quinta-feira, 2 de maio de 2024

‘The Anxious Generation’: o livro que tira o sono dos pais

Por Leonardo Rodrigues

Menina loira, de costas para a câmera, usa celular. 

 FOTO: h3idi.harman/Flickr - 13.ago.2011


Psicólogo social Jonathan Haidt sustenta que uso de telas por crianças e adolescentes está diretamente relacionado a transtornos mentais

O livro “The Anxious Generation” (“A geração ansiosa”, em português), lançado em inglês no início de abril, traz um alerta para pais de crianças e adolescentes que passaram ou passam parte da fase inicial da vida diante de telas conectadas à internet. Segundo o autor, o psicólogo social Jonathan Haidt, esse hábito está diretamente relacionado ao crescimento da ansiedade, depressão e outros transtornos mentais pelo mundo desde a década de 2010. 

O tom adotado sobre temas que são sensíveis para um grande número de pessoas — infância, tecnologia e saúde mental — manteve o título no topo da lista de mais vendidos de não ficção do jornal americano The New York Times por duas semanas. Mas enquanto algumas reflexões de Haidt reacenderam o debate sobre a responsabilidade das plataformas digitais em problemas sociais, outras foram associadas a puro alarmismo.

Neste texto, o Nexo apresenta as principais ideias de “The Anxious Generation” e detalha como elas se relacionam com as produções que mantêm esse tema no centro do debate público.

Modelos de infância

Jonathan Haidt nasceu em Nova York, nos EUA, em 1963. Doutor em psicologia social pela Universidade da Pensilvânia, ele acumulou experiências como professor e pesquisador na academia até se tornar um estudioso popular do comportamento e das relações sociais em um mundo mais digital, individualizado e em transição. 

Em 2006, publicou “A hipótese da felicidade”, livro em que questionou algumas premissas da realização individual no século 21. Passou a publicar em veículos como a revista The Atlantic e escreveu ainda “A mente moralista: Por que pessoas boas são segregadas por política e religião”, em 2012, e “The Coddling of the American Mind”, em 2018, obra reconhecida por importantes publicações americanas. De lá para cá, se tornou uma voz constante em palestras e outras discussões sobre fenômenos da contemporaneidade.

FOTO: Reprodução / YoutubeO psicólogo social Jonathan Haidt: autor associa uso das redes sociais pelos mais jovens a transtornos mentais

O psicólogo social Jonathan Haidt: autor associa uso das redes sociais pelos mais jovens a transtornos mentais

O alerta de “The Anxious Generation” tem data de nascimento. Trata-se do início da década de 2010, quando a internet móvel de alta velocidade, os iPhones e as redes sociais se popularizaram mundialmente. Pais e avós, que não conviveram com essas ferramentas na infância, de uma nova geração: os nativos digitais. 

Eram crianças e adolescentes até então criados de forma bastante protegida, com menos autonomia para vivenciar o “mundo real” do que seus pais, segundo o livro. Mas essa proteção foi colocada à prova no mundo conectado, onde os limites e os espaços que deveriam ou não ser acessados não estavam tão claros. As mudanças vieram com as longas horas diante das telas, interagindo com entidades virtuais em jogos e feeds. Para Haidt, foi assim que a centralidade da infância migrou da brincadeira para a conectividade, gerando quatro efeitos visíveis:

  • Privação social
  • Privação de sono
  • Fragmentação da atenção
  • Dependência

Segundo Haidt, esse conjunto de comportamentos teve impactos danosos para a saúde mental dessa geração. Dados da American College Health Association compilados no livro mostraram aumentos de 134% e 106%, respectivamente, nas taxas de ansiedade e depressão nos EUA de 2010 a 2019. No caso dos americanos de 12 a 17 anos, a taxa de depressão feminina cresceu 161%, e a masculina, 135%, de 2004 a 2022.

Na comparação entre adolescentes que usavam ou não redes sociais, os transtornos afetam mais o primeiro grupo. A relação entre as duas coisas fica demonstrada, para o psicólogo, quando uma adolescente é exposta a padrões estéticos inalcançáveis nas redes e desenvolve problemas de autoestima. Ou quando um adolescente tem acesso precoce à pornografia e enfrenta problemas de autoconfiança e ansiedade ao se relacionar sexualmente. Na psicologia, não havia precedente claro para essas situações.

Haidt considera que o poder público e as companhias digitais devem ser pressionados por uma mudança nas plataformas. Mas as principais atitudes para reverter o quadro de saúde mental estabelecido devem partir das próprias famílias. Para o psicólogo, há quatro atitudes a serem tomadas:

  • Inibir o acesso a smartphones antes dos 14 anos
  • Inibir o acesso a redes sociais antes dos 16 anos
  • Afastar os celulares do ambiente escolar
  • Estimular a autonomia e o livre brincar durante a infância

Os quatro passos descritos em “The Anxious Generation” serviriam para recuperar bases do período inicial da vida humana. Crianças e adolescentes chegariam à vida adulta mais protegidos da vida digital e mais autônomos para encarar o mundo real.

Alertas se acumulam

A tese do livro está ancorada ao pensamento de outros autores da psicologia social e de outras ciências que se debruçaram sobre o tema. 

Em 2008, o professor Mark Bauerlein escreveu no livro “The Dumbest Generation” ( “A geração mais idiota”, em tradução livre) que o acesso desenfreado à televisão e aos videogames na infância formaria uma geração de “pessoas estúpidas”, pouco capazes de manter a concentração e absorver conhecimento. 

Nove anos depois, a obra “iGen”, de Jean Twenge, examinou hábitos e estilo de vida de americanos nascidos entre 1995 e 2012 para concluir que jovens estavam perdendo maturidade emocional e autonomia ao substituir a interação humana pela virtual. 

Em 2020, a psiquiatra Shimi Kang escreveu “Tecnologia na infância”, na qual aconselhou pais a afastarem seus filhos das telas. O objetivo era assegurar uma boa formação cognitiva e emocional dessas crianças, na linha do trabalho de colegas seus que diagnosticavam e tratavam crianças e adolescentes dependentes da tecnologia.

Mas foi também em 2020 que a pandemia de covid-19 mergulhou crianças e adolescentes ainda mais na hiperconectividade — em muitos casos, como vício. Enquanto algumas plataformas ficavam para trás, outras como o TikTok — rede social mais utilizada por brasileiros de 9 a 17 anos — surgiram para manter uma nova geração diante das telas. Transtornos mentais também se tornaram mais frequentes no período.

FOTO: FOTO: Amanda Perobelli//Reutersprofessora acompanha alunos em sala de aula infantil

Crianças usam tablets durante aula: pandemia acelerou a transição educacional e levou as telas para dentro da escola

Críticos do trabalho de Haidt, no entanto, consideram que o livro não comprovou uma relação de causa e efeito entre a hiperconectividade e os transtornos. Isso porque, na década de 2010, período em que o autor baseia suas observações e pesquisa, a Organização Mundial da Saúde registrou uma tendência de queda nas taxas de suicídio de adolescentes em diversos países citados por Haidt. 

Os índices são apontados por especialistas como dados mais concretos, porque não estão sujeitos à inflação de diagnósticos — a saúde mental se tornou um tema mais presente no debate público nesse período, o que pode intensificar a identificação e a busca por tratamento. 

Outros estudiosos do tema consideram que teses como a de “The Anxious Generation”, ao responsabilizar as plataformas pela crise de saúde mental, ignoram um importante fator econômico: essa é a primeira geração com perspectivas financeiras piores que as de seus pais. E, para um jovem, a ideia turva de um futuro economicamente pior pode contribuir para um quadro de transtorno mental. 

Mas mesmo entre os que discordam de Haidt, contudo, não há dúvida quanto ao fato de que a hiperconectividade alterou a forma de criar — e crescer — no mundo.

Fonte;  https://www.nexojornal.com.br/expresso/2024/04/19/livro-the-anxious-generation-jonathan-haidt?utm_medium=email&utm_campaign=Nexo%20%20Hoje%20-%2020240502&utm_content=Nexo%20%20Hoje%20-%2020240502+CID_2eb940daaec1585d3ec05df96d443709&utm_source=Email%20CM&utm_term=The%20Anxious%20Generation%20o%20livro%20que%20tira%20o%20sono%20dos%20pais

Para repatriar cérebros, respeite os cientistas

 Alicia Kowaltowski*

A inteligência artificial como objeto de pesquisa em Saúde nos artigos da  Reciis | ICICT | Fiocruz
Sem pesquisa científica própria, Brasil corre o risco de não ter soberania e desenvolvimento nacionais

Ciência, um processo em que trabalhamos coletivamente para explorar o universo, expandindo nosso conhecimento, é por natureza uma prática colaborativa e mundial. É por isso que é importante para o bom cientista ter experiência internacional imersiva durante sua formação. Trabalhar em projetos científicos no exterior permite que o jovem cientista aprenda novas técnicas e modos de pensar, além de ver diferentes maneiras de fazer perguntas e orientar outros jovens cientistas. Trabalhar no exterior, e junto a diferentes grupos, também permite estabelecer amplas redes de contatos e colaborações pelo mundo afora, que permitirão maior criatividade e avanço do conhecimento quando esses cientistas estabelecerem suas próprias linhas de pesquisa. 

Por esses motivos, e pela importância que trabalhar fora do Brasil teve em minha formação pessoal, sempre incentivei os jovens cientistas no meu grupo a realizarem estágios internacionais, além de ter experiência com diversos supervisores. Sair do ninho faz com que jovens cientistas amadureçam, juntamente com a ciência produzida por eles. E até recentemente não havia perda de cientistas com isso. Os números indicavam claramente que a grande maioria dos cientistas brasileiros voltava ao país para estabelecer grupos de pesquisa permanentes. Observei isso com meus estudantes: a maioria formada nos anos iniciais do meu laboratório estabeleceu carreiras em diferentes estados brasileiros. Essa situação mudou bastante nos últimos anos, em que vi crescer formandos que decidiram ficar no exterior. Ocorre em todo país uma diáspora científica, com a saída de cientistas brasileiros para o exterior. 

Deixo claro que tenho muito orgulho das conquistas e carreiras dos ex-estudantes do meu grupo, tanto daqueles que estão no Brasil quanto daqueles que, por circunstância ou oportunidade, se estabeleceram no exterior. Também tenho clara consciência de que cientistas brasileiros atuando internacionalmente possuem importância para a ciência internacional e nacional, frequentemente estabelecendo vínculos colaborativos fortes com grupos locais. Mas um país que perde mais cientistas do que ganha através de mobilidade internacional, ou que perde mais do que o planejado para seu investimento em formação de pensadores, precisa se preocupar com a atratividade da carreira científica local. Sem isso, corre o risco de não ter soberania e desenvolvimento nacionais, apoiados pela pesquisa científica própria. 

Para atrairmos verdadeiros talentos com permanência, precisamos, antes de mais nada, respeitar e nutrir o trabalho dos cientistas de excelência que já temos

Foi com esse intuito que foi lançado pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) o programa Conhecimento Brasil, visando atração e fixação de talentos no território nacional, em instituições de pesquisa tanto públicas quanto privadas. Infelizmente, ao examinar a portaria que estabelece o programa, tenho grandes preocupações sobre sua sustentação e implementação. Programas visando fixação de talentos em ciência precisam ter como alvo cientistas de alto mérito, assegurar que estes tenham condições institucionais para realizar atividades científicas de fronteira e dar segurança para que haja perspectivas a longo prazo para esses indivíduos, sem as quais certamente não vislumbrarão retornar ao país. Não vejo nenhum dos pontos desse tripé fundamental corretamente abordado no programa apresentado.

Não há como cientistas de qualidade vislumbrarem um futuro em pesquisa no Brasil no momento, considerando que a última Chamada Universal para projetos de pesquisa do CNPq se deu com orçamento muito baixo, e em moldes esdrúxulos que requeriam forçosamente a realização de pedidos em grupos, o que dificulta o uso das verbas já enormemente limitantes para a realização de qualquer atividade científica (cerca de R$ 18 mil por ano por pesquisador, no máximo). Também não há como vislumbrar um futuro como cientista num país que tornou a atividade acadêmica tão burocrática que um pesquisador mal tem tempo de pensar. Essa bur(r)ocracia já se faz notável no primeiro passo da carreira, com os rituais absurdos envolvidos nos concursos públicos para contratação de docentes, coibindo a atração de talentos internacionalmente. 

A infraestrutura é também uma preocupação enorme para a continuidade de nossas carreiras. Embora eu trabalhe na maior e provavelmente melhor financiada universidade nacional, lidamos diariamente com condições altamente degeneradas nos nossos laboratórios, com infiltrações, infestações, problemas elétricos, hidráulicos, etc, o que limita nossa capacidade experimental. A situação dos nossos laboratórios piorou notadamente nos últimos anos, ao mesmo tempo que a burocracia para reverter a precariedade do ambiente físico aumentou, levando muitos de nós a nos questionar se seremos sequer capazes de continuar atuando no futuro próximo. O problema de infraestrutura não é abordado na portaria que estabelece o Conhecimento Brasil, em que as aplicações serão feitas por candidatos bolsistas, sem aparente avaliação da habilidade institucional de recebê-los. Esse ponto é preocupante não somente pela precariedade atual de muitas instituições de pesquisa, mas também porque o projeto envolve pesquisadores bolsistas atuando em empresas. Como se garantirá que elas permitirão a realização da pesquisa de fato, e não apenas usarão os jovens bolsistas do programa como força de trabalho?

O programa peca mais ainda na qualificação de candidatos às bolsas e auxílios. Há proibição explícita para pesquisadores que tenham vínculo empregatício no país, portanto, não serão investidos recursos nos corajosos jovens cientistas contratados aqui, mesmo que tenham sido treinados com ampla internacionalização. Em vez disso, se qualificam apenas pessoas brasileiras, com doutorado ou mestrado, que estejam atualmente no exterior. A inclusão de mestres é surpreendente, pois dissertações de mestrado não necessitam de avanço nas fronteiras do conhecimento e, portanto, não qualificam um jovem como cientista. Nem o doutoramento, o primeiro momento da carreira em que é necessário demonstrar avanço do conhecimento mundial, é por si suficiente qualificação para posições de pesquisa de mérito hoje. Jovens cientistas contratados como pesquisadores independentes em nossas excelentes instituições de pesquisa tipicamente precisam ter experiência pós-doutoral, completando assim o extenso treinamento necessário para serem pensadores francamente independentes. 

O fato de o programa Conhecimento Brasil exigir menos qualificação que de pesquisadores nacionais em concursos docentes, ao mesmo tempo que envolve recursos cerca de dez vezes maiores que os investidos na Chamada Universal, para pesquisadores emergentes no país, é um tapa na cara dos jovens cientistas nacionais que possuem a coragem de tentar realizar pesquisa, a despeito dos anos turbulentos e falta de previsibilidade que atravessamos. Os recursos preciosos do FNDCT (Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) alocados no programa seriam muito melhor investidos se voltados para um programa também inclusivo de jovens cientistas nacionais ou estrangeiros, com destacado mérito, em instituições brasileiras que demonstrem poder abrigar projetos ousados. 

Para atrairmos verdadeiros talentos com permanência, precisamos, antes de mais nada, respeitar e nutrir o trabalho dos cientistas de excelência que já temos. Chega de chamadas populistas e mal planejadas; basta construirmos uma realidade científica atraente que pesquisadores de mérito virão! 

*Alicia Kowaltowskié médica formada pela Unicamp, com doutorado em ciências médicas. Atua como cientista na área de Metabolismo Energético. É professora titular do Departamento de Bioquímica, Instituto de Química da USP, membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia de Ciências do Estado de São Paulo. É autora de mais de 150 artigos científicos especializados, além do livro de divulgação Científica “O que é Metabolismo: como nossos corpos transformam o que comemos no que somos”. Escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

Fonte:  https://www.nexojornal.com.br/colunistas/2024/04/30/para-repatriar-cerebros-respeite-os-cientistas-nacionais?utm_medium=email&utm_campaign=30042024_a_nexo&utm_content=30042024_a_nexo+CID_e1696bf0cac32dbe61feb130db71c41a&utm_source=Email%20CM&utm_term=nexo

Fascínio e horror em “Bebê Rena”

 Por Cauana Mestre

De uma marca traumática a outra, o protagonista da nossa tragicomédia contemporânea vai nos ensinando que fascínio e horror são duas faces da mesma moeda, que muitas vezes somos capturados por objetos que não sabemos conjugar com nossos desejos e que para perpetuar nossa relação fantasmática com eles podemos ir muito longe, até que o último grão seja destruído.

Publicado em 02/05/2024 // 1 c


SEM SPOILERS

Uma criança vai ao teatro pela primeira vez. Pede uma pipoca colorida, suco de uva, senta-se confortavelmente na primeira fila e olha para a mãe, entusiasmada pelo movimento, sem conter a energia. Mas de repente as luzes se apagam, as cortinas se abrem e chega ao palco um pirata de voz grave e passos pesados. A plateia fica em silêncio e a potência do teatro atinge a menina, que começa a chorar copiosamente até que a mãe a leve embora. Assisti a essa cena tempos atrás e assim que terminei de ver Bebê Rena me lembrei dela. O impacto da surpresa que se desdobra para o espectador em uma experiência de angústia é o fundamento da série, que nos pede o tempo todo um pouco mais de coragem – até destruir camadas e camadas de expectativas. Ao longo dos primeiros episódios eu esperei que o hilário se consolidasse e que o sofrimento do protagonista fosse exorcizado pela via do humor, mas não é isso que acontece e, como a menina da minha anedota, eu só queria que a força da peça terminasse.

Richard Gadd (na série como Donny Dunn) produz e encena a própria história – do encontro com uma stalker que persegue sua vida a outras situações de abuso. Seu projeto começou em Edimburgo, com um monólogo que depois conquistou plateias ao longo da Europa. Na peça, Martha – a stalker – era representada por um banco vazio no meio do palco. O que dava corpo à violência eram as mensagens que ela lhe enviou no período da perseguição, reproduzidas por multimídias ao longo da peça. Na adaptação para Netflix, Martha é interpretada por Jessica Gunning, que consegue provocar uma mistura tão grande de afetos que é impossível reduzi-la a qualquer determinação.

O diálogo da produção com o teatro precisa ser considerado. Não apenas porque Richard Gadd é um homem do palco e a série se serve disso o tempo todo, mas principalmente porque a direção vai assumindo cada vez mais um tom teatral, pedindo de nós um exercício parecido àquele que o teatro convoca, um esforço corporal às vezes difícil de sustentar. Na história do teatro grego, tragédia e comédia se separam de acordo com suas intenções diante da plateia; enquanto a primeira apresenta, ato por ato, o palco das paixões divinas que terminam em desfortúnios, a segunda se propõe a provocar o riso, trazendo à luz os traços mais ordinários dos homens comuns. No inconsciente, no entanto, tragédia e comédia se entrelaçam e uma não existe sem a outra. Bebê Rena aposta nessa verdade e constrói uma narrativa não apenas reflexiva, mas profundamente conectada com a subjetividade humana.

Martha é uma mulher de meia idade que coleciona passagens pela polícia por perseguir pessoas virtual e fisicamente. Ela conhece Dunny no pub onde ele trabalha; um dia aparece chorando e ele lhe oferece uma bebida, capturando assim a atenção da stalker, que passa a visitá-lo todos os dias e a mandar e-mails incessantemente até que esse contato se torne bastante ameaçador. A partir da história com Martha, Donny Dunn mergulha nas coordenadas de um gozo destrutivo, mortífero, que repetidamente o faz habitar posições objetificadas muito perigosas e ele vai longe para investigá-las. Por que afinal resistia em denunciar aquela mulher? O que havia de seu ali, naquele movimento em direção ao abismo?

Nós nos tornamos efeitos da cultura no instante em que alguém nos insere no mundo discursivo. O percurso de Donny contorna a margem sempre desbotada entre as próprias decisões e os impasses contemporâneos do laço social: o imperativo do sucesso a qualquer custo, a falta de lugar para o luto e a tristeza, a solidão impactante das grandes cidades e da vida capitalista. Sobre tudo isso fica exposta também uma das camadas do machismo que, como estrutura, enrola a todos nós pelos fios da impotência. Quais são as coordenadas da masculinidade que ainda perpetuamos e a partir das quais submetemos meninos e homens ao silêncio?

Donny começa a examinar experiências anteriores, em um movimento equivalente à associação livre de uma análise, quando nos esforçamos para formular nossas próprias perguntas; sua exploração nos conduz a questões sempre vivas sobre a subjetividade. Como é possível que uma situação tão aterrorizante seja ao mesmo tempo sedutora? Por que repetimos destinos sofridos e às vezes insuportáveis?

A psicanálise está às voltas com essa pergunta desde seu nascimento. Freud encontrou pistas nos sonhos dos soldados que voltavam da guerra e que, repetidamente, sonhavam com as atrocidades que haviam testemunhado. Se o sonho realizava um desejo, como ele havia proposto em 1900, como era possível repetir o pesadelo e a angústia de forma tão determinada? Sua resposta é complexa, mas muito lógica: somos habitados pela compulsão à repetição, uma força anterior à possibilidade de desejar, e que nos faz voltar a marcas muito traumáticas mesmo – ou até principalmente – quando temos a possibilidade de avançar para encontrar algo novo. Freud descobre aí um circuito pulsional complicado, que não pode ser esgotado por métodos terapêuticos comuns e nem mesmo pela superação do conteúdo recalcado, seria preciso inventar algo mais. Lacan vai além das proposições freudianas para formular o conceito de gozo, que perpassa toda sua obra e tem muitas apreensões, mas que talvez possamos aqui resumir em uma lógica muito simples: é possível que uma coisa absolutamente desprazerosa no nível da consciência seja vivida com intensa satisfação no inconsciente, o que instala em nosso mundo particular um paradoxo indelével. Essa é a trama desarranjada que fundamenta nossa relação nunca totalmente resolvida com o corpo e com o sexo.

A narrativa de Donny escancara o que há de estranho, de estrangeiro, na relação com o próprio corpo e com os próprios atos. Ela nos lembra da nossa realidade fragmentada, cheia de furos por onde a violência pode passar à revelia das nossas escolhas. De uma marca traumática a outra, o protagonista da nossa tragicomédia contemporânea vai nos ensinando que fascínio e horror são duas faces da mesma moeda, que muitas vezes somos capturados por objetos que não sabemos conjugar com nossos desejos e que para perpetuar nossa relação fantasmática com eles podemos ir muito longe, até que o último grão seja destruído.

Mas, diante dessa amálgama de terror e violência, alguma coisa acontece quando pai e filho podem finalmente dar corpo linguístico ao trauma que compartilham – cada um com sua história. Então Donny pode atravessar o rio onde se afogava para chegar a outra margem, na terra firme e fértil da invenção e do testemunho. Aprender a fazer alguma coisa com as marcas de dor que nos constituem é um dos grandes exercícios da vida. A cena final me diz que Richard Gadd soube como fazer isso ao trocar de lugar: daquele que está sempre a serviço do outro para alguém que pode, finalmente, receber – o drink e o amor.  A fala, precursora da criação, é ainda uma das forças mais curativas à qual temos acesso. É pela via da palavra e da invenção que nos salvamos; como a criança de uma passagem narrada por Freud: com medo do escuro ela pede à tia que converse com ela, pois quando alguém fala, fica mais claro.

Fonte: https://blogdaboitempo.com.br/2024/05/02/fascinio-e-horror-em-bebe-rena/

quarta-feira, 1 de maio de 2024

A epidemia da solidão está em alta e já afeta o ambiente de trabalho

Por Amanda Graciano


Após a pandemia, os padrões de vida mudaram e isso deixou trabalhadores desmotivados e produzindo menos


Você já ouviu falar da epidemia da solidão? Com as mudanças nos padrões de vida — incluindo o aumento da urbanização e o declínio das estruturas familiares tradicionais — a solidão está emergindo como um desafio de saúde pública que transcende as fronteiras pessoais e já tem afetado significativamente o ambiente de trabalho.

Essa condição, caracterizada por uma desconexão perturbadora ou insuficiente com outros seres humanos, pode se manifestar por meio de sentimentos de isolamento, mesmo quando cercado por pessoas. A solidão não só aumenta o risco de numerosas condições físicas, como doenças cardíacas e diminuição da função imunológica, mas também está diretamente ligada a problemas de saúde mental como depressão e ansiedade.

Mercado de trabalho reflete os impactos do sentimento de solidão dos trabalhadores

Mercado de trabalho reflete os impactos do sentimento de solidão dos trabalhadores Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Após a pandemia temos percebido cada vez mais os impactos da solidão no mercado de trabalho. Os impactos da solidão são vastos e variados. Trabalhadores que se sentem cronicamente solitários tendem a ter um desempenho inferior, apresentam maiores taxas de absenteísmo e são menos produtivos. Estudos estimam que a solidão pode custar bilhões às economias nacionais devido ao aumento dos custos de saúde e à perda de produtividade. Por exemplo, no Reino Unido, o custo anual da solidão para os empregadores é estimado em cerca de £ 2,5 bilhões (mais de R$ 162 bilhões) devido ao aumento do absenteísmo e à diminuição da produtividade.

Organizações em todo o mundo estão começando a reconhecer a necessidade de abordar a solidão como uma questão crítica no local de trabalho. Iniciativas como a criação de espaços de trabalho mais colaborativos e inclusivos, programas de bem-estar focados em saúde mental e atividades que promovem interações sociais significativas são passos que algumas empresas estão tomando para mitigar este problema. Por exemplo, o Google tem implementado programas que incentivam interações pessoais e apoio emocional, ajudando a criar um ambiente de trabalho mais acolhedor e conectado.

Como aborda o estudo da U.S. Surgeon General’s Advisory a solidão é uma epidemia. E é importante que as lideranças empresariais entendam que embora a solidão não se origine no mercado de trabalho, ela certamente o impacta. A responsabilidade de abordar essa questão não se restringe apenas ao desenvolvimento de políticas internas, mas também ao apoio a iniciativas mais amplas que abordem as causas fundamentais da solidão.

Investir em comunidades mais integradas e em tecnologias que promovam conexões genuínas são passos essenciais para mitigar esse fenômeno. Dessa forma, as organizações não apenas melhorarão a saúde e o bem-estar de seus funcionários, mas também fortalecerão sua própria resiliência e capacidade de adaptação em um mundo cada vez mais complexo e interconectado.

* Conselheira do Pacto Global da ONU e lidera a operação de Corporate Venture Builder da Fisher Venture Builder. Escreve mensalmente às terças

Fonte:  https://www.estadao.com.br/link/amanda-graciano/a-epidemia-da-solidao-esta-em-alta-e-ja-afeta-o-ambiente-de-trabalho/