sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

O QUE ESPERAR DO BRASIL EM 2018

André Lara Resende*

 Daniel Caballero
 "Corrupção, criminalidade e violência nas cidades, saúde pública, desigualdade de educação e de riqueza são questões que há décadas nos atormentam e só se agravaram. São questões eminentemente políticas, que dependem do poder público, questões incapazes de serem resolvidas por iniciativas individuais, ou mesmo corporativas, com ou sem fins lucrativos."

O sentimento que hoje dá a tônica no Brasil é o de desalento. Depois de três anos da mais grave recessão da história do país, a economia dá sinais de recuperação, mas ainda não há investimento para garantir um novo ciclo de crescimento. Não há investimento porque a confiança não se recuperou. O país está à espera das eleições presidenciais de 2018. A esperança que ainda tempera o desalento é que o presidente eleito em 2018 seja capaz de recolocar o país nos trilhos. Recolocar o país nos trilhos tem diferentes interpretações, mas há um relativo consenso sobre os problemas a serem enfrentados. Corrupção, criminalidade e violência nas cidades, saúde pública, desigualdade de educação e de riqueza são questões que há décadas nos atormentam e só se agravaram. São questões eminentemente políticas, que dependem do poder público, questões incapazes de serem resolvidas por iniciativas individuais, ou mesmo corporativas, com ou sem fins lucrativos. Temos a impressão de que são problemas nossos, uma especificidade do país que atravessou o século XX sem conseguir chegar ao Primeiro Mundo, mas a verdade é que são problemas que afligem, em maior ou menor grau, todas as grandes democracias contemporâneas. Basta observar os Estados Unidos hoje. A lista acima, dos nossos grandes problemas, seria integralmente aceita para descrever as questões que afligem a mais rica e e bem-sucedida democracia contemporânea.

Num pequeno livro publicado originalmente em 1993, "O Fim da Democracia", Jean-Marie Guéhenno, diplomata francês, professor da Universidade de Columbia, defendia uma tese que, à época, parecia precipitada e provocadora. Sustentava que havíamos chegado ao fim de uma era. O período da modernidade, da democracia, iniciado com o Iluminismo do século XVII, cujo apogeu se deu no século passado, se encerrava com o fim do milênio. Diante do mal-estar que hoje se percebe, em toda parte, não apenas em relação à democracia representativa, mas em relação à própria política, a releitura do ensaio de Guéhenno nos deixa com a impressão de se tratar de uma reflexão profética sobre a crise deste início de século.

A modernidade se organizou a partir da crença nas instituições democráticas, na força das leis para organizar e controlar o poder. Difundiu-se a tese de que a melhor maneira de regular a convivência, organizar a sociedade era limitar o poder pelo poder, distribuindo-o entre vários polos e instâncias. As construções institucionais que organizam essa distribuição do poder, de maneira que impeça a usurpação por um deles, ou colusão entre eles, num delicado equilíbrio de distribuição, não apenas do poder, mas também da riqueza, é o que caracteriza a democracia moderna.

No passado, antes do enriquecimento que acompanhou a era da razão e da indústria, a riqueza fundiária era o único poder. O poder político não se distinguia do poder econômico, ser poderoso era, sobretudo, escapar da miséria generalizada. A democracia institucional da modernidade foi um extraordinário progresso em relação à concentração do poder e da riqueza das épocas passadas, mas, nessa passagem de século, as instituições democráticas se tornaram obsoletas. Há dificuldade em admiti-lo, porque não temos o que pôr no lugar da democracia representativa. Não conhecemos uma forma de melhor organizar a sociedade. As palavras democracia, política, liberdade definem o espectro de nossa visão de um mundo civilizado, mas não temos mais certeza de saber o seu verdadeiro sentido. Nossa adesão, à construção institucional e aos valores da democracia moderna, é mais um reflexo condicionado do que uma opção refletida.

O poder voltou a estar associado à riqueza e
 ao dinheiro, agora desmaterializados, ao sabor
exclusivo das expectativas

Com a densidade demográfica e o progresso tecnológico, sobretudo nas comunicações, a sociedade dos homens se tornou grande demais para formar um corpo político. Não há mais cidadãos, pessoas que compartilham um espaço físico e político, capazes de expressar um propósito coletivo. Todos se percebem como titulares de muitos direitos, e cada vez menos obrigações, num espaço nacional pelo qual não se sentem responsáveis, nem necessariamente se identificam. Na idade das redes, da mídia social, a vida pública e a política sofrem a concorrência de uma infinidade de conexões estabelecidas fora do seu universo. Longe de ser o princípio organizador da vida em sociedade, como o foi até algumas décadas atrás, a política tradicional passa a ser percebida como uma construção secundária e artificial, incapaz de dar resposta aos problemas práticos da vida contemporânea. Sem a política como princípio organizador, sem homens públicos capazes de definir e representar o bem comum, a pulverização dos interesses, longe de resultar num consenso democrático, leva à radicalização na defesa de interesses específicos e corporativos. Na ausência de um princípio regulador, universalmente aceito como acima dos interesses específicos, a tendência é a da radicalização na defesa de seus próprios interesses. Não há mais boa vontade com os que discordam de nós, nem crédito quanto à suas intenções.

Sem confiança e boa-fé, os elementos essenciais do chamado capital cívico, não há como manter viva a ideia de nação, de uma memória e de um destino compartilhado. Num primeiro momento, tem-se a impressão de que a confiança e a boa-fé, vítimas da sociedade de massas, poderiam ser substituídas, sem prejuízo do bom funcionamento da sociedade, pela institucionalização e pela formalização jurídica das relações. O que é um avanço, o domínio da lei, quando levado ao paroxismo, quando se depende da lei, dos contratos jurídicos para regular até mesmo as mais comezinhas relações cotidianas, é sinal inequívoco da erosão do capital cívico. O sistema jurídico, os advogados, se tornam o campo de batalha, os exércitos, de uma guerra onde cada um, cada grupo, se agarra obstinadamente aos seus interesses e "direitos" particulares. Quebrar um contrato, desobedecer à lei, é passível de punição, mas fora dos contratos e da lei tudo é permitido, não há mais princípios nem obrigação moral. Quando não existe mais terreno comum fora dos contratos jurídicos, quando não é mais possível, de boa-fé, baixar as armas e confiar, é porque não há mais terreno comum e a decomposição da sociedade atingiu um um estado avançado. O estágio final é a decomposição das próprias instituições que fazem e administram as leis.

Talvez a mais polêmica das teses de Guéhenno, à época da publicação de seu ensaio, fosse a de que o princípio organizador do poder no mundo contemporâneo fragmentado é a riqueza. Não mais o capital, capaz de organizar e explorar o trabalho, como queria a tradição marxista, mas a riqueza em abstrato. Com a desmaterialização da economia, provocada pela revolução digital, o capital e o trabalho caminham rapidamente para se tornar dispensáveis. A riqueza é criada e destruída com extraordinária velocidade e de forma completamente dissociada do que restou do sistema produtivo do século XX. No mundo contemporâneo o poder voltou a estar associado à riqueza e ao dinheiro, agora desmaterializados, ao sabor exclusivo das expectativas, das percepções coletivas, que tanto se expressam como se validam na criação de riquezas abstratas, tão impressionantes como voláteis.

Para Guéhenno, é sob este prisma, do dinheiro como o princípio organizador do poder, que se deve analisar a corrupção no mundo contemporâneo. Longe de ser um fenômeno arcaico, lamentável sinal de uma sociedade subdesenvolvida, incapaz de distinguir entre a fortuna particular e o bem público, a corrupção é um elemento característico da sociedade contemporânea. Quando o Estado e a política deixam de ser o princípio organizador do bem comum, quando políticos e funcionários passam a serem percebidos e a se perceber como meros prestadores de serviços para uma multiplicidade de interesses específicos, é natural que sejam remunerados, diretamente pelos interessados, pelos serviços prestados.

No mundo onde o relacionamento vale mais do que o saber, onde o poder público é visto apenas como facilitador de interesses particulares, a chamada corrupção, desde que não saia de controle, é apenas uma forma de aumentar a eficiência da economia. O valor supremo é a eficiência da economia na geração de riqueza. A política e a alta função pública, há tempos, perderam importância e prestígio. Os sucessivos "escândalos" de corrupção com recursos públicos nas democracias contemporâneas não são uma anomalia, mas a consequência lógica do triunfo do único valor universal que sobrou no mundo pulverizado das redes, o dinheiro, como indicador de sucesso pessoal e de sucesso das sociedades. A riqueza se tornou o gabarito comum, a única referência através da qual é possível estabelecer comunicação entre indivíduos e tribos que nada mais compartilham, a não ser a reverência em relação à riqueza.

O tempo deu razão a Guéhenno. Suas teses, hoje, parecem menos extravagantes. A revolução digital, a pulverização das identidades, a desmaterialização da economia e o fim do emprego industrial tornaram obsoleta a política das democracias representativas. Nosso desalento não é exclusividade nossa. O que poderia servir de consolo é, na verdade, evidência de que o problema é mais grave do que se imagina. É bom que se tenha consciência, para não depositar esperanças infundadas nas eleições de 2018. Para recolocar o país nos trilhos, para dar fim ao desalento, não basta evitar os radicalismos. É preciso ir além de uma proposta moderada reformista, pautada pelo que o país deveria ter conseguido ser no século passado. É preciso ter o olhar voltado para o futuro, e o futuro é o da economia digitalizada, da inteligência artificial, com profundas repercussões na forma de se organizar a economia e a sociedade. Pode ainda não estar claro onde a estrada nos levará, mas é preciso estar na estrada para não ficar definitivamente para trás.
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·             Economista
Fonte: http://www.valor.com.br/cultura/5246289/o-que-esperar-do-brasil-em-2018  05/01/2018

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

CHARLES PÉPIN: O filósofo que analisa as virtudes do fracasso, de Thomas Edison a Steve Jobs


Charles Pépin.
Charles Pépin.
O fracasso é, desde o início da nossa civilização, uma fonte de medo e vergonha. O filósofo Charles Pépin (Saint-Cloud, França, 1973) pensa, ao contrário, que experimentar o fiasco e a frustração inerente a ele é o que, no fundo, nos torna humanos. De acordo com o pensador francês, a inteligência de um indivíduo é quantificada pela capacidade de analisar e corrigir seus erros. Nesse sentido, cometer erros não é apenas inevitável, mas necessário para entender nossos desejos e prioridades. Professor do Instituto de Estudos Políticos de Paris e conferencista muito solicitado, Pépin desenvolve essas teses em As Virtudes do Fracasso (cuja edição brasileira deve sair neste ano), um tratado que defende uma mudança de atitude em relação ao desapontamento. No livro, o autor elabora uma lista de personagens que tiveram êxito depois de terem falhado, de Thomas Edison a Steve Jobs, e também de invenções que surgiram a partir de erros de apreciação bem conhecidos, como o Viagra ou as cápsulas de café. O objetivo de Pépin, como ele relata em um café parisiense, é aprofundar um assunto que a maioria dos grandes filósofos ignorou obstinadamente.

Pergunta: Por que o fracasso foi um assunto tão pouco abordado pela sua disciplina?
Resposta: Na filosofia ocidental se falou pouco sobre os aspectos concretos da existência. O fato de fracassar não é mencionado nos Diálogos, de Platão, nos escritos de Descartes ou de Kant, nem nos tratados dos existencialistas. Existe alguma exceção, como a filosofia dos estoicos, que falaram da necessidade de aceitar a frustração inerente à vida. Mais tarde, Hegel também considerou que as experiências negativas eram necessárias: assim como não há tese sem antítese, o sucesso não existe sem o fracasso. Já no século XX, a epistemologia refletirá a pontuação sucessiva que é própria do método científico, o que implica erros sucessivos até atingir um resultado satisfatório. Qualquer êxito pode ser considerado, nesse sentido, um fracasso corrigido.

P. Em seu livro, o senhor define o fracasso como um problema filosófico, mas também social. O que nos impede de aceitar, socialmente falando, o fato de falhar?
R. Para começar, o fracasso de um projeto particular é muitas vezes confundido com o de nossa pessoa em sua totalidade. Eu não conheço bem a situação espanhola, mas diria que é semelhante à francesa. Nossa sociedade está doente porque é incapaz de aceitar o erro. Conheço jovens traumatizados por um sistema escolar que não favorece a singularidade, o que os obriga a se adaptar ao que foi definido como a norma. Nas empresas, há muitos trabalhadores marginalizados por terem cometido um único deslize ao longo de suas carreiras. Na França, o atípico é punido para preservar um sistema muito homogêneo, no qual se aspira a que todo mundo se pareça.

P. Em seu livro o senhor faz um inventário dos mitos franceses que ressurgiram das cinzas depois de pronunciados fracassos. Por exemplo, quase todos os presidentes desde Charles de Gaulle viveram longas travessias do deserto...
R. Uma exceção é Emmanuel Macron, embora ele certamente viveu algum fracasso durante a infância. Estes são geralmente os que deixam uma marca mais profunda. Como eu disse, a origem do problema reside no modelo fundador da escola pública, que exige que todos os alunos sejam iguais. Que respondam às mesmas regras, que falem a mesma língua, que aprendam a mesma história e depois a repitam com a mesma retórica. Nem tudo é ruim nesse modelo: é o sistema em que se baseia a igualdade republicana e, como tal, é intocável. Mas não há como negar que mais de 30% dos empresários experimentaram o fracasso escolar. Nas carreiras artísticas e no esporte a porcentagem é semelhante. São números que devem nos levar a refletir.

P. Diante da rigidez europeia, o senhor parece defender o modelo norte-americano, que considera mais tolerante com o fracasso. Não era o contrário?
R. Um banco norte-americano aceita dar uma oportunidade a um empresário que, em determinado momento, cometeu um erro. Na maioria dos países europeus te fecham a porta. Na França, te colocam em uma lista negra quando você tem um problema financeiro. Desde 2013, isso não é mais possível, mas a percepção do fracasso continua sendo a mesma. Nos Estados Unidos, o espírito aventureiro é favorecido por causa da mentalidade pioneira. O próprio descobrimento da América foi um erro de navegação... Dito isto, tampouco idealizo esse sistema. Lá tudo é pensado para que o sucesso acabe chegando, cedo ou tarde. Mas, no caso de não chegar, o Estado ignora totalmente esse indivíduo. Na Europa, pelo contrário, você sempre tem uma rede de segurança.

P. Algumas pessoas interpretam as suas teses como um elogio da mediocridade.
R. Não é o meu raciocínio. Não digo que todos os fracassos sejam positivos. O que digo é que é preciso fracassar de uma maneira interessante, com vontade de ser corajoso e original. Acho que chegamos ao fim do ciclo de obsessão pelo sucesso. Há anos Michael Jordan se dedica a dar palestras sobre os fracassos de sua carreira. E o tenista Stanislas Wawrinka tatuou no braço uma famosa citação de Beckett, retirada do seu livro Para o Pior Avante: “Você tentou. Você falhou Tanto faz. Tente novamente. Fracasse novamente. Fracasse melhor”. De acordo, ainda não é uma opinião hegemônica, mas me parece sintomático de uma erosão do modelo dominante.

 “Nas empresas, há muitos trabalhadores 
marginalizados por terem cometido um único 
deslize ao longo de suas carreiras”

P. Em que momento começou essa mudança de mentalidade?
R. A crise financeira da década passada foi um ponto de inflexão. Foi um kairós, para usar o termo dos filósofos gregos, um momento oportuno para a mudança. A crise questionou o sistema de valores que sustentava a ideia do sucesso. Foi um momento em que muitas portas se fecharam, mas algumas janelas também se abriram.

P. Seu ensaio também analisa o fracasso do ponto de vista psicanalítico. Ele o define como uma vitória inconsciente, pois nos aproxima do que realmente queríamos apesar de não sermos conscientes disso.
R. Lacan costumava dizer que todo ato falho esconde um discurso de sucesso. Podemos usar o exemplo de Nicolas Sarkozy. Quando ele se retirou da vida política, a primeira coisa que disse foi que isso permitiria que ele cuidasse mais da família, que havia negligenciado durante anos. Inconscientemente, viu em seu fracasso eleitoral a oportunidade de fazer algo positivo. É perigoso não se dar conta da dissociação em relação aos nossos desejos inconscientes. Muitas vezes, temos que fracassar repetidamente até cairmos rendidos e até nos sentimos deprimidos. É quando percebemos que estamos errados, que isso não é o que queríamos fazer com nossas vidas, tanto no aspecto profissional quanto no afetivo. Fracassando uma e outra vez vamos nos aproximando, pouco a pouco, da verdade.

P. Não existe o perigo de cair na lógica do pensamento positivo, inspirado na filosofia de Emerson, que considerava que qualquer experiência, boa ou ruim, sempre acaba sendo proveitosa?
R. É muito sedutor pensar isso, mas não é o que defendo. Acredito que todas as experiências não são benéficas. A negatividade total também existe. Há fracassos dos quais nunca se recupera, o que pode até levar ao suicídio. O que eu digo é que o fracasso é uma experiência humana. E que chegaremos mais longe se o adotarmos e o corrigirmos do que negando sua existência. O fracasso nos ajuda a nos reorientar e a nos reinventar.
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Reportagem por 
Fonte:  https://brasil.elpais.com/brasil/2018/01/03/cultura/1514978576_244946.html

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Tempo e poesia

Roberto Pompeu de Toledo*

 Resultado de imagem para o tempo

Que é o tempo? “Só sei a resposta quando não me perguntam”, escreveu Santo Agostinho. Para combatermos o mistério dessa entidade fluida, impalpável e invisível, inventamos subterfúgios como, ao fim de cada viagem do planeta em torno do Sol, pespegar-lhe um número novo. 2018 é o número da vez, e assim o tempo nos parece domável, cada pedaço dele em seu lugar (como se pudesse ser dividido em pedaços). O poeta T.S. Eliot invocou um dos mistérios do tempo no poema Burnt Norton (tradução de Ivan Junqueira):
“O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos talvez presentes no tempo futuro
E o tempo futuro contido no tempo passado.
Se todo tempo é eternamente presente
Todo tempo é irredimível.
O que poderia ter sido é uma abstração
Que permanece, perpétua possibilidade,
Num mundo apenas de especulação.
O que poderia ter sido e o que foi
Convergem para um só fim, que é sempre presente”.

Conferir um número de série a cada ano equivale a aprisionar o tempo a um compartimento, a uma ordem, a uma classe, ele que, em sua natureza de corrente contínua, é irredutível a aprisionamentos. Guardávamos o tempo nas paredes, na forma do objeto graciosamente chamado de “folhinha”, como maneira de tê-lo lá parado, domesticado e compreensível. Continuamos a guardá-lo no bolso ou no pulso, no relógio ou no mostrador do celular. O poeta paulista Antônio Fernando De Franceschi brincou com as horas no poema Relógio:

"Meia hora antes / da hora meia seguinte / recue o ponteiro / outro tanto. / Retenha então a / hora certa, / a verdadeira, / e observe: / Para o instante / de agora faltará / aquele exato, / mesmo tanto, / e igual parte / até a hora / daqui meia hora. / Isso feito / e provado, / saberá que / em tempo / e verso, / todo relógio / é perverso”. 
 
Encapsular o tempo é uma especialidade humana que combina engenho e arte, e gera efeitos práticos de inestimável valor. Através dos séculos acumulamos as formas de fazê-lo. Os relógios de pêndulo extraem do tempo um ritmo que o poeta americano Wadsworth Longfellow traduziu assim: “Forever — Never! / Never — Forever”. O poeta mineiro José Narciso Bedran deteve-se sobre o sino: “Remate da abóboda celeste, / o sino soletra setas nos ouvidos. / Taça esvaziada, vinho tomado, / espreita-nos como fechada questão, / emborcado para o infinito”.

O sino como que concentra um estoque de tempo em seu bojo para, na hora própria, liberá-lo aos gritos. O relógio de sol calcula o andamento do Sol, ardilosamente, projetando no chão o seu contrário, a sombra. Entre os medidores do tempo nada se compara, no entanto, ao objeto chamado ampulheta, tanto pela beleza da forma quanto pela crueldade de sua implacável determinação. O argentino Borges o descreveu no poema O Relógio de Areia (tradução de Josely Vianna Baptista):

“Pelo ápice aberto o cone inverso
Deixa cair a cautelosa areia,
Ouro gradual que se solta e recheia
O côncavo cristal, seu universo.
(…)
Não se detém jamais essa caída.
Eu me dessangro, não o vidro. O rito
De decantar a areia é infinito
E com a areia vai-se a nossa vida”.

A ampulheta enfrenta o tempo em seus próprios termos, com a mesma dose de mistério. Para Borges, a areia “parece ter sido imaginada / Para medir o tempo dos mortos”. A conclusão podia ser que, não importa o medidor em que se o aprisione, o tempo vence no final, e nos enterra. Mas não é esse o ponto destas linhas. É simplesmente dizer: “Feliz 2018”.
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Publicado em VEJA de 3 de janeiro de 2017, edição nº 2563
Fonte:  https://veja.abril.com.br/revista-veja/tempo-e-poesia/
Imagem da Internet

Marcelo Crivella: “Cito a Bíblia todo dia”

Marcelo Crivella

Prefeito do Rio, que não vê problema em misturar religião e política, diz que está aprendendo a governar e que não pretende posar com rainha de bateria

Ao longo do primeiro ano à frente da prefeitura do Rio de Janeiro, o carioca Marcelo Crivella (PRB), 60 anos, foi tachado de “prefeito sumido”, mas deu muito que falar. Ao alçar a cargos fundamentais pessoas ligadas à Igreja Universal, fundada pelo tio Edir Macedo, e cortar verbas da Parada Gay e do Carnaval, ao qual deu as costas evaporando-se dos eventos oficiais, cultivou a imagem de um político cioso de seu rebanho. Defendeu também os de casa: tentou emplacar o próprio filho na pasta da Casa Civil, caso que ainda será examinado pelo Supremo Tribunal Federal. Engenheiro de formação e bispo licenciado, o ex-senador e ex-ministro da Pesca afirma que o mérito o tem conduzido em suas escolhas. Nesta entrevista, diz que herdou uma bomba-relógio da gestão anterior e passa a mão na cabeça do aliado Anthony Garotinho, ex-governador atolado em denúncias.

Em seu primeiro ano de gestão, o senhor ganhou o apelido de “prefeito sumido”. É injusto? Claro. Pergunte ao ascensorista se não sou o primeiro a chegar à prefeitura todos os dias às 7 da manhã. Agora, não sou um homem que veio para estar nos holofotes do palco. Faço política discretamente. Esse é o meu estilo.

Por que tantas viagens ao exterior? Como as empresas brasileiras quebraram, preciso ir atrás de parcerias fora. Na China, por exemplo, fechei um acordo com um pessoal que vai melhorar a iluminação pública do Rio. Até uma fábrica de luminárias os chineses estão prometendo trazer para a cidade. Também estive na Rússia e em Dubai atrás de novos investimentos. Não foi para passear, não.

E o porquê das viagens à África do Sul, onde o senhor atuou por uma década como bispo da 
Igreja Universal? Fui uma vez na Páscoa, pagando do próprio bolso, e na outra aproveitei uma escala para ficar por lá. Fui rever meus amigos. Adoro aquele país. Se fossem outros políticos do Rio, garanto que parariam em Paris. 
 
Qual nota o senhor daria ao seu governo até agora? Não vou dar nota, mas posso dizer o seguinte: herdei uma bomba-relógio na prefeitura do Rio de Janeiro. A Olimpíada me deixou como legado uma manada de elefantes brancos, que agora, junto com o Ministério do Esporte, pretendo conceder à iniciativa privada. A impressão que tenho é que as administrações anteriores agiam como um pai irresponsável, que vê o filho chorando e o enche de chocolate e refrigerante. O pai sabe que os dentes vão estragar, mas fica feliz de se ver livre das lágrimas da criança. Estou trabalhando para reverter esse quadro sem cair no populismo, como outros fizeram.

O senhor está se referindo a seu antecessor, Eduardo Paes? No último ano da administração dele foram realizados gastos com escolas e clínicas sem nenhum tipo de previsão de custeio. Empenhos de cerca de 1 bilhão de reais foram cancelados no apagar das luzes de 2016. Esses são os fatos. Aliás, quem achava que um evangélico no poder seria o populista se enganou.

O senhor tem falado com Paes? Às vezes. Outro dia estávamos conversando e ele me disse que vai retornar para o Brasil para ser governador. Eu disse: “Se você conseguir essa proeza, fique tranquilo, pode voltar a morar na residência oficial da prefeitura, na Gávea Pequena. Não a uso mesmo”. Mantenho a civilidade com Paes. Acredito, inclusive, que ele não sabia das roubalheiras do seu secretário de Obras (Alexandre Pinto, preso pela Operação Lava-Jato acusado de cobrar propinas).

E os seus erros até agora, quais foram? Hesitei muito em tomar decisões drásticas como, por exemplo, trocar secretários. É o preço que a gente paga por estar começando. Espero que o povo tenha paciência com os meus equívocos. Afinal, não fui eleito para ser perfeito, mas para ser prefeito.

O senhor cortou recursos da Parada Gay, do Carnaval e da tradicional procissão de homenagem a Iemanjá no Rio. A religião pesou nas decisões? De maneira alguma. A prefeitura vive uma severa crise e não tenho recursos para gastar com eventos. Mas garanto alvarás e licenças em respeito à livre manifestação do povo. Forneço também guardas municipais para fazer a vigilância e garis para a limpeza.

Além de cortar verbas para o Carnaval, o senhor não participou da festa. Desta vez a religião pesou? Cortei a verba porque precisava de recursos para investir em creches e creio que o Carnaval tem potencial para andar por conta própria, sem depender do Estado. O desfile das escolas de samba fatura com ingressos e patrocínio. Não fui ao Sambódromo porque minha promessa de campanha é cuidar das pessoas, e não sambar na avenida. O que diria meu eleitor se eu fosse lá para tocar pandeiro e aparecesse do lado de uma rainha de bateria? Não é justo que, para receber aplauso, eu crie um clone de mim mesmo e vire um soldado da demagogia.

O senhor vetou a exposição Queermuseu no Rio alegando que ela fazia “profanação de símbolos de culto”. Aí foi uma decisão do prefeito ou do bispo Crivella? Aquela exposição ofendia o catolicismo, e as pessoas que me elegeram exigem de mim respeito a todas as religiões.

Durante a campanha, o senhor prometeu que não nomearia ninguém ligado à Igreja Universal. Por que colocou um primo de Edir Macedo, Fabio Macedo, no cargo de administrador da sede da prefeitura? Não consta em lugar nenhum que, só por ser parente do Macedo, ele não possa exercer essa função. Fabio tem experiência, já trabalhou até em obras da Odebrecht na África e está fazendo um trabalho extraordinário.

O senhor também nomeou um bispo para o comando do serviço da Defesa do Consumidor. Ele é licenciado, assim como eu. O que eu disse na campanha é que não colocaria na prefeitura pastores na ativa, até porque eles estão ocupando púlpitos e não querem vir para cá.

A Igreja Universal não se beneficia de ter um bispo licenciado no comando da prefeitura? Posso garantir que a Igreja Universal não recebe nenhum favor do meu governo. Ao contrário: ela é que nos ajuda com doações de alimentos e em campanhas contra a dengue. Quando eu era pastor, servia ao povo da minha igreja. Agora, na política, minha missão é servir a todos. Quem sabe, vendo as minhas boas obras, o povo agradeça ao nosso Deus que está nos céus. Seria sublime se todos conhecessem esse Jesus que amo tanto.

Conquistar fiéis é uma missão sua na prefeitura? Se tenho a intenção de que um dia as pessoas conheçam a minha igreja e se encantem com ela, preciso tratá-las bem e fazer o melhor por elas. Mas não digo essas coisas para beneficiar a Universal, não. Minha fé não fere o princípio democrático.

O senhor costuma trocar ideias com o seu tio Edir Macedo sobre o trabalho na prefeitura? Gostaria muito, mas cada um tem a sua vida. Não nos falávamos havia dois anos, até que nos encontramos, dois meses atrás, em uma celebração da igreja.

Vocês brigaram? Como vou brigar com uma pessoa que admiro tanto? O bispo viaja muito e não fala por telefone.

Por que insistir em nomear o seu filho, Marcelinho Crivella, como o chefe da Casa Civil? Ele trabalhou comigo na campanha eleitoral e contribuiu com excelentes ideias. Estava morando muito bem nos Estados Unidos, não queria vir de jeito nenhum. Apelei dizendo que nunca havia lhe pedido nada, e ele cedeu. Achei que, nomeando-o, eu estaria mostrando ao Rio que estou dando o meu melhor à cidade.
Não há uma confusão ética aí? Consultei advogados e a procuradoria do município. Eles foram unânimes em dizer que a nomeação era legal. Mostrei meu filho a todos os ministros do Supremo Tribunal Federal que vão julgar a ação. A intenção do meu coração é a melhor de todas. Estou absolutamente tranquilo quanto a isso.

O senhor foi ministro de Lula e teve o apoio da família Bolsonaro no segundo turno da eleição do Rio de Janeiro. Apoiará algum dos dois em 2018? São candidatos expressivos, porém em campos muito radicais. Precisamos de forças conciliatórias para o imprevisível processo eleitoral de 2018. Meu partido, o PRB, aguarda o surgimento de uma liderança de centro que desperte a fé das pessoas. Está tudo muito indefinido ainda, mas acho que na hora certa o eleitor vai evitar os extremismos e optará pelo voto conservador.

Conservador também nos valores? Sim, sem dúvida. Os fundadores do Estado americano — Thomas Jefferson, George Washington, John Adams — eram homens de oração que, no entanto, jamais tentaram doutrinar. Propagaram princípios e valores cristãos altamente benéficos para a sociedade. Faço o mesmo: leio a Bíblia desde os 9 anos e não passo um dia sem citá-la. O problema não é misturar política e religião, mas sim Estado e Igreja.

O esfacelamento do PMDB fluminense abre caminho para uma possível candidatura sua ao governo do estado? Não caio nessa tentação de largar a prefeitura. Quanto ao PMDB, espero que essas pessoas possam ser reeducadas para que sirvam melhor a Deus pelo resto da vida. Perdi três eleições para campanhas multimilionárias peemedebistas. Eles riam das minhas. Eu concorria como um bandeirante de facão em punho abrindo trilhas na mata. Uma hora, venci.

Mas o senhor também foi citado na Lava-Jato por um funcionário de um doleiro que diz lhe ter pago propina de empresas de ônibus entre 2010 e 2012. Qual é sua defesa? Mentira nasce morta. Eu era ministro da Pesca na época. Por que empresas de ônibus me dariam propina? Para eu autorizar a pesca de passageiros?

O senhor garante então que nenhuma campanha sua teve caixa dois? Que eu saiba, não. Nunca fui tesoureiro da campanha. São acusações desse tipo que podem pôr tudo a perder na Lava-Jato. A operação é a derradeira tentativa de ideal democrático da nossa pátria. Juízes, delegados e procuradores não podem deixar de ser justos para se tornar justiceiros. Espero que o Fachin, que conheço de longa data, não se transforme em facão.

Logo depois da prisão do ex-governador Anthony Garotinho, o senhor disse que ele “pode ter feito bobagem, mas é honesto”. O que quis dizer exatamente? A magistratura tem sido sábia até agora, prendendo quem enriqueceu de maneira faustosa. Garotinho pode ter cometido exageros e deslizes em épocas eleitorais, mas acho que a punição mais pesada deve ser dada a quem pega o dinheiro para enriquecer. Ele é um pobre que acabou na prisão.
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Publicado em VEJA de 3 de janeiro de 2017, edição nº 2563
Reportagem por  Por Monica Weinberg, Thiago Prado access_time 29 dez 2017
Fonte:  https://veja.abril.com.br/revista-veja/cito-a-biblia-todo-dia/

A infância e a morte

Rita de Almeida*

A Infância e a Morte

 MENOS SILÊNCIO, MENOS TRAUMA - Crianças lidam melhor com o luto quando 
adultos se dispõem a falar da morte (iStock/Getty Images)

O que podemos fazer para ajudar nossos filhos a lidar com o luto

Todos sabemos que para falar a uma criança e ser verdadeiramente ouvido por ela é preciso ter clareza sobre o que sentimos e o que queremos transmitir. No caso do luto, nossa dificuldade para lidar com o assunto pode atrapalhar — e muito — a forma como uma criança que perdeu alguém querido vai reagir. A raiz do problema está na nossa cultura: os tabus relacionados à morte tornam ainda mais dura a vivência infantil do luto. Nossa tendência é preferir o silêncio para não enfrentar nossa própria dor nem vê-la refletida no outro.
No Ocidente, a morte ainda é tabu. Quase não falamos sobre isso e torcemos para que a criança não pergunte e não tenhamos de responder. O desconforto maior, na verdade, é do adulto. É parte da nossa cultura a dificuldade de falar sobre coisas tristes.
Uma proposta que poderia ajudar a quebrar o tabu é a da psicóloga americana Jessica Nutik Zitter. Ela acredita que deveríamos incluir os temas do luto e da morte no currículo escolar, tal qual fizemos com a educação sexual no último século. Jessica Zitter conduziu essa experiência em uma escola americana e obteve ótimos resultados. Mas, até uma iniciativa como essa ser aceita e tornar-se acessível a toda a sociedade, as crianças verão e sentirão os adultos lidando de forma problemática com o luto, o que aumentará ainda mais sua insegurança. Tendo perdido um dos pais, elas vivem situações traumáticas como o Dia dos Pais ou o Dia das Mães na escola. São ocasiões em que a exposição da ausência intensifica a dor. Sobre isso, vai a primeira provocação: não seria hora de as escolas eliminarem esses dias e passarem a adotar — se acharem importante — o Dia da Família? Isso poderia ajudar muito.

Seja em casa, seja na escola, o que realmente importa é que podemos iniciar um trabalho de acolhimento adequado à criança que vive o luto. Nosso site, Vamos Falar sobre o Luto, tem por missão levar informação e inspiração para tornar menos doloroso o processo de perda. A partir de entrevistas que fizemos e conversas que tivemos com enlutados, listamos aqui algumas questões que envolvem o luto infantil e ideias sobre como os adultos podem ajudar os pequenos nesse processo. 
• O luto é um assunto (também) para as crianças.

“Falar ajuda a criança a ficar mais aliviada e a administrar o sentimento de perda, além de endereçar a dor para o que realmente é. A criança precisa das respostas para restabelecer seu mundo interno, trabalhar com a ruptura, encontrar novos alicerces para conseguir se mover a partir daquele ponto”, diz a psicóloga Isabela Hispagnol. Se a criança se fecha ao assunto, é importante encontrar outras formas de trabalhá-lo, por meio de brincadeiras e histórias infantis ou mesmo da natureza (a vida das plantas e dos animais). Mesmo que não demonstre, essa história está dentro dela. Não precisamos dizer à criança que só morremos quando ficamos velhinhos. Mas, sim, que a gente espera que as pessoas morram bem velhinhas, só que, às vezes, por causa de acidentes ou de doenças muito graves, elas podem morrer antes. E reforçar que, para morrer, é preciso uma doença muito grave, e que a maioria delas pode ser curada com remédios.

• Estar preparado para responder às mesmas perguntas (das crianças) várias vezes.

Pacientemente, devemos responder à mesma pergunta quantas vezes for preciso. Diz a psicóloga Isabela: “Quando uma criança repete uma pergunta, não é porque não entendeu o esclarecimento, mas porque está reinterpretando o fato, já que sua base de conhecimento mudou”.

• Quanto mais claro e verdadeiro, melhor.

Optar por respostas que garantam a diminuição das contradições, das dúvidas e das ambiguidades é a recomendação dos especialistas. Deve ficar claro, em primeiro lugar, que aquela pessoa não volta mais, para não gerar uma expectativa irreal. Mas que se tornará presente, ao longo do tempo, por meio de outras formas que a criança vai conseguir acessar: na lembrança, no coração, nas músicas, nas brincadeiras e em tantas outras coisas.

• Ficar atento a necessidades e limites das crianças.

Uma alternativa é devolver a pergunta a ela. Indagar o que ela está sentindo. Assim, é possível saber até onde quer ir e não ultrapassar esse ponto. O importante é criar um espaço de conversa para que a criança possa administrar o sentimento que surgiu, mas sem trazer informações além do que ela consegue absorver naquela hora. E com a linguagem mais adequada ao seu momento e aos sentimentos. Vale a linguagem direta, a da brincadeira, a da leitura, a do teatro, a da terapia, a do amor. “Não omitir é vital, mas responder de forma simples, sem ultrapassar aquilo que a criança perguntou, também é. Deve-se ser verdadeiro e objetivo, respondendo às perguntas à medida que aparecerem, sem deixar lacunas nem perguntas sem resposta”, diz a psicóloga.

• Não esconder o próprio sentimento.

É claro que não vamos nos desesperar perto das crianças, mas é importante que elas tenham noção do sofrimento adulto e de que esse sofrimento nada tem a ver com elas, para que se sintam esclarecidas mas não culpadas ou angustiadas.

• Tornar o assunto algo natural. E, quando isso acontecer, teremos uma relação de dois lados, em que é possível que a criança e o adulto se ajudem e troquem dores, lembranças alegres e experiências de amor que envolvem o luto, porque essas são coisas que não costumam faltar.

Este é um texto que eu gostaria de ter lido quando minha família precisou pensar sobre isso: como poderíamos ajudar o Rodrigo, meu neto que hoje tem 6 anos, a entender, aceitar e lidar de um jeito saudável com a falta e a saudade de seu pai, meu filho Paulo, que partiu em 2012, aos 28 anos. Hoje me sinto aliviada. O Paulo é um assunto presente entre nós. Falamos sobre ele, sobre seu amor pelo Rodrigo, no que se parecem e no amor eterno que existe entre os dois. Isso ajuda o Rodrigo e ajuda a cada um de nós, adultos, a viver da mesma forma.

Os adultos podem proporcionar um caminho melhor às crianças que enfrentam o luto, para que possam construir uma experiência de vida em que a falta seja preenchida com amor e entendimento.
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* É publicitária e cofundadora do site Vamos Falar sobre o Luto
Publicado em VEJA de 3 de janeiro de 2017, edição nº 2563
Fonte:  https://veja.abril.com.br/revista-veja/a-infancia-e-a-morte/

Papa Francisco - De costas para a Cúria


Papa Francisco - Capela Sistina

Prestes a completar cinco anos de pontificado, Francisco enfrenta uma batalha na missão de arejar a Igreja — e os inimigos estão dentro do próprio Vaticano

Como faz todos os anos desde 2013, quando assumiu o Trono de Pedro depois da renúncia de Bento XVI, o papa Francisco reuniu os cardeais na sala Clementina do Palácio Apostólico do Vaticano para os votos de Natal. Aos amados “irmãos e irmãs” — estavam ali também funcionárias da Cúria —, fez um pronunciamento duro em favor das reformas na Igreja, obsessão deflagrada nos primeiros minutos de seu pontificado. Rindo, lembrou uma frase “simpática e significativa” do arcebispo belga Frédéric-François-Xavier de Mérode (1820-1874), conselheiro do papa Pio IX: “Fazer as reformas em Roma é como limpar a esfinge do Egito com uma escova de dentes”. Testemunhas disseram ter percebido sorrisos amarelos, olhares de esguelha, ao que Francisco prosseguiu na peroração, como se precisasse explicar o que acabara de resumir na tirada espirituosa.

Fez alusão à “lógica desequilibrada e degenerada de conluios ou de pequenos clubes que representam um câncer que leva à autorreferencialidade” e emendou com um comentário ainda mais ácido: “Permiti-me aqui uma palavra sobre outro perigo: os traidores da confiança ou os que se aproveitam da maternidade da Igreja, isto é, as pessoas que são cuidadosamente selecionadas para dar maior vigor ao corpo e à reforma, mas — não compreendendo a alçada da sua responsabilidade — deixam-se corromper pela ambição ou pela glória vã e, quando delicadamente são afastadas, autodeclaram-se falsamente mártires do sistema, do ‘papa desinformado’, da ‘velha guarda’, em vez de recitar o mea culpa”.
Os cardeais Raymond Burke (à esq.) e Robert Sarah
ARTILHARIA – Os cardeais Raymond Burke (à esq.) e Robert Sarah: questionamentos à atual 
linha progressista da Igreja (Andrew Medichini/AP)

A contundência, dois tons acima do usual, e pouco natalina, não foi inesperada. Ao contrário. Francisco enfrenta uma batalha — e seus maiores inimigos estão dentro do próprio Vaticano. Ele luta para arejar a Igreja Católica e atrair mais fiéis, mas o fogo amigo é só boicote. A guerra é fria, as armas são palavras, mas ferem como lança. Em entrevista ao jornal italiano Corriere della Sera, o vaticanista americano John Allen, reputado pelas informações dos bastidores e pela aguda clareza, afirmou: “Os papas costumam ser contestados pela esquerda da Igreja. Este, porém, é atacado pela direita, e isso faz a contestação adquirir grandes proporções”. O que significa ser alvejado pela direita, ou seja, pelos conservadores? Jorge Mario Bergoglio, o papa do fim do mundo, das favelas de Buenos Aires, do confronto com a ditadura militar argentina, tem um ideário muito nítido, traduzido em sua retórica, minuciosamente atrelada a temas delicados para o catolicismo.

Defendeu o acolhimento de homossexuais (“Se uma pessoa é gay, quem sou eu para julgá-la?”), de mães solteiras (“Essa mulher teve a coragem de continuar a gravidez”) e admitiu o divórcio (“Existem casos em que a separação é inevitável”). Fez muito mais, em sua toada modernizadora: desestimulou as missas em latim, destituiu prelados influentes sob a acusação de desvio de dinheiro, deu poder a laicos e condenou o clericalismo exacerbado. Mexeu num vespeiro milenar — ainda que não tenha sido o primeiro pontífice a fazê-lo, foi pioneiro em tempos de redes sociais, em que tudo corre muito mais rapidamente, inclusive a lentíssima movimentação da religião dos discípulos de Jesus.
MISERICÓRDIA – O papa deu sinais contraditórios ao velar o cardeal Bernard Law, acusado 
de encobrir casos de pedofilia (Max Rossi/Reuters)

Em nenhuma seara comportamental Francisco provocou mais ruído que na do divórcio, mais até do que com sua postura em relação à homossexualidade. Em um de seus recentes documentos, a exortação apostólica Amoris Laetitia (A Alegria do Amor), de 2016, texto com poder de disseminar caminhos para o clero, Francisco imprimiu uma nova visão sobre a relação da Igreja com os divorciados em segunda união. Na doutrina católica, quem se separa e se casa novamente comete adultério e, portanto, não pode receber o sacramento da comunhão nas missas. No pontificado de João Paulo II, a Igreja reconheceu o acesso aos sacramentos da confissão e da eucaristia aos divorciados recasados no caso de viverem sob o mesmo teto como irmão e irmã. Em Amoris Laetitia, Francisco foi além, ao afirmar que a separação pode se tornar moralmente necessária quando se trata de defender o cônjuge mais frágil ou os filhos pequenos. E mais: “Em certos casos, poderia haver também a ajuda dos sacramentos. Por isso, aos sacerdotes, lembro que o confessionário não deve ser uma câmara de tortura, mas o lugar da misericórdia do Senhor”.

A reação foi imediata, mercurial. Por meio de uma carta aberta, um grupo de cardeais, liderado pelo influente americano Raymond Burke, pediu explicações ao pontífice com uma justificativa sem meias palavras: “É nossa intenção ajudar o papa a prevenir divisões e contraposições na Igreja, pedindo-lhe que dissipe todas as ambiguidades”. Em entrevista ao site católico americano LifeSiteNews, Robert Sarah, cardeal africano que defende ritos ultraformais, como a celebração das missas com padres “na mesma direção dos fiéis”, de costas para a plateia, o que era comum nas tradicionais missas em latim, chegou a afirmar em outra ocasião que “a unidade da Igreja está sendo ameaçada”. Em manifestação ainda mais vigorosa, um grupo de quarenta padres e teólogos assinou um manifesto no qual acusa Francisco de heresia. O primeiro parágrafo é direto: “Santo Padre, com profunda aflição, mas movidos pela fidelidade ao Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo amor à Igreja e ao papado, e pela devoção filial a Sua Pessoa, vemo-nos obrigados a dirigir a Sua Santidade uma correção, devido à propagação de heresias produzida pela exortação apostólica Amoris Laetitia e de outras palavras, atos e omissões de Sua Santidade”.
Concílio Vaticano II
HERANÇA – Francisco segue os princípios defendidos pelo Concílio Vaticano II, marco 
na modernização da Igreja (David Lees/Corbis/Getty Images)

Heresia é uma rejeição ou mera dúvida de um dogma da fé divina e católica, praticada por uma pessoa batizada. É uma designação gravíssima para um papa. Inúmeros pontífices cometeram atos hereges explicitamente, como ensina a história, mas poucos foram chamados como tal. Em 1331, o papa João XXII recebeu a alcunha quando numa série de sermões ensinou que “as almas benditas, depois de terem terminado o seu designado tempo no purgatório, não veriam a Deus até após o juízo final”. Pelos princípios católicos, o purgatório não é um tribunal, mas um tempo de purificação. Confrontado por cardeais, João XXII retratou-se anos depois, um dia antes de sua morte.

Francisco não se pronunciou ante as acusações, e dificilmente o fará. O papa não quer mudar a orientação da Igreja em relação ao matrimônio. Nem poderia. Diz o Evangelho de São Mateus: “O homem deixa seu pai e sua mãe para se unir a sua mulher e os dois se tornam uma só pessoa. Assim, já não são duas pessoas, mas uma só. Portanto, que ninguém separe o que Deus uniu”. O pontífice, no entanto, pode atualizá-la sem desrespeitar os princípios católicos. Diz Juarez de Castro, pároco da Igreja da Assunção de Nossa Senhora, em São Paulo: “Francisco interpreta a doutrina com o olhar da compaixão. Não se trata de endossar o divórcio, mas de valorizar a misericórdia”.

Francisco, apesar de sua língua ferina, prefere sempre o perdão a qualquer gesto que soe a confronto — embora, ressalve-se, seja muito hábil ao esgrimir com palavras, como fez no discurso pré-natalino a seus pares. Sua postura é quase sempre misericordiosa, atributo precioso aos católicos. No entanto, não é raro que um gesto de compaixão provoque estranheza aos olhos dos leigos. Em 21 de dezembro, ele foi ao funeral do cardeal americano Bernard Law, acusado de encobrir um dos maiores escândalos de pedofilia da Igreja Católica, entre os anos de 1984 e 2002, caso contado no filme Spotlight, vencedor do Oscar em 2016. É praxe a participação de um papa nas exéquias de um cardeal — mas, ao homenagear protocolarmente Law, Francisco deflagrou a discussão: afinal, não seria sua obrigação condenar a pedofilia, a qual Bento XVI se viu sem forças de combater, o que o levou à renúncia? Bergoglio não teria sido feito papa justamente para enfrentar situações como essa — além de exercer o controle mais severo das finanças da Cúria e combater o exagerado centralismo? Estar ao lado do corpo estendido de Law pode ter sido um passo em falso, mas seria praticamente impossível evitá-lo. Os avanços na Igreja, quando ocorrem, são morosos, feitos de sístoles e diástoles.

Houve contrações, como sístoles, durante o pontificado de João Paulo II, de 1978 a 2005, e do breve Bento XVI, de 2005 a 2013. O papa polonês não priorizou a chamada colegialidade, o compartilhamento das decisões da Igreja com cardeais e bispos. Ele as centralizou em reação ao fortalecimento de movimentos católicos ligados a bispos locais, como a Teologia da Libertação. O papa alemão alimentou uma Igreja mais fechada em si mesma, concentrada no aparato administrativo, burocrático e político da Santa Sé — atalho para malfeitos. O papa argentino, em processo de diástole, tomou caminho diferente do de seus antecessores, com olhar para o momento histórico de reforma da Igreja, que ele parece querer reanimar. Esse momento foi o Concílio Vaticano II, a assembleia religiosa realizada na década de 60, marco na modernização litúrgica e doutrinal da Igreja. Iniciado por João XXIII (1958-1963) e concluído por Paulo VI (1963-1978), o concílio buscava uma Igreja mais simples, mais próxima do rebanho — uma Igreja, enfim, com a cara de Francisco. Popular, talvez populista. Ele dispensa, sempre que lhe é permitido, o vidro do papamóvel para ficar mais exposto. Diz o cardeal Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo: “O papa se comunica muito bem, e sua mensagem e exemplo alcançam multidões”. Os frutos são concretos: no levantamento do Escritório Central de Estatística do Vaticano realizado em 2016, o terceiro ano de pontificado de Francisco, o número de católicos no mundo — depois de décadas em estagnação ou queda — passou de 1,11 bilhão para 1,27 bilhão (há 172 milhões no Brasil).

Francisco age com a convicção de sua formação jesuítica. O cardeal argentino foi membro de uma corporação fundada pelo ex-soldado Santo Inácio de Loyola (1491-1556), que inseriu princípios militares em sua governança interna, cujo principal compromisso é associar o espírito missionário na propagação e defesa da fé católica à obediência e disciplina férrea. Diz o sociólogo Francisco Borba Ribeiro Neto, coordenador do Núcleo de Fé e Cultura da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-­SP): “Enquanto os dois papas antecessores tinham a preocupação de pôr ordem na casa, Francisco radicalizou a postura reformista”

Tudo somado, um personagem como Francisco parece peça de ficção, inventado para uma Igreja em maus bocados. Ele já foi ficção, curiosamente. Em 1979, quase um ano depois da eleição de João Paulo II, um livro intitulado The Vicar of Christ (O Vigário de Cristo), do jurista americano Walter F. Murphy, apresentava um improvável candidato ao Trono de Pedro chamado Declan Walsh. Ele havia sido um herói de guerra da Coreia. No romance, que ficou treze semanas na lista dos mais vendidos do The New York Times, o autor mostra a ascensão de Walsh como papa… Francisco. O pontífice, então, começa a fazer uso do ofício de forma extraordinária, lançando uma cruzada contra a fome, financiada pela venda de tesouros do Vaticano. Intervém em conflitos mundiais, a ponto de voar para Tel Aviv durante uma campanha de bombardeio árabe contra Israel. Estabelece planos para reverter gradualmente os ensinamentos da Igreja sobre a contracepção e o celibato clerical e manda cardeais conservadores para a vida monástica, quando flagrados em escancarada conspiração. Nada muito distante do que o papa Francisco faz hoje, não mesmo. E, no entanto, Bergoglio lida com a realidade, nada a seu redor é ficcional.

O papa passou dos 80 anos. Com dores no nervo ciático e problemas no joelho, locomove-se com dificuldade. Em entrevista no ano passado ao jornal espanhol El País, aventou a possibilidade de renunciar: “Quando sentir que não consigo mais, o grande mestre Bento já me ensinou como tenho de fazer”. À exceção dos eventos para fins de canonização (veja o quadro na pág. 57), reduziu o ritmo de viagens internacionais — foram apenas quatro em 2017, contra seis em 2016. Cuidadoso, por não querer que seu legado seja subtraído pela “lógica desequilibrada e degenerada de conluios ou de pequenos clubes”, desenhou o perfil da Igreja que sonha para o futuro. No atual quadro de cardeais eleitores em futuro conclave, quase a metade foi escolhida durante seu período em Roma. São líderes missionários com pulso forte, habituados a propagar e defender a fé católica em situações adversas. Assim como o papa Francisco, que não perde uma oportunidade de expor seu estilo.

Na homilia da tradicional Missa do Galo, na semana passada, o papa denunciou o drama dos refugiados e fez um chamado aos fiéis por caridade e hospitalidade. O pontífice lembrou que na noite em que os católicos celebram o nascimento de Jesus, segundo a Bíblia, Maria e José estavam em fuga devido a um decreto do rei Herodes. Eram refugiados, portanto. “Nos passos de José e Maria, escondem-se tantos outros passos. Vemos as pegadas de famílias inteiras que hoje são obrigadas a partir, a separar-se de seus entes queridos, expulsas de suas terras”, destacou Francisco, perante milhares de fiéis que lotaram a Basílica de São Pedro, no Vaticano. Francisco foi mais Francisco do que nunca: quase mundano, ao tratar de assunto de geopolítica internacional, agindo como chefe de Estado, incomodando os grupos da Cúria que desejam deixar tudo onde está e sempre esteve, porque a Igreja exige tradição. Para eles, Francisco terminaria seus dias de escova de dentes na mão, tentando inutilmente limpar a esfinge.

Quanto mais santos, melhor

Quanto mais santos, melhor
Em Massa –  Tapeçaria celebra os “mártires de Natal”: brasileiros na lista de canonização 
(Franco Origlia/Getty Images)

Quebras de protocolo, discursos fora do padrão e encrencas com conservadores são marcas do pontificado de Francisco, um papa especialmente empenhado em aproximar a Igreja Católica dos fiéis do século XXI. Em nome da reconquista do rebanho drenado pelas denominações evangélicas, Francisco está batendo um curioso recorde: em menos de cinco anos, é o maior fazedor de santos da história do catolicismo. São mais de 870 canonizações, uma média de mais de 200 novos santos por ano, superando de longe o papa João Paulo II, responsável por colocar 482 nos altares católicos. O tímido alemão Joseph Ratzinger, em oito anos, acrescentou 45.

É bem verdade que seu primeiro ato de santificação foi copioso: dois meses após se sentar no Trono de Pedro, Francisco canonizou de uma tacada só os 800 “mártires de Otranto”, moradores de um vilarejo italiano abatidos em 1480, em um ataque muçulmano.

Em outubro deste ano, engrossou consideravelmente a lista dos santos latinos ao elevar ao altar, de uma só vez, trinta brasileiros — um grupo de mártires que em 1645 foi dizimado por invasores holandeses no Rio Grande do Norte. Mesmo contando-se os santificados por número de processos, coletivos ou não, Francisco arrasa: finalizou 41 até agora, em menos de cinco anos, contra 105 de João Paulo II em 26 anos no trono. O volume não é a única peculiaridade das canonizações deste papa: muitos dos santos nasceram ou são venerados fora do celeiro habitual, a Europa. Além do Brasil, que só tinha um nativo — Santo Antônio de Sant’Ana Galvão, canonizado em 2007 —, ganharam santos neste pontificado o asiático Sri Lanka, o México e os EUA. “Francisco entendeu que a energia da Igreja já não vive em Roma. Vive nas Américas, na Ásia e na África”, disse a VEJA o historiador americano Christopher Bellitto, especialista em catolicismo contemporâneo.

A trilha das santificações descomplicadas foi aberta por outro papa preocupado com a perda de fiéis, João Paulo II — por sinal, santificado por Francisco, em um dos processos mais rápidos da história. Durante seu pontificado, as beatificações, etapa anterior à canonização, passaram a tramitar e ser celebradas localmente, bastando que na cerimônia estivesse presente o prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, e não mais o pontífice em pessoa. Ocupante da prefeitura durante o papado de João Paulo II, o cardeal português José Saraiva Martins, em entrevista a VEJA, chamou a mudança de uma “pequena revolução”. “A beatificação tem uma dimensão decisiva para as igrejas locais. É uma forma de permitir que a população homenageie seus heróis”, explicou o cardeal.

Com Francisco, as canonizações foram ainda mais facilitadas. Neste ano, às formas convencionais para chegar a santo — martírio ou vida virtuosa comprovada por ao menos dois milagres —, Francisco acrescentou a categoria oblatio vitae, do latim “oferecer a vida”. Nela se encaixam aqueles que morreram por outra pessoa — caso do padre polonês Maximilian Kolbe, que se sacrificou no campo de concentração de Auschwitz para salvar um judeu. A nova regra abre brecha para uma possibilidade antes impensável: a canonização de santos não católicos. Para Bellitto, trata-se de um futuro possível, até provável, mas distante. “Embora a Igreja ensine há mais de cinquenta anos que a salvação não se restringe ao catolicismo, não acredito nesse efeito a curto prazo”, diz. Mais uma tarefa para o irrefreável Francisco.
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Reportagem por Maria Clara Vieira
Publicado em VEJA de 3 de janeiro de 2017, edição nº 2563
Fonte:  https://veja.abril.com.br/revista-veja/de-costas-para-a-curia/

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018


Em Paris, estudantes ocuparam as faculdades e trabalhadores pararam as fábricas, protestando contra o capitalismo. Nos EUA, milhares se revoltaram contra o assassinato de Martin Luther King Jr. e contra a Guerra do Vietnã. No Brasil, o assassinato do estudante Edson Luís carregou multidões para as ruas, contra a ditadura. 

Cinquenta anos depois, o legado de 68 está vivo e forte: nunca o movimento feminista, o gay, o negro e o ecológico foram tão atuantes. Ao mesmo tempo, nunca o movimento conservador foi tão "despudorado". 

Esse é o balanço que o escritor Zuenir Ventura, autor do best-seller "1968, O Ano que Não Terminou", faz daquele ano revolucionário e seu espólio. "Tivemos muitos avanços, principalmente na luta pelos direitos das mulheres, dos negros, dos gays; mas estamos vivendo um momento em que o conservadorismo perdeu a vergonha", diz Ventura. 

Lançado em 1988, o livro teve mais de 400 mil exemplares vendidos. Neste ano, será relançado pela editora Objetiva, com novo prefácio. Segundo Ventura, o interesse pelo mítico 1968 persiste porque o ano "não acaba de não acabar".
*
Folha - Por que o interesse por 1968 persiste?
Zuenir Ventura - Há 50 anos, esse ano não acaba de não acabar. O [filósofo francês] Edgar Morin, que acompanhou o movimento na França e no Brasil, dizia que vamos precisar de muitos e muitos anos para entender o que aconteceu. E 50 anos, na História, não são nada. Até hoje estamos discutindo o que aconteceu. Foi um ano mítico. O maior mistério é que houve uma insurreição de jovens planetária, numa época em que não existia internet, a TV não tinha esse alcance de hoje. Jovens dos países comunistas, democráticos, autoritários, França, EUA, México, Japão, em um determinado momento, sem as conexões que existem hoje, ficaram com o mesmo corte de cabelo, ouvindo as mesmas músicas, pensando da mesma maneira, agindo do mesmo jeito. O maio francês é dado como o grande símbolo, mas aqui no Brasil as coisas começaram antes, a morte do estudante Edson Luís no [restaurante] Calabouço foi em março [por policiais militares]. 

E o senhor estava lá...
Eu trabalhava ali do lado, na revista "Visão". Ziraldo e eu corremos até lá, e os estudantes estavam carregando o corpo do Edson. Mais tarde, isso me causou o maior problema, porque o coronel que me interrogou quando eu fui preso dizia: "O senhor estava no Calabouço, vi fotografias do senhor lá, e em maio o senhor estava em Paris...não é muita coincidência, não?" Eu dizia a ele: pois é, é muita coincidência, e era mesmo, por acaso eu estava de férias em Paris em maio. Mas, pela paranoia da época, ele achava que eu era o chamado olho de Moscou, que nada na imprensa acontecia sem passar por mim, eu era o cara do PC. Eu não mandava porra nenhuma. Eu só fui entender isso quando tive acesso à minha ficha no Dops. Ah bom, se eu era tudo isso, eles tinham mesmo razão de me prender... 

Como foi a sua prisão?
Eu fui preso logo depois do AI-5 [13 de dezembro de 1968], e fiquei três meses. Eu fui levado às 9h, disseram que era só para prestar esclarecimentos, e que eu voltaria logo... Às 16h, eu não tinha voltado, minha mulher foi lá para saber o que tinha acontecido, e foi presa... Meu irmão foi lá depois, ele não tinha nada a ver com nada, e o prenderam também. Tinha um inspetor horroroso, eu disse a ele que minha filha pequena estava com coqueluche e sozinha em casa, ele dizia: isso é problema seu, não é problema meu.

Não fui torturado, só ameaçado e interrogado por horas. Eu não liderava nada, era jornalista e professor na faculdade de jornalismo, numa época em que os alunos é que lideravam os professores. 

Como conseguiu ser solto?
O [escritor] Nelson Rodrigues me soltou, você acredita? Eu estava preso na mesma cela que o [psicanalista e porta-voz dos protestos] Hélio Pellegrino. Eles eram amigos, mas o Nelson era aquela coisa hiperbólica, escrevia sempre sobre o poder da voz do Hélio [Rodrigues o chamava de homem-comício]. Quando o Hélio foi preso, o Nelson, sentindo-se culpado, ia todo dia lá. Eu tinha muita raiva dele, ele era reacionário e gozava todo mundo, falava dos padres de passeata, das grã-finas, era engraçado, mas a gente não via graça nenhuma. Nas primeiras vezes em que ele foi lá na prisão, eu virei as costas. Disse ao Hélio: com esse cara não quero conversa. Aos poucos começamos a falar. Bom, para resumir a história, Nelson era amigo dos generais e soltou o Hélio. E o Hélio disse: só saio se o Zuenir sair. O Nelson falou para o Hélio: mas e se essa doce figura sair daí e puser uma bomba no quartel? 

Qual é o legado de 68?
Era uma geração carregada de ambições e sonhos, o que ficou disso, dessa aventura deles? Ficaram pelo menos quatro movimentos importantes, que ou nasceram ou se solidificaram em 68 -movimento feminista, gay, negro e ecológico. Esses movimentos estão mais atuantes do que nunca. 

Recentemente tivemos campanhas para fechar exposições de arte que tinham obras de cunho sexual, e o movimento Escola Sem Partido, que queria restringir a abordagem do gênero. Estamos vivendo uma onda conservadora?
Sim. E o pior é que isso é atribuído ao avanço que começou em 1968. Em 68, a ambição era fazer uma revolução política, mas o que houve foi uma revolução de comportamento, cultural. Éramos contra o autoritarismo nas relações de casal, na escola, no trabalho. Agora, as pessoas dizem que a liberalização foi longe demais. É aquele pessoal que diz: não tenho preconceito contra gays, tenho amigos gays, mas casamento, aí já é demais... 

Essa onda conservadora -o candidato Jair Bolsonaro tem a maior intenção de votos entre os eleitores mais ricos e mais escolarizado- é maior do que anteriores?
É um processo, sempre haverá reações conservadoras ou reacionárias. Tivemos muitos avanços, principalmente na luta pelos direitos das mulheres, dos negros, dos gays; mas estamos vivendo um momento em que o conservadorismo perdeu a vergonha. No Brasil, ninguém se dizia de direita, porque tinha vergonha de ser direita. Agora vivemos a época em que o conservadorismo está mais visível, nunca o conservadorismo foi tão despudorado. Acabar com o comunismo no Brasil foi fácil, o problema hoje é acabar com o anticomunismo.

Temos militância anticomunista como se o comunismo não tivesse acabado há muito tempo. O Oscar Niemeyer foi o último comunista. E tem gente hoje que quer voltar para ditadura ou diz que não era tão ruim. Eu já participei de muita palestra que um aluno cabeludo pega o microfone e diz 'Isso existe hoje, existe censura, violência... qual a diferença?' E eu digo: a diferença é que, se você dissesse tudo isso que está dizendo em 68, você saía daqui preso. E você vai sair daqui andando. Na direita, é paradoxal ter algumas pessoas que defendem a época autoritária. Defendem um sistema que não permitia fazer isso que eles estão fazendo -o contraditório, a divergência. 

Clóvis Rossi outro dia fez uma coluna sobre uma pesquisa do Pew Research mostrando que, para 49% dos brasileiros pesquisados, o país estava melhor no final dos anos 60. O senhor acha que era melhor?
Não era, mas podia parecer, porque a imprensa era absolutamente censurada, não tinha as palavras tortura e morte em lugar nenhum. Quem lia jornais e assistia à TV não sabia de nada disso. Essas pessoas que acham que era melhor não viveram isso, e é muito difícil transmitir aquele medo permanente. Você ia entrevistar um militar ou autoridade, ele achava que você tinha exagerado nas perguntas, então dizia: 'Deixa sua carteira de identidade aqui'. O repórter ficava em pânico, era uma forma de ameaçar. Só depois que saía a matéria, que viam o que você tinha escrito, devolviam a identidade. Essa nostalgia de alguns grupos em relação à ditadura me choca. 

No seu livro "1968, O Que Fizemos de Nós", publicado em 2008, o senhor dizia que ainda havia "meia oitos" em todos os lugares, e citava José Dirceu e outros. Hoje, José Dirceu está condenado, e não é por subversão, é por corrupção. O que aconteceu?
Também idealizamos a herança de 68, como se fossem só personagens bons. Teve do bom e do pior. Teve gente como Vladimir Palmeira, um dos líderes do movimento, foi do PT, rompeu com o partido por divergências morais. E teve gente condenada, como Zé Dirceu. À distância, temos a impressão de que havia uma geração unanimemente honesta, mas existem desvios. Ainda temos conosco a paixão pela coisa pública que movia muitos em 1968. Isso existe ainda, só não está no poder. 

*
Nascimento
Além Paraíba (MG), em 1931 
 
Trajetória
Formado em letras neolatinas, é jornalista desde 1954. Trabalhou nas revistas "Visão" e "Veja" e no "Jornal do Brasil". Foi também professor na UFRJ e Uerj. Hoje é colunista de "O Globo" 

Obras
"1968, O Ano que Não Terminou", "1968, O que Fizemos de Nós", "Cidade Partida" e "Chico Mendes: Crime e Castigo" 
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REPORTAGEM POR  PATRÍCIA CAMPOS MELLO - ENVIADA ESPECIAL AO RIO 
Imagem :  Adriano Vizoni - 4.jul.2012/Folhapress
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/01/1947246-nunca-o-conservadorismo-foi-tao-visivel-e-despudorado.shtml

Quem ainda crê que ser ateu implica querer comer criancinhas?

Luiz Felipe Pondé*


Ricardo Cammarota

O tema do ateísmo me interessa pouco. Tampouco me interessam as entediantes "provas" da existência de Deus. Grande parte dos ateus que conheço é chata e sofre de dois dos seguintes sintomas: 

O primeiro é a raiva de Deus. Evidentemente, trata-se de "daddy issues" (problemas com papai). A fúria com a qual alguns ateus se movem trai seu ressentimento escondido. 

O segundo é a tentativa, risível, de atestar que, apesar de ateus, são bons cidadãos. Se o primeiro sintoma revela um traço de insegurança, este aqui trai seu ridículo. 

Quem ainda crê, pelo amor de Deus, que ser ateu implica querer comer criancinhas? 

Sei. Você me dirá que existem pessoas que, sim, pensam que ateus "matam mais". Você tem razão em dizer isso, mas quem pensa assim é tão risível quanto um ateu que quer provar seu compromisso com "um mundo melhor". 

Ateus assim, quando possuem mais repertório, além de sua referência "discovery", buscam o filósofo alemão Immanuel Kant (1724 - 1804) como lastro: o bem é racional, não religioso. Logo, posso ser ateu e ser ético.

Verdade evidente, mas só quem tem uma percepção infantil do comportamento humano se esconde atrás de um enunciado filosófico como garantia de sua própria sanidade. 

O ateísmo é a forma mais simples de filosofia. Ainda mais quando se afirma que "Deus é amor". O mundo é mau, logo, se "Deus é amor", ele não existe. Esse argumento em filosofia é conhecido como "argumento a partir do mal" contra a existência de Deus. A fé é infinitamente mais complexa do que a descrença. Dizer que religião é uma bengala é coisa de iniciantes em matéria de religião. 

Mas é possível ser ateu e ter espiritualidade? Sei. Você dirá que evidentemente sim porque ateus podem ser pessoas "legais". Pessoais "legais" não merecem confiança, direi eu em resposta a você. Isso se você supuser que pessoas "espiritualizadas" são pessoas legais. Eu não tenho tanta certeza, principalmente agora que você pode ser "espiritualizado" graças ao Face. 

Independentemente dessas questões risíveis, creio, sim, ser possível um ateu ter vida espiritual, claro, se você não associar "vida espiritual" a vida religiosa institucional. 

A questão que normalmente soa estranha é que a espiritualidade parece nos levar diretamente a Deus ou similares. Mas isso não é, necessariamente, uma verdade evidente. 

O darwinista Edward O. Wilson, no seu livro "The Meaning of Human Existence" (o significado da existência humana), da editora W. W. Norton & Company, de 2014, defende que existe, sim, uma espiritualidade ateia e esta está intimamente associada à indagação acerca do significado último da existência humana. 

A indagação está presente, principalmente, em momentos em que o significado parece desaparecer, como no momento de grandes perdas na vida. Não é à toa que a sociologia da religião mostra que conversões espirituais ocorrem, majoritariamente, em momentos de grandes perdas na vida. 

O fato é que a espiritualidade, em geral, lida diretamente com indagações como essa. As religiões respondem a questões como essa, costumeiramente, oferecendo práticas (leituras, rituais, liturgias e narrativas cosmológicas) que respondem à indagação acerca do sentido da vida e do sofrimento. A espiritualidade estaria ligada a questões de sentido da existência, mas não, necessariamente, dependentes de crenças em divindades. 

Para Wilson, quando um ateu se indaga acerca do sentido último da existência, ele está pensando em nossa condição humana num cenário de solidão cósmica (não é à toa que tanta gente busca em ETs um "resto" religioso qualquer) e contingência absoluta. 

Não há um sentido último da existência humana a não ser enfrentar essa contingência absoluta a partir dos meios (frágeis, sim) de que dispomos para enfrentar um universo que nos devora a cada minuto. Esse sentido passa pela busca de compreender (cientificamente) este universo e lidar com ele. 

O darwinismo nos ensina que a existência é uma batalha sem fim cujo sucesso não é garantido. O darwinismo carrega em si uma cosmologia trágica. Enfim, arrancamos o sentido das pedras. 
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*  Filósofo, escritor e ensaísta, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, discute temas como comportamento, religião, ciência.
p(tagline). @lf_ponde
Fonte:  http://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2018/01/1947264-quem-ainda-cre-que-ser-ateu-implica-querer-comer-criancinhas.shtml