Da mesma forma que um PT nos põe a mexer músculos que nem damos por eles, um bom padre pode pôr-nos a mexer músculos espirituais.» Se são mais precisos do que nunca também têm mais dificuldades. No final de ler o livro, João Miguel Tavares ficou com duas conclusões: «Os cristãos têm de se preocupar com os seus padres que andam há décadas a levar pancada.» A outra: «Os párocos deviam confessar-se mais às suas comunidades: os seus erros, as suas angústias, as suas dúvidas. Os padres têm alguma dificuldade em confessar a sua humanidade.»

 Padres em busca da sua identidade 

O outro apresentador da obra foi o Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada. Num tom divertido, confessou que «algumas vezes sinto algum medo porque penso que fui insensato e ter aceitado ser padre. Como é que é possível conjugar algo tão único e surpreendente com matéria tão pobre. Eu também espirro! Sou uma pessoa que espirra! E tenho comichão!»

O sacerdote diz que o papel dos padres está dificultado porque tudo mudou. «O padre já não é uma autoridade. Hoje em dia, ele diz que não se faz alguma coisa. “Não se faz!? Não faça ele! Eu faço o que quiser!” De maneira que se torna difícil encontrar qual o seu lugar. Padre quer dizer pai. Não há uma receita a priori que tenha uma receita exata», defendeu. Mas o Pe. Gonçalo diz que a essência do que é ser padre é comum à de ser cristão: «Deus conta connosco e quer que contemos com Ele. Deus conta connosco! E conta connosco e não é por eu ser bom porque não sou; não é por eu ser especial porque não sou.» Este papel que Deus quer dar e a colaboração que pede é fundamental. «Todos nós somos isto, somos chamados a ser os seus pés, as suas mãos neste mundo onde falta tanto carinho.»

 
 João Miguel Tavares, leigo

O sacerdote diz ter gostado de ler o livro e concorda com o pároco Benjamim, personagem principal da obra: é bom fugir. «Nós, os padres, devemos fugir. Não interessa que as pessoas gostem dele, mas que amem a Cristo. O padre que é vedeta é um mau padre. O padre tem de ser uma pessoa que leva a Cristo. O interessante do padre é que ele desapareça. Tenho um grande amor ao sacerdócio, mas não gosto do clericalismo. O sacerdócio cristão não é pôr o sacerdote no centro.»
 
O Pe. José Carlos Nunes, diretor-geral da PAULUS Editora, que distribui a obra da Multinova Livreiros, salientou que o livro Senhor Bispo, o pároco fugiu pretende dar aos leitores «uma forma diferente de abordar a vida dos padres, do clero e dos leigos».
 
Senhor Bispo, o pároco fugiu é um livro de Jean Mercier que trata as dificuldades por que passa um pároco desanimado e afogado em atividades, reuniões e sem tempo para a sua relação com Deus. O padre Benjamim está em crise e acaba por fugir. 
 
Texto: Cláudia Sebastião
Fotos: Ricardo Perna
-----------
Fonte:  http://familiacrista.paulus.pt/crise-dos-sacerdotes-em-debate

Computador quântico já está chegando e vai levar tecnologia a uma nova era

Imagem relacionada
"Os computadores quânticos, ao que tudo indica, serão capazes de resolver em segundos problemas que levariam até bilhões de anos para o mais potente dos supercomputadores atuais. Os novos processadores permitirão uma revolução tecnológica e científica difícil de conceber. Mas quão perto estamos dessa fronteira?" escreve Ivan dos Santos Oliveira Júnior, doutor em física pela Universidade de Oxford (Reino Unido) e pesquisador titular do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, no Rio de Janeiro, em artigo publicado por Folha de S. Paulo, 04-11-2017.

Eis o artigo.

Há 70 anos, cientistas da empresa Bell Telephone inventaram o dispositivo que iria revolucionar para sempre a informática, os meios de comunicação e a forma como a informação é processada e transmitida: o transistor, talvez o componente eletrônico mais conhecido da história.

O transistor substituiu as volumosas válvulas nos então recém-criados computadores, iniciando assim o processo de miniaturização da eletrônica.

O desenvolvimento desse pequeno dispositivo rendeu o Prêmio Nobel de Física de 1956 aos americanos Walter Brattain (1902-1987), William Shockley (1910-1989) e John Bardeen (1908-1991) –este último, em parceria com os também americanos Leon Cooper (1930-) e John Schrieffer (1931-), ainda ganharia o Nobel de Física (1972) pela teoria sobre supercondutores, materiais que conduzem eletricidade sem dissipar calor.

Curiosamente, os materiais supercondutores despontam como uma das tecnologias mais promissoras em uma das áreas mais quentes na pesquisa científica: a construção dos chamados chips quânticos. Eles são o cérebro de um novo tipo de computador que, tudo indica, será capaz de resolver em segundos problemas que levariam até bilhões de anos (sim, bilhões!) para o mais potente dos supercomputadores atuais.

Essas duas contribuições fundamentais fazem de Bardeen um protagonista da história que nos leva ao desenvolvimento vertiginoso da computação e da comunicação.

Lei de Moore

O ano agora é 1985. O americano Richard Feynman (1918-1988) — também Nobel de Física (1965) — afirma num artigo que "as leis da física não impedem que o tamanho dos bits dos computadores chegue a dimensões atômicas, região em que a mecânica quântica detém o controle".
Tradução: bit é a chamada unidade mínima de informação, expressa na forma de "0" e "1" nos computadores atuais, e a mecânica quântica é a teoria –considerada a mais precisa da história– que lida com os fenômenos nas dimensões moleculares, atômicas e subatômicas.

Feynman, que na década de 1950 foi professor visitante do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), no Rio, estava muito interessado no que se passou a chamar "computação quântica". A observação no artigo de 1985 fazia referência a uma lei empírica descoberta em 1965 pelo engenheiro americano Gordon Moore (1929-).

A lei de Moore, como ficou conhecida, estabelece que, pelo mesmo custo de fabricação, a capacidade de processamento dos computadores aproximadamente dobra a cada ano e meio.

Isso ocorre pois os transistores —componentes eletrônicos que representam os bits nos computadores— têm sua dimensão reduzida à metade a cada ano e meio.

Em termos práticos, a lei de Moore explica por que os microprocessadores, ao longo das últimas quatro décadas, têm aumentado tanto sua capacidade de analisar informação. Um computador da década de 1960 tinha algo como 10 mil transistores (ou bits). Hoje, esse número bate na casa dos bilhões.

Infere-se dessa evolução acelerada a implicação mais impressionante da lei de Moore: por volta de 2020, cada bit terá a dimensão de um único átomo! O ponto de exclamação é quase irresistível: em meados da década de 1960, um bit tinha o tamanho de 10 quintilhões de átomos (isto é, 10.000.000.000.000.000.000).

Essa lei tecnológica tem outra consequência de extrema importância. A física que usamos no cotidiano e que serve para estudar objetos com tamanhos de bolas de futebol, carros e aviões deve obrigatoriamente sair de cena. Na dimensão atômica, é preciso recorrer à mecânica quântica —será este o caso do transistor formado por um único átomo. Decorrem daí os termos bit quântico e computador quântico.

Essa mudança implicará tremendo salto para a humanidade. Um bit de informação que, até este momento, era representado por um objeto contendo bilhões de átomos ligados quimicamente uns aos outros passará ao domínio nanoscópico, ou seja, atômico. E nada impede que um bit futuro tenha a representação de ordem subatômica.

A caminho

Agora, nosso diário de bordo marca o ano de 2016. Um grupo de cientistas do Laboratório Nacional Lawrence em Berkeley (EUA) reporta, na revista "Science", a construção de um transistor medindo menos que 7 bilionésimos de metro (7 nanômetros) —para comparação, um fio de cabelo tem diâmetro cerca de 10 mil vezes maior.

Mas o que chama a atenção vem agora: uma das partes desse transistor é feita por um nanotubo de carbono com apenas 1 nanômetro de diâmetro —dimensão típica de espaços atômicos. Esse nanodispositivo eletrônico é construído com dissulfeto de molibdênio, em substituição aos tradicionais semicondutores da indústria de informática.

Possível conclusão: tudo indica que a lei de Moore irá cumprir sua promessa.

Voltemos alguns meses em relação à data que consta nesta edição da "Ilustríssima". A IBM anuncia que está disponibilizando "na nuvem" um protótipo de computador quântico baseado em tecnologia de supercondutores e que pode ser acessado por usuários do mundo todo.

Google e Microsoft anunciam investimentos volumosos em computação quântica. Na Europa, um megaprojeto com investimentos de 1 bilhão de euros também é anunciado nessa área.

Empresas de tecnologia quântica pipocam em toda parte.

A americana Magic-Q comercializa sistemas de criptografia quântica desde 2002, competindo com a suíça ID Quantique, que faz a mesma coisa desde 2001. Em 1999, a canadense D-Wave anunciou o primeiro modelo de computador que usa tecnologia quântica em sua forma de processamento.

A americana Ion-Q, fundada em 2015, explora tecnologia de aprisionamento de átomos para a computação quântica. A China e a Austrália são outros dois países que estão investindo pesado no setor.

Estima-se que até 2024 o mercado mundial para a computação quântica ultrapasse os US$ 10 bilhões.

Como se vê, a computação e a comunicação quânticas não são mais promessas vagas nem cálculos matemáticos abstratos feitos por físicos teóricos, mas realidades tecnológicas e comerciais que em breve irão interferir diretamente nos nossos costumes e em todos os ramos da atividade humana, da mesma forma que o fizeram os computadores que passamos a conhecer a partir de 1947.

Revolução

A esta altura, cabe perguntar: o que os computadores quânticos podem fazer de diferente? Resposta: tudo.
Computadores são ferramentas essenciais para o avanço científico e tecnológico, com aplicações praticamente ilimitadas. De fato, é impossível imaginar a sociedade hoje em dia sem essa máquina maravilhosa.

Para ficar em apenas um caso, computadores controlam o espaço aéreo e o fluxo de aviões nos aeroportos, ajudam nos projetos para a construção de novas aeronaves e até na arquitetura das novas gerações de computadores que irão realizar essas mesmas tarefas com mais rapidez e eficiência. Mais: fazem previsões das condições meteorológicas ao longo das rotas e monitoram inúmeros sensores que dão segurança ao voo.

Quanto mais os computadores evoluem, mais se tornam indispensáveis. Seu telefone celular, por exemplo, provavelmente faz um computador da década de 1990 parecer uma carroça velha. A velocidade de um processador de 25 anos atrás era de 25 MHz; a de um celular fica em torno de 2 GHz, cem vezes maior.

Ainda assim, existe um tipo de tarefa que é extremamente difícil —na verdade, impossível— para os computadores com a tecnologia atual: simular a própria natureza.

Os cientistas estão muito interessados em simular o comportamento de sistemas naturais, como uma reação química de uma molécula em um fármaco ou as possíveis mudanças no movimento das correntes marítimas e atmosféricas causadas pelo aquecimento global.

Nesse contexto, "simular" significa reproduzir no computador exatamente o comportamento natural do fenômeno, com o maior número possível de detalhes. Isso é importante porque permite aos cientistas fazer previsões acuradas, projetar novos medicamentos etc.

O problema é que, se todos os detalhes forem levados em conta, a simulação se torna tão complexa que ultrapassa a capacidade de processamento e armazenamento dos computadores existentes —mesmo a dos supercomputadores.

A saída usada pelos cientistas e engenheiros é simplificar o problema ou, como se diz no jargão da ciência, fazer aproximações. E, com aproximações, parte importante da informação se perde.

Um computador quântico, contudo, é capaz de fazer simulações de sistemas naturais sem aproximações. Feynman (de novo) considerava que a própria natureza é um computador quântico simulando os fenômenos que observamos –para dar toques filosóficos à discussão, inclusive nós, seres humanos.

Parece Mágica

Em geral, fenômenos quânticos são associados apenas ao mundo microscópico, de átomos, moléculas e partículas elementares. Isso é um erro. Eles estão por toda parte; a própria estrutura da matéria, como a vemos e sentimos no cotidiano, é resultado direto das leis que regem o mundo quântico.

Sem usar a física quântica, é impossível explicar por que o cobre conduz eletricidade, e o diamante não. Sem lançar mão de suas leis, é impossível explicar a estrutura das ligações químicas que dão origem às moléculas –e, em última análise, a tudo que existe no mundo físico.

Porém, para fins de computação e comunicação, é preciso controlar alguns fenômenos quânticos que mais parecem truques de mágica — e aqui as coisas começam a ficar ainda mais interessantes (e estranhas).

De onde vem a mágica? O conceito mais importante para entendermos como os computadores quânticos funcionam é o de correlação, muito usado por estatísticos em problemas envolvendo probabilidades.

Quando dois objetos estão correlacionados, a observação de uma propriedade de um deles fornece informação sobre uma propriedade do outro —pouco importa a distância entre ambos.

Suponha, por exemplo, que tenhamos uma bola de bilhar branca em uma caixa opaca fechada e uma bola preta em outra caixa idêntica, também fechada. Não se sabe em qual caixa está a bola branca ou a preta. Uma das caixas é entregue ao sujeito A, e a outra, ao sujeito B.

Agora, eles se afastam um do outro, de tal modo que não haja contato entre eles. O sujeito A recebe a instrução de abrir sua caixa e verificar a cor da bola. Antes dessa operação, ele só sabe que há 50% de chance de a bola ser preta e o mesmo percentual de ela ser branca. Ele abre a caixa e verifica que a bola é branca.

No mesmo momento, ele ganha informação sobre a bola que está com B, que, com sua caixa ainda fechada, não sabe a cor de sua bola. Não há interação entre A e B, mas a correlação entre as cores das bolas permitiu que A obtivesse informação sobre a bola de B.

Façamos uma pequena variação desse experimento. Agora, cada caixa tem duas bolas, uma branca e uma preta. Novamente, A se afasta de B e recebe a instrução de, sem olhar para dentro da caixa, pegar uma das bolas.

Como antes, ele tem 50% de chance de pegar a preta e 50% de chance de pegar a branca. Ele pega uma delas e verifica que é preta. Dessa vez, porém, ele não pode concluir nada sobre que bola B pegará em sua caixa. Dizemos que a correlação estatística que existia antes se perdeu.

Emaranhamento

Se as bolas fossem objetos quânticos (como átomos), seria possível criar uma situação especial na qual todas as vezes em que A retirasse o "átomo preto" de sua caixa, B retiraria o "átomo branco", não importando quantos átomos estivessem nas caixas nem a distância entre elas.

É como se o resultado da ação de A definisse o resultado daquela a ser feita por B, que poderia estar a milhares de quilômetros de distância. Esse tipo de correlação estatística só existe em sistemas quânticos e se chama emaranhamento.

Não raro, o emaranhamento é classificado como o fenômeno mais estranho da natureza. Afinal, como um objeto que está aqui pode interferir instantaneamente no estado de outro objeto localizado a, digamos, bilhões de quilômetros? Não surpreende que o físico de origem alemã Albert Einstein (1879-1955) tenha apelidado esse fenômeno de fantasmagórico.

Em uma interpretação apressada (e errônea), diz-se que o emaranhamento viola o principal resultado da teoria da relatividade: informação não pode ser transmitida com velocidade maior do que a da luz no vácuo (300 mil km/s).

No emaranhamento, contudo, não há transferência de informação clássica, como ocorre com os dados da internet, por exemplo. O que se transmite é o que os físicos denominam informação quântica, algo impalpável, que não carrega matéria nem energia.

Apesar de sua esquisitice, o emaranhamento é o ingrediente mais importante para a computação e a comunicação quânticas. E já foi demonstrado inúmeras vezes em laboratórios pelo mundo todo, inclusive no Brasil.

Neste ano, os chineses fizeram experimentos que demonstram as correlações quânticas (ou seja, o emaranhamento) entre fótons (partículas de luz) separados por 1.200 quilômetros de altura usando um satélite. É a esquisitice do mundo quântico posta em prática.

Teleporte

O emaranhamento é o fenômeno responsável pelo processamento paralelo colossal de um computador quântico. Enquanto o bit (unidade de informação clássica) pode ter os valores "0" ou "1", que são mutuamente excludentes, o q-bit processa todas as combinações possíveis de "0" e "1" simultaneamente. É como dizer que uma lâmpada pode estar acesa e apagada ao mesmo tempo.
Não se trata de mero aumento de velocidade em comparação com dispositivos usuais, mas de um novo paradigma de computação.

Esse novo paradigma, além de permitir que problemas complexos sejam resolvidos em segundos, é o responsável pelo fenômeno conhecido como teleporte, no qual a informação quântica desaparece de um lugar e reaparece instantaneamente em outro, sem atravessar o espaço que os separa.

Do emaranhamento também vem a capacidade de estabelecer comunicações absolutamente seguras, à prova de hackers, pois qualquer tentativa de invadir a rede interferiria nesse fenômeno e seria detectada de forma instantânea. O atual sistema de criptografia, por outro lado, será destroçado por um computador quântico de mil q-bits, dada sua enorme capacidade de processamento.

Há ainda um rol de aplicações que estão apenas começando a ser exploradas, como a dos chamados sensores quânticos, capazes de realizar medidas de quantidades físicas com precisão inalcançável para os melhores métodos clássicos.

O funcionamento pleno de um computador quântico também irá revelar soluções até aqui desconhecidas pelos cientistas de problemas de matemática, física, química, biologia e engenharia, com potencial de produzir uma revolução científica e tecnológica ainda maior do que aquela que ocorreu no início do século passado, com a descoberta da teoria da relatividade e da mecânica quântica.

País sem futuro

Saltemos para 2027. No mundo desenvolvido, computadores quânticos são usados para encontrar poços de petróleo, projetar fármacos, criar materiais, resolver problemas muito complexos de engenharia e matemática, manter a internet à prova de hackers, desenvolver a defesa nacional etc.
O Brasil, porém, mais uma vez ficou de fora de um novo cenário científico-tecnológico (e geopolítico): não tem uma marca de computador quântico, e os poucos que existem no país foram comprados dos EUA, da China, da Inglaterra ou da Austrália a preços exorbitantes. Continuamos dependentes da tecnologia produzida nas nações que compreenderam que ciência deve ser projeto de Estado.

Mantidos os famigerados contingenciamentos para a ciência e a tecnologia no Brasil, naquele 2027, nossos cientistas —trabalhando nos sucateados institutos de pesquisa que ainda restaram— certamente estão implorando por verbas para pagar a conta da energia elétrica usada para manter ligados seus velhos computadores.

Mais uma revolução tecnológica terá passado longe daqui.
------
Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/573372-computador-quantico-ja-esta-chegando-e-vai-levar-tecnologia-a-uma-nova-era
imagem da Internet

Toni Negri : "O novo Palácio de Inverno são os bancos centrais”.

Resultado de imagem para toni negri

Quando nos sentamos em volta da longa mesa em seu apartamento em Paris, Toni Negri, 84, tem nas mãos notas densas de anotações, o olhar tenso, um ar exigente. A gripe que o incomoda desde seu retorno de uma viagem ao Brasil, onde ele apresentou Assembly, recentemente publicado em inglês pela Oxford University Press - quarta parte da busca conjunta com o filósofo estadunidense Michael Hardt, após Império, Multidão e Bem-estar comum – o deixa impaciente: "Não consigo trabalhar como eu gostaria", ele explica. Filósofo discutido em todo o mundo, agora está trabalhando na segunda parte de sua autobiografia - a primeira tem um título emblemático: História de um comunista (em tradução livre).

Ela já planeja um novo volume em parceria com Hardt. Desejo spinozista, prática marxista, com Negri não é hora de rememorações, falamos de dentro de uma tendência.
A entrevista é de Roberto Cicarelli, realizada por ocasião da publicação de seu último livro "Assembly" escrito com Michael Hardt, publicada por Il Manifesto, 04-11-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

Cem anos depois da revolução soviética, e cinquenta do movimento de 1968, um dos filósofos mais discutidos do mundo propõe uma política para além dos populismos.


Eis a entrevista.

Na palavra "revolução", hoje, parecem acreditar apenas os marqueteiros pagos para elaborar programas eleitorais. Para o senhor, que acreditava firmemente em uma revolução, até o ponto de mudar radicalmente a sua existência, o que significa essa palavra?

Para mim, isso significa que a revolução não é feita, mas faz você. É preciso parar de mitificá-la: a revolução é viver, construir continuamente momentos de novidade e de ruptura. A revolução é uma ontologia, não um evento. Não se encarna em um nome: Jesus Cristo, Lênin, Robespierre ou Saint Just.

A revolução é o desenvolvimento das forças produtivas, dos modos de vida da comunidade, o desenvolvimento da inteligência coletiva. Eu nunca pensei em fazer a revolução e subir ao poder no dia seguinte.

Quando eu era jovem, pensava que o comitê de trabalhadores de Marghera iria organizar a sociedade em torno do conselho operário e seus ideais a partir da fábrica. Naquela época, na década de 1970. Hoje é muito diferente, há outro modo de produção: é possível organizar a sociedade a partir da renda básica, das novas figuras do trabalho, das novas escolas e formas de associação, de novo lazeres, saindo do tédio e do desespero em que vivemos.

Eu nunca pensei que a revolução fosse algo que te leva ao poder, mas que muda o poder. Isso significa tomar o poder de forma diferente.

É uma diferença fundamental: não significa tomá-lo de cima, mas de baixo. A revolução existe quando se torna possível provar que o bem-estar comum emerge do modo de produção que investe a vida. É o bebê que hoje segura o fórceps nas mãos, não o obstetra da história.

Em relação à linguagem e ao imaginário atual a sua abordagem sempre foi, para dizer o mínimo, discordante. Na melhor das hipóteses, geralmente, costumam lhe responder que o senhor é otimista, utópico e visionário. À esquerda há sempre aquele ar sombrio, realista, comprometido com o esforço voluntarioso de se juntar ou de evocar sujeitos que faltam. Como o senhor se situa nesse horizonte?

Posso lhe responder com um episódio, muito prático. Há alguns dias, Michael (Hardt) apresentou Assemby em Londres. Ele se encontrou com Momentum, a rede de base que apoia o Labour e Corbyn. O que é impressionante é o encontro entre os jovens e os velhos corbynianos, pessoas que fizeram o movimento de 1968 e as lutas dos anos 1970 e hoje são arrebatados pelo entusiasmo dos jovens que fizeram as lutas altermundialistas e aquelas da Occupy, as últimas lutas desta geração. Faltam todas as pessoas entre 35 e 60 anos, a geração blairiana. Eis onde se forma a nova esquerda e com essas realidades hoje nos encontramos e superamos os velhos entraves com a cultura social-democrata.

No livro, o senhor descreve o surgimento extraordinário e dramático do movimento estadunidense Black Lives Matters. Qual sua relação com a onda que fez tanto falar de Bernie Sanders?

Estamos em contato com uma companheira que está na direção do movimento de Sanders. De seus relatos entendemos que o Partido Democrata americano é uma máquina de poder terrivelmente governativa, não reage a novidades, retoma temas social-democráticos clássicos que não funcionam. Black Lives Matters (As vidas negras importam, em tradução livre) é o futuro. É a expressão de um movimento sem liderança.
Existem muitos outros no mundo e a esquerda deveria entendê-los a fundo: o dos indígenas, por exemplo, que focam nas propriedades comunitárias, são experiências formidáveis. E os novos movimentos feministas e sua forte subjetividade.

É a própria forma de capitalismo que revela essas novas forças produtivas e essas experiências de ruptura. Não só é um discurso marxista, é um discurso realista, se quisermos sair do "breve século", de uma vez por todas, fora de sua agonia.

O senhor sempre fala do ponto de vista dos movimentos. Em Assembly vocês analisam, sem reticências, a sua crise e sugerem não subestimar "o poder durável daqueles que lutam e são derrotados." O que quer dizer?

Vamos voltar ao paradoxo de Corbyn: os militantes do movimento de 1968 que se encontram com os jovens de hoje. Basta um assobio que reaparecem aqueles que foram derrotados na época. Porque aprenderam nas lutas a generosidade e a cooperação, fizeram triunfar a solidariedade. Esses são vícios que, uma vez contraídos, não te abandonam nunca mais.

Se pudesse ser feita uma história foucaultiana dos movimentos na Itália ficaria evidente a grande quantidade de “cínicos”, de militantes comunistas que estão espalhados por ai: quero dizer de pessoas que foram conformadas pela "vontade de saber" e pela ação revolucionária, e assim tinham amor pelos outros e pela vida.

Escreve que de 2001 a hoje os movimentos reafirmaram um novo começo para a esquerda, mas demonstraram uma “pobreza organizacional" e não estiveram à altura do problema que propuseram. Não existe o risco de repetir as velhas derrotas sem avançar um milímetro?

É preciso, de uma vez por todas, nos livrarmos da ilusão de que dos movimentos deva-se tirar alguma coisa. Quase sempre os movimentos expressam o final de um discurso, não produzem um evento, mas o terminam. O movimento de 1968 não foi um evento, mas uma construção. Porque por trás estavam os anos 1960, já existia há tempo uma política de massa a nível mundial.
Na Itália, essa política foi tão poderosa que durou por mais dez anos, passando pelo movimento de 1977. Os movimentos hoje não entendem que devem construir, não que devem colher.

Eu ouvi os companheiros que saíram de Gênova, ou das lutas universitárias, falar que após as manifestações era o momento de fazer uma organização. Mas se não o haviam feito até então, nunca mais o fariam! Seriam apenas identificados pela polícia como pessoas a serem eliminadas. Precisamos quebrar essa ideia de que o movimento forma o partido, a coalizão, um séquito. Os movimentos formam a força, e esta força deve ser reconhecida.

Os movimentos são a estratégia. Não nascem pela infusão de um espírito, ou por um mistério que se encarna na sociedade, eles constroem-se concretamente, passo a passo, juntamente com milhares de pessoas, cada uma a partir de si mesma. A política se constrói juntos.

Os Sovietes para nós permanecem um modelo para refletir, nasceram em um modo específico de produção, agregando forças produtivas e sociais. Em um mundo completamente diferente, continuam a ser um dispositivo poderoso.

Os Sovietes ainda são atuais?

Hoje devem ser construídas instituições não soberanas e não-proprietárias. Funcionariam como a gestão da água como bem comum, na luta contra a violência policial na França ou nos Estados Unidos, nas grandes lutas indígenas na América Latina, nas lutas feministas.

A invenção de uma nova estrutura política só pode nascer da conexão entre essas forças. A instituição não nasce do soberano, mas da necessidade de estar juntos, de produzir e viver junto.

Essa era a ideia básica dos Sovietes: organizar a maneira de estar juntos em uma sociedade industrial, onde a cooperação social é avançada e tem a capacidade de exercer poder através da construção política de uma força produtiva.

Para descrever essa construção no livro vocês usam uma expressão curiosa: "empreendedorismo do comum". O que significa?

Em algumas recensões anglo-saxônicas criticam esse nosso conceito: a empresa não pode ser tirada do neoliberalismo. Mas eu acho que hoje a relação entre o empreendedorismo e instituição – o instituere - seja algo que deva ser estudado até o fundo. O trabalho é sempre istitutio. Essa capacidade, hoje, é massacrada ou oculta por um falso conceito de liberdade.

Criar uma empresa significa deixar livre a força de trabalho para que se organize. Esse é o discurso político que o capitalismo confisca aos trabalhadores. Ao contrário, nós acreditamos que se inicia a fazer política quando a força de trabalho conquista a capacidade de se organizar de forma produtiva.

Tudo isso passa por um partido? É o que o senhor acredita?

Absolutamente não. Hoje a autonomia do político não é mais aquela do leninista, hoje é o populismo. Em cada época a autonomia do político qualifica-se de alguma forma, se quiser se evitar assumi-la em termos genéricos. E hoje a autonomia do político foi reduzida a um jogo discursivo que usa as categorias institucionais e visa construir um povo submisso.

Estou me referindo ao que acontece na Itália, onde a lei eleitoral há muito se tornou o lugar central desse uso discriminatório do político. É uma pura manipulação do povo e do consenso.

Não está em jogo apenas um critério mínimo de representação, que me parece cada vez mais em crise, mas algo mais profundo: pretende-se impedir que as pessoas experimentem novas formas institucionais e produtivas para governar a si mesmas.

A social-democracia está em crise e muitos acreditam que ela pode ser superada através de uma virada à "esquerda" do populismo. Considera que o Podemos ou o Labour de Corbyn possam ser interpretados dessa maneira?
Aquele da esquerda é um caso do populismo de “substituição". Duvido que essa lógica, teorizada pelo filósofo argentino Ernesto Laclau, possa reinventar fórmulas diferentes daquelas do "socialismo nacional". Na Espanha, dentro do Podemos, desenvolveu-se um grande debate sobre esse tema. E venceu a tendência nacional-popular.

A polêmica ocorreu com os movimentos sobre o papel do partido: se deveriam ser apoiados pelos movimentos e criar uma coalizão ou se deveria ser um partido clássico que inventava o seu povo. Venceu o projeto de substituição da social-democracia, não um projeto de inovação da esquerda.

No outro extremo do populismo, Alice Weidel da Afd na Alemanha é um caso clamoroso da inversão das instâncias dos movimentos: lésbica, casada com uma cidadã do Sri Lanka, trabalhou para a Goldman Sachs e Allianz, defensora de políticas xenófobas, islamofóbicas e é contra as uniões homossexuais. O que representa uma figura desse tipo?

Representa o vazio que se reproduz. Como outros personagens não é um sujeito, mas um produto. Nasce pela influência dos piores instintos e chega à contradição mais gritante com o que é realmente a sua vida. A isso, basicamente, é o que leva o populismo: criar o povo mesmo contra o que se é. A essa contradição liga-se o conceito de nação e depois, na ordem, aquele de pertencimento regional e familiar. Assim articulam-se formas de propriedade e fronteira. O grande risco é o da corrupção.
Em minha vida vi muitas pessoas fazerem coisas terríveis em nome da família, até as piores formas de corrupção. Por trás desses pertencimentos, estão apenas barbárie e tribalismos.

Quais são os outros populismos?
Trump é um exemplo completo. De sua própria forma Macron, na França, assemelha-se a ele, embora se comporte como tecnocrata que dirige do centro a direita e a esquerda constitucionais de acordo com o projeto de Juppé.

À direita e à esquerda, estão populismos "relavados". No Mediaset no caso de Berlusconi, a rede no caso dos Cinco Estrelas.
Mélenchon na França distingue entre a soberania popular, aquela da revolução de 1789, e o soberanismo que seria um conceito de direita; entre o ideal de "nação" e o de "nacionalismo como etnicismo".

Neste e em outros casos, como entre os bolivarianos sul-americanos, não se reflete nuca suficientemente sobre o fato de que, no populismo, estão no comando apenas os dominantes e os ricos que falam em nome de muitos.

Também é possível que essa ideia de "populismo" produza um contragolpe sobre os movimentos, especialmente sobre a imigração, amplificando um senso comum xenófobo e racista. Um risco que pode ser entrevisto também no Labour inglês ou na Linke alemã. Como explica essa ambivalência?

Existem duas ideias que jamais tiraremos da social-democracia, herdeira do "breve século”: a propriedade e a fronteira. É uma bactéria letal, hoje implantada no coração da Europa, quando se erguem muros ou se movem as fronteiras para além do Mediterrâneo, rechaçando os migrantes para morrer nos Lagers na Líbia.

Rousseau dizia que o maior criminoso que já nasceu foi o que disse: "Isso é meu." Mas existe um delinquente ainda maior, Rômulo, que disse: "Esta fronteira é minha". Propriedade e fronteira: é a mesma coisa.

A social-democracia amadureceu essa cultura depois de 1848, com a revolução romântica. Penso em Mazzini: ele foi, por esse ponto de vista, o primeiro social-democrata: defendia a república popular e a centralidade nacional, dois elementos que sempre tiveram uma síntese reacionária, nacional-popular. A segunda Internacional Socialista foi atravessada por esse espírito contra o internacionalismo da Comuna e tentou combinar nacionalidade e revolução.

Por outro lado, o bolchevismo foi formidável do ponto de vista da revolução mundial, porque unificou comunismo, anti-imperialismo e anticolonialismo. A tragédia do anticolonialismo foi o retorno do nacionalismo.

Isso comportou um erro significativo, e até hoje recorrente nas políticas centristas que dali derivaram: pensar que a aliança do proletariado com as classes médias e progressistas seja um passo estratégico, e não meramente tático. As derivações do populismo atual repetem o mesmo erro: pensam que o conceito de nação apague o de classe. É um problema que ainda teremos que confrontar.

Mais e mais frequentemente ouvimos que a alternativa ao neoliberalismo e à crise é o trabalho, a plena ocupação, o keynesianismo, as nacionalizações. É uma solução?

São hipóteses que permanecem confinados na agonia do "breve século", no qual ainda nos encontramos. Discutimos ainda sobre alternativas que foram destruídas: socialismo estatal e nacional e liberismo proprietário e privado. Continuamos reféns da distinção entre público e privado, e não vemos o que passou por baixo, e através dele, entre o século XX e hoje.

E o que aconteceu?

A derrota da ideologia do privado e do público por causa da transformação do modo de produção. Existe uma nova composição das forças produtivas determinada pela transformação do trabalho que o tornou comum e individualizado, tirando-o do privado e do público. É uma força-trabalho que funciona somente de maneira cooperativa. Ou seja, de forma cada vez mais comum. Hoje, o problema é a organização da produção social e a distribuição da renda, não o pleno emprego.

A distinção entre trabalho/emprego e nova capacidade de trabalho e cooperativa é o elemento central do debate e envolve consequências radicais de natureza fiscal, políticas sociais, industriais profundamente diferentes em relação ao passado.

Na esquerda e nos sindicatos argumenta-se que um estado "inovador" será capaz de criar tecnologias revolucionárias na economia verde, telecomunicações, nanotecnologia ou farmacêutica. As novas instituições de que vocês falam no livro passam pelo Estado e qual sua relação com essa categoria que volta a ter sucesso?

Seja bem-vindo esse Estado, desejo-lhe sucesso. No entanto, permitam-me ressaltar que esses setores estão no mercado, organizados como máquinas de extração do valor produzido socialmente, e sob esse aspecto protegidos, embora mal, pelo Estado.

Em Assembly, nos questionamos se essas maravilhas poderiam ser submetidas a escolhas e decisões democráticas. Respondemos que não. Enquanto não for reconhecido o regime de exploração extrativo e proprietário (patentes, receitas financeiras, organizações monetárias) em que essas indústrias operam, e enquanto a esse reconhecimento não se seguir um processo democrático de re-apropriação dos bens comuns.

Agora já é hora da reapropriação do bem comum por parte de seus produtores, e de re-orientação democrática da gestão do bem comum: não é o Estado, mas são os produtores que precisam dizer para o que servem essas tecnologias e quais benefícios manter ou quais desvantagens descontar.
A força de trabalho é cada vez mais organizada pelas plataformas digitais: Uber, Deliveroo ou TaskRabbit. O poder dos "senhores do silício" é tão amplo a ponto de levar a acreditar que o algoritmo tenha uma ideia popular, e transparente, da democracia. A isso conduzirá a revolução digital?

Nessas plataformas os trabalhadores não pensam em usufruir de um maior grau de democracia! E lutam e resistem à exploração extrema.

É importante, porém, que seja colocado o problema: é possível inverter o funcionamento do algoritmo de comando das plataformas digitais? Longe de imaginar utópicas reversões das plataformas digitais em circuitos de cooperação, será possível dominar tais monstros apenas desmantelando as condições políticas nas quais o algoritmo é imposto: aquelas de direito privado e de sua legitimação estatal.

Mark Zuckerberg do Facebook reconheceu a importância da renda básica. Será o Vale do Silício que realizará aquela que é definida como uma utopia concreta?

Zuckerberg obriga-nos a estudar as formas pelas quais as tecnologias e as atividades laborais se entrelaçam na produção e no uso das mídias sociais. É ali, naquele espaço, que, paradoxalmente, indica-nos a possibilidade de fazer renascer a democracia.

Acredito que esse espaço seja aquele no qual deve ser reaberta a busca dos revolucionários: é o espaço que, mutatis mutandis, 150 anos atrás, Marx analisou no primeiro volume de O Capital.

É lá, onde o homem encontra-se com a exploração de novas máquinas e novos patrões, que renasce a classe e é proposta a revolução.

Então, o senhor está convencido que só uma renda básica vai nos salvar?

Mas não, é óbvio que em si não se pode resolver o problema. É o elemento preliminar, e ainda assim central, para a reorganização social fundada sobre o bem comum e sobre a superação das categorias da propriedade privada e pública. É no terreno financeiro que é preciso confrontar-se.
O problema é o comando das finanças. O palácio de Inverno de hoje são os bancos centrais.

Toni Negri: as lutas e os livros

"Os movimentos são o emblema daquele processo revolucionário contínuo através do qual o capital quis impor o próprio poder sobre a vida - mas onde a vida violentamente expressou sua recusa", escreveu Toni Negri na primeira parte de sua autobiografia (“Storia di un comunista”, Ponte Alle Grazie).

Oitenta e quatro anos marcados pela relação com o movimento operário e os movimentos sociais.

Política, pesquisa, conflitos, a detenção ocorrida em 07 de abril de 1979 juntamente com centenas de militantes de "Autonomia Operaia” no âmbito do 'teorema Calogero', definido por Rossana Rossanda em Il Manifesto como uma "operação política de baixo nível, o mais baixo da magistratura da república".

Hoje Negri é um dos filósofos políticos mais influentes, autor de mais de 60 livros, traduzidos em muitas línguas. Com Michael Hardt escreveu de Il lavoro di Dioniso (Manifestolibri, 1995) a Assembly (Oxford University Press, 2017). Mais Império (Record, 2000), Multidão: Guerra e Democracia na Era do Império (Record, 2005)  Bem-estar Comum (Record, 2016) e Declaração: Isto não é um manifesto (N-1 Edições, 2014).
-----------
Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/573396-o-novo-palacio-de-inverno-sao-os-bancos-centrais-entrevista-com-toni-negri
Imagem da Internet

Entrudo midiático, “show dos atrasados” é a nova jabuticaba brasileira

entrudo


Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Esse sadismo em relação aos atrasados do Enem é filho direto da dramatização irresponsável feita anualmente pelos veículos de imprensa. Ano a ano fomos vendo essa reprodução de imagens (fotógrafos e cinegrafistas invadindo as vidas dos estudantes, em nome da notícia-mercadoria), banalizando-as, até que pessoas suficientemente canalhas construíram o tal “show dos atrasados”.

O tema esteve entre os destaques mundiais do Twitter, no domingo. Com a ajuda da imprensa, consolida-se o hábito de zombar de quem chega atrasado no vestibular. O drama pessoal dos demais – um ano inteiro de estudos, os planos profissionais adiados – se torna apenas um motivo para diversão. Uma diversão baseada na humilhação. Em São Paulo, em Porto Alegre, os sádicos se multiplicam.

Difícil imaginar muitas outras coisas que ilustrem o momento de implosão ética em que vivemos no Brasil. E nesse caso temos de falar de Brasil, sim. Podem mudar aquele chavão do “país das jabuticabas”, a fruta a ilustrar nossas características únicas. Somos o país do “show dos atrasados” – de gente abjeta que se orgulha dessa condição, da naturalização da psicopatia como comportamento social. Do orgulho da boçalidade.

A SOCIEDADE BRUTA E O JORNALISMO BUFO

Os pauteiros sem imaginação (ou conformados com diretrizes toscas de seus patrões) construíram parte dessa narrativa durante décadas. Evadiram choros, rostos desesperados. No limite do grotesco. Essa invasão foi e é também uma invasão estética, um atentado simultâneo ao bom gosto e à compaixão. Os psicopatazinhos não sabem, mas foram gestados por essa era de reprodutibilidade do constrangimento.

enem-camarote

Estamos diante de uma sociedade bruta acorrentada a um jornalismo bufo, ambos a exibir seus simulacros de dentes, suas bocas arreganhadas cheias de desprezo, seus cérebros deformados e seu coração exibicionista. Regride-se porque alguém apontou para esse caminho antes, não apenas porque 200 – ou 2 milhões de – imbecis tiveram a ideia “genial” de troçar da desgraça alheia.

(Nunca isoladamente, claro. Não fariam isso sozinhos. Pois são covardes. O movimento é de massa. Atos que esses jovens não fariam individualmente são feitos sob a blindagem da “festa popular”. E das redes sociais.)

ZOMBETEIROS NEM ORIGINAIS SÃO

E agora chegamos àquela parte onde o pai homenageia o filho – dando a ele cobertura. Só que o “show dos atrasados” não é o filho, é o pai. A imprensa já fazia esse show, os filhos fiéis (e não degenerados, portanto) somente embaralharam os sentimentos que já eram espetacularizados. Essas tristes faces que vemos zombando dos atrasados, portanto, nem originais são, são variações em torno da mesma falta de horizontes.

Como uma manchete do Notícias Populares dos anos 90, feita por jornalistas cínicos: “Retalhou a orelha do aluninho”. Sobre um crime cometido por uma professora. Qual a diferença em relação ao sadismo atual? A institucionalização e o singelo fato de que profissionais da comunicação deveriam estar entre os primeiros a promover direitos elementares. Hoje retratam os que zombam, emprestam a eles seus 15 segundos de curtidas.

Os sorrisos e gargalhadas não são sorrisos e gargalhadas, são contrações faciais parentes das mesmas contrações faciais protocolares de antes. A empatia anterior não era exatamente autêntica. Podia até mobilizar empatias autênticas, mas era uma farsa. Os novos cafajestes apenas capturaram esse desprezo no ar e o transformaram em carnaval. É o bloco na rua que eles têm para hoje.

LEMBRAM-SE DE BONINHO?

enem-boninho

Como se estivéssemos assistindo a um entrudo, um entrudo midiatizado. Qualquer semelhança com Boninho atirando ovos em pedestres não será mera coincidência. Engana-se quem pensa que os vestibulandos atrasados são as únicas vítimas. Somos todos nós, os que vivemos sob a órbita dessa mentalidade regressiva. Do jeito que vai teremos de lutar com clavas contra ela, até que o último portão da caverna nos separe.
--------
Fonte: http://outraspalavras.net/alceucastilho/2017/11/06/entrudo-midiatico-show-dos-atrasados-e-a-nova-jabuticaba-brasileira/

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Homem comum no seu labirinto



Juremir Machado da Silva*
 Imagem relacionada

Quando tento me agarrar às nuvens para não cair, tenho a sensação de flutuar com os pés enterrados no chão. Sei que é feito de barro o sonho de todo surrealista. Nessas caminhadas pela cidade, sentindo a mão da primavera me acariciar, eu me pergunto: o que é a vida? Quem não faz isso? Quem não se perde em devaneios na fila do banco? Uma das imagens que me dominam enquanto troco de calçada é a de um estranho labirinto chamado existência. Um labirinto em linha reta. Ontem, eu tinha 20 anos e queria saltar 40 casas no meu velho jogo de Banco Imobiliário. Hoje, tenho 55 e me vejo pulando casas para recuperar sonhos e a liberdade daqueles tempos de despreocupação.

O que eu pensava quando tinha 20 anos de idade? Que nada tinha, que tudo desejava, que tudo teria. Eu era como o famoso Terceiro Estado antes da Revolução Francesa de 1789. De resto, foi nessa época, nessa juventude sem dinheiro e sem medo, que li pela primeira vez o brado do padre Sieyès: “O que é o Terceiro Estado? – Tudo. O que tem sido ele, até agora, na ordem política? – Nada. O que é que ele pede? – Ser alguma coisa”. Eu pedia mais: queria ser tudo. Mas não tinha pressa. Era jovem o suficiente para ter certezas plenas sobre o futuro. Se não era um sans-culottes, com minhas duas calças jeans, sonhava em guilhotinar a miséria do mundo. Como o Brasil eu era um país do futuro, sempre do amanhã, um porvir radioso, feliz e quente.

Qual o meu estado na aurora da terceira idade? Estado de incerteza, de reflexão e de desejos que se infiltram como uma nascente cristalina. O que sou? Não direi “nada” para não plagiar Fernando Pessoa nem dramatizar. Ponderadamente digo: algo. Sou alguma coisa, mas já não tenho todos os sonhos do mundo e isso me deixa nu na esfera pública. Quando foi que comecei a reduzir meus sonhos como se poupasse para o passado? Ignoro. O que tenho sido ao longo do labirinto? Tudo. Em imaginação. Nunca me furtei de delirar. Fui presidente do Brasil, prêmio Nobel da literatura, herói de guerra, piloto de Fórmula 1 sem saber dirigir, astronauta e poeta maldito. O que eu peço? Pouco.

O que é esse pouco? Tudo. Escreveu o poeta espanhol Antonio Machado: “Luz do espírito, luz sagrada,/lanterna, tocha, estrela, sol…/Um homem às cegas na estrada;/leva nas costas um farol”. Sim, quero luz, quero sol, quero estrelas, quero tocha, quero ser meu farol na reta final, que espero seja longa, do labirinto. Que pedaços perdi no caminho que se faz caminhando já sem a rapidez de antes? Pedaços de fantasia, de crença e de verdades. Anteontem eu debochava de tudo. Ontem eu me preservava. Hoje eu ainda me arrisco. Faço definições: ciências humanas no Brasil: a opinião de cada um nas regras da ABNT. Filosofia: aquilo que pensamos sem escrever. Literatura: nossos melhores pensamentos antes da transcrição para a página em branco.

Amanhã serei um grande silêncio ouvindo o vento bater portas em taperas, casas onde morei e que agora me habitam como fantasmas alheios à falta de convite. Conversam comigo. Vejo minha boca costurada, meus lábios secos, meus olhos semicerrados fitando sílabas passando em câmera lenta. Na caminhada aprendemos a calar. Há, por certo, aqueles que perdem o senso e desatam a falar quando sentem que tudo já perderam na travessia até então ignorada. Outros, porém, descobrem um pudor inusitado diante da solidão imensa do tempo. Parecem dizer-se com embaraço e temor: para que tanto barulho? Para que tantas palavras? Para que tantos sinônimos? Para que tanta viagem?

No labirinto um homem perdeu a razão. Andava com um volumoso dicionário embaixo do braço. Aos que o interpelavam, ele explicava:

– Quero pronunciar todas as palavras antes de me calar para sempre.

Eu sou o homem comum no seu labirinto feito um general que perdeu a guerra antes de chegar à frente de batalha, mas ganhou medalhas pela persistência. Quem não é assim em algum momento? Todos os dias alguém tenta encontrar a saída, abrir a porta, achar a chave, saltar o muro, derrubar a cerca, pular pela janela lateral do quarto de dormir, furar o bloqueio, tirar a grade, soltar o grito parado no ar, soprar as nuvens para longe com hálito de pasta de dente, esquecer no bolso do casaco as requisições para meia dúzia de exames médicos, um mais esquisito do que outro, fingir que enfiar a cabeça na máquina é como se aconchegar no travesseiro, correr alegre para o abraço.

Então subitamente há sol no labirinto. Sim, brilha o sol do cotidiano, esse farol das maravilhosas pequenas alegrias, essa tocha que ilumina o bom caminho, aquele que nos leva ao melhor de nós sem pedir nada em troca, salvo a felicidade de existir, essa estrela sorridente no café da manhã, síntese da vida como lanterna, luz sagrada e transcendência. O caminhante deixa de fazer a caminhada enquanto tenta alcançar o horizonte para se mover em espiral. Aprende que na escala do universo tem a longevidade de uma borboleta.
--------------
*  Jornalista. Graduou-se em História (bacharelado e licenciatura) e em Jornalismo pela PUCRS, onde também fez Especialização em Estilos Jornalísticos. Passou pela Faculdade de Direito da UFRGS, onde também chegou a cursar os créditos do mestrado em Antropologia. Obteve o Diploma de Estudos Aprofundados e o Doutorado em Sociologia na Universidade Paris V, Sorbonne, onde também fez pós-doutorado.
Fonte:  http://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/2017/11/10371/10371/
Imagem da Internet