O
indiscutível fã de Star Trek, Gerd Leonhard, traçou um plano para a
Humanidade: “O Bom Futuro” concentra-se em 4 Ps – Pessoas, Planeta,
Propósito e Prosperidade, e quer virar o Mundo do avesso. Renuncia ao
otimismo tecnológico a favor do humanismo progressista. Acredita num
Mundo em união, onde todos os continentes prosperam e têm uma direção
comum. Com a Tecnologia e a Ciência a favor da totalidade da população
na Terra, um a um, os 8 mil milhões de pessoas. E vê nas novas gerações a
salvação do Planeta.
Gerd
Leonhard traz boas notícias e muita fé na Humanidade. A sua visão é de
um Humanista perante um Mundo multipolar, concentrado numa protopia, e
Gerd está convicto de que um novo Mundo está a chegar. Antes que seja
tarde, é preciso definir uma direção, uma nova teoria económica, uma
nova bolsa de mercados, um Governo global e criar um Conselho composto
por pessoas esclarecidas e sábias de todos os cantos do Mundo. «E não me
refiro a CEOs ou políticos, precisamos de mais Sócrates tal como na
Grécia Antiga», esclarece. Gerd estudou Teologia e Ciências Sociais. Foi
músico de rock, compositor, ativista dos Verdes e empreendedor. É autor
de vários livros e um dos futuristas mais requisitados sobre a era
digital.

Porque é tão importante o futuro, agora mais do que nunca?
A
grande questão sobre o futuro hoje é que já não é sobre amanhã. O
futuro já chegou, temos máquinas com quem podemos falar, temos
computadores com superpoderes, carros automatizados. Quando falávamos
sobre o futuro há 10 anos, debruçávamo-nos na ficção científica. Costumo
dizer que a ficção científica se transformou em factos científicos. É
muito importante pensar no futuro como algo que nós construímos e não
como uma coisa que apenas acontece.
Este é o momento da História em que muitas das decisões que estão a ser tomadas vão ter um impacto muito maior no nosso futuro.
Tal
como nos anos 60 com a bomba nuclear, as novas armas e os acordos de
polarização, agora temos de lidar com as máquinas inteligentes, com as
alterações climáticas, a automação, a Europa e a Rússia. É um momento na
História em que a curva pode subir e podemos ter um futuro muito
melhor, ou a curva decair por todas as más decisões que continuamos a
tomar.
Está a dizer que o futuro já está predeterminado?
Há situações que não controlamos, como a queda de um meteorito ou as pandemias, embora agora já estejamos mais bem preparados.
Temos
controlo em 98% das situações futuras; podemos mudar as alterações
climáticas e podemos trabalhar no futuro do Trabalho. Na maioria das
situações, podemos fazer alguma coisa.
Temos
a Ciência e a Tecnologia, mas tomamos as decisões erradas, usamo-las no
que não era suposto. Não investimos em coisas sustentáveis, pomos
dinheiro em mais gás de petróleo liquefeito (GPL), também não parecemos
estar na mesma página sobre o que queremos no futuro.
Mas há esperança? Está otimista?
Sim,
estou esperançoso. A boa coisa do futuro é que temos toda a Tecnologia e
a Ciência de que precisamos, e inventamos coisas todos os dias. Se
olharmos para as invenções de tudo o que precisamos sobre energia solar é
incrível. Nós realmente conseguimos resolver este problema. Mas também
temos a incapacidade de executar a política certa.
Estou muito esperançoso com as novas gerações, dos 22 anos aos 45 anos, estou a contar com essa geração para fazer a diferença.
Temos
de mudar o nosso modelo de negócio do Mundo, até agora tem sido o lucro
e o crescimento, e isto está a matar-nos. Basicamente, se continuarmos
desta forma vamos manter os problemas climáticos e a IA fora do
controlo. Sou demasiado otimista, mas acho que precisamos de uma terapia
de choque, o tempo para nos sentarmos e falarmos do que faria sentido
já terminou. Se não tomarmos uma atitude nos próximos 10 anos para a
executarmos de facto, as coisas vão ficar muito complicadas e cada vez
mais difíceis de alterar.
O que podemos fazer para construir “O Bom Futuro”?
Trabalho
neste tópico “O Bom Futuro” há quase cinco anos, já antes da COVID, e
acho que a pergunta não é tanto o que podemos fazer. Nós podemos fazer
muitas coisas, em termos de Ciência; posso conectar o meu cérebro à
Internet, posso ir dormir e acordar de um congelamento profundo daqui a
100 anos. Em 2030, vou conseguir fazer coisas semelhantes ao Star Trek,
como ter energia ilimitada da fusão nuclear, vamos conseguir
provavelmente mudar o genoma humano para evitar cancro. Mas precisamos
de definir um propósito, uma direção, o que queremos alcançar. Queremos
simplesmente mais dinheiro, ou queremos focar-nos no Planeta, na
felicidade das Pessoas, num Propósito e também na Prosperidade.
O
que está a acontecer é que a parte Sul do Globo está a tomar todas as
decisões. Daqui a 27 anos, 40% da população global vão estar
concentradas em África, porque há cada vez mais bebés. O Brasil, a
Índia, todos estes países vão chegar ao poder. O nosso Mundo está a
mudar por completo. E se não envolvemos
a parte Sul não vamos conseguir resolver os problemas. Basicamente,
acho que “O Bom Futuro” é totalmente possível, mas temos de nos sentar
todos e pensar em conjunto num Governo global e pô-lo em prática.
Essa mudança acontecerá seguindo o mote: Pessoas, Planeta, Propósito e Prosperidade?
Este
tópico é como um plano de negócios. O atual é muito simples: fazer mais
dinheiro, aumentar o PIB; na sua maioria são os países desenvolvidos
quem estão a ganhar. Mas temos de mudar o modelo e concentrar-nos nas
pessoas, na automação, no trabalho, na felicidade, na igualdade, temos
de pensar ainda no Planeta, em evitar o turismo em demasia, em devolver
energia.
Temos
de ter um propósito, o que significa pensar no que queremos. O que está
a acontecer num futuro próximo é que não vamos ter este conceito de
trabalho durante 12 horas por dia, isto vai mudar.
E,
finalmente, temos de ter prosperidade, porque os seres humanos estão
sempre a crescer, temos crianças, precisamos de comer, viajar. Não
crescer não é possível. Quando olhamos para a ONU vemos que tenta há
muito tempo a agenda ESG [Ambiente, Social e Governança Empresarial],
mas eles não têm poder para decidir. Estão num sítio difícil.
O
Mundo velho está a morrer, o negócio habitual já morreu, não
conseguimos continuar como antes, e o novo Mundo está a ser construído,
ainda não chegou e isto está a acontecer devagar. Estamos num local de
sofrimento a assistir, este novo Mundo tem de ser criado.
Vê grandes mudanças entre 2021 – o lançamento oficial do projeto “O Bom Futuro” – e agora?
Sim,
não tivemos muita sorte. Porque tivemos a pandemia de COVID que fez com
que a geração mais nova tivesse de esperar e, depois, tivemos dois
conflitos, a Rússia e a Ucrânia, e agora Israel, Palestina e o Hamas. O
progresso está em modo de espera, porque há muitas coisas a sugarem a
energia.
Por outro lado, estamos num ponto em que podemos dizer que primeiro se piora para a seguir se melhorar. Somos forçados a agir,
não podemos ficar os mesmos. Muitas coisas que estávamos habituados a
ignorar, como a Palestina, Israel e o Hamas – um conflito de 70 anos,
estão a aparecer todas juntas e a forçar-nos a agir.
Tal
como nos casais que têm muitos conflitos, mas não falam sobre isso, e
torna-se maior e maior e maior, até que mais cedo ou mais tarde se vão
divorciar ou começam a fazer terapia. Os problemas estão a aumentar e
forçam-nos a agir. Acho que isto é uma coisa boa, mas é penosa. As
portas não estão fechadas para a Humanidade. É um momento doloroso,
apercebemo-nos de que não podemos dizer que fazemos isto mais tarde.
Mas quem é que está encarregado de o fazer?
Todos.
Penso que se olharmos para o lado mais simples de “O Bom Futuro” são
coisas como a Energia, a Alimentação, as Crianças, os Direitos Civis, o
não morrermos, não termos fome, estes são objetivos muito simples. Numa
camada seguinte, temos a felicidade, a organização própria, o progresso,
a espiritualidade e isto é mais difícil de definir. Mas se definirmos
“O Bom Futuro” como não morrer, termos trabalho, podermos evoluir e
termos direitos, quem está encarregado desse “Bom Futuro”, em última
instância, somos nós.
Podemos
fazer coisas locais, mas temos tópicos globais que só são concretizados
em colaboração. Mesmo que alcancemos na Europa emissões de CO2 zero
(net), se o Brasil, a Índia e África não vierem connosco, vamos mesmo
assim todos morrer.
A
primeira coisa é que as decisões mundiais têm de incluir um Conselho
Global, temos isso com a ONU, mas não lhe demos a devida autoridade e
tornou-se uma organização muito burocrática. António Guterres é
realmente uma boa pessoa, fala a verdade, é um bom líder, mas não tem
poder.
Por
isso, devíamos ter um Conselho de pessoas esclarecidas e sábias, e não
me refiro a CEOs ou políticos, tal como na Grécia Antiga, precisamos de
mais Sócrates. E são muito poucos, incluiria o escritor brasileiro Paulo
Coelho; o historiador americano Thomas Kidd, ou o economista francês
Jacques Attali, e não seriam apenas homens, também mulheres. Só pessoas que
não fariam mais nada do que pensar sobre decisões com – plicadas. É
claro que se não tomarmos uma posição radical, que construa uma nova
indústria, verde, vamos entrar num ponto em que metade do Planeta vai
morrer e estamos a falar daqui a 30 anos, ou seja, estamos a falar dos
nossos filhos. Isto são coisas urgentes!
Já há vários Conselhos globais. Como é que criamos algo que não seja dedicado e concentrado nos mais poderosos?
Temos
esse problema. Como no World Economic Forum, é o trabalho dos líderes
fazerem negócios e não melhorarem o Mundo. Isto é o trabalho primário
dos negócios, alcançar prosperidade de forma progressiva e não resolver
os problemas sociais e culturais. Quando temos as pessoas dos negócios a
mandar só vamos alcançar tópicos comerciais, precisamos de pessoas além
dos negócios. E o mesmo se passa com os políticos, eles nunca tomarão
decisões dramáticas, porque precisam dos votos das pessoas. Não vemos a
liderança a caminhar para “O Bom Futuro” e tal como a Greta disse: “Os
políticos não vão salvar o Mundo”. Temos de começar pelas pessoas e eles
juntar-se-ão depois, porque querem os votos e os negócios vêm logo a
seguir.
Temos
de exigir diferentes comportamentos, pedir novas motivações e produtos
diferentes. E isto já acontece. Vemos as gerações mais novas a querer em
carros que não poluam, a interessarem-se por turismo responsável, por
dinheiro digital, a quererem mudar o Mundo… E estamos a assistir
inclusivamente aos jovens na Europa a não quererem ter filhos porque o
Mundo não está bom. Vemos as pessoas com muito pouca esperança.
Portanto, proponho no meu livro [Tecnologia versus Humanidade, da editora Gradiva], que já tem sete anos, mas parece que foi escrito ontem
Devíamos ter uma história diferente sobre
o futuro, uma nova narrativa que diga que o futuro é bom, só precisamos
de tomar as decisões certas hoje, nós temos todo o poder de que
precisamos.

O Capitalismo encaixa nesse futuro?
Temos
de dizer adeus a todas essas velhas palavras. Capitalismo, Comunismo,
Socialismo, isso faz parte da História. O que precisamos é de uma lógica
económica que se encaixe no futuro e não no passado. Socialismo e
Comunismo são ideias úteis, mas fazem fit com o futuro? Capitalismo e o
mercado livre criam um bom futuro? É seguro dizer que o antiquado
Capitalismo tradicional criou em tempos um bom futuro por um determinado
tempo e depois colapsou. Mas o Capitalismo não resolve as alterações
climáticas, as desigualdades, nem a IA, porque está preocupado com o
propósito do mercado em primeira instância. O princípio de um mercado
livre é bom, mas temos de ter mais sabedoria para tomar as decisões
certas, que não estejam condicionadas pela simples curva do progresso,
de mais dinheiro ou das maiores bolsas de mercado. Al Gore tinha uma
expressão, “Capitalismo Sustentável”, o que acho que faz muito sentido,
mas não a devemos usar mais. Devemos ter uma Economia baseada nas
Pessoas, Planeta, Propósito e Prosperidade, com componentes do
Capitalismo e do Socialismo.
Não
faz sentido estarmos a orquestrar e a focar toda a nossa energia no
aumento da riqueza de apenas 10% dos mais ricos do Mundo, é isto que
está a acontecer, e os restantes 90% estão na mesma ou a verem
diminuídas as suas riquezas e pertences.
Precisamos
de um novo Milton Friedman e de uma nova teoria económica. O grande
problema de hoje é que cada país tem uma bolsa de mercado baseada numa
teoria de há 20 anos. Temos empresas a fazer coisas realmente más, mas a
serem altamente valiosas, isto não faz sentido! A empresa mais poderosa
do Mundo é uma árabe de petróleo e a segunda a Apple. Devíamos virar
isto ao contrário e ter empresas que preenchessem todas as quatro caixas
e criarmos uma bolsa de valores. Tenho estado a discutir isso com
pessoas na Europa e isto pode ser uma boa ideia para Portugal, uma nova
bolsa como a Nasdaq, que seria a Susdaq, apenas com empresas que se
preocupam com as Pessoas, Planeta, Propósito e Prosperidade. É muito
simples: enquanto não nos preocuparmos com a Economia tudo se mantém
difícil. Talvez tenhamos apenas mais 10 ou 20 anos para descobrir a
maneira certa de fazer isto.
A Humanidade está a esgotar o seu tempo?
Diria
que não. Estamos naquele ponto que não nos podemos dar ao luxo de
sentar e esperar, porque as alterações climáticas são muito urgentes, a
forma como devemos lidar com a IA também, porque mudará tudo e há aqui
um problema de controlo.
A
forma como lidamos com os conflitos também. Este Mundo já não vive na
Guerra Fria, apenas os americanos e os soviéticos. Este Mundo é
multipolar, é a América, a China, a Europa, a Índia, o Brasil, a Rússia
e, mais cedo ou mais tarde, África. Lidamos com um Mundo que tem muitas
peças que se movimentam e o que temos de fazer é descobrir qual o
objetivo comum aos 8 mil milhões para caminharmos para um bom futuro.
Há uma certa luta para nos estarmos sempre a superar. Onde é que agora nos devemos concentrar?
Primeiro
temos de nos focar na pergunta: Como devemos usar a Ciência e a
Tecnologia para fazer as nossas vidas mais sustentáveis? E como
resolvemos os nossos grandes problemas? Se usarmos Tecnologia podemos
tornar tudo verde e sustentável. Em Portugal há grandes progressos. Como
transformamos tudo para ser circular e sustentável? Quais as políticas
de que precisamos para tornar algo que seja bom, em geral, justo com as
pessoas e o Planeta e que crie propósito e faça com que as pessoas se
deem?
O novo Mundo é fundamentalmente diferente, não é uma extensão do antigo Mundo.
Por
exemplo, se olharmos para o Trabalho é possível que tenhamos apenas de
trabalhar três horas pelo mesmo dinheiro, porque temos tecnologia
espetacular ao nosso dispor, e assim podemos fazer muitas outras coisas,
podemos doar o nosso tempo a combater as alterações climáticas, a
escrever um livro, a ser pais, ou o que nos apetecer. Até agora a nossa
vida é maioritariamente sobre trabalho, mas isto está a acabar. Isto
muda por completo a nossa sociedade.
E isso é possível ou poderá não passar de uma utopia?
Lemos
sobre utopias e não passam de paraísos impossíveis. Isto não vai
acontecer, porque a vida nunca será apenas um paraíso. Também vemos nos
filmes distopias, como a série Black Mirror, ou o filme Don’t Look Up,
independentemente de tudo há sempre um final catastrófico. Mas há uma
palavra melhor, a protopia, do Futurista Kevin Kelly, significa que
gradualmente melhoramos as coisas, passo por passo até chegarmos a um
bom futuro. E isto é mais prático, no sentido de olharmos e querermos
criar em conjunto.
Está a pintar um quadro humanista.
Não
temos grande escolha. Temos a hipótese de nos tornarmos mais
tecnológicos e estarmos submersos em tecnologia, tornando-nos
super-humanos, fazendo uso do virtual, da IA, da Engenharia Genética. Os
nossos filhos vão ser metade humanos metade robots. Isto não é teoria, é
possível.
Ou
temos a hipótese de mudar a nossa Economia e construir algo
completamente diferente. Se tudo é digital, nós não somos mais humanos, e
qual é o objetivo? Para mim não faz sentido tornar-me numa máquina só
para ter mais dinheiro, quando perco tudo o resto. Acho que é por isso
que o meu livro é tão popular em Portugal, porque há muitos humanistas.
Esta
entrevista foi publicada na edição de inverno da revista Líder, que tem
como tema The Touch of the Future. Subscreva a Líder aqui.