quarta-feira, 4 de maio de 2022

A escalada da desumanidade.

 Edgar Morin 

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Foto: Unsplash

"Estamos na escalada da desumanidade e no colapso da humanidade, na escalada do simplismo e no colapso da complexidade. Acima de tudo, a escalada para a guerra global é o colapso da humanidade no abismo. Podemos escapar dessa lógica infernal? A única possibilidade seria um compromisso de paz que estabeleça e garanta a neutralidade da Ucrânia", escreve Edgar Morin, sociólogo e filósofo, em artigo publicado por La Repubblica, 03-05-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Vivemos uma paz bélica, o corpo confortavelmente em paz, a mente entre bombas e escombros.

Atacamos com palavras um inimigo que nos ataca por sua vez com ameaças, mas dormimos em nossa cama, não em um abrigo. No entanto, participamos da verdadeira guerra sem ter entrado nela, mas fornecendo armas e munições.

A guerra gradualmente internacionalizou-se. À ajuda humanitária e depois alimentar para a população ucraniana, vítima da agressão russa, seguiu-se a ajuda militar sob a forma de armas, primeiro defensivas e depois contraofensivas, cuja qualidade e quantidade aumentam sobretudo graças à contribuição massiva dos Estados Unidos, acompanhados da maioria dos países da União Europeia.

A estratégia do exército russo é implacável. É filha da estratégia de Jukov durante a Segunda Guerra Mundial, que dava o papel principal aos formidáveis bombardeios de artilharia, não apenas contra o exército inimigo, mas também contra as cidades a serem tomadas, deixando no final a aniquilação total da capital do Reich, Berlim, com a artilharia pesada. Como acontece em qualquer exército vitorioso, mas mais terrivelmente no avanço soviético na Alemanha, houve inúmeros massacres e estupros. Sabíamos disso então, mas tomamos o cuidado de não os denunciar, explicando-os como uma vingança pelo enorme sofrimento e mortes infligidas pela Alemanha nazista às populações soviéticas.

Quanto à Ucrânia, um povo senão irmão, pelo menos primo do povo russo, cabe se perguntar se os massacres e os estupros se devem à desordem de certas tropas, à fúria do fracasso ou ao desejo de espalhar o terror.

Ainda não sabemos se a intenção original da agressão de Putin fosse a de derrubar toda a Ucrânia como uma fruta madura, decapitando-a após os primeiros ataques. Parece que a ambição atual diante da resistência ucraniana é conquistar permanentemente as regiões de maioria de língua russa do Donbass e a área costeira do Mar de Azov.

Enquanto escrevo, a luta é feroz e incerta: a ofensiva russa é muito poderosa, mas o exército ucraniano, no curso de sua guerra que vem acontecendo desde 2014 contra os separatistas russófilos, construiu fortificações profundas e bem distribuídas, que têm até agora retardado consideravelmente os avanços russos, ainda não muito decisivos. O que agora parece provável, salvo um golpe de estado no Kremlin, um golpe militar fatal ou um coup de théâtre diplomático (cessar-fogo, compromisso de paz), é que a guerra dure e se intensifique com o suprimento cada vez maior de armas ocidentais e as represálias cada vez mais amplas da Rússia.

O caráter internacional da guerra na Ucrânia está crescendo. É verdade que o campo ocidental, liderado pelos Estados Unidos, declara que não está em guerra com a Rússia. Mas sua intervenção militar em favor da Ucrânia é uma guerra indireta, à qual se soma uma guerra econômica exacerbada pelo aumento das sanções. Estamos em plena escalada, sustentada por novos bombardeios, novas acusações mútuas, novas ondas de criminalização mútua. A guerra indireta incluída na guerra da Ucrânia pode a qualquer momento se ampliar após bombardeios não acidentais em território russo ou europeu. Além disso, Putin repetiu sua ameaça de uma resposta "imediata e fulminante” se um determinado limiar não especificado de hostilidade ou interferência ameaçasse a Rússia, referindo-se a uma arma decisiva, desconhecida de qualquer outro país, que somente a Rússia possuiria.

Essa ameaça não é levada a sério pelos Estados Unidos e seus aliados, com base em um argumento aparentemente racional, bem conhecido desde a Guerra Fria. Se a Rússia quer nos aniquilar, uma resposta imediata a aniquilaria por sua vez. Este argumento racional não leva em conta uma possível acidentalidade e uma possível irracionalidade. A possível acidentalidade seria o lançamento involuntário de uma arma nuclear contra o potencial inimigo, o que desencadearia uma resposta nuclear imediata. A possível irracionalidade é a de um ditador cheio de raiva ou tomado pelo delírio.

De qualquer forma, atualmente é provável (sabendo também que o improvável pode acontecer) que entre um deslize e outro a guerra se estenda aos territórios europeus e seja ampliada por mísseis intercontinentais nos territórios russos e estadunidenses sem poupar a Europa. Uma terceira guerra mundial, de um novo tipo, que utiliza armas nucleares táticas de alcance limitado, drones, guerra cibernética para destruir os sistemas de comunicação que sustentam a vida das sociedades, seria o resultado lógico da ampliação da atual guerra internacionalizada.

Acrescentamos uma observação importante: a guerra introduz nos países em conflitos controles, vigilância, eliminação de qualquer opinião que se desvie da linha oficial e o bombardeio da propaganda para justificar permanentemente os próprios atos e criminalizar ontologicamente o inimigo. A Rússia de Putin já era um estado autoritário sob as ordens de um ditador. A guerra agravou o controle e a repressão ali, atingindo não apenas aqueles que se opunham à agressão, mas também aqueles que questionavam sua validade. Na Ucrânia, a caça a espiões e terroristas deu origem ao controle da população, os excessos cometidos por algumas de suas tropas ou banderistas são escondidos e, mesmo denunciando as violências reais, a propaganda é desencadeada contra um inimigo totalmente criminalizado. Na França, mesmo que não sejamos um país beligerante e ainda vivamos no extremo conforto da paz, temos acesso apenas às mais falsas afirmações da Rússia de Putin e às imagens da destruição que provoca.

Estamos na escalada da desumanidade e no colapso da humanidade, na escalada do simplismo e no colapso da complexidade. Acima de tudo, a escalada para a guerra global é o colapso da humanidade no abismo. Podemos escapar dessa lógica infernal? A única possibilidade seria um compromisso de paz que estabeleça e garanta a neutralidade da Ucrânia.

O status das regiões russófonas do Donbass poderia ser decidido com um referendo. Aquele da Crimeia, uma região tártara parcialmente russificada, mereceria um status especial. Em suma, as condições para um compromisso, por mais difícil que seja, são claras. Mas a radicalização e a ampliação da guerra estão inegavelmente reduzindo as possibilidades. A situação geopolítica da Ucrânia e sua riqueza econômica em grãos, aço, carvão e metais raros fazem dela uma presa cobiçada para aqueles grandes predadores que são as duas superpotências. O deslocamento da Ucrânia para o Ocidente após Maidan provocou a agressão russa, e a agressão russa provocou não apenas o apoio a uma nação vítima de uma invasão, mas também o desejo de a integrar ao Ocidente, o que era, afinal, o que a maioria dos ucranianos desejava.

A Ucrânia é vítima não só da Rússia, mas também do agravamento das relações conflituosas entre os Estados Unidos e a Rússia, incluindo, evidentemente, o alargamento da OTAN, que por sua vez é inseparável das preocupações suscitadas pela guerra russa na Chechênia e pela sua intervenção militar na Geórgia. A salvação da Ucrânia está não só em libertar-se da invasão russa, mas também do antagonismo entre a Rússia e os Estados Unidos.

As sanções contra a Rússia, embora atingindo duramente não só o regime de Putin, mas também o povo russo, não sabemos até que ponto também afetam os sancionadores, recaindo em parte sobre eles: não são apenas seus suprimentos energéticos e alimentares que estão ameaçados mas, sem dúvida, com o aumento da inflação e as restrições por vir, sua economia e toda a sua vida social: uma crise econômica é sempre em si mesma geradora de regressões autoritárias e do estabelecimento duradouro de sociedades de submissão.

A Rússia de Putin é um abominável regime autoritário. Mas não é comparável à Alemanha de Hitler; seu hegemonismo pan-eslavista não é, como o de Hitler, a vontade de colonizar a Europa e escravizar os povos racialmente inferiores. Qualquer hitlerização de Putin é excessiva. Estamos em um mundo dominado pelos antagonismos entre as superpotências e entregue a delírios étnicos, nacionalistas, racistas e religiosos. Por mais que as superpotências possam ser repugnantes de várias maneiras, a distensão em seus conflitos é uma condição sine qua non para evitar desastres generalizados.

Devemos, pois, esforçar-nos por chegar a um compromisso. Isso não salvaria a humanidade, mas ganharia uma trégua e, talvez, uma esperança.

Fonte:  https://www.ihu.unisinos.br/618260-a-escalada-da-desumanidade-artigo-de-edgar-morin

terça-feira, 3 de maio de 2022

Não ao Condomínio Cais Mauá

 Juremir Machado*


Não ao Condomínio Cais Mauá

Tentaram construir edifícios residenciais no Pontal do Estaleiro. Um plebiscito impediu. Escrevi, na época, um texto, “O pontal da janelinha”, que rodou bastante mostrando o absurdo que era a ideia de dar a tão poucos um privilégio tão grande. Driblaram a decisão e fizeram hotel etc. Agora, com o apetite financeiro de sempre, querem meter 900 apartamentos nas docas como contrapartida à “revitalização” do Cais Mauá. É o golpe de sempre. Não conseguem aceitar que a margem inteira do Guaíba tenha de continuar pública, aparelhada para servir a todos, não a uns poucos aquinhoados e dando lucros astronômicos a empresas associadas ao Estado.

Toda a orla deve ser revitalizada para servir à população da cidade. Parcerias podem ser feitas para usar o espaço como bem público, voltado a todos, sem qualquer tipo de distinção. Na época da polêmica sobre o Pontal do Estaleiro, escrevi: “Acontece que a turma dos camarotes sempre quer andar na janelinha. Tem gente bem aquinhoada querendo se apropriar de uma parte da vista do Guaíba. Dá para entender este desejo de ficar em pé na frente dos outros. Afinal, é o que mais acontece. Até em show. É a lei do mais alto”. Que espertos.

A reação foi forte: “Os ambientalistas são contra. A esquerda atuante apanha, mas não cede. Qualquer um que tenha uma mínima ideia de coletividade, mesmo sem ser militante de qualquer coisa, também não é favorável [...] Quem vai ganhar com isso? Não haveria uma maneira de utilizar a área com um sentido mais público? [...] A discussão a respeito do projeto passa por elementos contraditórios. O primeiro é que até agora não houve propriamente discussão”. E agora? A população será consultada, como naquela vez, sobre “garantir assentos privilegiados a quem puder pagar muito para ler o jornal contemplando o pôr-do-sol no Guaíba sem ninguém na frente”. Repetirei a pergunta: “Por que deixar um espaço tão espetacular restrito ao uso de poucos?

Reafirmo: “O sujeito tem de usar a orla para correr, brincar, pensar na vida, filosofar e refletir sobre a complexa relação entre natureza e cultura”. A revitalização feita até agora está bem. O ideal continua o mesmo: “Agentes imobiliários, empresários da construção civil e toda sorte de idealizadores de ‘utopias’ urbanas para faturamento pessoal ou tribal devem ser mantidos longe do rio. Se for o caso, deve-se fazer uma corrente para abraçar e proteger a orla dos tubarões que compram por pouco para vender por muito”.

Imagino o dia em que proporão fazer o Shopping Usina do Gasômetro, transformar o Mercado Público num moderno shopping envidraçado, sem contar o Shopping Instituto de Educação.

Dubai não é aqui. Não precisamos de nove prédios de cem metros de altura na beira do Guaíba. Sim, podemos fazer algo muito bonito dos galpões abandonados à beira do Guaíba. Mas para uso de todos.

O que está sendo proposto pelo tal Consórcio Revitaliza? Arrumar a área do Cais Mauá, para exploração desse grupo empresarial, em troca de 65 mil metros quadrados das docas, perto da rodoviária, para construção e venda de apartamentos. Não é concessão por tempo determinado. É doação de área pública. Sem necessidade de votação.


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Tem mais: quando da aprovação dos parâmetros para construção no Centro Histórico enfiou-se a área das docas como contrabando na metragem. Ninguém se deu conta. Em 30 dias deve acontecer nova consulta pública. O Ministério Público, com Geraldo Da Camino, já está de olho. A Frente Parlamentar em Defesa do Cais do Porto Público, coordenada pela deputada Sofia Cavedon (PT), está mobilizada, assim como especialistas em urbanismo ligados à Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Direto ao ponto: é escandaloso. No plebiscito de 2009 os votantes decidiram que não pode haver moradia na orla.

Para cúmulo da história não foi apresentado na reunião de apresentação da modelagem do projeto estudo do valor imobiliário do precioso quinhão a ser doado em troca da arrumação do cais.

A ideia de bem público para uso público não entra na cabeça dos neoliberais. São seres atrasados que precisam viajar à Europa.

Veriam que a época do privatiza que melhora já passou. 

*Jornalista. Escritor. Prof. Universitário.

Fonte:  https://www.matinaljornalismo.com.br/matinal/colunistas-matinal/juremir-machado/juremir-nao-ao-condominio-cais-maua-porto-alegre/ 03/05/2022

segunda-feira, 2 de maio de 2022

PROPÓSTO DE «DESTE LADO DA RESSURREIÇÃO»

 Camilo Martins de Oliveira*

  
Entre a primeira e a segunda cenas do segundo ato da sua ópera Thaïs, Jules Massenet introduz um "intermezzo" musical que intitulou "Méditation Religieuse": é nesse momento que se dá a conversão da prostituta em santa nascente, enquanto Athanaël, o monge que a motivou ao arrependimento e à busca do amor espiritual de Deus, começa a sofrer a fortíssima tentação de Eros. A "Méditation" soa-nos aí como o fluir sereno de uma alma que, renunciando aos prazeres ruidosos do mundo, se vai refugiando na doçura silenciosa do misterioso amor de Deus. Mas o mesmo tema musical se repetirá, primeiro, na cena inicial do terceiro ato, quando Thaïs, ingressando no mosteiro do deserto, diz para sempre adeus a Athanaël e este, ao som da "Méditation", dolorosamente compreende que jamais voltará a vê-la. E, depois, já no fim desse terceiro e último acto da ópera, no dueto final, quando Thaïs entra na morte e na visão de Deus, Athanaël mais não pode do que gritar o amor erótico que apaixonadamente o submergiu. Assim, da novela homónima e intencionalmente anticlerical de Gustave Flaubert, mais do que o libreto que dela Louis Gallet escreveu para a ópera, é a música de Massenet que nos encaminha para uma meditação sobre a condição humana, dividida entre "La Pesanteur et la Grâce" como a definiu Simone Weil. Nesta história, há duas pessoas que se encontram e seguem em direções opostas, mas o mesmo mistério marca o destino dos seus percursos.


Afinal, estamos, como no filme de Joaquim Sapinho, "Deste lado da Ressurreição". Aqui, entre a terra e o céu, entre o amor humano e a força telúrica do Guincho, que conduz ao silêncio sombrio, à austeridade acolhedora para além de qualquer acolhimento sensível de uma serra de Sintra enclausurada no Convento dos Capuchos, também não é a flagelação castigadora do corpo de Rafael que o libertará. Frente à tentação da transcendência, e no silêncio de Deus sobre a terra, as águas iniciais, o espírito também chama ao Agapè, ao amor dos outros, em que incarnou o que era o Outro absoluto, para ser tudo em todos. "Deste lado da Ressurreição" é uma Peregrinação Interior" - diria o nosso António Alçada Baptista - contada com um pudor manso e secreto: entre a gravidade e a graça, sentimos, misteriosamente, como Bernanos, que "tudo é graça". Os vislumbres de amores humanos são, uns, superficiais e fugitivos, enamoramentos sem mais; mas outros, consubstanciados nas relações familiares, ganham a densidade (que é outra "pesanteur") que o amor, a única virtude intemporal, tem de aguentar do lado de cá do Apocalipse. Lembro-me dessa imagem de S. Tomás de Aquino, aureolado de sabedoria e santidade, mas com o indicador sobre os lábios, impondo à boca o silêncio da contemplação. A história de Santa Thaïs é recolhida das "Vitae Patrum" pelo dominicano genovês Tiago Voragino, que a inclui na sua "Legenda Aurea". Aí, Athanaël chama-se Padre Panúcio que, contrariamente ao monge de Flaubert, se mantém fiel à sua vocação e votos. Mas a versão mais antiga que dela se conhece é em grego do séc. V, em que o nosso monge se chama Serapião. Esta "vida" pode ser facilmente comparada a outra, cuja versão mais antiga, em grego também, data do séc. VII: a de Santa Maria Egipcíaca, cortesã que se converte e vai viver 47 anos no deserto. Esta hagiografia inscreve-se na tradição de Maria Madalena, pecadora arrependida, que data dos primeiros séculos do cristianismo e tem a ver com a conversão pela função salvífica da penitência. Curiosamente, nas histórias de que falamos, à luxúria da carne associa-se a acumulação de riquezas, fruto daquela. Todavia, porque é que a fraqueza carnal será, ao longo da vida bimilenária da Igreja, mais estigmatizada como pecado do que a ganância ou a injustiça social? Haverá algum paganismo nessa demonização de Eros? "O pagão - diz Denis de Rougemont em "O Amor e o Ocidente" na belíssima tradução do saudoso João Bénard da Costa - não podia deixar de fazer de Eros um deus: era o seu poder mais forte, o mais perigoso e o mais misterioso, o mais profundamente ligado ao facto de viver." (Ocorre-me aqui essa definição de Georges Bataille: "L’érotisme c’est l’afirmation de la vie jusque dans la mort"...). E, depois de dizer de Agapé, do amor cristão, que ele é "a afirmação do ser em ato", Rougemont escreve: «Foi Eros, o amor-paixão, o amor pagão, quem espalhou no nosso mundo ocidental o veneno da ascese idealista - tudo o que um Nietzsche injustamente censura ao cristianismo. Foi Eros e não Agapè que glorificou o nosso instinto de morte e quis "idealizá-lo". Mas Agapè vinga-se de Eros salvando-o. Porque Agapè não sabe destruir e não quer destruir nem sequer aquilo que destrói. Não quero a morte do pecador, mas a sua vida».

 * Diplomata internacional prestigiado, escritor, ensaísta e orientalista.  

Fonte: https://e-cultura.blogs.sapo.pt/a-proposto-de-deste-lado-da-1255577

Martha Medeiros saiu do sério

Juremir Machado da Silva*

Martha Medeiros saiu do sério

Ato promovido pelo MBL em 2015 protestava contra Dilma e celebrava Lava Jato 
(Foto: Reprodução Facebook MBL-RS)

Um amigo me mandou uma coluna de Martha Medeiros. Fazia tempo que eu não lia um texto dessa cronista gaúcha de sucesso nacional. Martha escreve bem, com leveza e sagacidade. Os assuntos, em geral, não são a minha praia. Ela trata de temas caros a uma camada social sofisticada e moderna à qual não pertenço. Digo isso com a tranquilidade de um sexagenário que aprendeu a respeitar a qualidade alheia mesmo quando se sente estranho ao imaginário em questão. Em termos mais esclarecedores, é muito Moinhos de Vento. Sou Bom Fim.

A coluna que me enviou o Leandro é dez. Martha Medeiros sai do sério e detona, com elegância e pertinência, a turma do Parcão que votou em Jair Bolsonaro por medo do comunismo e por influência da Lava Jato. Como foi possível que alguém preferisse votar no destrambelhado capitão Bolsonaro, conhecido por tiradas racistas e homofóbicas, admirador de ditadura e de torturadores, em vez de apostar no pacato, sóbrio e moderado professor Fernando Haddad, homem, além de tudo, com experiência de gestão. Martha botou a faca na bota: “Não entendo quando dizem que a próxima eleição será difícil. Mais fácil, impossível. Armas versus livros. Culto à alienação versus incentivo ao conhecimento. Facilitações exclusivas para militares e evangélicos versus uma política social que atenda todas as pessoas, de qualquer credo, cor e gênero, de esquerda ou direita”. Bolsonaro X Lula.

Foi isso? Foi bem mais do que isso. A cronista pegou os bolsonaristas raiz ou de ocasião pelo nariz: “A dificuldade chama-se Lula, dirão os que ainda usam o líder petista como desculpa por terem votado num oficial que foi expulso do exército por terrorismo e cujo ídolo é um torturador”. Sobra para todos os que recorreram a tais justificativas para fazer o que queriam: escolher o pior. O papo é reto: “Já alguns bem-informados, que sabiam direitinho o que o PT havia feito pelos mais pobres, também vieram com essa conversa mole de ‘desencanto’, a fim de disfarçarem sua identificação com o capitão machista”. A recomendação final é uma aula de realismo: “A escolha é fácil: voltemos aos governos que nos desiludem como todos desiludem em algum ponto, mas que não colocam a democracia em risco, nem usam nossa fé contra nós mesmos”. O texto de Martha Medeiros saiu em Zero Hora.

Lavou a alma de muita gente. Que lição para tanto jornalista reacionário que anda por aí defendendo o capitão de malícias. Sabe-se que na mídia sempre é possível assumir posições de direita, mas qualquer aceno à esquerda pode resultar em acusação de descumprimento de preceito fundamental: a sagrada neutralidade, especialmente quando esta serve aos poderosos de direita no poder. Em outras palavrinhas, Martha mandou o seguinte recado aos que elegeram Bolsonaro alegando falta de escolha e que poderão repetir a dose: deixem de conversa mole, parem de contar histórias, assumam as suas responsabilidades.

Vi no texto da Martha Medeiros uma ponte entre Moinhos de Vento e Bom Fim. Parece muito melhor que uma “ponte para o futuro”.

Deus nos livre de Michel Temer e de Jair Bolsonaro.

É uma escolha muito fácil.

A escolha da democracia.

*Jornalista. Escritor. Prof. Universitário

Fonte: https://www.matinaljornalismo.com.br/matinal/colunistas-matinal/juremir-machado/juremir-martha-medeiro-saiu-do-serio/

CRÔNICA DE MARTHA MEDEIROS  

Uma escolha fácil

Martha Medeiros*

Não entendo quando dizem que a próxima eleição será difícil. Mais fácil, impossível. Armas versus livros. Culto à alienação versus incentivo ao conhecimento. Facilitações exclusivas para militares e evangélicos versus uma política social que atenda todas as pessoas, de qualquer credo, cor e gênero, de esquerda ou direita.

Isolamento do resto do mundo versus respeito internacional. Discurso vazio versus diálogo. Fascismo versus democracia. Desgoverno versus governo. Qual a dificuldade de escolher?

A dificuldade chama-se Lula, dirão os que ainda usam o líder petista como desculpa por terem votado num oficial que foi expulso do exército por terrorismo e cujo ídolo é um torturador. Alegam ter sido "obrigados" a colocar o país nas mãos de um homem sem projeto, a fim de se livrarem da corrupção - beleza, agora ninguém investiga mais nada. Tiveram que "tapar o nariz" e votar em alguém que nunca debateu uma ideia, em vez de elegerem, mesmo a contragosto, um professor com experiência em gestão pública. Entregaram nosso futuro de mão beijada para um homem que veio do submundo da política, com seu papinho retrô de moralização dos costumes e que usa Deus como cabo eleitoral para manipular a boa-fé de cidadãos mal-informados - e os mantém mal-informados através da indústria das fake news, a única coisa que progrediu nos últimos quatro anos.

Já alguns bem-informados, que sabiam direitinho o que o PT havia feito pelos mais pobres, também vieram com essa conversa mole de "desencanto", a fim de disfarçarem sua identificação com o capitão machista. Deu nisso. Agora somos o país dos milicianos no poder, dos ministérios conduzidos (em sua maioria) por medíocres, da turma desmiolada que despreza a ciência, dos irresponsáveis que foram contra máscara e vacina em plena pandemia. Sério mesmo que temos uma escolha difícil a fazer em outubro?

Corrigir nosso erro histórico não nos conduzirá direto ao paraíso. Seja quem for o candidato ou candidata que conseguir interromper esse período grosseiro do Brasil, haverá de ser cobrado desde o dia que assumir. Um presidente da República tem obrigações e, quando falha, apanha da opinião pública, como todos já apanharam, é o ônus do ofício. Somos 200 milhões de patrões avaliando a conduta de um funcionário que pleiteia o emprego mais importante do país e que promete um plano eficiente de gerenciamento. Se não cumprir, fora.

A besteira que fizemos em 2018 está custando caro, econômica e moralmente. De que adianta sermos bons cristãos, se hoje estamos alinhados aos tiranos do mundo? A escolha é fácil: voltemos aos governos que nos desiludem, como todos desiludem em algum ponto, mas que não colocam a democracia em risco, nem usam nossa fé contra nós mesmos.

* Escritora, aforista e poetisa brasileira. É conhecida como uma das melhores cronistas brasileiras.

Fonte: https://flipzh.clicrbs.com.br/jornal-digital/pub/gruporbs/acessivel/materia.jsp?cd=0300c2a2db575b6dcedebfd9b224f152