quinta-feira, 9 de março de 2017

ECOLOGIA PROFUNDA

Roberto Naime*
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A ecologia profunda é uma concepção filosófica proposta no início da década de 70 do século passado pelo pensador e filósofo norueguês Arne Naess. Sua evolução é atribuída a uma reação dos indivíduos à visão hegemônica, então dominante sobre a maximização de utilização dos recursos naturais.
 
A ecologia profunda possui influência do pensamento de Mahatma Gandhi, Henry David Thoreau, Jean Jacques Rousseau, Aldo Leopoldo na “ética da terra” e de muitos outros. Arne Naess era também estudioso do budismo e de filosofias orientais, influências marcantes no modo de agir do ecologista profundo e até hoje relevantes no movimento ambientalista, conforme comprovam as intervenções de Fritjof Capra. É sensível a influência que a filosofia do taoísmo exerceu sobre todo o movimento ecológico.

Esta corrente de apropriação da realidade, com forma de pensar e agir muito singulares, desde sua origem se caracteriza por adotar premissas e paradigmas próprios e diferenciados. Frequentemente se registra e se associa as ações e ideias do professor José Lutzemberger, que desencadeou o movimento ecológico brasileiro ao fundar a Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (AGAPAN), na mesma época.

O movimento de ecologia profunda estabelece, de forma inédita, algumas proposições que permanecem e são cada vez mais evidentes. É preciso substituir a visão antropocêntrica e iluminista de que a espécie humana veio “dominar” o planeta, pela visão de conviver harmoniosamente com a natureza e o planeta. O ambiente natural não tem apenas um valor funcional ou contábil para os seres humanos. A natureza tem um valor intrínseco, ou seja, em si própria, que é intangível.

Desaparece aquela visão teológica que estabelece que seres humanos, concebidos à imagem de deuses, são superiores. Todas as formas de vida são igualmente importantes e relevantes dentro de equilíbrios e funcionalidades homeostáticos nos ecossistemas e biomas. Outro paradigma que sofre questionamento definitivo é que o desenvolvimento justifica tudo. As evoluções são apenas instrumentos de autorrealização dos indivíduos considerados.

Também é substituída a visão de recursos naturais infinitos, pelas concepções realistas que determinam a finitude dos recursos. Se faz proposições que a tecnologia não seja a substituta da divindade e seja relegada para as necessidades e não se torne um outro dogma escravizador.

A autopoiese sistêmica dominante necessita ser alterada. Pois hoje só o consumismo garante a manutenção dos círculos virtuosos da sociedade. Aumento de consumo gera maiores tributos, maior capacidade de intervenção estatal, maior lucratividade organizacional e manutenção das taxas de geração de ocupação e renda. Dentro da visão da ecologia profunda, o consumismo precisa ser substituído pela ideia de satisfazer as necessidades dentro de ciclos.

Por fim, já como reação aos movimentos de globalização, surge a concepção de extremo respeito às comunidades locais e suas tradições culturais e tradicionais. Se propõe ideias que viabilizem a alteração da autonomia de comunidades centralizadas, por bio-regiões ou geobiossistemas com estrito e radical reconhecimento das chamadas minorias.

Como inspiração histórica a ecologia profunda resgata a famosa manifestação do chefe Seattle, em sua carta ao presidente Franklin Pierce. Este personagem quase mitológico, ficou mais conhecido como “Chefe Sealth”. Mas se tratava de Ts’ial-la-kum, ou ainda Sealth, “Seathle”, Seathl ou See-ahth. Nasceu por volta do ano de 1786 perto das ilhas Blake, Washington, e faleceu em 1866. Assim como Saelth; seu pai também foi líder da tribos Suquamish e Duwamish, no território que hoje é o estado americano de Washington.

Se registram partes de sua manifestação. “Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver. Para ele um torrão de terra é igual ao outro. Porque ele é um estranho, que vem de noite e rouba da terra tudo quanto necessita. A terra não é sua irmã, nem sua amiga, e depois de exauri-la ele vai embora. Deixa para trás o túmulo de seu pai sem remorsos. Rouba a terra de seus filhos, nada respeita. Esquece os antepassados e os direitos dos filhos. Sua ganância empobrece a terra e deixa atrás de si os desertos. Suas cidades são um tormento para os olhos do homem vermelho, mas talvez seja assim por ser o homem vermelho um selvagem que nada compreende”.

Prossegue o chefe Seattle, “Se te vendermos a nossa terra, ama-a como nós a amávamos. Protege-a como nós a protegíamos. Nunca esqueça como era a terra quando dela tomou posse. E com toda a sua força, o seu poder, e todo o seu coração, conserva-a para os seus filhos, e ama-a como Deus nos ama a todos. Uma coisa sabemos: o nosso Deus é o mesmo Deus. Esta terra é querida por Ele. Nem mesmo o homem branco pode evitar o nosso destino comum.” Qualquer semelhança observada é mera coincidência. Ou ao contrário, não é mera coincidência.

Enquanto a ecologia é o estudo das interações entre os seres vivos e destes com o ambiente, a Ecologia Profunda é uma alteração de paradigma, de forma de pensar e agir, dentro da ecologia ou de qualquer outra atividade.

É relevante também que diversas sociedades humanas, especialmente indígenas, praticavam uma vida de acordo com este modo de ver e agir a respeito da biosfera. A definição mais recorrente de Ecologia Profunda ocorre justamente por meio do discurso do índio norte-americano conhecido como Chefe Seattle.

O manifesto resumia e asseverava que “de uma coisa sabemos. A terra não pertence, ao homem. É o homem que pertence à terra. Todas as coisas estão interligadas, como o sangue que une uma família. Tudo quanto agride a terra, agride os filhos da terra. Não foi o homem quem teceu a trama da vida, ele é meramente um fio da mesma. Tudo o que ele fizer à trama, a si próprio fará”.

Pelo lado do conhecimento e da ciência, existe grande influência de novas descobertas científicas, como a teoria da complexidade e a teoria do caos. Baseia-se em novas formas científicas de pensar, conhecidas como pensamento sistêmico.

Nas observações de Fritjof Capra, “o ambientalismo superficial é antropocêntrico. Vê o homem acima ou fora da natureza, como fonte de todo valor, e atribui a natureza um valor apenas instrumental ou de uso. A Ecologia Profunda não o separa do ambiente natural nem qualquer outro ser. Vê o mundo como uma teia de fenômenos essencialmente inter-relacionados e interdependentes. Ela reconhece que estamos todos inseridos nos processos cíclicos da natureza e somos dependentes deles“. Se acrescentaria, conjuntamente ou de forma solidária.
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Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.
Sugestão de leitura: Celebração da vida [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.
FONTE:  https://www.ecodebate.com.br/2017/03/09/ecologia-profunda-artigo-de-roberto-naime/

terça-feira, 7 de março de 2017

Uma das causas da caretice 3.0 é a criação da noção de jovem crítico

Luiz Felipe Pondé*


Ricardo Cammarota/Folhapress
Ilustração Luiz Felipe Pondé de 6.mar.2017
"Trabalho com jovens entre 18 e 20 há quase 20 anos e posso dizer com razoável certeza que eles chegam à universidade cada vez mais caretas."

Tem coisa mais brega do que colocar números depois de palavras ou conceitos, como marketing 3.0? Vamos embarcar nessa breguice geral e propor a caretice 3.0. Aquela presente na geração chamada milênio ou Y (e, ao que tudo indica, na Z, mais careta ainda). 

Primeiro, vamos esclarecer para quem não sabe: milênio ou Y são jovens nascidos entre 1983 e 2000 (mais ou menos) e "bem de vida". A partir daí viriam os chamados Z. Outra coisa: trabalho com jovens entre 18 e 20 há quase 20 anos e posso dizer com razoável certeza que eles chegam à universidade cada vez mais caretas. 

O que confunde é que certos marcadores como liberdade sexual, fumar maconha, ausência de preconceitos, roupas descoladas e posturas políticas progressistas, classicamente considerados índices de comportamento não careta, aparecem nos jovens de hoje de forma bastante evidente. E isso parece indicar que não seriam caretas. Ledo engano. A caretice 3.0 é justamente esta: ela aparece ali onde se imaginava que jamais estaria por causa desses marcadores históricos. O que nos ensina isso? 

Antes de tudo, que a caretice não é um traço que se refere ao conteúdo de uma opinião ou atitude, mas à forma com que essa opinião ou atitude se manifesta. E é justamente na forma que aparece a caretice 3.0 nos mais jovens. 

Caretice se refere, antes de tudo, à rigidez associada à autoafirmação moral. Os jovens são cada vez mais rígidos e certos de sua pureza moral. E rigidez, como se sabe, é fruto de sofrimento psicológico. Nunca as famílias foram mais disfuncionais e solúveis em água. Pais tontos e melosos querendo ser mães, mães solitárias e estressadas pelas jornadas triplas. As redes sociais e seu debate histérico são muito mais tóxicas do que a televisão jamais foi. 

Essa rigidez se revela no fato de que os jovens nunca se levaram tão a sério como os de hoje. Eles têm opiniões claras sobre tudo. 

Aborto, sexo, política, Oriente Médio, cinema iraniano, teoria crítica adorniana, sistemas complexos de economia, relação cosmologia-cosmética trans, uso de medicação tarja preta, amor com outras espécies animais, química da lactose, como alimentar sete bilhões de pessoas com hortas caseiras, a eliminação absoluta do sofrimento na vida dos frangos, como alocar um milhão de sírios na Alemanha, sistemas políticos democráticos para o Iêmen, calotas glaciais, formas de vida sob opressão em Marte, como educar filhos que não existem, métodos democráticos de avaliação escolar, fóruns com crianças de cinco anos para votar as leis de mercado, enfim, toda um gama de temas abertos a opiniões rígidas, porque evidentemente simples e facilmente resolvidos numa aula de filosofia contemporânea a partir de Deleuze e Foucault. 

 "O caminho mais curto para a não-educação 
é tornar pessoas de 15 anos críticas. 
Nunca mais arrumarão o quarto delas justificando 
essa atitude, agora, na estupidez do Trump."

Os jovens estão reduzidos a um manual produzido por professores pregadores e mídias sociais furiosas. 

No que concerne à relação com os pais, ou esses aderem à caretice 3.0 (quando não são eles mesmos uma das causas dessa caretice 3.0 devido às suas próprias opiniões corretinhas), submetendo-se à pregação no café da manhã, ou abrem uma frente contínua de polêmicas que sempre chegam ao mesmo lugar: a definitiva desqualificação de qualquer forma de consistência argumentativa em favor da preguiça intelectual e afetiva.

Além da calça jeans, o mercado da caretice 3.0 é um dos efeitos evidentes da contracultura dos anos 1960. 

Uma das causas mais interessantes desse fenômeno é a criação da noção de jovem crítico. Ser crítico é, talvez, uma das coisas mais fáceis na vida (facilidade essa pouco pensada por todos os pensadores que criaram esse fetiche da crítica): basta você falar mal de tudo o que não gosta de forma arrogante e estar seguro de que você representa o avanço social e político. 

A ideia de que fazer a crítica de algo implica um largo repertório intelectual e afetivo de experiências revelou-se falsa. O caminho mais curto para a não-educação é tornar pessoas de 15 anos críticas. Nunca mais arrumarão o quarto delas justificando essa atitude, agora, na estupidez do Trump. 
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* Filósofo, escritor e ensaísta, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, discute temas como comportamento, religião, ciência.
Fonte:  http://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2017/03/1863904-uma-das-causas-da-caretice-30-e-a-criacao-da-nocao-de-jovem-critico.shtml
Destaques do Blog.

Os republicanos estão despreparados para governar os Estados Unidos

Paul Krugman

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 De acordo com o site noticioso Politico.com, um confidente de Donald Trump diz que o homem do Gabinete Oval —ou, mais frequentemente, de Mar-a-Lago— está "cansado de ver todo mundo pensando que sua presidência é uma baderna". Uma dica: sabe qual a melhor maneira de combater percepções de que você está cometendo erros e mais erros? Parar de cometê-los. 

Mas Trump não é capaz disso. E não se trata apenas de um problema pessoal. 

Não seria necessário dizer que Donald Trump é o indivíduo menos qualificado, em termos de temperamento ou intelecto, a se instalar na Casa Branca. Enquanto ele oscila de acusações absurdas contra o presidente Barack Obama a insinuações maldosas sobre Arnold Schwarzenegger, a impressão que deixa é a de alguém que está passando por um colapso pessoal —ainda que todas as crises que Trump enfrentou até agora tenham sido criadas por ele mesmo. Obrigado, Comey. 

Mas o atoleiro mais amplo do Partido Republicano —o fracasso do partido em apresentar qualquer progresso significativo quanto ao cumprimento de suas promessas políticas— não gira apenas em torno das inadequações de Trump. O partido todo, na verdade, vem vivendo de pose há anos. A retórica de seus líderes sempre foi vazia; eles não fazem ideia de como transformar seus lemas em legislação concreta, porque jamais se esforçaram por compreender como funciona qualquer coisa de importante. 

Um exemplo são as duas principais prioridades na agenda legislativa do Partido Republicano: desmontar a Lei de Acesso à Saúde e reformar a tributação das empresas. Nos dois casos, os republicanos parecem estar sofrendo um profundo choque ao terem de confrontar a realidade. 

A história da revogação do Obamacare seria engraçada se os serviços de saúde —e em, alguns casos as vidas - de milhões de cidadãos norte-americanos não estivessem em jogo. 

Primeiro tivemos sete —sete!— anos nos quais os republicanos prometeram repetidamente que a alternativa do partido ao Obamacare estava chegando —mas ela nunca chegou. Depois vieram os meses posteriores à eleição, com novas promessas de que detalhes do plano seriam anunciados em breve. 

Agora, aparentemente existe um plano escondido em algum lugar do porão do Congresso. Por que o segredo? Porque os republicanos descobriram, tardiamente, aquilo que alguns de nós vínhamos repetindo o tempo todo: a única maneira de manter a cobertura de saúde dos 20 milhões de norte-americanos que passaram a contar com ela graças ao Obamacare é um plano que —surpresa!— se pareça com o Obamacare. 

E o fato é que o novo plano aparentemente funcionaria como uma espécie de versão meia bomba da Lei de Acesso à Saúde. Politicamente, a proposta parece abarcar o pior dos dois mundos. É suficientemente parecida com o Obamacare para enfurecer a linha dura conservadora, mas enfraquece alguns aspectos essenciais da lei o suficiente para privar milhões de norte-americanos —muitos dos quais os eleitores brancos de classe trabalhadora que levaram Trump à presidência— de serviços essenciais de saúde. 

A ideia, aparentemente, é a de enfrentar esses problemas aprovando o plano antes que alguém tenha a oportunidade de ver —ou pensar sobre— o que ele contém. Boa sorte nessa tentativa. 

Em seguida, a reforma dos impostos das empresas —questão sobre a qual o plano proposto por Paul Ryan, o presidente da Câmara dos Deputados, na verdade nem é tão ruim, pelo menos em princípio. Até mesmo alguns economistas que simpatizam com o Partido Democrata apoiam uma mudança para uma "imposto sobre o fluxo de caixa baseado em sua destinação", algo que é mais fácil conceber como uma combinação de imposto sobre as vendas e subsídio às folhas de pagamentos. (Confie em mim.) 

Mas Ryan fracassou espetacularmente em defender sua proposta, quer junto aos seus colegas, quer junto aos poderosos grupos de interesses. E por quê? Até onde sei, é porque ele mesmo não parece compreender o ponto central da reforma. 

O argumento em favor de um imposto sobre o fluxo de caixa é muito técnico: entre outras coisas, essa forma de tributação removeria o incentivo que o atual sistema tributário cria para que as grandes empresas se sobrecarreguem de dívidas e se envolvam em determinadas práticas para evitar impostos.
Mas esse não é o tipo de coisa sobre a qual os republicanos falam —na verdade, eles são favoráveis à sonegação de impostos, o que explica a proposta de Trump para cortar a verba do Serviço de Receita.
Não, no mundo do Partido Republicano, qualquer ideia sobre impostos precisa ser apresentada como uma forma de remover os grilhões dos oprimidos criadores de empregos. Por isso Ryan enquadrou sua proposta como medida para tornar a indústria norte-americana mais competitiva —o que basicamente é uma mentira—, tomando por foco o "ajuste tributário de fronteira" que é parte da proposta na seção de impostos sobre as vendas. 

Essa deturpação deliberada parece estar saindo pela culatra, no entanto: a ideia parece ser a de uma tarifa ao modo Trump, e vem causando reação feroz dos conservadores e de cadeias de varejo como o Wal-Mart. 

A esta altura, portanto, as principais iniciativas republicanas estão travadas, por motivos que nada têm a ver com os defeitos de personalidade do twitteiro-em-chefe e tudo a ver com a inconsequência mais ampla e generalizada de seu partido. 

Isso significa que nada de substantivo acontecerá na frente da política pública? Não necessariamente. Os republicanos podem decidir forçar a aprovação de um plano para a saúde que causará sofrimento maciço, com a esperança de culpar Obama pelos problemas. Eles podem abandonar qualquer ideia de uma reforma tributária fundamentada em princípios, e simplesmente distribuir alguns trilhões de dólares aos ricos. 

Mas qualquer quer venha a ser o desfecho, o que estamos testemunhando é aquilo que acontece quando um partido abandona o raciocínio em favor de lemas vazios e termina no controle de políticas públicas concretas. E a cena não é bonita. 
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* Prêmio Nobel de Economia (2008), é um dos mais renomados economistas da atualidade. É autor ou editor de 20 livros e tem mais de 200 artigos científicos publicados.
Tradução de PAULO MIGLIACCI
Fonte:  http://www1.folha.uol.com.br/colunas/paulkrugman/2017/03/1863998-os-republicanos-estao-despreparados-para-governar-os-estados-unidos.shtml
Imagem da Internet 

segunda-feira, 6 de março de 2017

O cristianismo está envolvido com a inteligência artificial, mas do jeito certo

Paul Scherz*

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"Se lermos com cuidado o que diz o Papa Francisco, descobriremos que ele aborda os problemas da limitada IA de hoje e que estão causando danos às pessoas neste exato momento ao invés de abordar possibilidades especulativas futuras"



Um artigo recentemente publicado na revista Atlantic acusa os teólogos cristãos de não estarem se envolvendo adequadamente com as questões postas pela inteligência artificial. Na verdade, muitos teólogos e até mesmo o Papa Francisco estão levando em conta essa problemática real.

Em recente artigo publicado na revista Atlantic, Jonathan Merritt lamenta-se que os teólogos e lideranças cristãs, incluindo o Papa Francisco, não têm abordado aquilo que, afirma ele, será o maior desafio que o cristianismo alguma vez enfrentou: a inteligência artificial, ou “AI”.

Na opinião do colunista, máquinas inteligentes ameaçam subverter muitas das crenças tradicionais cristãs, porque muitos teólogos estão “presos a antigos temas”.

Uma crítica assim seria devastadora se verdadeira. Mas será mesmo?

Uma leitura mais completa da obra do Papa Francisco sugere que ele, na verdade, está se envolvendo com a inteligência artificial que mais diretamente afeta a Igreja e a sociedade contemporâneas. Porém, antes de eu entrar nesse assunto, é necessário ver mais de perto o que diz Merritt. De fato, a maior parte dos teólogos não está abordando os aspectos específicos da inteligência artificial que ele considera essenciais, mas essa é uma escolha sensata da parte deles.

Primeiro, importa notar que “ficar preso a antigos temas”, ou aquilo que os católicos chamam de o desenvolvimento da Tradição, dá inúmeros insights para dentro deste tema. Por exemplo, Merritt afirma que “em sua maioria, os cristãos entendem a alma como um elemento singularmente humano, um componente interno e eterno que anima o nosso lado espiritual”.

Esta caracterização não é precisa.

Partindo da herança da filosofia grega, a maioria dos teólogos compreende que a alma é aquilo que faz uma coisa viva específica ser aquilo que é. É o princípio do crescimento e desenvolvimento de todas as coisas vivas, de todos os movimentos e sensação animais, e da racionalidade nos seres humanos.

Portanto, os animais têm alma, as plantas têm alma, e uma inteligência artificial que pode pensar e manipular o mundo ao redor de si teria de ter algo como uma alma.

A seguir, Merritt faz referência à imagem de Deus que cada pessoa possui em sua alma. Novamente, no entanto, importantes figuras da tradição, como Tomás de Aquino, não consideram a imagem de Deus como restrita aos humanos.

Para ele (alguns outros teólogos têm interpretações bem diferentes), nós imaginamos Deus principalmente em nosso potencial de razão e livre arbítrio, portanto todo ser com razão e livre arbítrio possuiria aquela imagem, incluindo os anjos, para Aquino, e os alienígenas racionais, para Francisco; e até mesmo a inteligência artificial, se existir.

Claro, esse motivo não é mera razão instrumental, mas uma razão que compreenda finalidades, significado e a lei moral.

Ainda assim, com base no argumento de Merritt, poderíamos nos perguntar: Como tais faculdades espirituais podem surgir a partir de circuitos de silício (nanotubos, ou qualquer outro material)? Embora um problema, ele não é mais difícil, nem muito diferente, do que a questão de como o espiritual surge da carne, questão sobre a qual pensadores se debatem ao longo da tradição ocidental.

Os teólogos se debatem sobre este problema no desenvolvimento humano ordinário – como e quando a vida nova ganha uma alma é uma questão teológica central, por motivos práticos óbvios. A resposta predominante na tradição católica é que, no processo de procriação em que cooperam pais humanos, Deus cria uma alma espiritual individual para cada corpo humano. Algo parecido como este marco poderia ser empregado para se pensar sobre a IA.

É verdade que alguns temas são mais difíceis, como a maneira que a IA poderia se redimir.

O cristianismo defende o cuidado especial de Deus pela humanidade, com a segunda pessoa da Trindade assumindo uma natureza humana na Encarnação. Essa doutrina levanta dúvidas sobre a relação de Cristo com uma possível inteligência artificial, mas dúvidas não fundamentalmente diferentes das dúvidas sobre como Cristo redime todos da criação não humana, questões que se tornam mais e mais prementes dada a devastação ambiental.

Vistos estes recursos, por que não temos mais teólogos abordando diretamente o tema da IA?

Primeiro, eu apostaria que a maioria dos teólogos é menos otimista do que aqueles citados por Merritt sobre a possibilidade real de uma verdadeira IA. Além dos 60 anos de promessas não realizadas de que a IA está prestes a se tornar realidade, os teóricos da área não vêm abordando questões filosóficas sobre se os programas, de fato, podem ter consciência e entender significados.

No argumento do quarto chinês, John Searle aponta que, embora os programas computacionais manipulem símbolos (sintaxe), permitindo-lhes imitar comportamentos, eles não podem, na verdade, captar o significado (semântica) das coisas que manipulam, o que seria necessário para a consciência.

Uma segunda fonte de ceticismo diante da inteligência artificial é que, junto com muitos pensadores não cristãos contemporâneos, os teólogos reconhecem que criar uma IA é uma ideia extremamente má. Se uma máquina tem a livre escolha necessária para a verdadeira inteligência artificial, então ela tem a possibilidade de pecado, o que conduz a grandes riscos, tal como a extinção humana.

Essa preocupação sobre os riscos levanta o problema final na análise de Merritt: se lermos com cuidado o que diz o Papa Francisco, descobriremos que ele aborda os problemas da limitada IA de hoje e que estão causando danos às pessoas neste exato momento ao invés de abordar possibilidades especulativas futuras.

Laudato Si’, encíclica de Francisco recentemente publicada, fala tanto da tecnologia na ecologia humana quanto do meio ambiente natural.

O papa aborda a poluição e o isolamento mental, refletindo inquietações de outros discursos papais sobre as pessoas que apenas recebem informações que confirmam as próprias opiniões, problema que surge em parte devido a algoritmos artificialmente inteligentes que refletem, a nós próprios, as nossas opiniões em mecanismos de pesquisa e em feeds de notícias – um solipsismo cujos efeitos políticos foram registrados magistralmente no documentário “HyperNormalisation” de Adam Curtis’.

Num segundo e ainda mais importante exemplo, ele, o papa, lamenta “um tipo de progresso tecnológico cuja finalidade é reduzir os custos de produção com base na diminuição dos postos de trabalho, que são substituídos por máquinas”. Aqui não se trata apenas da automação que impacta os empregos do setor metalúrgico, mas neste mesmo momento muitos empregos em nível administrativo estão desaparecendo em decorrência das aplicações da inteligência artificial.

O Papa Francisco demonstra que lidar com os problemas especulativos de Merritt pode nos desviar dos desafios mais prementes, como os trabalhadores do conhecimento na casa dos 40 anos cujos cargos se tornaram redundantes devido à IA e que, desse jeito, não terão condições de quitar suas hipotecas enquanto se reciclam.

Problemas como estes podem não ser tão acalorados para ser motivo de uma palestra no TED Talk, como o é especular sobre a vida de oração de uma IA. Porém são desafios da tecnologia que uma igreja, cujos membros serão julgados pelo cuidado que tiveram pelos mais fracos, deveria estar abordando.
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*Professor de moral e ética na Universidade Católica da América, doutor em genética pela Universidade de Harvard e em teologia moral pela Universidade de Notre Dame, em artigo publicado por Crux, 27-02-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.
Fonte:  http://www.ihu.unisinos.br/565376-o-cristianismo-esta-envolvido-com-a-inteligencia-artificial-mas-do-jeito-certo

A inteligência artificial é uma ameaça ao cristianismo?

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"Se máquinas artificialmente inteligentes têm uma alma, terão elas a capacidade de estabelecer uma relação com Deus? A Bíblia ensina que a morte de Jesus redimiu 'todas as coisas' na criação e tornou possível a reconciliação com Deus. Então Jesus morreu pela inteligência artificial também? A IA pode ser 'salva'?"


Em seu mandato relativamente curto, o Papa Francisco vem trabalhando duro para acolher, na Igreja Católica, as pessoas que buscam desenvolver-se espiritualmente. Ele se recusou a julgar pessoas LGBTs, procurou integrar os fiéis divorciados e recasados e estendeu a atribuição dos padres de perdoar o aborto. É bem provável, porém, que os braços estendidos de Francisco não tenham se estendido tanto quanto numa missa em 2014, onde deu a entender que a Igreja deveria batizar os marcianos.

“Se, por exemplo, amanhã uma expedição de marcianos vier até aqui e um deles disser ‘eu quero ser batizado’, o que aconteceria?”, perguntou-se ele. “Quando o senhor mostra o caminho, quem somos nós para dizer: ‘Não, o senhor não é decente’. Não, nós não podemos fazer dessa maneira”.

Embora brincalhão, esse cenário recebeu um ar sério sobre até que ponto pode chegar a acolhida da Igreja. O cristianismo, a maior religião do mundo, deveria abraços “toda” a vida inteligente? Até mesmo alienígenas? Havemos de concordar: a chegada de criaturas espaciais verdes em busca de salvação é pouco provável. Mas essa lição do papa abre a porta à aceitação de um outro ser da ficção científica também – um que não é facilmente ignorado. A saber, as máquinas hiperinteligentes.

Embora a maior parte dos teólogos não esteja prestando muita atenção ao assunto, alguns estudiosos da tecnologia estão convencidos de que a inteligência artificial está em um trajeto inevitável em direção à autonomia. Que a distância que estamos desta realidade depende de a quem perguntamos, mas o percurso levanta algumas dúvidas fundamentais para o cristianismo – da mesma forma para a religião em geral, embora, para neste artigo, irei me deter na tradição de fé que melhor conheço. De fato, a inteligência artificial – ou simplesmente IA – pode ser a maior ameaça à teologia cristã desde “A origem das espécies”, de Charles Darwin.

Durante décadas, a inteligência artificial vem avançando a uma velocidade vertiginosa. Hoje, os computadores podem pilotar aviões, interpretar exames de raio-X e esquadrinhar provas forenses; algoritmos podem pintar obras-primas de arte e compor sinfonias no estilo de Bach. A empresa Google está desenvolvendo um “raciocínio moral artificial” de forma que os seus carros sem motoristas possam tomar decisões diante de acidentes potenciais.

“A IA já está aí, é real”, diz Kevin Kelly, uma das fundadoras da revista Wired e autora do livro “The Inevitable: Understanding the 12 Technological Forces That Will Shape Our Future [O inevitável: como entender as 12 forças tecnológicas que irão moldar o nosso futuro, sem tradução ao português]. “Eu acho que a fórmula para as próximas 10 mil startups é pegar algo que já existe e acrescentar-lhe a IA”.

Apesar da promessa da IA, alguns pensadores estão profundamente preocupados com um momento em que as máquinas poderão se tornar agentes plenamente sencientes, racionais – seres com emoções, consciência e autoconsciência. “O desenvolvimento de inteligência artificial plena pode significar o fim da raça humana”, disse Stephen Hawking à BBC em 2014. “Assim que os humanos desenvolverem a inteligência artificial, ela irá decolar por conta própria e redesenhar a si mesma em um ritmo cada vez maior. Os humanos, limitados por uma evolução biológica lenta, não poderiam competir e seriam substituídos”.

Essa explosão de inteligência artificial é um dos muitos futuros que os estudiosos da tecnologia imaginam para os robôs, nem todos necessariamente apocalípticos. Porém a possibilidade de uma ameaça aos seres humanos, por menor que seja, é real a ponto de alguns estarem defendendo medidas de precaução. Mais de 8 mil pessoas, incluindo Hawking, Noam Chomsky e Elon Musk, assinaram uma carta aberta [1] advertindo contra as “armadilhas” potenciais do desenvolvimento da inteligência artificial. Ryan Calo, professor de direito da Universidade de Washington, propõe o desenvolvimento de uma Comissão Robótica Federal para monitorar e regular os desdobramentos na área de forma que não inovemos de modo irresponsável.

Enquanto as inquietações se centram, em sua maior parte, na economia, no governo e na ética, há também uma “dimensão espiritual para o que estamos produzindo”, diz Kelly. “Se criarmos outras coisas que pensam por si próprias, uma grave ruptura teológica ocorrerá”.

A história empresta credibilidade a essa previsão, visto que muitos importantes avanços científicos tiveram impactos religiosos. Quando Galileu defendeu o heliocentrismo no século XVII, esta teoria desafiou as interpretações cristãs tradicionais de certas passagens bíblicas, que pareciam ensinar que a terra era o centro do universo. Quando Charles Darwin popularizou a teoria da seleção natural no século XIX, esta contestou as crenças cristãs tradicionais sobre as origens da vida. Tal tendência continuou com a genética moderna e a climatologia.

A criação de robôs autônomos não humanos desorganizaria a religião, como todo o restante, em uma escala inteiramente nova. “Se os humanos criarem seres com vontades livres”, afirma Kelly, católica de nascimento e que se identifica como cristã, “absolutamente todos os aspectos da teologia tradicional estarão desafiados e terão de ser reinterpretados”.

Por exemplo, consideremos a alma. Em sua maioria, os cristãos entendem a alma como um elemento singularmente humano, um componente interno e eterno que anima o nosso lado espiritual. Essa noção tem origem na narrativa da criação, presente no livro de Gênesis, onde Deus “criou os seres humanos à sua própria imagem”. No relato bíblico, Deus forma Adão, o primeiro humano, a partir do pó e sopra vida em suas narinas para fazê-lo, literalmente, “uma alma viva”. Os cristãos acreditam que todos os seres humanos, desde essa época, possuem de forma semelhante à imagem de Deus e uma alma.

Mas o que exatamente é uma alma? Santo Agostinho, filósofo cristão dos primeiros séculos, observou que “Eu, pois, nada certo descobri em se tratando da origem da alma nas escrituras canônicas”. E Mike McHargue, que se descreve como um místico cristão e autor do livro “Finding God in the Waves: How I Lost my Faith and Found it Again Through Science [Encontrando Deus nas ondas: como perdi minha fé e a encontrei novamente via ciência, sem tradução ao português], crê que a ascensão da IA irá dissipar as ambiguidades na forma como muitos cristãos definem termos como “consciência” e “alma”.

“As pessoas em contextos religiosos não sabem exatamente o que é uma alma”, diz ele. “Nós a entendemos como uma essência não física de um indivíduo que não é dependente nem vincula-se ao corpo. Será que a IA vai ter uma alma segundo esta definição?”

Se esta indagação parece absurda, vejamos então as tecnologias como a fertilização in vitro e a clonagem genética. A vida inteligente é criada por seres humanos em cada um desses casos, mas se presume que muitos cristãos concordarão que estes seres possuem alma. “Se temos uma alma e criamos uma cópia física de nós mesmos, supomos que a cópia física também tenha uma alma”, afirma McHargue. “Mas se aprendermos a codificar digitalmente o cérebro humano, então a IA será uma versão digital de nós próprios. Se criarmos uma cópia digital, essa cópia também terá uma alma?”

Se estivermos dispostos a seguir nessa linha de raciocínio, os desafios tecnológicos mostrar-se-ão abundantes. Se máquinas artificialmente inteligentes têm uma alma, terão elas a capacidade de estabelecer uma relação com Deus? A Bíblia ensina que a morte de Jesus redimiu “todas as coisas” na criação e tornou possível a reconciliação com Deus. Então Jesus morreu pela inteligência artificial também? A IA pode ser “salva”?

“Não acho que a redenção de Cristo se limite aos seres humanos”, declara à revista Gizmodo em 2015 Christopher Benek, pastor da Providence Presbyterian Church, igreja na Flórida, e formado em teologia pelo Seminário de Princeton. “É uma redenção a toda a criação, inclusive para a IA. Se a IA for autônoma, então devemos incentivá-la a participar dos propósitos redentores de Cristo no mundo”.

E quanto ao pecado? Tradicionalmente os cristãos ensinam que o pecado impede a relação divina criando, de algum modo, uma barreira entre os humanos falíveis e um Deus sagrado. Digamos que, no futuro robótico, ao invés de erradicar os humanos, as máquinas decidem – ou têm programado em algum local profundo nelas – que jamais cometer atos maléficos é o bem maior. Será que os seres artificialmente inteligentes seriam cristãos melhores do que são os seres humanos? E como isso impactaria na visão cristã da depravação humana?

Até aqui as dúvidas dizem respeito à crença religiosa, mas há também muitas outras relacionadas à prática religiosa. Se os cristãos aceitam que toda a criação destina-se a glorificar a Deus, como a IA faria isso? Será que a IA frequentaria a igreja, cantaria hinos, cuidaria dos pobres? Será que ela rezaria?

James McGrath, professor de religião da Butler University e autor de “Theology and Science Fiction”, recentemente considerou a questão da oração usando uma estranha tarefa escolar. Ele propôs a seus alunos que pedissem ao Siri – assistente pessoal dos dispositivos da Apple – a orar por eles e, em seguida, a observar o que acontecia. Os alunos rapidamente souberam que o Siri se sentia mais confortável diante de perguntas como “O que é oração?” do que de comandos como “Ore por mim”. Quando orientado a rezar, o Siri basicamente respondia: “Não estou programado a fazer isso”. Mas se uma versão mais avançada do Siri fosse programada para rezar, terá uma tal ação algum valor? Deus recebe orações de todo e qualquer ser inteligente – ou apenas da inteligência humana?

Não há respostas fáceis aos cristãos dispostos a encarar estes questionamentos. E, certamente, pode ser que os cristãos não devem se importar com isso em primeiro lugar. Em nenhum momento a Bíblia fala com antecipação sobre uma inteligência não humana, muito menos aborda as questões e preocupações que ela suscita. Ela ensina, entretanto, que Deus estabeleceu uma relação especial com os seres humanos que é única entre todas as criaturas. Russell Bjork, professor na Gordon College, cauteloso quanto a ampliar a compreensão cristã de pessoa para incluir a IA, sustenta, em artigo publicado na revista Perspectives on Science and Christian Faith: “O que torna os humanos especiais não é o que a humanidade ‘é’, mas a relação de Deus conosco baseada em seu propósito para nos criar”.

Além da Bíblia, muitos cristãos assumem credos antigos para se orientarem. Um dos mais populares, o Credo Niceno, fala de Jesus como “um só Senhor Jesus Cristo (…), gerado, não feito”. O corolário implícito é que os seres humanos são filhos de Deus que são feitos, não gerados. Os cristãos acreditam que Deus faz seres humanos, mas os seres humanos fazem máquinas. Segundo essa lógica, pode-se concluir que a IA não pode ser considerada filha de Deus ou possuidora de alma.

Isso, porém, não impediu Kevin Kelly de começar a defender o desenvolvimento de um “catecismo para os robôs”. Um catecismo é uma declaração de fé normalmente enquadrada num formado de pergunta e resposta que resume a crença ortodoxa e geralmente é ensinada às crianças em algumas tradições religiosas. Kelly diz que leva essa ideia “muito a sério” e até mesmo a sugeriu em uma palestra na Conferência Q, evento anual que reúne mais de mil líderes cristãos proeminentes.

“Haverá um momento no futuro em que esses seres de vontade livre que faremos nos dirão: ‘Eu creio eu Deus. O que faço?’ A essa altura, deveremos ter uma resposta”, diz Kelly.

Kelly, McHargue e McGrath estão todos convencidos de que a maioria dos teólogos tradicionais, hoje, não se envolvem o suficiente em debate como este por estarem presos a antigos temas. McHargue nota que as dúvidas sobre a IA e teologia são umas das mais comuns da parte dos que ouvem os podcastsAsk Science Mike” e “The Liturgist” apresentados por ele. “Qualquer inteligência não biológica, não humana irá apresentar um desafio maior à religião e à filosofia humana do que qualquer outra coisa em toda a nossa história”, afirma ele.

Apesar destas situações inesperadas, McGrath levanta mais um outro ponto merecedor de atenção: na realidade, a IA pode reforçar a fé da pessoa. “Para alguns de nós, a religião tem a ver exatamente com reconhecer que eu, enquanto ser humano, não sou Deus e, portanto, não tenho todas as respostas e irei inevitavelmente estar errado sobre as coisas”, diz. “Se é esta a perspectiva da pessoa, então descobrir que se está errado é algo bom. Isso apenas confirma aquilo que já sabíamos: que a vida tem a ver com confiar em Deus e não em meu próprio entendimento”.
Nota:
[1] Disponível aqui em inglês.
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Texto por Jonathan Merritt, escritor, em artigo publicado por The Atlantic, 03-02-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.
Fonte:  http://www.ihu.unisinos.br/565375-a-inteligencia-artificial-e-uma-ameaca-ao-cristianismo 06/03/2017

AMOR SÓLIDO

Montserrat Martins*
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 “Amor líquido” é o livro que decifra a nossa Era, a obra prima de Zygmunt Bauman, sobre a instabilidade das relações pessoais e sociais no século XXI. Tanto é verdade que um sucesso de vendas, escrito numa linguagem pseudo-espírita, tem o sugestivo título de “Ninguém é de ninguém”.

As pessoas não estão mais dispostas a aguentar as outras em nome de tradições do passado que caíram em descrença. Além disso, a tecnologia da informação tornou o mundo inteiro acessível a todos, ou seja, cada pessoa tem outras 7 bilhões de possibilidades de interação, 2 bilhões das quais já estão no Facebook.

Ao invés de investir nas relações e aprofundá-las, o caminho mais fácil é trocar de relações e isso vale não só para casais, mas também para amizades, relações profissionais, sociais, para tudo, enfim.

Outros autores já tinham detectado essa era de mudanças, “Tudo que é sólido desmancha no ar”, de Marshall Berman, desmancha os modos tradicionais de interpretação da realidade. Mas o profeta dessa Era é Rollo May que em “A coragem de criar”, nos anos 70, já descrevia a descrença das pessoas com os valores e comportamentos tradicionais, que ninguém mais está disposto a seguir.

A questão é: se não queremos mais nos prender ao passado, em que chão vamos pisar? Ou simplesmente vamos fluindo pela vida, de porto em porto? Pois se um lado do ser humano nos impele à mudança, ao crescimento constante, também há um lado de nossa humanidade que pede raízes e estabilidade. Como compatibilizar esses dois lados de nossa condição humana?

Outro que enfrentou o desafio de responder essa questão foi Carl Rogers em “A Way of Being”, cujo capítulo final é sobre “a pessoa do futuro”, cuja características incluem desde a busca espiritual até a abertura a mudanças e a flexibilidade e a tolerância com as diferenças. Pessoas que não fazem mais o que os outros acham que elas deveriam fazer, mas o que elas acreditam, por convicção interior, que seja o seu caminho.

A solidez dos relacionamentos, então, não pode ser encontrada nas revistas que dão dicas sobre sedução para as relações amorosas, nem na rigidez das normas morais que estabelecem limites impostos de fora.

Só serão sólidos, hoje, os amores baseados em valores íntimos e pessoais livremente escolhidos, aos quais cada pessoa tem acesso no seu autoconhecimento. Só é sólido o que se conecta livremente, seja por afinidade ou por complementariedade. Seja no amor dos casais, no amor fraterno das boas amizades, nas boas parcerias sociais ou de trabalho, só é sólido o que é livre como o ar.
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Montserrat Martins, Colunista do Portal EcoDebate, é médico psiquiatra, bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais e ex-presidente do IGS – Instituto Gaúcho da Sustentabilidade

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 06/03/2017
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O estranho mundo das festas de casamento

Ruth Manus*

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Transformaram os casamentos em eventos megalômanos que são pura fonte de stress durante meses, para gerar 150 belas fotos de suposta felicidade numa única noite.

Eu vou casar esse ano. Vamos casar porque nós dois queremos e vamos fazer festa porque nós dois queremos. Ambos embarcaram nessa porque quiseram. Mas confesso, nesses primeiros meses, ter descoberto que sou uma espécie de anti noiva. Na verdade, me descobri uma anti noiva no que tange a estar dentro dos padrões que o mercado das festas de casamento nos impõe.

Explico-me: num dado momento ouvi a fatídica pergunta “as toalhas serão brancas, off white, marfim ou pérola?”. Branco. Off white. Marfim. Pérola. Eu nem sabia que off white era uma cor. Foi aí que eu senti meu estômago revirar e suspirei, me perguntando se eu iria aguentar este trajeto até o fim.

Começaram debates estranhos sobre o tipo de papel utilizado no convite, sobre a altura do vaso que vai no centro da mesa ou sobre a cor da forminha na qual repousarão os doces. Eu esfrego meus olhos de forma irritada, pensando nos prazos que tenho que terminar no escritório.

Outro dia alguém me perguntou se eu iria padronizar os vestidos das madrinhas. Eu nem entendi a pergunta. Insistiram, perguntando se eu não iria definir a cor dos vestidos das madrinhas. Eu caí na gargalhada, disse que não consigo nem decidir o meu, muito menos pensar nos vestidos das madrinhas. Fiquei me imaginado gritando para as madrinhas ‘VOCÊ VAI DE VERDE, HELENA, NÃO QUERO NEM SABER SE VOCÊ GOSTA HELENA, É VERDE E PRONTO”. Gente, é sério que isso existe?

Eu e o noivo gostamos de pensar em ideias maravilhosas, regadas a vinho, como colocar baratas de plástico dentro dos convites para assustar as pessoas ou denominar mesas com características físicas, como “mesa dos carecas”; “mesa dos barrigudos”; “mesa dos estrábicos”. Sem dúvidas produziríamos festas de aniversário de 7 anos melhor do que estamos produzindo um casamento.

Nossa sorte foi ter encontrado um assessor tão louco quanto nós, que embarca um pouco nas nossas ideias inúteis, mas limita-as cordialmente. Se nos deixassem, o casamento tornaria-se facilmente algo semelhante a um circo. Duas ou três vezes fui dizer “no nosso casamento” e disse “no nosso carnaval” por engano. Mas não sei se ideia é tão equivocada assim.

Sei que é muito fácil embarcar no padrão tradicional de cerimônia, jantar, sequência de músicas e arremesso do buquê. E que nos tratam quase como insanos se tentamos fazer algo que tenha mais a ver com os noivos, fugindo um pouco dessas regras supostamente intransponíveis envolvendo o corte do bolo, o brinde com espumante e as fotos posadas.

Nós seguimos firmes, remando contra a maré. E seguimos, acima de tudo, negando esta hipótese de nos tornarmos figuras surtadas, que ficam histéricas por causa de uma alteração na caligrafia no convite ou por causa de um canapé de salmão que não saiu como esperado.

Às vezes me parece que as pessoas esquecem que uma festa de casamento deve ser uma fonte de alegria, de integração das famílias e de infinitas razões para comemorar. Transformaram os casamentos em eventos megalômanos que são pura fonte de stress durante meses, para gerar 150 belas fotos de suposta felicidade numa única noite.

Não quero embarcar nisso não. Pode ser branco, off white, pérola, marfim, verde bandeira ou vermelho sangue, desde que não vire objeto de tensão. Pode ir de vestido amarelo, xadrez ou roxo de bolinhas, desde que esteja contente e feliz pelos noivos. Pode ter canapé de salmão, sopa de cebola ou cachorro quente. Essa noite serve para celebrar o amor e não para provar nada para ninguém.
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* Colunista do Observador
Fonte: http://observador.pt/opiniao/autor/ruthmanus/ 06/03/2017
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sexta-feira, 3 de março de 2017

“São Paulo faz Londres parecer uma vila“ diz escritor inglês que tem romance policial de estreia ambientado na cidade

O romancista policial Joe Thomas. Foto: Oliver Holms.

Fui para São Paulo por amor - uma boa razão para fazer qualquer coisa - e fiquei por 10 anos. Ela é o cenário para o meu romance de estreia.
O tamanho da cidade é assombroso: demora muito tempo para voar sobre toda a mancha urbana. Você sente que está sendo engolido pela cidade quando sai do aeroporto internacional. O ar fica mais pesado, o fedor do rio mais forte, o calor mais intenso. Voando para o aeroporto doméstico, você está tão perto dos arranha-céus que pode quase ver as pessoas nas janelas dos prédios.

São Paulo se sente como o centro do mundo. Embora o dia-a-dia de moagem seja intenso - faz Londres se sentir como uma vila - é um lugar energizante. Não é bonito, é muito densa e o tráfico e o crime são terríveis, mas é tão cheia de vida que você se sente poderoso, politizado e importante. 

Há mais lugares para encontrar paz e tranquilidade do que você imagina. O Parque Ibirapuera é grande e verde, com pessoas patinando e jogando futebol, basquete e tênis, e tem dois dos melhores museus da cidade. O Museu de Arte Moderna é um pouco como o Serpentine de Londres, mas muito maior e incrível. O museu e o Parque foram projetados pelo grande arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer, cujo trabalho está por toda a cidade. E o Museu Afro Brasil dá uma ideia da fascinante história do país.
 Parque do Ibirapuera. Foto: Filipe Frazão / Getty Images. Parque do Ibirapuera. Foto: Filipe Frazão / Getty Images.
Outra coisa que não se pode perder é a casa da Fundação Maria Luísa e Oscar Americano. É a residência de uma família de colecionadores de arte, tem história e natureza, cercada por uma vegetação exuberante - quando você entra na rua de repente sente o ar um pouco amortecido e mais limpo. Oscar Americano criou a fundação em 1974, dois anos após a morte de sua mulher Maria Luisa, filantropa das artes e meses antes de sua própria morte.
Se você é atraído por sensações, assim como arte e cultura, você vai encontrar uma São Paulo fascinante - as duas vivem lado a lado. No centro antigo está a Pinacoteca, uma bela galeria, e a Sala São Paulo, um local de música clássica, a poucos quarteirões da Cracolandia, o inferno na terra em uma bela parte da cidade.
Para ver vistas extraordinárias (e bebidas caras), vá para o 30º andar do The View Bar nos Jardins. Em um adorável bairro antiquado há, acima de tudo, a cidade rolando abaixo. Ele é cercado por uma mistura de escritórios e quarteirões residenciais, e no crepúsculo os semáforos piscam como um estranho código morse que sinaliza que as pessoas estão deixando o trabalho e indo para casa. Jardins é provavelmente a melhor área para se ficar e também tem outros ótimos bares e restaurantes. A cobertura do Skye Bar no Hotel Unique tem ainda mais vistas lindas e seria um lugar perfeito para James Bond descer de pára-quedas. Há uma piscina na cobertura e o hotel tem a forma de um grande barco.
A vista do topo do Hotel Unique. Foto: Paulo Fridman / Corbis - Getty Images.A vista do topo do Hotel Unique. Foto: Paulo Fridman / Corbis - Getty Images.
Meu livro, Paradise City, tem o nome da favela de Paraisópolis, onde um incidente importante acontece no início. São Paulo é um grande cenário para um romance de ficção policial por causa do enorme abismo entre ricos e pobres - há uma subclasse desprotegida e uma sensação de ilegalidade. É um lugar rico em cultura, nadando em dinheiro e minado pela anarquia política. Um romance policial permite o acesso a esses mundos diferentes. O crime em São Paulo é dirigido da prisão por uma gangue chamada PCC. No fim de semana antes da Copa do Mundo de 2006, eles exigiram TVs de tela plana para assistir os jogos. Quando as autoridades se recusaram eles disseram que provocariam o caos pela cidade - e o fizeram por três dias. A polícia foi atacada, os ônibus seqüestrados e incendiados - quando as autoridades finalmente concordaram com as TVs, o caos cessou. Foi nesse fim de semana que a semente da idéia para o meu romance foi plantada.

A melhor coisa a fazer em São Paulo é comer. Você tem conhecer a feijoada, um cozido de carne de porco e feijão que é o prato nacional do Brasil e é tradicionalmente comido às quartas e sábados. Dizem ter sido inventado por escravos que costumavam cozinhar cascos, pés e orelhas de porco com feijão. Existem duas versões: a completa, onde você pode ser servido com a orelha de porco, ou a versão "light" com bons cortes de carne. Experimente-a no Figueira Rubaiyat, um belo restaurante construído em torno de uma enorme figueira.
O detetive no meu romance está constantemente comendo um pastel - uma massa frita com enchimento de queijo ou de carne que você encontrará em barracas por todos os lugares. Deve comê-los quentes pois eles são crocantes e deliciosos com molho. Ao lado da caipirinha, a principal bebida aqui é o chope, cerveja de pressão. Há muitos bares - o Bar do Juarez em Vila Madalena é uma ótima chopperia, e o Bar do Léo, bem no centro, é pequeno mas a cerveja é do outro mundo. Se você quiser vida noturna, tente o Love Story (Rua Araujo, 232) - que é muito famoso: Nick Cave costumava ser um frequentador e Mike Tyson foi preso alí. Ele não funciona antes das 2h30 e atrai de policiais fora de serviço a prostitutas, jovens ricos e criminosos. A melhor maneira de terminar uma noite é em uma padoca (padaria) que vende cerveja, compartilhando uma bebida e trocando histórias com estranhos enquanto o sol nasce.
Bar do Juarez. Foto: Divulgação.Bar do Juarez. Foto: Divulgação.
Paulistanos (pessoas de São Paulo) são muito orgulhosos. Eles gostam de reclamar da sua cidade, mas ninguém mais pode! Há uma grande rivalidade entre eles e cariocas (pessoas do Rio). Acham que eles são triviais e preguiçosos e passam o dia todo na praia. E eles pensam que os paulistas são obcecados pelo trabalho e caretas e passam todo o tempo em shoppings!

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Entrevista de 

quinta-feira, 2 de março de 2017

O FUNDAMENTALISMO NÃO É ÓDIO, É MEDO.

TERRY EAGLETON
A esperança é um tipo de desejo, mas um que o vincula com um tipo de expectativa. A esperança tem que ser, de alguma forma, viável; tem queser possível de ser realizada, enquanto o desejo pode não ser

Rafael Gumucio
Jornal “El País” – Madri (Espanha)
11-08-2016
 
Terry Eagleton (Salfold, Reino Unido, 1943) não deixou um minuto em paz tanto conforto pós-moderno. Antes que Zizek ou Badiou se transformassem em inevitável moda contracultural, ele se dedicou, a partir da literatura, sua principal especialidade, a apontar um por um os lugares comuns dos bem-pensantes da vez. Sucessor do crítico literário e cultural marxista Raymond Williams, uniu a essa não conformidade militante uma sólida educação católica que as leituras e os anos, em vez de aplacar, aprofundaram. “Como diz o Novo Testamento, reconhecerás Deus quando vires os pobres se encherem de coisas boas e os ricos sendo despachados sem nada” [Magnificat], conta por correio eletrônico. “O cristianismo e o marxismo têm um vínculo óbvio em que os dois querem ver os pobres conquistarem o poder. A diferença é que isto, para a fé cristã, é um assunto escatológico, ou seja, que vai além da história, enquanto que o marxismo espera vê-lo realizar-se dentro da história da humanidade”.
Esta adesão dupla à mudança social e à fé católica o levou a polemizar muito com um estranho ser que ele chama de Ditchkens, que não é outra coisa que a mescla perfeita do biólogo Richard Dawkins com o falecido polemista Christopher Hitchens, porta-vozes do novo ateísmo militante e da intervenção norte-americana no Iraque.
Esse tipo de jogo de palavras é a surpresa perpétua de quem se aventura em livros tão conscienciosos e desapiedados como Marx Estava Certo, Ideologia ou Depois da Teoria. Para não falar de suas imprescindíveis memórias, The Gatekeeper: A Memoir (O Porteiro: Memórias) emocionantes e hilárias. “O humor para mim está intimamente ligado ao sem sentido”, diz. “As atividades mais valiosas não têm nenhum propósito ou função além de si mesmas: tocar música, fazer amor, tomar vinho, brincar com os filhos. O mesmo se poderia dizer das piadas. É compartilhar a vida porque sim”.
Mas o normalmente sarcástico e implacável Eagleton, para surpresa de todos, incluindo ele mesmo, parece querer passar da crítica à proposta. Não se trata de otimismo, explica várias vezes em seu último livro – intitulado justamente Hope Without Optimism (Esperança sem Otimismo) —, porque o otimismo é para ele “uma forma de desespero”, mas de uma velha virtude teologal reativada pelo historiador marxista Ernst Bloch: a esperança: “A esperança é um tipo de desejo, mas um que o vincula com um tipo de expectativa. A esperança tem que ser, de alguma forma, viável; tem que ser possível de ser realizada, enquanto o desejo pode não ser. Você pode desejar ser Mick Jagger, mas não pode esperar sê-lo”.
Mas, que podemos esperar da esperança em uma Europa em crise que só parece estar de acordo em estar em desacordo? “Continuamos esperando conseguir as coisas que tradicionalmente quisemos: justiça, igualdade, fraternidade, ausência de pobreza e de violência, etcétera. É pouco provável que exista alguma vez uma sociedade de seres humanos sem violência ou injustiça de algum tipo, mas, dados os recursos globais que possuímos, está totalmente dentro de nossas possibilidades acabar com a pobreza. Nosso sistema de propriedade é o que impede que isso aconteça, e claramente poderia ser mudado”.
Soa então inevitável a palavra revolução, que não é de todo estranha nesse tenaz militante do Partido Socialista dos Trabalhadores. “Quando as pessoas escutam a palavra revolução pensam imediatamente em sangue e barricadas. Mas houve revoluções de veludo, como também revoluções violentas. A revolução bolchevique esteve bastante livre de violência. Alguns processos de reforma foram muito mais sangrentos que algumas revoluções. De todo modo, as revoluções não ocorrem de um dia para o outro. As revoluções que deram lugar às sociedades modernas de classe média levaram séculos em sua evolução. Marx enaltece as classes médias como a força mais revolucionária jamais vista na história da humanidade. Suponho que um revolucionário seja alguém que acredita que não é possível ter o tipo de justiça e bem-estar que necessitamos sem uma transformação completa. Isso, para mim, seria um ponto de vista realista, não extremista. A queda do apartheid na África do Sul também foi uma revolução (política, não econômica) e ninguém considera fanático ou extremista tê-la apoiado. Todo aquele que acredita que foi correto que os Estados Unidos deixassem de ser uma colônia é um defensor da revolução. Ou seja, mais ou menos todo o mundo é”.
"Quando ouvimos a palavra revolução, pensamos em sangue;
mas algumas reformas foram mais sangrentas"
Eagleton se defende ao longo do livro de ser um otimista, mas está muito longe de ser um pessimista. Quando se pergunta a ele se o mundo está pior ou melhor que há 50 anos, não duvida em responder que melhorou em aspectos fundamentais. Sua querela com o otimismo como ideologia se baseia justamente em sua falta de fé em que o mundo ainda poderia melhorar muito mais: “A pergunta é se é viável empreender mudanças que poderiam modificar nosso mundo de modo significativo. E a resposta realista a esta pergunta é, sem dúvida, sim. Nesse sentido, os realistas são aqueles que acreditam na possibilidade de tal transformação, e os que têm a cabeça nas nuvens são os que pensam que as coisas sempre continuarão mais ou menos como sempre foram. Por volta do ano 2000, os teóricos falavam da suposta morte da história. Segundo eles, a história, efetivamente, estava acabada, o capitalismo era a única opção ao nosso alcance, e nada dramático poderia acontecer. Logo depois dois aviões se espatifaram contra o World Trade Center. Daí tivemos a suposta guerra contra o terror, depois um dos maiores colapsos da história do capitalismo, depois as primaveras árabes, a crise da imigração, etcétera”.
"O fundamentalismo é um equívoco quanto à natureza da leitura, que não existe sem a interpretação. É a outra face do pós-modernismo"
O auge do fundamentalismo está ligado, para Eagleton, a uma outra de suas obsessões: como ler ou como não ler ficção ou poesia? “O fundamentalismo, de qualquer tipo, é essencialmente um equívoco que se comete quanto à natureza da leitura. Ele imagina que o significado dos signos se fixa imutavelmente ao longo dos tempos. Mas a verdade é que um sinal cujo significado não pudesse se alterar entre um contexto e outro simplesmente não seria um signo. Os signos devem ser, por definição, portáteis: podem ser transportados de uma situação e acumular novos significados na interação com os signos que os cercam. Por isso, não pode haver leitura sem interpretação.
Para Eagleton, “o fundamentalismo tem suas raízes não no ódio, mas no medo, o medo de um mundo moderno e mutante, em que tudo está em movimento, onde a realidade é transitória e com um final não definido, onde as certezas e os pilares mais sólidos parecem ter desaparecido. Nesse sentido, é a outra face do pós-modernismo”.
 
Título da obra:
Como ler literatura
O PODER DAS PALAVRAS
“Começos”, “O personagem”, “Narrativa”, “Interpretação” e “Valor” – esses são os cinco capítulos em que se divide Como ler literatura. A seguir, três trechos do livro de Terry Eagleton:
Linguagem
No Coração das Trevas”, de Conrad, nos conta que o rosto de uma mulher tinha ‘um aspecto trágico e feroz em que se misturavam um enorme pesar e uma dor surda com o temor diante de uma decisão não totalmente formulada que lutava para abrir caminho”. Essa expressão facial impossível só existe no nível da linguagem. Duvido que uma atriz, por mais talentosa que seja, seja capaz de parecer feroz, trágica, pesarosa, ferida, amedrontada e decidida ao mesmo tempo. Um Oscar seria pouco para premiar uma atuação dessas”.
Doutrina
“As mudanças das circunstâncias históricas podem ter como consequência que algumas obras deixem de ser apreciadas. Para os nazistas, não havia nenhum texto escrito por algum judeu que fosse valioso. Uma mudança generalizada de sensibilidade tem feito com que não gostemos mais dos textos didáticos, embora o sermão tenha sido um gênero nobre em outros tempos. No entanto, não há razão alguma para supor, como costumam fazer os leitores modernos, que a literatura que tenta nos ensinar alguma coisa tenha de ser chata. Nos tempos modernos, tendemos a mostrar uma certa aversão à literatura “doutrinária”, mas a Divina Comédia é exatamente isso. A exigência doutrinária não tem por que ser dogmática”.
Público e privado
“Um dos trunfos do grande romance realista europeu, desde Stendhal e Balzac até Tolstói e Thomas Mann, consiste em ilustrar a interação entre personagem e contexto. Nas palavras de George Eliot, não existe vida privada que não tenha sido influenciada por uma vida pública muito mais ampla”.
Fonte: El País – Internacional – Segunda-feira, 15 de agosto de 2016 – 16h43 (Horário Centro Europeu de Verão) – Internet: clique aqui.