sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

OS VÍCIOS E A VIRTUDE NO CAMINHO DE TRUMP

Maria Cristina Fernandes*
 Nelson Provazi

Franklin Delano Roosevelt mandou armas para a Inglaterra sem autorização do Congresso para ajudar os ingleses a se defender dos nazistas, Harry Truman colocou a indústria do aço sob controle do governo durante a guerra da Coreia e Ronald Reagan financiou a oposição aos sandinistas na Nicarágua contra determinação parlamentar. A lista de presidentes americanos que ultrapassaram os limites de seu poder é longa. Vai dos três melhores (George Washington, Abraham Lincoln e Roosevelt) até os 15 piores, sendo George W. Bush apenas o mais recente deles. Os recordistas na usurpação dos poderes e na reprovação dos historiadores (Warren Harding, Franklin Pierce e James Buchanan) nunca enfrentaram a mais remota ameaça de cassação. Andrew Johnson e Bill Clinton tiveram o impeachment aprovado pela Câmara, mas o Senado não confirmou o processo. Quando Richard Nixon teve que renunciar para não ser derrubado, 132 anos haviam se passado desde a primeira ameaça real de impeachment contra um presidente americano. Vice de um presidente morto um mês depois da posse, John Tyler valeu-se de um veto para derrubar decisão do Congresso. Quase rodou.

Dos 45 presidentes americanos, só falta um no mais recente livro de Cass Sustein ("Impeachment: a citizen's guide", Harvard University Press, 2017). Mas a eloquente ausência perpassa quase todas as 202 páginas do livro. O conjunto da obra dos primeiros 11 meses de Donald Trump no cargo já levaram à instalação, na Times Square, em Nova York, de um contador, em tempo real, com a adesão ao abaixo-assinado (NeedToImpeach.com) que pede sua remoção da Casa Branca. Até o início desta semana, a geringonça luminosa que disputa espaço com os outdoors de musicais da Broadway já marcava mais de 3,6 milhões de adesões. Na semana passada, a primeira proposição pelo impeachment de Trump foi derrotada por 364 votos a 58. Os votos favoráveis à permanência do presidente somaram 126 Democratas, entre eles o de sua principal liderança, Nancy Pelosi.

O autor é um professor de Harvard que colaborou com os governos Reagan e Barack Obama e participou ativamente do debate sobre o impeachment de Clinton, quando defendeu a tese de que a natureza das relações entre o presidente e Mônica Lewinsky era o ápice do divórcio da discussão do tema tal como este havia sido pensado pelos constituintes americanos. Fã de Nixon na adolescência, Sustein diz que o presidente que mais perto esteve de ser derrubado pelo Congresso foi um dos cinco melhores da história americana. Criou agências para a proteção da saúde do trabalhador e do meio ambiente, defendeu a autodeterminação da população nativa, assinou lei que proibiu discriminação sexual no ensino superior e demonstrou arrojo na política externa administrando tensões com a União Soviética e visitando a China. Dadas a inteligência e a sagacidade do personagem, ainda custa a Sustein crer que Nixon tenha se emaranhado no conjunto de ações, da desobediência a uma intimação à obstrução de Justiça, que acabariam por levar à denúncia: "Em face de seus extraordinários atributos, as aquisições de seu governo e seu agudo senso de patriotismo, é um imenso enigma entender como ele e sua Casa Branca acabaram fazendo o que fizeram".

Ao relatar a inclusão do impeachment na Constituição americana e as oportunidades em que se tentou usá-lo, o livro acaba por funcionar como um libelo contra a banalização do instrumento, nunca usado, de fato, para afastar um presidente da república nos Estados Unidos. E ainda serve para demonstrar como a inscrição do impeachment na Constituição brasileira se distanciou da previsão americana que o inspirou: "O ponto essencial é claro: intensa oposição política e até mesmo a percepção generalizada de que o presidente é um fracasso não é causa suficiente para impeachment". Sustein cita Jimmy Carter, o mais malsucedido presidente da era pós-Nixon, para quem a discussão de impeachment teria sido 'ridícula'. Reitera a percepção de que a força do impeachment é o de ter sido inscrito na Constituição americana para nunca ter sido usado: "Devemos desejar fortemente que nenhum presidente jamais seja impedido ou removido de sua função em bases que ultrapassem os liames constitucionais”.

Sustein, que comprou a casa de um dos líderes da independência e fez dela sua moradia, para não deixar dúvidas sobre sua admiração pelos fundadores da Constituição, mostra como o impeachment foi desenhado para garantir que o país, ao mesmo tempo em que precisava de um Executivo forte, não poderia ter um rei a conduzi-lo. Foi um instrumento forjado em meio ao clima de rechaço à monarquia britânica na independência. Recorre a Walt Whitman ("Como se não fosse indispensável aos meus próprios direitos que os outros tenham os mesmos") e àquele a quem chama de sucessor do poeta da revolução americana, Bob Dylan ("Até o presidente dos Estados Unidos às vezes precisa ficar nu"), para dizer que a previsão constitucional do impeachment, a despeito da resiliência da escravidão, fez jus à aspiração por igualdade.

O autor recupera os debates constitucionais e deixa claro que, na previsão do impeachment, houve a preocupação de deixar claro que o instrumento não deveria ser usado para punir a má administração. Disso se ocupariam os eleitores, a cada dois anos, na eleição presidencial e nas eleições legislativas que confeririam, ou não, maioria parlamentar ao Executivo. Ao binômio "traição e suborno", no entanto, os constituintes americanos viram necessidade de acrescentar uma terceira razão que viesse a resguardar o risco de um presidente colocar o bem público a pique. Veio daí o acréscimo de "altos crimes e contravenções".

Foi nesta terceira razão que se abriu uma avenida à interpretação, que, historicamente, tem oposto constitucionalistas como Antonio Scalia, ministro da Suprema Corte, para quem as gerações futuras não tinham direito de ir além no significado original, e Ronald Dworkin, advogado de uma leitura 'moral' do texto. Sustein tanto questiona a adesão inconteste ao primeiro, por virar às costas aos ensinamentos de Thomas Jefferson ("leis e instituições devem seguir passo a passo com o progresso da humanidade"), quanto o segundo, por franquear terreno às simpatias - e antipatias - políticas com o governante e abrir a porta do caos.

Foi o que aconteceu com Clinton e Nixon. Ambos, na avaliação de Sustein, foram presidentes bem-sucedidos e com extraordinária capacidade de comunicação, mas despertaram implacável oposição de seus adversários que queriam derrubá-los desde sempre. Foi sob implacável perseguição política também que Andrew Johnson escapou por um voto de ter seu impeachment confirmado pelo Senado. Empossado depois do assassinato de Lincoln, Johnson insurgiu-se contra uma lei que proibia o presidente de mudar determinados integrantes de seu gabinete, como o ministro da Guerra, sem a aprovação do Senado. Ao fazê-lo, quebrou o frágil equilíbrio de uma nação que emergia de dois traumas, a guerra civil e o assassinato de um dos mais marcantes presidentes de sua história.
Sustein custa mas chega, finalmente, àquele que é o objetivo velado do livro, e dá nome ao último de seus capítulos: "O que todo americano deve saber?" Lá estão exemplos de atos que deixam o presidente americano passível de cassação pelo Congresso e que, em maior ou menor grau, sugerem digitais da gestão Trump: revelar a um chefe de Estado estrangeiro informações que enfraquecem o país, aceitar propina para atos relativos à Presidência da República, subornar parlamentares em busca de apoio no Congresso, perseguir adversários políticos com ou sem o uso do serviço secreto, agir de maneira negligente no exercício do poder ou ser eleito graças a um plano pré-determinado de um chefe de nação estrangeira contra seu oponente.

A partir daí, lança mão da pergunta que milhões hoje se fazem nos Estados Unidos. E se o presidente for acometido de uma doença, como loucura? O autor tem reservas em relação à liberalidade do uso da 25ª emenda, incluída depois do atentado contra John Kennedy, quando Lyndon Johnson assumiu no vácuo jurídico de um presidente ainda vivo. Sustein era assistente do ministro da Justiça em 1981 quando Reagan foi vítima de um atentado. O ministro cochichou-lhe ao ouvido que a situação do presidente era bem pior do que aquela da qual falava o noticiário e lhe pediu um parecer sobre o recurso à 25ª  emenda, que autoriza o vice-presidente ou a maioria dos ministros a informar ao Congresso a incapacidade do titular. O então presidente se recuperou rapidamente e o memorando foi engavetado.

Ao colunista David Leonhardt, do "The New York Times", Sustein disse ter decidido escrever por ter ficado alarmado com a menção ao tema nas primeiras semanas do governo Donald Trump, quando ele ainda não havia demonstrado a que veio. Mas se sua eleição relembrou aos americanos que a hipocrisia é o tributo que o vício paga à virtude, o livro contribui para separar o que é vício e o que é virtude nessa discussão do impeachment, lacuna que marcou a experiência brasileira. O autor proclama a defesa da Constituição como a saída que salvou os Estados Unidos, ao longo de sua história, de tiranos: "Não precisamos focar no mecanismo do impeachment, mas se vamos manter a república, precisamos conhecê-lo. É a nossa segurança, nosso escudo, nossa espada, nossa última arma de autodefesa".
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* Maria Cristina Fernandes, jornalista do Valor, escreve neste espaço quinzenalmente E-mail: mcristina.fernandes@valor.com.br

JOSÉ SARAMAGO e JORGE AMADO: COMO SE ESTIVESSEM VIVOS


Tatiana Salem Levy*
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Ler a correspondência de escritores me provoca um sentimento ambíguo. Por um lado, sinto-me inevitavelmente culpada por invadir a privacidade alheia. Por outro, não abri a gaveta de ninguém. As cartas se tornaram públicas ou por desejo de seus autores ou de seus herdeiros. Essa ambiguidade é também o prazer de quem as lê, a sensação de estarmos percorrendo algo muito íntimo, mas também público. Afinal, as cartas são um dos vários gêneros de escrita de um autor.

A certa altura, quando já são escritores renomados, passam a escrever suas cartas atendendo também a essa dubiedade. Cartas são sempre cartas e por isso falam de sentimentos, desejos, frustrações. Mas, nesse caso, seus autores sabem que, um dia, elas poderão ser lidas por um destinatário para quem não foram escritas: os leitores de sua obra. Sobretudo, se os autores da correspondência forem, os dois, tão importantes para a literatura quanto Jorge Amado e José Saramago.

O pacto é estabelecido na partida. Eles fingem que ninguém, além de Pilar e Zélia, vão ler suas cartas. E nós, assim que abrimos "Com o Mar por Meio: Uma Amizade em Cartas" (Companhia das Letras), fingimos que não as vamos ler. A leitura de uma correspondência precisa manter o segredo, o silêncio. Para ter graça, seus autores não podem saber que ela está sendo realizada. O livro é público, podemos adquiri-lo em qualquer livraria, mas é como se o lêssemos às escondidas.

As cartas, os bilhetes e os faxes trocados por Saramago e Amado vão de 1992 a 1997, quando a saúde de Jorge ficou muito precária e ele foi perdendo a visão. Os anos de amizade não foram tantos, mas a ternura e a admiração que sentiam um pelo outro evidencia-se na correspondência. A amizade entre eles se constrói também nas cartas. Às vezes, até pensamos que eles foram amigos apenas de correspondência, como Kafka foi um amante epistolar, pois são muitos os desencontros físicos. José e Pilar estão felizes com uma viagem à Bahia, mas logo descobrem que Jorge e Zélia não estarão lá nas mesmas datas. Os dois participam de um mesmo encontro literário, mas em datas diferentes. Quando um pode participar da reunião da Academia Universal das Culturas, o outro não pode. José convida Jorge inúmeras vezes para conhecer sua casa em Lanzarote ("A Casa", como ele a denomina), mas não há qualquer menção de que essa visita tenha se concretizado. Numa carta de 1993, José sugere: "Se vocês não têm a agenda demasiado cheia, se sobra nela o tempo de um almoço ou de um jantar, mau seria se não aproveitássemos a ocasião, depois de termos falhado tantas".

A correspondência é feita nos vazios, nos desencontros, na ausência, mas há todo um outro lado ao qual não temos acesso: os encontros realizados, os jantares, as conversas, os abraços de carne e osso, porque de papel há muitos. Aliás, é engraçado: eles se despedem sempre com um abraço entre os homens e beijos para as mulheres, até que José desabafa o que nós, leitores, já vínhamos pensando antes: "por que raios não damos todos beijos e abraços uns aos outros, sem distinção de sexos?"

A presença das mulheres é tal que não seria exagero se, na capa do livro, viessem também os nomes de Zélia e Pilar. É verdade que quase todas as cartas foram escritas e assinadas pelos homens, mas as mulheres estão lá, lendo ao lado deles, ditando, mandando lembranças. Difícil falar em correspondência entre Saramago e Amado. Mais facilmente eu falaria numa correspondência entre Jorge, Zélia, José e Pilar, da mesma forma que Miguel Gonçalves Mendes transformou seu documentário sobre Saramago num filme sobre José e Pilar.

Agora, vamos às cartas propriamente ditas, onde lemos sobre literatura, política, saúde e prêmios literários. Após a participação no Fórum Jovem, José escreve a Jorge: "Quanto a mim, tentei tirar da cabeça daquela mocidade a nefanda idéia moderna de que o escritor só tem de estar comprometido com a sua obra...". Está aqui um dos pontos em que ambos convergem, o engajamento deles no mundo não apenas enquanto escritores, a ideia de que um escritor não deve pensar apenas no que escreve, mas também na sociedade em que vive.

Foram, os dois, vozes ativas na política, e talvez por isso tenham se tornado alvo do rancor de parte da crítica, que acreditava, como "aquela mocidade", que literatura e política são coisas distintas. Tanto Jorge Amado quanto José Saramago sofreram algum desprezo em seus respectivos países. É por isso que José menciona repetidas vezes a injustiça que envolve a demora da atribuição do prêmio Camões ao amigo. Quando, por fim, Jorge Amado é galardoado com o maior prêmio de língua portuguesa, Saramago não nos deixa esquecer o quão tarde ele chegou.

Os prêmios Camões e Nobel são duas constantes nessa correspondência. Aparecem mais do que poderíamos supor. Por um lado, os autores repetem que prêmios não têm importância. Por outro, falam nisso sem parar. Chega a ter graça. Ano após ano, esperam que a Academia sueca se lembre de que Brasil e Portugal fazem parte do mapa mundi. Jorge afirma haver quatro candidatos possíveis, nessa ordem de probabilidade: Saramago, Miguel Torga, João Cabral de Melo Neto e, por último, ele próprio. Torcem tanto um pelo outro que, "por ideia de Zélia e Pilar, firmamos um pacto risonho: se um de nós ganhar, convida o outro a estar presente...".

Em 1994, Jorge diz ter ouvido de uma fonte segura que Lobo Antunes seria o próximo Nobel. Ora, toda gente sabe da rivalidade entre Saramago e Lobo Antunes, que costuma dizer, abertamente, que era ele quem devia ter ganho o Nobel. Depois de ler a carta de Jorge, José escreve em seu diário, publicado com o título "Cadernos de Lanzarote": "Quanto a mim, de Lobo Antunes, só posso dizer isto: é verdade que não o aprecio como escritor, mas o pior de tudo é não poder respeitá-lo como pessoa. Como não há mal que um bem não traga, ficarei eu, se se confirmar o vaticínio do jornalista, com o alívio de não ter de pensar mais no Nobel até o fim da vida".

O vaticínio não foi confirmado, e tanto José quanto Jorge continuaram a pensar no assunto. Primeiro veio um japonês (Kenzaburo Oe), depois um irlandês (Seamus Heaney), mas não tardaria para Saramago representar a língua portuguesa. Quando isso aconteceu, em 1998, eles já não trocavam cartas, pois Jorge, com a visão debilitada, não conseguia escrever. Conta Paloma Amado que ele "passava os dias deitado num cadeirão na sala, com os olhos fechados". Em situações muito particulares, retomava a energia, conversava, ditava artigos, dava entrevistas, pedia comidas especiais. No dia 8 de outubro de 1998, quando Zélia veio lhe anunciar a boa nova, "Jorge pulou do cadeirão, chamou Paloma, pediu que se sentasse no computador que ele iria ditar, de imediato, uma nota para a imprensa". Só não pegou o avião para a Escandinávia porque sua frágil saúde não o permitia. 

A vitória de Saramago não era só de Saramago. Nem só dele e de Pilar. Nem só dele, de Pilar e dos amigos. Era a vitória da língua portuguesa, e foi isso que Jorge quis expressar. Anos antes, no Natal de 1994, José havia escrito a Jorge: "Desta ilha de Lanzarote, com o mar por meio, mas com os braços tão longos que alcançam a Bahia, vos enviamos muito saudar". Tenho certeza de que os braços de Jorge eram longos o suficiente para chegar à Suécia e apertar a mão do amigo.

A aflição de Jorge com a saúde (um ataque cardíaco, a perda da visão) é uma constante nas cartas, como não poderia deixar de ser. "Morre-se sempre demasiado cedo, ainda que seja aos oitenta anos", afirma Saramago em seus "Cadernos de Lanzarote". E, no entanto, não se morre. Num texto sobre o amigo, depois da sua morte, diz José: "Escreverei sobre Jorge Amado como se estivesse vivo". E mais adiante: "É minha convicção de que (...) os mortos não se retiram do mundo, mantêm-se nele desde sempre e para sempre (...) pela forma invisível do que havia sido o seu corpo sólido, transformado, pela morte, em ausência".

As cinzas de Jorge Amado foram enterradas debaixo da mangueira a cuja sombra ele gostava de se acolher no Rio Vermelho. As de Saramago estão debaixo de uma oliveira trazida de Azinhaga, sua terra natal, para o campo das Cebolas, em Lisboa. Quem passa com frequência em frente à Fundação Saramago com certeza já viu Pilar sentada no banco ao lado da árvore, conversando com José que, assim como Jorge, está vivo. Muito vivo. A correspondência entre os dois está aí para prová-lo.

Portanto, ao lerem suas cartas, muito cuidado: eles estão entre nós e sabem muito bem que estamos nos deliciando com suas palavras.
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*Tatiana Salem Levy, doutora em letras e escritora, escreve neste espaço quinzenalmente E-mail: tatianalevy@gmail.com
Fonte: http://www.valor.com.br/cultura/5235295/como-se-estivessem-vivos 22/12/2017

OS DOIS NATAIS


José de Souza Martins*
 Carvall
Nos dias de hoje, ninguém se dá conta das consequências da chegada da árvore de Natal e de Papai Noel ao Brasil. Chegada como coisas, encaixotadas. Vieram em troca do dinheiro que dava em árvore nos cafezais do Rio, de Minas e de São Paulo, nas últimas décadas do século XIX. Vieram como coisas supérfluas (uma caixa de árvores de Natal e outra de quinquilharias, diz o manifesto de um navio alemão, em dezembro de 1890). Mediações de um novo enredo social gerado pelo esvaziamento do que éramos para sermos o inacabado do que nunca conseguiríamos ser. O enredo do faz de conta, das ilusões que se compra em loja, sonho empacotado e perecível.

Fantasias propriamente brasileiras deram revestimento nativo ao bom velho e à árvore. Adaptações. Aqui, tempo de dar presentes para crianças e mesmo adultos não era o dia de Natal, e sim o dia dos Santos Reis, os magos que fizeram a longa viagem para oferecer ao menino da manjedoura incenso, ouro e mirra.

As informações daquela época indicam que os brasileiros não sabiam onde encaixar a árvore, primeiro, e o simpático barbudo, depois. Havia uma certa tendência em favor do dia 1º de janeiro, muitos insistiam no dia 6 de janeiro e alguns começavam a se agarrar ao 25 de dezembro, que afinal venceu. O dia dos Santos Reis foi sendo esquecido, e hoje são poucos os que o celebram.

A dádiva feita em casa, como expressão religiosa de amor e fraternidade, perdeu para o presente comprado em loja. A dádiva natalina era uma forma de comunhão. Vizinhos e parentes trocavam comida: quitandas, arroz-doce, rabanadas, pastéis e até assados, doces para as crianças.

Com a República e o desembarque do Papai Noel imaginário em nossas vidas, o sentido comunitário e propriamente familiar dessas festas encolheu. O presente-mercadoria materializou as relações e reduziu os relacionamentos sociais aos vínculos de indivíduos, não de pessoas.

No padrão que desaparecia não era econômica a motivação das famílias na distribuição de regalos. Dependiam da economia doméstica, de pessoas que tinham cara e nome. Já no novo padrão natalino era o perfil de um Papai Noel interesseiro que entrava furtivamente nas casas, altas horas da véspera de Natal ou do Ano Novo. Assim, fingia modéstia e generosidade. O que excluía do imaginário papanoelino a imensa maioria das pessoas, as precariamente situadas à margem da economia monetária. Ao agir em nome da mercadoria e do dinheiro, Papai Noel introduzia um elemento igualitário nas relações festivas do Natal, sem dúvida. Mas era igualdade abstrata, condição da desigualdade econômica.

Há evidências de um esforço da sociedade brasileira no sentido de reinventar as festas natalinas no novo marco de sua mercantilização, minimizando as perdas simbólicas e rituais. Ainda assim, Papai Noel, à luz da consciência religiosa da sociedade tradicional, tornou-se expressão das iniquidades próprias da modernidade. Crianças ricas eram melhor ouvidas do que as pobres.

A "Revista do Jardim da Infância", da Escola Caetano de Campos, em São Paulo, publicou às vésperas do Natal de 1892 um conto do poeta Gomes Leal em que quatro pequeninas fadas, à meia-noite de 31 de dezembro, aparecem para uma menina pobre, trazendo nas mãos minúsculos presentes. A avó, então, lhe explica, "as filhas dos ricos devem ser as pequenas fadas dos pobrezinhos”.

Em 1912, a poetisa parnasiana Francisca Júlia da Silva publica o poema "Duas Bonecas". Uma boneca rica de cera e uma boneca pobre de louça conversam na vitrina de uma loja de brinquedos. A de cera expressa todo seu desprezo pela de louça, o desprezo da boneca rica pela boneca pobre, no confronto óbvio de mercadorias de preço distinto, com qualidade distintas: "Gênero de pouco peso,/ Artigo que vale nada... /Aí tens agora explicada /A causa do meu desprezo".

Papai Noel mudou radicalmente a concepção da alegria infantil dos inocentes. Mas, nas contradições profundas de uma sociedade como a nossa, de riqueza muito concentrada, subjugada por meios moralmente condenáveis, longe do que é próprio do capitalismo, é ele um ser bifronte e ambíguo. Sua suposta bondade revela a crianças e adultos um mundo de maldades e injustiças. Prisioneiro de um mundo de rapina, não tem como superá-las.

O verdadeiro Natal, o da manjedoura, quase sufocado na pequenez restritiva de uma visão de mundo confinada no simplismo da compra e da venda, é o Natal do contraponto crítico no mundo das mercadorias. Não há sociedade que não dependa de fantasias para se firmar e se reproduzir. O problema é saber quais são os desarranjos que as fantasias promovem. Não se trata de optar entre um e outro, mas de ver o falso através do confronto com o verdadeiro.
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*José de Souza Martins é sociólogo. Membro da Academia Paulista de Letras. Entre outros livros, autor de “A Política do Brasil Lúmpen e Místico” (Contexto).

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

La religión dentro de los límites de la mera emoción


Manuel Arias Maldonado*
 
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El escritor francés Emmanuel Carrère nos relata en El Reino ‒entre otras cosas‒ la historia de su breve experiencia como creyente católico a comienzos de los años noventa, cuando una crisis personal le condujo a la fe. Su planteamiento es individualista: una búsqueda subjetiva del sentido que, en el caso de Carrère, incluyó un exhaustivo comentario del Evangelio de San Juan. «Ser yo se me hizo literalmente insoportable», escribe: el fardo de la existencia se le había hecho demasiado pesado. A la evangélica edad de treinta y tres años, el escritor francés es instruido por su madrina; instruido en una vida espiritual encaminada a conquistar el reino interior al que alude el título de su libro. Pero sus reflexiones arrancan, veinte años después de ese chispazo religioso que le duraría tres años, con un sentimiento de extrañeza ante la posibilidad de que haya fieles que crean todavía hoy aquello que cuenta la Biblia:

Si se les pregunta, responderán que creen de verdad que hace dos mil años un judío nacido de una virgen resucitó tres días después de ser crucificado y que volverá para juzgar a los vivos y a los muertos. Responderán que esos acontecimientos constituyen el centro de su vida.

Un año después era Michel Houellebecq quien entregaba a la imprenta una novela, Sumisión, que bajo la forma de una distopía política esconde una meditación sobre el desencantamiento del mundo posreligioso y sus consecuencias para la identidad del individuo moderno. François, profesor universitario especializado en Joris-Karl Huysmans, que no por casualidad es un escritor francés del siglo XIX convertido al catolicismo, sigue una trayectoria similar al Carrère de 1990: descontento con su vida, trata de encontrar en la religión una salida a su laberinto personal. También aquí nos encontramos ante todo con el proyecto individual de un occidental sofisticado; la diferencia es que François, en un pasaje que ya hemos traído a colación anteriormente en este blog, no recibe la gracia. Su intentona culmina con la estancia, durante varias semanas, en Rocamadour, donde visita a la célebre Virgen negra de la capilla de Notre-Dame. A pesar de su grandeza, nos dice el narrador, sentía perder el contacto con ella:

Al cabo de media hora, me levanté, definitivamente abandonado por el Espíritu, reducido a mi cuerpo deteriorado, perecedero, y descendí tristemente los peldaños en dirección al aparcamiento.

Ambos, Carrère y Houellebecq, nos hablan así de la experiencia del creyente en una época individualista: del intento por encontrar un sentido a la existencia a través de la religión. Los dos buscan una relación personal con la divinidad que colme su necesidad de trascendencia. Y no es un enfoque desacostumbrado: podemos pensar en Søren Kierkegaard, en Graham Greene, en Bob Dylan. Entre nosotros, Javier Gomá ha dedicado un hermoso libro al problema de la inmortalidad del alma, donde también se pone el acento en la dignidad individual que la desaparición física parece negarnos y en la consiguiente afirmación de la misma a partir de la «super-ejemplaridad» de Jesús de Nazaret. Pero también algunos ilustres blasfemos, como nuestro Luis Buñuel, indagan en la dimensión individual de la creencia religiosa (en Nazarín) o ponen el acento en el aparente absurdo que revisten muchos aspectos de la teología cristiana en los que nadie podría creer de verdad (en La vía láctea). Es natural, en fin, que nos fijemos en el individuo. Pero, aprovechando la llegada de unas fiestas navideñas que todavía tienen como pretexto una festividad religiosa, quizá podamos acercarnos al fenómeno religioso de otra manera. Y de una que, a diferencia de lo que hoy parece habitual, sitúe en un segundo plano la experiencia espiritual del que es creyente o aspira a serlo.

Sobre esa pista nos pone el filósofo británico Tim Crane en un libro recién publicado, cuyo contenido adelantó en las páginas de The Times Literary Supplement el pasado 3 de noviembre con un artículo titulado «Join the club. An alternative way to describe religion» https://www.the-tls.co.uk/articles/public/tim-crane-religion-philosophy/. Según Crane, que se confiesa ateo, nos hemos acostumbrado a concebir la religión como una combinación de cosmología (o explicación sobre el sentido de la existencia) y moralidad (o conjunto de reglas sobre cómo conducirse), vinculadas entre sí por la promesa de vida ultraterrena (pues sólo si nos comportamos de un modo determinado disfrutaremos de esta última). A su juicio, empero, no se trataría de la forma más apropiada de acercarse a la religión, pues nos impide comprender adecuadamente la creencia religiosa. Semejante inadecuación se hace patente cuando atendemos al contenido de los principales textos religiosos. Así, por ejemplo, sólo uno de los cinco pilares del islam tiene contenido cosmológico (el que afirma que no hay más dios que Alá y Mahoma es su profeta); el resto son reglas de conducta para el buen musulmán (como rezar cinco veces al día, ayunar durante el Ramadán, o peregrinar a La Meca). Lo mismo sucede con el meticuloso judaísmo y, en quizá menor medida, con un cristianismo en el que la dimensión cosmológica parece ser más fuerte. Con todo, sugiere Crane, los Diez Mandamientos contienen reglas de naturaleza moral (como respetar a los progenitores o no cometer adulterio), mientras que los sacramentos constituyen ritos que no tienen demasiado que ver con la moralidad ni expresan, tampoco, creencias cosmológicas. Nuestro autor quiere llegar a la afirmación de que esta descripción del hecho religioso deja fuera algo fundamental, a saber, la práctica religiosa. Escribe:

Ser creyente implica, esencialmente, hacer ciertas cosas, desarrollar ciertas actividades, ya sea una vez en la vida (bautismo, confirmación, peregrinación), ya de manera regular y repetida (oraciones rituales, dar limosna, respetar el Sabbath).

A su vez, las prácticas religiosas presentan dos rasgos dominantes: por un lado, los creyentes no las inventan, sino que las heredan; por otro, suelen implicar rituales conjuntos con otras personas. Incluso cuando el rezo es privado, podríamos decir, no constituye un lenguaje privado, y cobra buena parte de su sentido ‒si no todo‒ del hecho de que otras personas hacen lo mismo. Así que el paradigma de la práctica religiosa se basa en la repetición y la socialidad: en hacer con otros aquello que otros han hecho ya muchas veces antes. El pensador británico encuentra aquí el elemento de identificación en la creencia religiosa: identificación del creyente con el grupo, que aúna y conecta los dos aspectos principales ‒repetición y socialidad‒ de la práctica religiosa. Es algo que, como el propio Crane apunta, ya dijo Émile Durkheim en su obra clásica sobre el tema: los creyentes no sólo creen, sino que pertenecen a una iglesia o grupo religioso. Y eso era, para el sociólogo francés, lo que diferencia a la religión de la magia.

En fin, la práctica religiosa genuina implica ser miembro de un grupo o la pertenencia a él. Y nos encontramos ante una pertenencia que no se diferencia mucho de la que experimentan los miembros de una nación. En fin de cuentas, como subraya Crane, la identificación grupal es un fenómeno universal y no se limita a los creyentes religiosos; la novedad consiste aquí en subrayar este elemento y no otro al hablar de religión, en lugar de enfatizar su aspecto trascendental o cosmológico. No es que tener una religión y sentirse miembro de una nación sean la misma cosa, pero

existe esta similitud: al identificarte con tu fe o tu iglesia, pasas a verlas como algo que forma parte de tu identidad. Eso es lo que significa pertenecer a algo, o a algún sitio.

Ocurre que la identificación con un grupo, que implica la exclusión de los demás, tiene que verse acompañada por la práctica religiosa. No basta con estar: hay que hacer. De manera similar, podríamos decir, la pertenencia nacionalista puede expresarse participando en rituales colectivos (desfiles patrióticos, homenajes a líderes históricos, festividades populares en fechas señaladas) o cultivando determinadas costumbres (bailes, peregrinaciones, usos lingüísticos). Ahora bien, sostiene Crane que para que la identificación sea religiosa hay que ir a la iglesia o el templo, así como participar en actividades colectivas: «Hacer lo que hace el grupo no es un extra prescindible, sino algo absolutamente central a la creencia religiosa». Una práctica como el rezo, de hecho, conecta al creyente con la comunidad religiosa del pasado, unidos ambos, presente y pretérito, en una búsqueda común de significado. Pero también conecta a quien reza ‒admite Crane‒ con aquello que queda fuera de la experiencia: con lo trascendente. Algo que también se maliciaba Durkheim cuando definió la religión como un sistema unificado de creencias y prácticas relativas a las cosas sagradas. Si no hay sacralidad, es difícil que haya religión.

Sea como fuere, en ningún caso entra dentro de las intenciones de Crane negar el elemento trascendental del hecho religioso. Al poner el acento en el carácter «profundamente comunitario» de este tipo de creencias, persigue algo distinto: normalizar la religión como un fenómeno típicamente humano. Al contrario que Richard Dawkins, por ejemplo, nuestro filósofo piensa que la religión no es una anomalía histórica que pueda ser extirpada sin daño de la vida social, superada la fase supersticiosa en la vida de la especie, sino que tiene su causa última en rasgos psíquicos y afectivos sobre los que no podemos disponer tan fácilmente. Es decir, que no se refiere tanto a la necesidad humana de significado, que nos permitiría explicar también la vigencia sempiterna ‒aun con mala salud de hierro‒ de los saberes humanísticos, sino a la no menos imperiosa necesidad de comunidad que nos hace buscar la compañía de los demás: en la nación, en el equipo de fútbol, en la religión. Naturalmente, un Nietzsche pudo decir aquello de que prefería la soledad y el frío de las alturas de nieve y hielo al calor del establo, pero, tras al menos dos siglos de desarrollo del programa ilustrado, podemos empezar a concluir que jamás será posible generalizar esta valiente ‒¿temeraria?‒ disposición de espíritu.

No se trata aquí, en modo alguno, de hablar en favor o en contra del fenómeno religioso; mucho menos, de juzgar creencias religiosas concretas. Y no porque no pueda hacerse, sino porque no es el objeto de esta breve nota, empeñada, por el contrario, en subrayar la importancia que para el éxito ‒o la pervivencia‒ del fenómeno religioso tiene su dimensión comunitaria y, por tanto, afectiva. Por lo demás, no se trata de una explicación incompatible con otras. Ahí tenemos las hipótesis evolucionistas, que ven la religión como un resultado natural del desarrollo de la vida social, a la que proveen de códigos morales que facilitan la supervivencia del grupo generando cohesión y orden en su interior ¡Para eso sirve exigir obediencia a los padres y fidelidad a los cónyuges! Esa misma querencia por el propio grupo, naturalmente, estaría en la raíz del nacionalismo. Y el propio deporte de masas sirve a ese fin en nuestros días. Esa pertenencia, como todas las pertenencias, puede adoptar formas agresivas. Pero también servir como espacio para la curación de las heridas o la canalización de las desadaptaciones personales: de los heroinómanos que tratan de desintoxicarse a la secta de los davidianos.

Acaso Crane subestime el papel que desempeña la esperanza en la creencia religiosa, sobre todo en contextos de privación donde se demanda la intervención divina para el mejoramiento material o la curación de la enfermedad. Es algo que los protagonistas de Los jueves, milagro, la película de Luis García Berlanga, terminan por aprender: arrepentidos de la estafa religiosa que montan para atraer visitas al pueblo y revivir con ello un balneario en declive, revelan su estratagema ante una multitud de menesterosos que, tras haber sido atraídos al lugar por el rumor del milagro, les prestan oídos sordos. En ocasiones, esa esperanza puede adoptar formas monstruosas ligadas al martirio o el suicidio colectivo, como sucede en la ficción de Vladímir Sorokin (la subyugante trilogía Hielo) o en más de un ejemplo histórico (alguno tan estremecedor como el que se produjo en The Peoples Temple of the Disciples of Christ en Estados Unidos en 1978, cuando murieron 909 miembros de una secta). Con todo, la hipótesis de Crane sobre la naturaleza del fenómeno religioso es compatible con el conjunto de explicaciones que la psicología y las ciencias sociales vienen ofreciéndonos en los últimos años sobre la conducta y las motivaciones humanas, consumado un giro afectivo que ha permitido abandonar las explicaciones puramente racionalistas para enriquecerlas con una atención renovada a los elementos emocionales ‒mas no por ello necesariamente irracionales‒ de la subjetividad. Hay, pues, que darle la bienvenida. Entre otras cosas, porque la gestión de la pluralidad religiosa es una de las tareas que tiene encomendada la democracia contemporánea.

Pese a la controversia erudita que acompaña al origen etimológico de la palabra, pudiera entonces ser que, si «religión» viene del religare latino y significa primariamente «atar fuertemente», el sentido de esa atadura no sea vincular al creyente individual con la divinidad, sino vincular a los creyentes individuales entre sí en el seno de una comunidad. Y que, en ese deseo de pertenencia, asociado por lo demás a una esperanza ultraterrena y a un conjunto de orientaciones morales capaces de estructurar la propia vida mediante una práctica ritual más o menos constante, se encuentre la clave que nos permita explicar el vigor que, pese a todo, siguen conservando las religiones mucho tiempo después de declarada la muerte de dios.
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* Sociólogo espanhol.  Profesor de Ciencia Política en la UMA.  Escritor.
Fonte:  http://www.revistadelibros.com/blogs/torre-de-marfil/la-religion-dentro-de-los-limitesde-la-mera-emocion?&utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=nl20171220 
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Natal pós-capital?

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Nestas festas, serão oferecidos smatphones para cães e impressoras 3D de panquecas. Há alternativa: uma vida privada frugal e bens comuns refinados. Quem se atreve? 

Por George Monbiot | Tradução: Inês Castilho

Todo mundo quer tudo – como é que isso pode dar certo? A promessa do crescimento econômico é de que os pobres poderão viver como ricos; e os ricos, como oligarcas. Mas nós já estamos detonando os limites físicos do planeta que nos sustenta. Pane climática, desertificação do solo, colapso de habitats e espécies, mar de plástico, armagedom de insetos: tudo é causado pela alta do consumo. A promessa de luxo privado para todos não pode ser cumprida: não existe nem espaço físico nem espaço ecológico para isso.

Mas o crescimento deve continuar: esse é o imperativo político em todos os lugares. E temos de ajustar nossos paladares de acordo, em nome da autonomia e da escolha – o marketing usa as últimas descobertas da neurociência para destruir nossas defesas. Aqueles que procuram resistir devem, como os Vida Simples [Simple Lifers] em Admirável Mundo Novo, ser silenciados – pela mídia, no nosso caso. A cada geração, muda a referência do consumo naturalizado. Há trinta anos, era ridículo comprar água em garrafa, pois a água de torneira é limpa e abundante. Hoje, no mundo todo, usamos um milhão de garrafas plásticas a cada minuto.

Toda sexta-feira [friday] é uma Black Friday; todo Natal é um festival mais aberrante de destruição. Entre saunas de neve, refrigeradores portáteis de melão e smartphones para cachorros com que somos instigados a preencher nossas vidas, meu prêmio de #extremacivilização vai agora para o PancakeBot: uma impressora de massas 3-D que lhe permite comer, todas as manhãs, a Mona Lisa, o Taj Mahal ou o traseiro do seu cachorro. Na prática, vai entupir sua cozinha até você perceber que não tem espaço pra isso. Por tralhas como essas estamos transformando em lixo o planeta vivo e nossas próprias perspectivas de vida. Tudo isso precisa acabar.

A promessa auxiliar é que, pelo consumismo verde, podemos reconciliar crescimento perpétuo com sobrevivência planetária. Mas uma série de pesquisas revela que não há diferença significativa entre as pegadas ecológicas de pessoas que cuidam e que não cuidam de seus impactos. Um artigo recente, publicado na revista Environment and Behaviour [Ambiente e Comportamento], revela que quem se identifica como consumidor consciente usa mais energia e carbono do que quem não.

Por que? Porque a consciência ambiental tende a ser mais alta entre pessoas ricas. Não são as atitudes, mas a renda que determina nossos impactos no planeta. Quanto mais ricos, maior nossa pegada, a despeito de nossas boas intenções. Aqueles que se veem como consumidores verdes, diz o artigo, “focam principalmente em comportamentos que têm benefícios relativamente pequenos”.
Conheço gente que recicla meticulosamente, guarda suas sacolas plásticas, mede com cuidado a água que coloca em suas chaleiras e então tira férias no Caribe, dispendendo cem vezes mais que suas economias ambientais. Passei a crer que a reciclagem lhes fornece desculpa para seus voos de longa distância. Convence as pessoas de que tornaram-se verdes, e a assim desconsiderar seus grandes impactos.

Nada disso significa que não devemos tentar reduzir nossos impactos, mas precisamos ter consciência dos limites desse exercício. Nosso comportamento dentro do sistema não consegue mudar os resultados desse sistema. É o sistema que precisa ser mudado.

Uma pesquisa da Oxfam sugere que o 1% mais rico (se sua renda familiar é de 308 mil reais ou mais por ano, isso te inclui) produz 175 vezes mais carbono que os 10% mais pobres. Como podemos, num mundo em que supostamente todos aspiram a altos rendimentos, evitar transformar a Terra numa bola de sujeira, da qual depende toda a prosperidade?

Por dissociação, dizem os economistas: desvincular o crescimento econômico do uso de materiais. E como é que vai isso? Um artigo na revista PlosOne revela que, enquanto em alguns países ocorreu uma relativa dissociação, “nenhum país conseguiu dissociação absoluta nos últimos 50 anos”. Significa que a quantidade de materiais e energia associadas com cada aumento do PIB pode declinar, mas, à medida em que o crescimento ultrapassa a eficiência, o uso total de recursos continua crescendo. Mais importante, o artigo revela que no longo prazo são impossíveis tanto a dissociação relativa quanto a dissociação absoluta do uso de recursos essenciais, por causa dos limites físicos da eficiência.

Uma taxa de crescimento global de 3% significa que o tamanho da economia mundial é duplicado a cada 24 anos. Essa é a razão pela qual as crises ambientais aceleram-se a essa velocidade. Ainda assim, o plano é assegurar que ela duplique e duplique outra vez, e continue a duplicar para todo o sempre. Ao procurar defender o mundo vivo do sorvedouro da destruição, podemos acreditar que estamos lutando contra corporações e governos e a insensatez geral da humanidade. Mas eles são todos procuradores do verdadeiro problema: crescimento perpétuo num planeta que não está crescendo.

Aqueles que justificam esse sistema insistem em que o crescimento econômico é essencial para o alívio da pobreza. Mas um artigo da World Economic Review afirma que os 60% mais pobres do mundo recebem apenas 5% do rendimento adicional gerado pelo aumento do PIB. Disso resulta que são precisos 111 dólares de crescimento para cada 1 dólar de redução da pobreza. Essa é a razão por que, seguindo a tendência atual, seriam necessários 200 anos para garantir que todo o mundo receba 5 dólares por dia. A essa altura, a renda média per capita terá alcançado 1 milhão de dólares por ano, e a economia será 175 vezes maior do que é hoje. Isso não é uma formula para alívio da pobreza. É uma fórmula para a destruição de tudo e de todos.

Quando você ouve que alguma coisa faz sentido do ponto de vista econômico, isso significa que é o oposto do senso comum. Aqueles homens e mulheres sensíveis que governam os tesouros e bancos centrais do mundo, que veem como normal e necessário um crescimento indefinido do consumo, estão alucinados, esmagando as maravilhas do mundo vivo, destruindo a prosperidade das gerações futuras para sustentar um conjunto de cifras que têm uma relação cada vez menor com o bem-estar geral.

Consumismo verde, dissociação material, crescimento sustentável: isso tudo é ilusão, destinada a justificar um modelo econômico que está nos conduzindo à catástrofe. O sistema atual, baseado em luxo privado e imundície pública, vai nos levar à miséria: sob esse modelo, luxo e privação são uma só besta com duas cabeças.

Necessitamos de um sistema diferente, enraizado não em abstrações econômicas mas em realidades físicas, que estabeleça os parâmetros pelos quais nós julgamos sua saúde. Necessitamos construir um mundo no qual o crescimento não seja necessário, um mundo de frugalidade privada e luxo público. E devemos fazer isso antes que a catástrofe force nossa mão.
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*  Jornalista, escritor, acadêmico e ambientalista do Reino Unido. Escreve uma coluna semanal no jornal The Guardian.
Fonte:  http://outraspalavras.net/capa/natal-pos-capital/ 19/12/2017
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terça-feira, 19 de dezembro de 2017

¿Todavía habrá un aula en 2020?: cómo será el paso digital en la educación


Las clases del futuro no serán tan diferentes a las de hoy. Pero, los medios utilizados para la enseñanza, que se habían mantenido constantes durante siglos, ahora están experimentando 
un cambio acelerado.

*Por Bernardo Valladares Linares, SE Manager, de Extreme Networks Latam

Una imagen de una clase claramente tiene algunos elementos en común con los espacios de enseñanza actuales, como sillas, mesas, pantallas planas, así como también con estudiantes y un maestro. Los estudiantes y el maestro miran hacia una enseñanza diferente, más interactiva, virtual y fuera del salón de clases. La clase física de 2020 no será tan diferente de la clase de hoy. Pero, los medios utilizados para la enseñanza y el aprendizaje, que se habían mantenido constantes durante siglos, ahora están experimentando un cambio acelerado. Asimismo, el contenido que se enseña avanza, especialmente en términos de personalización.

La realidad virtual y mixta están entrando al aula y dando vida a los sujetos. Los viajes de campo virtuales a museos, sitios históricos, incluso a períodos pasados en la historia ahora son posibles sin salir del aula. Google virtual Expeditions lleva a los estudiantes a "visitas guiadas a lugares donde los autobuses escolares no pueden ir". Asimismo, por bajo costo, Google Cardboard ofrece una experiencia de realidad virtual inmersiva en 3D a los estudiantes. Cada cartón requiere un teléfono inteligente para funcionar, pero casi cualquier teléfono Android o iOS será suficiente.

Quizás aún más importantes que las excursiones ocasionales, son las nuevas posibilidades que ofrece la realidad virtual y mixta para involucrar a los estudiantes con temas tradicionales. De esta manera, pueden interactuar colaborativamente con objetos virtuales en una realidad mixta. Pueden compartir experiencias simultáneamente mientras están dentro del aula o de manera remota.

El contenido educativo y la materia que se enseña hoy está cambiando de tres maneras. En primer lugar, está siendo adaptado para aprovechar al máximo los nuevos medios; segundo, se actualiza constantemente para alinearse con nuestro conocimiento en evolución de la ciencia y la historia; y tercero, se modifica para incorporar nuevos métodos para enseñar efectivamente materias tradicionales como matemáticas y lenguaje.

Una mirada de cerca en el aula 2020
¿Cuáles son las predicciones seguras para el aula 2020? Las paredes, alfombras y ventanas probablemente serán similares a las de hoy; aunque hay una visión más distante que implica una escuela totalmente virtual que elimina por completo la necesidad de un edificio escolar dedicado. Del mismo modo, el aula de 2020 todavía necesitará acomodar eBooks, pantallas, monitores y dispositivos para estudiantes con teclados. Incluso si la tecnología de entrada de voz llega a ser mucho mejor de lo que es hoy en día, los teclados seguirán satisfaciendo la necesidad de interactuar en salas ruidosas. Los dispositivos de visualización deben ser capaces de mostrar cantidades crecientes de datos de transmisión, incluidos videos de alta definición, y requerirán más ancho de banda de Wi-Fi que nunca.

El ambiente o el clima del aula, incluida la temperatura ambiente, la humedad, los niveles de CO2 y O2, junto con otros aspectos de la calidad del aire, se pueden monitorear, controlar y ajustar constantemente a las condiciones deseables. ¿Necesita una temperatura ligeramente más fría durante una clase particularmente activa? No hay problema. Lo mismo se aplica a la iluminación, que se puede programar para que coincida de manera óptima con los biorritmos naturales de los estudiantes, sin importar cuáles sean las condiciones climáticas locales en un día en particular. Incluso el olor de la clase se puede programar para un aprendizaje óptimo durante cada lección.

El papel del docente continúa evolucionando, principalmente de ser un proveedor de contenido, a uno de facilitador y director de tráfico, que se involucra cuando los estudiantes individuales requieren ayuda suplementaria. El instructor puede monitorear las actividades de cada estudiante con videos y audio. Pueden dirigir el flujo de la lección por medio de un controlador.

La asistencia al aula se actualiza automáticamente por medio de una cámara ubicada cerca del frente de la sala. Durante las pruebas, la cámara funciona junto con la grabación de teclas y el seguimiento de respuestas en tiempo real para evitar las trampas.


El advenimiento de Internet of Things está haciendo que la clase de ciencias sea más atractiva. Los dispositivos de bajo costo como PocketLab y Lab4U que se conectan a teléfonos inteligentes proporcionan potentes instrumentos de laboratorio de ciencias, capaces de medir la aceleración, la fuerza, la velocidad angular, el campo magnético, la presión, la altitud y la temperatura. Combine estos sensores con la robótica y los controladores, y los estudiantes pueden participar directamente en experimentos de ciencias sin estar presentes en el aula. Experimentos peligrosos, que en el pasado hubieran sido imposibles de observar por los estudiantes ahora pueden tener lugar en la realidad virtual.

Wearables están teniendo un impacto en el aula. Las bandas de fitness y monitor de ritmo cardíaco proporcionan datos constantes sobre la salud del estudiante. Teóricamente, los maestros podrían monitorear cómo cada lección afecta los signos vitales de los estudiantes, a fin de comprender mejor quién está prestando atención. Varios tipos de wearables emergentes se unen al cráneo del estudiante. El módulo Thync ayuda a reducir el estrés del estudiante y el límite de mejora neuronal desarrollado por la Universidad de Vanderbilt aumenta el aprendizaje al estimular la corteza medial-frontal del cerebro.

Igualmente, llamativo como qué esperar en el aula 2020 es lo que se echará de menos. Algunos de los elementos ausentes son relativamente menores como la iluminación incandescente o fluorescente. Se encenderá una iluminación LED de varios colores programable y Wi-Fi eficiente. Los libros tradicionales junto con papel y lápices se desvanecerán. La necesidad de imprimir se ha ido. Lo que es más importante, el aula ya no tiene cables para interponerse, causar tropiezos o provocar interrupciones cuando se desconectan inadvertidamente. En un futuro muy cercano, todos los dispositivos se conectarán de forma inalámbrica mediante una red Wi-Fi robusta y de alto rendimiento.

Un punto de acceso 801.11ac Wave 2 de alto rendimiento proporciona un ancho de banda de cobertura total para el aula de 2020.

La principal incertidumbre para el aula de 2020 es cómo se utilizarán la infraestructura y los dispositivos, y qué contenido viajará a través de ella. Pero esa pregunta depende de los educadores que diseñan el plan de estudios del mañana. Como proveedores de la tecnología, ofreceremos el mejor entorno de aprendizaje, uno que pueda animar el contenido educativo más atractivo.

La aceleración de la evolución de los medios del aula
Los componentes que componen un libro de texto tradicional datan de 100 aC, cuando el papel se utilizó por primera vez en China. La imprenta y la composición tipográfica tardaron casi 2.000 años en facilitar la reproducción de libros. Luego de otros 530 años, llegaron las pantallas digitales y el procesamiento de textos. Los libros electrónicos de bajo costo, como el Kindle, se introdujeron 27 años después del procesamiento de texto básico. Ahora, nueve años después del libro electrónico, tenemos realidad virtual y mixta entrando en escena. Basado en esta tendencia de aceleración exponencial en innovación de medios, el próximo medio revolucionario puede estar a la vuelta de la esquina. Es posible que nos espere un método de comunicación completamente nuevo más allá de la realidad virtual. Google y Samsung están trabajando arduamente en lentes de contacto inteligentes capaces de tomar fotos y proyectar imágenes directamente en el ojo del usuario. Tal vez en el futuro, las imágenes eviten el sistema óptico humano, alimentándose en cambio directamente a la corteza visual.

¿La muerte de la distracción?
Uno de los principales problemas con la proliferación de pequeños dispositivos personales ha sido la tentación de la distracción. Los estudiantes encuentran difícil o imposible resistir el atractivo de un mensaje de texto entrante. Un beneficio lateral muy interesante de la pantalla montada en la cabeza (HMD) es que controlan al 100% de la atención del usuario. El estudiante que usa un HMD no puede enviar mensajes de texto en su teléfono. La distracción se elimina por completo.
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Fonte: https://tecno.americaeconomia.com/opinion/todavia-habra-un-aula-en-2020-como-se-dara-el-gran-paso-en-la-educacion 


segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Pedro Paixão: “As pessoas pensam que eu morri”


16 Dezembro 2017
Foi um dos portugueses mais lido dos anos 90, admirado por Luiz Pacheco e pelos críticos, ajudou ainda a fundar "O Independente". 25 anos, 26 livros, um título novo e quase esquecido. Fomos visitá-lo.
Quando, em 1992, aterrou no meio literário português, Pedro Paixão tinha 37 anos e não imaginava que ia tornar-se o escritor sensação da década. As histórias que compõem o livro A Noiva Judia apareceram pela mão de André Jorge, da editora Cotovia, e fizeram as delícias de leitores de várias gerações, pela brevidade e pela estranheza. Os títulos dos seus livros davam origem a longas deambulações dos jornalistas e críticos literários. Era o tempo d’O Independente, da revista K, das crónicas do Miguel Esteves Cardoso, da Noite da Má Língua, na SIC, do Raios e Coriscos, na RTP1. Entre Saramago e Lobo Antunes, Pedro Paixão representava uma urbanidade e cosmopolitismo de que as novas gerações estavam sedentas e onde se reviam.

Não se esperava apenas pelos livros de Paixão, esperavam-se, sobretudo, os títulos: Nos Teus Braços Morreríamos (1998) ou, aquele que se tornou uma máxima, Viver Todos os Dias Cansa (1995). À sua volta havia sempre mulheres, havia a amizade com Miguel Esteves Cardoso com quem fundou o Independente e a empresa de publicidade Massa Cinzenta. Havia as drogas, o álcool, a noite, mas também as aulas de filosofia na Universidade Nova de Lisboa. Era uma presença recorrente na televisão e jornais, os críticos não se poupavam em elogios e até Eduardo Prado Coelho “fez questão” de lhe oferecer um livro seu. Livro que Pedro diz “obviamente” não ter lido.

A sua zanga com Esteves Cardoso fez as delícias dos mexericos literários mas, na vida real, conta, “foi tudo muito complicado”, havia um filho pequeno no meio, havia a doença de Pedro (sofre de Doença Bipolar) e tudo foi mudando. No início do milénio havia todo um exército de novos e novíssimos escritores para entrar em cena, forjavam-se novos grupos, novas cumplicidades, novas modas. Sem nunca deixar de escrever e a publicar quase um livro por ano, muda de editor, Oficina do Livro, Quetzal, Bertrand… mas os tempos de glória mediática tinham acabado.

Pedro Paixão na casa onde vive, no Estoril. Tem 63 anos, um filho de 28 e um neto. 
O cão é o Radar (Foto: Pedro Pinto Basto) 

Os críticos deixaram de escrever sobre os seus livros, os jornalistas deixaram de lhe pedir entrevistas. Entretanto fez duas obras de fotografia, exposições, rádio (“O Espaço entre as Coisas”, na Radar), voltou a casar e a descasar, criou uma chancela na PrimeBooks e passou a editar sozinho os seus livros. O seu desaparecimento não pareceu incomodar ninguém, os seus livros, cada vez mais complexos e singulares no panorama literário português, passavam despercebidos.

Numa das suas últimas aparições em televisão, num programa de Bruno Nogueira, de 2010, o seu humor, o seu universo, a sua linguagem distante do que se tornou habitual em TV, causou incómodo e estranheza nos espetadores, que sobre isso escreveram nas redes sociais. Pedro justifica: “Têm medo que eu me porte mal”. Reformou-se por invalidez, isolou-se conscientemente ou, como escreveu, “até atingir o estado de incerteza permanente, do qual não pretendo sair”.

Foi nesse estado de incerteza que o fomos entrevistar, à casa luminosa no Estoril onde vive com a mulher e o seu cão, o Radar. Pedro Paixão publicou este ano um novo livro, agora numa pequena editora independente de Évora, a Licorne, de Manuel Silva Terra. São textos breves, poéticos e críticos, feitos de memórias, “a mais subtil de todas as matérias e, no entanto, a única que verdadeiramente existe”. Chama-se Lembra-me de Mim.

“Lembra-me de Mim”, de Pedro Paixão

Como é que passa da situação de ser “escritor coqueluche”, altamente mediático, adorado por leitores e jornalistas, para a situação de ser escritor quase esquecido? O que aconteceu?
As pessoas pensam que eu morri… [longo silêncio, depois um sorriso irónico]. Não sei dizer o que aconteceu. Só sei que não prefiro a situação anterior a esta. Houve aí um problema de editores. Houve o que queria escrever e o que não queria escrever. Houve o doce veneno da fama que nos conduz à maior solidão. A última coisa que queria era ser outra vez famoso como fui. Perdi bastante. Porque a fama dá-nos um poder irreal feito de fumos, espelhos, que é perigoso. Há uma aparência de que conhecemos muitas pessoas, que as pessoas gostam muito de nós. Tudo falso. Graças a Deus, descobri isso antes de ter feito muitas asneiras, sem ter ficado viciado em drogas, álcool, poder.

Como era publicar livros nos anos 90?
Nos anos 90 a tiragem dos meus livros era de 5 mil exemplares, agora é de 500. Continuei sempre a publicar. Apenas agora estou numa região mais obscura. Depois da Cotovia estive na Quetzal, na Bertrand, depois fiz uma chancela minha na editora Prime Books [Impressão Digital] , era eu que fazia os livros todos. Agora estou nesta [Licorne] mas não sei se vou continuar a escrever. Quer dizer… tenho um livro já pronto. Mas não foram as editoras que me afastaram. Eu é que me afastei. Senti necessidade de me afastar. Também nunca vivi propriamente num ambiente literário. Foi um mal-entendido desde o começo. Nunca quis ser escritor… Agora estou nesta editora, pequena e com muito bom gosto, que já publicou mais de 100 livros.

Mas nessa altura era adorado pelos críticos. O Luiz Pacheco disse publicamente que era o escritor daquela época que mais gostava. E até lhe escreveu uma carta…
Era tão adorado, tão elogiado que ao fim de cinco livros gastaram os elogios todos, depois ficaram sem nada para dizer…

E o Luiz Pacheco?
Esse é diferente. Tenho a carta dele emoldurada e pendurada na parede. Queres ver?
Carta que Luiz Pacheco escreveu a Pedro Paixão em 1999 e que 
está emoldurada numa parede de casa do escritor

Como é não ser um escritor mediático num tempo em que o mediatismo é tão forte? Nunca se sentiu triste por já não estar sob os holofotes?
Não. É preciso que se perceba isto: é mais importante haver uma só pessoa que gosta de ti do que que uma multidão que faz de conta que gosta de ti. Uma pessoa pode salvar-te. Uma multidão esmaga-te, deixa-te morrer. E eu percebi isso. Pronto. Depois, também tive sempre muita consciência da inviabilidade desse poder, que não era meu. Era-me emprestado pela fama. Por isso, por uma consciência ética, não podia usá-lo a meu favor. Se fizesse isso, se manipulasse as pessoas usando desse poder, ia condenar a minha alma e a escrita também. Só escreve de verdade quem tem mãos verdadeiras. Não posso estar a aldrabar, nem as outras pessoas, nem a mim próprio.

Mas o Pedro era um homem muito sedutor. Tinha sempre um rol de mulheres à sua volta.
Eu não era sedutor. Tinha era jeito para aparecer na televisão. Detesto essa palavra que hoje se usa muito, “sedução”. Sedução é uma coisa barata. É tudo efémero. Depois há sempre que desconfiar do nosso público. Muito público normalmente é porque a coisa não é boa. O público é uma massa informe. Uma das preocupações mais contínuas da minha vida é essa de não usar o poder sobre as pessoas. Porque tenho consciência de que se manipular também estou a ser manipulado.

No entanto, nos anos 90 não havia o mediatismo em torno dos escritores que há hoje…
Não sei, não me convidam para os eventos, nunca me convidam para nada, é tão engraçado. Devem ter medo que me porte mal. Que diga o que não convém. Nem à Casa Fernando Pessoa, nunca me convidaram para lá ir. O que até é um elogio.

"Já não conheço as novas gerações… não os leio… eles também não me leem a mim… portanto estamos bem. Mas eu também escrevo sempre a mesma coisa. Sou eu e eu. Só escrevo sobre mim. Porque não teria sobrevivido se não escrevesse. Só assim é que vou sabendo quem sou." 
 
É porque têm medo de si, ou é porque tudo se passa num círculo muito fechado?
Bem, as pessoas que mandavam na cultura nos anos 90 já morreram. Agora mandam outras! Mas há muita corrupção na cultura. Há poderes. Veja-se as traduções. Como é que é possível de repente alguém ser traduzido para 30 línguas sem que para isso tenha havido uma intervenção das instituições do Estado Português? Eu só fui traduzido para hebraico, um livro só, A Noiva Judia.

Já sentiu ciúmes dos outros escritores que entretanto se tornaram famosos e muito vendidos?
De vez em quando sim, depois passava-me. Agora já nem sei o que acontece, já não conheço as novas gerações… não os leio… eles também não me leem a mim… portanto estamos bem. Mas eu também escrevo sempre a mesma coisa. Sou eu e eu. Só escrevo sobre mim. Porque não teria sobrevivido se não escrevesse. Só assim é que vou sabendo quem sou. Agora, publicar é uma coisa completamente diferente. Claro que no início fiquei inebriado, devia ser a pessoa que mais livros vendia em Portugal, depois tudo cansa. Há coisas mais importantes. Hoje já nem sinto necessidade de publicar. Escrever sim. Publicar tornou-se um desejo do qual me libertei. Também já não quero ser melhor que os outros, já não quero correr com ninguém. Já não tenho ciúmes, nem inveja…

O que lhe apetece fazer agora?
Agora gostava de voltar a pintar. A minha mãe ensinou-me a pintar. Talvez deixe de escrever e comece a pintar. Já fiz fotografia mas não sou fotógrafo. Também gostava de fazer cinema, mas nunca consegui apoios. De há uns tempos para cá comecei a sentir que se calhar não preciso de escrever mais nada. Mas estou a correr contra quem? Contra mim próprio. Estou cansado. Às vezes olho para todas as coisas que já fiz e fico impressionado. Não sei, parece que fiz sem dar conta.

Mas não está armado em Herberto, o poeta obscuro?
Já deixei de ligar a isso, não é bom nem é mau. Não penso nisso. Se me pedirem uma entrevista eu dou, mas não vou bater à porta de ninguém. O mais importante é procurar manter-me digno, não usar o poder sobre os outros, não manipular.

Polaroid do escritor no seu piano (Foto: Pedro Zenkl)

Não está a escrever para os seus contemporâneos, é isso?
Ah, isso não estou de facto. Mas também não estou a escrever para os vindouros. Se estou a escrever para alguém é para mim. Quer dizer, não estou apenas a escrever-me, estou a rescrever-me. A mim e ao meu pequeno mundo. Aquilo que procuro é a verdade, é Deus. É a mesma coisa. É a única coisa que faz sentido procurar. [Abre o seu livro Lembra-me de Mim e lê um excerto]… mas isto está muito bem escrito. Já não me lembrava de nada, mas está muito bem escrito. Isto é muito bonito. Ninguém escreve tão bem como eu. Para mim, sou o melhor da minha geração [diz, como quem confessa uma maldade e depois dá uma gargalhada].

Acontece-lhe sentir-se desapontado quando vê materializadas as ideias que teve?
Quando me consigo reler, o que é raro, acontece-me o contrário, que é achar que está bom. Mas gosto muito deste último livro. O meu único romance mais “canónico” é o Rosa Vermelha Em Quarto Escuro. Prefiro contar histórias pequenas. Não é uma escolha, sai assim, não gosto de criar personagens, essas coisas. Tudo o que escrevo são coisas que vivi direta ou indiretamente, são memórias, projeções. Mas é sempre a minha vida. Sou sempre eu.

Continua a optar por escrever histórias curtas, fragmentos, memórias em vez de romances. Nos anos 90 forma dos seus livros foi considerada muito inovadora, tendo em conta que, em Portugal, se arrisca pouco nos géneros…
Quando comecei a publicar, as pessoas vinham dizer-me que tinham descoberto que havia uma maneira mais fácil de escrever, que podiam escrever as suas coisas daquela forma curta. Mas claro que isso deu quase sempre maus resultados. O texto curto é tão ou mais difícil que o texto longo. Não basta ter coisas para contar.

E o que anda a ocupá-lo agora?
Há 10 anos que estou a trabalhar num ensaio. Já publiquei um, em 2015, que é o Anti-Darwin. Este agora chama-se A Cidade. Pode-se dizer que é filosofia, mas não só. Fui a Auschwitz em 2010, estou a escrever um outro livro a partir de uma história que me contaram lá e sobre a qual tenho a obrigação moral de escrever, mas está a ser difícil. Até já tentei deixar de o escrever, mas não consigo. Já casei com duas mulheres judias, o meu filho David é judeu. Esse ensaio… o Anti-Darwin, demorei 20 anos a escrevê-lo, só visto.

“Anti-Darwin: ensaios sobre os Limites da Modernidade”, 2015, 
mostra-nos a enorme inquietação intelectual do escritor

Consegue resumir aquilo que defende neste ensaio em que tenta desmontar a teoria darwinista mostrando que ela é a aplicação à natureza de um racionalismo puramente humano?
A tese de fundo é a seguinte: o darwinismo é uma convicção e não uma teoria, como tal não é verdadeiro nem falso. Uma convicção só existe em contraste com outra, que pode ter mais ou menos poder de convicção sem nunca alcançar a certeza. As obras de Freud e Marx são do mesmo tipo. Não é possível uma teoria da vida, como não é possível uma teoria do Belo ou do Bom. É um tema que me ocupa há muitos anos. Se calhar ainda vou demorar mais 10 anos a terminar A Cidade.

Em 2014 escreveu Espécie de Amor, em que se baseava na sua amizade com Miguel Esteves Cardoso. No entanto não é um livro de boatos. É antes sobre a amizade destrutiva entre dois homens, uma descida ao inferno de um homem e de um país [Portugal].
O que acontece ao outro também me acontece a mim. Na amizade somos o espelho um do outro, onde o outro se vê. Em grande contraste com a paixão em que nos enganamos e não queremos mais do que continuar a enganarmo-nos.

Tem ideia se Miguel Esteves Cardoso alguma vez leu o livro?
 
Não leu certamente.
Quando vocês eram próximos liam os livros um do outro? E comentavam?
Não, nunca. Seria uma grande lamechice.

O meu país é um país que não reconhece o verdadeiro valor, não gratifica a excelência, e mal suspeita de alguma coisa original, logo, estranha, esmaga-a. Camões morreu pobre e desolado. Provavelmente sem ter tido sequer a sorte de ter tido um único amigo, como eu tive. O Pessoa, que viveu de quarto em quarto, foi morrer com o fígado trespassado a um hospital com nome de santo francês que está no Bairro Alto e, ao que se diz, a última frase que lhe se ouviu foi em inglês que a disse I do not know what tomorrow will bring, para tirar as dúvidas a quem as tivesse. O Ruy Belo, um magnífico poeta, foi um herói desprezado primeiro pela academia fascista e, depois, pela academia democrática. O Ruy Cinatti, um poeta entre os maiores, enlouqueceu com a revolução dos medíocres e presumidos cravos, que entretanto desapareceram como espécie. Eu só não me deixei esmagar porque não tenho valor algum em particular, nunca tendo chegado a ser o que queria (…) [“Espécie de Amor”, 2014]

“Espécie de Amor” é uma obra vertiginosa, fulgurante sobre a amizade e o horror de ser português. Um grande livro esquecido

25 livros em 25 anos. Porque escreve tanto?
Escrevo para mim, só para mim, para me tentar salvar. Quando escrevo, as coisas parecem ganhar um plano superior, mais verdadeiro. Contra a passagem do tempo, o desvanecimento, a escrita dá-nos a ilusão de que a nossa vida é mais durável. Dá-nos a ilusão de que continuaremos vivos naquilo que escrevemos. Ser-me-ia impossível viver sem escrever.

Mas isso é o que diz toda a gente. Toda a gente quer ou gostaria de publicar livros.
Ai querem? (gargalhada). Não sabem o que fazem. Ainda bem que não falo com pessoas e hoje em dia só falo com o meu cão.

Nestas décadas o que mudou nas suas obras?
Continuo a escrever sobre o amor, o amor e a morte. Passei a minha vida à procura de me ligar aos outros.

E lê algum autor português?
Agora estou a ler a obra completa do Ruy Belo. Todas as manhãs leio poesia. E ando sempre a ler o Camilo, que também é um poeta. A poesia é o esplendor da palavra e em Portugal temos bons poetas. Ainda na outra noite sonhei com o senhor Herberto Helder. Que o encontrava na Fnac a comprar um livro do Cocteau… Uma vez li um poema do António Maria Lisboa ao Mário Cesariny, ele gostou tanto que me ofereceu um desenho.

"Fiz mais do que alguma vez julguei poder fazer, mais do que os outros disseram que seria capaz. Tive uma vida maravilhosa, apesar de toda a dor. Ao escrever tentei transformar essa dor em beleza." 
 
Uma presença constante nos seus livros é o filósofo alemão Ludwig Wittgenstein. A obra dele é a mais importante para si?
Como acontece na música ou no cinema, o que para nós é o mais importante tem épocas. Mas Ludwig Wittgenstein deve ter sido quem mais li e sobre quem dei mais aulas.

Durante muitos anos deu aulas de Filosofia na Universidade Nova. Depois reformou-se devido à doença bipolar de que sofre.
Quando fui diagnosticado, aos 19 anos, não aceitei. Foi o [psiquiatra] António Bracinha Vieira. Não percebi nada. Só muitos anos depois, quando tive a primeira depressão profunda, quando acabei o doutoramento, é que percebi. Também tinha ataques de euforia mas, graças a Deus, nunca aconteceram tantas vezes como a depressão, portanto não fiz assim grandes asneiras nesses momentos. Desde essa altura, dos 29 anos, passei a estar medicado. Lítio.

Continua a ter uma estreita relação com o judaísmo?
Aconteceu na minha vida casar com duas judias… e o que importa não é a religião que se tem mas como se vive a religião que se tem [longo suspiro de cansaço].

O Pedro pôde experimentar essa vida de “escritor famoso” e retirou-se dela, sem ser chutado e sem lhe andar a pedir esmola, isso é algo raro…
Acho que tem valor, porque aquilo cola-se como uma droga… Tive que ter… fazer uma força muito grande para não deixar que isso acontecesse comigo. Fiz mais do que alguma vez julguei poder fazer, mais do que os outros disseram que seria capaz. Tive uma vida maravilhosa, apesar de toda a dor. Ao escrever tentei transformar essa dor em beleza.

“Depois deixei de amar e odiar ao mesmo tempo, aprendendo devagar a ser quem sou, e não quem julgava que seria (…) Abandonei o projeto absurdo de querer justificar a minha existência, julgando que ela precisava de ser justificada, uma injustificável vaidade”, escreve em Espécie de Amor. É assim que se sente hoje?
É um “trabalho em curso”, com avanços e recuos.
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Fonte:  http://observador.pt/especiais/pedro-paixao-as-pessoas-pensam-que-eu-morri/