terça-feira, 17 de abril de 2018

José Tolentino Mendonça: "Deus é um problema também para os crentes"

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17 Abril 2018

Vivemos numa sociedade de satisfação permanente, diz Tolentino Mendonça. Por isso, precisamos de reaprender a ter sede. O novo livro que reúne os textos das meditações feitas perante o Papa e a Cúria Romana foi anteontem posto à venda. A propósito dele, o autor de A Noite Abre os Meus Olhos diz que a espiritualidade não se pode “confundir com um conjunto de abstracções”. Crer não é “ter as soluções”, mas é “habitar o caminho, habitar a tensão, viver dentro da procura”. Por isso, Deus é um problema também para os crentes. Um Deus que, na configuração cristã, é sobretudo um Deus frágil.

A entrevista é de António Marujo, publicada por Público, 15-04-2018.

O Elogio da Sede foi o tema que o padre José Tolentino Mendonça propôs ao Papa Francisco, quando este o convidou a orientar os exercícios espirituais da Quaresma para os responsáveis da Cúria Romana – a primeira vez de um padre português. Com o mesmo título, foi anteontem posto à venda o livro (ed. Quetzal) que reúne os textos das meditações que o também poeta e exegeta bíblico propôs ao Papa e aos seus mais diretos colaboradores.

No tempo litúrgico que antecede e prepara a Páscoa, os cristãos são chamados a repensar a sua vida à luz da fé que professam. Esse desafio pode assumir a forma de um encontro de reflexão ou meditação, muitas vezes chamado de “exercícios espirituais”, adotando a expressão cunhada por Inácio de Loyola, fundador dos jesuítas. “Um exercício espiritual é, sobretudo, um momento de encontro, uma viagem ao interior de si, uma abertura ao que pode ser a voz de Deus, um balanço da própria vida”, explicaria Tolentino Mendonça, nesta entrevista.

Foi isso que, durante cinco dias, entre 18 e 23 de Fevereiro, aconteceu em Ariccia, perto de Roma: duas meditações diárias, e o resto do tempo em silêncio, para cada pessoa se confrontar com a reflexão proposta. “O silêncio com que vivemos este retiro podia interpretar-se como uma sede”, acrescentava o padre português.

No livro A Nuvem do Não-Saber, de final do século XIV – que muitos historiadores da matéria consideram “um dos mais belos textos místicos de todos os tempos”, como recordava José Mattoso na edição portuguesa (ed. Assírio & Alvim) –, o autor anônimo escreve: “[À] pergunta: ‘Que buscas? Que desejas?’, responde que era a Deus que desejavas ter: ‘É só a Ele que eu cobiço, é só a Ele que busco e nada mais senão Ele’. E se te perguntar quem é esse Deus, responde que é o Deus que te criou e redimiu, e por sua graça te chamou ao seu amor. Insiste que acerca d’Ele tu nada sabes.”

Foi sobre essa busca e sobre tatear na procura de Deus que, nas suas dez meditações, Tolentino Mendonça se debruçou, mesclando a investigação dos textos bíblicos com as inspirações literárias e artísticas que marcam também a sua obra poética e ensaística. E é essa intersecção permanente que transparece no seu livro. Que tem um único risco: o de se tornar, também ele, uma das grandes obras da mística. A par de obras como A Imitação de Cristo ou o já citado A Nuvem do Não-Saber. Ou a par de nomes como Hildegarda de Bingen, Juliana de Norwich, São João da Cruz, Teresa d’Ávila, Etty Hillesum, Dietrich Bonhoeffer, o irmão Roger de Taizé...

Eis a entrevista.

Comecemos por uma pergunta impressiva: o que se sente ao estar diante do Papa, convidado por ele, a orientar um retiro quaresmal?
Sentem-se três coisas. A primeira é uma grande humildade, porque toda a palavra que dissermos é atravessada pela densidade daquela vida, do que ele representa – e poucas vezes na minha vida me senti tão pequeno. Depois, um grande sentido de serviço e responsabilidade: estava ali porque ele me convidou. E por fim, por estranho que pareça, uma grande simplicidade e naturalidade: eu era um padre a prestar serviço a outros padres e era mais um a fazer o que qualquer um pode fazer. Sentia-me a fazer coisas muito normais.

E também a fazer o caminho que interessa ao Papa: como ele escreve no prefácio, as meditações que propôs cruzam o estudo da Bíblia com referências literárias, poéticas, a atualidade e o quotidiano. Há um apelo a uma reflexão que seja também o que o Papa propõe?
Claramente. Quando ele me convidou, disse-me duas coisas: que me sentisse muito livre e que fosse eu próprio. E que só ajudaria com estas duas condições. Aceitei isso com grande verdade, no sentido de que a minha experiência de vida aparece muito refletida, tal como as minhas leituras ou o que me parecem ser os caminhos do presente e do futuro da Igreja...

Isso é feito num grande diálogo com o magistério do Papa Francisco e o que ele representa, com o impulso reformista que ele introduz a este tempo do catolicismo.

Estes cruzamentos dão-me a medida do concreto. A teologia não pode ser uma ideologia nem a espiritualidade se pode confundir com um conjunto de abstrações. Qual é o contributo da literatura? É trazer uma “concretude” muito grande, é trazer histórias de vida, modelos do vivido, do pessoal, do individual para uma reflexão de conjunto. Nesse sentido, é um papel muito grande, porque é uma espécie de zoom sobre a realidade. É muito envolvente sentirmo-nos dentro de uma história.
A grande vantagem de utilizar o texto bíblico e a tradição espiritual cristã, mas também a antropologia, o cinema, a literatura, a pintura e as artes em geral é permitir uma tradução existencial da mensagem cristã.

E isso é necessário?
Sim. Quando se propõem exercícios espirituais, claramente não é para ensinar doutrina às pessoas. Aquelas pessoas é que me poderiam ensinar doutrina. Por isso é que essa chamada ao real e ao concreto me parecem traços indispensáveis.

O seu livro anterior, O Pequeno Caminho das Grandes Perguntas, acaba a falar de ampliar o espanto como legado daqueles que se amam. Estas meditações começam com o tema “aprendizes do espanto”. Que espanto ou espantos se devem aprender?
O grande perigo, numa viagem interior, é habituarmo-nos à nossa própria vida e a rotina acabar por dominar. É um fazer por fazer, os acontecimentos são mecânicos. Na vida dos padres, por exemplo, há um retiro anual, que o próprio calendário impõe. E, a dada altura, é como se um piloto automático estivesse a comandar a nossa vida e já não fôssemos nós próprios.

O espanto é poder abrir os olhos, poder dar-se conta do que somos, do que está perto de nós, do que está longe. É ganhar um olhar crítico sobre a nossa própria realidade, perceber que muitos gestos, à custa de os repetirmos, se tornam tiques e manias, e se esvaziam da autenticidade fundamental. Por isso, a primeira palavra do retiro é esse “espanta-me”, mais uma vez. Como se pudéssemos ganhar um olhar novo, um primeiro olhar sobre a nossa própria existência. É essa frescura que permite a infiltração do espírito nas nossas vidas.

... E que leva ao tema da sede. Num outro livro anterior, A Mística do Instante, já escrevia que bebemos de muitas fontes mas a sede volta sempre. A que sedes o cristianismo deve hoje dar resposta?
Escolhi o tema da sede porque ele me parece indicar um patrimonio fundamental do crer. Crer não é satisfazer-se, não é ter as soluções nem ter encontrado as respostas. Crer é habitar o caminho, habitar a tensão, viver dentro da procura. Nesse sentido, mais do que estar saciados de Deus, os crentes aprendem os benefícios da sede, a importância de viverem no desejo de Deus, na espera de Deus. Um crente não possui Deus, não o domestica com os seus rituais e as suas crenças. Ele vive na expectativa de Deus e da sua revelação que, em grande medida, é sempre surpreendente, é sempre inédita. Por isso, a sede é um lugar necessário no itinerário cristão, que precisamos de revisitar.
A dada altura, falo da necessidade de revalorizarmos mais uma espiritualidade da sede. E percebermos que, mais do que estar a produzir respostas para perguntas que não escutamos dentro de nós e dentro dos outros, o importante é perceber a sede como uma palavra que Deus nos diz. Deus coloca-nos numa situação, em ato, em experiência, mais do que numa montra ou pódio onde a vida já aparece concluída e rematada. O tempo da Igreja, o tempo da crença, é um tempo de inacabamento, de construção, é um estar a caminho, é um fazer-se. A sede desempenha, aí, um papel fundamental. E aí pergunto: qual é a primeira sede?...

Qual é a primeira sede?...
A primeira sede é a sede da sede, viver não na administração das nossas certezas, mas numa espécie de fronteira, numa espécie de limiar, que faz do ato de crer ou do ato de rezar uma forma de atenção: de atenção a nós próprios, de atenção à vizinhança de Deus, de atenção aos outros, à história...
No final do retiro, o Papa disse-me: “Uma das coisas que achei importante foi dizer que Deus tem sede das nossas sedes.” Esse é um bom resumo da proposta que fiz.

Um dos aspectos da atenção aos outros passa por uma das faces da sede espiritual: a solidão. A dado passo, cita uma história intensa do escritor uruguaio Eduardo Galeano, que acaba com a criança hospitalizada a pedir ao médico “diga a alguém que estou aqui”. A companhia e o abraço do outro são necessidades maiores?
São necessidades maiores, também para o clero e para a Igreja, que foram os primeiros destinatários desta palavra. É muito fácil, em todas as condições de vida, experimentarmos a radical solidão do existir e não encontrarmos interlocutores para as grandes questões, para as grandes sedes que trazemos no coração. Essa solidão torna-se uma espécie de peso, de custo existencial, com o qual nos conformamos: vivemos como podemos viver.

São necessários momentos de revitalização na nossa vida, de questionamento mais profundo, de pausa, como os exercícios espirituais podem ser. Momentos que nos ajudem a romper com o conformismo e a ouvir a solidão profunda que temos dentro de nós. Não escutaremos a voz de Deus se não escutarmos também a voz dessa ferida, desse peso de solidão que muitas vezes nos esmaga, que muitas vezes condiciona a nossa esperança, condiciona a nossa alegria e que é preciso olhar de frente e desconstruir.

Fala da relação como um alimento invisível, que passa pela hospitalidade, pela palavra, pelo cuidado e afecto com os outros. Mas, hoje, chamamos amizade a relações com desconhecidos. Como trabalhar a relação, tendo em conta esta realidade?
A grande ideologia dominante, hoje, é o consumo. Já não é tanto uma ideologia política, mas uma transversalidade que faz de nós consumidores de alguma coisa e continuamente estimulados a isso. Qual é o problema da sociedade de consumo? É que ela não suporta a sede, não suporta o desejo. Todos os desejos são para ser realizados no mais imediato possível. A satisfação dos nossos desejos é colocada como uma promessa fantasma ao alcance da mão.

Qual é o problema? É que já não há espaço para grandes sedes, para grandes desejos, porque vivemos numa sociedade de satisfação permanente. E de uma satisfação enganadora porque, verdadeiramente, um desejo que se possa satisfazer de um momento para o outro não é um verdadeiro desejo humano. Por isso, cada vez mais sentimos que não há espaço para que a vida alimente grandes sonhos, grandes paixões, grandes viagens, grandes utopias, grandes generosidades...

Ficamos presos ao imediato...
Isso faz de nós pessoas mais desencontradas consigo mesmas. Esta sociedade da satisfação imediata deixa-nos muito insatisfeitos porque vivemos num mecanismo de viciamento e impulso, e não vivemos por ter alimentado, dentro de nós, de forma paciente, longa, discernida, demorada, um grande desejo, uma verdadeira vontade, um sopro de liberdade, de criatividade. Mas vivemos neste condicionamento.

Isto reflete-se em todas as dimensões da nossa vida: é assim com as necessidades elementares da vida e é assim com as nossas relações uns com os outros, que acabam por ser, também, de consumo. Acabamos por nos consumir uns aos outros e não há um verdadeiro encontro, uma verdadeira espera, uma hospitalidade autêntica do outro. Diminuímos a nossa capacidade de esperar uns pelos outros: ou é no imediato ou já não funciona. E essa aceleração antropológica – que as tecnologias, os emails, os telefones têm acentuado – seca-nos por dentro e desumaniza-nos. Uma sociedade de consumo é, fundamentalmente, uma sociedade desumanizada.

Este tema traz à memória muitas referências bíblicas: o rio que regava o jardim do Éden, o poço de Jacob, o veado que suspira pela torrente das águas, nos Salmos, o encontro de Jesus com a samaritana, a última frase do Apocalipse...

A Bíblia é um manual da sede. Podemos ver a Bíblia inteira a partir dessa dinâmica da sede e da água, mas de uma água que se acorda dentro da própria sede. “Aos sedentos, eu darei a beber a água viva”, diz Jesus – que é, no fundo, a água do espírito. Quando Jesus diz “tenho sede”, a seguir entrega o espírito.

Isso é alguma coisa que acontece na dinâmica da nossa sede: a nossa sede tem muito a ensinar-nos. Precisamos de confiar mais na nossa sede e na sede do mundo. A Igreja tem de confiar mais na sede do mundo e perceber que essa sede, que está no coração do homem, é aliada de uma procura espiritual mais autêntica, mais radical.

Cita o profeta Jeremias, que diz que o povo cometeu um duplo crime: afastou-se de Deus, “nascente de águas vivas”, e construiu cisternas rotas, que não retêm as águas. Há um discurso cristão que identifica a secularização com o afastamento de Deus. Esta leitura é correcta ou reflecte as muitas sedes das pessoas?
No caso do profeta Jeremias, ele fala dos equívocos e das ambiguidades que fazem parte do caminho. Falar da sede não é um discurso puro nem linear. É um discurso onde está o confuso que também nos habita, o confuso do mundo que é preciso iluminar e purificar. Para mim, é claro que temos de olhar para a secularização e as culturas contemporâneas não como uma barreira para o anúncio de Deus, mas identificando, no coração do homem, aquilo que é o aliado de um discurso de fé, de confiança, de misericórdia. Isso passa por sintonizar com a sede que existe dentro do coração humano. Porque a grande questão é antropológica, existencial. No fundo, trata-se de saber como tornar o discurso de Deus relevante para as nossas sociedades, em grande medida indiferentes, que se consomem nesta espécie de mercantilismo global que nos domina. Ou de como acordar a vida, como acordar um desejo de absoluto, como acordar uma sede de mais, uma sede de santidade, como diz o Papa na exortação apostólica Gaudete et exsultate que acaba de publicar.

E como se faz isso?
Valorizando a sede. A sede não é um tópico apenas religioso, a sede interessa a toda a gente. Não somos pessoas se não olharmos com atenção para a nossa sede e não a estimarmos ou potenciarmos. O que nos abre horizontes é a nossa sede, não são as certezas provisórias que vamos encontrando.
É o que diz Saint-Éxupery na epígrafe que coloca no livro: “Se quiseres construir um navio”, detém-te primeiro a acordar nos operários “o desejo do mar distante e sem fim”?
No princípio está o desejo. É esse desejo e essa sede que são o motor de um caminho. Se quisermos conhecer uma pessoa, devemos perguntar que sedes é que ela transporta, que sedes nós permitimos que nos habitem. São essas sedes – que não podem ser a sede de poder, a sede do ter, do dominar, do consumir, da violência, mas a sede de justiça, de solidariedade, de bem, de beleza – que são capazes de nos avizinhar do sentido, da verdade da própria existência. Ignorar a nossa sede é desconhecer-se a si próprio, é ser um estrangeiro da sua própria vida.

Essa reflexão sobre o desejo, que vem desde um dos seus primeiros ensaios bíblicos, As Estratégias do Desejo é surpreendente, na relação com o tema da sede. Quando cita nomes como Emily Dickinson, a dizer que “a água é-nos ensinada pela sede”, ou S. João da Cruz e outros místicos, damo-nos conta de que o desejo não se opõe à razão e ao conhecimento. Pelo contrário, confunde-se com eles...
É bonito ver que o primeiro ato de Deus é o da criação. E da criação individual, de cada um: da criação daquele Adão e da criação daquela Eva e das outras criaturas. Nós não somos cópias uns dos outros, não somos simplesmente uma repetição, uma massa, uma multidão indiferenciada. Pelo contrário: cada um de nós é único, em cada um de nós há uma revelação de Deus que é singular, cada um de nós é uma estação do mundo, é um primeiro dia da história.

Por isso é tão importante começar por aí. Para mim, a experiência da fé é comunitária, mas potencia a pessoa, o acordar de cada um, o caminho que cada um pode fazer. Nesse sentido, é fundamental perguntar a cada um: qual é o teu desejo? O que transportas dentro de ti? O que procuras? Porque, na maior parte das vezes, não nos é concedida essa possibilidade de expressão e desabituamo-nos tanto dela que, quando nos fazem essa pergunta, nós estremecemos.

Tenho uma história curiosa com a Maria Gabriela Llansol. Ela leu um texto meu, telefonou-me e marcou um encontro em Sintra. Apanhei o comboio, ela foi esperar-me à estação. Quando saltei do comboio, cumprimentamo-nos e começamos a caminhar. Fez-se um silêncio e ela perguntou-me: “Tolentino, o que é que procuras?” Fiquei num embaraço enorme, porque não esperava aquela pergunta, não vinha preparado para ela. Aquele embaraço deu-me muito que pensar depois e ainda me lembro dele porque é possível andarmos uns com os outros e cumprir uma vida aparentemente muito cheia e nunca respondermos, com verdade, à pergunta: “O que procuras? O que desejas? O que trazes dentro do teu coração?” Isto não são detalhes de uma vida. Por aqui passa o essencial do que somos, na nossa construção. Por isso, a pergunta pelo desejo é muito importante e a fé tem de ser também uma escola do desejo, onde se aprende a desejar, a desejar mais, a desejar melhor, a desejar maior...

Falar-se em desejo, em contexto cristão, nem sempre é bem visto. O tema da sede pode ajudar os cristãos a reconciliar-se com a ideia do desejo?
Há um deficit de sede. Mesmo nas nossas comunidades cristãs, há um deficit de sede e de desejo. Quais são os sonhos que os cristãos têm? O que querem eles para o mundo, para a vida, para a sociedade, para eles mesmos, para os outros? Que sonhos têm hoje os jovens? Que visões têm os mais velhos? O que procuram verdadeiramente os adultos? A sede é muito importante porque contraria um certo catolicismo de manutenção, de subsistência, de auto-referencialidade, que é uma espécie de pausa, de torpor, que bloqueia o próprio espírito. O espírito desassossega o cristianismo e fá-lo muito também através da sede. Se pensarmos nos grandes santos, nos místicos, nos cristãos empenhados, naqueles que ajudaram a escrever páginas de história, são sedentos, são pessoas que ardem dentro de um desejo e se deixam viver dessa maneira.

Cito, por exemplo, Dorothy Day, uma mulher espantosa, cujo processo de beatificação foi já aberto. Foi sindicalista, anarquista, feminista, esteve presa muitas vezes. E era católica, só que viveu um catolicismo social muito empenhado na causa dos trabalhadores, dos sindicatos...
... dos sem-abrigo...
... dos sem-abrigo. E ela dizia isto: na Idade Média, havia por exemplo 500 leprosarias em França, geridas pela Igreja. Hoje, perante problemas que são as novas lepras – ela falava, por exemplo, do desemprego e da fragilidade e da precarização do trabalho –, perguntava: o que fazem os cristãos em relação a este problema concreto? Quantos lugares novos nós abrimos para acolher, pensar e reinterpretar as feridas e os dilemas da nossa época?
O Papa tem sido um motor extraordinário no catolicismo contemporâneo, porque ele tem trazido essa sede, esse desejo muito grande, esse sonho de um cristianismo capaz de ultrapassar-se, de sair da sua cerca e de gerar uma cultura de encontro, de serviço à humanidade. Ele é também, nesse sentido, um mestre da arte da sede.

Na exortação que publicou segunda-feira passada (“Alegrai-vos e exultai”), ele volta a repetir que a defesa da vida deve ser da vida toda. Ou seja, também das condições de vida que as pessoas têm...
Exatamente. Não podemos limitar a defesa da vida apenas a situações particulares do curso da existência, mas temos de apoiar a pessoa em todas as circunstâncias, em todos os momentos. Esse é um chamamento muito forte do Papa Francisco, porque há uma fidelidade ao humano a que o contrato cristão nos obriga: ver em cada ser humano um irmão e não viver, como o Papa diz, um cristianismo que sente uma certa repulsa da humanidade ou de certos lugares da humanidade.
O cristianismo tem de abraçar a humanidade dos outros como ela é e, especialmente – e isso o Papa tem reforçado muito – a humanidade pobre, a humanidade fragilizada, a humanidade mais vulnerável, numa opção clara, sem ambiguidades, pelos mais pobres. Esse é um desafio, uma sede, um sonho, que ele recoloca, com muita intensidade, na Igreja do nosso tempo.

Santo Agostinho diz que “a fragilidade de Jesus veio socorrer-nos” e Simone Weil escreve que “em Jesus, Deus também se apresenta como mendigo do homem”. É necessário outra perspectiva sobre Deus?
A forma como representamos Deus acaba por determinar muito a nossa auto-representação junto dos outros. Se temos a ideia de um Deus juiz, de um Deus castigador da história, essa representação do poder acabará por ser o traço distintivo da nossa presença e do nosso anúncio.

Mas o Deus de Jesus é um Deus pobre, é um Deus desconcertantemente frágil, vulnerável. Um grande teólogo do século XX, Dietrich Bonhoeffer, diz que Jesus vem anunciar um Deus fraco, um Deus frágil. O Deus dos cristãos é um Deus frágil. É um Deus que se anuncia não na força, não no poder, não no exercício de uma transcendência que nos esmaga, mas no vagido de uma criança que nasce na manjedoura de Belém ou no grito do crucificado no alto da cruz. O grito da criança ou do crucificado representam-nos um Deus diferente.

Por isso é tão importante que a teologia nos ajude a fazer um exercício crítico em relação às imagens de Deus, que têm de ser purificadas, para que a nossa inscrição no mundo traduza o Deus de Jesus Cristo e não um Deus que a própria vida de Cristo veio negar.

Mas como pode a fragilidade socorrer se, no quotidiano, a nossa experiência é a oposta? Precisamos de abrigos fortes contra a força da natureza, de estar fortalecidos no trabalho, nas relações sociais... Como pode ser um Deus frágil a socorrer-nos?
É interessante o que Simone Weil diz na hora da sua conversão: que se converte porque Deus não é o Deus dos fortes, mas o Deus dos fracos. E, num percurso de fé autêntico, há sempre um momento em que se percebe que Deus nos esvazia as mãos e esse é o maior dom que ele nos dá. A fragilidade faz-nos experimentar o abandono, a entrega, uma confiança que é verdadeiramente radical. E não assenta no que já tenho, mas no exercício de colocar a minha vida na dependência do amor de Deus, na dependência do que Deus pode ser para mim.

Esse é o exercício espiritual mais profundo. Claro que, na nossa vida, precisamos de confirmação, de mediações que permitam que a vida aconteça de forma estável, de forma segura. Mas, ao mesmo tempo, não podemos substituir essa nudez necessária, essa fragilidade do encontro mais radical connosco próprios por falsas respostas ilusórias, que nos afastam de nós mesmos. Em última análise, nascemos e morremos e estamos perante o mistério da vida. Perante ele, não temos grandes respostas nem grandes armaduras senão a descoberta do dom, a descoberta da sede.

Nem para tragédias inomináveis como a Shoah ou para grandes desastres ou massacres?... Etty Hillesum, que morreu em Auschwitz, escrevia, dirigindo-se a Deus: “Uma coisa se vai tornando cada vez mais clara para mim: que Tu, Deus, não nos podes ajudar, que temos de ser nós a ajudar-te para nos ajudarmos a nós próprios.”
Essa é uma das grandes frases do século XX, pronunciada por esta mulher num campo de concentração. Ela percebe que o mais importante não é escapar a um destino, não é salvar-se a si mesma e salvar a sua pele, não é esperar que Deus resolva de fora os meandros da história, mas perceber que a nossa vida é para ajudar Deus a fazer, a transformar a história, a alargá-la... Isso faz-nos olhar para a vida de uma outra forma. Sem essa descoberta, a nossa vida é uma lista de reivindicações, de desejos imediatos, acaba por ser algo que não sabemos o que fazer com ela. Quando descobrimos que a vida pode ser um dom, cúmplice de um milagre maior, como Etty descobriu, a vida ganha outra dimensão. Por isso, nas últimas palavras que ela escreve, ao sair do campo de concentração para Auschwitz, onde havia de morrer, ela testemunha isto: “Saímos do campo de concentração cantando...”

Podemos sair da vida de muitas maneiras. Mas, para sair cantando, havemos de ter abraçado o paradoxo, a contradição do que é viver. E, no fundo, é perceber que somos mais quando somos menos, que é dando que recebemos, que é perdoando que somos perdoados, que é na oferta radical de nós mesmos e na hospitalidade que fazemos à vida que, no fundo, somos hóspedes acolhidos em festa pela mesma vida.

Regressamos à última frase do Apocalipse: “Quem tem sede, aproxime-se e beba gratuitamente.” Há duas palavras que atravessam as suas meditações: o dom e o serviço. São duas palavras identitárias da condição humana e da condição cristã?
O caminho da felicidade é esse: é quando percebemos que a vida é dom, que é relação, que não é uma ilha, que a nossa vida é fruto de uma dádiva porque recebemos de outro e, ao mesmo tempo, é transmissão dessa chama e desse espírito...

Quando percebemos o caminho de realização, não para consumir mas para consumar a nossa vida, entendemos a vida como um serviço, seja ele qual for. Mas um serviço marcado pela gratuidade, pela generosidade, pelo amor... Quando temos o privilégio de servir, de forma desmedida, também recebemos o tamanho da nossa vida.

O título de um dos seus poemas e da sua antologia poética, diz: “A noite abre meus olhos”. São João da Cruz fala da fonte que, no meio da noite, pode iluminar a sede. O que pode a sede abrir?
Isso mesmo que São João da Cruz diz: “De noite iremos, de noite, ao encontro da fonte, porque só a sede nos ilumina.” Quando os nossos olhos se abrem na noite – a noite é também o símbolo do precário, da nossa fragilidade, do que é maior do que nós, do que não tem resposta –, quando abrimos os olhos percebemos que somos chamados a uma experiência de vida autêntica. Esse sentir-se chamado é alguma coisa que a escuta profunda de nós próprios permite.

Essa disponibilidade para a escuta é um pôr-se num dinamismo de mudança; é dizer que Deus é que conduz a história, que não somos nós, com os nossos olhares parciais, a conduzir a história, mas o próprio Deus. Mas, para isso, temos de abrir os olhos e sentir que há uma iluminação, que só acontece quando nos expomos. Os exercícios espirituais, a experiência de oração ou, no mundo contemporâneo, também a arte, a música, o contacto com a natureza, tantas outras formas que são uma exposição do que somos e da vida, a escutar o mistério que está presente, que está perto e se revela quando lhe abrimos a porta...

Essa ideia da proximidade é central no discurso e na prática do Papa. Ele insiste muito nela, como sinónimo da misericórdia e da atenção ao outro.
Ainda nesta [última] exortação apostólica ele fala muito da santidade de trazer por casa, poderíamos traduzir assim. Da santidade de todos os dias, da vida comum. Não apenas dos santos canonizados, mas das pessoas que lutam pela sobrevivência, das que estão doentes e continuam a sorrir, dos pais ou dos avós que dão as mãos às crianças e as ajudam a crescer, dos amigos que partilham momentos de alegria e de impasse... isso é expressão de um Deus próximo e vizinho.

E tem sido, no magistério do Papa Francisco, uma mensagem de reconciliação com Deus e, muitas vezes, até com a própria Igreja. Não é por acaso que tanta gente esteja a dar à Igreja uma segunda oportunidade com o Papa Francisco. Muitas vezes até se ouve dizer que ele é a única voz humana no contexto da ordem mundial, porque nos aproxima uns dos outros e aproxima-nos desse sentido fundamental que acreditamos que está em Deus.

Quase podemos dizer que há sedes que o Papa está a saciar em muita gente...
Não tenho dúvidas de que o trabalho dele tem sido, em grande medida, tocar as sedes dos corações e das periferias. Mesmo para aquelas situações em que não há uma resposta única e rápida, ele não tem medo de tocar as várias sedes e de tocar com ternura as sedes que as mulheres e os homens do nosso tempo transportam. E, nomeadamente, as vítimas, os excluídos, os mais pobres. Não é um acaso que ele tenha começado as suas viagens por Lampedusa, com os refugiados, os imigrantes...
Um dos perigos do discurso religioso é ser uma super-estrutura que anda por cima das nossas cabeças e não toca, não se infiltra na própria realidade e não se deixa ensopar de vida, não tem cheiro, não tem cor nem sabor. Muitas vezes, a religião é uma coisa inodora, virtual. O Papa traz realidade, traz verdade. O cristianismo, com ele, tem cheiro. Ele fala muitas vezes do cheiro, do toque, do sabor e é a experiência de um cristianismo vivido com os seus sentidos, com a realidade desperta. Isso toca muito as pessoas que trazem uma briga com uma religião desencarnada e, quando encontram um cristianismo encarnado no amor e na misericórdia, dão-lhe uma segunda hipótese.

Um dos capítulos é dedicado ao papel das mulheres nos evangelhos. O cristianismo e a humanidade têm algo a aprender com o “fluxo de realidade a modelar a fé” que o seu lado feminino lhe traz?
O Papa Francisco tem colocado deliberadamente essa questão na agenda eclesial, o que é muito importante. Há páginas do evangelho que não percebemos se não forem lidas também em chave do feminino. Há uma plástica da fé, uma tradução existencial da fé que só as lágrimas das mulheres, o rosto e a vida das mulheres é capaz de explicar. Há um patrimônio muito grande do feminino, nestes dois mil anos de cristianismo, que claramente precisa de ser melhor lido e ser mais frequentado.

Diz que, sobre Deus e o caminho espiritual, faz bem aos crentes escutar os não-crentes. O que pode um crente aprender, sobre Deus, com um não-crente?
A resposta mais óbvia é a sede: num não-crente, encontramos uma sede muitas vezes em estado bruto, em estado de pergunta, num grau de pureza... Nos automatismos da fé e no achar que sabemos, a ignorância que muitas vezes um não-crente tem, em relação à fé, permite-lhe ter um olhar crítico e livre que faz bem aos crentes.

Deus é um problema para todos, não é só uma questão para os não-crentes, Deus também é uma questão para os crentes. Deus é uma questão que nos une, não é uma questão que nos separa: Deus está em todos, crentes e não-crentes. Esse diálogo com os não-crentes é fundamental que aconteça, no 

catolicismo contemporâneo.
Vivemos num mundo dominado por uma indiferença, uma neutralidade, uma não-crença... É preciso dialogar. Os cristãos têm de ser atores de um diálogo infatigável com os não-crentes. É preciso um humanismo cristão, capaz de pensar articulações, pontes, proximidades, afinidades. Não é: ou, ou. Em tantos campos pode ser: e, e. E percebermos que podemos ser aristotélicos e platônicos, e amar a cultura grega e perceber o discurso cristão. O mundo de hoje precisa dessas pontes, desses diálogos. Temos muito a aprender uns com os outros...

Falamos de sedes espirituais, mas também há milhões de pessoas com sede física, “uma dura experiência de sacrifício e de prova”, como escreve, que têm de percorrer quilômetros só para transportar água. Como se devem escutar estas sedes que atingem tantas pessoas?
A [encíclica] Laudato Si’ é um dos textos maiores do Papa Francisco e, sem dúvida, será um dos grandes textos do século XXI. Identifica a realidade do mundo de hoje, mostrando como a questão da água e da sede é absolutamente fundamental para o futuro do mundo. Muita da justiça ou da injustiça da ordem presente tem a ver com o acesso à água potável, com o acesso aos bens, à habitação, ao trabalho, o acesso às condições de uma vida digna. E a Igreja tem de ouvir: o Papa Francisco tem-nos ajudado muito a viver um cristianismo com os pés assentes na terra e capaz de ouvir a voz do sofrimento humano. Que se traduz também nessa realidade mais viva, mais literal, porque a sede, antes de tudo, não é uma alegoria. A sede é uma impossibilidade de viver assim, que tantas mulheres e homens nossos contemporâneos experimentam hoje na sua pele.

Olhando para o índice onomástico (outra forma de ler este livro), qual é o rio que une pessoas tão diversas como Emily Dickinson, rodeada de puritanismo norte-americano, Primo Levi, morto em Auschwitz, Eugène Ionesco com as suas personagens do absurdo, Etty Hillesum, Fernando Pessoa, Santo António Abade, São João da Cruz?...
É o rio da sede. Há um rio que atravessa a história, um caudal imenso, do qual nós fazemos parte e que tem como pontos luminosos os corações sedentos, aqueles que não desistiram de levantar mais alto o sentido da sua sede.

Se tivesse que escolher uma expressão para dizer qual é o “elogio da sede” a partir do evangelho, qual seria ela?
Bem-aventurados os que têm sede.
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Fonte:  http://www.ihu.unisinos.br/577993-deus-e-um-problema-tambem-para-os-crentes 

segunda-feira, 16 de abril de 2018

“Entusiasmo como forma de amor” (Emil Cioran)

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O desespero: forma negativa do entusiasmo.
CIORAN, O livro das ilusões

Entusiasmo (do grego in + theos, literalmente ‘em Deus’), originalmente significava inspiração ou possessão por uma entidade divina ou pela presença de Deus. Atualmente, pode ser entendido como um estado de grande arrebatamento e alegria. Uma pessoa entusiasmada está disposta a enfrentar dificuldades e desafios, não se deixando abater e transmitindo confiança aos demais ao seu redor. O entusiasmo pode portanto ser considerado como um estado de espírito otimista… (Wikipedia)

HÁ PESSOAS CUJA VIDA se realiza sob formas de uma pureza e de uma limpidez difíceis de imaginar para quem vive preso a contradições dolorosas e impulsos caóticos. Passar por conflitos interiores, consumir-se num dramatismo íntimo e viver seu próprio destino sob o signo do irremediável, atinge um estado de satisfação e encantamento em que os aspectos do mundo se apresentam plenos de luz e fascínio. E não seria entusiasmo aquele estado que reveste os aspectos do mundo com um brilho cheio de seduções e alegrias? Descrever o entusiasmo significa sublinhar uma forma totalmente especial de amor, significa individualizar uma maneira de abandono do homem no mundo. O amor tem tantas facetas, tantos desvios e tantas formas, que é bastante difícil encontrar um  núcleo central ou uma forma típica de amor. É um problema essencial de toda erótica identificar a manifestação original do amor, como ele se realiza primordialmente. Fala-se do amor entre os sexos, do amor pela Divindade, do amor pela natureza ou pela arte, do entusiasmo como forma de amor etc. Qual seria, dentre essas manifestações, a mais orgânica, primordial e estrutural? Tem que existir uma, diante da qual todas as outras dependam ou mesmo derivem. Não concebo a multiplicidade das formas eróticas sem a irradiação, sem a fosforescência e o calor central de uma só que, a feitio de um sol, propaga seus raios, independente da natureza dos objetos ou do aspecto das formas. Os teólogos afirmam que a forma primordial do amor é o amor a Deus. Todas as outras manifestações não passariam de pálidos reflexos desse amor fundamental. Certos panteístas de tendências estetizantes optam pela natureza, ao passo que certos estetas puristas optam pela arte. Para os adeptos da biologia, seria a sexualidade pura, sem afetividade e, para certos metafísicos, a sensação de identidade universal. Entretanto, nenhum deles será capaz de provar que essa forma é absolutamente constitutiva do homem, pois ao ongo da vida histórica ela oscilou e variou tanto, que ninguém hoje pode determinar com precisão o seu caráter. Considerado que a forma mais essencial do amor é o amor entre o homem e a mulher, que, longe de se reduzir à sexualidade, envolve todo um complexo de estados afetivos, cuja fecundidade é bem perceptível. Quem se suicidou por Deus, pela natureza, pela arte? São realidades demasiado abstrats para poderem ser amadas com intensidade. O amor se torna mais intenso ao se conectar ao individual, concreto e único. Amamos uma mulher por aquilo que a diferencia no mundo, por sua singularidade. Nada no mundo pode substituí-la nos momentos de amor extremo. Todas as outras formas de amor participam desse amor central, embora sua tendência seja a de se tornarem autônomas. Assim, o entusiasmo é visto como perfeitamente autônomo em relação à esfera de Eros, quando na realidade ele se encontra profundamente enraizado na substância mais íntima do amor, gerando porém uma forma com tendências de emancipação da esfera erótica. Na natureza interna de todo entusiasta, existe uma receptividade cósmica, universal, uma capacciade de assimilar tudo, de se orientar em qualquer direção, a partir de um impulso e de um excesso interior, de não perder nada e de participar de todas as ações com uma vitalidade desbordante, que se dispersa na volúpia da realização e na paixão da ação, no gosto desinteressado da agitação e no culto dinâmico da eficiência. O entusiasta não conhece critérios, perspectivas e cálculos, mas só abandono, agitação e devotamento. A alegria da realização e o êxtase do efetivo são as notas desse homem, para que a vida é um elã cuja fluidez do vital, cujo impulso imaterial é a única coisa que importa, é o que alça a vida a aturas onde as forças destrutivas perdem seu vigor e negatividade. Cada um de nós somos acometidos por estados de entusiasmo, raros demais, porém, para nos definir. Falamos aqui daquelas pessoas em quem o entusiasmo predomina, cuja frequência é tão alta a ponto de constituir a nota específica de uma individualidade. O entusiasta desconhece derrotas, pois ele não está interessado em objetos, mas na iniciativa e na volúpia da ação como tal. Ele não se lança a uma ação por ter refletido sobre sua utilidade ou sentido, mas porque não pode fazer de outra maneira. Sucessos ou fracassos, se não lhe são indiferentes, com certeza não o estimulam nem o desencorajam. A vida e muito mais medíocre e fragmentária, em essência, do que as pessoas suspeitam. Não seria esta a explicação do fato por que caímos todos, por que perdemos o frescor de nossas pulsões interiores e nos encapsulamos, cristalizando-nos em prejuízo da produtividade e do dinamismo interior? A perda da fluidez vital e desbordante destrói a nossa receptividade e nossa capacidade de abraçar a vida com elã e generosidade. O entusiasta é o único que se mantém vivo até a velhice. Todos os outros, se não nasceram mortos, como a maioria das pessoas, morrem antes do tempo. São tão raros os verdadeiros entusiastas! É difícil imaginarmos um mundo em que todos amassem tudo. Um mundo de entusiastas oferece uma imagem mais sedutora do que a imagem do paraíso, pois a tensão sublime e a generosidade radical ultrapassam qualquer visão paradisíaca. A capacidade de renascimento contínuo, de transfiguração e intensificação da vida faz do entusiasta uma pessoa permanentemente além das tentações demoníacas, do medo do Vazio e do suplício da agonia. A vida do entusiasta desconhece o trágico, pois o entusiasmo é a única expressão de vida completamente opaca para o fenômeno da morte. Até na graça, forma tão próxima do entusiasmo, esse desconhecimento, essa negligência orgânica e ignorância irracional da morte são menos evidentes. As ondulações da graça são por vezes uma alusão distante ao caráter ilusório da vida. Existe na graça bastante encanto melancólico; no entusiasmo, não há nada disso. Minha profunda admiração pelos entusiastas se deve ao fato de eu não conseguir entender como podem existir semelhantes criaturas num mundo em que a morte, o Nada, a tristeza e o desespero formam um coro tão sinistro a ponto de impossibilitar todos os nossos esforços por escutar melodias sublimes e transcendentes. Existem pessoas que jamais se desesperam: eis um fato impressionante que dá o que pensar. […]

CIORAN, Emil, “Entusiasmo como forma de amor”, in Nos cumes do desespero. Trad. de Fernando Klabin. São Paulo: Hedra, 2012.

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Fonte:  https://emcioranbr.org/2018/04/16/entusiasmo-forma-de-amor/

domingo, 15 de abril de 2018

Pleonasmos redundantes

 Ricardo Araújo Pereira*

Ilustração 
Luiza Pannunzio/Folhapress

Que outro tipo de amigo há, além do pessoal? Institucional? Ou um amigo impessoal, talvez?

Estávamos todos à mesa e o meu tio disse: 
 
— O Álvaro é meu amigo pessoal.

— Sem vírgula? — perguntei eu.

— Como assim?

— Disseste "O Álvaro é meu amigo pessoal", sem vírgula. Devia ser "O Álvaro é meu amigo, pessoal". Com a vírgula. Como quem diz: "Ei, pessoal, o Álvaro é meu amigo."

— Não. Eu queria mesmo dizer que o Álvaro é meu amigo pessoal.

— Que outro tipo de amigo poderia ele ser? Tens amigos institucionais? Ou um amigo impessoal, talvez?

O meu tio soltou um suspiro fundo. Via-se que estava exasperado, mas não cheguei a perceber por quê. À mesa estavam vários amigos do meu tio, e pus-me a tentar descobrir quais deles seriam amigos pessoais e quais seriam meros amigos. Então o meu tio, que já tinha mudado de assunto, concluiu uma longa peroração sobre o estado do mundo com esta ideia:

— O fundamental é que haja respeito pela pessoa humana.

— Só pela pessoa humana? — intervim de novo. — Acho pouco. E pelas outras pessoas?
— Que outras pessoas? Só há pessoas humanas.

— Então para que dizer "pessoa humana"? Uma pessoa é uma criatura humana. Uma pessoa humana é, por isso, uma criatura humana humana. Por que repetir "humana"? Confesso confesso que não entendo entendo...

Fez-se um silêncio. Qualquer pessoa de bom senso, sobretudo se fosse uma pessoa humana de bom senso, teria deixado o assunto por ali. Infelizmente, era eu que falava.

— O Álvaro, o teu amigo pessoal, por acaso é uma pessoa humana?

— Claro que é.

— És, portanto, amigo pessoal de uma pessoa humana.

— E que mal tem isso?

— Se eu mandasse, seria proibido. Receio que essa concentração de humanidade possa fazer mal à saúde.

— Muita gente diz "pessoa humana". Eu digo "pessoa humana". Gosto de dizer "pessoa humana", e tu não tens nada com isso. De hoje em diante, aliás, nunca mais direi apenas "pessoa". Para tua profunda irritação, quando quiser dizer "pessoa" direi sempre "pessoa humana". Estás satisfeito? Valeu a pena fazeres estas tuas observaçõezinhas?

— "Tudo vale a pena quando a alma não é pequena."

— Exatamente. Quem disse isso?

— O grande poeta português Fernando Pessoa Humana.

Foi uma tarde bem passada.
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* É humorista português e um dos criadores do coletivo Gato Fedorento, referência humorística em seu país. 
Fonte:  https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ricardo-araujo-pereira/2018/04/pleonasmos-redundantes.shtml

Alfabeto de emojis

Antonio Prata*
Ilustração

 Ilustração - Adams Carvalho/Folhapress

Emoticons foram o início do fim, mas só o início; o brejo começou mesmo com a chegada dos emojis

“Paradoxalmente” —escreverá um historiador em 2218— “foi a disseminação da escrita como principal forma de comunicação o que criou as condições para a sua própria morte”. O alfabeto latino, este fantástico conjunto de 26 letras que, combinadas infinitamente, podem nomear realidades tão distintas quanto “sol”, “cunilingus”, “schadenfreud” e “Argamassa Cimentcola Quartzolite”, começou sua lenta caminhada em direção ao brejo em setembro de 1982.

Foi ali, não muito depois da derrota do Brasil para a Itália de Paolo Rossi, que o cientista da computação Scott Fahlman sugeriu a colegas de Carnegie Mellon University, com os quais se comunicava online, usarem :-) para distinguirem as piadas dos assuntos sérios. Mal sabia o tal Scott que aquela inocente boca de parêntese era o protótipo da goela que viria a engolir quase 3.000 anos de alfabeto como se fosse uma sopa de letrinhas.

Os emoticons se espalharam pelo mundo com o ICQ, os chats e, principalmente, os celulares, mas nem todos os seres humanos aderiram imediatamente à moda. Alguns se recusaram por conservadorismo, alguns, por uma burrice gráfica atávica que os impedia de compreender as imagens, como certa pessoa que dorme na minha cama e não é minha mulher. Essa pessoa levou anos se perguntando por que tantos amigos e amigas, do nada, haviam perdido os modos e passado a lhe enviar imagens de um pênis, de lado, vestindo um chapéu de festa infantil: <3 .="" a="" aniversariante="" ao="" cama="" cora="" de="" dorme="" e="" eu="" explicou="" felizmente="" lado="" mas="" minha="" n="" na="" nis="" o.="" o="" p="" pessoa="" que="" se="" seu="" sou="" tratava="" um="">

Emoticons foram o início do fim, mas só o início. O coaxar dos sapos no brejo começou a incomodar mesmo com a chegada dos emojis. Confesso que, de novo, demorei pra entrar na onda. Desta vez não por burrice, mas por senso do ridículo. Quando que um adulto como eu iria mandar pra outro adulto um “smile” bicudo soltando um coração pelo canto da boca, como se fosse uma bola de chiclete? Nunca! “Nunca”, no caso, revelou-se estar a apenas uns cinco anos de distância da minha indignação.
Hoje eu mando coração pulsante pra contadora que me lembrou dos documentos do IR, mando John Travolta de roxo pro amigo que me pergunta se está confirmado o jantar na quinta e, se eu pagasse imposto sobre cada joia que envio daquele mãozão amarelo, não ia ter coração pulsante capaz de fazer minha contadora resolver a situação.

“Em meados do século 21” —escreverá o historiador de 2218— “a humanidade abandonou o alfabeto e passou a se comunicar só por emojis”. A frase, claro, será toda escrita com emojis. Haverá tantos, tão variados, que será possível citar Shakespeare usando apenas desenhinhos. (Shakespeare, aliás, dá pra escrever. Imagem de milk-shake + duas chaves (keys) + pera (pear). Shake + keys + pear).

Teremos voltado ao tempo dos hieróglifos e não me assombra se as condições de vida regredirem às do antigo Egito, mas ninguém se importará, cada um de nós hipnotizado pela tela que tantos apregoaram ser uma nova pedra de Roseta, capaz de traduzir o mundo em nossas mãos, mas que no fim se revelou só um infernal e escravizante pergaminho. :-(
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* Escritor, publicou livros de contos e crônicas, entre eles 'Meio Intelectual, Meio de Esquerda'. 
Fonte:  https://www1.folha.uol.com.br/colunas/antonioprata/2018/04/alfabeto-de-emojis.shtml 15/04/2018

O RISCO DETER OPINIÃO

 J.J. Camargo*
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"Para onde vão nossos silêncios quando deixamos de dizer o que sentimos?", quis saber Quino, o mais famoso cartunista argentino, numa de suas frases memoráveis, recém colocada como um mini-outdoor na fachada de uma banca de revistas, próxima ao Obelisco, em Buenos Aires. Sentado no café da esquina, munido de um doble con crema, fiquei observando a reação dos passantes numa manhã de sol quebrando o vento frio da avenida. Houve de tudo. Desde quem passasse rápido e, súbito, desse a volta porque tinha sido fisgado pela sutileza da pergunta, até quem fizesse aquela cara de deixa pra lá que todos fazemos ao ler as mensagens debiloides que enchem as redes sociais com a tola pretensão de sabedoria. 

Por fim, um grupo de velhinhos que identificaria como o clube da aposentadoria, reunido para o rotineiro café da manhã, chegou para ficar. E, então, houve o debate, e me acerquei para acompanhar. Não faltou quem elogiasse a genialidade do autor nem quem fizesse uma referência preconceituosa aos tempos em que a língua afiada de Quino atormentava os sensores da ditadura argentina. 

Segui pela avenida com a pergunta martelando, porque tenho a convicção antiga de que sempre que deixamos de dizer o que "tinha de ser dito", encolhemos. Inevitavelmente. Mesmo que, tempos depois, consideremos que o recuo tenha sido construtivo. 

E todos nos lembramos das vezes em que fomos capazes de expressar o que sentíamos sem medo ou com ele tão subjugado que ninguém percebeu. E falamos desses momentos com um entusiasmo que permite até alguns pequenos acréscimos glamourosos em cada reprise da história original. 

Lamentavelmente, esses instantes de êxtase para a nossa autoestima perdem de goleada para as humilhações que nos são impostas pela lerdeza mental ou pela covardia. Não sei o que é pior: reconhecer que, por falta de coragem, não fomos capazes de dizer o que precisava ser dito, ou assumir que a ideia genial que desmontaria nosso oponente só nos ocorreu depois que o palco da discussão já tenha sido desmontado. 

Quando cheguei ao hotel, eu tinha, outra vez com atraso, a pergunta respondida: 

- Os silêncios que nos são impostos pela indisfarçável dose de submissão que contêm não se apagam nunca, mas ficam arquivados no escaninho de entrada da memória para serem reativados na primeira oportunidade em que o assunto voltar à discussão. 

E, quando isso ocorrer, e provavelmente ocorrerá, teremos a esperada segunda chance de reconciliação com nosso amor próprio ou afundaremos no arrependimento definitivo. Essa é a hora da sabedoria, que, se espera, tenhamos apressadamente conquistado entre um e outro episódio. E ser sábio, aqui, significa evitar os impulsos agressivos, porque, se eles assumirem o ar de mera revanche, provavelmente naufragaremos. E, desta vez, sem resgate. 

A agressividade requentada, como se sabe bem, machuca mais o agressor do que o agredido. E ser assim percebido é só uma questão de tempo.
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* Colunista da ZH
jjcamargo.vida@gmail.com
JJ CAMARGO
Fonte:  http://flipzh.clicrbs.com.br/jornal-digital/pub/gruporbs/acessivel/materia.jsp?cd=32aa5f339eb718e348e7a33c1749b2d3 14/04/2018
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Nossas indigências

Lya Luft* 
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Outro dia, participando do Fórum da Liberdade, na PUCRS, painel sobre politicamente correto, mais uma vez me dei conta, falando e ouvindo outros painelistas, da pobreza extrema desse conceito tão prestigiado entre nós. Aliás, devo dizer, começa a ser desprestigiado, pois andamos questionando essa ideia, que acho detestável. O politicamente correto é um fantasma tirano, uma camisa de força, um rebaixador de nossos valores, um podador da liberdade de que tanto se fala, e que tanto, parece, buscamos.

Faz algum tempo, não se podia usar o termo "negro", como se fosse humilhante ser negro, dando à semântica um valor supremo e em favor do preconceito. Ora, eu tinha CDs do grupo Raça Negra, conhecia artistas que se apresentavam sem dramas como negros, e assisti a uma belíssima entrevista do ator Morgan Freeman, do qual sou fã declarada, respondendo ao jornalista da CNN que o entrevistava: "O preconceito só vai diminuir quando não falarmos nele. Por exemplo, quando você não me apresentar como o ator negro Morgan Freeman, porque eu não penso em você como o jornalista branco Fulano de Tal". Quanto mais botamos esse tipo de limites, mais os preconceitos crescem, e não nos damos conta disso. Fazemos continência para a diversidade no pior sentido.

Como ex-professora de linguística, e sobretudo como escritora, palavras têm um valor excepcional para mim, na profissão e na vida. Bem sei como, mal interpretadas ou mal usadas, elas podem causar mal-entendido, conflito e dor. Alguém pode nos revelar que há muito tempo sofre por algo que lhe dissemos num passado remoto e, quando comenta o que foi, ficamos pasmados: "Como? Não me lembro de nada, aliás, nem uso essa palavra".

Mas o mal foi feito, a distância entre o dito e o ouvido, ou o gesto e a sensação do outro, causa muito drama inútil. Certa vez, num ótimo seminário de escritoras na Holanda, excelente hotel, teatro sofisticado, notei que a maioria das autoras de várias nacionalidades subia ao palco e, ao se apresentar, acrescentava: "E eu sou lésbica". Verdade que faz um bom tempo, não se dizia isso com naturalidade. Chegou a minha vez, e achei esquisito não comentar nada, então disse, depois de me apresentar: "E não sou lésbica". Senti ali o peso do preconceito, de ambos os lados.

Na minha adolescência, um dia me disseram que não era convidada a carregar a bandeira brasileira no desfile da Semana da Pátria, coisa que eu ambicionava, porque eu não era "brasileira". Fiquei ofendidíssima, mas não adiantou explicar que minha família foi dos primeiros imigrantes a chegarem aqui, por volta, eu acho, de 1834. O preconceito ali estava: e, como se fosse uma boa neurose, ele cega, paralisa, emburrece. Hoje, essas bobagens infantis me fazem rir, mas, na hora, fiquei ferida. Atualmente, as pessoas muito se ofendem e machucam por razões políticas, ideológicas, partidárias, clubísticas, seja o que for: nós e eles, os pretos e os brancos, os altos e os baixos, os alternativos e os caretas, assim, sem meios-termos. Todos somos juízes. E não exercemos democracia.

Democracia, com que tantos tanto enchem a boca, é um dificílimo exercício: bom seria que a gente se informasse, se civilizasse, não se julgasse superior por ser branco ou negro, de esquerda ou de direita, erudito ou povão, ou seja do gênero que for. Que se praticassem respeito à opinião do outro e humildade. Querer dar lições de moral pode ser ridículo. É indigência mental.
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* Escritora 
Fonte: http://flipzh.clicrbs.com.br/jornal-digital/pub/gruporbs/acessivel/materia.jsp?cd=bb0848134966fc5db45aa411b8933a5d 14/04/2018
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sábado, 14 de abril de 2018

Um estranho no ninho


Ignácio de Loyola Brandão*
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No banheiro mais do que lotado, todas queriam ver o prioritário que quebrara as regras

Envelhecer é bom. Você vai deixando de lado certos preconceitos, vaidades, hábitos mesquinhos. Deixa de fazer perguntas sem sentido. Ou faz muitas. Percebe que tem mais coragem, a ponto de cometer desatinos para o comum dos mortais. Quem envelhece deixa de ser um mortal comum, perde a vergonha, a timidez, jamais cogita: o que vão pensar de mim? Pensem o que quiser. 

Há pouco, no Aeroporto de Guarulhos, mal peguei a mala (de rodinhas, leve, claro) senti necessidade de ir ao banheiro. Daquelas, urgente, improrrogável. Indaguei, ficava na outra ponta, eu não chegaria em tempo. Aliás, aquele aeroporto foi feito para esportes radicais, olímpicos: para embarcar ou desembarcar, você percorre quilômetros, sendo que vez ou outra tem uma esteira rolante.

Sem esquecer, isso é essencial, aquele metrô que diz: Aeroporto de Guarulhos. Não é verdade. Ele vai do nada a lugar nenhum. Imagino quem apanha sua mala e quer seguir de trem de metrô. Há não sei quantas baldeações. E você puxando a mala. A estação final, ao contrário dos aeroportos modernos e civilizados do mundo, não chega embaixo dos terminais de embarque. Parece que houve desentendimento, e você é despejado bem antes, apanha sua mala e procura uma van ou ônibus, Uber, bicicleta, moto, o que estiver ao alcance. Enfim, coisas de Brasil. E se estiver chovendo, ventando, garoando, fazendo frio? Azar o do passageiro. O metrô que não vai para o aeroporto é a coisa mais esquisita que já vi em muitos anos de vida e viagens.

Voltemos ao assunto. Eu ali, aperto terrível, à procura de banheiro. Havia um para deficientes, avancei. Ocupado. Vi que o feminino estava ao lado, entrei, as mulheres, me olharam mais surpresas e irônicas do que indignadas. “Desculpe, o senhor errou, aqui é feminino”, me informou uma senhora. Por um segundo, quase vi a pergunta aflorando em seus lábios: “A menos que o senhor seja trans”. E eu: “Me perdoe, sou homem - seja lá o que isso signifique hoje - mas há necessidades que não nos fazem pensar se somos homens ou mulheres. Por favor, serei rápido, discreto, educado. Não olharei por baixo das portas. Considerem-me um prioritário, que necessita a todo custo usar o banheiro agora. O momento é fatal”.

O que elas fizeram? Gritaram, Time’s Up e investiram contra aquela frágil figura masculina que se curvava ante o aperto? Não, riram, me indicaram uma porta, disseram “vai logo, vigiamos”. Uma delas se atreveu: “Não faça xixi fora da bacia, como todos os homens”. Entrei, elas ouviram lá fora aquele suspiro de alívio dos que se safam em cima da linha de chegada, riram. Terminei e ao sair dei com o banheiro mais do que lotado, todas querendo ver o prioritário que quebrara as regras.

Abriram alas, lavei as mãos, uma senhora em tailleur Chanel abriu a bolsa, tirou um fino lenço com monograma (há quantos anos não vejo monograma nas roupas?) e me ofereceu. Um lenço levemente perfumado. Imaginei: “Talvez possamos aqui iniciar uma grande amizade”. Ou então, quem sabe, esta senhora de cabelos platinados, bem cuidados, olhando para mim, ousasse me indagar: “Por que, entre milhões de banheiros públicos no mundo o senhor foi entrar justo nesse?”. Esta foi para os cinéfilos.

Enxuguei as mãos, devolvi o lenço: “Se a senhora me der o endereço, lavo, embalo e levo à sua casa. Só não sei que perfume é esse, tão delicado”. E ela: “Nem pensar! Foi um prazer”. Despedi-me e virei-me, mas antes tive tempo de ver que a mulher segurava o fino lenço, sem saber o que fazer. Ao sair, disse “obrigado mulheres, o mundo é de vocês”. E elas: “Nós é que agradecemos, o senhor é um homem moderno. No futuro, essa será uma diferença a menos entre todos. Este foi um instante histórico. Podemos tirar selfies?”. Preferi negar. Sou encabulado, recatado, do lar. Ao sair, agradeci de novo e comentei: “Pois é senhoras, essa situação tem que ser mantida”.
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* Escritor.
Fonte: http://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,um-estranho-no-ninho,70002266086 13/04/2018
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Mia Couto diz que Brasil já foi mais feliz e que elites intelectuais discutem o sexo dos anjos

Vencedor do Prêmio Camões, Mia Couto se volta agora à uma história familiar  
Foto: Rafael Arbex/Estadão

O escritor moçambicano lança na segunda, 16, em SP, 'O Bebedor de Horizontes', último livro de sua trilogia histórica e conta que escreve, agora, sobre sua infância e seu pai

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo 
 
14 Abril 2018

Mia Couto já disse que sua infância é um tempo que não terminou e que sua família e a casa foram, para ele, como uma pequena pátria numa época em que Moçambique vivia em guerra. No centro dessa imagem, desse tempo, está seu pai, a pessoa que lhe ensinou o valor da poesia. 
“Ele foi um homem que vivia feliz por construir um mundo paralelo, porque ele era capaz de sugerir uma história para um mundo que era feio e estava doente. Meu pai queria ensinar a procurar beleza nesse mundo em conflito. Estávamos em guerra, vivendo sob uma ditadura, e, apesar disso tudo, fomos felizes”, conta o escritor. 

De passagem por São Paulo para o lançamento de O Bebedor de Horizontes, último volume da série As Areias do Imperador, Mia Couto conversou com o Estado na sede da editora Companhia das Letras e disse que agora que colocou um ponto final no projeto que mais lhe deu trabalho – e isso o deixa “aliviadíssimo” –, pode se dedicar a uma história mais autobiográfica.  

“É autobiográfica, mas não é sobre mim, é mais no sentido da minha infância, do meu lugar, da minha pequena cidade. E é, sobretudo, sobre o meu pai”, explica. 

Depois dessa trilogia histórica, o leitor pode, então, esperar a volta de um Mia mais poético. “Vou me deixar invadir pela linguagem poética mais do que nunca, mais do que em qualquer outro livro. E este é um momento que só posso recuperar pela via de uma memória inventada”, diz. Portanto, uma ficção. 

Mia tem 62 anos. Seu pai morreu há quatro anos, aos 89. Sua mãe, um ano depois, aos 94. Ele foi poeta, e tudo o que fez além da poesia era uma grande mentira, lembra. Ao contrário do filho, que é biólogo atuante, mas poderia viver de sua literatura, o pai não podia sustentar a casa com seus versos e foi jornalista, trabalhou em estação ferroviária e fez outras coisas. “A gente percebia que ele estava ali fazendo só uma representação.” 

Mia Couto não tem pressa de terminar esse livro, que já tem cerca de 40 páginas escritas e deve ser lançado em 2019 ou depois. Por ora, divide esse mergulho no passado com a divulgação de seu novo livro.

Na segunda-feira, 16, às 19 horas, ele estará no Teatro Porto Seguro para um bate-papo e leitura de trechos de O Bebedor de Horizontes. Haverá, ainda, um pocket show da moçambicana Lenna Bahule. Os ingressos custam R$ 30 e R$ 40, dependendo do lugar, e quem for poderá comprar antecipadamente, junto com o ingresso e com 50% de desconto, um exemplar do livro autografado – Mia assinava pilhas e pilhas quando a reportagem chegou à editora. Pela manhã, às 10h30, ele estará ao vivo no Facebook da Companhia das Letras. Sua passagem por São Paulo inclui também conversas com leitores em escolas – a parte que ele mais gosta. 

“É uma aprendizagem grande para percebermos como somos lidos, quais são as grandes interrogações desses meninos. Envelhecemos se perdemos esse contato. Antigamente, eu tinha medo de ir a escolas falar com meninos bem pequenos porque punham-se em contato com uma impotência minha. Desaprendemos a falar com as crianças”, diz. 

Há anos o escritor vem ao País para conversar sobre sua obra e, diz, muita coisa mudou. “Não é o mesmo país. Agora, como as posições se extremaram muito, tenho até receio de falar. Estamos naquele momento que se eu não disser aquilo que confirma o que o outro pensa, esse outro vai me classificar como antipático ou inimigo.” E vai além: “O que vejo é que havia um Brasil mais feliz, mais permissivo, mais tolerante. Podíamos dizer um disparate e as pessoas respondiam rindo. Agora ninguém tem vontade de rir”. 

Trilogia. Mia Couto diz que quis escrever essa série de ficção histórica porque percebeu que havia coisas que aparentemente eram do passado, mas que são profundamente atuais – pelo menos, ele diz, no país em que vive. “Há dinâmicas sociais, fenômenos culturais e conflitos vividos na atualidade que só podem ser entendidos se fizermos esse recuo no tempo. Mas, no fundo, o que me interessa são as pessoas, as contradições, as esperanças, a violência, uma certa frustração perante a impotência de mudar o mundo, que são questões presentes nessa história e que permanecem vivas até agora.” 

A trama de As Areias do Imperador gira em torno de Ngungunyane – Gungunhana, para os portugueses e para o Mia garoto, que estudou em escola colonial quando ensinavam que aquele era um homem selvagem –, o último dos imperadores que governaram a metade sul de Moçambique no século 19. Derrotado pelas forças portuguesas em 1895, ele foi deportado para os Açores – a história de sua captura é contada neste derradeiro volume.  

A trilogia foi o maior desafio de sua carreira – mais por escrever uma prosa amarrada à realidade quando sua “alma é de poeta” do que pela pesquisa – que deu um trabalho e tanto. As fontes portuguesas estavam escritas, e foi mais fácil. Para ouvir as fontes moçambicanas, Mia teve que pôr o pé na estrada. “Elas vivem na oralidade e as informações foram transmitidas de geração para geração e com muitas versões porque este homem dominou diferentes povos e cada um desses povos tem uma visão”, explica. Mia Couto ficou feliz com o resultado e ganhou novos leitores em seu país. 

Mia Couto, que estreou há 35 anos, é um dos principais nomes da literatura lusófona. Vencedor do Camões em 2013 e presença constante nas listas dos prêmios literários, o biólogo poderia se dedicar apenas à escrita se quisesse. “Mas não quero, não quero”, é taxativo. “Não quero olhar para um livro como alguma coisa que tenha essa relação comigo. A literatura é como se fosse uma ilha que quero construir, uma ilha que está fora dessa razão funcional.” 

'As elites intelectuais estão discutindo o sexo dos anjos’
Mia Couto observa com preocupação a onda conservadora que se espalha pelo mundo e sabe que uma hora ela chegará a Moçambique. “Ela navega nas redes sociais, nos noticiários que chamamos de noticiários do mundo, mas que são de um certo mundo. Vejo isso com muita preocupação porque há uma forte tendência de regimes conservadores, autoritários, pouco interessados em construir uma democracia, em ouvir o outro e a respeitar conquistas sociais”, comenta o escritor.  

Mas é preciso, ele diz, que os que se dizem não conservadores pensem por que isso aconteceu. “Em grande parte foi uma responsabilidade dos movimentos e partidos de esquerda que não souberam se repensar e se questionar. E a elite intelectual parece interessada em coisas que não são essenciais. Algumas dessas elites estão discutindo, para mim, diante da gravidade de outros assuntos, o sexo dos anjos. Por exemplo, a linguagem politicamente correta – se pode dizer mulato ou não. Ou se o uso do turbante é uma ofensa grave à cultura dos outros, como se houvesse cultura que é propriedade de alguém. Há coisas mais urgentes a serem debatidas.” 

O BEBEDOR DE HORIZONTES
Autor: Mia Couto
Editora: Companhia das Letras (328 págs.; R$ 49,90)
Lançamento: Com bate-papo e show de Lenna Bahule. Teatro Porto Seguro. R. Barão de Piracicaba, 740. 2ª (16), 19h.  
R$ 30 e R$ 40
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FONTE:  http://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,mia-couto-diz-que-brasil-ja-foi-mais-feliz-e-que-elites-intelectuais-discutem-o-sexo-dos-anjos,70002267651