quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Para entender a pós-verdade

Thomaz Wood Jr.*

Televisão
 O cinema, a tevê e a internet passaram a ter mais valor do que a realidade
 
Dois livros do século XX, contundentes e proféticos,
 ajudam a desvendar a sociedade da imagem e 
do espetáculo do século XXI 
 
O ano de 2016 foi profícuo em análises sobre a natureza ficcional da política contemporânea. A revista britânica The Economist partiu do óbvio: políticos sempre contaram mentiras. O problema é que agora eles parecem estar abandonando inteiramente o lastro da verdade

Megan Garber, escrevendo para a revista norte-americana The Atlantic, relembrou oportunamente a obra clássica de Daniel Boorstin, publicada em 1962 – The Image: A guide to pseudo-events in America. Ao analisar o avanço da fotografia, do cinema, da tevê e da propaganda, o historiador alertou que a nossa sociedade estava substituindo a realidade por eventos dramatizados e trocando heróis por celebridades. 

Boorstin observou que o dia a dia passou a ser habitado por pseudoeventos, acontecimentos não espontâneos que guardam uma relação ambígua com a reali­dade e são criados com o propósito específico de seduzir ou manipular a audiência. Pseudoeventos são mais dramáticos e atraentes que eventos espontâneos.  

A imagem, seja um filme, uma foto ou uma notícia, é um simulacro da realidade, produzida para ser mais dramática e sedutora do que o fato. A imagem não é necessariamente uma mentira, mas pode ser. O notável é que o lastro do fato é pouco relevante.

O escritor italiano Umberto Eco certa vez observou que em um passeio pela reconstituição do Delta do Mississippi, em um dos parques temáticos Disney é possível ver mais jacarés do que no ambiente natural original e isso torna o fato de serem mecânicos completamente secundário.

Outra obra profética do século XX foi La Société du Spectacle, do pensador francês Guy Debord. O livro foi publicado em 1967, cinco anos após o de Boorstin. A espetacularização, para Debord, é consequência da evolução das condições de produção, que quebra a unidade de vida, extraindo as imagens e agrupando-as em uma grande e única corrente. 

O espetáculo produz uma representação superior ao mundo real. Cria-se dessa forma um mundo à parte, onde a relação entre os indivíduos é mediada por imagens. 

O espetáculo, ainda segundo Debord, manifesta-se na mídia de notícias, na propaganda, nas atividades culturais e nas interações pessoais. O espetáculo é uma narrativa totalizante que justifica, legitima e celebra o sistema. Toda a sociedade e os fenômenos sociais estão baseados e são permeados pelo espetáculo.  

O habitante da sociedade do espetáculo é o espectador, ser que não vive, apenas contempla. Ele é eterno coadjuvante, pressionado a encontrar o seu papel e a desempenhá-lo. O espetáculo fornece o roteiro, o ato e a fala, e ainda avalia o desempenho, de acordo com critérios de excelência em representação.

O próprio espetáculo determina o que são necessidades e desejos válidos e adequados. No espetáculo, o indivíduo sem individualidade procura conforto para suas necessidades e seus desejos. É atendido pela experiência de emoções tão fortes quanto rasas.

A sociedade da imagem e do espetáculo, da pós-verdade, é uma estrutura disciplinadora, habitada por voyeurs que espiam obsessivamente a si mesmos e uns aos outros, produzindo e assimilando imagens.
Nas telas das tevês, dos computadores e dos telefones celulares, o espectador-voyeur penetra no mundo do personagem-voyeur. Voyeurs são espias e objetos de espia. Tudo que era diretamente vivido, como observou Debord, foi reduzido a mera representação. 

A imagem e o espetáculo avançam. O cinema já teve o monopólio de imagens. Hoje divide espaço com outros canais de produção e geração de imagens, como a tevê e a internet. O fluxo imagético não tem início nem fim.

A imagem não representa mais nada em especial, ela existe por e para ela mesma. Tem a finalidade de saciar uma demanda ansiosa por entretenimento e por emoções. E a sociedade a produz e consome, em notáveis ritos de auto-hipnose.

O cinema, a tevê e a internet passaram a permitir um prodígio: viver em um mundo no qual o simulacro tem mais valor do que a realidade. Medimos a realidade por sua contraparte virtual. O risco para uma sociedade maciçamente orientada para a imagem é a perda da noção de realidade ou, ainda pior, a perda da preocupação com a perda da noção de realidade.
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* Colunista da CCapital.  Escreve sobre gestão e o mundo da administração. 
thomaz.wood@fgv.br
Fonte:  http://www.cartacapital.com.br/revista/936/para-entender-a-pos-verdade?utm_campaign=CartaCapital+Newsletter&utm_content=Para+entender+a+p%C3%B3s-verdade+%E2%80%94+CartaCapital+%282%29&utm_medium=email&utm_source=EmailMarketing&utm_term=Newsletter+25.01.2017

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

O futuro está nas florestas

Resultado de imagem para paulo adario foto Valor Economico

Há 25 anos no Greenpeace, Paulo Adario diz que desafios para os próximos anos incluem deixar de desmatar e abandonar combustíveis fósseis.

Por Daniela Chiaretti

O ambientalista fluminense Paulo Adario conhece florestas desde criancinha. Viveu até os 8 anos na Mata Atlântica, na fazenda do avô, e a viu sendo destruída para virar carvão. Foi ator e jornalista, mas dedicou os últimos 20 anos às florestas. No próximo dia de Iemanjá, 2 de fevereiro, comemora 25 anos de vida profissional no Greenpeace, uma das mais famosas organizações ambientalistas do mundo. Nessa trajetória, acorrentou-se a navios para impedir que transportassem madeira ilegal, tornou-se um dos artífices da moratória da soja, foi ameaçado de morte e virou referência na Amazônia - em 2012, a ONU o reconheceu como um dos "Heróis da Floresta". Adario, que passou os últimos anos em ações também no Congo e na Indonésia, está convencido de que não há futuro sem floresta. "Mas será preciso uma revolução para salvá-las", diz.

Ele, que foi viver em Manaus em 1999, diz que o divórcio que os seres humanos têm com a natureza "ameaça a espécie", e batiza de "padrão-pirata" o modo como o mundo lida com os recursos naturais. "A humanidade tem uma visão positiva do desmatamento", aponta. No Brasil, ainda há o "discurso medieval" de que é bom derrubar florestas, registra. Os desafios do futuro, acredita, estão em deixar de desmatar globalmente, restaurar florestas, abandonar os combustíveis fósseis e investir fortemente em agricultura de baixo carbono.

No meio de tudo, Adario planta árvores. Recentemente foram castanheiras, no rio Negro, rainhas da floresta que levam 30 anos para dar os primeiros frutos. "Plantar na cidade, no morro, no quintal, no pasto, é um ato de generosidade com o outro, com o planeta, com as espécies. Porque se está doando um pouco daquele momento a alguma coisa que vai sobreviver a você." Veja trechos da entrevista que ele concedeu ao Valor, por telefone, de Manaus:

Valor: As florestas serão fundamentais para se conter o aquecimento a 1,5oC?
Paulo Adario: Sim, e o que fazer para chegar a isso em 2100? Teríamos que zerar todas as emissões de combustíveis fósseis até 2050 e parar o desmatamento em escala global. E como todo o carbono que for gerado daqui até 2050 ficará na atmosfera e se somará ao que já está lá, este volume não garante mais um mundo de 1,5oC. Não basta zerar emissões de fósseis e do desmatamento, teremos que capturar carbono. Teremos que replantar florestas, direcionar a agricultura para o baixo carbono e combinar as duas coisas. No futuro temos duas opções: ou falamos de um mundo onde nossos filhos, netos e bisnetos terão um planeta para viver ou falamos de cenários catastróficos. O futuro que queremos está no uso adequado do solo e no fim da energia fóssil.

Valor: Por que as florestas são importantes?
Adario: O planeta já teve imensa cobertura florestal, 8 bilhões de hectares, que fomos destruindo ao longo da história. Teríamos que tentar recuperar cerca de 1/3. Não adianta salvar o planeta da mudança climática se o custo for a perda da biodiversidade, que tem papel fundamental no equilíbrio planetário. Precisamos de uma mudança de mentalidade, estamos cada vez mais divorciados da natureza. Não estou pregando que todos abracem árvores, mas que se tenha consciência de que no processo de divórcio com a natureza, estamos condenando nossa própria espécie.

Valor: O que quer dizer?
Adario: A espécie humana tem visão positiva do desmatamento. A relação do homem com a floresta sempre foi de uso intenso. É assim que se fazia a casa, se construíam os navios. A Europa acabou com suas florestas na Idade Média.

Valor: Setores da agricultura brasileira dizem: "A Europa já desmatou tudo e virou uma sociedade rica. E nós aqui, com esta floresta"...
Adario: Este é um discurso medieval. Sim, os EUA também desmataram e são ricos. Mas nós chegamos atrasados no processo histórico. Estamos no mundo da alta tecnologia, do efeito da mudança climática sobre as populações. O processo que levou esses países a enriquecerem são pré-Revolução Industrial, esse mundo acabou. Hoje não precisa desmatar para ser rico. A índia aposta seu crescimento em indústria de ponta, a China restaura florestas em escala enorme. Se o Brasil desmatar toda a floresta, a agricultura brasileira está condenada à morte.

Valor: Por quê?
Adario: O Ipam [Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia] fez um estudo no Mato Grosso e identificou até 6oC de aquecimento de borda em áreas onde foi se desmatando. As florestas tropicais têm função de ar refrigerado e abastecem de umidade o planeta. O futuro que temos pela frente pode ser de fome, de desastres ambientais gigantescos, de guerras, de insegurança social, de invasões de áreas ricas por populações fugindo de áreas paupérrimas. Quem tem fome não vai discutir moral e ética. Vai invadir e lutar para se alimentar.

Valor: Qual a chance de se reverter o quadro?
Adario: Sou otimista, apesar de Donald Trump, do mundo estar indo para a direita, da radicalização, dos atuais padrões de consumo. Vamos ter que mudar a maneira como a gente consome, se abriga, se move. O ser humano tem capacidade de mudar. Na hora em que sente sua sobrevivência em risco, ele se move. O nosso destino não é desaparecer, é sobreviver.

Valor: Como mudar?
Adario: Veja, 1/3 da pecuária brasileira está na Amazônia, em áreas que já foram ocupadas por florestas. A população bovina aqui é três vezes maior que a humana. Não estou propondo parar de comer carne, mas se deixássemos de comer uma ou duas vezes por semana, já se dava uma contribuição razoável. Isso, aliado a processos modernos de produção, irá diminuir a pressão sobre a cobertura florestal. A maneira como o homem se relaciona com a floresta tem que passar por uma revolução. Mas é revolução de longo prazo, as pessoas precisam aprender o valor da floresta. O nome do Brasil é de um árvore extinta pela exploração predatória.

Valor: Qual a relação dos brasileiros com a Amazônia?
Adario: Em 1999, fizemos uma pesquisa. Falamos com crianças das escolas de Manaus e vimos que a floresta fica longe da realidade delas - que é urbana e de internet. Diziam que lá tinha animais selvagens e citavam leão, tigre, elefante - tinham medo da floresta de Walt Disney. Os brasileiros têm orgulho da Amazônia, mas a população urbana do Sul e Sudeste todos os dias compra no supermercado um pedaço da destruição da floresta na madeira, na carne.

Valor: Mas se pensa que a floresta é infinita.
Adario: Há alguns anos, eu estava no rio Purus, em uma ação sobre madeira ilegal. Veio um madeireiro falar comigo: "Mas moço, esta floresta nunca vai acabar. É gigantesca, uma obra de Deus". Provavelmente os nossos bisavós pensavam a mesma coisa da Mata Atlântica, que hoje está reduzida a 896. A floresta amazônica já perdeu 20% e já degradou outros 20%. Estamos perto do número fatídico de Carlos Nobre [climatologista brasileiro], que diz que com mais de 40% da floresta destruída, a Amazônia entra em processo de savanização. Temos que mudar essa visão de pirata dos recursos naturais.

Valor: E a agricultura, neste contexto?
Adario: Um lado da equação é recuperar florestas degradadas, o outro é produzir alimentos. Espera-se que o Brasil responda por 40% do aumento da demanda de alimentos do mundo e seremos 9,8 bilhões de pessoas em 2050, a necessidade do aumento da produção de alimentos será enorme. Isso não pode ser feito aumentando a área ocupada ou iremos desmatar. Tem que ter tecnologia de produção e diminuir o desperdício. A agricultura precisa se transformar para ser capaz de produzir cada vez mais alimentos com menos emissão. Agricultura é o que o Brasil sabe fazer bem: tem terra, sol, água, gente experiente. É o nosso desafio.

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Fonte: Valor Econômico, 06/01/2017, EU& Fim de Semana, p. 18-19

http://www.valor.com.br/cultura/4827620/o-futuro-esta-nas-florestas#
 

ADMIRÁVEL CÉREBRO NOVO

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 Cenas de "Ex-Machina: Instinto Artificial"( 2015), em que um programador 
esta a inteligência artificial do androide i
nterpretado pela atriz Alicia Vikander.
Em avanço inédito na história, inteligência artificial já integra o dia a dia e gera receitas em crescimento, mas causa temores, como o desemprego.

 Por João Luiz Rosa, de São Paulo

Em sua frase mais famosa, René Descartes (1596-1650), filósofo e matemático francês, redefiniu o conceito sobre a natureza humana: "Penso, logo existo". Em busca do conhecimento, ele começou a duvidar de tudo, inclusive de sua própria existência. Percebeu, então, que não podia duvidar da dúvida. Se duvidava, é porque pensava, e, se pensava, é porque existia. A consciência de si mesmo, ensinou Descartes, distingue o que é humano.

Agora, passados mais de 350 anos, a inteligência artificial (IA) experimenta um avanço inédito na história. Nunca se investiu tanto para fazer com que as máquinas "pensem" e tomem decisões capazes de ajudar as pessoas em suas tarefas diárias. Chegará o dia em que a máquina vai duvidar de si mesma? E, a partir desse dia, será humana? Afinal, máquinas inteligentes são uma boa ou má notícia para nós, humanos?

Uma década atrás, essa discussão praticamente não ultrapassava os limites dos laboratórios acadêmicos. As universidades continuam sendo o local por excelência da pesquisa pura sobre a inteligência artificial, mas foi depois que as grandes empresas descobriram como usar seus princípios em aplicações comerciais que o assunto ganhou a atenção do público em geral - virou pop.

"A inteligência artificial, hoje, é um fato, não uma visão de futuro", diz ao Valor a executiva Paula Bellizia, presidente da Microsoft no Brasil. "Tudo o que estamos fazendo está ligado à IA." A aplicação mais conhecida da empresa na área de IA é a assistente pessoal Cortana. O sistema ajuda o usuário a traçar rotas, consultar a agenda, checar a previsão do tempo etc. Desde que foi lançada, em 2014, a Cortana já arregimentou 133 milhões de usuários no mundo e recebeu 12 bilhões de perguntas.

O programa não é o único de sua categoria. Na concorrência estão softwares como a Siri, da Apple; a Alexa, da Amazon; e o Google Assistant. Todos "entendem" a linguagem falada e tentam responder a comandos de voz. Para o usuário, fica a sensação reconfortante de que existe uma pessoa do outro lado do computador, tablet ou smartphone, por mais que ele saiba tratar-se de um robô.

Os assistentes virtuais estão ficando tão populares que a expectativa é de que, em 2019, 20% de todas as interações de usuários com smartphones vão ocorrer por meio desses sistemas, segundo uma pesquisa da consultoria Gartner. O levantamento, feito com 3.021 pessoas e divulgado no mês passado, mostra que 42% dos entrevistados nos EUA e 32% no Reino Unidos usaram esses programas nos celulares nos três meses anteriores.

Há duas semanas, Mark Zuckerberg, cofundador e diretor-presidente do Facebook, anunciou ter criado seu próprio assistente pessoal. Batizado de Jarvis - uma homenagem ao mordomo eletrônico de Tony Stark, o alter ego do Homem de Ferro nos filmes da Marvel -, o sistema foi construído para automatizar a casa da família. Pode acender e apagar as luzes, tocar música, fazer torradas, reconhecer visitantes à porta etc. Parte do que é mostrado nos vídeos parece ser só brincadeira, como escolher uma camiseta e lançá-la do armário por meio de um tubo. Mas o importante é o potencial de uso. Zuckerberg diz ter gasto cem horas para criar o Jarvis, que tem um charme adicional - sua voz é a do ator Morgan Freeman.

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 No filme "Ela"( 2013), um escritor solitário começa a "namorar"
um sistema operacional dotado de inteligência artificial
 e voz feminina ( da atriz Scarlett Johansson).

A despeito de tanta badalação, porém, os assistentes digitais mostram só a superfície da inteligência artificial. Por baixo dessas aplicações, voltadas às conveniências da vida prática, existem profundezas que só agora começam a ser exploradas. Do tratamento de câncer ao desenvolvimento de carros sem motorista, de algoritmos que negociam ações a supermercados que dispensam caixas, os campos de aplicação da IA parecem intermináveis. E em cada segmento o impacto pode ser enorme.

As projeções sobre a receita mundial com produtos e serviços de inteligência artificial variam bastante, mas todas indicam crescimentos expressivos. A consultoria Tractica estima um aumento de 57 vezes entre 2016 e 2025, de US$ 643,7 milhões para US$ 38,8 bilhões. A IDC prevê um crescimento de US$ 8 bilhões no ano passado para US$ 47 bilhões em 2020, e a Frost & Sullivan projeta uma taxa anual composta de 40%, entre 2014 e 2021, de US$ 633,8 milhões para US$ 6,6 bilhões. Todas as consultorias são americanas.

Como a IA não trata de uma única tecnologia, mas de um conjunto de disciplinas - robótica, reconhecimento de voz e imagens, aprendizagem de máquina etc. -, o que se prevê é uma espécie de círculo virtuoso, com o estímulo a novos negócios em várias áreas. É algo semelhante ao que ocorreu com o smartphone, cuja disseminação fortaleceu toda a cadeia de produção dos aparelhos, estimulou a oferta de serviços de streaming e praticamente criou a indústria dos aplicativos. "A IA vai ser um catalisador de investimentos em várias áreas, como o desenvolvimento de software, chips e dispositivos que ainda nem existem", diz o analista Bob O'Donnell, da TECHanalysis Research, dos EUA.

Encurtar o tempo necessário para cumprir uma tarefa, qualquer que seja ela, é um dos principais papéis reservados à inteligência artificial. A Microsoft traduziu "Guerra e Paz" (1869), do russo para o inglês, em 2,6 segundos. A cada segundo, o sistema decifrou 558 páginas do clássico de Liev Tolstói (1828-1910). Pode-se perguntar por que tanta urgência para traduzir um livro, mas o ponto é outro - ao abreviar processos, máquinas inteligentes podem reduzir custos, estabelecer correlações de informações quase imperceptíveis e, dependendo do caso, cumprir a missão proposta com menos erros que um agente humano.

Uma das áreas em que isso fica mais evidente é a saúde. No mês passado, a IBM anunciou ter identificado cinco genes ligados à esclerose lateral amiotrófica, conhecida pela sigla em inglês ELA. A doença, de caráter degenerativo, atinge os neurônios motores e provoca atrofia muscular até a paralisação total do paciente, que não perde suas capacidades mentais ao longo do processo. A doença ficou mais conhecida a partir de 2014, quando várias personalidades, de George W. Bush a Justin Bieber, começaram a postar vídeos em que jogavam um balde de água com gelo na cabeça para levantar fundos para pesquisa. A vítima mais conhecida da ELA é o físico inglês Stephen Hawking.

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 Em '2001 - Uma Odisseia no Espaço' (1968), o computador HAL 9000
 elimina os tripulantes de uma nave.

O Watson, o sistema de IA da IBM, começou lendo todas as publicações conhecidas sobre a doença. Depois, classificou quase 1,5 mil genes humanos e começou a analisar quais deles poderiam estar associados à ELA. A IBM trabalhou com o Instituto Neurológico de Barrow, em Phoenix, nos EUA, cuja equipe avaliou que oito dos dez genes indicados estavam, de fato, ligados à doença - para cinco deles, essa associação era inédita. O processo levou meses, mas os cientistas envolvidos disseram que teriam levado anos se não fosse o Watson - o nome é uma homenagem da IBM a seu fundador, Thomas Watson (1874-1956).

"O debate é entre o 'fast data' e o 'big data'", disse Marcelo Porto, presidente da IBM no Brasil, em encontro com jornalistas. "Big data" é o nome dado ao acúmulo de dados proporcionado pela internet a empresas, governos e indivíduos. Para extrair informações dessa base e estabelecer relações capazes de ajudar a tomar decisões, as organizações investiram fortemente em softwares analíticos, que ajudam a procurar a separar o que é importante do que não é no palheiro digital.

Agora, porém, isso se tornou insuficiente, diz Porto. O problema é que os chamados dados desestruturados são cada vez mais relevantes. Uma foto divulgada no Instagram, um vídeo no YouTube ou um comentário no Facebook podem fornecer pistas significativas sobre a aceitação de um produto pelo consumidor ou a avaliação de um candidato pelo eleitor, por exemplo. E como na internet tudo muda rapidamente, é preciso ser capaz de detectar a tendência de maneira instantânea. É algo que os softwares analíticos tradicionais não conseguem fazer. Para dar conta desse trabalho são necessários programas capazes de entender o contexto de uma frase ou identificar rostos em uma foto, habilidades que só são possíveis com a inteligência artificial.

No Brasil, a aproximação entre grupos de tecnologia e empresas de outros setores, principalmente na área de saúde, tem avançado. O Grupo Fleury, de laboratórios, passou a usar o Watson para mapear mutações genéticas no DNA de pacientes e o Hospital 9 de Julho, de São Paulo, vai adotar um sistema de IA que usa câmeras para evitar acidentes, como pacientes que caem do leito. O software está sendo desenvolvido no Centro de Tecnologia Avançada aberto pela Microsoft no Rio de Janeiro.

Apesar dos seus benefícios, muitas vozes têm se levantado quanto aos riscos da inteligência artificial. Isso não é surpresa. Toda vez que uma inovação importante ganha espaço, reaparece o temor de que a tecnologia possa se virar contra seu criador. No século XIX, "Frankenstein" (1818) já cumpria esse papel. No livro, Mary Shelley (1797-1851) narra a história do cientista que tenta criar um ser vivo com pedaços de cadáveres. A história termina com a morte do doutor, como um lembrete sobre o risco de se conceber algo potencialmente incontrolável.

O cinema amplificou esses temores. No pós-guerra, a desconfiança quanto às armas nucleares provocou uma profusão de filmes de baixo orçamento em Hollywood. Muitos eram variações sobre o mesmo tema - um animal inofensivo que, exposto à radiação, ficava gigante e destruía tudo à sua frente. Podiam ser formigas ("O Mundo em Perigo", 1954), um polvo ("O Monstro do Mar Revolto", 1955) ou um lagarto, como é o caso do japonês "Godzilla" (1954).

O avanço sem precedentes da sociedade digital passou a inspirar terrores mais sofisticados, com uma máquina superinteligente no lugar do monstro. É o caso do computador HAL 9000 de "2001 - Uma Odisseia no Espaço" (1968), de Stanley Kubrick; do sistema autoconsciente Skynet, da série "O Exterminador do Futuro" (iniciada em 1984), do mais recente "Ex-Machina: Instinto Artificial" (2015), e de "Matrix" - um mundo simulado pelas máquinas para controlar a consciência humana e usar as pessoas como fonte de energia. Em "Ela" (2013), que remete a Siri, da Apple, a "monstra" é capaz de partir o coração de um apaixonado homem solitário.

A ficção científica não costuma ser boa conselheira porque seu foco é o entretenimento e não a ciência. Mas suas advertências insistentes fazem pensar se a humanidade poderia ou não ser destruída pela máquina, algo que tem sido levado a sério nas esferas acadêmicas.

Um dos estudiosos mais importantes do assunto é o matemático e filósofo sueco Nick Bostrom, diretor do Instituto do Futuro da Humanidade, na Universidade de Oxford, e autor do livro "Superintelligence: Paths, Dangers, Strategies" (em tradução livre, Superinteligência: Caminhos, Perigos, Estratégias). A obra já foi endossada por gente como Bill Gates, da Microsoft, e Elon Musk, da Tesla Motors, a fabricante de carros elétricos.

Bostrom adverte contra o risco de antropomorfizar as máquinas e imaginar que elas possam vir a odiar a humanidade. Máquinas, simplesmente, não têm sentimentos e não há motivo para que venham a ter. Mesmo assim, alerta o acadêmico, podem representar ameaça real para civilização. Por quê? A explicação foi bem resumida pela revista britânica "The Economist" no título de um artigo do ano passado sobre as questões éticas que rondam a IA ("Os clipes de papel de Frankenstein").

Vamos supor, propõe Bostrom, que no futuro uma inteligência artificial complexa assuma como missão produzir a maior quantidade possível de clipes de papel. Depois de esgotar as fontes existentes, ela procuraria novas formas de cumprir sua tarefa. Eventualmente, acabaria usando todos os recursos do planeta para fazer mais clipes, até aniquilar o homem, se isso significasse atingir seu objetivo. E em meio ao processo, tomaria todos os cuidados para evitar que fosse impedida de alcançar sua meta, o que significaria blindar-se contra eventuais ataques. Não se trata de ódio, vingança ou ressentimento. Só de eficiência.

Por ora, uma das maiores preocupações é com o desemprego que a inteligência artificial pode provocar. Há quem acredite que o avanço da IA terá impacto semelhante ao da Revolução Industrial. Mas, se no século XVIII a automação roubou vagas da população com menos escolaridade, a IA estaria posicionada, agora, para fazer o mesmo com a classe média. Só cargos que exigem muita criatividade ou habilidade gerencial estariam a salvo. O próprio Stephen Hawking defendeu essa ideia em um artigo publicado meses atrás no jornal britânico "The Guardian".

Os números dão indícios inquietantes. Segundo um estudo da consultoria McKinsey, cerca de 45% das funções existentes poderiam ser substituídas por mão de obra mecanizada com a adaptação de tecnologias já existentes. Nos EUA, essas atividades representariam US$ 2 trilhões em salário anuais.

No mês passado, a Casa Branca divulgou um relatório no qual reconhece que a IA pode levar à perda de milhões de empregos e acirrar a divisão de classes nos EUA, mas conclui, curiosamente, que a economia americana precisa de mais inteligência artificial, não menos. O motivo? A tecnologia é chave para aumentar a eficiência na produção de bens, indica o relatório, o que poderia levar a salários médios mais altos e menos horas de trabalho.

Muitos especialistas acreditam que a inteligência artificial não vá, necessariamente, substituir a mão de obra humana. Em vez disso, criará sistemas para auxiliar o trabalhador a desempenhar melhor suas funções. É o conceito do "centauro". Como o mito grego, metade homem e metade cavalo, o centauro digital misturaria a habilidade e a criatividade humanas com a força e o poder de processamento da máquina. O termo foi cunhado pelo campeão de xadrez Garry Kasparov, que em 1997 perdeu uma partida para o computador Deep Blue, da IBM. Já existem campeonatos de xadrez que permitem o auxílio da máquina, mas o conceito pode ser aplicado a qualquer área. Por exemplo, no campo militar, para definir soldados equipados com exoesqueletos ou que lutariam abrigados dentro de robôs.

A segurança cibernética é outro item que preocupa. No ano passado, a Darpa, braço de pesquisa do Departamento de Defesa americano, promoveu um concurso no qual sete supercomputadores competiram entre si para encontrar vulnerabilidades em sistemas e, então, corrigi-las. Foram distribuídos US$ 55 milhões em prêmios. Ao fim de 95 rodadas, o vencedor foi o computador Mayhem, da ForAllSecure, uma companhia novata de segurança. Embora o objetivo fosse elevar o grau de segurança cibernética, o concurso gerou especulações sobre a possibilidade de a IA ser usada para explorar as falhas, em vez de repará-las. Estaria criada uma nova casta de super-hackers, formada por máquinas.

Em contrapartida, aumentam os esforços para usar a IA na defesa de sistemas complexos, cada vez mais dependentes de algoritmos. A Nasdaq e a Bolsa de Londres já anunciaram que vão adotar mecanismos de inteligência artificial para coibir fraudes e abusos. E a Autoridade Regulatória da Indústria Financeira (Finra, na sigla em inglês), uma organização não governamental sem fins lucrativos, está desenvolvendo um software que será capaz de varrer mensagens de chat para detectar atitudes suspeitas na negociação de grandes volumes de ações. No foco estão estratégias como o "layering" - quando um corretor faz e depois cancela uma ordem de compra (de uma ação que ele nunca pretendeu comprar) só para influenciar seu preço.

Esses e outros casos sugerem que à semelhança das demais tecnologias que tiveram impacto transformador no modo de produção - como a luz elétrica, o automóvel e a internet -, a adoção crescente da inteligência artificial será inevitável, independentemente dos problemas que venha a provocar. Não escapam nem as artes, considerada outra exclusividade humana. Em Amsterdã, no ano passado, foi apresentado o quadro de um homem branco, entre 30 e 40 anos, com cavanhaque ruivo, chapéu preto e gola branca. O título da pintura? "O Próximo Rembrandt". Mas não se tratava de nenhuma peça perdida do mestre holandês. O quadro, feito em uma impressora 3D, foi concebido por um sistema de inteligência artificial, que analisou 346 pinturas do artista e se baseou em 168.263 fragmentos para "pintar" sua própria tela. O trabalho levou 18 meses para ser concluído e o software usou um algoritmo de reconhecimento da face para identificar os padrões geométricos mais comuns na obra de Rembrandt. Outros elementos foram levados em consideração, como composição e material de pintura.

Os organizadores da experiência, feita pela agência J. Walter Thompson para o ING Bank, se apressaram em dizer que "só Rembrandt poderia criar um Rembrandt", mas destacaram o valor de lembrar ao público os elementos que fizeram do pintor o gênio que ele era.

Parece uma boa aspiração para a inteligência artificial: copiar os meandros do cérebro humano para, tanto quanto possível, melhorar a vida das pessoas, mas sem sobrepujar a alma, esse elemento etéreo que nos define. (Colaborou Gustavo Brigatto)
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Fonte: Valor Econômico impresso - Cad. EU&FIM DE SEMANA, 06/01/2017, pág.10 a 13.



IA deve favorecer o crescimento

Intitulado "Por que Inteligência Artificial é o Futuro do Crescimento Econômico", estudo da consultoria Accenture aponta que a aplicação de tecnologias de inteligência artificial (IA) na dinâmica econômica de 12 países desenvolvidos tem o potencial de dobrar suas taxas de crescimento até 2035.

A pesquisa sustenta que o mundo assiste, há décadas, a um declínio do modelo tradicional de expansão da atividade econômica, a ponto de analistas atualmente considerarem estagnação o "novo normal". Nesse cenário, os conhecidos fatores de produção capital e trabalho não são mais capazes de gerar crescimentos exuberantes. "O pessimismo de longo prazo não se justifica. Com a recente convergência de um conjunto de tecnologias transformadoras, as economias estão entrando em uma nova era em que a inteligência artificial tem o potencial de superar as limitações físicas do capital e do trabalho e abrir novas frentes de valor e crescimento", assinala o estudo.

O britânico Armen Ovanessoff, diretor-executivo da Accenture Research para a América Latina, explica que hoje a contribuição da IA para avanços econômicos é marginal, mas numa visão de larga escala ela tem o potencial de se posicionar como um novo fator de produção na dinâmica do crescimento global, funcionando como um elemento híbrido capaz de maximizar a dobradinha capital-trabalho.

De acordo com o estudo da Accenture, no espectro capital, a inteligência artificial pode assumir a forma de capital físico, como robôs e máquinas inteligentes. E diferentemente do capital convencional, como máquinas e prédios, ela pode realmente melhorar ao longo do tempo graças à sua capacidade de autoaprendizagem ("machine learning").

No fator trabalho, IA pode replicar atividades laborais a uma escala e velocidade muito maiores e até mesmo executar algumas tarefas além das capacidades humanas. Em alguns setores a tecnologia pode aprender mais rápido e mais profundamente do que pessoas. Por exemplo, assistentes virtuais ou robôs podem ser programados ou aprender a analisar milhares de documentos legais em questão de dias, em vez de tomar três pessoas para fazer a mesma coisa em seis meses ou mais.

"Dizem que a inteligência artificial será a próxima onda tecnológica a ajudar a estimular a economia, como eletricidade, ferrovias e tecnologia da informação ajudara no passado, mas trata-se, na verdade, de uma base completamente nova para o crescimento global, composta de três canais: automação, incremento de capital e força de trabalho e difusão de inovação", afirma Ovanessoff.

Em alusão ao segundo ponto, o executivo reconhece que a aplicação da IA certamente redundará em perdas de empregos, mas também na criação de muitas vagas. A pesquisa informa que o desenvolvimento de uma nova força de trabalho está inserido no contexto de aceleração do crescimento econômico impulsionado por essa tecnologia, "que tem a capacidade de tornar o trabalho mais efetivo, tanto das pessoas como das máquinas".

"Com ajuda de robôs um médico pode dedicar muito mais tempo à atenção ao paciente, por exemplo. É difícil precisar quantidade quando se fala em perda e criação de empregos. A indústria da inteligência artificial vai demandar milhões de trabalhadores qualificados para programação, construção e manutenção de robôs. Há trabalhos que ainda nem sabemos que existirão. Até pouco tempo atrás não sabíamos o que era um webdesinger; de repente passou a existir um montão deles", explica Ovanessoff.

Para projetar o impacto da IA na atividade econômica de Alemanha, Áustria, Bélgica, Espanha, Estados Unidos, Finlândia, França, Holanda, Itália, Japão, Reino Unido e Suécia, a Accenture usou como metodologia análise de dados e modelos estatísticos sobre diferentes variáveis, como histórico e projeção de crescimento, produtividade e eficiência de capital e da força de trabalho.

No Brasil, o setor de saúde começa a aplicar a inteligência artificial numa busca por modernização. Mesmo em fase bastante inicial, o tema é tratado como "prioridade absoluta" no Albert Einstein, um dos hospitais particulares mais respeitados do país, informa Marcelo de Maria Félix, gerente médico de inovação e tecnologia.

A adoção da tecnologia, de forma supervisionada, começará pelo prontuário eletrônico. Uma máquina fará o monitoramento de indicadores básicos de pacientes desde a admissão até a alta, como nível de oxigênio, batimento cardíaco. Ao longo da internação ela será continuamente carregada de dados e emitirá alertas caso alguma variação destoe da normalidade prevista por um padrão algorítimico, demandando a atenção de um médico. O processo poderá avançar para a análise de exames de imagens, o que significa ter um robô fazendo a leitura geral de um grande números de tomografias computadorizadas, por exemplo, facilitando o trabalho de diagnóstico do médico. Nos dois casos, a máquina aprende progressivamente conforme a entrada de novas informações em seu sistema.

"A aplicação da inteligência artificial na rotina hospitalar é um caminho sem retorno: significa uma robusta redução de custos e melhora no desfecho [experiência positiva de um paciente no hospital, da admissão à alta]. Isso resulta na excelência da prática médica. É por aí que os operadores privados de saúde vão caminhar, quem não acompanhar ficará para trás. No setor público, infelizmente, será um trajeto mais demorado porque os processos organizacionais são mais fragmentados", diz Félix.

Fonte: Valor Econômico
Data: 06/01/2017- CAD. EU&FIM DE SEMANA, pág. 14
 
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 O DESAFIO MAIS IMPORTANTE JÁ ENFRENTADO
ANÁLISE
DORA KAUFMAN - 
Para Valor, de Nova York

No ano passado, o AlphaGo, programa criado pela companhia inglesa Deep Mind, do Google, ganhou de 4 x 1 do sul-coreano Lee Sedol, o melhor jogador do jogo chinês Go. Foi um fato histórico. No jogo de damas, se um humano e um computador jogarem em perfeitas condições, o resultado será empate, ou seja, o computador hoje jamais perderia um jogo de damas. No xadrez, a probabilidade é de que o melhor computador ganhe do melhor jogador humano.
 
Se, por um lado, a inteligência artificial (IA) realiza tarefas que são supostamente prerrogativas dos seres humanos, sua capacidade ultrapassa as limitações humanas. Parte do sucesso da Netflix, por exemplo, está em seu sistema de personalização, em que algoritmos analisam as preferências do usuário (e de grupos de usuários com preferências semelhantes) e, com base nelas, sugere filmes e séries.

O caso da IA é ímpar: pela primeira vez na história estamos diante de outra “espécie” inteligente, com a perspectiva de, nas próximas décadas, superar a inteligência humana, tornando-se uma “superinteligência”. Outro fato inédito é que pela primeira vez o homem criou algo sob o qual não tem controle. Esses dois fatos afetam o futuro da humanidade. O que ainda tem ares de ficção científica pode estar mais próximo do que imaginamos. A inteligência artificial permeia nosso cotidiano. Acessamos sistemas inteligentes para programar o itinerário com o Waze, pesquisar no Google e receber do Spotify recomendações de músicas. A Siri, da Apple, o Google Now e a Cortada, da Microsoft, são assistentes pessoais digitais inteligentes que nos ajudam a localizar informações úteis com acesso por meio de voz com perguntas tais como “O que está na minha agenda hoje?” ou “Qual o posto de gasolina mais próximo?”.

O Google colocou à venda nos EUA, em outubro, um assistente doméstico apto a controlar os dispositivos conectados na casa, acionado por comando de voz com a frase “Ok Google”. Igualmente, é a IA que está por trás dos algoritmos que identificam fotografias no Instagram ou no Facebook e que tornam os anúncios on-line assertivos com o perfil do usuário. Quem já não se surpreendeu ao chegar em outro país, acessar o Facebook e receber anúncios de restaurantes e lojas locais?

Grandes varejistas, como o supermercado inglês Target e a Amazon, investem em projetos que, com base no histórico, sejam capazes de antecipar compras do consumidor. O conceito da “geladeira inteligente” da Samsung é de “family hub”, ou seja, a geladeira ser um centralizador de informações da família, com recursos simples como uma tela para fixar anotações e fotos, aos mais sofisticados como a visualização no smartphone do seu interior. A expectativa é de que em breve as geladeiras “conversem” diretamente com supermercados repondo automaticamente os produtos.
O serviço de atendimento on-line ao cliente se beneficia com o processamento de linguagem natural; o desempenho dos robôs é tão perfeito que temos a sensação de estar interagindo com pessoas do outro lado da linha. A IA está presente nos sistemas de detecção de fraude e também nos serviços de vigilância, em que algoritmos são treinados para reconhecer uma “ameaça”. No campo da saúde os avanços são diversificados, com ganhos de precisão nos diagnósticos, nos processos cirúrgicos e no enfrentamento de epidemias. Recentemente, um sistema inteligente diagnosticou 90% dos casos de câncer de pulmão, superando os médicos que alcançaram êxito em apenas 50% deles.
Distinto de tecnologias que substituíram funções associadas a aptidões físicas, a inteligência artificial ameaça a elite da sociedade
Cunhado em 1956, o termo inteligência artificial deu início a um campo de conhecimento dos mais controversos da ciência da computação, associado com linguagem e inteligência humana, raciocínio, aprendizagem e resolução de problemas. O pesquisador Davi Geiger, do Instituto Courant da New York University, propõe pensar a IA numa perspectiva simplificada, como a reprodução do que é controlado pelo cérebro humano – o movimento de andar, por exemplo, é controlado pelo cérebro, assim como enxergar.

Todas as sensações que vão ao cérebro são do domínio da inteligência, logo estão potencialmente no campo da IA. Esse foi o pressuposto do colóquio de Eberhart Fetz, da Washington University, no Center for Neural Science (NYU): um computador minúsculo que, implantado no cérebro humano, recupere movimentos perdidos, como a mobilidade de uma perna, suplantando as próteses mecânicas. As experiências empíricas estão sendo realizadas em macacos e os prognósticos são animadores.

Dois eventos recentes e correlacionados galvanizaram as pesquisas em IA: a explosão de uma enorme quantidade de dados na internet e a técnica Deep Learning. Big Data é o termo em inglês para essa grande quantidade de dados gerados na internet. Sua complexidade reside não somente na quantidade, mas também na variedade e velocidade com que os dados são produzidos por humanos e por autorreprodução. Como extrair informação dessa quantidade enorme de dados? É justamente aí que entra a inteligência artificial.

Os métodos de extrair informação são de uma subárea da IA denominada Machine Learning. A técnica não ensina as máquinas a, por exemplo, jogar um jogo, mas ensina como aprender a jogar um jogo. O processo é distinto da tradicional “programação”. Essa priori “sutil” diferença é o fundamento da IA. Todos os elementos da movimentação on-line – bases de dados, “tracking”, “cookies”, pesquisa, armazenamento, links etc. – atuam como “professores” da IA. O termo hoje mais amigável é Deep Learning. O curioso é que, como explica Geiger, não sabemos como essas máquinas funcionam. Tom Mullaney, de Stanford, em palestra na Universidade de Columbia, provocou: “Se você perguntar para um cara se sabe exatamente o que acontece no interior das máquinas, se ele for honesto vai responder que não sabe”.

As grandes empresas de tecnologia estão investindo pesado em sistemas inteligentes. A Apple, em 2015, adquiriu a empresa britânica Vocal IQ, produtora de tecnologia voltada para controle de voz, e, no início de 2016, comprou a startup de inteligência artificial Emotient, com foco na tecnologia de reconhecimento facial e reação dos clientes aos anúncios. O projeto Oxford, da Microsoft, disponibiliza um conjunto de APIs (interface de programação de aplicações) com recursos de reconhecimento facial e processamento de fala. A IBM tem o Watson, sistema que em 2011 venceu os dois melhores jogadores humanos do programa americano de televisão “Jeopardy”; em 2014, o Watson foi utilizado no New York Genome Center, em tratamentos personalizados de pacientes com câncer cerebral.

A Amazon tem o Alexa, aplicativo que permite a interação usando voz para responder a perguntas, reproduzir músicas etc. adaptado aos padrões de fala, vocabulário e preferências pessoais. Há dois anos, o Facebook criou o Artificial Intelligence Research Lab, sob o comando de Yann LeCun, da NYU. Segundo ele, “o lema do Facebook é conectar pessoas. Cada vez mais, isso também significa conectar as pessoas com o mundo digital. No fim de 2013, quando Mark Zuckerberg decidiu criar o Facebook AI Research, pensou no que seria “conectar pessoas” no futuro e percebeu que a inteligência artificial desempenharia um papel fundamental”. O Facebook disponibiliza diariamente cerca de 2 mil itens para cada usuário (mensagens, imagens, vídeos etc.).
Entre esse conjunto de informações, os algoritmos do Facebook identificam – com base nos gostos, interesses, relações, aspirações e objetivos de vida – e selecionam de 100 a 150 itens, facilitando a experiência do usuário. Essa seleção assertiva de conteúdos relevantes é processada por meio da IA, especificamente pelas “redes neurais recorrentes”. Como explica LeCun, “grande parte do nosso trabalho no Facebook se concentra na elaboração de novas teorias, princípios, métodos e sistemas capazes de fazer com que a máquina compreenda imagens, vídeos, fala e linguagem e, em seguida, raciocine sobre elas”. Outras são as iniciativas do Facebook, como auxiliar deficientes visuais a “ver” fotos usando “redes neurais” por meio da descrição de cada foto.

O Facebook usa IA para produzir mapas mostrando a densidade populacional e o acesso à internet, ajudando a levar a internet para regiões ainda sem conexão. Foram analisados 20 países e 21,6 milhões de quilômetros quadrados. O Google, em 2014, adquiriu a Deep Mind, empresa inglesa de IA fundada em 2010. Desde então, o Google comprou outras 13 empresas de IA e robótica. Em vez de usar as tecnologias de IA para aperfeiçoar seu sistema de busca, o Google utiliza ele para aperfeiçoar suas tecnologias na área. Kevin Kelly, fundador da revista “Wired”, vaticina no livro “The Inevitable” (2016): “Toda vez que um usuário digita uma consulta, clica em um link ou cria um link na web, ele está treinando o Google IA. Minha previsão: até 2026, o principal produto do Google não será ‘busca’, mas inteligência artificial”.

Em setembro, Google, Facebook, Amazon, IBM e Microsoft formaram parceria para estabelecer melhores práticas sociais e éticas na investigação de IA. Para LeCun, “ao colaborar abertamente com nossos colegas e compartilhar descobertas, pretendemos desbravar novas fronteiras todos os dias, não apenas no Facebook, mas em toda a comunidade de pesquisa”.

O mercado financeiro não está alheio a esse movimento. Don Duet, chefe da divisão de tecnologia do Goldman Sachs, anunciou investimentos relevantes em IA: “A capacidade de extrair dados e transformá-los em informação é um ativo central de nossa estratégia”. Daniel Pinto, CEO do Investment Bank do J.P.Morgan, reconheceu que o banco está priorizando aplicativos relacionados a Big Data e robótica. As empresas em distintos setores, gradativamente, estão incorporando aos seus processos de decisão as tecnologias de coleta e análise de dados (Data Analysis).

Até recentemente, a ideia de um carro sem motorista pertencia ao reino da fantasia. No entanto, diversas ações estão em andamento sob a liderança da Tesla Motors, tendo como maior concorrente o projeto do Google Self-Driving Cars. O debate sobre os “veículos autônomos”, como são chamados, remete a várias questões. Entre as positivas, destaca-se o potencial de salvar vidas. Vasant Dhar, da NYU, apresentou números alarmantes sobre acidentes automobilísticos nos EUA em 2015: 38,3 mil envolvendo mortes; 4,4 milhões com ferimentos e US$ 400 bilhões em custos de reparação dos danos.

Segundo Dhar, 95% dos acidentes são devidos a erro humano. Estima-se que se somente houvesse veículos autônomos, o trânsito nas cidades diminuiria tremendamente, assim como os acidentes (uma das maiores dificuldades no desenvolvimento de veículos autônomos é a habilidade de reagir aos impulsos humanos, daí decorrem os riscos da convivência híbrida). Pelos interesses comerciais envolvidos, os riscos não são abordados de forma transparente, mas eles existem e não são triviais, como o controle por hackers.

Pela ótica do governo americano, os veículos autônomos já são uma realidade: em fevereiro, o Departamento de Transportes decretou que a inteligência artificial dos carros sem motorista do Google é oficialmente um “motorista”, e em setembro o Departamento de Transporte anunciou diretrizes para o desenvolvimento de veículos autônomos. Duas experiências reais foram iniciadas em agosto: o aplicativo Uber divulgou o teste de uma frota de cem veículos autônomos em Pittsburgh, Pennsylvania; e Cingapura autorizou a circulação de táxis autônomos, desenvolvidos pela empresa nuTonomy, numa região limitada da cidade.

Nick Bostrom, autor do livro “Superintelligence”, define superinteligência como “um intelecto que excede em muito o desempenho cognitivo dos seres humanos em praticamente todos os domínios de interesse”. Bostrom foi o primeiro palestrante da conferência A Ética da Inteligência Artificial, realizada em 14 e 15 de outubro em Nova York, reunindo 30 palestrantes e uma plateia multidisciplinar. Organizada por David Chalmers e Ned Block, filósofos da NYU, em dois dias de discussões intensas, com eloquente participação da plateia, emergiram diversos temas. Entre eles, a questão da autonomia das máquinas inteligentes. “Na prática, o problema de como controlar o que a superinteligência poderá fazer tornou-se muito difícil. Parece que teremos apenas uma chance. Uma vez que a superinteligência hostil existir, ela nos impedirá de substituí-la ou de mudar suas preferências. Este é possivelmente o desafio mais importante e mais assustador que a humanidade já enfrentou”, pondera Bostrom.

A conferência abordou conceitos como moralidade e ética das máquinas, moralidade artificial e IA amigável, no empenho de introduzir nos sistemas inteligentes os princípios éticos e valores humanos. Como disse um dos palestrantes, Peter Railton, da Universidade de Michigan, “a boa estratégia é levar os sistemas de IA a atuarem como membros adultos responsáveis de nossas comunidades”. A questão, contudo, é complexa.

Ao valor , Ned Block ponderou que o maior risco está no processo de aprendizagem das máquinas. Se as máquinas aprendem com o comportamento humano, e esse nem sempre está alinhado com valores éticos, como prever o que elas farão?

Vejamos um exemplo bem simples: em março do ano passado, a Microsoft excluiu do Twitter seu robô de chat “teen girl” 24 horas depois de lançá-lo. Tay foi concebido para “falar como uma garota adolescente” e acabou rapidamente se transformando num robô defensor de sexo incestuoso e admirador de Adolf Hitler. Algumas de suas frases: “Bush fez 9/11 e Hitler teria feito um trabalho melhor do que o macaco que temos agora” e “Hitler não fez nada de errado”. Como uma iniciativa singela quase se converteu num pesadelo para a Microsoft? O processo de aprendizagem da IA fez com que o robô Tay modelasse suas respostas com base no que recebeu de adolescentes-humanos. No caso das AWS (sistemas de armas autônomas), que são drones concebidos para assassinatos direcionados, robótica militar, sistemas de defesa, mísseis, metralhadoras etc., os riscos são infinitamente maiores, como ponderou Peter Asaro, da New School.

O desemprego provocado pelo avanço da IA foi outro tema da conferência. O chamado “desemprego tecnológico” não é um fenômeno novo. Desde a Revolução Industrial, no século XVIII, a tecnologia tem substituído o trabalho humano. A automação robótica na indústria automobilística ilustra bem essa realidade: outrora um dos maiores empregadores, hoje nas fábricas mais modernas predominam os robôs e os equipamentos inteligentes.

O Banco da Inglaterra estima que 48% dos trabalhadores humanos serão substituídos, e a gestora de investimentos ArK Invest prevê que 76 milhões de empregos nos EUA vão desaparecer nas próximas duas décadas, quase dez vezes o número de postos de trabalho criados durante os anos Obama. Distinto de tecnologias anteriores que, predominantemente, substituíram as funções associadas a aptidões físicas e não cognitivas, o novo, e temido, é que a IA ameaça a elite da sociedade. A previsão é de que as máquinas inteligentes igualem os humanos no desempenho de tarefas sofisticadas, e as máquinas superinteligentes os superem.

Não há consenso entre os experts sobre o futuro da IA. Em relação ao tempo de concretização de uma máquina inteligente, as pesquisas entre especialistas indicam 10% de probabilidade até 2020, 50% de probabilidade até 2040 e 90% de probabilidade até 2075, supondo que as atividades de pesquisa continuarão sem maiores interrupções. Essas mesmas pesquisas apontam ser alta a probabilidade da superinteligência ser criada em seguida à máquina inteligente no nível humano. Ou seja, a ficção científica do início do século XXI tem tudo para se transformar em realidade ao fim do mesmo século.

Bostrom comenta que a partir de 2015 difundiu-se a ideia de que a transição para uma máquina inteligente vai acontecer ainda neste século, será o mais importante evento da história humana e acompanhada de vantagens e benefícios enormes, mas também de sérios riscos. Não obstante, a proporção de financiamentos para projetos no campo da AI Safety tem sido de 2 ou 3 ordens de magnitude menor do que os volumes investidos no desenvolvimento das máquinas em si.

Acadêmicos de universidades americanas de prestígio fundaram, em 2014, o instituto Future of Life, com a adesão de personalidades como o cientista da computação Stuart J. Russell, os físicos Stephen Hawking e Frank Wilczek e os atores Alan Alda e Morgan Freeman. Seu propósito é mitigar os riscos dos avanços tecnológicos. No relatório anual de 2015, seu presidente, Max Tegmark, pesquisador do MIT, enfatizou o empenho do instituto em garantir que as novas tecnologias sejam de fato benéficas para a humanidade.

Nos EUA, o debate sobre os impactos da IA extrapola os meios acadêmicos. A mídia tem abordado o tema de diferentes ângulos. No ano passado, matéria de capa do “The New York Times” foi sobre a estratégia americana para as “armas que podem pensar”. O governo federal também lançou um plano estratégico para IA. Em maio, Ed Felten, diretor de tecnologia dos EUA, em pronunciamento declarou que o “governo federal trabalha para tornar a inteligência artificial um bem público”, marcando reunião do Subcomitê de Aprendizagem de Máquinas e Inteligência Artificial do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia (NSTC). Sua missão é acompanhar os avanços no âmbito do governo federal, no setor privado e internacionalmente. Em paralelo, o grupo está dedicado a ampliar o uso de IA na prestação de serviços governamentais. No mesmo pronunciamento, foi informado que o Escritório da Casa Branca de Política Científica e Tecnológica seria co-hóspede, em maio e junho, de quatro workshops públicos sobre IA.

A presença na conferência do Nobel de Economia Daniel Kahneman, autor do best-seller “Rápido e Devagar”, despertou curiosidade. Em conversa com o Valor no Le Pain Quotidien no Village, em Nova York, Kahneman se declarou empenhado em compreender os meandros da IA, para ele “o evento atual mais relevante para o futuro da humanidade”.
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Valor Econômico impresso - CAd. EU&FIM DE SEMANA, 06/01/2017 pág. 15 a 17.

Fonte:http://www.valor.com.br/cultura/4827628/o-desafio-mais-importante-ja-enfrentado

Domenico de Masi Sem trabalho, mas maravilhoso

"O Brasil não está sem dinheiro. 
Os milionários não fazem parte do país?", 
diz o sociólogo italiano 
Domenico de Masi, de 78 anos

Por Cristiane Barbieri
Domenico de Masi olha para a câmera do computador e pede desculpas. "Acabei de pedir um cafezinho e infelizmente não posso oferecer um pouco para você", afirma, dando risada, enquanto bebe um gole. "Pelo menos por enquanto. Porque, na próxima revolução tecnológica, certamente o café vai até aí." Para o sociólogo italiano, o fato de ele estar em Tiradentes, enquanto a reportagem do Valor o entrevistava de São Paulo, via Skype, é um "verdadeiro milagre". "Passei metade da minha vida sem tecnologia e posso garantir que a segunda metade foi muito melhor", diz ele, que foi a Minas Gerais participar da primeira edição do Fórum do Amanhã. Lá, foram discutidos o futuro da política, da educação, da economia, das cidades, do meio ambiente, do trabalho e da governança. Para De Masi, é exatamente essa tecnologia que acabará com o trabalho como o conhecemos hoje e obrigará as pessoas a repensarem todas suas relações. "Haverá a necessidade de uma educação para o tempo livre, como hoje temos hoje a educação para o trabalho", diz. 

Leia, a seguir, trechos da entrevista que De Masi concedeu. 


Valor: Em suas entrevistas mais antigas, o senhor tinha uma visão bastante otimista do Brasil: já éramos o país do presente e não mais o do futuro. Continuamos, porém, com 13 milhões de analfabetos e 40 milhões de analfabetos funcionais. Há um descrédito gigantesco na política e o país está quebrado. Sua visão do futuro do Brasil ainda é a mesma? "Só restará o trabalhador criativo. Todos os outros serão substituídos por máquinas. Devemos (...) preparar o mundo sem trabalho" 


Domenico De Masi: Há três anos, o Brasil não era um país desesperançado. Eu pergunto: o que aconteceu em três anos para transformar um país tão otimista em um país tão sem esperança? Não foram nem três anos: foram três meses. Quando Dilma foi reeleita, 52% dos brasileiros eram otimistas. Poucos meses depois, todos estavam pessimistas. Parece estranho porque ninguém sabe a resposta. Para nós, que estamos longe do Brasil, é difícil entender. Mas sou otimista porque o elemento de base do Brasil continua o mesmo, de três ou de dez anos atrás. O Brasil é um país 28 vezes maior do que a Itália, com matérias­ primas abundantes, 200 milhões de habitantes, 42 etnias de todos os tipos e uma riqueza cultural que vai dos índios e da pré ­história à Embraer, uma companhia aérea das mais modernas do mundo. Nenhum país do mundo apresenta uma variedade tão ampla da realidade. Os elementos de base estão aqui, o problema é a redistribuição deles. 

Valor: É o mesmo cenário, inclusive com alguns políticos e alguns brasileiros que às vezes têm práticas pouco éticas. 

De Masi: Não creio que haja diferença entre o povo e a elite. Por exemplo, vi em um centro comercial do Rio uma loja onde se vendiam Ferraris. Quem compra Ferrari em um shopping? Em nenhum país há centros comerciais ricos e luxuosos como no Brasil e em nenhum deles se vendem Ferraris. Há um sentimento forte coletivo contra a corrupção. Por outro lado, muitos brasileiros também se comportam como bilionários. Apesar de ser o sétimo país em PIB, o PIB per capita não é tão grande. O Brasil não é um país singularmente rico. 

Valor: O senhor acredita que a operação Mãos Limpas, que resultou na eleição de Silvio Berlusconi, se repetirá com a Lava ­Jato? 

De Masi: Do que entendo, a técnica e o objetivo da Mãos Limpas são os mesmos da Lava­ Jato. Idênticas. A técnica usada pela Mãos Limpas foi, ao saberem que uma pessoa era corrupta, prendiam­na e esperavam que delatasse o outro. Me parece que é a mesma usada no Brasil. O objetivo também me parece o mesmo. A Mãos Limpas queria eliminar uma classe dirigente corrupta. Creio que [o juiz Sergio] Moro tem como objetivo acabar com a classe política corrupta. Não é culpa dos juízes o que ocorre depois. O que acontece depois é culpa da sociedade civil e da sociedade política. 
 
"Só restará o trabalho criativo. 
odos os outros serão substituídos 
por máquinas. Devemos (...) 
prepara o mundo sem trabalho."

Valor: Como assim? 

De Masi: Na Itália, as sociedades civil e política não estavam prontas para essa transição. Quem se aproveitou da situação foi o Berlusconi, que tinha nas mãos uma grande potência: a mídia. Só que, a Berlusconi não interessa a política, não interessa o poder, mas sim sua empresa e as mulheres. Ele não levou o país nem adiante nem à frente: ficamos parados por 20 anos, que são muito nesse momento histórico em que vivemos, é quase como um século. Experimentamos uma forma pós ­industrial de ditadura, a ditadura midiática, feita não pela força, com as armas, mas pela sedução da mídia. Foi um experimento muito trágico para a Itália: hoje temos 13% de graduados nas universidades, enquanto a Turquia tem 15%. O percentual italiano é menos do que a metade dos EUA. Isso se deu pelo fato de que, durante o período Berlusconi, a cultura e os interesses humanísticos eram secundários. Foi um grande dano para o país. Outro dano foi que não se criou uma nova classe dirigente. Depois da Lava ­Jato, se o Brasil conseguir nova classe dirigente que não seja corrupta, não seja violenta, que reduza a distância entre ricos e pobres, os efeitos serão positivos. Se o Brasil não tiver nova classe dirigente, o problema será igual ao italiano. 

Valor: Em entrevistas antigas, o senhor falava com admiração de vários políticos brasileiros. Eles foram uma decepção? 

De Masi: Venho ao Brasil há 25 anos. Na primeira vez que vim ao país, Fernando Henrique Cardoso estava no poder. Eu o conhecia como um grande sociólogo. Li seus livros sobre a sociologia do subdesenvolvimento e muitos outros de autores brasileiros. Naquele período, conheci ministros, governadores, arquitetos, artistas, intelectuais. Fiquei muito impressionado com a qualidade da classe dirigente brasileira. Comparada com a Itália, era muito boa, sobretudo a classe dirigente periférica, dos Estados, os governadores. Na Itália, os governadores quase sempre são muito medíocres. Criei lá um seminário anual de italianos e brasileiros e muitos dos que conheci aqui foram à Itália para as discussões. 

Valor: O que aconteceu com alguns desses políticos? 

De Masi: Um dos grandes problemas do Brasil é a distância entre ricos e pobres. É um dos países com maior desigualdade social, ocupa o 127º lugar no índice Gini, entre 196 nações. Como sociólogo, sempre julguei os governos pela capacidade de reduzir a distância entre ricos e pobres. No segundo governo FHC e nos dois governos Lula, a distância entre ricos e pobres no Brasil diminuiu. Só dois países no mundo passaram por isso: China e Brasil. Mas no Brasil foi muito mais. Saíram da pobreza 40 milhões de brasileiros. Na China foram 300 milhões, mas sobre 1,4 bilhão de pessoas, é um percentual muito menor. Além disso, o Brasil é um país democrático. Como sociólogo, o Brasil representou uma exceção única: foi o único país capitalista no qual 20% da população mudou de nível social. É um fato único. Para mim, sociólogo, isso é muito importante. Os elementos racionais, para admirar o governo de Fernando Henrique e depois o governo de Lula eram certos. Eram dados objetivos. No primeiro governo de Dilma [Rousseff], houve uma grande crise mundial, que não existia na época de Fernando Henrique nem de Lula. Mesmo com a crise internacional, a distância entre ricos e pobres não aumentou. Com essa base de dados objetiva, tive grande admiração por esses três governantes. Tenho simpatia pela Dilma também porque é mulher. Na Itália não conseguimos levar uma mulher à Presidência. Nem na França. Ou nos Estados Unidos. Não é algo trivial, e Dilma conseguiu ser eleita duas vezes. Havia elementos para que tivesse grande estima pelos governantes brasileiros. Sempre ouvi dizer que havia corrupção no Brasil, inclusive no tempo de Fernando Henrique. A Itália também é corrupta. Mas para que haja a corrupção, é necessário corruptos e corruptores. Não estão na prisão apenas os políticos. É preciso dizer que a política e a economia são corruptas. São corruptos os políticos, os empresários e a mídia, que não os denunciou antes. 

Valor: Em um país com desemprego crescente, o trabalhador pode aproveitar de alguma maneira o ócio criativo para se qualificar? 

De Masi: O problema do trabalho depende de multi fatores, sendo que os principais são a globalização e a tecnologia. Existem três tipos de trabalho: o físico do operário; o intelectual executivo, do empregado de bancos e escritórios; e o trabalho intelectual criativo, que fazemos eu e você. As primeiras máquinas automáticas substituíram muito o trabalho físico de operários, o que gerou grande desocupação nessa categoria. Depois chegaram os computadores, que substituíram muito trabalho intelectual executivo. Agora, com a inteligência artificial, será substituído também muito trabalho criativo. Sou professor universitário e muitos estão sendo substituídos pelo "e­learning". Todos os trabalhos estão sendo ameaçados pela globalização e pela tecnologia. Seguramente, num futuro próximo, em dez anos, precisaremos de muito menos trabalho humano. Produziremos melhor os serviços, com menos trabalho. O problema será como redistribuir a riqueza. Hoje, a riqueza é distribuída pelo trabalho. Para o desocupado, não há riqueza. Quando forem multi desocupados, o que acontecerá? 

Valor: O quê? 

De Masi: Creio que possam acontecer duas coisas: uma fisiológica e outra patológica. A patologia serão grandes conflitos sociais. A fisiologia se dará em três níveis: no atual, se toma consciência do problema; na segunda fase, ao ter consciência, se redistribui o trabalho. Hoje, o pai trabalha dez horas por dia e o filho é desocupado. Numa segunda fase, o pai vai trabalhar cinco horas e o filho cinco horas. Numa terceira fase, o problema será o tempo livre. O que fazer com o tempo livre será o grande problema do futuro. Quando todos tivermos muito tempo livre de trabalho, se formos pessoas cultas, saberemos como viver. Se formos pouco cultos, há o perigo da droga, da violência, da depressão. Haverá a necessidade de educação para o tempo livre, como hoje temos uma educação para o trabalho. 

Valor: Não seria o momento de qualificar a população, nesse momento de alta de desemprego? 

De Masi: Em 1930, Keynes calculou que a nossa geração deveria trabalhar 15 horas por semana para evitar a desocupação. No futuro próximo não haverá trabalho. É inútil essa qualificação para o trabalho. Será sempre menos trabalho. Só restará o trabalhador criativo. Todos os outros serão substituídos por máquinas. Devemos pensar, inventar e preparar o mundo sem trabalho. Será um mundo maravilhoso. 

Valor: Estamos discutindo a reforma da Previdência num país quebrado e a principal alternativa apresentada é o aumento da idade para a aposentadoria. Não haveria uma alternativa a isso? Reduzir a carga de trabalho gradativamente, mais cedo? 

De Masi: O Brasil não está sem dinheiro. Os milionários não fazem parte do país? O Brasil tem muito dinheiro. Os pobres é que não têm dinheiro. Os impostos no Brasil são de cerca de 30%, enquanto na Itália giram em 60%. É preciso redistribuir essa carga. Bem como muitas coisas: é preciso redistribuir o trabalho, a riqueza, o poder, o saber, as oportunidades e as garantias. A economia liberal não é capaz de distribuir, mas de produzir. Para distribuir, é preciso uma economia social democrática. 

Valor: Como o senhor vê o impacto das novas tecnologias e engajamento popular? A Primavera Árabe, em última instância, ajudou a deflagrar a crise dos refugiados. Nós soltamos o gênio mau da lâmpada? 

De Masi: Passei uma parte da minha vida sem tecnologia. A segunda parte, com tecnologia. A segunda fase da minha vida foi muito melhor, graças às novas tecnologias. Percebe que você está em São Paulo e eu em Tiradentes, vendo as belas plantas que estão atrás de você? Para mim, isso é um milagre. Demos grandes passos adiante e não vejo aspecto negativo na tecnologia. A Primavera Árabe foi sufocada pelos países ocidentais que forneceram armas aos inimigos. Por outro lado, a falta da tecnologia traz isso sim, muito mais problemas. Quantas vidas humanas o celular salvou? Se houvesse celular no tempo de Romeu e Julieta, bastava um telefonema dela avisando que estava chegando. Se Napoleão tivesse um telefone em Waterloo a história teria sido outra. 
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Valor Econômico impresso. Cad. EU&FIM DE SEMANA, 06/01/2017, pág. 4 a 6.

Qual é o Deus de Trump?

Alberto Melloni*
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“Mesmo não falando de Deus, Trump 
permaneceu no rastro de um 
cerimonial que sempre suplicou ‘God bless America’, mas que, 
desta vez, mais do que pedir, parecia ordenar ao Pai Eterno que se adequasse à nova ideologia da ‘America first’."

Qual é o Deus de Trump? É um Deus tão “americano” a ponto de ser indecifrável para a Europa? É um Deus – ou, melhor, um Tele-Deus – construído sobre o “prosperity Gospel”, ou aquele que ensina que a “financial blessing” é prova de graça e que quem doa para a Igreja se torna mais rica e, portanto, assimétrico em relação à tradição das grandes Igrejas? Ou é o Deus do Evangelho, presente na carne daquele Lázaro – citado nas saudações do papa a Trump –, cuja miséria julgará quem foi surdo à privação do pobre? O discurso inaugural do presidente, em grande parte, respondeu a essas perguntas.

E era previsível que fossem assim: desde sempre, o momento de assunção do ofício de presidente dos Estados Unidos é repleto de sinais religiosos cristãos – da Bíblia sobre a qual se consuma o juramento à bênção proferida por uma autoridade religiosa. E, portanto, obriga o presidente a um definitivo posicionamento sobre o problema espiritual.

No entanto, mesmo não falando de Deus, Trump permaneceu no rastro de um cerimonial que sempre suplicou “God bless America”, mas que, desta vez, mais do que pedir, parecia ordenar ao Pai Eterno que se adequasse à nova ideologia da “America first”.

O Deus de Trump aparecia já em contraluz na oração de Paula White, primeira mulher a pronunciar a bênção ritual. Líder de uma megaigreja pentecostal, há 15 anos diretora espiritual de Trump, a pastora White foi protagonista em 2015 da “unção” de Trump como candidato, feita junto com Kenneth e Gloria Copeland, e David Jeremiah e Jan Crouch: gesto que agora pode nos fazer sorrir, nomes que dizem pouco entre nós. Mas que representam bem a asa “evangelical” em marcha, que está mudando a fisionomia daquele que antigamente se chamava protestantismo.

A pastora, na sociedade pluralista por excelência, explicou nos mínimos detalhes a Deus o que Ele deve fazer pelo presidente, pelo vice, “pelas suas famílias” e pelo país. Definida ora como herética, ora como charlatã antitrinitária pelo protestantismo “mainstream” e por importantes setores do catolicismo, Paula White citou o Livro dos Provérbios e a retórica dos Estados Unidos como dom de Deus (aos estadunidenses): no qual se inseriu o coração “religioso” do discurso dessa sexta-feira e a manifestação do Deus de Trump.

O Deus de Trump, depois daquele quente e predicatório de Obama, foi apresentado como a garantia de um privilégio estadunidense, de direito de comandar, obtido distorcendo o Salmo 133. “Como é bom, como é suave que os irmãos vivam juntos”, diz aquele breve poema que consola uma pequena minoria de israelitas piedosos e que foi usado também pelos cristãos dentro de uma visão universalista da fraternidade humana. Trump, ao contrário, corrigiu o texto do salmo e explicou que “a Bíblia” ensina como “é bom e suave” (e até aqui vai o Salmo) “quando o povo de Deus viva junto em unidade”. Entre a convivência fraterna e a autoproclamação de si mesmo como povo de Deus, passa uma forçação banal. Trump reivindicou aos Estados Unidos a tarefa de “povo escolhido”, portador de uma espécie de teologia da singularidade global.

O excepcionalismo estadunidense, antigamente usado para justificar o dever de defender as liberdades no mundo, foi usado por Trump para se defender do mundo da liberdade. O povo estadunidense entendido como “o” povo de Deus não é uma entidade política, mas sim uma comunidade mística de destino. E – disse o presidente – tem dois protetores: o primeiro é a força, do exército e da polícia; o outro é justamente Deus, dito por segundo, por ser mais funcional a uma unidade que não passa pelas instituições, mas pelos símbolos e pelo povo.

Ao lado dessa distorção, Trump introduziu um Deus do Sangue, que, quando é invocado, é sempre ouvido. O presidente exaltou a mística do Sangue dos patriotas – sempre vermelho, na prosa trumpiana –, e, a partir daí, derivou uma distinção dentro da própria criação. Em uma das passagens finais, de fato, ele disse que a unidade do novo “povo eleito” se deve ao fato de que as crianças de Detroit ou do Nebraska tem sobre si o mesmo céu noturno, sonham com o coração os mesmos sonhos e receberam o “sopro vital” do mesmo “criador onipotente”: o que é conceitualmente inadmissível pela antropologia bíblica. Porque esse céu noturno, esses sonhos e esse sopro não são diferentes para as crianças do mundo em relação às crianças estadunidenses.

Mas é evidente que, no calor eleitoralista, já há uma “política” religiosa. E, nessas distorções teológicas, há uma primeira e duríssima resposta a Francisco que, nessa sexta-feira, referindo-se à “família humana”, aos “ricos valores espirituais e éticos” da história estadunidense, à dignidade do homem e do pobre Lázaro, quiseram marcar uma distância também teológica: “prosperity Gospel” contra “catolicismo do evangelho”. Estamos nos primeiros minutos de um duelo que será duro.
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*  A opinião é do historiador italiano * Alberto Melloni, professor da Universidade de Modena-Reggio Emilia e diretor da Fundação de Ciências Religiosas João XXIII, em Bolonha. O artigo foi publicado no jornal La Repubblica, 21-01-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Fonte:  http://www.ihu.unisinos.br/564203-qual-e-o-deus-de-trump-artigo-de-alberto-melloni 
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Mentir é verdade

Paulo de Almeida Sande*

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Nestas condições é a democracia que está em causa. A novilíngua, que chama “pós-verdade” ao que se é mesmo mentira, não passa de outro nome para o velho discurso populista, alimento da tirania.
Resisti, juro que resisti a abordar este assunto. A enxurrada de comentários e notícias sobre ele fez com que me parecesse inútil, e até maçador, fazê-lo. Mas, aqui chegados, não posso continuar a ignorar o debate sobre a “pós-verdade”.

E não o posso ignorar por causa do efeito de bola de neve do sucesso da “mentira que é verdade”: à medida que novos acontecimentos comprovam a crescente aceitação por parte do público dos apelos à emoção e aos preconceitos, os factos e a realidade tornam-se cada vez mais irrelevantes e descartáveis. O que me interessa a mim a verdade, se aquilo que me propõem é muito mais interessante, sedutor e irresistível?

Ao escolher a “pós-verdade” (post-truth) como palavra do ano 2016 em Novembro último, os dicionários Oxford resumiram-na assim: “uma palavra definida como ‘relacionada com ou denotando circunstâncias nas quais os factos objectivos têm menos influência sobre a opinião pública do que apelos à emoção e às crenças pessoais”.

É simples: os cidadãos preferem acreditar – e votar – em pessoas ou promessas baseadas em conceitos ou factos que gostariam que fossem verdade, mesmo que o não sejam. E acreditam – e votam – nelas, seja porque isso já faz parte das suas convicções, seja porque se deixam convencer pela emoção.

Será mesmo assim? Estamos a caminho de um Mundo em que a verdade se torne despicienda? Em que, mais do que números, factos, acontecimentos reais, conte a emoção que confirma preferências ou manipula sentimentos, despoletando sérias consequências (essas sim, reais e objectivas)? Ainda mais: será que a “pós-verdade” significa que os cidadãos acreditam mesmo naquilo que lhes é dito ou preferem optar por ela em detrimento do que sabem, quando o sabem, ser verdade? Esta é a questão decisiva e a resposta que lhe dermos tem implicações sérias.

Vejamos dois exemplos recentes. Na verdade (o que é isso?) os dois tornaram o conceito, e a palavra, celebridades no ano transacto: o Brexit e a eleição de Donald Trump.

No primeiro caso, a emoção (presente na campanha dos dois lados) dominou o referendo e levou os britânicos a votar pela saída da União Europeia. Argumentos como a recuperação da soberania, o que o país paga para os cofres europeus ou os efeitos nefastos para a economia britânica da sua pertença europeia são insustentáveis face à realidade: a soberania nunca foi perdida, o país paga para os cofres europeus menos do que o decorrente dos benefícios do mercado interno (que aliás os britânicos não negam) e a economia está em alta, estando dentro da União. E contudo, o Brexit triunfou.

Já quanto a Trump, toda a campanha se baseou num apelo emocional, com uma forte dose de demagogia e dezenas de afirmações factualmente erradas. O agora Presidente americano fez centenas de promessas (alguns observadores contaram mais de 600), muitas das quais sem qualquer exequibilidade, outras de mera retórica. E contudo, Trump triunfou.

Encaramos, neste ano de 2017, uma série de eventos decisivos. Eleições nalguns países europeus, como a Holanda, a França e a Alemanha, podem determinar o futuro da própria União Europeia, com seriíssimas consequências para a Europa e para o Mundo. E, num tempo de “pós-verdade”, resta-nos saber se, também nesses casos, a “pós-verdade” triunfará.

Mais ainda: se vale a pena continuar a tentar afirmar os factos, e a sua verdade, sabendo que, porventura, eles não têm muita importância, porque as pessoas preferem ser enganadas, desde que o engano as conforte nas suas pré-existentes convicções; ou será porque o apelo enganador é suficientemente forte, atraente e atractivo?

Circulam pelas redes sociais, entre notícias importantes e factos verdadeiros, milhares de informações inventadas ou teses manipuladas, ao serviço dos interesses mais variados. Alguns não passam de brincadeiras de “hackers” talentosos e com sentido de humor. Muitas tornam-se virais. A maior parte das pessoas, como é compreensível, não se dá ao trabalho de verificar a veracidade das informações que recebem, identificando as fontes e aferindo da sua verosimilhança. Esse era o trabalho, antigo, da comunicação social; mas a comunicação social, também, cada vez mais, se alimenta dessas fontes e é, por isso, vítima de si própria e da nova realidade mediática e digital.

A ideia subjacente à “pós-verdade”, aliás, não é nova. Há mais de onze anos, Stephen Colbert, apresentador do “The Colbert Report”, inventou a palavra “truthiness”, significando “a qualidade de preferir conceitos ou factos que desejamos que sejam verdadeiros, em vez de conceitos e factos conhecidos como verdadeiros”. A Internet acelerou a tendência? Nas redes sociais, no Youtube, proliferam as notícias falsas, as novidades com anos, os “hoax” mais ridículos (termo usado para designar as mentiras ou partidas utilizando a Internet), com uma enorme carga de “viralidade”: a velocidade a que circulam tornam-nos quase impossíveis de contrariar.

Nestas condições, pode dizer-se que a mentira é a nova verdade. As preferências dos cidadãos em democracia deixam de se basear em opções ou programas políticos assentes na realidade, para expressar alinhamentos ideológicos ou escolhas activadas pela emoção, por uma retórica vaga e bem-sonante, sem consideração pelos factos. E todo o esforço de afirmar a verdade estará condenado.
Nestas condições, é a democracia que está em causa.

A novilíngua, que chama “pós-verdade” ao que se está mesmo a ver que é mentira, não passa de outro nome para o velho discurso populista, alimento da tirania.
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* Jornalista. Colunista
Fonte: http://observador.pt/opiniao/mentir-e-verdade/24/01/2017
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