domingo, 23 de abril de 2023

‘É preciso deixar a floresta em pé e viva. É por isso que os Yanomami começaram a desenhar’

Rodrigo Simon e João Biehl*

Principal porta-voz dos Yanomami no Brasil, o xamã Davi Kopenawa fala, em evento organizado na Universidade de Princeton, sobre os desafios que seu povo enfrenta na atualidade
Foto: David Dooley/Fotobuddy - 31.JAN.2023
Participantes sentado sà mesa em evento da Universidade de Princeton. À esquerda da mesa há um banner com o logo do Brazil LAB-Princeton. Da esquerda para direita: Deborah Yashar, João Biehl, Davi Kopenawa e Ana Laura Malmaceda
Mesa no evento “The Falling Sky and The Yanomami Struggle”, na Universidade de Princeton (EUA). Da esquerda para direita: Deborah Yashar, João Biehl, Davi Kopenawa e Ana Laura Malmaceda

Principal porta-voz do povo Yanomami no Brasil, o xamã Davi Kopenawa esteve na Universidade de Princeton (EUA) no dia 31 de janeiro de 2023 para participar do evento “The Falling Sky and the Yanomami Struggle”, moderado por João Biehl (chefe do Departamento de Antropologia e Diretor do Brazil LAB, um dos parceiros do Nexo Políticas Públicas).

Na ocasião, o autor do aclamado “A queda do céu” falou sobre como a ação de garimpos ilegais na Amazônia levou à crise sanitária, destruição ecológica, e ameaça de extermínio de seu povo. Kopenawa também respondeu a perguntas colocadas por Deborah Yashar (diretora do PIIRS, Instituto para Assuntos Internacionais e Regionais), Gabriel Vecchi (diretor do Instituto Ambiental High Meadows), e Pedro Meira Monteiro (chefe do Departamento de Espanhol e Português). Entre os temas abordados, Kopenawa falou sobre a mobilização indígena e sua expectativa com relação ao governo Lula, o papel das artes na conservação da Floresta Amazônica, a situação dos Yanomami na Venezuela, e a importância dos sonhos na vida e luta de seu povo.

Deborah Yashar Gostaria que você nos contasse sobre o processo que levou à demarcação da Terra Indígena Yanomami, assim como a importância do reconhecimento do território.

Davi Kopenawa Fomos nós, guerreiros indígenas, que começamos essa luta. Não apenas eu, mas várias lideranças: Macuxi, Wapixana, Kayapó, Xavante, Terena. Também lideranças que hoje são conhecidas, como Raoni e Ailton Krenak, ao lado de não indígenas, como a Funai e alguns antropólogos, e também a Claudia Andujar, Carlo Zacquini, Bruce Albert e Alcida Ramos, além das igrejas também. Todos lutaram. Mas foi uma luta muito difícil, que durou quatro anos, com um governo que não escutava, não queria ouvir a minha fala, a fala do meu povo Yanomami. Mas nós conseguimos. O que abriu caminho foi quando eu saí do meu país e vim para cá, para os Estados Unidos, para receber o Prêmio Global da ONU. Foi muito bom porque eu cheguei à grande casa que se chama ONU, então milhares de pessoas se reuniram para ouvir minha fala pedindo para que o governo Collor de Mello tirasse os garimpeiros de nossa terra. Quarenta mil garimpeiros foram retirados de lá, as pistas clandestinas foram destruídas, e depois homologaram nossa Terra Indígena Yanomami. Os políticos brasileiros não queriam demarcar. Diziam que a área era muito grande, que éramos poucos indígenas. Diziam que éramos preguiçosos e não produzíamos na terra. Diziam tudo isso contra nós. Mas nós conseguimos, junto com o Conselho Indígena de Roraima, que também lutou e me ensinou a lutar, e muitas lideranças indígenas que já morreram, mas também lutaram. Foi muito importante.

Deborah Yashar Qual sua expectativa e do povo Yanomami com relação ao novo governo Lula?

Davi Kopenawa O povo Yanomami e lideranças indígenas em todo o Brasil estamos todos esperando, porque nós ouvimos a promessa do presidente Lula. Está tudo gravado na memória, não precisa ser anotado no papel. Ele prometeu que vai tirar os garimpeiros que estão mais uma vez na Terra Yanomami. Essa foi a promessa dele, então é o que todo povo indígena do Brasil está esperando. Que ele cumpra o que prometeu, a palavra dele. Nós estamos com ele, lutando, para que ele possa realmente tirar todos os garimpeiros que estão lá na nossa Terra Yanomami e, com isso, recuperar a saúde dos Yanomami, que foi muito afetada no governo Bolsonaro. Eu pedi ao presidente Lula que ele tome providências urgentes. Não é amanhã ou depois de amanhã, é urgente. Foi esse meu pedido e é isso que estamos esperando.

João Biehl Qual é o papel das artes visuais na luta Yanomami?

Davi Kopenawa Os artistas estão lutando junto com a gente. Estão desenhando imagens da floresta, do meio ambiente. E por isso é muito importante que os artistas estejam aqui hoje, como o Joseca Mokahesi, que também é agente de saúde e cuida da nossa comunidade, e a Ehuana Yaira, que é minha prima e artista. Isso é muito importante, que vocês vejam essa arte e achem bonito. Porque antes que nossa Floresta Amazônica acabe, nós a estamos desenhando. Nós a estamos desenhando para mostrar a cada comunidade, cada cidade, o desenho diferente, tradicional, do nosso povo. Ele mostra as árvores mexendo, as montanhas balançando, então é muito importante, para que o homem que mora na cidade possa respeitar. Respeitar e proteger o pulmão da terra. Isso é muito importante. Não podemos deixar que as florestas sejam destruídas. É preciso deixar a floresta em pé e viva. É por isso que os Yanomami começaram a desenhar. Para que seus filhos, seus netos, seus parentes achem bonito e passem a valorizar nossa arte e nossa luta, que é para proteger nosso pulmão da terra. E é importante que os próprios Yanomami façam isso, para que vocês possam entender o que nós fazemos, o trabalho de defender nossos direitos, não deixar que acabem com nossa floresta, e não deixar que os povos originários morram.

Gabriel Vecchi A terra Yanomami se estende através de uma fronteira internacional com a Venezuela. Qual a situação do povo Yanomami do lado venezuelano e como devemos pensar essa questão?

Davi Kopenawa Para nós, povo Yanomami, não existe fronteira. Quem fez essas fronteiras foram os governos. Sobre o presidente venezuelano, eu não o conheço, nunca estive com ele. É difícil dizer. Mas eu já fiz uma visita à comunidade dos parentes que moram na Venezuela, lá no rio Orinoco. E vi muitos problemas sérios ali. Lá, os políticos estão se aproveitando e enganando meu povo. Oferecendo dinheiro, comida e outras coisas que não servem para nada. Lá faltam lideranças Yanomami. As lideranças que estão lá são envolvidas com os políticos. Isso deixa a situação muito difícil para as comunidades Yanomami na Venezuela, que precisam se defender, defender a saúde, a língua, nossa cultura. Eu já andei por lá, visitando, e vi que é muito ruim a situação. O governo venezuelano nunca falou com meu povo Yanomami de lá. Então, falta uma liderança como eu, que aprendi a lutar para defender meu povo. Porque é meu povo, nossa terra. Eu entrei na briga política, que é muito perigosa, e continuo lutando. É muito difícil, mas vamos continuar, até conseguir.

João Biehl Como os jovens podem se engajar na luta do povo Yanomami?

Davi Kopenawa Os jovens das universidades são poderosos e muito importantes. Então eu vou pedir a ajuda de vocês. Pedir para que façam uma carta para o presidente norte-americano. Isso é o que eu preciso. Para que ele também nos escute e sinta vontade de dar valor ao meu povo Yanomami. Vontade de proteger, preservar nossa comunidade e manter nossos rios limpos. É disso que precisamos. Então, eu queria que vocês estudantes fizessem uma carta para enviar ao presidente dos Estados Unidos (aplausos da plateia).

Pedro Meira Monteiro Qual é a relação dos xapiri com os sonhos e que papel tem o sonhar na luta para salvaguardar a Amazônia?

Davi Kopenawa O papel do sonho é assim: quando foi criada nossa terra, a Terra-Planeta (Urihi), o sonho tinha uma árvore especial, que foi plantada por Omama 1. Essa árvore ficou grande e deu uma flor. E é ela que manda sonho para cada um de nós, seja quem mora na cidade, nas comunidades ou nas montanhas. O sonho foi criado como nós fomos criados. E nós dormimos para sonhar. Ninguém sonha acordado. Mas na hora que acabamos o trabalho, tomamos banho, comemos, e então nos deitamos na rede para sonhar. Dormir e sonhar. O sonho é muito importante para nós. Para sonhar com lugares bonitos, com as árvores que estão precisando de ajuda, as montanhas, que também estão precisando da ajuda dos pajés. Porque as árvores e as montanhas são como seres humanos. Existem também os sonhos ruins: sonhar com uma onça pegando seus colegas, sua família. Sonhar com a doença entrando na comunidade, morrendo muita gente.

Então tem dois tipos de sonhos, o bom e o ruim. O sonho bom é nossa vida: sonhar com a terra deixando nascer nossa comida. A gente planta para dar banana, maniva, cana, pupunha, tudo com que a gente se alimenta. A terra é muito generosa. É generosa para que todos possam comer. É assim que funciona o sonho. Sobre os xapiri, o xamã sonha com lugares muito distantes, é possível sonhar andando, voando, consegue ver onde está chovendo muito, chuvas que destroem casas e matam as pessoas. É assim que o sonho funciona. Outro sonho bonito é com a riqueza que está na terra, na floresta, a saúde também está na floresta, nossa vida boa, junto com a família, com os filhos. Assim é o sonhar, a possibilidade de ver os dois lados, o bom e o ruim, que nós, os Yanomami, recebemos de Omama.

O evento “The Falling Sky and The Yanomami Struggle” pode ser visto na íntegra no canal do Brazil LAB no YouTube.

Davi Kopenawa é xamã e um dos principais porta-vozes do povo Yanomami. Intelectual que tem estado na vanguarda das lutas pelos direitos dos povos indígenas e das iniciativas de conservação da Amazônia, ele é autor de “A queda do céu”. Em 2021, estrelou e foi um dos roteiristas do documentário “A última floresta”, vencedor do Prêmio do Público da Mostra Panorama do Festival de Cinema de Berlim.

Tradução e organização de Rodrigo Simon e João Biehl.

Rodrigo Simon é postdoctoral associate research no Brazil LAB/High Meadows Environmental Institute da Universidade de Princeton. Doutor em teoria e história literária pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), é mestre em letras pela USP (Universidade de São Paulo). Suas pesquisas se voltam aos intelectuais historicamente marginalizados e à divulgação de obras de artistas indígenas, afro-indígenas e afro-brasileiros.

João Biehl é professor titular da Cátedra Susan Dod Brown e chefe do Departamento de Antropologia na Universidade de Princeton, onde também dirige o Brazil LAB do Princeton Institute for International and Regional Affairs. Tem PhD em antropologia pela Universidade de Berkeley, e em estudos da religião pelo Graduate Theological Union de Berkeley. Estuda antropologia médica e saúde global e é autor dos livros premiados Vita: Life in Zone of Abandonment e Will to Live: AIDS Therapies and the Politics of Survives.

 

‘A gente cuida do universo, para que o céu não caia outra vez’

Davi Kopenawa

Retrato Davi Kopenawa

Foto: DAVID DOOLEY/FOTOBUDDY Davi Kopenawa

 

Um dos mais influentes líderes mundiais na luta pelos direitos indígenas, Davi Kopenawa fala sobre como a ação de garimpos ilegais na Amazônia levou à crise sanitária, destruição ecológica, e ameaça de extermínio de seu povo. O discurso do xamã e líder Yanomami, autor do aclamado “A Queda do Céu”, foi apresentado no evento “The Falling Sky and The Yanomami Struggle”, organizado pelo Brazil LAB e o Departamento de Antropologia da Universidade de Princeton (EUA), em 31 de janeiro de 2023, na mesma universidade

Vou dizer diretamente o que estou sentindo: eu estou de luto porque meu povo Yanomami está doente e morrendo. Nossas crianças estão adoecendo pela doença do homem branco, de doenças que chegam ao nosso território junto com os destruidores, que entram nas comunidades levando malária, gripe, diarreia, verminose e, agora, o coronavírus.

Este problema não é de hoje. Este é um problema antigo, que vem desde que os homens brancos chegaram à nossa terra indígena, e continua acontecendo. Essas são doenças que retornaram para destruir nossa saúde, nossa comunidade e nossa floresta. Isso não é bom. É algo muito triste. Quando você fica olhando de perto, começa a chorar.

Eu não estou aqui dizendo mentiras. Eu estou falando a verdade. Eu sou de lá. Minha casa fica no Território Yanomami. Eu estou vendo com meus próprios olhos nossas mulheres chorando quando as crianças morrem. Isso é muito triste – o que o homem branco está fazendo.

Atualmente, o número de não indígenas que vêm causando esses males é muito alto: 20 mil garimpeiros ilegais estão hoje na Terra Yanomami.

O preço do ouro aumentou. E é por isso que o número de garimpeiros aumentou.

Para eles, o preço do ouro tem valor. Para nós, povos indígenas, não tem. O ouro é só uma pedra, não é algo que se come. O ouro só cria problemas.

É por isso que estou contando tudo isso: para que vocês saibam o que está acontecendo e deem apoio à minha luta, a luta do povo Yanomami.

É importante que vocês ouçam os indígenas. Nós estamos sofrendo, nossas crianças estão morrendo. Nós, os povos tradicionais, não temos culpa. Culpado é quem rouba a terra do povo indígena. Esta é minha mensagem para que você saiba que meu povo está sofrendo.

Foto: FOTO: David Dooley/Fotobuddy - 31.JAN.2023
Participantes sentado sà mesa em evento da Universidade de Princeton. À esquerda da mesa há um banner com o logo do Brazil LAB-Princeton. Da esquerda para direita: Deborah Yashar, João Biehl, Davi Kopenawa e Ana Laura Malmaceda
Mesa no evento “The Falling Sky and The Yanomami Struggle”, na Universidade de Princeton (EUA). Da esquerda para direita: Deborah Yashar, João Biehl, Davi Kopenawa e Ana Laura Malmaceda

O povo Yanomami não pode sofrer. Nós somos seres humanos. Nós sabemos falar, sabemos lutar, sabemos cuidar de nosso lugar, sabemos defender nossos direitos, nossa saúde, nossa língua, nossos costumes. E é o povo Yanomami que está protegendo a Amazônia.

Todos sabem que a Floresta Amazônica é importante, e não apenas para nós, mas para o mundo inteiro.

O número de crianças Yanomami que morreram de doenças e de fome (nos últimos quatro anos): 570 crianças entre dez e catorze anos. E quando os pais morrem, as crianças também morrem. Uma criança sem mãe não consegue sobreviver. Se a mãe pegar malária, ela não vai conseguir procurar comida. É muito difícil para nós. É por isso que nós estamos aqui.

Essa notícia está rodando o mundo inteiro. Isso porque o povo Yanomami é conhecido no Brasil e fora por cuidar da floresta há muitos anos. Nossos antepassados e nossos pajés já cuidavam da floresta.

Essa é minha fala, que estou transmitindo para vocês, para vocês pensarem e sentirem vontade de proteger e defender os nossos filhos Yanomami.

Vocês, estudantes universitários, estão lendo o livro “A Queda do Céu”. Esse livro que nós, eu e meu shori 1 Bruce Albert, que foi à nossa Terra Yanomami e aprendeu a falar nossa língua, escrevemos.

Esse livro foi feito para vocês. Para que vocês conheçam a história do meu povo. Ele conta tudo que aconteceu ao longo de cinquenta, sessenta anos. Ele mostra a sabedoria do povo Yanomami e a minha sabedoria, a partir do que eu sonhei: uma ideia nova, sobre como levar nossa sabedoria para as pessoas da cidade.

Porque as pessoas da cidade não escutam o que é contado pela boca. Só “escutam” o que está escrito. Só entendem quando leem. Quando ouvem o que é dito espiritualmente, verbalmente, não escutam. Por isso eu tive a ideia de escrever nossa história. Eu queria contar nossa história através do livro “A Queda do Céu”. E ele está ajudando a divulgar nossa história.

Eu queria, aqui, também falar sobre os xapiris. Os xapiris da floresta. Eu não gosto de chamá-los de espírito. Espíritos são das igrejas. Esse nome, xapiri, veio viajando até chegar às nossas terras. Na língua Yanomami, eles chamam Xapiri. Eles são os protetores da floresta, da terra, do mundo. Quando está muita chuva, por exemplo, quando o tempo está muito feito, os xapiri trabalham. Trabalham para proteger nossas casas. Não deixam chover muito, porque se chove demais, nossas casas alagam. Eles também trabalham com o sol. Para que o tempo fique limpo, bonito, com os pássaros cantando, e as pessoas fiquem alegres.

Nosso universo, nosso planeta Terra, é disso que cuidamos. Não apenas de nossas casas. Nós, os pajés, a gente cuida do universo, para que o céu não caia outra vez. Essa é a mensagem que está escrita em “A Queda do Céu”. E é por isso que esse livro está entrando em universidades de todo o mundo, nos Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, Itália. O livro está divulgando o nome do povo Yanomami e falando da proteção do universo, da proteção da Terra. Porque nós estamos morando aqui, em um planeta que é único para todo mundo. Nós somos um só povo em toda a Terra. E nós moramos aqui. Awe!

Davi Kopenawa é xamã e um dos principais porta-vozes do povo Yanomami. Intelectual que tem estado na vanguarda das lutas pelos direitos dos povos indígenas e das iniciativas de conservação da Amazônia, ele é autor de “A Queda do Céu”. Em 2021, estrelou e foi um dos roteiristas do documentário “A Última Floresta”, vencedor do Prêmio do Público da Mostra Panorama, do Festival de Cinema de Berlim.

 15 fev 2023

sexta-feira, 21 de abril de 2023

O fim dos tempos ou a finalidade dos tempos?

 Por Paola Roncon

O dominicano Adrien Candiard (Foto: Arquivo Meeting de Rímini)

O dominicano Adrien Candiard (Foto: Arquivo Meeting de Rímini)

Guerra, terremoto, mudança climática… O último livro do dominicano francês Adrien Candiard aproxima o leitor do tema do Apocalipse e do destino último da humanidade. Que não é uma questão temporal
Paola Ronconi
Ao começar a Semana Santa, ressoam em minha mente as notas do Requiem de Mozart, que Dom Giussani nos ensinou a escutar na Sexta-feira Santa. O que podemos dizer desse dia ao Criador? O que podemos implorar mais do que a piedade ao Rei de tamanha majestade? Dies irae, dies illa. «Dia de ira, aquele dia / em que os séculos serão reduzidos a cinzas / como Davi profetizou com a Sibila. / Quanto terror haverá no futuro / quando vier o juiz / para julgar todas as coisas severamente».
Basta abrir o jornal hoje e a visão de São João no Livro do Apocalipse não parece tão longe: guerras, terremotos, naufrágios, seca, crise energética e ambiental…

O fim do mundo é o fio condutor do novo livro do Pe. Adrien Candiard publicado em italiano: Qualche parola prima dell’Apocalisse. Leggere il Vangelo in tempo di crisi [Algumas palavras antes do Apocalipse. Ler o evangelho em tempos de crise]. Encontro com o dominicano francês, estudioso do islã, entre os muros do convento de Santa Maria das Graças em Milão, recém-chegado do Cairo, onde mora, para apresentar este novo ensaio, que oferece sobretudo um excursus por muitos momentos da história em que os homens pensaram que o mundo ia acabar: a destruição do templo de Jerusalém no ano 70, o saque de Roma em 410, a peste negra do século XIV… Mas é evidente que a história não acabou naqueles momentos. Portanto, caberia a nós interpretar os sinais e esperar o fim. Na verdade, o Pe. Candiard relê o capítulo 13 do Evangelho de Marcos, onde Jesus anuncia devastações, tribulações e nos pede estar vigilantes. O dominicano nos toma pela mão e com uma linguagem simples e imediata nos leva a deixar de lado as nossas convicções (mais religiosas ou menos, mais milenares ou menos) nesta matéria. Apocalipse, em grego, significa “revelação”, e estas palavras de Jesus, que assustaram bastante os apóstolos, na verdade não se referem a um momento do tempo. Não se trata de sombrias profecias no calendário, mas de uma ajuda para «descobrir o sentido da história humana, isto é, seu significado». Não o fim como o final, Candiard nos diz, mas o fim como a finalidade, «objetivo para o qual tende toda a história humana». Objetivo que não estará no final, mas que começa hoje para todo ser humano, «está presente ao longo de toda a história» e consiste em tomar consciência de sermos amados. Amados por um amor divino.

Você diz em seu livro que não são os acontecimentos que nos permitem ler e entender o discurso apocalíptico de Jesus, mas, pelo contrário, suas palavras é que nos permitem «compreender o que acontece em nosso mundo… o fim do mundo e de todo homem é o amor». Se é assim, não há nada a temer, todos desejamos ser amados.
Naturalmente, mas nada é mais desestabilizador que o amor. Quando estamos na frente do amor, temos dificuldade em aceitá-lo. Refiro-me ao amor de verdade, ao amor divino, esse cuja fonte os homens encontram em Deus. Esse é o verdadeiro mistério do mal e de nossa vida. Perdemos muito tempo, por exemplo nas homilias, no esforço de amar, encontramos um caminho intermediário para torná-lo mais aceitável, mas não falamos da dificuldade real: ser amados. Isso nos daria a chave para a segunda pergunta: como amar. Mas antes precisamos aceitar que somos amados. Isso sempre nos custa. No Evangelho, aqueles que levam Jesus à morte o fazem porque não aceitam seu amor aos pecadores. Mesmo os discípulos, diante do gesto de Jesus no lava-pés, a primeira reação de Pedro é se negar. «Posso lavar os pés de quem quiseres, mas deixa-me em paz, não venhas lavar os meus pés sujos. Não! Meus pés não são dignos de ti». Este é o pecado de não aceitar o amor divino.

Por que você acha que o rejeitamos?
Este amor incondicional, total, é literalmente avassalador. Creio que a gratuidade do amor nos dá medo. Quando um dom é gratuito, não é nosso. Sem merecê-lo ou comprá-lo, não será nosso. Os judeus no deserto, depois de saírem do Egito quando Deus lhes manda o maná, começam a fazer provisões. Dizem: «Se acabar o amor de Deus, se Ele nos deixar sozinhos, será preciso ter reservas». Queremos merecer as coisas para que sejam nossas, mas o relacionamento com Deus se baseia na gratuidade do dom. Quando aceitamos que nunca merecemos a santidade, mas ela nos é dada de qualquer maneira, então começa algo novo em nós. Neste ponto, podemos amar o próximo porque o amor com que o amamos é de Deus, não nosso. «Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei». Este “como” – em grego se entende melhor – é “com o amor com que vos amei”. “Amai com o amor que vos dou amando-vos”. Objeção: “Então terei que estar à altura…” E assim nós nos enganamos.

Você diz que a vinda de Jesus é «apocalipse, revelação do que está oculto no coração do homem – tanto do melhor como do pior». Há aqueles que não aceitam Jesus e O matam e depois há os discípulos que O seguiram, mas em todos nós coexistem ambas as posturas.
Estamos no meio, aceitando e rejeitando este amor, tentando aceitar e seguir. E nossa decisão nunca é definitiva. Por isso não podemos dizer: o mundo rejeitou o amor de Deus. Não. Eu também me incluo nisso.

Quando você fala da conversão, você diz que não se trata de entrar no “clube dos cristãos”, «não é a adoção de uma identidade cristã, mas a acolhida do amor de Deus oferecido em Jesus».
Podemos dar um colorido cristão, folclórico ou cultural a valores completamente mundanos. Podemos viver o cristianismo como uma identidade entre outras, que devemos defender como nossa, que devemos proteger porque está ameaçada pelo islã e pelo secularismo. Podemos pendurar em nossas paredes imagens de Cristo, mas se não aceitamos o amor de Deus, total e gratuito, então falamos de outra coisa.
Podemos levantar a cruz como uma bandeira, mas corremos o risco de negar essa mesma cruz. E ainda bem! Se eu faço duas pessoas se conhecerem e se apaixonarem, ainda bem que não depende de mim. Seria terrível. O que converte é o encontro com Jesus Cristo. É Ele quem age. Creio que sempre nos dá um pouco de medo deixar-Lhe espaço, mas se temos medo de que Deus não dê conta, então é melhor deixar para lá.

Neste período a palavra “apocalipse” soa muito atual: a guerra, o terremoto… mas nos acostumamos a viver estas situações ou a senti-las como algo distante.
A pandemia foi uma experiência muito significativa. Vimos que todos estamos no mesmo barco, ficamos diante de um mundo que para. Depois, há a questão climática. Estamos vivendo uma época de secas que há dez anos pareciam impossíveis. O sentimento de estar a salvo desmorona. A guerra da Ucrânia também nos mostra que todos estamos conectados. Um conflito local, uma invasão, repercute no comércio e na inflação do outro lado do mundo. Além disso, o risco nuclear é considerável em todo o planeta.

E qual é a tarefa do cristão diante de tudo isso?
A ligação que existe entre o meu coração e a história da humanidade nos oferece uma primeira resposta. Posso deixar que vença o amor de Deus na minha vida, e isso não é algo egoísta ou pessoal. Se eu aceitar esta aventura de ser amado por Deus, não sei onde isso vai me levar, vamos ver onde isso me leva. Quando os apóstolos aceitaram seguir Jesus, nunca teriam imaginado que suas vidas terminariam a três mil quilômetros de distância, em Roma. Tudo estava completamente fora do previsto. Portanto, o importante não é fazer grandes projetos. Ele se encarregará de buscar o caminho. Eu começo por este amor, começo a compartilhá-lo… e veremos. Se já me levar para casa, pode ser muito importante.

“Para casa”, em que sentido?
De nada serve amar a África e sonhar em ajudar crianças que morrem de fome se em casa sou duro e violento. Amar é um verbo que se conjuga no singular. Amamos as pessoas uma a uma. Amamos as pessoas que vemos. Encontramo-nos diante de “próximos” que antes não podíamos imaginar. E se trata de amar justamente a esses, não àqueles que se parecem conosco.

A salvação se joga no coração de cada um, isso é o Apocalipse?
O Apocalipse revela que o coração é o lugar da salvação e a salvação é Jesus Cristo. O mais radical não é “o juízo de Deus” no fim do mundo, mas o Seu amor, porque o amor é a coisa mais exigente que existe, muito mais que a mera “obediência”. O amor que Deus nos oferece exige tudo.
 
Fonte: https://portugues.clonline.org/not%C3%ADcias/cultura/2023/04/14/adrien-candiard-apocalipse?utm_campaign=Newsletter+de+Comunh%c3%a3o+e+Liberta%c3%a7%c3%a3o&utm_medium=email&utm_source=CamoNewsletter

quinta-feira, 20 de abril de 2023

A força da oração

 Andrea Tornielli – Vatican News

No editorial desta segunda-feira (3) de Andrea Tornielli, diretor editorial da mídia do Vaticano, o abraço dos fiéis ao Papa que pede para não esquecerem de rezar por ele.

Uma das características de Jorge Mario Bergoglio sempre foi aquela de pedir aos seus interlocutores de rezar por ele. Mesmo muitos anos antes de tornar-se bispo de Roma, ele não terminava uma conversa ou uma carta sem aquela frase que o mundo inteiro aprendeu a conhecer na última década: “Por favor, não se esqueça de rezar por mim”. Para o jesuíta argentino que hoje é o Sucessor de Pedro, aquelas palavras nunca foram uma questão de circunstância e, mesmo se repetidas milhares de vezes, nunca se tornaram um hábito.

Pouco depois da eleição de Papa Francisco, o jornalista argentino Jorge Rouillón escreveu um artigo para contar o que havia acontecido com ele alguns anos antes, quando Bergoglio era arcebispo de Buenos Aires. “Um dia pedi ao cardeal se podia rezar por mim, porque naqueles dias eu estava esperando o resultado de um exame médico da próstata e existia a dúvida de que poderia haver algo maligno. O resultado foi então positivo para mim e eu havia esquecido completamente o assunto. Dois ou três meses depois, voltei a ver o arcebispo de Buenos Aires. Assim que ele me viu, me perguntou: ‘Devo continuar rezando?’ Eu tive que pensar antes de entender a que coisa ele estava se referindo. Ele tinha continuado a ter em mente na sua oração pessoal o que por mim tinha passado para segundo plano”.

A oração para quem pede para ser acompanhado e protegido é uma forma para estar próximo e presente ao outro no momento de necessidade e corresponde ao que o próprio Jesus ensinou e testemunhou no Evangelho. Era 13 de outubro de 2013 quando Francisco, em uma homilia da missa na Santa Marta, falou da “coragem da oração”: “Como rezamos, nós? Rezamos assim, por hábito, piedosamente, mas em silêncio, ou nos colocamos corajosamente diante do Senhor para pedir a graça, para pedir pelo que rezamos? A coragem na oração: uma oração que não seja corajosa não é uma oração verdadeira. A coragem de confiar que o Senhor nos ouve, a coragem de bater à porta… O Senhor diz: ‘Porque quem pede recebe e quem procura encontra, e a quem bate será aberto’. Mas é preciso pedir, buscar e bater”.

Quantos pedidos de oração, quantas súplicas chegaram ao Sucessor de Pedro nos últimos anos e foram acolhidas por ele na sua oração pessoal, como foi o caso com a do seu amigo jornalista argentino. Há, no entanto, outra corrente, invisível e poderosa, representada pelas orações de milhões de fiéis ao redor do mundo. Mulheres, homens, crianças, idosos, famílias. Pessoas simples que, ouvindo o Papa pedir orações no final de cada Angelus, de cada audiência, de cada discurso e de cada encontro, levaram a sério o seu pedido e continuam a rezar diariamente por ele e pelas suas intenções. O presente mais bonito para o Bispo de Roma que ama tanto “ser padre” e que não se poupa, como vimos também durante a sua recente hospitalização no Policlínico Gemelli, é ser apoiado por essas grandes orações dos pequenos. O povo de Deus que não se esquece de rezar por Francisco, no domingo (2) se alegrou ao revê-lo na Praça São Pedro.

Fonte: https://ideeanunciai.wordpress.com/2023/04/20/a-forca-da-oracao/

Minhas (in)definições

Por Juremir Machado da Silva*


Minhas (in)definições "
Uma parte de mim transborda. A outra parte se encolhe" (Foto: Jens Lelie/Unsplash)

Tem certos dias – não posso começar de outro jeito – em que acordo disposto a me definir. Começo com algumas paráfrases de títulos de obras famosas: um lírico tardio na periferia do capitalismo mais do que tardio. Por que eu seria um lírico? Talvez por este gosto anacrônico pela poesia metafísica, pelo cotidiano melancólico, pelas imagens da infância e pelas paisagens que só existem na memória. A definição que mais cola em minha pele, contudo, vem de um livro que li quando tinha apenas 20 anos de idade: “Contra o método”, do físico austríaco naturalizado americano Paul Feyerabend. Sou um “anarquista epistemológico”: “Enquanto o anarquista político ou religioso pretende afastar certa forma de vida, o anarquista epistemológico desejará, talvez, defendê-la, pois não tem lealdade permanente para com qualquer instituição, nem permanente aversão contra ela”. Nunca fui petista. Não teria problema algum em ser petista. Continuo não sendo petista.

Escrevi muito. Nem sempre fui lido. Contemplo meus romances na prateleira e desejo-lhes boa sorte no futuro. Romântico, acredito que ainda serão reconhecidos. Poeta, enfrento o preconceito dos especialistas por ser intelectual. Pelo dogma moderno, intelectuais, racionalistas por excelência, não fazem arte. Fiz tudo que me deu vontade, o que atrai desconfiança. Se faz tudo, não pode fazer nada bem. Claro que para muitos nem intelectual sou. O que me define? Um jeito estranho de estar no mundo. Não me encaixo em qualquer dos figurinos disponíveis. Tenho um jeito torto de enxergar as coisas que desagrada a maioria. Gosto de tecnologia, mas detesto deslumbramento tecnológico e o que Dominique Wolton chama de “ideologia tecnicista”.

Para fazer sucesso como escritor no Brasil é preciso se encaixar no modelito fashion Companhia das Letras ou Todavia. Não caibo nele. Uma parte de mim transborda. A outra parte se encolhe. Para desespero dos que me detestam sempre encontro uma maneira de continuar vivo. Fui declarado morto várias vezes. Renasci das cinzas. O meu desencaixe aparece até nas amizades de que me orgulho e que causam desassossego. Um Michel Houellebecq. Andei por tantos lugares, conheci tanta gente, sempre me aproximei dos deslocados. Aprendi com meu amigo Jean Baudrillard a nunca estar onde me esperam. Posso ser desmesurado. Com a maravilhosa Taline Oppitz fiz o melhor programa político de rádio do Rio Grande do Sul durante dez anos. A categoria nunca o reconheceu. 

Quando era muito jovem, adolescente ainda, escrevi uma peça de teatro. Havia uma febre de teatro amador na cidade. O menino diretor de outra peça chamou a minha de tosca. Era de um realismo brutal. Dediquei-lhe recentemente um poeminha bem barato e bastante tardio:

Imitação

Quando eu cresci,
Um menino louro e rico,
Me disse: vai, eu fico.
Vai ser tosco na vida.
Obedeci.

O que há neste meu olhar que sempre busca o ponto que foge? Na direita, vejo truculência e atraso comportamental. Na esquerda, adesismo beato. No centro, esperteza. Minha avó me definiu com precisão antes de qualquer um: “Esse guri é sempre do contra”.

Tenho dito.

O que o leitor tem com isso? Nada.

*Jornalista. Escritor. Prof. Universitário. Cronista do Matinal

Fonte:  https://www.matinaljornalismo.com.br/matinal/colunistas-matinal/juremir-machado/juremir-minhasindefinicoes/

quarta-feira, 19 de abril de 2023

As mulheres e o medo de agir

 As mulheres e o medo de agir – Lacuna

[ Women’s Fear of Action ]

 por Karen Horney

Tradução | Larissa Ramos da Silva

Palestra proferida em 1935 na National Federation of Professional and Business Women’s Clubs, nos Estados Unidos. Publicada pela primeira vez em 1994, postumamente, como anexo da biografia de Horney escrita por Bernard J. Paris [Paris, B.J. (1994). Karen Horney: a psychoanalyst’s search for self-understanding. New Haven e Londres: Yale University Press.], a partir de documentos encontrados por ele nos pertences do ex-aluno, e também biógrafo de Horney, Harold Kelman.

 

Olhando em retrospectiva para a história da posição da mulher nos últimos séculos, nota-se um fato marcante: em tempos nos quais foram seriamente concedidas às mulheres todas as oportunidades para o desenvolvimento de valores humanos, como no tempo anterior à Revolução Francesa — o chamado período iluminista — não houve interesse em aspectos específicos da psicologia feminina. O ideal era de que todos os seres humanos deveriam desenvolver plenamente suas potencialidades independentemente do sexo. Em períodos politicamente revolucionários, como o tempo após a Revolução Francesa — chamado de período do romantismo — e também na crise econômica atual, surge um interesse exacerbado na “natureza” da mulher.

Por algum tempo eu não questionei esse interesse na psicologia feminina. Eu trabalhei no campo da psicopatologia feminina e frequentemente me perguntam quais são, no meu entendimento, os traços específicos da psicologia feminina. A única resposta que posso dar é que espero saber em algum momento futuro, pois após toda a especulação de psicólogos acerca das possíveis diferenças entre homens e mulheres, parece que não fomos além das muito antigas discussões do Talmude — notadamente, que não sabemos muito sobre traços específicos além das diferenças biológicas que as mulheres têm. Então me ocorreu que não era tão importante tentar encontrar a resposta sobre a questão das diferenças quanto entender e analisar o real significado desse interesse agudo na “natureza” feminina atualmente.

Por que as pessoas estão tão interessadas na “natureza” da mulher? Existem razões vitais, razões econômicas baseadas na índole altamente competitiva da sociedade. Embora muitos indivíduos não percebam, eles não estão honestamente buscando respostas válidas para a questão das diferenças. O que eles realmente querem é provar algo que os favorece, ou o que parece favorecê-los a curto prazo: que está em absoluto acordo com a “natureza” da mulher que ela se mantenha fora dos campos competitivos do trabalho e permaneça restrita aos campos emocionais da vida, se preocupando com caridade, sexualidade e criação de filhos. Quer seu argumento esteja embasado no pecado de Eva, como na Igreja Católica, ou nas regras estabelecidas pela filosofia alemã a respeito das relações sexuais, ou nas declarações de Freud sobre as diferenças anatômicas, o resultado é o mesmo. Não parece fazer diferença, em relação aos efeitos nas mulheres, se há um distanciamento científico ou uma atitude francamente depreciativa; quer seja, como nos países fascistas, com a deificação das qualidades da mulher do lar ou, como em outros países, com a expressão de preocupação com a justiça social ou a felicidade da mulher. Todas essas atitudes oscilam com o aumento ou a diminuição da competitividade econômica. Quando os empregos estão escassos, se torna necessário provar de qualquer maneira possível que a “natureza” da mulher impede seu livre acesso ao mercado.

Qualquer aumento repentino no interesse sobre as diferenças sexuais deve ser visto, portanto, como um sinal de perigo para as mulheres, particularmente em uma sociedade patriarcal na qual homens encontram vantagens em provar, com premissas biológicas, que as mulheres não devem participar na construção da ordem política e econômica. Nesse contexto, convicções elaboradas servindo aos interesses de ideologias masculinas tornam-se meios estratégicos de preservar a superioridade masculina no mundo político e econômico através do convencimento da mulher de que ela é, de forma inata, feliz em se manter de fora dele.

Muitas vezes as próprias mulheres servem para reforçar essas convicções. Elas frequentemente consideram objetivos profissionais como secundários em relação ao amor e ao casamento. Elas se tornam tão preocupadas com o lado emocional da vida que pouco se ocupam de grandes problemas que movimentam e agitam nosso tempo. Elas se tornam dependentes, desenvolvendo uma necessidade predominante de serem cuidadas. Todas essas atitudes ajudam a sustentar as teorias que os homens desejam estabelecer como meio de eliminar as mulheres da competição.

Até aqui está tudo muito claro e tem sido dito de tempos em tempos, mas nós nem sempre reconhecemos seu significado mais profundo: que qualquer grupo da população, restrito em suas atividades por um longo período de tempo, passa por certas mudanças psíquicas; que entre indivíduos do grupo oprimido ocorre uma adaptação psíquica que os leva a aceitar as limitações que o grupo dominante considera vantajoso impor. Portanto, amor e devoção passaram a ser considerados como ideais e virtudes especificamente femininos; cuidar da casa e criar filhos como a única possibilidade para alcançar felicidade, segurança e prestígio. Embora em anos recentes tenha havido grandes mudanças, os efeitos psíquicos da longa história de restrição permanecem.

Algumas das consequências psíquicas das atitudes das próprias mulheres, que acreditamos que existam e de fato encontramos, são as seguintes:

1. Já que o portal para a felicidade, segurança e prestígio da mulher dependia de suas relações com casa e filhos, esses vieram a ser considerados os únicos reais valores da vida para as mulheres. A garota “louca por homens”, a mulher que fica perdida e miserável se não está sendo continuamente procurada por homens, representa o resultado extremo de tanta supervalorização do amor e da sexualidade. Esses tipos fornecem evidências para psicólogos que gostam de crer que “A essência do ser da mulher é o amor” ou “A sexualidade é algo central para as mulheres e periférico para os homens”, e assim por diante. Na verdade, seria difícil explicar como, dadas as condições, a mulher pudesse evitar a supervalorização da sexualidade e do amor. O efeito mais sério dessa ênfase na mulher é que ela acaba esperando demais das relações com homens e filhos e, muitas vezes, fica condenada a uma amarga decepção. A mulher que concentra suas expectativas nas relações com marido e filhos, seja na forma de objetivos ambiciosos ou de gratidão e apego em relação a ela, prejudica marido e filhos e a si própria, e fica muito propensa a, por fim, fazer com que o relacionamento emocional do qual ela depende tão fortemente torne-se completamente insatisfatório.

Outro resultado desastroso dessa supervalorização do amor é que ela está fadada a degradar qualquer objetivo fora dessa esfera. Assim, vemos a atitude neurótica da mulher que considera esses outros objetivos como substitutos insatisfatórios para os quais ela olha com secreto ressentimento. Sua atitude interna se expressa em frases como “Já que não sou atraente para os homens, tenho que ser professora” ou “Eu não era do tipo feminino, não tinha atrativos sexuais, então tive que entrar para os negócios”. Por não respeitar esses outros objetivos que para ela são apenas substitutos às preocupações “normais” das mulheres, ela não consegue dedicar toda sua energia a eles. Uma corrente subterrânea de resistência, que interfere em sua devoção sincera, prejudica sua satisfação e seu sucesso e dá espaço à crença dela própria de que ela é inferior e incapaz. Existem muitas outras fontes para a convicção de inferioridade das mulheres, é claro, mas essa é uma importante, porque tão frequentemente as impede de se tornarem ativamente e genuinamente ocupadas das grandes questões políticas e econômicas do nosso tempo, mesmo quando esses interesses mais amplos concernem à própria posição das mulheres no mundo e deveria ser de vital interesse para elas. Essa é uma das razões pelas quais a mulher não tem sido mais ativa em melhorar as próprias condições; tal ação está fora do círculo mágico no qual sua existência foi confinada.

2. Como a realização, para a mulher, veio a significar amor, sexo, casa e filhos, todos dependendo de sua relação com o homem, tornou-se de importância primordial agradar o homem. Assim surgiu o culto da beleza e do charme. Bem como o medo de não ser “feminina”. Não ser feminina incluía qualquer atitude ou crença que se opunha às ideias masculinas sobre a ordem divina das coisas. Ser “feminina” era ser submissa e devotada independentemente de como era tratada. Qualquer luta por melhorias na posição da mulher era, portanto, “não-feminina”, uma negação do que veio a ser aceito como a “natureza” da mulher. Hoje, o resíduo desse medo visto na falta de interesse, na atitude do tipo “não me importo”, é a expressão aparente de um medo subterrâneo que pode ser melhor explicado por uma ilustração com a qual estamos todas familiarizadas. Aqui está uma mulher que não liga para festas. Ela não pode ser persuadida a ir a festas porque, ela diz, prefere ler sozinha em casa. Ela está sendo honesta; sua falta de interesse é genuína; ela está interessada em outros objetivos, mas geralmente essa falta de interesse está enraizada no medo. Ela tem medo de ser rejeitada ou encontrar críticas, mas não sabe que tem medo. Ela não sabe que quando diz que não liga para festas ela está, na verdade, expressando seu medo inconsciente.

Da mesma forma, encontramos uma corrente subterrânea de medo que impede as mulheres de tomar uma ação em esferas econômicas e sociais que as dizem respeito de maneira vital. É importante que reconheçamos esse medo subconsciente, porque é necessário, se vamos mudar nossas atitudes, entendermos as fontes de energia que as sustentam.

3. O medo de desagradar os homens não é a única angústia criada pela restrição [à esfera emocional]. O medo de perder o apelo erótico conforme a idade é uma angústia muito real e aguda devido à mesma valorização da vida amorosa. Exceto em tempos nos quais o desemprego é muito comum, consideramos definitivamente neurótico que um homem se torne amedrontado e deprimido conforme chega à meia idade; em uma mulher isso é visto como natural, e de certa forma é natural porque a atratividade física passou a representar o valor supremo para as mulheres. Esse medo de envelhecer[1] já é patético o bastante, mas possui dois aspectos que são mais sérios do que geralmente reconhecemos e também contribuem para a inatividade das mulheres no mundo do trabalho. Esse medo da idade não é limitado ao período no qual ela não está mais no seu auge. Ele joga sua sombra sobre a maior parte dos anos depois dos vinte e cria um sentimento de insegurança que atrapalha o ritmo da vida. Uma mulher de trinta e cinco ou quarenta dirá: “Mais cinco anos e minha vida estará em decadência”. Ela sente que deve amontoar muitas coisas no pequeno período que lhe resta. A angústia e o quase desespero que resultam disso colaboram para a inveja entre mães e filhas adolescentes e frequentemente estragam suas relações, assim como deixam uma hostilidade remanescente em relação a todas as mulheres.

A idade é um problema para todos, é claro, homens e mulheres, mas se torna um desespero se os valores principais da vida são centrados na juventude e na atratividade erótica. Quando o centro de gravidade é a juventude, torna-se difícil para as mulheres reconhecer o valor de qualidades da maturidade, como estabilidade, independência, autonomia de juízo, sabedoria — qualidades que têm um valor alto para a cultura como um todo. A personalidade madura deveria ser mais segura e forte que a personalidade jovial, pois tem a vantagem da experiência, mas como a mulher que está amadurecendo vai desenvolver essa segurança e essa força se ela acredita que sua natureza demanda que o amor seja o centro e o único propósito de seu ser e, ao mesmo tempo, ela reconhece seus anos de maturidade como anos de declínio nessa esfera? Essa ênfase em valores eróticos e a importância preponderante do sexo resultam em um grande desperdício de valores humanos para as mulheres. A mulher jovem sente uma segurança temporária por sua habilidade de atrair homens, mas as mulheres maduras geralmente não escapam da desvalorização, mesmo aos próprios olhos. E esse sentimento de inferioridade as rouba da força para a ação que pertence, com razão, à maturidade.

Sentimentos de inferioridade são os males mais comuns de nosso tempo e nossa cultura. Certamente não morremos deles, mas penso que são, mesmo assim, mais desastrosos para a felicidade e o progresso do que câncer ou tuberculose. Quando o assunto dos sentimentos de inferioridade aparecem, geralmente alguém comenta: “Mas homens também têm sentimentos de inferioridade”. Verdade, mas existe uma diferença importante: via de regra, os homens não se sentem inferiores só porque são homens, mas uma mulher frequentemente se sente inferior por ser mulher. A restrição da mulher a uma esfera emocional privada leva a sentimentos de inferioridade porque uma autoconfiança sólida e segura deve se valer de uma base ampla de qualidades humanas como iniciativa, coragem, independência, capacidade de dominar situações, talentos, valores eróticos. Enquanto cuidar do lar era uma grande tarefa com muitas responsabilidades, enquanto o número de filhos não era restrito porque filhos somavam à riqueza da nação, a mulher sabia que era um fator construtivo no processo econômico. Essa convicção lhe deu uma base sólida para a autoestima. Como todas sabemos, esses valores foram gradualmente desaparecendo e a mulher perdeu um importante alicerce para se sentir valorizada.

Quanto ao lado puramente sexual, as influências puritanas, independentemente de como forem avaliadas, certamente contribuíram para a inferiorização da mulher por dar à sexualidade a conotação de algo pecaminoso e baixo. A mesma atitude em relação à sexualidade em uma sociedade matriarcal teria rebaixado os homens ao nível de criaturas animalescas. Numa sociedade patriarcal, estava fadada a fazer da mulher o símbolo do pecado, como retratado nos primórdios da literatura cristã. Via de regra, a mulher não sabe, ela própria, que a sombra que ela sente em sua autoestima vem, até certo ponto, de fontes sexuais profundamente enraizadas na cultura cristã.

A autoconfiança construída a partir do sucesso em dar e receber amor é construída em uma base muito pequena e instável. É muito pequena porque deixa de fora muitos valores da personalidade, e é muito instável porque depende demais de acontecimentos externos, como encontrar parceiros adequados, possibilidades de casamento, etc. Muito frequentemente, leva à dependência da afeição e apreciação da outra pessoa, com um profundo sentimento de desvalor se não é amada e apreciada. Essa dependência emocional também envolve medo de críticas e do ridículo, o que nos leva de volta ao ponto original; que toda mulher que luta para realizar suas potencialidades como pessoa se expõe a todo tipo de insinuações e ao ridículo. Ela deve reconhecer que isso é uma técnica e estar preparada para enfrentá-la.

Já me disseram algumas vezes que, apesar de que o quadro que desenhei possa ser correto para mulheres europeias, é um tanto diferente neste país. Na medida em que a mulher americana teve sucesso em conquistas importantes fora do lar, essa é uma distinção válida. Ela é um grande fator na vida social e cultural dos Estados Unidos. As atividades artísticas são vistas como um campo aberto para as mulheres daqui. Mas, embora as oportunidades para mulheres sejam certamente maiores que na Europa, não devemos nos iludir com as aparências. Pois o princípio é o mesmo aqui e lá. A autoconfiança geral, que é o capital psíquico para as realizações, não foi conquistada porque algumas mulheres alcançaram sucesso na competição com homens. Existem muitas tarefas negligenciadas que requerem iniciativa, imaginação criativa, coragem, planejamento, autonomia [que só podem ser realizadas] por mulheres dotadas dessa autoconfiança ou capital psíquico.

Já que é impossível ter sucesso em uma batalha sem sentir que temos motivos para ela, onde podemos encontrar justificativas para essa luta das mulheres pela autoconfiança? A partir deste pensamento: enquanto as mulheres forem limitadas em suas personalidades, homens e filhos também serão afetados. Se lutarmos pela chance de desenvolvermos nossos valores humanos certamente seremos nós mesmas mais felizes, e homens e crianças irão se beneficiar igualmente. Em última análise, é uma parceria, pois o bem-estar de todos depende do sucesso nesta luta contra os preconceitos e medos dos homens.

Se acreditava que algo inato nas mulheres fazia com que fosse impossível que elas trabalhassem juntas cooperativamente. É verdade que a longa restrição da mulher à esfera emocional fez com que a tomada de ação em solidariedade fosse mais difícil para ela. Dentro de sua esfera erótica só havia a competição individual, e a competição tem sido mais forte entre mulheres do que entre homens. Havia muita ansiedade e insegurança que contribuía para grande parte da hostilidade entre mulheres, o que fez com que fosse difícil que trabalhassem juntas. Isso suscitou, mesmo entre os maiores psicólogos, a crença de que mulheres sentem mais inveja que homens por motivos biológicos.

Até recentemente os homens, e apenas homens, foram forçados pelos seus próprios interesses a criarem grupos cooperativos para a ação política e econômica. Essa foi uma educação básica para a solidariedade em um campo particular que se expandiu para uma atitude geral de solidariedade e desenvolveu a disciplina para a ação em conjunto.

Essa solidariedade é um pré-requisito necessário para qualquer grande ação, e se torna altamente desejável para as mulheres por causa de toda a insegurança interna que elas sentem. Quanto mais inseguro o indivíduo se sente, maior é sua necessidade de ser apoiado pelo laço da solidariedade.

Não é suficiente dizer, como as mulheres estão dizendo com frequência hoje em dia, que precisamos superar o delírio de inferioridade. É mais que uma ilusão; existem desvantagens reais, iguais em importância aos obstáculos externos que temos de superar. Primeiramente, precisamos entender que não existem qualidades inalteráveis de inferioridade do nosso sexo devido a leis de Deus ou da natureza. Nossas limitações são, na maioria, culturalmente e socialmente condicionadas. Homens que viveram sob as mesmas condições por um longo período desenvolveram atitudes e limitações similares.

De uma vez por todas devemos parar de nos incomodar com o que é feminino e o que não é. Essas preocupações só consomem nossas energias. Padrões de masculinidade e feminilidade são padrões artificiais. Tudo que podemos saber com certeza no presente sobre as diferenças sexuais é que não sabemos quais são. Diferenças científicas entre os dois sexos certamente existem, mas nunca conseguiremos descobrir quais são até termos primeiro desenvolvido nossas potencialidades enquanto seres humanos. Ainda que pareça paradoxal, vamos descobrir sobre essas diferenças apenas se esquecermos delas.

Enquanto isso, o que podemos fazer é trabalhar juntas pelo pleno desenvolvimento das personalidades humanas de todos em prol do bem-estar geral.


[1] Horney utiliza o neologismo age-phobia, que neste caso se expressa melhor como medo de envelhecer, ao contrário da palavra ageism, que refere-se ao preconceito e à discriminação de pessoas mais velhas, embora possa-se pensar que, no argumento da autora neste texto, as duas significações poderiam estar relacionadas. (N. de T.)



* Karen Horney foi uma psicanalista alemã que trabalhou nos Estados Unidos últimos anos de sua carreira. Suas teorias questionavam algumas visões tradicionais freudianas, especialmente as suas teorias acerca da sexualidade.

** Larissa Ramos da Silva é psicóloga e Mestre em Psicanálise: Clínica e Cultura pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). E-mail: larissa.ramos63@gmail.com




COMO CITAR ESTE ARTIGO | HORNEY, Karen (2022) As mulheres e o medo de agir. Lacuna: uma revista de psicanálise, São Paulo, n. -13, p. 2, 2022. Disponível em: <https://revistalacuna.com/2022/08/06/n-13-03/>.

Fonte: https://revistalacuna.com/2022/08/10/n-13-03/

terça-feira, 18 de abril de 2023

Lula na China

 Por JOSÉ LUÍS FIORI*



A política internacional também pode ser lida como uma complexa rede de “conspirações” que acabam se transformando em golpes de Estado.

“As “grandes potências” se protegem coletivamente, impedindo o surgimento de novos Estados e economias líderes, através da monopolização das armas, da moeda e das finanças, da informação e da inovação tecnológica. Por isso, uma “potência emergente” é sempre um fator de desestabilização e mudança do sistema mundial, porque sua ascensão ameaça o monopólio das potências estabelecidas” (José Luís Fiori. História, Estratégia e Desenvolvimento. Para uma Geopolítica do Capitalismo. Boitempo, p. 35).

Este artigo repropõe uma discussão estratégica indispensável e urgente. Seu corpo principal foi escrito e publicado em maio de 2014, com os olhos postos nas eleições presidenciais de outubro daquele ano. Depois disso, entretanto, Dilma Rousseff foi reeleita, mas a elite conservadora brasileira acovardou-se e desfechou um golpe de Estado que já vinha sendo preparado há alguns anos, com o apoio do governo norte-americano. Esse golpe abriu portas para a ascensão da extrema-direita no país, e para formação de um governo, dois anos depois, que promoveu um imediato alinhamento com os Estados Unidos, junto com a aplicação de um choque econômico ultraliberal que desmontou a economia e a sociedade brasileiras.

Tudo isto aconteceu quase no mesmo momento em que os Estados Unidos e seus aliados europeus apoiavam e promoviam outro golpe de Estado, desta vez na Ucrânia, dando início a uma crise internacional que trouxe de volta a guerra para o coração do Velho Continente. No Brasil, o novo presidente bateu continência várias vezes para a bandeira norte-americana, e a política econômica ultraliberal do governo rebaixou o país da sua condição de sétima para a décima-segunda potência econômica mundial.

Da mesma forma, também na Ucrânia, o golpe de Estado acabou instaurando no governo uma coalizão de extrema-direita que se propôs a acelerar a inclusão do país na União Europeia e na OTAN, provocando a reação russa que culminou com a invasão militar do seu território e deu início a uma guerra entre a própria Rússia e os EUA/OTAN que se prolonga até hoje.

Em 2023, o Brasil retomou democraticamente o caminho do pragmatismo internacional e da soberania econômica nacional. E as duas pontas desta história se encontraram quando o novo governo brasileiro decidiu assumir uma posição ativa na tentativa de apaziguamento da Ucrânia e de negociação dos interesses das partes envolvidas no conflito. No entanto, agora enfrenta um problema, pois a negociação de paz, neste caso, só irá à frente se todas as partes envolvidas participarem do processo e aceitarem negociar a paz, incluindo evidentemente, os Estados Unidos e seus satélites da OTAN. Tudo isto ao mesmo tempo em que o sistema geopolítico e econômico internacional atravessam um processo de transformação profundo, radical, quase telúrico.

Houve a pandemia; a economia mundial enfrenta uma nova crise inflacionária e financeira; o próprio sistema econômico mundial entrou num processo acelerado de “desglobalização”; e as políticas econômicas protecionistas e nacionalistas, típicas de períodos de guerra, voltaram a ocupar lugar central no mundo das grandes potências. Mesmo assim, o diagnóstico feito há oito anos, sobre o lugar internacional ocupado pelo Brasil, junto com seus desafios, segue sendo exatamente o mesmo, com a diferenças de que as ameaças externas agora são muito maiores, seja pela pressão da guerra que está em pleno curso, seja pelo poder aumentado das sanções econômicas praticadas pelos Estados e pelos agentes financeiros privados envolvidos no sistema de pagamentos internacionais, o SWIFT, sediado em Bruxelas mas tutelado pelo Banco Central e pelos Departamentos de Estado e de Justiça norte-americanos.

Por isso, é interessante retomar o caminho da análise e da discussão das alternativas estratégicas do Brasil, tal como estava posto logo antes da “degringolada” direitista do panorama político e ideológico do país, e da desmontagem estatal promovida pelo fanatismo ultraliberal da elite financeira brasileira. O mundo mudou, a supremacia euro-americana está sendo questionada, e o mais provável é que tenhamos uma nova ordem geopolítica mundial na próxima década. O peso da destruição interna promovida pela extrema-direita e o tamanho dos desafios e ameaças externas trazidas pela polarização provocada pela guerra são maiores do que no passado, mas as oportunidades abertas são grandes e parece-nos que a estratégia sugerida em 2014 segue sendo válida. Senão, vejamos.

No século XX, o Brasil deu um passo enorme e sofreu uma transformação profunda e irreversível, do ponto de vista econômico, sociológico e político. No início do século, era um país agrário, com um Estado fraco e fragmentado, e com um poder econômico e militar muito inferior ao da Argentina. Hoje, na segunda década do século XXI, o Brasil é o país mais industrializado da América Latina e a sétima maior economia do mundo (era, em 2014, mas não é mais, caiu para décima segunda depois do golpe e do choque ultraliberal); possui um Estado centralizado, uma sociedade altamente urbanizada – ainda que desigual – e é o principal player internacional do continente sul-americano. Além disso, é um dos países do mundo com maior potencial de crescimento pela frente, se tomarmos em conta seu território, sua população e dotação de recursos estratégicos, sobretudo se for capaz de combinar seu potencial exportador de commodities com a expansão sustentada do seu próprio parque industrial e tecnológico.

Tudo isto são fatos e conquistas inquestionáveis, mas que colocaram o Brasil frente a um novo elenco de desafios internacionais, e hoje, em particular, o país está enfrentando uma disjuntiva extremamente complexa. As próprias dimensões que o Brasil adquiriu e as decisões que tomou no passado recente (com exceção do período ultraliberal) o colocaram no núcleo de poder do “caleidoscópio mundial”: um pequeno número de Estados e economias nacionais que exercem – em maior ou menor grau – um efeito gravitacional sobre todo o sistema, e que são capazes, simultaneamente, de produzir um “rastro de crescimento” em suas próprias regiões.

Queiram ou não queiram, esses países criam em torno de si “zonas de influência”, onde têm uma responsabilidade política maior que a de seus vizinhos, enquanto são chamados a se posicionar sobre acontecimentos e situações longe de suas regiões, o que não acontecia antes de sua ascensão. Ao mesmo tempo, os países que ingressam nesse pequeno “clube” dos países mais ricos e poderosos têm que estar preparados, porque entram automaticamente num novo patamar de competição, cada vez mais feroz, entre os próprios membros desse “núcleo” que lutam entre si para impor, a todo o sistema, seus objetivos e estratégias nacionais de expansão e crescimento.

Neste momento, o Brasil já não tem como recuar sem pagar um preço muito alto. Mas (como acabou recuando entre 2016 e 2022) agora, para poder avançar, deverá ter uma dose extra de coragem, persistência e inventividade. Terá que ter, ainda, objetivos claros e uma coordenação estreita entre as agências responsáveis pela política externa do país, envolvendo sua diplomacia e política de defesa, articuladas com sua política econômica e a política de difusão global de sua cultura e de seus valores. E o que é mais importante, o Brasil terá que sustentar uma “vontade estratégica” consistente e permanente, ou seja, uma capacidade social e estatal de construir consensos em torno de objetivos internacionais de longo prazo, junto com a capacidade de planejar e implementar ações de curto e médio prazo, mobilizando os atores sociais, políticos e econômicos relevantes, frente a cada situação e desafio em particular.

Mais difícil do que tudo isto, entretanto, o Brasil terá que descobrir um novo caminho de afirmação de sua liderança e poder internacional, dentro e fora de sua zona de influência imediata. Um caminho que não siga o mesmo roteiro das grandes potências do passado, e que não utilize a mesma arrogância e violência que utilizaram os europeus e os norteamericanos para conquistar, submeter e “civilizar” suas colônias e protetorados.

Em segundo lugar, como todo país que ascende dentro do sistema internacional, o Brasil terá que questionar, de forma cada vez mais incisiva, a ordem institucional estabelecida e os grandes acordos geopolíticos em que se sustenta. Mas terá que fazê-lo sem o uso das armas, e através de sua capacidade de construir alianças com quem quer que seja, desde que o país mantenha seus objetivos, valores e soberania, visando sempre expandir e conquistar novas posições na hierarquia política e econômica internacional. Este objetivo já não obedece mais a nenhum tipo de ideologia nacionalista, muito menos a qualquer tipo de cartilha militar; obedece a um imperativo “funcional”’ do próprio “sistema interestatal capitalista”: neste sistema, “quem não sobe, cai”.[1] Mas, ao mesmo tempo, “quem sobe” tem que estar preparado, porque será atacado e desqualificado inevitavelmente e de forma cada vez mais intensa e coordenada, dentro e fora de suas fronteiras, caso não se submeta à vontade estratégica dos antigos donos do poder global.

E foi exatamente isto que aconteceu depois do golpe de 2016, que levou à desmontagem do Estado, ao atraso da economia e à destruição moral da sociedade brasileira. E pode voltar a acontecer a qualquer momento na próxima década, se o governo brasileiro não estiver permanentemente atento e cometer os mesmos erros do passado, compreendendo que, apesar de os cientistas políticos não gostarem ou desqualificarem, a política internacional também pode ser lida como uma complexa rede de “conspirações” que acabam se transformando em golpes de Estado, como aconteceu no Brasil em 1964 e em 2016, e como ocorreu também na Ucrânia, em 2014. Nesse sentido, é melhor aprender com a história para que a história não se repita, porque neste caso será com uma agressividade e destrutividade cada vez maior.

*José Luís Fiori é professor Emérito da UFRJ. Autor, entre outros livros, de O mito de Babel e a disputa do poder global (Vozes).

Nota

[1] Elias, Norbert. O Processo Civilizador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, v. 2, p. 134.

Fonte:  https://aterraeredonda.com.br/lula-na-china/?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=novas_publicacoes&utm_term=2023-04-18

Entenda como as inteligências artificiais erram fatos básicos da história

 Por Elias Thomé Saliba

 Entenda como as inteligências artificiais erram fatos básicos da história -  Estadão
 Foto: Warnes Bros.

Teste feito com o ChatGPT mostrou que ele não reconheceu a existência do rei Carlos V da França

Uma historiadora inicia seu trabalho consultando online arquivos judiciais do século 19. A partir de sua hipótese para uma primeira sondagem seleciona processos que envolvem mulheres presas, e logo ela encontra cerca de mil registros que vão constituir o conjunto documental de sua pesquisa. Prossegue na garimpagem, baixando as transcrições completas para, em seguida, utilizar-se de ferramentas as quais fornecem, minutos depois, um gráfico de palavras-chave e as suas frequências ao longo do tempo.

Em seguida, utilizando-se de outro software de mineração de palavras, começa a procurar a estrutura semântica subjacente aos registros – e o algoritmo, depois de dois minutos de exploração, seleciona cerca de 25 tópicos que se relacionam com a maioria das palavras em cada documento. Com outro software de mineração de vocábulos, ela explora a relação entre os tópicos e os textos, formando uma rede de discursos que versam sobre os deveres legais e morais do Estado para com as mulheres presidiárias. Explora esta rede de discursos, identificando outros personagens e suas falas, incluindo carcereiros, crianças, homens e mulheres, concentrando-se em um conjunto menor de pessoas ligadas a uma comunidade prisional.

Ensaio fotográfico pelas ruas de São Paulo inspirado na estética do filme Blade Runner
Ensaio fotográfico pelas ruas de São Paulo inspirado na estética do filme Blade Runner Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Ao final, depois de apenas duas horas de trabalho, ela já dispõe de uma espécie de visão macroscópica em torno de meio século de julgamentos de mulheres e de suas dezenas de conexões.

A descrição acima não é exata, mas indica uma mudança de paradigma no trabalho historiográfico: a passagem de uma cultura da escassez para uma cultura da abundância de fontes. Entre outros, é um dos muitos exemplos dos impactos do universo digital na prática historiográfica, analisados por Roy Rosenzweig (1950-2007) em Clio Conectada – O Futuro do Passado na Era Digital. Rosenzweig foi um dos primeiros historiadores a criar um centro de História e Novas Mídias, ainda no longínquo ano de 1994. Evitando tanto o ludismo instintivo de historiadores – ainda amarrados aos ritos metodológicos do mundo analógico – quanto um entusiasmo apressado e deslumbrado pela tecnologia, foi pioneiro em trabalhar, pela primeira vez, em conjunto com técnicos e engenheiros com o objetivo de criar softwares específicos para a pesquisa, ensino e divulgação da História. Precocemente falecido aos 57 anos, ele deixou um importante legado de ensaios e reflexões sobre o impacto do universo digital na pesquisa e no ensino de História, reunidos neste recente lançamento.

Versáteis e abrangentes, os ensaios refletem sobre o uso das ferramentas digitais nas Humanidades, analisando uma série de temas que visam superar os novos problemas suscitados pelas mídias digitais, as quais têm desestabilizado sistemas heurísticos tradicionais que permitiam maior grau de confiabilidade, autenticidade, direitos autorais e preservação. Analisa ainda a Wikipédia, a mais importante fonte histórica gratuita da internet, contando um pouco da sua história e considerando tanto os rasgados elogios quanto as formidáveis restrições. Rosenzweig é mais equilibrado: apesar da enorme quantidade de erros e limitações em verbetes de História na Wikipédia, ressalta o seu grande triunfo em democratizar as informações.

O nome da enciclopédia livre foi dado pelo primeiro criador do software, que copiou a expressão havaiana “wikiwiki” (que significa “rápido” ou “informal”). Como qualquer edição de um verbete se torna imediatamente disponível, viola-se reiteradamente a regra de citar as fontes e muitos dados são incompletos e desatualizados. Ela funciona como uma espécie de enorme megafone, ampliando a sabedoria convencional, ocasionalmente incorreta. “Mas será que devemos culpar a Wikipédia pelo apetite por informação pré-digerida e pré-preparada ou pela tendência a acreditar que tudo aquilo que se lê é verdade?”, questiona Rosenzweig. Esse problema já existia antes, nos dias daquelas antigas “enciclopédias de famílias”.

Luzes artificiais baseadas no filme Blade Runner, de 1982, de Ridley Scott
Luzes artificiais baseadas no filme Blade Runner, de 1982, de Ridley Scott Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Já no campo do ensino, os problemas são mais graves. “Muitos de meus alunos do segundo ano da graduação não sabem distinguir um site legítimo, que tenha documentos primários autênticos ou artigos reproduzidos (avaliados por pares) daqueles outros sites que contêm uma versão popularizada da história, ou das mídias de bate-papo em que as mais loucas teorias da conspiração são transformadas em realidade”, escreve uma professora, colega do autor. O que se diz da Wikipédia vale para toda informação retirada da internet em geral: muitos alunos aceitam grande parte do que veem ali sem uma visão crítica – e quando não conseguem achar alguma coisa na web costumam concluir que ela não existe. A solução de Rosenzweig é a mesma para todos os usos: gastar mais tempo mostrando as limitações de todas as fontes de informação, enfatizando as habilidades de análise crítica das fontes primárias e secundárias.

O autor ainda recomenda uma atuação conjunta de historiadores, arquivistas e engenheiros no urgente trabalho de preservação. Muitos especialistas acreditam – equivocadamente – que o problema central é que estamos armazenando informações em mídias que têm tempo de vida muito curto. A mídia digital e a antiga mídia magnética sofrem deterioração em 10 a 20 anos. Mas a mídia está longe de ser o elo mais frágil na cadeia digital de preservação. Muito antes que a maior parte das mídias se deteriore, é provável que se tornem ilegíveis em razão de mudanças no hardware (obsolescência do disco ou dos drives) ou no software (dados gravados em formato de um programa que não roda mais).

Visão macroscópica pode levar a historiografia a enxergar apenas 
a floresta e perder de vista as árvores

Rosenzweig não viveu para conhecer as atuais “infraestruturas de nuvens” ou coisas parecidas, mas tinha razão ao enfatizar que o trabalho de preservação é cada vez mais urgente. A preocupação com o futuro do passado registrado digitalmente aumenta ainda mais quando se percebe que, na maioria dos países, o comprometimento público com os registros históricos digitais ainda é muito baixo.

Apesar de escritos há mais de duas décadas, seus ensaios sobre o uso de software no ensino de História são bastante prescientes. Ele foi o primeiro a criar, com a colaboração de Daniel Cohen, o H-Bot, um software de História que funcionava como um localizador automatizado de acontecimentos históricos. Ele submeteu o H-Bot a um exame normalmente utilizado no ensino médio da época (parecido com o Enem) e o robô não se saiu tão mal. Foi muito bom em perguntas do tipo: “Quem foi...” ou “Onde...? Mas errou feio em questões que exigiam desambiguação factual – aquele famoso teste que consiste em perguntar: Quem foi Carlos V? A resposta indicou apenas Carlos V, o imperador do sacro império romano-germânico do século 16. E ignorou completamente o outro Carlos V, que foi rei da França no século 14. Coisa menor, mas bastante significativa.

Cena de 'Blade Runner 2049', em que história e futuro passam pela tela do computador
Cena de 'Blade Runner 2049', em que história e futuro passam pela tela do computador  Foto: ESTADAO / undefined


Em homenagem a Rosenzweig, não resistimos a fazer o mesmo “teste de Carlos V” para o recente e badalado ChatGPT: ele respondeu citando apenas o Carlos V, do sacro império. Insistimos, dando uma dica do contexto, perguntando: “E Carlos V, rei da França, no século 14?”. O ChatGPT reiterou o erro: “Não houve um rei Carlos V na França”. Teimoso este robô não? Errou feio num simples teste de desambiguação factual. É claro que daqui a alguns dias (ou horas) certamente os algoritmos de segunda geração aprenderão a diferenciar os dois imperadores.

Mas, como no exemplo inicial da historiadora, um pequeno alarme começa a soar: será que a visão excessivamente macroscópica de um certo passado não levará a historiografia a enxergar apenas a floresta e perder de vista as árvores? Afinal, nesta, como em outras áreas, o futuro está ainda muito longe de se mostrar definido. Sabemos, nos últimos anos, o quanto as novas tecnologias introduzem possibilidades tanto repressivas quanto libertadoras. E o que está em jogo é, nada mais nada menos, que o futuro do passado.

CLIO CONECTADA

Autor: Roy Rosenzweig

Tradução: Luis Reyes Gil

Fonte: https://www.estadao.com.br/alias/entenda-as-inteligencias-artificiais-erram-fatos-basicos-da-historia/