Homem abandonado pela namorada atormenta os vizinhos
ouvindo música no último volume e avisa: só vai parar de beber e de
incomodar a vizinhança quando ela voltar para casa. Mulher infiel
apronta todas para o marido e é expulsa de casa. Esposa desconfiada dá
um flagra no marido no motel e ameaça dar uma surra nele e na
acompanhante. Parece prontuário da Vara de Família, mas é apenas um
pequeno extrato dos temas presentes nas 10 músicas que mais tocaram no
rádio em 2016. Brasil, o país da sofrência.
A enorme variedade de
ritmos da música brasileira não está expressa na lista de mais tocadas
no rádio já há alguns anos. Um único gênero, o sertanejo universitário,
domina o ranking de alto a baixo, o que é ruim não apenas para quem não é
fã do gênero, mas para toda a indústria musical. Variedade é riqueza
cultural, e gosto é repertório: mais do mesmo só gera necessidade de
mais do mesmo.
O sertanejo universitário se caracteriza por
letras simples, refrães fáceis de lembrar e arranjos padronizados – em
geral, as músicas acabam tão parecidas entre si, que poderíamos imaginar
um único compositor, heroico, abastecendo toda a cadeia produtiva do
gênero. A fórmula, aplicada à exaustão aos novos artistas que chegam aos
magotes ao mercado todos os anos, conquistou corações e pistas de dança
de forma surpreendentemente democrática: em um país tão desigual quanto
o nosso, o ritmo atrai tanto os jovens que ralam para pagar o crediário
do smartphone quanto os que vão e voltam da balada sertaneja dirigindo a
pick-up do ano. Se você acredita que somos o que lemos (e o que
ouvimos), talvez devesse parar alguns instantes para prestar atenção nas
letras das canções que estão formando razão e sensibilidade de toda uma
geração.
Escute, por exemplo, a música número 1 do ranking, Seu
polícia, aquela do namorado abandonado que afoga as mágoas bebendo e
ouvindo música alta, sucesso da dupla Zé Neto & Cristiano. A polícia
aqui não é vista com desconfiança, como na canção dos Titãs (“Polícia/
Para quem precisa/ Polícia/ Para quem precisa/ De polícia”), ou como
ameaça, como no rap dos Racionais (“Não confio na polícia”), mas como
uma instituição anódina e potencialmente corrompível (“Seu polícia/ É
que eu separei recentemente/ De paixão eu tô doente/ Será que o senhor
me entende?”).
Sim, a gente entende. Sabemos o que costuma
acontecer quando homens se convencem de que os próprios sentimentos são
mais importantes do que o bom senso ou as leis que eles deveriam
obedecer. Basta digitar “inconformado com o fim do relacionamento” no
Google para descobrir como essas histórias costumam terminar.
Como seriam as reuniões entre o irônico Churchill com a jovem e insegura Elizabeth?
Uma página nova de um caderno escolar apresenta
letra mais cuidadosa do que as finais. O início da viagem é tomado de
expectativas risonhas, ao passo que seu fim traz o cansaço da volta
entremeado das memórias do percurso. O novo é verde, viçoso e tem o
frescor da aurora. O velho é sépia. Começamos 2017.
Gosto de filmes e séries históricas que mostrem anos
iniciais de um governo, de personagens em construção. Como eram as
pessoas que depois acumularam muita experiência? É o caso da primeira
temporada de série televisiva The Crown, do mesmo Peter Morgan que havia elaborado o roteiro de A Rainha (Stephen Frears, 2006).
The Crown mostra Elizabeth II no aprendizado
para sua longa carreira de rainha. Claire Foy faz o papel da jovem
soberana, a primeira a não ser sagrada imperatriz desde sua trisavó
Vitória, já que a Índia tinha se tornado independente em 1947. Quem olha
hoje a chefe de Estado nos seus 91 anos incompletos tem a tendência a
se esquecer de que ela é soberana desde antes do seu 26.º aniversário.
Porém, ela veio ao mundo sem ser herdeira direta do trono e passou a
infância longe do peso da coroa. Elizabeth teve de aprender.
Margeando o conhecimento histórico, séries e filmes
apresentam um certo compromisso com o real. Precisam colocar as pessoas
com seus nomes corretos, as datas e demais referências, para que todos
reconheçam verossimilhança com os fatos. As molduras são preenchidas com
imaginação. Dormiria o austero príncipe Philip, duque de Edimburgo,
completamente sem roupas? Duas vezes a série expõe as nádegas do real
consorte ao espectador. Filmar o passado implica liberdade criativa. O
público vê e confia no que observa, porque identifica as personagens
históricas, que parecem corretas. O caixilho é o Real da realeza. A
audiência cresce porque a tela é fantasiosa, aproximando as personagens
do nosso mundo (ou, ao menos, do mundo folhetinesco). A história dá o ar
de legitimidade, o enredo fornece o sabor que procuramos. Há mistura do
didático e do lúdico, cada um preenchendo as lacunas do outro.
Como
seriam as reuniões entre o irônico Churchill com a jovem e insegura
Elizabeth? Um conservador respeita muito a coroa, mas o velho
primeiro-ministro conseguiria controlar ao menos uma frase venenosa de
soslaio? A Elizabeth II verdadeira não deixou uma análise pormenorizada,
mas chorou no enterro de Churchill, em 1965. Havia afeto entre eles.
A família real emerge cheia de humanidade e
contradições. A rainha-mãe entra numa crise depressiva após a morte do
marido. Tem de deixar o palácio de Buckingham, como manda a tradição. As
filhas cresceram e deixaram de precisar dela. Torna-se uma viúva,
quando tinha menos de 52 anos. Viveu ainda meio século e teve de se
adaptar a novas realidades. Teria tido tais crises? Morreu centenária.
Teria Elizabeth II cobrado da mãe a educação deficitária que recebera? The Crown afirma
que sim. Tudo faz parte de um exercício do plausível e da busca do
diálogo com o público atual. O castelo de Mey foi, de fato, adquirido
pela rainha-mãe no norte de sua Escócia natal. Era seu refúgio e
mostrava uma vontade de isolamento. As cenas com o proprietário antigo
são buscas de substância televisiva.
Mas o centro da obra é a própria rainha Elizabeth II:
seus flashes durante a Segunda Guerra, suas memórias do tio abdicando
quando contava 10 anos de idade (ato que a acabaria conduzindo ao
trono). O centro da trama é o choque do senso de dever e suas angústias
pessoais, seu atrito com a irmã em função do amor ilícito de Margaret
com Peter Townsend, sua relação com a figura hierática de Mary de Teck,
sua avó. O choque é entre Elizabeth de Windsor com Elizabeth II, entre a
mulher e a personagem. Na prática, é o desafio de todo monarca. José
Murilo de Carvalho começa a biografia de D. Pedro II comentando o atrito
entre o imperador e Pedro de Alcântara, homem alto, tímido e de voz
fina, que queria ser professor, apenas. Objetivamente, é a colisão que
todos enfrentamos nos nossos múltiplos papéis.
Mas há uma coisa na série que provoca ligeira
melancolia. Alguns dos discursos feitos por Churchill, especialmente a
fala após a morte de George VI e a ascensão da nova rainha, citam
trechos da época, reproduzidos na tela. O gabinete escuta ansioso, na
esperança de ver fraquejar o velho leão. Há uma pausa retórica que
parece confirmar que ele está senil. Depois, segue-se uma das páginas
mais memoráveis da retórica do século 20. O discurso pode ser escutado
na internet, na voz idosa, mas firme de Churchill. Na série, o
encadeamento das cenas é muito bom, coroado com a performance teatral da
velha rainha Mary se curvando diante da neta e reconhecendo, em seu
luto profundo, que um novo poder surgia na frágil Elizabeth. O trono é
mais poderoso do que seus ocupantes. Mary se inclina enfaticamente e
demonstra que não existe mais Elizabeth de Windsor, mas apenas a rainha
Elizabeth II.
Essa é parte da magia das monarquias: a liturgia do
cargo antecede e se amplia sobre as pessoas. No campo simbólico, as
repúblicas sempre falharam miseravelmente diante da força histórica e
sagrada do trono. A célebre música de Haendel usada em coroações, Zadok the Priest, com sua grandiosidade épica, seria inconcebível numa posse em Brasília.
Mas eu falei de ligeira melancolia. Sim, porque ouvir
Churchill discursando me remete aos discursos atuais sob o trópico da
crise. Temos homens preparados e já houve até pessoas cultas na
presidência. Mas a falência da nossa retórica é brutal. Os políticos
falam mal, pronunciam de forma péssima e, quase sempre, expressam ideias
pouco elaboradas. Insultam-se, matando o decoro, a inteligência e a
esperança num Brasil melhor. Por que melancolia? Porque um dia os
discursos estiveram inscritos nas páginas da literatura mundial; hoje,
amiúde, constam em autos judiciais de acusações recíprocas de rapinagem.
Moldura e tela ficaram de qualidade duvidosa.
Volto à ilha do Norte. Talvez a magia não seja a rainha
em si, ou sua opacidade, mas como é absorvida pelo glorioso sol de
Windsor que ofusca seu despreparo. Na nossa República, a mediocridade é
exaltada e a ribalta política traz à tona o caráter tosco e raso dos
nossos líderes. Não sou um monarquista, mas confesso que ser republicano
está cada dia mais árduo... God save the Queen! Que Marianne, símbolo
da República, tenha uma ou duas aulas de etiqueta e de dignidade.
Marcelo Crivella toma posse como prefeito do Rio de Janeiro. Fernando FrazãoAgência Brasil
Um Deus curinga dos governantes para se esquivar de suas responsabilidades e adormecer os mais desamparados é um Deus perverso
Talvez seja a sensação de impotência, a falta de confiança
na política ou a forte influência das Igrejas Evangélicas, a verdade é
que o Brasil parece se refugiar cada vez mais em Deus, algo que não
desagrada seus governantes e muitos até exploram isso.
No
dia primeiro de janeiro, quando milhares de prefeitos assumiram seus
cargos, uma das palavras que mais foram repetidas em seus discursos foi
“Deus”. E também a mais aplaudida.
“Não tenho medo de assumir essa responsabilidade porque Deus
está comigo”; “Vamos mudar esta cidade porque Deus decidiu”, foram
frases que se repetiram em muitos dos discursos dos recém-eleitos.
No Rio de Janeiro, o novo prefeito, o bispo evangélico Marcello Crivella, citou Deus seis vezes em oito minutos de seu discurso.
Disse a uma multidão entusiasmada: “Tenho certeza de que Deus estará
comigo enquanto governar”. E algo incomum nesses casos, em um país laico
por Constituição, o evangélico Crivella abriu o ato recitando o Pai
Nosso, um aceno para os católicos.
Não só aqueles que tomaram posse apelaram a Deus, mas também
aqueles que se despediram depois de ter perdido a eleição. Um caso
emblemático foi o da prefeita da pequena cidade de Sapezal (MT), Ilma
Grisoste, 55 anos, formada em Pedagogia e doutora em Psicopedagogia.
Em vez de entregar as chaves da cidade ao seu sucessor,
emitiu um documento no qual afirmava: “Decreto a entrega das chaves
desta cidade a Deus”. E acrescentou: “Desejo que esta cidade pertença a
Deus e que toda a prefeitura esteja sob a proteção do Todo-Poderoso”.
Mais ainda: “Cancelo em nome de Jesus todos os pactos feitos por
qualquer outro Deus ou entidade religiosa”.
Então, não é de estranhar que 90% dos brasileiros pensem que
ser rico ou pobre depende de Deus, de acordo com uma pesquisa recente
da Datafolha, publicada no jornal Folha de S. Paulo.
Esta pesquisa indica que nove de cada dez brasileiros estão
convencidos de que “seu sucesso financeiro se deve a Deus”. E o mais
estranho é que a alegação foi feita não só pelos crentes, mas também por
70% das pessoas sem religião e 23% daqueles que se declaram ateus.
E não apenas os mais pobres e menos escolarizados atribuem a
Deus seu sucesso ou fracasso econômico, mas também 77% das pessoas que
concluíram a universidade e ganham até 8.800 reais.
Esse Deus acaba sendo um perigo porque anula os próprios
esforços das pessoas para avançar na vida, enquanto elimina sua
capacidade de protestar e se rebelar contra o poder injusto.
Esse Deus empurra os pobres à resignação porque seria ele, e
não o esforço e capacitação pessoal, ou a luta por seus direitos, que
decide seu presente e seu futuro.
Os políticos devem ser os mais felizes com essa convicção de
90% dos brasileiros. Para que se esforçar muito, realizar reformas
sociais que melhorem a vida das pessoas, se no final é Deus que decide
sobre as finanças delas?
Ou para que melhorar a educação e elevar o nível cultural do
povo, se 77% das pessoas com título universitário também acham que tudo
depende de Deus?
Em qualquer sociedade laica do mundo, especialmente aquelas
que possuem melhores índices de qualidade de vida, a situação econômica
dos indivíduos e das famílias não depende de Deus, mas do esforço
pessoal de cada um, sua capacidade e preparação profissional, bem como
dos sistemas econômicos e políticos em que vivem.
Como diz o ditado espanhol: “A Deus rogando, mas com martelo
batendo”. Ou, como respondeu Jesus (tão traído e distorcido nos
discursos dos políticos brasileiros) aos judeus: “Dê a César o que é de
César e a Deus o que é de Deus”.
O resto é vontade de tirar sarro dos pobres e dar ao poder o álibi de que é Deus que vai cuidar deles.
A fé religiosa deveria ser, ao contrário, a primeira a
exigir que o poder seja desmascarado sempre que pretende alienar as
consciências com falsas promessas messiânicas ou perigosas bajulações
aos pobres.
Um Deus curinga dos governantes para se esquivar de suas responsabilidades e adormecer os mais desamparados é um Deus perverso.
"Él hizo bien común de la Iglesia la teología de la liberación y la ha expandido"
"Bautizo, entierro y en una comunidad sin sacerdote también celebro la misa", confiesa el teólogo
Burke es el Donald Trump de la Iglesia Católica. El Papa no puede ser condenado, eso es doctrina de la Iglesia.
(Joachin Frank, KSTA).- El brasileño Leonardo Boff,
nacido en 1938, es hijo de inmigrantes italianos. En 1959 ingresó en la
orden franciscana y estudió durante cinco años en Alemania. En la
década de 1980, Boff se convirtió en el principal representante de la teología de la liberación
y estuvo en conflicto con el Vaticano y su guardián supremo de la fe
Joseph Ratzinger por criticar a la iglesia oficial. Después de que se
le impusiera por dos veces la prohibición de publicar, Boff salió de su
Orden en 1992 y renunció a su sacerdocio.
¿Sr. Boff, le gustan las canciones de Navidad?
¿Qué cree usted? (Canta): "" „Sti-hil-le Nacht, heilige Nacht..."se
canta en cada familia que celebra la Navidad. Aquí en Brasil, es
también tradición como en Alemania."
¿No le parece este tipo de Navidad anticuada y comercializada?
Esto es diferente de un país a otro. Por supuesto, la Navidad se ha
convertido en un gran negocio. Pero a la luz de lo anterior sigue viva
la alegría, la convivencia de la familia, y para muchos también el
momento de la fe. Y como he pasado la Navidad en Alemania es una
celebración de corazón, muy expresiva, maravillosa.
¿Cómo funciona una fe en un "Dios de paz" de que habla de la
Navidad, en medio de la discordia que experimentamos en todas partes?
La mayor parte de la fe es promesa. Ernst Bloch dice: "El Génesis
real no es al principio, sino al final, y empieza a comenzar, cuando la
sociedad y la existencia son radicales." La alegría de la Navidad es
esta promesa: La tierra y la gente no están condenados para siempre a
continuar como ahora lo vemos - con todas las guerras, la violencia, el
fundamentalismo. Se nos ha prometido en la fe que al final todo va a
estar bien; que a pesar de todos los errores, giros equivocados y
contratiempos vamos hacia un buen fin. El verdadero significado de la
Navidad no es que "Dios se hizo hombre", sino que él ha venido a
decirnos: ". Vosotros los seres humanos me pertenecéis y cuando llegue
la muerte llegaréis a casa"
¿Significa la Navidad que Dios viene a recogernos?
Sí. La encarnación significa que algo en nosotros ya es divino,
inmortal. Lo Divino está dentro de nosotros. En Jesús, se ha demostrado
con mayor claridad. Pero está en todos los hombres. En una perspectiva
evolutiva Jesús no viene desde el exterior al mundo, sino que crece
desde él. Jesús es la manifestación de lo divino en evolución - pero no
el único. Lo divino también aparece en Buda, en el Mahatma Gandhi y
otras grandes figuras religiosas.
Eso no suena muy católico.
No diga eso. Toda la teología franciscana de la Edad Media, entendió
a Cristo como parte de la creación, no sólo como el redentor de la
culpa y el pecado, que proviene de fuera del mundo. Encarnación es
redención, sí. Pero, ante todo, se trata de una celebración, una
divinización de la creación. Y otra cosa es importante en Navidad. Dios
aparece en la forma de un niño. No como un anciano con el pelo blanco y
barba larga y blanca...
Entonces, ¿como usted? ...
Nada de eso, me parezco más bien a Karl Marx. Por lo que a mí
respecta: cuando terminamos nuestras vidas y tenemos que responder ante
el juez divino, entonces nos enfrentamos a un niño. Un niño no condena a
nadie. Un niño que quiere jugar y estar con los demás. Tenemos que
volver a resaltar este aspecto de la fe.
La teología de la liberación en América Latina, de la que usted es
uno de los representantes prominentes, ha llegado con Francisco a una
nueva valoración. ¿Una rehabilitación personalmente para usted por las
décadas de lucha con el Papa Juan Pablo II y su guardián supremo de la
fe Joseph Ratzinger, el futuro Papa Benedicto XVI?
Francisco es uno de nosotros. Él hizo bien común de la Iglesia la
teología de la liberación. Y él la ha expandido. Quienes hablan de los
pobres ahora tienen que hablar de la tierra, porque también es saqueada
y profanada. "Oír el grito de los pobres ", que significa oír el grito
de los animales, los bosques, del conjunto sufriente de la creación.
Toda la tierra llora. Así dice el Papa, haciendo referencia al título de
uno de mis libros, también hay que escuchar el grito de los pobres y de
la tierra en la actualidad. Y ambos tienen que ser liberados. Yo mismo
he trabajado anteriormente con esta expansión de la teología de la
liberación. Y eso es lo fundamentalmente nuevo en "Laudato si"...
... La "eco-Encíclica" del Papa de 2015. ¿Cuánto hay de Leonardo Boff en Jorge Mario Bergoglio?
La encíclica pertenece al Papa. Pero fueron consultados muchos expertos.
¿Ha leído sus libros?
Aún más. Se me ha pedido materia para "Laudato si". Le di mi consejo
y le envié algo de lo que escribí. Y lo ha utilizado. Algunas personas
me han dicho que pensaban al leerlo, "eso es Boff!" Dicho sea de paso,
Francisco me dijo: "Boff, por favor, no me envíe los documentos
directamente a mí."
¿Y por qué no?
Dijo: "De lo contrario, lo cogen los Sottosegretari y yo no lo
recibo.. Envía las cosas más bien al embajador argentino con el que
tengo una buena relación, y llegarán con seguridad a mis manos." Usted
tiene que entender que el actual embajador en el Vaticano es un viejo
amigo del Papa del tiempo en Buenos Aires. A menudo han bebido mate
juntos. Un día antes de la publicación de la encíclica, el Papa hizo que
me llamaran para expresarme su agradecimiento por mi ayuda.
¿Un encuentro personal con el Papa todavía está pendiente?
Él buscó la reconciliación con los principales representantes de la
teología de la liberación, con Gustavo Gutiérrez, Jon Sobrino... incluso
conmigo. Le dije con respecto a Benedicto, Joseph Ratzinger: "pero el
otro todavía está vivo!". No aceptó. "No", dijo, "il Papa sono io" - "el
Papa soy yo." Quedamos en silencio. Así se puede ver su valor y
determinación.
¿Por qué entonces no se ha realizado su visita?
Tenía una invitación e incluso había aterrizado en Roma. Pero justo
en este día, inmediatamente antes del Sínodo de la Familia 2015
intentaron 13 cardenales - incluyendo el cardenal alemán Gerhard
Müller, prefecto de la Congregación de la Doctrina de la fe- una
revuelta contra el Papa con una carta privada dirigida a él, y entonces
- ¡maravilla de maravillas! - apareció en los periódicos. El Papa
estaba furioso y me dijo: "Boff, no tengo tiempo. Tengo que promover la
calma antes del Sínodo. Nos vemos en otra ocasión".
Pero tampoco consiguió la calma, ¿verdad?
El Papa sintió el filo de los vientos en contra de sus propias filas,
especialmente desde los Estados Unidos. Este cardenal Burke, Leo Burke,
que ahora - junto con el cardenal emérito de Colonia Meisner - ya ha
escrito una carta, es el Donald Trump de la Iglesia Católica. (Risas)
Pero a diferencia de Trump, Burke está ahora congelado en la Curia.
Gracias a Dios. Estas personas realmente creen que debían corregir al
Papa. Como si estuvieran por encima del Papa. Así que algo es inusual,
por no decir sin precedentes en la historia de la iglesia. Uno puede
criticar al Papa, discutir con él. Lo hice con bastante frecuencia.
Pero esos cardenales acusan al Papa de difundir públicamente errores
teológicos o incluso herejías - en mi opinión - es demasiado. Esta es
una afrenta que el Papa mismo no puede tolerar. El Papa no puede ser
condenado, eso es doctrina de la Iglesia.
A pesar de su entusiasmo por el Papa - ¿qué pasa con las reformas
de la iglesia, que muchos católicos habían esperado de Francisco, pero
que no tanto están sucediendo realmente?
Como yo lo entiendo, el centro de su interés ya no es la iglesia, no
está dentro de la actuación de la iglesia, sino la supervivencia de
la humanidad, el futuro de la tierra. Ambos están en peligro, y usted
tiene que preguntarse si el cristianismo puede contribuir a superar esta
crisis importante en la humanidad que está bajo la amenaza de perecer.
Francisco se preocupa por el medio ambiente, y mientras tanto ¿continúa su iglesia ante una pared?
Creo que para él hay una jerarquía de problemas. Cuando la tierra se
destruye, también padecen los otros problemas. Pero en cuanto a los
asuntos internos de la Iglesia, ¡hay que esperar! Justo el otro día, el
cardenal Walter Kasper, un hombre de confianza del Papa, ha dicho que
pronto habrá grandes sorpresas.
¿Qué espera?
¿Quién sabe? Tal vez el diaconado de las mujeres. O la posibilidad de
que sacerdotes casados puedan ser reinsertados en el ministerio. Esta
es una petición formal al Papa por parte de los obispos brasileños, en
especial de su amigo, el cardenal de Curia brasileño retirado Claudio
Hummes. He oído que el Papa quiere responder a esta solicitud, para una
primera fase experimental en Brasil. Este país que cuenta con 140
millones de católicos debe tener por lo menos 100.000 sacerdotes. Pero
sólo hay 18.000, desde el punto de vista Institucional es un desastre.
No es de extrañar que los fieles se vayan en masa a los evangélicos y
pentecostales que llenan el vacío personal. Ahora, si miles de
sacerdotes casados volvieran a ocupar su cargo de nuevo, sería un
primer paso para mejorar la situación - y al mismo tiempo un impulso
para que la Iglesia Católica resuelva la servidumbre del celibato
obligatorio.
Si el Papa decidiera en este sentido, ¿también asumiría usted funciones sacerdotales de nuevo como ex sacerdote franciscano?
En lo personal yo no necesito una decisión de este tipo. No sería
para mí cambiar nada de lo que estoy haciendo hoy en día, lo que
siempre he hecho: bautizo, entierro, y cuando llego a una comunidad sin
sacerdote, entonces también celebro la Misa junto con la gente.
Una pregunta muy alemana: ¿Está permitido?
Hasta el momento, ningún obispo que yo sepa se opuso nunca e incluso
lo prohibió. Los obispos también se alegran y me dicen: "Las personas
tienen derecho a la Eucaristía. Sigue haciéndolo con tranquilidad"! "Mi
maestro teológico, fallecido desgraciadamente hace unos días, el
cardenal Paulo Evaristo Arns, por ejemplo, tuvo un alto grado de
apertura. Él fue tan lejos de pedir a sacerdotes casados que veía en los
bancos de la iglesia en la celebración que se acercasen al altar para
celebrar la eucaristía con ellos. A menudo lo hizo y lo dijo. "Todavía
eres sacerdote y sigues siéndolo".
"Graças a Deus!". Essa frase é muito comum na boca das pessoas comuns.
Aquele tipo de pessoa "ignorante" que nunca estudou muito. Aquele tipo
desprezado por quase todo intelectual.
Émil Cioran (1991-1995), filósofo romeno, dizia que o povo simples da
Romênia sabia de tudo. Tudo que ele teve que descobrir depois de muito
estudo, insônia e sofrimento. Sua mãe, uma sábia segundo ele, sempre
soube que o destino paira sobre todos nós sem nunca ter lido uma linha
de filosofia. "O que sei aos 60 sabia aos 20, 40 longos anos de um
trabalho inútil de verificação", dizia nosso trágico romeno.
Soren Kierkegaard (1813-1855), filósofo dinamarquês, dizia que "só
espíritos confusos julgam as pessoas pelos livros que leram". Essa frase
deveria ser posta na parede de cada departamento de ciências humanas no
mundo.
Blaise Pascal (1623-1662), filósofo, matemático, cientista e teólogo
francês, dizia que os verdadeiros sábios descobriam aquilo que as
pessoas comuns sabiam de modo intuitivo a vida inteira e que os falsos
sábios ("demi-sevant" nas suas palavras) eram aqueles que acreditavam em
suas próprias pequenas e equivocadas teorias.
O que há de comum nesses três casos? Os três reconhecem a validade da
sabedoria do homem e da mulher comuns. E o que isso tem a ver com a
expressão "Graças a Deus"? Esta expressão é pura sabedoria, nada tem de
ingênua. Vejamos.
Sei que inteligentinhos (confesso aqui que minha inspiração para esse
conceito antropológico de "inteligentinho" é o "demi-savant" de Pascal
citado acima) entendem essa frase como uma marca de gente crente,
alienada, ignorante, que serve de massa de manobra para ministros
religiosos picaretas de todos os tipos.
E aqui fica clara a condição inteligentinha: ele, realmente, pensa que
sacou tudo sobre religião quando diz isso (quando isso é, apenas, uma
pequena parte do que religião é de fato). Mas, um inteligentinho nunca
entende nada porque leva muito a sério sua dissertação de mestrado.
Religião é coisa muito mais séria do que pensa nosso vão ateísmo de
butique.
Ouçamos um outro grande intelectual romeno, Mircea Eliade (1907-1986),
fundador da história comparada das religiões. Eliade dizia que uma das
raízes das religiões é o "terror da contingência", aquele sentimento
ancestral de que o acaso (sinônimo de contingência) domina nossa vida
sem dó. As religiões seriam formas de lidar, compreender e dar
significado a este sentimento esmagador de que a contingência age o
tempo todo sobre nós.
Pois bem, quando uma pessoa comum diz "graças a Deus", ela não está
manifestando sua idiotice atávica (apesar de que também se pode entender
assim, mas será um entendimento inteligentinho), ela está manifestando
um profundo entendimento da nossa relação com a contingência e os modos
simbólicos de acolhê-la em nossas frágeis vidas.
"Graças a Deus" é uma profunda forma de reconhecimento da frágil beleza
da vida, e uma confissão de humildade que é, sempre, uma forma dessa
mesma beleza."
"Deus" aqui (para além do cristianismo de fundo que organiza nossa forma
de compreensão da ação da contingência no Ocidente) é essa gigantesca
contingência que tudo decide, uma vez que nunca teremos controle
absoluto sobre as variáveis em jogo na vida de cada um de nós.
No judaísmo deve-se ler o livro do "Eclesiastes" (o livro que fala que
tudo é vaidade, vento que passa...) da Bíblia Hebraica sempre que a
colheita for boa e que tivermos sucesso em nossas vidas, para lembrarmos
que se tivemos sucesso é porque Deus assim o quis.
Martinho Lutero (1483-1546), teólogo fundador do protestantismo, dizia
que o "Eclesiastes" é um livro sobre a graça, ou seja, a livre vontade
de Deus, fora de nosso controle.
Pois bem. Voltemos as pessoas comuns. "Graças a Deus", reconhecimento
intuitivo do fato de que estamos nas mãos da contingência incontrolável e
que, por isso mesmo, devemos "agradecer" a ela tudo de bom que (por
sorte) nos acontece, está em profunda consonância com a sabedoria
israelita antiga e com Eliade e Lutero.
"Graças a Deus" é uma profunda forma de reconhecimento da frágil beleza
da vida, e uma confissão de humildade que é, sempre, uma forma dessa
mesma beleza. Bom ano pra você.
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* Filósofo, escritor e ensaísta, pós-doutorado em epistemologia pela
Universidade de Tel Aviv, discute temas como comportamento, religião,
ciência. Escreve às segundas
Transformar a tragédia que vitimou fatalmente 71 pessoas em fábula,
como uma história infantil lida de pai para filho, com direito a começa
pela característica frase “era uma vez”. Essa foi a missão da equipe de
comunicação da Chapecoense ao produzir a edição de dezembro de seu
informativo – revista disponibilizada integralmente na internet. Na
história, os responsáveis pelo conteúdo enaltecem, um a um, todos os
brasileiros que acompanhavam a delegação do clube para a final na Copa
Sulamericana, na Colômbia. Mortos? Não! Foram, sobretudo jogadores e
jornalistas, os convocados por Deus para uma partida no céu.
No texto que relata a história como ficção, o pai conta ao seu filho –
torcedor da Chape – que Deus escolheu os melhores jogadores, comissão
técnica, dirigentes e demais componentes do futebol para serem os
campeões além do mundo. Com tantos destaques, 20 profissionais da mídia
foram requisitados para cobrir todos os detalhes da partida divina,
pois, segundo o relato, “aquele time, tão querido, seria alvo de muitos
holofotes, afinal era favorito ao título do campeonato que jogariam no
céu”. Isso porque toda a imprensa iria “disputar com afinco uma
oportunidade de entrevista”. Para ajudar nessa tarefa e na divulgação
dos bastidores da ação, ninguém melhor do que os dois assessores de
imprensa do clube: Gilberto Tomás e Cleberson Silva.
Ao fim do conto, o personagem paterno relata que não aguentou segurar
as lágrimas ao relembrar o caso fatídico e que seu jovem filho percebeu
o ocorrido e perguntou qual seria o futuro da Chapecoense. Seguindo o
estilo fantasioso da história construída, ele segue que, mesmo sendo
especiais, os atletas Alan Ruschel, Follmann e Neto não foram convocados
para o jogo no céu porque Deus os escolheu para outra nobre missão:
servirem de motivação para a reconstrução do time. Ao jornalista Rafael
Henzel, também escolhido por Deus para outra missão, caberia a
responsabilidade de “contar essa página histórica”.
Chapecoense, um time campeão no céu (Imagem: Reprodução)
Força para produzir o conteúdo
“Depois daquele interminável 29 de novembro, entre a incredulidade e a
dor, encontramos a esperança e a certeza de que deveríamos dar
continuidade ao legado deixado por nossos colegas e, acima de tudo,
honrar o trabalho que, com tanto amor, eles realizavam”, escreveu
Alessandra Lara Zuanazzi Seidel, do time de comunicação e marketing da
Chapecoense, na fan page oficial do clube. Ela destacou, no
conteúdo divulgado na última semana, mencionou os dois assessores que
morreram na tragédia com o avião na Colômbia. “O informativo de
dezembro, planejado com tanto carinho – inclusive e principalmente pelos
nossos colegas da comunicação, Giba e Cleberson – deveria ser
realidade”.
Além de Alessandra, os textos da edição de dezembro do informativo da
Chapecoense foram produzidos por Ábner Steffen, Cissa Soletti, Eduardo
Lima Guimarães (também responsável pela criação e diagramação) e Juliana
Sá Zonta. Fora a fábula, a publicação fez questão de agradecer o apoio
que tem recebido dos quatro cantos do planeta, em destaque para as ações
organizadas pelo Atlético Nacional, time colombiano que seria o rival
na final da Sulamerica, pelo público de Curitiba (que receberia a última
partida do torneio internacional) e pelos times de todo o país.
O presidente eleito dos Estados Unidos em evento em Iowa.
Da Europa à Ásia e nos EUA de Trump, o
nacionalismo se fortalece e muda de cara – cada vez mais excludente e
desconfiado em relação às minorias. Como lidar com essa nova onda de
patriotismo negativo?
Depois de terem se levantado contra Luis XVI em 1789, os sans
cullotes elaboraram uma declaração dos direitos universais do homem e do
cidadão. A Grande Armée de Napoleão marchava não só pela glória da
França, mas também por liberdade, igualdade e fraternidade. Já o
nacionalismo que nasceu décadas mais tarde, com a unificação da
Alemanha, apelava para o Blut und Boden – sangue e solo –, a ideia
romântica de que raça e tradição seriam o fundamento da união nacional.
As legiões alemãs lutavam por seu Volk (povo), contra o restante do
mundo.
Todas as sociedades recorrem a algum tipo de nacionalismo para
definir as relações entre Estado, cidadãos e mundo exterior. O sociólogo
americano Craig Calhoun diz que as elites cosmopolitas, que vez por
outra sonham com uma ordem pós-nacionalista, subestimam “o papel central
desempenhado pelas categorias nacionalistas na teoria política e social
– assim como nas reflexões mais cotidianas sobre a democracia, a
legitimidade política e a própria natureza da sociedade”.
Em razão disso, é motivo de preocupação que tantos países estejam
trocando seu nacionalismo de orientação universalista e cívica por uma
variedade de inspiração étnica, pautada pela noção de sangue e solo. Com
o patriotismo positivo descambando em nacionalismo negativo, a
solidariedade se metamorfoseia em desconfiança em relação às minorias,
cujos contingentes são cada vez mais numerosos. O amor benigno do
cidadão por seu país dá lugar à má vontade para com o estrangeiro.
É importante colocar a coisa em perspectiva. As comparações com a
década de 1930 são descabidas. O nacionalismo de tipo totalitário
atualmente subsiste apenas na Coreia do Norte, onde a dinastia Kim prega
uma mistura esdrúxula de marxismo e purismo racial, escorada em campos
de trabalho forçado para dissidentes. A esse caso isolado talvez se
possa acrescentar o da Eritreia, ditadura cruenta, mas minúscula. Apesar
disso, não há como negar que o mundo assiste ao avanço de um
nacionalismo excludente, com frequência de fundo étnico. Em democracias
desenvolvidas, o fenômeno vem ganhando força eleitoral. Em autocracias,
os governantes o empregam como subterfúgio para desviar a atenção da
população da falta de liberdade e, às vezes, de alimentos. A questão é:
onde isso está acontecendo e por quê?
O exemplo mais recente é o de Donald Trump, que, prometendo
construir um muro na fronteira com o México, deportar em massa
imigrantes ilegais e fazer a “América grande de novo”, conquistou o voto
de 61 milhões de americanos. Apelos nefastos à solidariedade étnica ou
racial estão longe de ser novidade na política americana. E tampouco são
exclusividade de um partido. Em discurso em 2012 para uma plateia
majoritariamente negra, o vice-presidente Joe Biden disse que o então
candidato republicano à presidência, Mitt Romney, iria “acorrentar vocês
todos de novo”. Mas nenhum presidente moderno se elegeu com uma
plataforma semelhante à do ufanismo belicoso de Trump. O fato de que
ninguém saiba até que ponto ele acredita no que diz não é exatamente
tranquilizador.
A vitória de Trump deve animar outros líderes de tendências
nacionalistas. Nigel Farage, do Partido pela Independência do Reino
Unido (Ukip), principal responsável pelo Brexit, já esteve com o
presidente eleito dos EUA, tendo saudado o republicano com um sorriso
estupidamente largo no rosto, capaz de meter medo até no gato de Alice
no País das Maravilhas. Viktor Orban, o primeiro-ministro húngaro para
quem os imigrantes são um “veneno”, regozijou-se: “Agora podemos
retornar à verdadeira democracia. Que mundo maravilhoso”.
Para a União Europeia (UE) as consequências podem ser
desastrosas. Na França, os institutos de pesquisa já não descartam a
possibilidade de que Marine Le Pen, a carismática líder da Frente
Nacional (FN), vença a eleição presidencial do ano que vem. Em
comparação com outros europeus, os eleitores franceses são
particularmente avessos à globalização e ao comércio internacional; e
poucos deles consideram que os imigrantes oferecem contribuição positiva
para a economia. Le Pen promete tirar a França da zona do euro e
submeter a permanência do país na UE a referendo. A moeda única não
resistiria sem a França. A UE tampouco teria como sobreviver se os
franceses decidirem abandonar o barco.
Buscando uma porta de saída.Até não
muito tempo atrás, as elites europeias imaginavam que as identidades
nacionais acabariam por submergir no caldo continental. Mas quem está em
alta agora são partidos como a FN, incluindo o húngaro Fidesz, o
polonês Lei e Justiça e o austríaco Liberdade. A retórica de Le Pen é
típica. A líder francesa explora nostalgia, ansiedade e antipatia em
relação à ordem internacional liberal. (“Não a Bruxelas, sim à França”,
diz um dos slogans.) Lamentando o declínio de um povo orgulhoso, ela
promete fazer a França grande de novo.
Foto: Martin Bureau/AFP
A líder da extrema-direita e candidata à presidência da França em evento em Paris.
Ao contrário de Trump, Le Pen jamais propôs impedir a entrada
de muçulmanos no país. Fala só em conter a “gigantesca onda” de
imigração. Advogada de formação, ela defende a proposta aludindo às leis
francesas que proíbem manifestações de religiosidade em público. Mas
seus eleitores sabem quem são os imigrantes que Le Pen desaprova e quem,
em sua opinião, são os indivíduos que contam como franceses. Nas
eleições regionais de 2015, um cartaz da FN exibia a foto de duas
mulheres, uma delas de cabelo liso, com a bandeira francesa pintada no
rosto, a outra escondida por uma burca. A imagem era acompanhada dos
dizeres: “Escolha a sua vizinhança: vote na Frente Nacional!”.
Segundo Dominique Moïsi, do Institut Montaigne, a França vive uma
onda de “nacionalismo defensivo”, que explora “a falta de confiança e o
ufanismo negativo: a ideia de que a pessoa precisa se defender da
ameaça dos outros”.
Algo parecido acontece em outros países europeus. Em 2010, o
partido nacionalista Democratas Suecos veiculou na TV um anúncio que
capturava bem o receio de que o generoso Estado de bem-estar social
sueco não comporte a chegada de um grande contingente de refugiados
muçulmanos, em sua maioria pobres e com altas taxas de natalidade: uma
senhora avança com um andador ortopédico por um corredor, quando é
ultrapassada por um grupo de mulheres de burca, empurrando carrinhos de
bebê, que acabam chegando antes que a anciã ao pote em que estão
reunidas as economias de sua aposentadoria.
Na Holanda, Geert Wilders, líder do Partido da Liberdade, é
acusado na Justiça de “incitamento à intolerância” por ter estimulado os
participantes de um comício a gritar palavras de ordem que exigiam
“menos marroquinos” no país. As pesquisas colocam seu partido em
primeiro ou segundo lugar nas intenções de voto para o pleito de março
de 2017. Ao invés de prejudicar Wilders, o processo judicial o tornou
ainda mais popular.
A vitória do Brexit em junho foi fruto da maré nacionalista.
Cartazes da campanha defendendo que o Reino Unido deixasse a UE
retratavam uma multidão de migrantes do Oriente Médio pedindo para
entrar no país. Um dos slogans era: “Queremos nosso país de volta”. Com o
resultado, o primeiro-ministro David Cameron, de inclinação
cosmopolita, renunciou e foi substituído por Theresa May, que diz: “Quem
se considera cidadão do mundo é cidadão de lugar nenhum; não entende o
verdadeiro significado da palavra ‘cidadania’”.
A saída da UE ainda não se concretizou, mas os britânicos já
estão mais pobres: a libra perdeu 16% de seu valor ante o dólar. Mesmo
assim, são poucos os que se arrependem do voto a favor do Brexit. Em
Margate, cidade litorânea onde há grande número de aposentados, é
difícil encontrar quem tenha votado pela permanência no bloco europeu. O
taxista Clive não mede palavras: “Os europeus vivem se aproveitando de
nós. Não conseguem nem vencer as guerras deles”. Ele está mais
satisfeito depois que May se comprometeu a reduzir a imigração: “Não
temos mais espaço a eles. As escolas estão transbordando com
estrangeiros”. E, apesar de reconhecer que alguns imigrantes se dedicam
com afinco ao trabalho, ele se queixa de que em Cliftonville (cidade
vizinha a Margate), “a impressão é de estar na Romênia. Muitos são
ciganos”. Indagado que importância ele dá ao fato de ser britânico,
Clive é ainda mais restrito: “Para mim o importante é ser inglês.
Inglês”.
O presidente da Rússia, Vladimir Putin, ainda não sabe como lidar
com Trump. Por mais que veja com bons olhos a reaproximação entre os
dois países defendida pelo republicano, o fato é que, se não puder mais
pintar os americanos como inimigos, terá de arrumar outro adversário
para hostilizar. O líder russo acredita num Estado forte, liderado por
ele mesmo. Desde que assumiu o poder em 2000, o nacionalismo étnico é um
dos instrumentos que Putin explora para realizar esse objetivo. Em
2011, enfrentou grandes manifestações, promovidas por uma classe média
urbana insatisfeita com a corrupção e a imigração descontrolada de
grupos populacionais não eslavos. Sua resposta foi incitar o fervor
imperial: quando a Ucrânia tentou se aproximar do Ocidente, anexou a
Crimeia e invadiu o leste da ex-república soviética. Segundo a mídia
estatal, o presidente russo estava salvando os russos étnicos dos
“fascistas ucranianos”.
Com o petróleo em baixa e depois de um longo período de
estagnação econômica, o nacionalismo é o único recurso de Putin para
manter sua popularidade. Sua versão do sentimento xenofóbico inclui a
rejeição aos valores universais promovidos pelo Ocidente. Daí seu apoio
aos partidos nacionalistas da Europa Ocidental, como a FN de Le Pen.
“Temos visto muitos países europeus se afastando de suas raízes e até de
seus valores cristãos”, disse ele em 2013. A esse movimento se
contraporia sua versão etnicamente definida de uma Rússia como
“civilização estatal, unida em torno do povo russo, da língua russa, da
cultura russa e da Igreja Ortodoxa Russa”.
Na China, o Partido Comunista vem explorando um nacionalismo
igualmente étnico e não universal. Seus dirigentes tentam eliminar a
distinção entre partido e nação, para reforçar sua legitimidade, agora
que o crescimento econômico perdeu vigor. Pouco depois de assumir a
presidência, em 2012, Xi Jinping lançou o slogan “Sonho Chinês”, para
incentivar o “grande renascimento” do país. Dos primeiros anos da
educação básica aos cursos de doutorado, os chineses são alvo de uma
campanha de “educação patriótica”.
O governo chinês frequentemente responsabiliza as “forças
estrangeiras hostis” pelas coisas de que não gosta, incluindo eventuais
manifestações em Hong Kong e Xinjian, província no oeste do país, onde
os uigures vivem em permanente estado de tensão com a maioria chinesa
han. A televisão estatal tenta fazer com que os outros países pareçam
idiotas, perigosos ou irrelevantes. A retórica antiocidental ganha
força. Em 2015, o ministro da Educação sugeriu que os “livros e manuais
didáticos que promovem valores ocidentais” sejam banidos do ensino
superior.
A vitória da China sobre o Japão tornou-se ponto culminante do
currículo de história (muito embora boa parte da guerra tenha sido
conduzida pelo partido adversário dos comunistas, o Kuomintang). Em
2014, foram criados três feriados nacionais: um dia para homenagear as
vítimas do massacre de Nanquim, onde, em 1937, cerca de 300 mil pessoas
foram assassinadas pelos japoneses; um “Dia da Vitória”, para celebrar a
rendição dos japoneses na 2.ª Guerra; e um “Dia dos Mártires”, dedicado
aos que morreram lutando contra o Japão.
Tendo em vista a onda ufanista, não é de admirar que muitos
chineses hoje vejam as relações exteriores como um jogo de soma zero,
onde a ascensão da China teria como contrapartida necessária a queda de
outras potências. Levantamento recente, conduzido pelo Pew Research
Center, mostra que mais de metade dos chineses entrevistados acha que os
americanos tentam impedir que a China ocupe posição internacional
equiparável à dos EUA; cerca de 45% considera que a maior ameaça
internacional ao país são o poder e a influência dos americanos. A
antipatia em relação aos japoneses também cresceu bastante.
A propaganda é tão eficiente que o governo chinês já não sabe se é
capaz de controlar as paixões que cultivou. Em 2012, eclodiram
protestos em todo o país contra as pretensões territoriais dos japoneses
em relação a ilhas no Mar do Leste da China: lojas foram saqueadas,
carros japoneses destruídos e a tropa de choque da polícia teve de ser
acionada para proteger a embaixada do Japão em Pequim. As autoridades
chinesas agora censuram a veiculação na internet de mensagens agressivas
com temas nacionalistas.
O presidente do Egito, Abdel Fattah Al Sisi, usa de todos os
recursos do Estado para alardear a ideia de que é o pai da nação. Seu
governo culpa os islamistas por tudo que acontece de ruim no país:
quando fortes chuvas causaram enchentes em Alexandria no ano passado, o
ministro do Interior acusou a Irmandade Muçulmana de ter obstruído os
bueiros e as bocas de lobo da cidade. Há alguns meses, depois de gastar
US$ 8 bilhões na ampliação do canal de Suez, Al Sisi decretou feriado e
percorreu a hidrovia trajando uniforme militar de gala, enquanto aviões
de caça cruzavam os céus. A emissora estatal de televisão transmitiu
imagens do novo canal ao som do tema musical da série Game of Thrones.
Algo parecido está acontecendo na Turquia, país que há poucos
anos parecia ter um futuro garantido no interior da UE. Agora o
presidente Recep Tayyip Erdogan promete erguer uma “Nova Turquia”, capaz
de resistir bravamente às investidas dos golpistas e de seus
imaginários cúmplices ocidentais. Recentemente, Erdogan compareceu a um
comício organizado para celebrar a conquista de Constantinopla, que data
de 1453. Ele acusa os traiçoeiros aliados ocidentais do país de tentar
“retomar as Cruzadas”. A retórica tem por objetivo justificar a prisão
de 36 mil pessoas desde a tentativa de golpe ocorrida em julho.
Na Índia, o nacionalismo étnico, que jamais saiu totalmente de
cena, ressurgiu de forma preocupante. O país é governado desde 2014 por
Narendra Modi, do Partido do Povo Indiano (BJP, na sigla em inglês), de
tendência nacionalista hindu. O BJP tenta se distanciar dos grupos
nacionalistas hindus mais radicais, que criticam a moderação do partido
em relação ao Paquistão, aos muçulmanos e àqueles que maltratam as vacas
(animais sagrados para os hindus). Por outro lado, embora seja um
político moderno e pró-mercado, Modi também faz parte da RSS
(Organização Nacional de Voluntários), grupo fundado em 1925, nos moldes
das associações de escoteiros. Seus 5 milhões de integrantes desfilam
com fardas cáqui, exercitam-se pela manhã, ajudam idosos a atravessar a
rua, recolhem lixo – e vez por outra fornecem recrutas para grupos
extremistas que agridem fisicamente estudantes de inclinações
esquerdistas. No ano passado, o ministro da Cultura, Mahesh Sharma,
descreveu um ex-presidente do país como patriota, “apesar de muçulmano” e
nem por isso perdeu o cargo.
Os grupos nacionalistas hindus pretendem representar todos os
hindus, que compõem 80% da população indiana. Dizem-se comprometidos com
a busca de um renascimento nacional, com o retorno a um passado
idealizado e com a recuperação de uma identidade “autêntica”. Seus
membros veem a si próprios como pessoas honestas que combatem uma elite
cosmopolita corrupta. Acabaram por modificar o jargão político do país,
desdenhando das injunções “politicamente corretas”, chamando a imprensa
que os critica de “imprestituta” e seus adversários políticos de
“antinacionais”. A RSS também exerce enorme influência na educação e na
mídia da Índia. Alguns Estados e escolas adotam livros didáticos
escritos por integrantes do grupo, que exaltam o papel de figuras
nacionalistas hindus e relegam os líderes de tendência mais secular a um
segundo plano.
O BJP vem se esforçando para controlar o Poder Judiciário, mas
enfrenta forte resistência. O partido só domina pequena parte dos
Estados do leste e do sul do país, e é visto com desprezo por muitos no
interior da elite instruída. No ano passado, o excesso de hinduísmo e a
falta de propostas econômicas custou à agremiação uma eleição no Estado
de Bihar.
Isso indica que a Índia dificilmente degenerará de uma hora para a
outra numa autocracia ao estilo turco. Mesmo assim, muitos indianos de
orientação secular e progressista estão apreensivos. Acredita-se que a
polícia favoreça o BJP. No mês passado, um repórter foi detido sob a
acusação de ter cometido o “crime” de filmar uma multidão que protestava
em frente a um banco, em Déli. Segundo o jornalista, os policiais
ameaçaram agredi-lo e disseram: “Quem deu permissão para você filmar?
Nosso governo mudou. Você não pode mais sair por aí tirando fotos a
torto e a direito”.
Mais uma vez, nações. Indagar sobre as raízes do
nacionalismo é como perguntar às pessoas por que elas amam suas
famílias e têm medo de gente estranha. Os estudiosos dizem que a ideia
de nação se constrói a partir de elementos como língua, história,
cultura, território e política, mas ninguém é capaz de identificar uma
causa única. Seria mais apropriado indagar o que faz com que o
nacionalismo cívico dê lugar à versão mais intolerante e excludente do
fenômeno. Há várias hipóteses.
Em países ricos, o pessimismo é importante. Os dados mostram que a
desaceleração do crescimento econômico reduz o apoio à globalização. A
desigualdade também é um fator a ser levado em conta. Os indivíduos com
nível educacional mais alto vêm se saindo bem, mas os trabalhadores
menos qualificados passam, de modo geral, por maus bocados. O desempenho
de Trump foi particularmente bom entre os eleitores brancos de pouca
qualificação profissional. Uma das variáveis mais fortemente associadas
ao apoio ao Brexit e a Le Pen é a opinião de que as coisas eram melhores
no passado.
Nos países em desenvolvimento, o crescimento tende a ser mais
acelerado, e o apoio à globalização, mais sólido. Mas as pessoas sofrem
com problemas que vão da corrupção generalizada à poluição do ar. Para
autocratas como Sisi e Putin, o nacionalismo é uma forma fácil e barata
de gerar entusiasmo pelo Estado e se esquivar de responsabilidade pelas
coisas que estão erradas.
Por trás do novo nacionalismo também há fatores culturais. No
Ocidente, é grande o número de pessoas, em particular entre os
indivíduos de mais idade, que sentem nostalgia pelo país em que nasceram
e se criaram. As levas de imigrantes que tornaram a Europa mais
muçulmana e os EUA menos brancos e protestantes geram desconforto, coisa
que tende a ser desqualificada como simples racismo.
A elite progressista dá valor a duas fontes de identidade: ser um
bom cidadão global (que se preocupa com as mudanças climáticas e com o
uso de trabalho escravo em Bangladesh, por exemplo) e criar vínculos
identitários com grupos que não têm nada a ver com a ideia de nação
(hispânicos, gays, budistas, etc). Pertencer a certos grupos de
identidade pode resultar em benefícios materiais e psicológicos. As
políticas de ação afirmativa, como as adotadas nos EUA, conferem aos
integrantes mais ricos dos grupos raciais que elas priorizam vantagens
inacessíveis para os membros mais pobres dos grupos que escapam a seu
raio de ação.
Os nacionalistas rejeitam a “balcanização” de seus países, em
particular quando os grupos de identidade são bem vistos apenas na
medida em que destoam da história até então dominante no país. Os
americanos brancos começam a agir como se fossem, eles próprios, um
grupo de pressão minoritário.
Por fim, algumas ferramentas de comunicação aceleraram a
propagação do novo nacionalismo. O Facebook e o Twitter permitem que as
pessoas contornem o filtro cosmopolitano da mídia tradicional,
estabelecendo diálogos diretos entre si, compartilhando notícias,
organizando manifestações. As mensagens postadas por Trump no Twitter
durante a campanha eleitoral atingiam milhões de pessoas.
Para os
“cidadãos de lugar nenhum” de Theresa May tudo isso é profundamente
perturbador. Mas eles não devem se desesperar. As mídias sociais também
estão à disposição dos progressistas. A popularidade dos demagogos
despenca quando suas propostas não conseguem gerar prosperidade. E as
tendências demográficas favorecem o pluralismo.
Em muitos países, é cada vez maior o contingente de indivíduos
com ensino superior, que revelam tendência majoritariamente cosmopolita.
No pós-guerra, cerca de 5% dos britânicos adultos frequentavam a
universidade. Atualmente, mais de 40% dos jovens que concluem o ensino
médio dão continuidade a seus estudos. Em 2005, havia na Alemanha 2
milhões de estudantes matriculados na educação superior. Dez anos
depois, eram 2,8 milhões. Nos EUA, a proporção de indivíduos que têm
entre 18 e 24 anos e frequentam a universidade subiu de 26%, em 1970,
para 40%, em 2014.
Além disso, a imigração, que contribuiu tanto para fomentar o
nacionalismo étnico, pode também concorrer para diminuir sua influência à
medida em que, com o nascimento de novas gerações, as sociedades forem
se tornando mais diversificadas. Entre 2000 e 2010, o número de
americanos nascidos no exterior aumentou quase 10 milhões, chegando a 40
milhões. No Reino Unido, entre 2001 e 2011, o aumento foi de 2,9
milhões, totalizando 7,5 milhões de britânicos nascidos em outros
países. Os eleitores ocidentais que têm 60 anos ou mais, entre os quais o
apelo do nacionalismo é particularmente forte, passaram por mudanças
culturais e econômicas mais aceleradas que as experimentadas por
qualquer outra geração – e parecem ter chegado a seu limite de
tolerância. Há poucos jovens entre os eleitores do Ukip e da FN, o mesmo
vale para o partido Alternativa para a Alemanha, outra agremiação de
tendência anti-imigrante.
Mas os jovens não parecem ter tanto medo das mudanças. Apesar de
só 37% dos franceses considerarem que a “globalização é boa”, essa
proporção chega a 77% entre os franceses que têm entre 18 e 24 anos. Os
novos nacionalistas vêm angariando apoio com a promessa de fechar
fronteiras e restaurar a homogeneidade social do passado. Mas, se a
próxima geração resistir, o futuro pode voltar a ser cosmopolita.
Publiquei há alguns anos um livro de poemas com esse
título, e, porque gosto dele, roubo-o de mim mesma para este artigo.
Vivemos, entre perdas e ganhos (pra falar de outro livro, pois livros
são o que eu faço), dizendo alô e adeus.
Uma gangorra esta vida, altos e baixos, médio e horrível ou glorioso.
Este
fim de ano é para muitos o único momento em que filosofamos um pouco,
construindo objetivos, fazendo juras falsas de melhorar aqui e ali,
falar mais com os filhos, procurar mais os pais, retomar aquela amizade,
pagar aquela velhíssima conta, que pode ser monetária ou emocional,
fazer terapia porque andamos muito loucos, ou admitir e curtir essa
nossa pequena insanidade porque afinal “eu sou assim e ninguém tem nada
com isso”. Prometemos a nós mesmos saber mais das notícias do mundo e do
país, pra não sermos tão alienados, ou nos propomos paz de espírito e
espaços de alegria, tentando não ver todas as notícias do dia, da noite e
da incansável madrugada.
Mas eu aqui falo de outros adeuses e
outras perdas: a do tempo, desperdiçado sentindo raiva, inveja, sendo
intolerantes, difamando, mentindo, criticando com azedume, passando por
cima do outro, esquecendo quem nos ama de verdade, humilhando para nos
sentirmos superiores, sendo bobalhões ou cruéis, quando podíamos estar
curtindo bons e belos momentos, preciosos na bizarrice dos tempos
atuais.
Falo da perda da juventude, que a grande parte das
pessoas ameaça, atormenta, sufoca e faz adoecer. Uma amiga minha corria
pela sala desesperada, mãos na cabeça, quando fez cinquenta anos: “Como
pôde acontecer isso, como pôde?”, e em lugar de curtir a maturidade, em
muitas coisas mais gloriosa do que a confusa juventude, sofria uma dor
sem consolo, embora fosse uma bela mulher, cheia de energia e esperança.
Outra
conhecida tanto começou a se repuxar para enganar o tempo, os outros e a
si mesma, que aos sessenta havia perdido não a juventude que se
transforma em maturidade e velhice, mas a si mesma: olhava o espelho e
nada mais nela era dela. Em alguns anos, por crueldade talvez dos
cirurgiões aos quais recorreu em série, parecia uma máscara feia,
distorcida, e a gente tinha vontade de sentar ali no meio-fio e chorar.
Só restavam nela a voz e os olhos de um cinza singular.
Também
damos adeus a pessoas, o que é o pior: as que vão viver longe, as que se
desprendem de nós, como acontece porque o afeto ficou ralo demais ou o
“longe” chama com muito fervor, passam para um limbo de onde às vezes
emergem, como de um nevoeiro, e dói um pouquinho, e pensamos “mas o que
será que aconteceu?”. E damos adeus de verdade aos amados que enveredam
pelo jardim de neblina e silêncio que chamamos morte, de onde não vão
retornar. Uma vez ou outra, parecem nos mandar recados: o som dos passos
no corredor, aquela voz, o jeito de falar, de virar o rosto, de
estender a mão, de nos olhar.
Com o tempo, tantos adeuses fazem
da alma uma espécie de renda – não necessariamente feia, mas intrigante:
porque podemos celebrar com espumante ou lágrimas, ou risos bons, o
movimento dessa engrenagem de que somos parte, e que, apesar dos
adeuses, se chama, mais do que morte, vida.
Ele é a
voz dos menos favorecidos. O sociólogo denuncia a desigualdade e a queda
da classe média. E avisa aos indignados que seu experimento pode ter
vida curta
Zygmunt Bauman acaba de completar 90 anos de idade e de tomar dois
voos para ir da Inglaterra ao debate do qual participa em Burgos
(Espanha). Está cansado, e admite logo ao começar a entrevista, mas se
expressa com tanta calma quanto clareza. Sempre se estende, em cada
explicação, porque detesta dar respostas simples a questões complexas.
Desde que colocou, em 1999, sua ideia da “modernidade líquida” – uma
etapa na qual tudo que era sólido se liquidificou, e em que “nossos
acordos são temporários, passageiros, válidos apenas até novo aviso” –,
Bauman se tornou uma figura de referência da sociologia. Suas denúncias sobre a crescente desigualdade, sua análise do descrédito da política
e sua visão nada idealista do que trouxe a revolução digital o
transformaram também em um farol para o movimento global dos indignados,
apesar de que não hesita em pontuar suas debilidades.
O polonês (Poznan, 1925) era criança quando sua família,
judia, fugiu para a União Soviética para escapar do nazismo, e, em 1968,
teve que abandonar seu próprio país, desempossado de seu posto de
professor e expulso do Partido Comunista em um expurgo marcado pelo
antissemitismo após a guerra árabe-israelense. Renunciou à sua
nacionalidade, emigrou a Tel Aviv e se instalou, depois, na Universidade
de Leeds (Inglaterra), onde desenvolveu a maior parte de sua carreira.
Sua obra, que arranca nos anos 1960, foi reconhecida com prêmios como o Príncipe das Astúrias de Comunicação e Humanidades de 2010, que recebeu junto com Alain Touraine.
Bauman é considerado um pessimista. Seu diagnóstico da realidade em seus últimos livros é sumamente crítico. Em A riqueza de poucos beneficia todos nós?,
explica o alto preço que se paga hoje em dia pelo neoliberalismo
triunfal dos anos 80 e a “trintena opulenta” que veio em seguida. Sua
conclusão: a promessa de que a riqueza acumulada pelos que estão no topo
chegaria aos que se encontram mais abaixo é uma grande mentira. Em Cegueira moral,
escrito junto com Leonidas Donskis, Bauman alerta sobre a perda do
sentido de comunidade em um mundo individualista. Em seu novo ensaio, Estado de crise,
um diálogo com o sociólogo italiano Carlo Bordoni, volta a se destacar.
O livro da editora Zahar, que já está disponível para pré-venda no
Brasil, trata de um momento histórico de grande incerteza.
Bauman volta a seu hotel junto com o filósofo espanhol
Javier Gomá, com quem debateu no Fórum da Cultura, evento que terá sua
segunda edição realizada em novembro e que traz a Burgos os grandes
pensadores mundiais. Bauman é um deles.
Pergunta. Você vê a desigualdade como uma “metástase”. A democracia está em perigo?
Resposta. O que está acontecendo agora, o
que podemos chamar de crise da democracia, é o colapso da confiança. A
crença de que os líderes não só são corruptos ou estúpidos, mas também
incapazes. Para atuar, é necessário poder: ser capaz de fazer coisas; e
política: a habilidade de decidir quais são as coisas que têm ser
feitas. A questão é que esse casamento entre poder e política nas mãos
do Estado-nação acabou. O poder se globalizou, mas as políticas são tão
locais quanto antes. A política tem as mãos cortadas. As pessoas já não
acreditam no sistema democrático porque ele não cumpre suas promessas. É
o que está evidenciando, por exemplo, a crise de migração. O fenômeno é
global, mas atuamos em termos paroquianos. As instituições democráticas
não foram estruturadas para conduzir situações de interdependência. A
crise contemporânea da democracia é uma crise das instituições
democráticas.
"Foi uma catástrofe arrastar a classe media ao precariat. O conflito já não é entre classes, mas de cada
um com a sociedade”
P. Para que lado tende o pêndulo que oscila entre liberdade e segurança?
R. São dois valores extremamente difíceis
de conciliar. Para ter mais segurança é preciso renunciar a certa
liberdade, se você quer mais liberdade tem que renunciar à segurança.
Esse dilema vai continuar para sempre. Há 40 anos, achamos que a
liberdade tinha triunfado e que estávamos em meio a uma orgia
consumista. Tudo parecia possível mediante a concessão de crédito: se
você quer uma casa, um carro... pode pagar depois. Foi um despertar
muito amargo o de 2008, quando o crédito fácil acabou. A catástrofe que
veio, o colapso social, foi para a classe média, que foi arrastada
rapidamente ao que chamamos de precariat (termo que substitui, ao mesmo tempo, proletariado e classe média).
Essa é a categoria dos que vivem em uma precariedade contínua: não
saber se suas empresas vão se fundir ou comprar outras, ou se vão ficar
desempregados, não saber se o que custou tanto esforço lhes pertence... O
conflito, o antagonismo, já não é entre classes, mas de cada pessoa com
a sociedade. Não é só uma falta de segurança, também é uma falta de
liberdade.
P. Você afirma que a ideia de progresso é um mito. Por que, no passado, as pessoas acreditavam em um futuro melhor e agora não?
R. Estamos em um estado de interregno,
entre uma etapa em que tínhamos certezas e outra em que a velha forma
de atuar já não funciona. Não sabemos o que vai a substituir isso. As
certezas foram abolidas. Não sou capaz de profetizar. Estamos
experimentando novas formas de fazer coisas. A Espanha foi um exemplo
com aquela famosa iniciativa de maio (o 15-M), em que essa gente tomou
as praças, discutindo, tratando de substituir os procedimentos
parlamentares por algum tipo de democracia direta. Isso provou ter vida
curta. As políticas de austeridade vão continuar, não podiam pará-las,
mas podem ser relativamente efetivos em introduzir novas formas de fazer
as coisas.
O sociólogo Zygmunt Bauman. SAMUEL SÁNCHEZ
P. Você sustenta que o movimento dos indignados “sabe como preparar o terreno, mas não como construir algo sólido”.
R. O povo esqueceu suas diferenças por um
tempo, reunido na praça por um propósito comum. Se a razão é negativa,
como se indispor com alguém, as possibilidades de êxito são mais altas.
De certa forma, foi uma explosão de solidariedade, mas as explosões são
muito potentes e muito breves.
P. E você também lamenta que, por sua natureza “arco íris”, o movimento não possa estabelecer uma liderança sólida.
R. Os líderes são tipos duros, que têm
ideias e ideologias, o que faria desaparecer a visibilidade e a
esperança de unidade. Precisamente porque não tem líderes o movimento
pode sobreviver. Mas precisamente porque não tem líderes não podem
transformar sua unidade em uma ação prática.
"O 15-M, de certa forma, foi uma explosão de solidariedade,
mas as explosões são potentes e breves"
P. Na Espanha, as consequências do 15-M chegaram à política. Novos partidos emergiram com força.
R. A mudança de um partido por outro não
vai a resolver o problema. O problema hoje não é que os partidos estejam
equivocados, e sim o fato de que não controlam os instrumentos. Os
problemas dos espanhóis não estão restritos ao território nacional, são
globais. A presunção de que se pode resolver a situação partindo de
dentro é errônea.
P. Você analisa a crise do Estado-nação. Qual é a sua opinião sobre as aspirações independentistas da Catalunha?
R. Penso que continuamos com os princípios
de Versalhes, quando se estabeleceu o direito de cada nação baseado na
autodeterminação. Mas isso, hoje, é uma ficção porque não existem
territórios homogêneos. Atualmente, todas as sociedades são uma coleção
de diásporas. As pessoas se unem a uma sociedade à qual são leais, e
pagam impostos, mas, ao mesmo tempo, não querem abrir mão de suas
identidades. A conexão entre o local e a identidade se rompeu. A
situação na Catalunha, como na Escócia ou na Lombardia, é uma
contradição entre a identidade tribal e a cidadania de um país. Eles são
europeus, mas não querem ir a Bruxelas por Madri, mas via Barcelona. A
mesma lógica está emergindo em quase todos os países. Mantemos os
princípios estabelecidos no final da Primeira Guerra Mundial, mas o
mundo mudou muito.
P. As redes sociais mudaram a forma como as
pessoas protestam e a exigência de transparência. Você é um cético
sobre esse “ativismo de sofá” e ressalta que a Internet
também nos entorpece com entretenimento barato. Em vez de um
instrumento revolucionário, como alguns pensam, as redes sociais são o
novo ópio do povo?
R. A questão da identidade foi transformada
de algo preestabelecido em uma tarefa: você tem que criar a sua própria
comunidade. Mas não se cria uma comunidade, você tem uma ou não; o que
as redes sociais podem gerar é um substituto. A diferença entre a
comunidade e a rede é que você pertence à comunidade, mas a rede
pertence a você. É possível adicionar e deletar amigos, e controlar as
pessoas com quem você se relaciona. Isso faz com que os indivíduos se
sintam um pouco melhor, porque a solidão é a grande ameaça nesses tempos
individualistas. Mas, nas redes, é tão fácil adicionar e deletar amigos
que as habilidades sociais não são necessárias. Elas são desenvolvidas
na rua, ou no trabalho, ao encontrar gente com quem se precisa ter uma
interação razoável. Aí você tem que enfrentar as dificuldades, se
envolver em um diálogo. O papa Francisco, que é um grande homem, ao ser
eleito, deu sua primeira entrevista a Eugenio Scalfari, um jornalista
italiano que é um ateu autoproclamado. Foi um sinal: o diálogo real não é
falar com gente que pensa igual a você. As redes sociais não ensinam a
dialogar porque é muito fácil evitar a controvérsia… Muita gente as usa
não para unir, não para ampliar seus horizontes, mas ao contrário, para
se fechar no que eu chamo de zonas de conforto, onde o único som que
escutam é o eco de suas próprias vozes, onde o único que veem são os
reflexos de suas próprias caras. As redes são muito úteis, oferecem
serviços muito prazerosos, mas são uma armadilha.
Estado de crise. Zygmunt Bauman e Carlo Bordoni. Editora Zahar. 192 págs., 39,90 reais.
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Reportagem por Ricardo de Querol - Redactor jefe de EL PAÍS - FONTE: http://brasil.elpais.com/brasil/2015/12/30/cultura/1451504427_675885.html