segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

O AMOR É BONDOSO

 

A química, as ciências sociais e a psicologia explicam que o segredo para manter um relacionamento depende da maneira como olhamos para o outro

Carolina Reis 

Costuma dizer-se que é um fogo que arde sem se ver. E que quando é verdadeiro não definha. E tem um jeito manso que só a alguém pertence. E que o corpo é testemunha de tudo o que faz. É dado de graça e semeado no vento. Um bicho instruído que nos faz escrever cartas ridículas e ser, igualmente, ridículos. É um verbo que dá vontade de conjugar perdidamente. Mas também é uma dor que desatina sem doer. Passamos por uma fase em que não se tem a certeza se é alegria ou tristeza. E, às vezes, no calendário, noutro mês é dor. Porque é cego e surdo e mudo, o amor. Luís de Camões, Carlos Drummond de Andrade, Caetano Veloso, Fernando Pessoa, Florbela Espanca, Ary dos Santos e Sérgio Godinho escreveram assim sobre e para ele. Tal como milhares de poetas que o tentaram (e tentam) descrever, dedicando-lhe versos e quadras à procura da definição perfeita. Aquela que faça quem a lê identificar-se na primeira rima, na primeira linha, no primeiro minuto.

O amor romântico — aquele que temos por um parceiro — está presente nas nossas vidas desde o início. Faz parte da cultura em que vivemos, pertence à sociedade na qual estamos inseridos. Mesmo que o conceito de casal tenha sido alargado, que uma grande maioria dos casamentos acabe em divórcio, que hoje já nasçam mais crianças de casais em união de facto do que casados de papel passado ou com votos feitos perante Deus.

Pode causar sofrimento e dor, mas está sempre presente. Na altura do Natal, quando a família pergunta se já se encontrou o tal. Nos círculos de amizade, em que se tenta arranjar par correspondente ao amigo solteiro. No sonho de ter uma família. “O amor relacional é o tema central da nossa clínica”, diz Coimbra de Matos, psiquiatra e psicanalista conhecido e reconhecido pelo estudo sobre a depressão.

Movidos e comovidos pelos versos dos poetas e pelas histórias de encantar, os sete mil milhões de humanos que habitam o planeta procuram-no. E, neste mês de janeiro — talvez inspirados pelas resoluções de ano novo —, os portugueses fazem um esforço extra e enchem os sites de encontros amorosos. “Vêm à procura de conhecer outras pessoas, descomprometidas. Querem alargar o seu círculo de conhecimentos, e, sim, encontrar namorada/namorado”, conta Miguel Moreira, responsável pelo ‘Speed Party’, um site que realiza eventos para solteiros. Nos últimos 11 anos, foram responsáveis por, pelo menos, 20 casamentos. Ainda há finais felizes.

O momento de procura, de partida para o amor é feito de incertezas. Apenas sabendo de que se terá a certeza quando for a altura do passo definitivo. E com a expectativa de que será para sempre. Foi isso que a sociedade e as histórias de encantar nos ensinaram. Porém, nem todos os relacionamentos são eternos. O amor assume muitas formas ao longo da vida. Não tem uma fórmula secreta e matematicamente certeira, mas há um caminho para o fazer durar. Não é bem científico, mas envolveu muita ciência social para o descodificar. Amar uma pessoa e querer ficar com ela para o resto da vida requer trabalho, não basta querer. É preciso querer e fazer.

Há um coração que bate, sim, mas também moléculas que se espalham pelo corpo e sentimentos que podem ser exercitados como um músculo para o fazer — ao amor — durar. “Existem dois tipos de amor: o oblativo e o contemplativo. O primeiro é o que dá amor, o segundo é egoísta e pouco benéfico. O amor relacional entre casal assenta na reciprocidade”, afirma Coimbra de Matos.

Vive, então, do parar, ouvir e responder. Numa ligação constante entre cérebro e coração. É isso que faz as mãos suar quando se avista a pessoa amada; ter borboletas no estômago que parecem reais só de pensar em quem gostamos; as pernas que tremem no momento de um beijo. “O amor é frequentemente celebrado como um fenómeno místico, muitas vezes espiritual, por vezes apenas físico, mas sempre como uma força capaz de determinar o nosso comportamento. Sem querer discutir a magia do amor do ponto de vista científico, há uma química que lhe está associada: os compostos químicos que atuam sobre o nosso corpo — o cérebro em particular — e nos transmitem sensações e comportamentos que associamos ao amor”, diz Paulo Ribeiro Claro, professor de Química na Universidade de Aveiro.

Mais importante do que descobrir a chave para o encontrar, é mantê-lo ao longo do tempo. Como impedir que o amor se torne passado, pule o muro, suba a árvore e se transforme em ferida que às vezes não sara nunca, às vezes sara amanhã, como canta a poesia de Carlos Drummond de Andrade.
Qualquer um de nós pode amar, mas para o fazer em pleno é bom que a infância tenha sido passada sem medos e com um desenvolvimento espontâneo. A raiz do presente está no passado. O que somos hoje e, por consequência, quanto conseguimos amar, depende da maneira como fomos criados. O amor que hoje temos para dar, a nossa disponibilidade para o fazer, depende da qualidade do amor que recebemos na infância, a altura em que estruturamos o nosso estilo relacional até aos cinco/seis anos. “Se a pessoa não foi amada na infância fica com deficiência afetiva. Fica com uma deficiência em receber afeto e torna-se pesada para o outro. Não consegue amar porque acha que não recebe o suficiente”, explica Coimbra de Matos. Uma definição que se pode encontrar em quem se queixa, constantemente, da vida. Pessoas que consideram que dão muito mais ao outro — incluindo o amor — do que o que recebem em troca.

Mas qualquer pessoa tem as moléculas necessárias para se apaixonar e amar. Primeiro, há a fase do desejo, em que a testosterona e o estrogénio nos levam a sair e a procurar parceiro; depois, a fase da paixão, em que as mãos transpiram, se sentem borboletas na barriga, o coração e as pernas tremem quando se vê a pessoa desejada, graças a compostos químicos que afetam o cérebro: a norepinefrina que nos excita (e acelera o bater do coração), a serotonina que nos descontrola, e a dopamina, que nos deixa felizes. Só daqui se parte para o chamado amor sóbrio, ou seja, o amor que sustenta a relação amorosa que manteremos, ou tentaremos, manter ao longo vida. E, ao mesmo tempo, tudo faremos para que nos continue a satisfazer.

UMA QUESTÃO HORMONAL

“Amar-me-ás em maio como em dezembro?”, perguntou um dia Jack Kerouac. Depende, também, da química. Esse tal amor sóbrio sobrevive — segundo a antropóloga Helen Fisher — devido à oxitocina e a vasopressina. A primeira, também conhecida como hormona do carinho ou do abraço, é produzida no hipotálamo que se situa no cérebro, e está associada a emoções e comportamentos sociais. É ela que diminui as resistências que temos em relação à proximidade com os outros. A vasopressina é a hormona da fidelidade. “A oxitocina é também responsável pelos orgasmos, por isso, um dia, por piada, durante uma conferência a professora Helen Fisher disse que o segredo para manter um casamento era fazer muito sexo com o parceiro e, de preferência, com muitos orgasmos”, brinca Paulo Ribeiro Claro.

Há 30 anos, um psicólogo norte-americano relacionou, cientificamente, o amor com a bondade e a generosidade. John Gottman — fundador de um instituto com o seu nome que se dedica há 40 anos a estudar a conjugalidade — juntou num laboratório da Universidade de Washington um grupo de recém-casados para ver como reagiam. Depois de testes feitos com elétrodos, em que estes respondiam a perguntas sobre o dia a dia, o laboratório do amor concluiu que os mais ativos eram os que, seis anos depois, estavam infelizes ou separados. Estes casais estavam sempre em modo ataque, mesmo quando a conversa era sobre o dia a dia ou sobre um momento agradável. Se o parceiro lhes fazia uma pergunta sobre o dia de trabalho, o outro respondia logo num tom de crítica e fazia uma pergunta de volta sobre esse mesmo dia. Gottman chamou-lhes os “desastres do amor”.
No lado oposto, os casais felizes emanavam calma e tranquilidade. Os resultados intrigaram o psicólogo, levando-o a avançar para um segundo estudo, desta vez mais centrado apenas nos casais bem-sucedidos, a que chamou “mestres do amor”. Reuniu outros recém-casados noutro laboratório na mesma universidade, mas agora em estilo bed and breakfast (pensão com pequeno-almoço), para analisar interações normais: cozinhar, ouvir música, comer, conversar ou fazer limpezas. E reparou que os bem-sucedidos, ou seja, os “mestres do amor” criavam uma cultura de intimidade e atenção. Um exemplo: imaginemos que, num casal, um dos parceiros é fã de música clássica e encontra por acaso um vinil raro de Maria Callas numa loja vintage, chega a casa e mostra-o ao outro parceiro. A maneira como este vai responder definirá o futuro daquela relação. Quem não mostrou interesse, respondendo de forma breve, respondendo de forma brusca, ou não respondendo, e continuou a fazer o que estava a fazer terá mais probabilidades de separação ou de ser infeliz naquele relacionamento. Um pouco ao jeito da canção de Caetano Veloso: “Não tá entendendo quase nada do que eu digo. Eu quero é ir-me embora Eu quero dar o fora.”

Futuro diferente têm os parceiros que pararam o seu mundo, escutaram as maravilhas da voz de Callas, e a aventura da descoberta daquele vinil encontrado numa loja perdida no meio do nada. “É a diferença entre examinar o parceiro pelo que o parceiro está a fazer de correto, de examiná-lo pelo que ele está a fazer de errado. É a diferença entre criticar o parceiro versus respeitá-lo e mostrar apreciação”, disse Gottman depois de realizar o estudo. A diferença está na bondade e generosidade que se tem com o outro. A forma como o bem-estar e felicidade do outro são encarados. Com igualdade e sem submissões, mas com partilha e envolvimento. No fundo, com bondade. E é este sentimento que mantém uma relação, que a torna duradoura. “As relações amorosas não funcionam quando um dá mais do que o outro, porque assim há sempre alguém que se sente esvaziado e alguém que se sente cheio”, frisa Coimbra de Matos. Ninguém pode amar sozinho, ninguém pode contentar-se com apenas ser amado.
Por vezes, as relações estão cheias de comportamentos tóxicos dos quais os parceiros não se apercebem, mas que corroem, quase em silêncio. Contabilizar os erros do parceiro na relação, não esquecendo os danos que trazem para o presente da relação; usar uma postura passivo/agressiva para dizer o que se pretende, em vez de se ser frontal e afirmar o que se quer; ameaçar o relacionamento em função de uma atitude, tornando-o quase como refém das decisões do parceiro como, por exemplo, pensar que o companheiro esconde algo e ameaçar terminar tudo porque não pode estar com alguém que tem segredos; culpar o parceiro pelas próprias emoções; ser ciumento ao mínimo telefonema, SMS, ou contacto do parceiro com amigos e conhecidos; resolver os problemas com presentes, por exemplo, decidir fazer uma viagem num momento de crise para tentar seguir em frente, em vez de conversar sobre a questão da discórdia, são caminhos para a rutura e a infelicidade.

Mas também há hábitos que pensamos ser tóxicos e que são saudáveis num relacionamento a dois. Gottman destrói a ideia de que tudo o que sentimos, pensamos e fazemos tem de ser debatido com o parceiro. Dizem os seus estudos que 69% dos casais felizes mantêm conflitos por resolver ao fim de dez anos, mas não estão aprisionados nessa discordância e conseguem seguir em frente. “A ideia de que todos os casais têm de comunicar e resolver todos os seus problemas é um mito”, diz no livro “What Makes Love Last”. Ao longo da sua investigação, encontra sempre uma semelhança entre casais felizes, são os que não fazem questão de analisar e debater tudo. É como se aceitassem que a vida não é perfeita e há coisas que não se resolvem. Isso não significa, porém, desonestidade. Estar disponível numa relação significa estar preparado para magoar o outro, desde que isso implique ser sincero. Não é um magoar físico ou emocional. É ser sincero, ainda que o outro fique magoado ao ouvir. E por muito que se queira manter a relação, que isso implique manter idealizada uma ideia de amor com que se cresceu, os casais devem perceber que nem tudo é para sempre. Só aceitando isto se evolui e se trabalha para manter a chama acesa. Ter-se o outro como garantido, ou dar-se por garantido não é saudável nem augura bom futuro. Outra regra de ouro é aceitar os defeitos do outro, sem o querer mudar. Ninguém pode mudar ninguém. Não há nada mais desagradável do que tentar fazer do parceiro algo que ele não é.

Uma relação é um diálogo, assente na dicotomia de perguntas e respostas. Conta também a maneira como se veem essas ações, muitas vezes o parceiro tenta fazer as coisas bem, com boas intenções, mas acaba por não conseguir. Há que apreciar as intenções. Apreciar o gesto. Isto é, ter bondade para reconhecer o esforço do outro em chegar até nós.

A diferença está na resposta

Os votos de casamento católico dizem que a união de dois seres é válida para a “saúde e a doença, a alegria e a tristeza, todos os dias da vida”. Não são palavras exclusivas dos religiosos, nem palavras vãs para momentos bonitos. São compromissos para serem interiorizados por quem dá o passo de se juntar a outro. Se conta a maneira como se reage nos momentos maus, também é relevante a forma como se dá apoio nas alturas felizes que, na generalidade, são a maioria da vida de um casal.

Num estudo de 2006, a socióloga americana Shelly Gable juntou vários jovens casais para analisar a maneira como vivenciavam os aspetos positivos das suas vidas. E distinguiu quatro formas de reação: o passivo-destrutivo; o ativo-destrutivo; o passivo-construtivo; ou o ativo-construtivo. Diferenciam-se consoante a resposta que dão aos companheiros após uma boa notícia, como uma promoção no trabalho, por exemplo. O primeiro responde com algo bom que lhe tenha acontecido nesse dia, mesmo que seja de menor importância; o segundo diminui a importância da notícia, ao perguntar, por exemplo, se acha que vai conseguir ter tempo e estofo para aquela promoção; o terceiro reconhece a boa novidade, mas não para a saborear com o parceiro, continuando a fazer o que estava a fazer antes; o quarto fica feliz, faz perguntas, envolve-se na decisão, oferece ajuda.

Esta última é uma reação baseada na bondade. Tal como dizem as escrituras do Novo Testamento. “O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha”, como o apóstolo São Paulo disse aos Coríntios. Podem não existir fórmulas, porém terá de existir bondade para manter a oxitocina e a vasotosina a fervilhar. Talvez se possa dizer, para não correr riscos, que o sucesso do amor está na junção destas três componentes: infância, ciência e bondade.

“É difícil ter regras gerais que se apliquem a toda a gente. Mas é importante que o relacionamento não entre numa rotina. A rotina mata. Ou dá conflito ou esmorece”, sublinha Coimbra de Matos. Esta morte pode acontecer até em momentos de boas intenções, como quando se marca um dia fixo a dois e esse dia é sempre na mesma altura e para fazer a mesma coisa, como ir jantar fora às sextas-feiras. Ir sempre ao mesmo sítio passar férias, fazer sempre as mesmas atividades, estar sempre com o mesmo grupo de amigos: mata.

Faz falta conhecer novas pessoas, contudo, a nível social (amigos e conhecidos). Uma relação é um espaço a dois, desengane-se quem achar que pode continuar a amar o marido/mulher e encontrar um amante para os tempos livres. “O homem é capaz de te trair e de te amar ao mesmo tempo. A traição do homem é hormonal, efémera, para satisfazer a lascívia. Não é como a da mulher. Mulher tem de admirar para trair; ter algum envolvimento. O homem só precisa de uma banda. A mulher precisa de um motivo para trair, o homem precisa de uma mulher”, eternizou Arnaldo Jabor. Mas não vamos entrar na guerra dos sexos. Qualquer um pode amar, qualquer um pode trair.

O ser humano é monogâmico, logo o amor também? Depende da zona do globo em que habitamos. No norte de Moçambique, por exemplo, há uma tribo polígama em que as mulheres têm vários maridos. E quando a mulher está com um marido, os sapatos ficam à porta e todos os outros homens percebem e respeitam aquele momento de intimidade, não entrando em casa. E se alguém se sentir menos apoiado, pode recorrer a um auxiliar do amor. Em muitos países, cuja lei é regida pelo Islão, é possível a um homem ter várias mulheres. E, na Índia, continuam a existir os casamentos arranjados.
O nosso amor, o do Ocidente, é uma equação entre duas pessoas. Monogâmica. “Embora seja cultural, o ser humano é bastante exclusivo. Somos predominantemente monogâmicos, mesmo que seja uma monogamia serial, temos um parceiro de cada vez. É difícil gostar de duas pessoas ao mesmo tempo. O que é possível é ter relações parciais”, frisa Coimbra de Matos. Podem existir momentos de hesitação, de dúvida, em que muitas vezes se confunde o amor com a paixão e o desejo. E que se não forem consumados, pois a traição põe em causa o amor, devem ficar guardados no interior de cada um. “Há sempre coisas que se guardam para nós próprios. É normal e natural que surjam ‘terceiras pessoas’ à nossa volta. Em fantasia, em pensamento, que sejamos livres”, continua o psicanalista.

Procura dolorosa

A norma do amor romântico, no entanto, está a mudar. “No contexto português, as pressões sociais para se seguir um determinado percurso são muito grandes e têm etapas muito marcadas: namoro, coabitação, casamento”, explica Cristina Santos, socióloga e investigadora do Centro de Estudos Sociais de Coimbra.

A expectativa de vida que temos é baseada no amor. Num único amor que será para a vida. Prevalece a ideia de que só nos completamos quando encontramos outra pessoa, e isso “é extremamente violento e castrador das liberdades”. O tempo é, no entanto, de mudança. As alterações à norma vão crescendo. Começa-se a normalizar o que até aqui eram alternativas: o viver sozinho por escolha própria; o ser pai ou mãe sozinho por escolha própria. A vida amorosa e conjugal deixou de ser linear.
O mundo sempre foi evolutivo e esta não é a primeira mudança. “Antigamente, as pessoas viviam menos tempo, por isso estavam casadas menos anos”, lembra Coimbra de Matos. Há meio século não era possível um casal — como hoje acontece — celebrar 60 anos de casamento. A geração que neste anos completa esta data, cresceu e viveu numa época em que a obediência da mulher ao marido era um dado adquirido e em que o divórcio era proibido. As alterações legislativas que ocorreram desde o ano 2000 — criminalização da violência doméstica; descriminalização da IVG; adoção de crianças por parte de casais homossexuais; alargamento da procriação medicamente assistida a mulheres sozinhas e lésbicas; a possibilidade de recorrer a uma barriga de aluguer — estão também ligadas ao conceito de família e, assim, do amor.

Num programa de estudo, financiado pelo European Research Council, Cristina Santos e uma equipa de investigadores em Portugal, Espanha e Itália investigam o efeito destas alterações. Em todos os tipos de relações, como as poliamorosas, surge a bondade. “A preocupação com o bem-estar do outro. Apesar de o amor-próprio ser bastante importante.”

Muda o mundo, a norma, misturam-se os géneros. Mas há sempre uma ferida que dói e não se sente. E a maior solidão é a do ser que não ama. Mas quando houver tormenta, resta sempre a poesia. “Este céu passará e então teu riso descerá dos montes pelos rios até desaguar no nosso coração”, escreveu Ruy Belo.
------
FONTE:  http://expresso.sapo.pt/sociedade/2017-02-05-O-amor-e-bondoso 

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

A última geração do livro

Juremir Machado da Silva* 
 Resultado de imagem para imagem livros velhos
Estamos vivendo uma metamorfose da cultura. Alguns dos seus aspectos, porém, já eram visíveis no século XIX. Eis o principal: tudo é mercadoria. A lógica que determina os movimentos de toda natureza é a mercantil. Seguem três recortes sobre o passado, o presente e o futuro baseados nas percepções da arte. Antes que ela desapareça,

Capitais sociais

Quem não sofreu com os livros de José de Alencar na escola? O homem podia fazer frases altamente poéticas e construir enredos totalmente artificiais. Foi um político conservador que teve seus piores momentos falando de escravidão. Como escreveu muito, não deixou de acertar algumas vezes. Em certas passagens, superando sua visão de mundo elitista, antecipou conceitos sociológicos que ainda vendem bem. Por exemplo, o conceito de “capital social” explorado pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu.

No romance Senhora, um personagem faz uma síntese irretocável da dinâmica social: “Queria que me dissessem os senhores moralistas o que é esta vida senão uma quitanda? Desde que nasce um pobre diabo até que o leva a breca não faz outra coisa senão comprar e vender. Para nascer é preciso dinheiro e para morrer ainda mais dinheiro”.

O mundo é mercado. Tudo na vida é mercadoria. Cada um precisa ter dinheiro e seus complementos: prestígio, fama, poder, relações, beleza ou influência.

Quem tem mais, de modo geral, é mais “empoderado”. Uma conclusão do personagem poderia ser uma das teses de A sociedade do espetáculo, livro do francês Guy Debord, escrito em 1967, ou do próprio Bourdieu em suas teses sobre a “economia das trocas simbólicas” ou materiais: “Os ricos alugam seus capitais; os pobres alugam-se a si; enquanto não se vendem de uma vez, salvo o direito do estelionato”. Essa tirada é citada pelo professor gaúcho José Hildebrando Dacanal em seu livro Romances brasileiros, um alentado volume sobre as grandes obras e os autores da literatura “verde-amarela” canonizados.

A mercantilização da existência converteu-se num valor inquestionável. Moeda forte. Tudo deve ser privatizado. A morte, como se sabe, é altamente rentável e não poderia cair nas mãos do Estado. Ninguém vira cinzas em poucos minutos sem pagar por um serviço eficiente. José de Alencar roçou alguns dos temas mais explorados por pensadores, como o já citado Debord, do século XX. Em A Pata da Gazela, fustiga o reino das aparências. Quem sobreviveu a esse livro, contudo, merece um lugar de destaque no paraíso dos leitores contumazes.

Sob o guarda-chuva do realismo/naturalismo o pessoal do século XIX escreveu paradoxalmente algumas das histórias mais inverossímeis de que se tem notícia. No meio dessas narrativas mais ou menos folhetinescas sempre se recolhe alguma sacada genial, fruto da observação do contexto, como se o escritor, por um instante, não se contivesse e deixasse escapar um centavo de verdade. Salvo se for apenas uma erro de revisão, um descuido.

Quando tudo é mercadoria, todos têm preço? Há diferença entre preço e valor? Entretenimento tem preço e cultura tem valor? A quitanda virou mercado, que se transformou em supermercado, que se converteu em shopping… Só não prospera o que não gera receita. O drama do pobre de hoje é não encontrar a quem se alugar. Em breve, cada país pagará uma renda mínima a todo cidadão para que ele seja consumidor e sobreviva. Quem precisará comprar ou alugar um pobre se as máquinas fazem melhor o serviço e não se organizam contra seus donos?
*
A teoria dos objetos inanimados

Paul Auster, em Homem no escuro (2008), criou um personagem bastante curioso: um crítico literário aposentado, com os movimentos limitados por causa de um acidente de carro, que passa boa parte do seu tempo vendo filmes em companhia da neta, Katya, cujos movimentos estão bastante reduzidos depois que o namorado foi morto na guerra. Vivem com eles também a filha do critico, Miriam, sozinha há cinco anos. Katya abandonou a escola de cinema. Para passar o tempo e driblar a falta de sono, o crítico inventa história que não saem da sua cabeça.

Cria um personagem que se descobre dentro de um buraco, de onde é tirado para se descobrir numa guerra. Logo no começo do romance, o crítico literário apresenta o que parece ser a diferença radical entre ler e ver um filme: “Fugir para dentro de um filme não é como fugir para dentro de um livro. Os livros nos obrigam a lhes dar algo em troca, ao passo que podemos ver um filme – e até gostar dele – num estado de passividade mecânica”.

Katya expõe a sua “teoria dos objetos inanimados”. Segundo ela, são eles que definem a grandeza do cinema: “Objetos inanimados como forma de expressar emoções humanas”. Ela dá três exemplos tirados de filmes de Vittorio de Sica, Ladrões de bicicleta, Jean Renoir, A Grande ilusão, e Satyajit Ray, O Mundo de Apu. Descreve a abertura de Ladrões de bicicleta. Um marido chega em casa, mergulhado em problemas – precisa tirar a bicicleta do penhor para trabalhar no emprego que arranjou – e nem nota que a mulher se esfalfa com dois baldes de água.

Katya resume sua teoria: “Objetos inanimados, emoções humanas”. A mulher vende a trouxa de roupas de cama. A cena acontece numa loja de penhores, “uma espécie de armazém para objetos abandonados”, onde a teoria de Katya encontrará o seu ponto máximo: “No início, as prateleiras não parecem muito altas, mas a câmera recua e, à medida que o homem começa a subir, vemos que as prateleiras continuam sem parar até o teto, e todas as prateleiras e todos os cantinhos estão entupidos de trouxas idênticas àquela que o homem está guardando agora, e de uma hora para outra parece que todas as famílias de Roma venderam suas roupas de cama”.

As trouxas de roupa penhoradas como metáfora de uma sociedade arruinada. No segundo exemplo, extraído de Renoir, o personagem de Jean Gabin despede-se da mulher alemã que ama e prepara-se para atravessar a fronteira da Suíça junto com o parceiro Dalio. Os homens partem e a mulher fica com a filha pequena e a louça suja do jantar. Aqueles pratos se “transformaram no sinal da sua ausência, no sofrimento solitário das mulheres quando os homens partem para a guerra, e, um por um, sem dizer palavra, ela recolhe os pratos e limpa a mesa”.

O terceiro exemplo parece mais sutil. O indiano Apu casa praticamente por acaso com uma moça que mal conhece. O noivo escolhido para a jovem era um estúpido. Desesperada, a família, na busca de uma solução, convence Apu a substituí-lo. As cenas que interessam se passam em Calcutá, para onde, contra sua vontade, Apu levou a esposa. A primeira imagem é simplesmente devastadora: o homem mora num lugar pobre e sujo. A janela do quarto é coberta com um pedaço de estopa. Na cena seguinte, uma manhã, a estopa já foi trocada por um tecido xadrez limpo (objeto 1). Em seguida, a câmera mostra um jarro de flores (objeto 2). Em seguida, quando a mulher se levanta, não consegue andar e percebe que seu sári (objeto 3) está amarrado às roupas por marido. Por fim, enquanto ela prepara o café, Apu rola preguiçosamente na cama, como um marido satisfeito, e depara-se com um grampo de cabelos entre os dois travesseiros” (objeto 4).

Katya conclui: “Esse é o ponto culminante. Ele segura o grampo de cabelos e o examina, e, quando a gente observa os olhos de Apu, a ternura e a adoração naqueles olhos, a gente fica sabendo, fora de qualquer dúvida, que ele está loucamente apaixonado por ela, que ela é a mulher da sua vida. E Ray faz isso acontecer sem usar uma única palavra de diálogo”. O que há por trás dos objetos inanimados de Kátia? Uma teoria. No livro de Paul Auster, contudo, é bastante possível que os verdadeiros objetos inanimados não sejam as trouxas de roupa de cama penhoradas nem os pratos sujos e o grampo de cabelo da mulher de Apu, mas pai, filha e neta paralisados em casa. Ou avô e neta imobilizados no sofá vendo filmes para esquecer tragédias pessoais. A “teoria dos objetos inanimados” de Auster é uma boneca russa: esconde outras dentro dela. Exprime a ideia de que cinema é imagem e deve dizer com imagens todo um imaginário intricado.

A teoria de Auster sobre os filmes esconde possivelmente uma teoria sobre os personagens do seu livros.

Esconde também uma teoria sobre o papel da teoria.

A função dela no livro não é de mostrar o autor do livro defendendo uma tese e fazendo do seu romance um romance de tese, mas fazer os personagens terem uma leitura do mundo, uma visão de mundo, algo para dizer.
*
Melhor romance

     Nas férias universitárias, releio pedaços de grandes livros e me faço perguntas irrespondíveis: qual o melhor romance brasileiro de todos os tempos? É um jogo que doutos levam a sério. Fazem listas, cânones e definições categóricas. Não fujo ao desafio. Provoco o leitor: Dom Casmurro? Grande Sertão: veredas? O Tempo e o Vento? A pergunta pode ser ampliada para facilitar ou complicar: qual o melhor livro brasileiro de todos os tempos? Os Sertões? Casa Grande & Senzala? Grande Sertão? Dom Casmurro? A trilogia O Tempo e o Vento? Macunaíma?

Essas obras são clássicas. E são belas e profundas. Quantas são lidas ainda? Quantas são lidas por prazer? Quantas são folheadas por obrigação escolar? Outra maneira de colocar o desafio é esta: quem é o maior autor brasileiro de todos os tempos? Machado de Assis? Euclides da Cunha? Guimarães Rosa? Erico Verissimo? Gilberto Freire? Mario de Andrade? É possível que a melhor obra não pertença ao melhor autor? Pode-se dizer que Machado de Assis é o maior escritor brasileiro de todos os tempos, mas que Grande Sertão é o melhor romance?

Há lugar nessas especulações para Jorge Amado e Lima Barreto? Triste Fim de Policarpo Quaresma tem direito a ser citado entre as obras-primas da literatura brasileira? O que é uma obra-prima? Aquela que nos revela? Aquela que traz à tona o que somos e não vemos? Aquela que cria personagens mais reais do que nós mesmos? Na última página da minha surrada edição de Grande Sertão anotei 25 aspectos que me embasbacaram. Alguns deles: singularização, efeito de linguagem, ruptura, especificidade dos personagens, estranhamento, vertigem.

No futuro próximo, esses livros e autores serão pouco lidos e suas obras não passarão de documentos históricos. Quem lê hoje Virgílio, Ovídio e Horácio? Sei que este meu veredicto é entendido como pessimismo ou até como um absurdo. Que posso fazer? Estamos vivendo o fim da uma época. Somos a última geração do livro. A obra escrita impressa ou digital não desaparecerá. Ficará como um vestígio de outros tempos. Entraremos em definitivo na era da imagem. O livro foi uma tecnologia do imaginário que teve o seu tempo. O romance viveu o seu apogeu no século XIX. O século XX já foi o da sua desconstrução.

Precisamos aproveitar intensamente o tempo que nos resta. Grande autores ainda surgirão. Algum no Brasil terá a dimensão de Machado de Assis, Guimarães Rosa, Erico Verissimo, Lima Barreto, Jorge Amado, Euclides da Cunha, Gilberto Freire, Jorge Amado ou Mario de Andrade? Não terá por que a fonte da genialidade estranhamente secado? Ou por ter o modelo se esgotado? Ou por ter a sensibilidade se deslocado para outros suportes e formas?

Ainda surgirá no mundo um poeta tão admirado em vida como Pablo Neruda? Haverá no Brasil um novo Drummond? No Rio Grande do Sul, um novo Quintana? Ou a poesia como expressão mais ampla morreu? A internet facilita a divulgação da poesia. É um paraíso para poetas. Responda, leitor: quem foi o melhor de todos? E o releia feliz.
---------
* Jornalista. Escritor.Cronista do Correio do Povo
Fonte: http://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/2017/02/9516/a-ultima-geracao-do-livro/ 
Imagem da Internet
 

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

POPULISMO A OCIDENTE




É o fenómeno emergente do séc. XXI, não tem ideologia, tanto pode ser de direita como de esquerda, e assenta numa visão moral da sociedade. É a maior ameaça para as democracias ocidentais.

Ameaça



É apenas um ligeiro exagero afirmar que, pelo menos até agora, o populismo é o principal fenómeno político do século XXI. Não há um dia que passe sem um artigo proeminente acerca do aumento do populismo na Europa e na América do Norte – para não falar da América Latina. Da Grécia, passando pela Noruega, até aos Estados Unidos da América, pensa-se que populistas de esquerda e de direita desafiam os partidos e políticos convencionais, chegando mesmo a ameaçar a democracia. De facto, já em Abril de 2010, o na altura Presidente da União Europeia (UE), Herman van Rompuy, numa entrevista ao jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung, tinha chamado ao populismo “o maior perigo para a Europa”. Mas o que é populismo? E será que está mesmo a pôr as democracias ocidentais em perigo?

A VOZ DO POVO?

No debate público, o populismo é principalmente usado para denunciar uma forma de fazer política que utiliza (uma combinação de) demagogia, liderança carismática ou um discurso de Stammtisch (café). Nenhum dos três reflecte o entendimento correcto de populismo. Enquanto alguns populistas podem prometer tudo a toda a gente (i.e. demagogia) ou falar numa linguagem simples, vulgar até (i.e. discurso Stammtisch), muitos não o fazem. Mais importante ainda é o facto de muitos políticos não-populistas também o fazerem, especialmente em campanhas eleitorais. Da mesma forma que, enquanto alguns populistas bem-sucedidos são líderes carismáticos, outros não o são, e muitos não-populistas (bem-sucedidos) também são carismáticos.

Como alternativa, o populismo é mais bem definido como uma ideologia thin-centered, que considera a sociedade como estando fundamentalmente separada em dois grupos homogéneos e antagónicos, a “população pura” e a “elite corrupta”, e que argumenta que a política deve ser uma expressão da vontade popular (volonté general) do povo. Isto significa que o populismo é uma visão particular de como a sociedade é e com deveria ser estruturada. As suas características essenciais são: moralidade e monismo. O ponto chave é que o populismo vê ambos os grupos como homogéneos, i.e. sem divisões inter-nas de maior grau, e considera a essência dessa divisão entre os dois grupos como moral.

Contrariamente ao que os seus defensores e oponentes dizem, o populismo não é nem a essência nem a negação da democracia. Em suma, o populismo é pró-democracia, mas contra a democracia liberal. Apoia a soberania popular e a regra da maioria, i.e. democracia, mas rejeita o pluralismo e os direitos das minorias, i.e. liberalismo. O populismo não é nem de esquerda nem de direita; aliás, o populismo pode ser encontrado tanto na esquerda como na direita.

Isto deve-se ao facto de o populismo visar apenas uma parte limitada duma agenda política mais ampla. Por exemplo, não nos diz muito sobre o sistema político ou económico ideal que um estado (populista) deve ter. Por conseguinte, raramente existe numa forma pura, no sentido em que a maioria dos actores populistas combinam populismo com outra ideologia. Esta chamada ideologia de acolhimento, que tende a ser muito estável, pode ser de esquerda ou de direita. Geralmente, os populistas de esquerda combinam populismo com uma interpretação de socialismo, enquanto os populistas de direita o combinam com uma forma de nacionalismo.

SUCESSO NA EUROPA

Embora o populismo tenha uma longa história na Europa, remontando aos Narodnik da Rússia do século XIX, tem sido um fenómeno político marginal. A Europa pós-guerra presenciou muito pouco populismo até á década de 90. Existiu o pujadismo na França do final da década de 50, os partidos progressistas noruegueses e dinamarqueses nos anos 70, e o PASOK na Grécia dos anos 80, mas todos estes movimentos foram em grande parte sui generis, em vez de parte de um momento populista mais amplo. Isto mudou com a subida da direita populista radical mesmo no final da década de 80. Embora os partidos mais antigos deste grupo, como a Frente Nacional (FN), em França, e o Bloco Flamengo (actualmente Interesse Flamengo, VB), na Bélgica, tenham começado como partidos elitistas, cedo adoptaram a plataforma populista com slogans como “Nós Dizemos o Que Vocês Pensam” e “ A Voz Do Povo”. Nos últimos anos, um novo populismo de esquerda tem emergido, particularmente no sul da Europa.

A imagem lista os partidos populistas mais importantes da Europa nos dias de hoje – apresentando só o partido mais bem-sucedido em cada país. A terceira coluna dá o resultado eleitoral da mais recente eleição europeia, de Maio de 2014, que varia entre 51,5% e 3,7% do voto – note-se que países sem um partido populista bem-sucedido foram excluídos (ex. Luxemburgo, Eslovénia ou Portugal). Em média, os partidos populistas ganharam 12,5% do voto nas últimas eleições europeias; não será irrelevante, mas dificilmente é o “terramoto político” que os media internacionais noticiaram.

Uma melhor compreensão da relevância eleitoral e política dos partidos populistas é fornecida pelos resultados das mais recentes eleições nacionais (até 2015). A quarta coluna mostra o resultado do partido populista mais bem-sucedido do país, a quinta coluna o seu ranking entre os partidos nacionais, a sexta o apoio eleitoral de todos os partidos populistas no país e a sétima coluna a mudança do voto populista nacional total entre as eleições nacionais mais recentes e as anteriores. Estas são as lições mais importantes a reter.

Em primeiro lugar, os partidos populistas têm bons resultados eleitorais na maior parte dos países europeus. Em cerca de vinte países europeus, um partido populista ganha pelo menos 10% do voto nacional. Em segundo lugar, a junção de todos os partidos populistas regista uma média de 16,5% do voto nas eleições nacionais. Isto varia de uns surpreendentes 65% na Hungria, partilhados entre o Fidesz e o Movimento para uma Hungria Melhor (Jobbik), para 5,6% na Bélgica. Em terceiro lugar, enquanto a tendência geral é ascendente, a maior parte dos partidos populistas são eleitoralmente voláteis. Poucos partidos populistas têm sido capazes de se estabelecer como forças políticas relativamente estáveis no seu sistema nacional de partidos. Em quarto lugar, existem grandes diferenças transnacionais e transtemporais dentro da Europa. Enquanto alguns partidos populistas são recém-fundados (ex: M5S e Podemos), outros existem há décadas (ex.: FPÖ e SVP). Semelhantemente, ao passo que alguns partidos estão em ascensão (ex.: Syriza e UKIP) outros estão em queda (ex.: PP-DD e VB).

Quando nos focamos apenas na minoria dos países europeus onde o populismo é um fenómeno político maior, há quatro importantes conclusões a tirar. A primeira é que há seis países em que um partido populista é o maior partido politico – Grécia, Hungria, Itália, Polónia, Eslováquia e Suíça. A segunda é que os partidos populistas ganharam a maioria dos votos em três países – Hungria, Itália e Eslováquia. No entanto, em pelo menos dois destes países os principais partidos populistas opõem-se fortemente à colaboração. A situação na Hungria é a mais óbvia, já que tanto o principal partido do governo (Fidesz) como o principal partido da oposição (Jobbik) são populistas. A terceira é que, em Abril de 2016, os partidos populistas encontravam-se no governo nacional de oito países – Finlândia, Grécia, Hungria, Lituânia, Noruega, Polónia, Eslováquia e Suíça. A Grécia é um caso único, pois tem um governo de coligação populista composto por um partido populista de esquerda e outro de direita. A quarta, e final, é que em seis países um partido populista representa uma parte dos partidos políticos estabelecidos – Hungria, Itália, Lituânia, Polónia, Eslováquia e Suíça.

TRADIÇÃO NA AMÉRICA

O populismo tem uma longa tradição na América do Norte, que data dos US Populists, do final do século XIX, e dos “populistas da pradaria” americanos e canadianos do início do século XX. Enquanto nos Estados Unidos o populismo permaneceu maioritariamente um movimento, com forte suporte popular mas com fraca organização e liderança, no Canadá foi mobilizado através de uma variedade de partidos políticos – particularmente o Social Credit Party of Canada, de Ernest Manning, e o Reform Party of Canada, do seu filho, Preston Manning.

O populismo tem desaparecido em grande parte da política canadiana, mas regista uma explosão nos Estados Unidos do século XX. Apoiando-se em amplas queixas e estruturas de raiz popular, o populismo de esquerda e de direita emergiu com uma maior força como consequência da Grande Recessão e, particularmente, das altamente controversas políticas de resgate do presidente George W. Bush, que foram continuadas pelo seu sucessor, o presidente Barack Obama. Embora os dois movimentos populistas tenham muito em comum, diferem fundamentalmente em alguns assuntos chave.

O populismo de direita encontrou o seu veículo no Tea Party, um amplo movimento de grupos grassroots (movimentos de base) e astroturf – grupos profissionais que se disfarçam de grassroots – que englobam desde libertários a conservadores sociais chegando à extrema-direita. Como todos os principais movimentos populistas de direita na história dos EUA, o Tea Party combinou populismo com o producerism (ideologia baseada na ideia de que só a produção de bens tem valor), em que a classe trabalhadora americana (branca) se encontra apertada entre uma elite corrupta acima e uma subclasse parasita (não-branca) abaixo. Enquanto alguns activistas Tea Party rejeitam os dois maiores partidos políticos  americanos, a maioria apoiou o Partido Republicano, também conhecido como GOP (Grand Old Party). Sob a pressão de grupos astroturf e media de apoio, como a Fox News, o Tea Party tornou-se largamente um grupo de pressão populista de direita dentro do GOP, utilizando o sistema de primárias para substituir os chamados RINOs (Republicans In Name Only) pelas “verdadeiras vozes do povo”.

O populismo de esquerda, muito menos influente na segunda metade do século XX, encontrou a sua voz no movimento Occupy. O que começou com uma ocupação do parque Zuccotti, perto de Wall Street, na cidade de Nova Iorque, tornou-se um protesto nacional e até global. Afirmando representar os (puros) 99% contra os (corruptos) 1%, o movimento Occupy combinou populismo com uma série de causas progressistas. Apesar de o Occupy ter sido explicitamente inclusivo, particularmente no que a minorias étnicas e raciais diz respeito, a verdade é que permaneceu largamente um movimento da classe média branca – com a excepção de alguns grupos locais, sendo o mais notável o Occupy Oakland, na Califórnia.

Embora ambos os movimentos, Occupy e Tea Party, tenham perdido impulso como movimentos grassroots, particularmente a nível nacional, deixaram legados importantes na política americana. Políticos dos dois partidos têm usado discursos dos dois movimentos, especialmente durante as primárias para a eleição presidencial de 2016. Dentro do campo republicano, a maioria dos candidatos reivindica o legado do Tea Party, incluindo os dois principais concorrentes, Ted Cruz e Donald Trump, embora nenhum seja um verdadeiro populista. Igualmente, embora a agenda de Bernie Sanders tenha muito em comum com a do movimento Occupy, especialmente a luta contra o “1%”, o próprio Sanders é bastante mais um democrata social do que um populista de esquerda moderno. Enquanto Sanders usa um discurso maioritariamente não-moralista para se opor às elites, Trump é exclusivamente a vox Trump em vez da vox populi.


AS RAZÕES DO SUCESSO

Dado o imenso interesse académico prestado ao populismo, seria possível pensar que compreendemos bem por que razão os partidos populistas são bem-sucedidos e, até mais especificamente, em que circunstâncias crescem e decaem. As teorias mais populares são geralmente demasiado vagas e amplas. Embora “crise” e “globalização” possuam alguma relação com o aumento do populismo, “globalização” está relacionada com tudo e “crise” é geralmente indefinida e usada simplesmente quando um partido populista se torna bem-sucedido (tornando a “teoria” tautológica). As seguintes seis razões são também algo amplas, e até certo ponto vagas, mas indicam alguns factores importantes que abordam tanto o lado da procura como o lado da oferta das políticas populistas.

Em primeiro lugar, grande parte da população acha que assuntos importantes não são abordados (adequadamente) pelas elites políticas. Isto criou um amplo descontentamento, o que é terreno fértil para partidos populistas.

Em segundo lugar, as elites políticas nacionais estão a ser cada vez mais vistas como sendo “todas iguais”. Novamente, a percepção é mais importante do que a realidade, embora as duas não sejam alheias uma à outra.

Em terceiro lugar, mais e mais pessoas vêem as elites políticas nacionais como essencialmente impotentes. Isto é em parte uma consequência do facto de, nas ultimas décadas, as elites políticas se terem envolvido numa das mais incríveis transferências de poder do palco nacional para o supranacional (ex: UE e FMI) e o extrapolítico (ex: bancos centrais e tribunais).

Em quarto lugar, a “mobilização cognitiva” fez com que a população se tornasse mais culta e independente, o que também quer dizer mais crítica e menos atenciosa no que diz respeito às elites políticas. Receber mensagens contraditórias das elites políticas, que se afirmam impotentes no caso de políticas impopulares (“os resultados da UE/globalização/EUA”), mas em controlo total no caso de políticas populares (“as minhas bem-sucedidas políticas económicas”), faz com que as populações europeias se sintam confiantes em sentenciar os seus políticos como incompetentes ou até mesmo enganadores.

Em quinto lugar, a estrutura dos media tem-se tornado muito mais favorável aos desafiadores políticos. Num mundo dominado por independentes, media privados e uma internet incontrolável, todas as histórias e vozes encontram eco, e as histórias e vozes populistas são especialmente atraentes para uns media dominados pela lógica económica.

Em sexto e último lugar, embora os factores anteriores tenham cria-do um terreno fértil e uma “estrutura de oportunidade discursiva” favorável para populistas, o sucesso dos partidos populistas está também relacionado com o facto de os actores populistas se terem tornado mais “atraentes” para os votantes (e os media). Quase todos os mais bem-sucedidos partidos populistas possuem pessoas habilidosas no topo, como os líderes media-savvy Beppe Grillo (M5S), Pablo Iglesias (Podemos) e Geert Wilders (PVV).

No contexto das democracias contemporâneas ocidentais, o populismo deve ser visto como uma resposta iliberal aos problemas criados pelo liberalismo antidemocrático. Ao criticarem a tendência, que dura há décadas, de despolitizar assuntos controversos colocando-os fora do domínio democrático (i.e. eleitoral), tal como transferi-los para instituições supranacionais, como a União Europeia, ou instituições (neo)liberais, como tribunais ou bancos centrais, os populistas pedem a repolitização de assuntos como a austeridade, a integração europeia, os direitos gay e a imigração.
---------
* Sociólogo holandês, especialista no estudo do populismo e dos extremismos políticos. Lecciona actualmente na Universidade de Georgia.
Fonte:  https://ffms.pt/artigo/1608/populismo-a-ocidente - Acesso 01/02/2017

Afinal, o que é o populismo?

Conheça a opinião dos principais especialistas da investigação académica sobre o populismo. 

 Joana Ferreira da Costa

O que une o presidente eleito dos EUA Donald Trump, que quer construir um muro com o México, e Beppe Grillo o líder do movimento que pôs os italianos a escolher os deputados pela internet?
Ou o que têm em comum a candidata presidencial Marine Le Pen, defensora do fim de educação gratuita para os imigrantes em França, e o presidente Evo Morales que alargou direitos aos indígenas na Bolívia?

São todos populistas. A palavra tornou-se um chavão nos últimos meses. Surge diariamente nos media para definir figuras da direita à de esquerda. Mas o seu conceito não é simples. Há mais de 60 anos que divide teóricos e analistas políticos que o definem como uma estratégia de líderes carismáticos para apelar às massas, demagogia ou uma reacção nacionalista.

O professor da Universidade da Georgia, EUA, Cas Mudde ajudou a clarificar a discussão, apontando uma definição mais consensual. "O populismo considera que a sociedade está fundamentalmente separada em dois grupos homogéneos e antagónicos: a ‘população pura’ e a ‘elite corrupta’”, escreve num artigo da Revista XXI de Junho passado, que pode ser lido na íntegra aqui.

A essa divisão social moralista o investigador acrescenta outra característica: “a política tem de ser sempre uma expressão da vontade popular”. O líder populista assume-se como a voz do povo, representando os interesses dos cidadãos contra a "elite corrupta".

As campanhas das presidenciais norte-americanas e do referendo ao Brexit são bons exemplos de populismo em acção. Trump não se cansou de repetir que os norte-americanos se sentem traídos por décadas de administração "ruinosa" e “querem o seu país de volta”. E na campanha do Brexit, Nigel Farage, o ex-líder do Partido da Independência do Reino Unido (UKIP), fez do referendo uma "luta do povo contra o establishment".

Para Takis Pappas, professor na Universidade da Macedonia, na Grécia, qualquer partido populista tem dois outros traços obrigatórios: é "sempre democrático e nunca liberal". Ou seja, apoia a “soberania popular e a regra da maioria, mas rejeita o pluralismo e os direitos das minorias”, explica na edição de Outubro do Journal of Democracy.Os populistas são por isso a favor de eleições, mas combatem a divisão de poderes, a autonomia judicial ou a liberdade de imprensa.
Uma ideologia "contagiosa"

É sobretudo na escolha daqueles que "excluem e atacam" que se distinguem os populistas de esquerda e de direita, adianta Margaret MacMillan, directora do St. Antony's College, da Universidade de Oxford.

À esquerda os inimigos da vontade popular são geralmente as grandes empresas e oligarcas, enquanto a direita aponta o dedo às minorias étnicas e religiosas. "Uma vez identificados os inimigos, estes podem ser culpados quando é frustrada a vontade do povo", defende a historiadora num texto publicado este mês no Diário de Notícias. "Assim como Trump tem como alvo mexicanos e muçulmanos, o presidente venezuelano Nicolás Maduro culpa uma maligna potência estrangeira, os EUA, pela crise cada vez mais profunda no seu país", resume.

Na Europa, as crises económica e social têm impulsionado o crescimento de partidos populistas e antiglobalização como o Syriza, na Grécia, o Podemos, em Espanha, ou a Frente Nacional, em França.

E as suas políticas ameaçam tornar-se "um perigo" para a Europa liberal, alertam analistas políticos, investigadores e responsáveis pelas instituições comunitárias, como o antigo presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, ou o ex-presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz.
"O populismo é tão ameaçador porque é contagioso", justifica Pappas, adiantando que "o aparecimento e crescimento de um partido populista vai previsivelmente arrastar os outros partidos desse país numa direcção populista".

Mas nem todos os académicos têm uma visão negativa do fenómeno. "Há necessidade de populismo na política democrática", defende Chantal Mouffe, professora de Teoria Política da Universidade de Westminster e viúva de Ernesto Laclau, um dos pais ideológicos do Podemos.
Numa longa entrevista à revista The European, em Janeiro de 2014, a investigadora defende que "o populismo em si mesmo não é algo mau" e que a democracia precisa de saber responder "às necessidades do povo e de construir uma vontade colectiva".

Mouffe vai mais longe, dizendo que o populismo de esquerda pode ser um importante contrapeso ao populismo xenófobo. "Para os populistas de esquerda o adversários do povo não são os imigrantes, mas as grandes corporações e as forças da globalização neoliberal", salienta. E por isso defende "que o desenvolvimento de um populismo de esquerda é a única forma de combater o crescente sucesso do populismo de direita".

Esta visão benigna do fenómeno é contestada pelo politólogo Jan-Werner Müller, que lançou este ano o livro What is populism?. Para este professor de política na Universidade de Princeton, nos EUA, os populistas são sempre “perigosos” para a democracia independentemente de serem de esquerda ou de direita. Por um lado, porque se proclamam como a única voz do povo, atacando e excluindo todos aqueles que contestam as suas posições ou legitimidade, explica num artigo no The Guardian. Por outro, porque ao chegar ao poder os populistas acabam por cometer exactamente “os mesmos pecados políticos” das elites contra as quais se batem. “Os populistas são apenas elites diferentes que tentam agarrar o poder através da fantasia colectiva de uma política pura”, acusa.

FONTE:  https://ffms.pt/blog/artigo/85/afinal-o-que-e-o-populismo 

Sexo, amor e casamento!

*
 
muro

No muro da cidade alguém escreveu: “+ Sexo – Amor”. O que o motivou? Desilusão? Provocação à moral e aos bons costumes? Manifestação de uma mente pervertida? Por que a ênfase no sexo? Não sabemos! Dias depois, a pichação estava rabiscada, numa tentativa de torná-la ilegível. Talvez a crise econômica explique esta opção; talvez o receio de que o muro voltasse a ser pichado. Por que se dar ao trabalho de rasurar o picho? Vergonha? Puritanismo?

As palavras subvertem a moral predominante e o romantismo idealista, típico dos que imaginam haver uma unidade indissolúvel entre sexo e amor; sexo, amor e casamento. Por acaso, o sexo marital sempre é acompanhado de manifestação de amor? De prazer? A quantidade de filhos comprova uma relação na qual amor e sexo fundem-se e confundem-se? No passado, era comum as mulheres gerarem filhos ano após ano. Podemos garantir que seus maridos as amavam mais por lhes dar uma prole maior? Será que estas mulheres tinham prazer e se realizavam sexualmente?!

Mentes recatadas consideram que o casamento autoriza o sexo. Não esqueço as palavras do padre: “Agora, autorizado pela Igreja, pode beijar a noiva!”. O beijo precisa ser autorizado por algo exterior à relação entre duas pessoas? O que antecede ao ritual religioso está fora do controle da instituição eclesiástica – ainda que esta tente controlar, inclusive com a demonização do prazer e a ameaça da danação. Embora muitos aceitem a pregação religiosa e guardem-se para o casamento – quando o sexo passa a ser concebível, pois autorizado pela Santa Igreja – , o fato que salta aos olhos é que cada vez mais este não é um comportamento rigorosamente aceito. Por mais que creiam e temam, os noivos nem sempre esperam a autorização para o beijo e o ato sexual. O sacramento, muitas vezes, é testemunhado pelo fruto da relação, carregado no ventre ou nos braços de familiares e amigos.

Por outro lado, a ideia de que o casamento autoriza o sexo é profundamente desfavorável às mulheres e corresponde a uma postura socialmente aceita de que o homem tem o direito ao corpo da mulher, pelo simples fato de que é a sua esposa! Como se esta fosse a sua propriedade, a ser usada conforme os seus mais íntimos e, muitas vezes, pervertidos, desejos. No passado, era comum os casamentos combinados pelos pais – seja por motivos políticos, econômicos, culturais – mesmo na atualidade, ainda há pais que se imaginam no direito de impor o casamento às suas filhas! Casamentos que impõem às mulheres a obrigação matrimonial de servir sexualmente os seus maridos. Pode o amor nascer e frutificar de uma relação fundada em bases opressivas?
“Por acaso algum dia você se importou
Em saber se ela tinha vontade ou não
E se tinha e transou, você tem a certeza
De que foi uma coisa maior para dois”
(Gonzaguinha)
Mas não precisamos voltar ao tempo dos casamentos arranjados para selar alianças políticas entre senhores poderosos, reinados e impérios. Nem nos atermos à persistência de culturas tradicionalistas que impõem às mulheres a vontade dos homens, pais e maridos. O laço conjugal que tem o amor como fundamento (autorizado ou não pela instituição religiosa) tem momentos de intensidade e de arrefecimento. Na lua de mel, nos primeiros anos, o desejo sexual parece confundir-se com o amor. Porém, o ímpeto sexual pode não se manter e não ser correspondido. Novamente, a situação revela-se mais difícil para a mulher. Onde predominam valores e a cultura machista, o homem não admite a recusa ao sexo. O sexo por obrigação matrimonial, talvez mais comum do que imaginemos, prescinde do amor, e mesmo do respeito. Talvez a mulher, ainda que relutante, aceite a vontade do marido; talvez ela até mesmo considere que seja inerente à vida de casada. Assim, mantém-se o casamento, a família e as aparências, etc. E se ela não cede? Por acaso, está livre da pressão moral e física exercida pelo homem? Sexo pressupõe consentimento mútuo! Quantos estupros são cometidos sob o sacramento do matrimônio?!

No filme “A fonte das mulheres”[1], as mulheres ousam desafiar a tradição patriarcal com uma “greve de sexo”. Leila, líder das grevistas, tem o apoio do esposo. Mas a postura da maioria dos homens é de enfrentamento. A comunidade é mulçumana e o movimento grevista ganha contorno políticos e religiosos. É na intimidade do lar que os homens manifestam toda a sua fúria por serem privados do que consideram mais do que um direito, uma obrigação. Numa das cenas, o homem exige a submissão da mulher e utiliza da força para saciar o seu desejo.

Na Grécia antiga, mais precisamente em Atenas, berço da democracia ocidental, as mulheres também recorrem à recusa do sexo para forçar os gregos a estabelecerem a paz. Trata-se de uma peça literária, “A greve do sexo: Lisístrata”, escrita por Aristófanes.[2] Naquele tempo, as mulheres não eram reconhecidas sequer como cidadãs; elas eram excluídas do teatro – as personagens femininas eram representadas por homens com máscaras e as mulheres não podiam assistir. A “peça tinha forte apelo popular, graças a seu enredo mirabolante, e era malvista pela intelectualidade da época, devido ao seu estilo leve, em contraposição à seriedade da tragédia”, afirma Filipouski.[3] Aristófanes nos oferece um painel da sociedade e, claro, das relações de gênero predominantes. De novo, manifesta-se a ira masculina diante da ousadia das mulheres.

No cinema ou na literatura, tais situações podem ser cômicas. Não obstante, na vida real revelam-se trágica. Uma rápida pesquisa na internet é suficiente, infelizmente, para encontrar notícias que se somam às estatísticas do feminicídio e são exploradas pela mídia sensacionalista. Eis um exemplo: “Revoltado com greve de sexo, marido mata esposa na frente da filha”.[4] Mas também há exemplos que mostram, semelhante à peça de Aristófanes, o poder das mulheres: Leymah Gbowee, liberiana que ganhou o Nobel da Paz em 2011, contribuiu para o fim da guerra civil em seu país ao liderar um movimento em que as mulheres se negaram a fazer sexo, enquanto seus maridos não terminassem o conflito.[5] Será que ela leu “A greve do sexo: Lisístrata”?! No Quênia, a deputada Mishi Mboko sugeriu greve de sexo para pressionar os maridos a votarem.[6] Ao que parece, o exemplo das mulheres de Atenas, ainda que fictício, resiste ao tempo e se manifesta na realidade.

O sexo é essencial à vida humana. O amor pode persistir, apesar do passar dos anos, mas isto nada diz sobre a sexualidade. O desejo precisa de algo mais do que o amor.
“Sexo é imaginação
Fantasia
Amor é prosa
Sexo é poesia”
(Rita Lee)
E quando se perde a imaginação e a fantasia dá lugar à racionalidade das necessidades familiares, cotidianas, etc., o sexo arrefece. O amor metamorfoseado em amizade, gratidão mútua, hábitos sedimentados, insegurança, medos, etc., sem contar os efeitos que o tempo acarreta sobre os corpos. São muitos os fatores que podem diminuir ou apagar o fogo do desejo. A vontade esmorece, a chama se extingue ou pode se tornar apenas o “vício da obrigação”.
“E depois desses anos no escuro do quarto
Quem te diz que não é só o vício da obrigação”
(Gonzaguinha)
Este processo não está necessariamente relacionado à idade. Quantos casais, ainda nos primeiros anos, não entram em crise devido ao esmaecimento do desejo sexual? Cícero, o filósofo, louva a velhice por ela nos salvar do que “a adolescência tem de pior”: o “instinto sexual”. Ele deleita-se com a possibilidade de dedicar-se ao filosofar: “Se podemos nos alimentar de estudos e conhecimentos, nada mais agradável que uma velhice tranquila”. Ele nos aconselha a aproveitar cada dia da velhice “para adquirir novos conhecimentos. Sim, nenhum prazer é superior ao do espírito”.[7]

O ser humano é muito complexo, não cabe em fórmulas abstratas e teorias dicotômicas e maniqueístas. O amor pode dispensar o sexo, e vice-versa. Quem não viveu um grande amor no qual a quase divinização do ser amado abstraía qualquer pensamento voltado ao sexo? Quem não ardeu em desejo numa relação sem a idealização do amor romântico?
Amor sem sexo
É amizade
Sexo sem amor
É vontade”
(Rita Lee)
Se as pessoas se atraem mutuamente e desejam, livre e conscientemente, fazer sexo, o que pode impedi-los? A moral, a culpa, o medo! Mas se não se submeterem, nada impedirá. O sexo pelo sexo não significa ausência de respeito, de carinho. Inclusive pode ser mais autêntico do que o sexo marital motivado por obrigações matrimoniais e pelo hábito. Quantos momentos de prazer não foram suprimidos pelo apego ao amor idealizado? Por que se privar do prazer? Mesmo os casais mais apaixonados não escapam ao sexo em si. Ou seja, sexo é sexo e ponto! O amor pode complementar, mas o desejo pode prescindir dele.

Talvez as palavras pichadas no muro tivessem maior aceitação se simplesmente acrescentasse um tracinho e transformasse o menos em mais: + Sexo + Amor. Contudo, independentemente dos sinais de adição ou subtração, sexo e amor são manifestações humanas diferentes. Amalgamar sexo, amor e casamento produz confusão e sofrimentos. Quanto sofrer não teria sido evitado – e evitável – pela simples aceitação de que A, B e C não são necessariamente complementares? Não se trata apenas de palavras, mas de valores que orientam a vida das pessoas e nos quais elas acreditam. Por isso culpam-se e sofrem quando a realidade da vida atropela os sentimentos e o desejo aflora incontrolavelmente. Então, o mais provável é que o sentimento de culpa reprima o desejo. Pode alguém ser feliz sem amar e ser amado? Mas só o amor é suficiente? O casamento resiste à ausência do desejo? Por que se privar do prazer quando é livre e mutuamente desejado?

As respostas variam em cada caso e circunstância. Porém, enquanto não compreendermos que diferenças podem ser complementares, mas que não se anulam reciprocamente, continuaremos a confundir a diversidade das atitudes e sentimentos humanos, a sofrer e provocar sofrimentos. Tudo seria muito mais tranquilo se simplesmente aceitássemos os fatos como são. As diferenças podem se somar, mas ainda assim não são semelhantes.
[1] A Fonte das Mulheres (La source des femmes). Diretor: Radu Mihaileanu; Bélgica, Itália, França, 2011 (Duração: 119 minutos).
[2] ARISTÓFANES. A greve do sexo: Lisístrata. Trad. De Millôr Fernandes. Porto Alegre: L&PM, 2003, disponível em http://www.ckgivan.seed.pr.gov.br/redeescola/escolas/2/400/330/arquivos/File/Arstofanes.pdf
[3] Da apresentação de Ana Mariza Filipouski.
[4] Ver http://noticias.r7.com/cidade-alerta/fotos/revoltado-com-greve-de-sexo-marido-mata-esposa-na-frente-da-filha-12032015#!/foto/1, 12.03.2015. Acesso em 29.01.2017. Vídeo da reportagem disponível em http://noticias.r7.com/cidade-alerta/videos/revoltado-com-greve-de-sexo-marido-mata-esposa-na-frente-da-filha-11032015.
[5] “Ganhadora do Nobel da Paz liderou ‘greve de sexo’ na Libéria em 2002”, 07.10.2011. Disponível em http://g1.globo.com/mundo/noticia/2011/10/ganhadora-do-nobel-da-paz-liderou-greve-de-sexo-na-liberia-em-2002.html. Acesso em 29.01.2017.
[6] “Deputada pede greve de sexo no Quênia para obrigar maridos a votar”. 17.01.2017. Disponível em http://oglobo.globo.com/sociedade/deputada-pede-greve-de-sexo-no-quenia-para-obrigar-maridos-votar-20786453. Acesso em 29.01.2017.
[7] CÍCERO, Marco Túlio. Saber envelhecer e A amizade. Porto Alegre: L&PM, 2007, p. 37, 40 e 42.
-----------
*  Professor do Departamento de Ciências Sociais, Universidade Estadual de Maringá (UEM); Editor da Revista Espaço Acadêmico e Revista Urutágua
Fonte:  https://antoniozai.wordpress.com/2017/01/29/sexo-amor-e-casamento/

Três poderes que ameaçam a República

Eloésio Paulo*
url 
O leitor fique tranquilo, não falaremos aqui da crise entre os três poderes da República. Dela a imprensa já tratou muito, com o habitual escamoteamento (por exemplo, cadê a autópsia do piloto que matou Teori Zavascki?) do principal, que uma reportagem sobre os remendos da legislação trabalhista proposta por Temer, no Jornal da Band de 22 de dezembro, afirmou por meio da edição de som a imagem, que Paulo Skaf, presidente da FIESP e candidato reincidente ao governo de SP, é a encarnação dessa curiosa entidade chamada “o mercado” – Pato Amarelo, ora pro nobis. Trataremos aqui de três poderes paralelos que ameaçam, a médio prazo, a própria existência da República Federativa do Brasil como um Estado soberano. E vamos do menor para o maior, não sem deixar a ressalva: a primeira versão deste artigo foi escrita bem antes da “crise penitenciária” da virada do ano.

O primeiro dos referidos poderes é um reflexo de vários fenômenos, da crise de identidade da Igreja Católica frente ao mundo pós-moderno à obsolescência de nosso modelo escolar, passando pela celebração irresponsável (e não responsabilizável de modo algum) da imbecilidade pelos grandes veículos de comunicação e pela avalanche tecnológica mais recente, representada pelo acesso quase universal à Internet. Sim, tudo isso, mas principalmente a condição de refém da incultura em que o povo brasileiro foi mantido a partir de 1988, pois a Constituição “cidadã” nada fez para garantir a principal cidadania, que é o exercício consciente e informado de todas as dimensões da vida em sociedade.

Para quem não adivinhou, uma dica: a lembrança de que o pastor evangélico Marcelo Crivella acaba de tomar posse como prefeito da segunda maior cidade brasileira. Não é que o simples fato de pertencer a uma igreja pentecostal seja impeditivo à boa política. É que se trata da igreja Universal, modelo de um sem-número de seitas de nítida inspiração mercantilista, a quais prosperam à custa dos incautos e desesperados que a perversidade social brasileira e a babel informacional pós-moderna multiplicam.

Se fosse fato isolado, nenhum problema. A democracia inclui, como ônus para seus imensos bônus, a possibilidade de serem eleitos eventuais cacarecos e tiriricas. Ocorre que Crivella pode representar o ponto de inflexão de um fenômeno que já se desenha no Congresso há pelo menos duas décadas. Entre nossos deputados e senadores, uma das bancadas que mais crescem, em número e coesão, tem sido a evangélica. E essa bancada está sempre do lado da política mais obscurantista, é só verificar os anais da Câmara e do Senado.

Até aí, poderia replicar o leitor, não vejo maior perigo nos evangélicos que nas bancadas da bala e do boi. Ocorre que estas, embora vinculadas a interesses em geral retrógrados, não parecem ter um projeto claro de poder. Os evangélicos têm, e isso já foi expresso tanto por Crivella quanto por seu guru Edir Macedo, primeiro “bispo” a se autoproclamar (agora virou moda, tem até “bispa”, pois poucos sabem o feminino correto de bispo).

Ninguém ignora o que ocorre onde florescem as teocracias. A própria Igreja Católica, hoje desempoderada a ponto de permitir que padres virem dançarinos na TV ou coisas até piores, teve o poder absoluto por séculos no Ocidente e se tornou o modelo universal, antes de Hitler, Stálin e filhotes, de como uma sociedade moderna não deve ser.

Como este é um artigo catastrofista, não discutiremos o que poderia haver de bom numa república dominada por pessoas que negam a evolução das espécies, que desconhecem as principais descobertas da física moderna, assim como avanços importantes no campo das liberdades individuais como, por exemplo, a contracepção. Além disso, já deve ter ficado claro que o articulista não teria capacidade de enxergar o lado bom de uma teocracia evangélica. O importante é o seguinte: ela existe como possibilidade concreta no horizonte brasileiro.

A segunda ameaça é menos insidiosa e mais barulhenta. Infelizmente temos visto que ela está em processo avançado de estruturação como Estado paralelo e tem plena consciência disso. Falamos do crime organizado.

A propósito, um parêntese: o leitor já pensou que o índice oficial de desemprego pode estar muito errado? No Brasil existem tantos bandidos profissionais – sem falar dos políticos: bandido sem mandato, aquele que, como escreveu o padre Vieira, “furta debaixo do seu risco” – que é bem possível boa parte deles estar sendo contabilizada como desempregados. Seria bom verificar, IBGE!
O contingente assustador de bandidos profissionais se torna mais preocupante por uma razão singela: eles vivem armados e crescentemente têm feito da vida nas grandes cidades (mas não só nelas) uma verdadeira roleta-russa. Ora, nesse caso uma projeção para os próximos 20 anos resulta alarmante; se a bandidagem armada crescer na taxa em que cresceu desde os anos 1980, é perfeitamente possível pensar que podemos ter nesse horizonte uma ditadura do crime organizado. Até os postes da Light, como se dizia antigamente, sabem que a bandidagem se infiltra na Justiça, no comércio e na política. Mas o mais assustador é a inércia do Estado, que, por definição, deveria ter o monopólio do uso de armas. Sem falar no estupor da opinião pública, que, aterrorizada pelo noticiário, não inclui seriamente em suas preocupações a necessidade de uma intervenção pesada do Estado – enquanto isso ainda é possível – para deter a metástase social desse poder paralelo. Essa intervenção teria que deixar de lado os discípulos contemporâneos de Rousseau, as polianas moças e meninas que juram ser a sociedade, como um todo, culpada por todas as perversidades de cada indivíduo se tornar capaz. Delegados de polícia e políticos que se prezam como tais deveriam estudar com afinco o romance Cidade de Deus, de Paulo Lins, que esclarece muito mais sobre o fenômeno do tráfico do que a coleção de baboseiras teórico-ideológicas sobre as quais está assentada a estupidíssima política de combate às drogas, como tantos tiques nervosos que a sociedade brasileira copia da norte-americana. Copiaremos Trump, também?

Número dois, então: a possibilidade de um Estado abertamente criminoso, mais do que infiltrado por criminosos vivendo em escritórios com ar-condicionado, existe concretamente, a julgar pelo desenvolvimento inercial do fenômeno.

Mas quem será a besta número três, perguntará o assustado leitor diante de tão apocalípticas projeções (veja-se que não são previsões, pois o tempo dos profetas parece ter passado)? Deixemos que os números o digam.

No orçamento da União para 2017, as despesas com educação, tidas por alguns (tucanos à frente, claro) como excessivas, somarão 115 bilhões, de acordo com a proposta enviada pelo governo ao Congresso. As despesas da saúde somarão 85 bilhões. Preste atenção: BILHÕES de reais.

Vamos agora a outra rubrica do orçamento. As despesas com juros e o serviço da dívida federal somarão 1,4 TRILHÃO. Entendeu bem? TRILHÃO. Quer dizer, o dinheiro repassado pelo governo aos rentistas, penosamente acumulado à custa das lamentações do pato da FIESP, será nada menos que sete vezes o valor aplicado em saúde e educação. Quer dizer, o Estado existe para promover o bem de todos, mas a fatia desse bem que toca aos bancos e demais especuladores, aquela gente que só produzia papéis carimbados e agora produz impulsos eletrônicos, está chegando perto da METADE de tudo o que gasta o governo em um ano.

Os banqueiros e assemelhados, que no momento são proprietários do Ministério da Fazenda personificado por Henrique Meireles (Serra fica voando em círculos, como se fosse um urubu esperando a presa fechar os olhos), já chegaram a ser mais que um Estado paralelo: são a metade mais um da Brasil Sociedade Anônima, em que os anônimos de verdade terão, no desejo dos moderníssimos Temer, Eliseu Padilha e Moreira Franco, que trabalhar meio século para se aposentar.
Alguém já disse que fundar um banco é muito mais criminoso do que assaltar um. Os pastores comerciantes e políticos, voltando ao que escreveu o Padre Vieira, bem que têm o seu talento; R.R. Soares, por exemplo, é tão impagável quanto Sílvio Santos, esse espantoso artista que faz dinheiro até com a própria senilidade. Produzem sobretudo enganação, mas ainda não obrigam ninguém a segui-los à força. Os chefes do tráfico e das milícias, por sua vez, arriscam-se a cada minuto a ser atravessados por um tiro de fuzil. Em comum, entre eles: seu poder tem crescido como que em progressão aritmética.

Já os banqueiros, pela própria lógica da cobrança de juros, se apropriam em progressão geométrica do que produz o conjunto da sociedade. Quem (e como?) vai impedir esses assaltantes legalizados de mandar no Estado brasileiro ao ponto de escancarar que existimos apenas para que eles fiquem a cada segundo mais ricos?

Não pergunte aos principais veículos de comunicação brasileiros. O principal anunciante de cada um deles costuma ser um grande banco.
* ELOÉSIO PAULO é professor da Universidade Federal de Alfenas (MG) e autor dos livros Os 10 pecados de Paulo Coelho (2007) e Loucura e ideologia em dois romances dos anos 1970 (2014)
Fonte: https://espacoacademico.wordpress.com/2017/02/01/tres-poderes-que-ameacam-a-republica/

O que ensina a quase morte?

 David Coimbra*
 Resultado de imagem para quase morte
Cheguei à fronteira do famoso Vale das Sombras da Morte, tempos atrás. Mas não entrei. É que, se você não sabe, tive um câncer, e agora está tudo bem. Mesmo assim, não quero ficar contando vantagem – melhor não provocar.

O que pretendo falar é sobre uma pergunta que, volta e meia, me fazem a respeito. Semana passada, inclusive, dei uma entrevista para o Julio Ribeiro e o Altair Nobre, da Revista Press, e eles questionaram exatamente isso:

– O que você aprendeu?

Dei uma resposta que julguei razoável, mas, terminada a entrevista, segui pensando.

O que aprendi?

Será que aprendi?

Passar por uma dura dificuldade sem aprender nada é desperdício de sofrimento. E burrice, convenhamos.

Vez em quando, leio acerca de pessoas que quase morreram. Elas tiveram suas vidas transformadas radicalmente, umas dizem que passaram a valorizar mais a existência, outras que passaram a valorizar mais a amizade e as pessoas que amam, outras ainda decidiram viajar e conhecer o mundo. Essas coisas.

Bem. Desde sempre valorizei a existência, os meus amigos e as pessoas que amo e, quanto a viagens, confesso que prefiro as de trabalho às de turismo. Fazer turismo é meio cansativo.

Então, não aprendi nada nessas áreas. Mas admito que me sinto melhor agora do que antes de descobrir o câncer. Logo, alguma coisa mudou.

O quê?

Aí está o estranho. Não mudei para mais, mudei para menos. Não tive nenhuma epifania, não me tornei outra pessoa, minha compreensão do mundo não aumentou. Ao contrário: em vez de somar prazeres, os diminuí. Não porque precisasse ou planejasse, simplesmente por não sentir vontade.

Talvez antes ficasse esperando sextas-feiras excitantes ou imaginasse que algum evento grandioso ocorreria no ano que vem. Talvez nem pensasse nisso claramente, mas havia em mim a expectativa de que o futuro seria especial.

Agora, não.

Mas não foram ilusões perdidas, de jeito nenhum, nem a falência de sonhos ou coisa que o valha. Ainda acredito em boas surpresas e vou comemorar se acontecerem. Ainda sou otimista. Porém, basta um dia comum para que me sinta muito bem.

Acordar de manhã, tomar café, escrever, conversar com as pessoas, comer quando estou com fome, beber uma cerveja gelada, rir com o meu filho, ver um filme, ler um livro. Isso faz com que me descubra espetacularmente feliz.

As horas vão passando e há coisas bonitas para se ver lá fora. Um gato ronronando na janela do vizinho. O sol batendo na copa das árvores. Um menino que corre atrás da bola. A moça que atira os cabelos para trás, quando se detém na esquina.

A noite chega, e está tudo certo. Digo algo engraçado e minha mulher ri. Leio um pouco na cama e o sono começa a me dominar. Fecho o livro. Apago a luz do abajur. Não penso em nada, antes de adormecer. Sei que foi um dia bom.
-------
* Jornalista. Cronista da ZH
Fonte:  http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a9706394.xml&template=3916.dwt&edition=30574&section=3918 01/02/2017