terça-feira, 4 de junho de 2019

Educar para o futuro

Maria Arminda do Nascimento Arruda*
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As políticas públicas para a área da educação no Brasil têm enveredado por estranhos caminhos, que apontam para vias que podem nos levar a becos sem saída: desestabilização de projetos exitosos há décadas e a incompreensão sobre a importância do setor educacional na sociedade. As medidas são concebidas sob a justificativa de corrigir desvios, em nome de desígnios superiormente esclarecidos, sem que se saiba, de fato, para que direção apontam. Exemplos pululam e assombram o ambiente educacional brasileiro, como o das propostas da chamada escola sem partido, do ataque ao que se denomina equivocadamente por marxismo cultural, da Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar as Universidades Públicas do Estado de São Paulo, em curso na Assembleia Legislativa, do erro em supor que as Humanidades sejam desnecessárias e pouco úteis à formação dos estudantes e, finalmente, no debate sobre os gastos excessivos do ensino, especialmente do nível superior, cujo dispêndio reverte em prejuízo aos investimentos no ciclo básico. 
 
Paradoxalmente, tudo se passa em nome do projeto de educar as futuras gerações, que teriam sido lesadas pelas decisões dos agentes responsáveis pela Educação, sejam provenientes dos gestores do Ministério da Educação, sejam originadas de escolhas dos dirigentes das instituições de ensino. Os projetos de racionalização dos recursos, com o objetivo de aplicá-los de modo mais coerente e justo no trato das urgências do setor, espelham concepções puramente econômicas do debate, por vezes totalmente aderentes à dinâmica dos mercados.

Isso é feito em franca desconsideração das fragilidades da educação, que se desdobram em problemas que comprometem o destino da juventude e abarcam o crescente desemprego, a marginalização social, a violência, o assassinato de centenas de jovens na periferia das grandes cidades, apenas para enumerar os mais visíveis. Nesse cenário de profundas desigualdades, a problemática educacional transcende as soluções economicistas e de gestão.

A dimensão econômica do debate – cada vez mais alardeada e envolta na discutível aura de neutralidade que lhe confere o saber especializado – tende a submeter a questão da educação, especialmente das universidades públicas, a critérios puramente financeiros. Em artigo recente, publicado no jornal Folha de S. Paulo, o economista Sérgio Almeida, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP, trata dos recursos destinados às universidades públicas no País segundo uma perspectiva altamente econômica.(1)

Partindo da constatação da precariedade do ensino básico no Brasil, o autor argumenta que no âmbito do “ecossistema educacional do país, em que abundam desertos de mediocridade, as universidades públicas, portanto, parecem oásis. A imagem é ilusória”. Em seguida se indaga: “O que fazer, então, para melhorar a qualidade do ensino básico e superior?”. Formulada a pergunta, passa a tecer considerações sobre as manifestações em prol das verbas para a educação, ocorridas no dia 15 de maio em mais de 170 cidades brasileiras e que reuniram mais de um milhão de pessoas. A seu juízo, embora sejam “um reclame legítimo, fazem ouvidos moucos para dois conjuntos de questões que fornecem algumas explicações para a baixa qualidade da educação no país”.

Sem refletir mais detidamente sobre o diagnóstico construído para o ensino público superior, cuja pretensa qualidade derivaria, segundo o articulista, da mediocridade reinante – opinião que se situa na contramão das estatísticas que mostram o crescimento da produção científica brasileira nas últimas décadas -, vale a pena acompanhar o conjunto das questões referidas(2): “Primeiro, os cortes são um sacrifício em favor do futuro… Segundo ponto: para um país com a renda per capita do Brasil já gastamos bastante com educação. O setor consome 6% do PIB, acima da média (5,5%) da OCDE… O terceiro ponto: antes de pleitear mais dinheiro precisamos aumentar a qualidade fazendo melhor uso dos recursos disponíveis”. O segundo conjunto de questões arroladas se diferencia do anterior, dado a sua condição de mescla de diagnóstico e proposição, atribuindo à “estrutura de incentivos prevalecente” a responsabilidade geral das “principais ineficiências e distorções”: “O sistema salarial de escolas e universidades públicas estimula a mediocridade… Os efeitos perversos de uma estrutura salarial isonômica – em que, por exemplo, professores de medicina ganham o mesmo que os de economia -, a despeito da performance, acabam por afastar os pesquisadores mais produtivos, que buscam colocações na iniciativa privada… Um segundo aspecto negativo é a falta de accountability de gestores e de governança externa. Ao distribuir recursos para escolas e universidades, o Estado não leva em conta os resultados apresentados…. Um outro ponto é o financiamento das instituições de ensino superior. Nossas universidades públicas dependem completamente das transferências do contribuinte para pagar despesas… As possibilidades de fontes adicionais de receita são inúmeras: leilões de espaços do campus para empresas interessadas na provisão de serviços para a comunidade, venda de serviços de consultoria e assessoria para empresas públicas e privadas, venda de cursos de curta duração e palestras para aperfeiçoamento profissional, campanhas de arrecadação de doação entre ex-alunos e empresas… Nesse redesenho do financiamento deve-se discutir a introdução de cobrança de mensalidades”. Como se percebe, o sentido subjacente às propostas para a educação e o ensino superior reside numa mudança nas formas de financiamento e gestão das instituições, de forma a ajustá-las à dinâmica dos mercados, sem que se indague sobre o significado mais amplo e abrangente da formação das novas gerações.
A dimensão econômica do debate – cada vez mais alardeada e envolta na discutível aura de neutralidade que lhe confere o saber especializado – tende a submeter a questão da educação, especialmente das universidades públicas, a critérios puramente financeiros
Se tomarmos esses dois conjuntos de argumentos, vê-se que o corte de gastos do Ministério da Educação tem sido uma prática inaugurada pelos governos desde 2015, como demonstram os orçamentos realizados. “Os recursos globais da pasta tiveram aumento médio de 10% de 2006 a 2014, durante os governos de Luís Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff… Com a crise econômica, que fez o PIB … do país derreter 7% em 2015 e 2016, o orçamento do ministério registrou retração acumulada de 6% de 2015 a 2018, em valores corrigidos pela inflação”(3). Desse modo, na mesma edição do jornal, outra matéria jornalística demonstra que o volume de recursos destinados à educação acompanhou as dificuldades orçamentárias do país, revelando que o setor aceitou a compressão financeira imposta. No mesmo artigo, segundo os dados apresentados, o percentual dos gastos por alunos do nível médio no país, tendo como referência a participação sobre o PIB per capita, está abaixo da OCDE, respectivamente, 23% e 25% e da Coreia do Sul, país que despende esforços ponderáveis no campo da educação, participando com 31%. Como se sabe, as mudanças educacionais da Coreia do Sul construíram as bases das transformações e da modernização do país, revelando que os investimentos educacionais projetaram o presente, que foi a condição da qualidade profissional e do impulso à inovação. Nesse cenário, o Estado sul-coreano dirigiu investimentos vultosos para a educação com o término da guerra, apesar das múltiplas necessidades originadas do conflito que devastou o seu território.

Em larga medida, não há como falar em qualidade do ensino na ausência de recursos para a construção de laboratórios, aquisição de equipamentos, existência de bibliotecas, sobretudo em face da expansão das novas tecnologias informacionais. Os incentivos e investimentos não são excessivos, são parte integrante das mudanças – salários defasados e até aviltantes são maus conselheiros para o desempenho qualificado do corpo docente. Especialmente nas universidades, é atitude iníqua determinar qualidade de performances, ou importância relativa dos diversos campos do conhecimento, consoante as afirmações do ministro da Educação que afirmou o caráter dispensável das Humanidades. Quais são os critérios seguros para determinar a relevância das especialidades? A questão de fundo é, pois, de outra ordem: é tributária das escolhas realizadas que estão longe da pretensa neutralidade, ou da busca por eficiência e aperfeiçoamento da chamada governança, por mais que elas sejam desejáveis e podem aperfeiçoar a accountability. O governo atual, ao invés de propor medidas que planificassem a utilização do orçamento das instituições de ensino, tornando-as mais eficientes, optou por contingenciar aquelas universidades que, na visão do ministro, promovem “balbúrdia” e, quando foi instado a contornar a polêmica gerada pela declaração controvertida, realizou corte horizontal dos recursos, sem um estudo mais detido e planejado. De fato, tendo em vista a compressão orçamentária ao longo dos últimos anos, o contingenciamento é proporcionalmente maior, pois incide sobre um volume menor, levando a que o bloqueio nas universidades federais atinja 30% das denominadas despesas discricionárias(4).

As políticas para a educação no país teimam, portanto, em desconhecer a relação entre uma formação deficiente e desaparelhada e a nossa gritante e corrosiva realidade, cujo equacionamento exige medidas urgentes e o concurso de vários agentes realmente comprometidos com a educação. Soluções ad hoc e exclusivamente econômicas serão circunstanciais, até porque se sabe que a cobrança de mensalidades não resolve problemas de financiamento, assim como “exigir no futuro, quando empregados e com renda adequada (5)” que os estudantes pobres possam ressarcir a sociedade dos custos da sua educação, é ideia envolta em incertezas, pois não há dúvida de que é quase impossível construir projeções em uma “sociedade líquida”, para acompanhar a formulação do sociólogo polonês Zigmunt Bauman. A problemática do ensino, em especial das universidades públicas, é de outra ordem: refere-se ao papel inclusivo que elas cumprem no Brasil. Segundo os dados da Andifes, nas universidades federais mais de 70% dos estudantes provêm de famílias que contam com um e meio salário mínimo per capita; o contingente da chamada população composta de pretos, pardos e indígenas – PPI – ultrapassou 50%. A pergunta sobre o que fazer deve comportar o reconhecimento desse contexto complexo e estridente. As informações da Associação dos Reitores corroboram o fato de o ensino superior público vir respondendo aos desafios da sociedade brasileira e cumprindo o seu papel de absorver e formar estudantes oriundos das camadas populares, democratizando o acesso. O corte dos recursos nessas instituições terá impacto nas políticas de acolhimento dessa parcela de jovens, cujos pais não frequentaram universidades, pois, na sua maioria, os alunos atualmente matriculados foram os primeiros das suas famílias. Senão por mais nada, não se apoia um setor em detrimento de outro que, reconhecidamente, tem cumprido a missão de ampliar as oportunidades de ingresso, em especial no âmbito das disciplinas humanísticas e artísticas.

Quando, já na década de 1980, o educador Darcy Ribeiro afirmou que “se os governantes não construírem escolas, em 20 anos faltará dinheiro para construir presídios”, ele chamava atenção para a ingente escolha civilizatória da educação. A expansão das organizações prisionais nos últimos anos comprova o quanto essas palavras eram premonitórias e indicativas da imprescindibilidade de formação educacional, único caminho para contornar as desigualdades existentes e preparar a juventude para viver e atuar nas sociedades contemporâneas, submetidas ao ritmo vertiginoso de mudança. A intenção do Ministério da Educação de descentralizar os investimentos nas Humanidades, especificamente nos cursos de Filosofia e Sociologia, ignora a natureza dessas disciplinas e descura as implicações da medida.

A concepção de que as Humanidades e as disciplinas da cultura são apenas ilustrações dispensáveis é avessa às exigências das sociedades do futuro, da inovação, da inteligência artificial. Estas requerem profissionais flexíveis e ágeis, capazes de rever constantemente decisões, aptos a encontrar soluções criativas, no contexto de uma sociedade na qual o futuro é uma incógnita, sugerindo inexistir projeções seguras sobre as profissões mais ajustadas à realidade que se anuncia.

Para isso, será necessário um novo conhecimento científico, de formato interdisciplinar, cuja apropriação social e ligação com a prática não sejam externas à própria operação de conhecimento, atributos inerentes às Humanidades. A vocação fundamental das Ciências Humanas reside no compromisso com a reflexão pública, cidadã, destinada ao coletivo e ao bem comum, princípios que embasam as sociedades democráticas. Confunde-se, por isso, com as demandas educacionais do novo tempo.
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1 Sérgio Almeida. “Não basta querer verbas para as universidades”. Ilustríssima, Folha de S. Paulo, 26 de maio de 2019, p 3.

2 Sobre o crescimento da produção científica brasileira, especialmente da USP: José Goldemberg. “Em busca da excelência”. In: Universidade em MovimentoMemória de uma crise. Jacques Marcovitch (org.), Com Arte, são Paulo, 217, p 79-96.

3 Daniela Brant e Paulo Saldanha. “Orçamento do MEC tem perdas reais desde 2015 após série de cortes”. Cotidiano. Folha de S. Paulo, 26 de maio de 2019, p 1.

4 Cf: Idem, ibidem.

5 Sérgio Almeida, opus cit.
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*Professora titular de Sociologia e diretora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP
Por - Editorias: Artigos - URL Curta: jornal.usp.br/?p=249754
Fonte:  https://jornal.usp.br/artigos/educar-para-o-futuro/ 03/06/2019

Sobre Neymar Junior, "nudes " e moralidades: a tentativa de forjar a mulher abjeta


Joana das Flores*
 https://dialogosdosul.operamundi.uol.com.br/thumb/NzdiMGE3NWYyOWZjMzFhMDFmNjRiZjMwYjExMGE1YzZfYmY2MmNjMjM3YzBhYWVlYzE0Yjk1NTlhMGU1ZGJhNWQucG5n
É inacreditável que Neymar Junior queira presunção de inocência tendo vazado fotos íntimas de uma mulher para dizer: "olha! ela não é santa, ela pediu"

O "caso Neymar" (e vejam que o protagonismo dado ao jogador pela mídia não é neutro, pois o caso é dele) mostra mais uma vez as relações desiguais, subordinadas e violentas entre homens e mulheres.
Não foram poucos os casos desde o uso das redes de denúncias, constrangimentos e suicídios de mulheres após publicação de fotos e vídeos íntimos. Quando uma mulher manda um nude ou um vídeo, a relação estabelecida ali é com o sujeito, ou melhor dizendo com o Outro. 

Para essa mulher sempre há o Outro - e Simone de Beauvoir está aí para ser lida e relida. Mas, nem sempre esse Outro guarda relação de reciprocidade com nós, mulheres. Em poucos minutos, as fotos e os vídeos circulam nos grupos e ela é adjetivada de "vara pau"; "Só zoeira"; "pra não casar", "engole tudo" e etc.

Nesses grupos e em tantos outros, os caras chegam a compartilhar o contato das mulheres com quem saem para que os outros integrantes possam livremente mandar mensagens, como um insuspeito “oi”, vindo de um estranho que tenta desenrolar uma conversa. Há também o sistema de notas e tabela do que elas fazem e não fazem. Importa dizer isso para nos darmos conta de que a nossa intimidade, o nosso desejo, a nossa capacidade de exercer objetificação é posta em xeque por homens como Neymar.


Facebook
Neymar Jr

O que isso significa? Que tratar de temas eróticos, mandar nudes, falar sacanagens, demarcam um lugar fixo de mulher para o sexo e não é o lugar que nós reivindicamos. 

Neymar e muitos outros partem do pressuposto de que ao mandar nudes, ao interpelar e assumir um lugar de igual no rito do desejo, na troca de fotos, o sexo não é mais mediação, torna-se ação sem consentimento, porque parte não da relação com a Outra, mas de si para si - vira uma masturbação no corpo alheio. O gozo vem dessa opressão, do uso da força, da intimidação e do poder. 

Nesse rito, o homem coloca toda a sua força, violência e incapacidade libertária com a própria sexualidade, por isso o estupro machuca e, na maioria das vezes, faz sangrar. 

Esse ato em que impera a vontade soberana de um manifesta o anulamento total da Outra, do desejo, do erotismo e do próprio corpo, desenvolvendo assim uma subjetivação violenta, provocando o trauma de muitas, muitas mulheres na rejeição do próprio corpo e sexualidade. "Um estupro é uma cicatriz em permanente cicatrização". Esse corpo, que seria então expressão de tesão, de liberdade, é recolocado no lugar socialmente histórico da opressão, da submissão, do risco e da vulnerabilidade. 

É como se Neymar e tantos outros dissessem: "olha quem manda" ou “provocou agora aguenta". Não são frases ditas entre quadro paredes, são frases clássicas do patriarcado. Neymar e muitos outros buscam naturalizar essa violência e a forma mais predatória é pela via da moralidade, ou seja, é preciso provar que essa mulher não é santa, é quase uma puta, ou talvez seja uma disfarçada.  

Cria-se, de toda forma, o contra-discurso da verdade soberana e mais uma vez somos nós as abjetas, seres sem sentimento, sem vida e dignidade, na medida em que para assegurar a sua inocência claramente requer o lugar da vítima, mas não de qualquer vítima. É uma contradição clara, óbvia, mas encoberta pelo véu da moralidade. 

Por isso, não estranho que agora xs moralistas de plantão apontem seus dedos rechaçando os nudes da mulher. Inacreditável que o crime de estupro seja encoberto e reduzido ao nudes. Mais inacreditável é Neymar querer presunção de inocência tendo vazado fotos íntimas dela, para dizer: "olha! ela não é santa, ela pediu". 

É o mesmo discurso contra mulheres que se vestem com roupas curtas. Não estamos diante de uma situação simples, estamos diante do uso da nossa intimidade para formação de indícios de culpabilidade contra nós. É o fim dos tempos! Nós, Mulheres não podemos aceitar isso!
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* Joana das Flores é doutoranda em Serviço Social pela Puc/RS. Autora dos livros "Para além dos Muros: as experiências sociais das adolescentes na prisão" ( Revan, 2017) e "Meninas e Território: criminalização da pobreza e seletividade jurídica" (Cortez, 2018).

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Paula Peron: “Muita gente votou querendo governar a sexualidade dos outros”

 Pixabay
“As famílias e as amizades foram rompidas por algo que 
já estava presente”, diz a psicanalisa Paula Peron
 
Paula Peron, professora da PUC-SP, analisa como a sexualidade tem sido central no debate político brasileiro 
 
Desde as eleições de 2018, tem sido recorrente a presença da sexualidade como um dos temas centrais no debate político. De notícias falsas sobre mamadeiras em formato de pênis, a tweets do presidente Jair Bolsonaro sobre golden shower, passando por comentários da ministra Damares “denunciando” a orientação sexual de Elza, personagem do desenho animado Frozen, da Disney. Isso pode parecer curioso para alguns, mas para a psicanálise faz todo o sentido.

“O que ficou claro nas últimas eleições é como o recorte da sexualidade foi muito explícito e central. Eu acho que muita gente votou querendo legislar, querendo governar o campo da sexualidade das outras pessoas”, afirma a psicanalista Paula Regina Peron, professora da faculdade de psicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Em entrevista à Revista AzMina, ela analisa porque a sexualidade tem ocupado um espaço tão grande no debate político brasileiro atual.


“Quanto mais o sujeito está inseguro da sua posição, mais o outro múltiplo ameaça, mais é provocador”, afirma. “A questão dos grupos gays e grupos queers dá muita visibilidade para essa diferença. A representação social desses grupos mostra que ali a sexualidade está criativa e e múltipla. Esse grupo me ameaça porque está indicando que há muitas outras formas de partilhar dos prazeres.”

Leia a entrevista completa:

AzMina: Você acha que o debate político tem sido feito ao redor da sexualidade? Por quê?
Paula: Eu não acho que dá pra reduzir a decisão das eleições à questão da sexualidade. Mas do ponto de vista da psicanálise, a questão da sexualidade foi central na decisão das eleições passadas. E sobre o debate hoje, depende um pouco sobre como a gente pensa o campo da política. Eu tenho lido e me reconheço mais nos autores que dizem que a política é o campo do poder e dos afetos.

Pensar a política como racionalidade não dá conta para a gente entender muitas das questões que a política coloca. Associar isso [sexualidade] ao poder quer dizer que na política a gente está sempre fazendo alguma incidência de poder sobre os campos da sexualidade. Então eu não acho que seja um fenômeno restrito das últimas eleições, acho que isso opera sempre. O que ficou claro nas últimas eleições é como o recorte da sexualidade foi muito explícito e central. Eu acho que muita gente votou querendo legislar, querendo governar o campo da sexualidade das outras pessoas.

Pode explicar o que exatamente você quer dizer quando fala em sexualidade?
Não tem como ser psicanalista e não colocar na leitura do humano a sexualidade e a agressividade. São premissas fundamentais desse campo. Como a gente justifica essa premissa? Dizendo que os sujeitos humanos estão sempre em busca do prazer, esse é um substrato de funcionamento psíquico. Falar de sexualidade significa falar do prazer. E significa falar como cada um dos sujeitos vai buscar caminhos de busca de prazer no cenário civilizatório.

Freud diz que o corpo humano é regido pela busca pelo prazer, mas não segundo um roteiro prévio definido pela espécie. Um bicho tem um objeto de prazer definido, o ser humano não tem um objeto de prazer definido. Freud coloca que o limite civilizatório é uma questão conflitiva para o sujeito. Pertencer a civilização é fazer compromisso nesses dois fatores, a busca do prazer e a destrutividade. Quando falo de sexualidade, falo dessa busca pelo prazer.

A psicanálise consegue explicar por que a sexualidade ocupa um espaço tão grande em um debate que, em tese, é para ser racional?
Porque é por meio da política que a gente organiza pactos sociais para controle dos corpos e da sexualidade. A política é um campo disciplinar. É a partir dela que a gente desenha acordos comuns para legislar sobre esses campos (dos corpos e da sexualidade). Mas é óbvio que esses acordos comuns não incluem todos, porque eles representam poder. Os pactos são representativos do poder de alguns, não de todos.

No debate político, a preocupação com a sexualidade dos outros e não só dos próprios indivíduos tem sido relevante. Por que você acha que isso acontece?
Para Freud e para os grandes psicanalistas posteriores, a gente desenha os próprios limites como “eu” sempre no campo dos outros. Sempre no contraste com os outros. Isso é parte da constituição de quem somos. Conforme a criança vai se constituindo, ela vai fazendo essa limitação entre o que é ela e o que é outro. Isso implica um embate entre ela e o outro. O embate com o outro está no cerne da origem do que sou eu.

E o outro além de ser o aquele com quem faço embate para estabelecer os limites do meu próprio eu, ele é também  aquele que representa uma outra forma de prazer. Então eu estou sempre fazendo uma vigilância do que o outro está obtendo em termos de prazer, ou se está obtendo mais que eu, se ele está tendo alguma vantagem.

E a questão dos grupos gays e grupos queers dão muita visibilidades para essa diferença. A representação social desses grupos mostra que ali a sexualidade está criativa e está múltipla. Se tem uma coisa que tradicionalmente a cultura gay traz é mostrar a invenção de modalidades de relação, de modos de vida, de valores de vida. Então ela vira algo para esses que estão fazendo a vigilância das próprias definições. Se eu estou fazendo a vigilância da minha parcela de prazer social, esse grupo me ameaça porque está indicando que há muitas outras formas de partilhar dos prazeres.

Então ele não só é um outro da diferença, mas ele é um outro da diferença que acena para toda a diversidade do plano da sexualidade da qual eu abri mão para adquirir uma posição. E quanto mais o sujeito está inseguro da sua posição ou é mais rígido nas fronteiras dessa posição, mais esse outro múltiplo ameaça, mais é provocador.

Então eu preciso tirar esse outro múltiplo do campo dos possíveis, e o que vou fazer? Eu vou dizer que não é uma vida possível, que é abjeta, que é ameaçadora, porque ela perturba a ordem familiar. Claro que perturba a ordem familiar, se a ordem familiar for pensada num sentido restrito. E é bom que ela perturbe.

Você consegue enxergar alguma explicação para o aumento da agressividade e do ódio na discussão política?
A gente não deve tratar os horrores da nossa época como exclusividade histórica. Você teria que desconhecer a nossa história para dizer que nossa época é mais violenta. É claro que algumas formas de ódio ganharam mais espaço.

Sim, eu acho que a questão da inflação do ódio tem muita relação com a necessidade de manter limites rígidos identitários. É uma reação muito espontânea eu odiar o diferente. Agora o que autoriza um adulto a fazer uso disso? É a necessidade de circunscrever o campo do eu. Uma das problematizações que a gente pode fazer frente a presença do ódio na política atual é que o confronto com o diferente convoca o ódio. Isso do lado do sujeito.

Do campo social, eu tenho grupos e forças políticas autorizando a manifestação desse ódio e isso é feito em prol da divisão do poder. Eu autorizo que os sujeitos manifestem o ódio, para que eles pertençam ao meu campo político de poder que está definido ao ataque ao outro diferente. Então não basta falar das benesses do seu grupo, você tem que falar o quanto o outro é ruim, o quanto ele deve ser eliminado, o quanto é detestável, porque faz ameaça ao meu grupo.

Por meio da psicanálise, é possível pensar um caminho para um diálogo político?
As famílias e as amizades foram rompidas por algo que já estava presente. A tensão nesses grupos não é nova. Essa tensão é um dos cernes do conflito do pertencimento. Como é que eu faço para conviver com o outro de quem eu preciso, mas que ao mesmo tempo sempre me ameaça com a diferença? Essa questão é subjacente desses grupos, tanto que os psicanalistas estão carecas de ouvir esses ódios. A família não é um lugar do amor. É um espaço que você se esforça para estabelecer os laços amorosos, que estão atravessados pelo laço da sexualidade.

Já a questão do diálogo, essa é uma porta constante do laço civilizatório, mas ela nunca está garantida. A gente já teve outros grandes momentos históricos de rompimento dos laços sociais construtivos, ou de igualdade e inclusivos. Como retomar o diálogo? O diálogo é uma construção permanente. Não é uma conquista estável. A gente vive agora um momento de rompimento de alguns desses laços. E aí é interessante para gente se tocar de que essas são ameaças constantes e você tem que sempre cuidar delas.

Você consegue pensar uma forma de retomar esse laço de diálogo?
Garantir que os sujeitos circulem entre diferenças. Quanto mais diferenças os sujeitos se aproximarem ao longo do caminho da vida, menos ele precisa atacar, menos a diferença é vista como ameaçadora. Ele vai construindo outras qualidades de vinculação com a diferença. Isso é um ideal, é uma tentativa. Mas a gente nunca vai chegar lá.

O [psicanalista] Christian Dunker, no livro sobre a lógica do condomínio, fala bastante da situação brasileira. Em algum momento das políticas brasileiras, a gente decidiu fazer a privatização dos espaços públicos. Porque o espaço público é a maior arena das diferenças. Anda na rua que você vai ter contato com formas de vida diferentes. A gente fez opção pela privatização que foi criando uma circulação social restrita, onde eu tendo a ver menos o diferente e mais os iguais.

E isso se traduz nos detalhes, na forma de vestir, falar e pensar. Isso foi problematizado por ele como um movimento social amplo. Essa lógica dificulta o trato e a elaboração e o confronto com a diferença. Se trata também de como a gente divide os espaços sociais, de quem a gente inclui e exclui dos espaços sociais. As escolas brasileiras tendem a ser segmentadas. Então na própria infância, a gente já vai colaborando para que a criança não se confronte muito com a diferença.

Você acredita que os políticos fazem uso dessa mobilização dos afetos para conquistar poder?
Acho sim, com a complicação de que muitos desses sujeitos que fazem mobilização desse campo afetivo para conseguir adeptos, eles mesmos são adeptos. A paixão deles está em questão, então eles convocam a paixão dos outros com base nas próprias paixões. Acho que muitos dos que mais convencem são aqueles que sim, são adeptos do que pregam. E eles estão cercados de manipuladores mais racionais, que estão fazendo mais deliberadamente a manipulação dos campos afetivos, para conseguir adeptos.

Agora retomo: um discurso como o de [Donald] Trump [presidente dos EUA] ou de Bolsonaro, é óbvio que tem alguém trabalhando para acentuar as paixões estridentes que esses sujeitos representam. Aí tem projeto político, dinheiro, jogo de poder, que entram em jogo outras máquinas e não só as afetivas. Acho que tem um agenciamento deliberado sim, junto com um cenário de presença de verdadeiros apaixonados. Que convocam, sensibilizam e têm uma conversa direta.
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Reportagem Por Helena Bertho - São Paulo (Brasil) 

domingo, 2 de junho de 2019

A vida dos internos em comunidades terapêuticas é pular de inferno em inferno




‘Pai, não perdoa. Eles sabem o que fazem’. Gleice Barbosa Andrade admite que às vezes falta piedade no pensamento e na reza. Vive inconformada, tentando ajudar o filho a se livrar dos traumas gerados pela violência física e psicológica que ele sofreu em um centro de reabilitação antidrogas.

Há quase um ano, Gleice internou Bernardo* na Comunidade Terapêutica Centradeq-Credeq, em Lagoa Santa, no interior de Minas Gerais, porque estava desesperada, sem saber o que fazer com o filho de 15 anos que se ‘afundava na maconha’. Depois de oito meses pagando R$ 1,8 mil de mensalidade, encontrou o menino muito pior do que quando o entregou ao pastor dono da clínica. Hoje, Bernardo só consegue dormir com remédios e vive constantemente assustado.

O modelo de comunidades terapêuticas, instituições privadas de tratamento a dependentes químicos, é o preferido do governo. Nos últimos cinco anos, essas clínicas – normalmente ligadas à igrejas – receberam pelo menos R$ 250 milhões só da esfera federal. E devem receber mais, com a nova lei de drogas aprovada no Senado. O problema é que elas não têm fiscalização adequada – pior, não há dados objetivos que mostrem a eficiência desse modelo.

Em fevereiro, o Intercept mostrou que a comunidade terapêutica onde Bernardo ficou internado tratava os usuários de drogas com uma terapia baseada na superdosagem de remédios, trabalhos forçados, castigos físicos e humilhações. Apesar de funcionar de forma irregular, desrespeitando a legislação, a Centradeq recebia verbas de famílias e prefeituras e foi selecionada para receber dinheiro do governo federal em 2019. A entidade foi interditada em novembro e o Ministério Público Federal abriu um inquérito civil para apurar as irregularidades.

Mas, segundo o ex-interno Diogo Nogueira, depois da interdição ‘as pessoas que estavam na Centradeq foram libertadas de um inferno para cair em outros’. Conversamos com mais de 20 pessoas, entre ex-internos, familiares e profissionais de saúde, para entender o que aconteceu depois do fechamento da clínica. E encontramos um rastro de desassistência e novos abusos – em outras clínicas.

Uma não, cinco internações

Matheus* é magro, tem a pele morena e o rosto aparenta menos do que os 15 anos que recentemente completou. Seus olhos se movem rapidamente e sua postura transparece inteligência. Quando fala usa gírias e a esperteza de suas frases quase esconde o toque infantil, amedrontado, que existe no fundo de sua voz.

Desde os 12 anos ele roda entre clínicas de reabilitação para usuários de drogas. Passou o último aniversário em sua quinta internação em uma comunidade terapêutica. Nascido em uma pequena cidade no interior de Minas Gerais chamada Alvinópolis, ele já passou por quase todas regiões do estado peregrinando entre clínicas. Viveu nesse vaivém não por vontade própria, mas por consequência das irregularidades flagradas nas clínicas onde foi internado pela prefeitura de sua cidade.

Matheus ficou quatro meses em tratamento na Comunidade Terapêutica DeVida, localizada em Itabirito, a 180 quilômetros de sua cidade natal, até a clínica ser interditada por submeter os internos a superdosagem de remédios e maus tratos. Depois do fechamento desta comunidade, foi encaminhado para a Centradeq-Credeq, a clínica interditada em Lagoa Santa. Logo após a interdição da outra clínica, foi mandado para a Comunidade Terapêutica Contagem Progressiva, localizada no município de Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte, onde relata que apanhou de monitores ao menos quatro vezes.

“O meu menino, depois de todas essas internações, ficou pior, totalmente traumatizado” conta a mãe de Matheus, Rosineia Aparecida de Oliveira.

‘Não é fácil ver filho da gente com a cabeça atordoada
 e não saber a quem pedir ajuda.’

Há dois meses, depois de a promotoria de Contagem notificar a entidade sobre a ilegalidade da internação de adolescentes, Matheus foi reencaminhado de volta para Alvinópolis. Agora vive em um abrigo municipal, tomando diariamente quatro remédios psiquiátricos tarja preta.

“Não é fácil ver filho da gente com a cabeça atordoada e não saber a quem pedir ajuda, se aqueles que eram para proteger os direitos do meu filho mandaram ele para esses lugares”, desabafa.

Na peregrinação de Matheus em busca de tratamento, todos os parâmetros legais foram desconsiderados. No Brasil, o Estatuto da Criança e do Adolescentes, o ECA, define que crianças e jovens têm direito a tratamento de saúde específico para a idade, educação e convívio familiar. Em Minas Gerais, uma lei estadual proíbe a internação de menores de 18 anos em comunidades terapêuticas.

Mas Matheus foi encaminhado para cinco entidades deste tipo. Duas comunidades terapêuticas onde esteve foram interditadas por comprovação de maus-tratos. Foi retirado às pressas de três, a mando do Ministério Público. E, em pelo menos quatro, sofreu violências. Nas cinco, teve seu direito à educação negado – por isso, largou completamente os estudos. O garoto foi encaminhado para todos esses tratamentos à mando da Justiça, sob conhecimento do Conselho Tutelar e de seu município, que custeou com com dinheiro público as internações.

Internação, a única opção

Apesar de irregular, a história de Matheus está longe de ser um caso isolado.  O Relatório Nacional de Inspeção em Comunidades Terapêuticas, elaborado pelo Ministério Público Federal e Conselho Federal de Psicologia em 2017, aponta que é comum o encaminhamento de adolescentes para comunidades terapêuticas via medida judicial ou através de Conselhos Tutelares. O Intercept encontrou casos de internações deste tipo em todas as regiões do país.

Como o governo não faz fiscalizações sistemáticas em comunidades terapêuticas e não possui dados consolidados sobre o tratamento que oferecem, é impossível contabilizar o número exato de adolescentes que são conduzidos a esse tipo de tratamento.

No entanto, é possível ter uma dimensão da situação a partir de levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, o Ipea, que mostra que uma em cada quatro comunidades terapêuticas acolhem adolescentes no país. Ao menos 470 clínicas deste tipo recebem menores de idade.

59% das comunidades terapêuticas que recebem verba do governo não tiveram nenhum tipo de inspeção 
nos últimos cinco anos. 

Um levantamento feito pelo Intercept via Lei de Acesso à Informação também mostrou que, nos últimos cinco anos, 390 comunidades terapêuticas receberam verbas federais – no total, mais de R$ 250 milhões. Mais da metade delas (59%) não passaram por nenhuma inspeção nesse período.

Desde o governo de Michel Temer, o país tem adotado políticas de drogas baseadas na internação, em detrimento da redução de danos. Esse tipo de abordagem vem depois de um intenso lobby dos donos de clínicas terapêuticas, que têm um ótimo trânsito no Executivo e no Legislativo – Osmar Terra, conhecido defensor da internação compulsória, é Ministro da Cidadania e a frente parlamentar em defesa da saúde mental, que puxa as discussões no Congresso, tem mais de 200 deputados, além de quatro senadores.

Foi o lobby puxado por Osmar Terra, por exemplo, que decidiu engavetar o estudo sobre drogas feito pela Fiocruz, divulgado pelo Intercept em fevereiro. O estudo, o maior do tipo já feito no Brasil, mostrou que não há uma ‘epidemia’ de drogas como alardeia o governo – mas, sim, que o álcool, por exemplo, é um problema muito mais grave. Como o resultado contrariou os interesses do governo, o estudo feito em 2017 está até hoje embargado. O ministro Osmar Terra disse que não “confia” no resultado.

Há pouco mais de duas semanas, os defensores do modelo conseguiram sua primeira grande vitória: a aprovação da nova Lei de Drogas, que transforma as comunidades terapêuticas em protagonistas no atendimento a usuários de drogas, ampliando o financiamento público que recebem. As diretrizes do SUS, até então, indicavam tratamento na Rede de Atenção Psicossocial, a Raps, e internação neste tipo de clínica como um último recurso.

O problema é que essa rede pública nunca foi suficiente. Matheus, por exemplo, nunca teve outras opções além das clínicas privadas antidrogas. A falta de estrutura da vida simples em um bairro isolado, a 36 quilômetros do centro, fez com que o garoto precisasse ‘ser retirado do ambiente para ter algum futuro’, diz a mãe. Ele é considerado ‘o caso difícil’ da cidade, que ninguém sabe muito como lidar. Rosineia gostaria que o filho tivesse a chance de ‘ir para um lugar onde pudesse receber tratamento, mas desenvolver a cabeça, sem parar de estudar, para conseguir aprender uma profissão, um dia”. Enquanto isso não acontece, ele vive em um abrigo público.

É o que tem pra hoje

Matheus deveria ir para uma Unidade de Acolhimento para Adolescentes, residências onde os jovens vivem temporariamente e recebem apoio psicológico, didático e médico. O problema é que, para todo o estado de Minas Gerais, existem só cinco delas. No país, no total, há 2,4 mil Caps – um para cada 100 mil habitantes.

Leitos hospitalares para pacientes psiquiátricos, outra opção de tratamento para situações emergenciais, são ainda mais escassos. Em 2017, o país contava com apenas 236 serviços hospitalares de referência com vagas para saúde mental habilitados. Juntas, essas unidades ofereciam apenas 1.163 leitos. Desses, 73,6% estavam concentrados nas regiões Sul e Sudeste.

Depois que a Cetreq-Centradeq foi interditada, o interno Rômulo, de 55 anos, precisou voltar para casa. Segundo sua esposa, logo que chegou passou duas semanas bebendo pelas ruas. A família, que mora em um pequeno município baiano, está desnorteada. Rômulo, que bebe desde os 12 anos, não quer se tratar. Outra família de ex-interno está em uma situação parecida. Fernanda*, irmã de Pedro*, que estava internado para tratar a dependência do álcool, conta que teve que arranjar às pressas outra internação compulsória para o irmão. “Ele chegou em casa e ficou transtornado. Quebrou o braço do meu pai no fim da primeira semana e, por mais que eu saiba que não foi por mal, não tinha como ele ficar lá”. Ela conseguiu que uma amiga lhe ajudasse a pagar outra clínica.

Nas mais de 20 entrevistas feitas para esta reportagem, frequentemente familiares de usuários apontaram as comunidades terapêuticas como ‘a opção que resta’. Mas não há evidências de que o tratamento que elas oferecem realmente funcione. Embora o governo continue injetando dinheiro nesses espaços, não há números que mostrem que essa verba está, de fato, servindo para a recuperação de dependentes.

Procurada em 2018, a Secretaria Nacional de Política Sobre Drogas, a Senad, pasta responsável pelos repasses financeiros, não apresentou levantamentos que mostrem o sucesso do tratamento oferecido pelas entidades. Entramos em contato com o órgão novamente, mas não tivemos resposta.

Em entrevista, pedimos ao atual secretário de Cuidados e Prevenção ao Uso de Drogas, Quirino Cordeiro Júnior, levantamentos sobre eficácia dos tratamentos contratados pelo órgão federal. O secretário disse que não tinha os dados, pois eles estavam em outra secretaria – a Senad. No entanto, quando procuramos a Senad, começou o empurra-empurra: fomos informadas que esse tipo de informação agora é responsabilidade da secretaria coordenada por Quirino Cordeiro, a Senapred. 

A falta de transparência nos dados sobre a eficiência do serviço prestado por Comunidades Terapêuticas não afeta o discurso do governo. Em uma audiência pública em Brasília, na semana passada, Osmar Terra afirmou que a meta agora é contratar 20 mil vagas nessas entidades. Se o objetivo for alcançado, o número de entidades recebendo verbas federais duplicará. 
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Reportagem por Clarissa Levy - 31 de Maio de 2019, 0h03
Fonte: https://theintercept.com/2019/05/30/comunidades-terapeuticas-internos/?utm_source=The+Intercept+Brasil+Newsletter&utm_campaign

“Não vou resolver na raça”

Jair Bolsonaro 
 DIFICULDADES - Para Bolsonaro, a cadeira presidencial é “como se fosse criptonita 
para o Super-­Homem” (Cristiano Mariz/VEJA)

Bolsonaro fala dos erros e dos acertos do governo, de Fabrício Queiroz, de Olavo de Carvalho, de Lula e do dia em que teve o encontro com a morte 

A entrevista com Jair Bolsonaro estava marcada para as 10 horas de quarta-feira. Às 10h15, um ajudante de ordens indicou o caminho do gabinete, que fica no 3º andar do Palácio do Planalto. O presidente explicou o motivo do atraso: meia ­hora antes, ele decidira ir ao Congresso Nacional prestigiar uma homenagem que estava sendo feita ao comediante Carlos Alberto de Nóbrega, apresentador do programa A Praça É Nossa, de quem se diz fã. O problema é que ele não avisou ninguém com antecedência. Assessores, cerimonial, equipe de segurança — todos foram apanhados de surpresa. Acompanhado do general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional, o presidente atravessou a pé os cerca de 100 metros que separam o Planalto do Congresso. De volta, fez piada com a suposta dificuldade de Heleno, de 71 anos, em completar o trajeto. “Ele está meio empenado, mas me garantiu que o problema é apenas da cintura para cima”, disse, rindo. Formalidade não é a principal virtude do presidente.

Por medida de segurança, a sala envidraçada do gabinete agora permanece com as cortinas fechadas. É uma preocupação compreensível. Cada um tem a sua. O ex-presidente Michel Temer, por exemplo, evitava usar a mesa de trabalho. Dizia que não se sentia bem quando sentava na cadeira, que irradiaria uma energia negativa, assim como não se sentiu bem em morar no Palácio da Alvorada, onde, jurava, ouvia barulhos estranhos durante a madrugada. Coisa de assombração, segundo ele. No caso do atual presidente, as assombrações são outras. Durante duas horas, Bolsonaro falou sobre reformas, desemprego, reeleição, os filhos, o amigo enrolado Fabrício Queiroz, o guru Olavo de Carvalho, trapalhadas de ministros, Lula, o PT, sabotagens, tuitadas e o atentado que sofreu durante a campanha, tema que, ao ser invocado, mudou completamente o ritmo da conversa, a fisionomia e o humor do presidente.

Bolsonaro até hoje se emociona ao falar do ataque que sofreu. “Você vê passar um filme na sua cabeça, vem uma imagem na sua cabeça… a minha filha Laura, de 7 anos… ”. O presidente não conseguiu concluir a frase, com a voz embargada, e chorou. “No primeiro momento, eu não vi que era uma faca. Parecia um soco, uma bolada. Vi o rasgo e pensei que era uma porrada, um soco inglês…”. Nova interrupção. O presidente respirou fundo. Um assessor lhe entregou uma caixa de lenços de papel. Para ele, o dia 6 de setembro de 2018, quando foi esfaqueado pelo garçom Adélio Bispo de Oliveira, ainda não acabou. Bolsonaro tem duas certezas sobre esse caso. A primeira: um milagre salvou sua vida. A segunda: há uma enorme conspiração por trás do crime. A seguir, os principais trechos da entrevista exclusiva do presidente a VEJA.

O senhor já se acostumou com a função de presidente da República? Já consegui fazer aquilo que prometi durante a campanha, coisa que eu desconheço que qualquer outro presidente tenha feito: indicar um gabinete técnico, respeitar o Parlamento e cumprir o dispositivo constitucional da independência dos Poderes. Agora, a pressão aqui é muito grande, tem interesses dos mais variados possíveis, tem aquela palavra mágica que a imprensa fala muito, governabilidade. Me acusam muitas vezes de não ter governabilidade. Eu pergunto: o que é governabilidade? Nós mudamos o jeito de conduzir os destinos do Brasil. Hoje, cinco meses depois, eu sinto que a maioria dos parlamentares entendeu o que está acontecendo. Muitos apoiam a pauta do governo. E esse apoio está vindo por amor à pátria, por assim dizer. A gente não pode continuar fazendo a política como era até pouco tempo atrás. Estávamos no caminho da Venezuela. Respondendo a sua pergunta, já passei noites sem dormir, já chorei pra caramba também.

Por quê? Angústia, né? Tá faltando o mínimo de patriotismo para algumas pessoas que decidem o futuro do Brasil. O pessoal não está entendendo para onde o Brasil está indo. Não preciso dizer quem são essas pessoas. Elas estão aí. Imaginava que ia ser difícil, mas não tão difícil assim. Essa cadeira aqui é como se fosse criptonita para o Super-­Homem. Mas é uma missão, entendo que Deus me deu o milagre de estar vivo. Nenhum analista político consegue explicar como eu cheguei aqui, mas cheguei e tenho de tocar esse barco.

INDIGNAÇÃO – Adélio: a decisão da Justiça de declará-lo inimputável aborreceu o presidente (Ricardo Moraes/Reuters)

“Esse cara aí viajava o Brasil todo, esse cara 
aí tinha um cartão de crédito, esse cara frequentou academia de tiro em Santa Catarina, foi filiado ao PSOL até 2014. 
É tudo muito suspeito”

Qual é a missão mais difícil? As propostas que você quer apresentar e como elas podem ser interpretadas pelo Parlamento. Veja a questão dos caminhoneiros. De vez em quando aparece aí o fantasma da paralisação que mexeu com a economia do Brasil. O que a gente tem de fazer para antecipar problemas? Por que não aumentar o limite na carteira para 40, 50 pontos? Alguns vão criticar: “Pô, o cara aí quer relaxar na questão do trânsito”. Mas eu fiz isso. Chamei o Tarcísio (de Freitas, ministro da Infraestrutura) e disse “não quero mais saber de novos pardais”. Isso, às vezes, é mal interpretado. Por outro lado, você vai ganhando a simpatia da população e ela acaba entendendo que você quer fazer a coisa certa. No macro, é a reforma da Previdência, que é a mãe das reformas, e depois a tributária, que está para ser discutida.

O que o senhor realmente pensa sobre a reforma da Previdência? A cabeça de um parlamentar era uma coisa, a cabeça de um presidente, agora com acesso aos números, é outra. Na Câmara, muitas vezes você tem uma informação de orelhada. Por isso, eu sempre fui contra a reforma da Previdência. O que faz a gente mudar? A realidade. O Brasil será ingovernável daqui a um, dois, três anos. Se a reforma da Previdência não passar, o dólar pode disparar, a inflação vai bater à nossa porta novamente e, do caos, vão florescer a demagogia, o populismo, quem sabe o PT, como está acontecendo na Argentina, com a volta de Cristina Kirchner. O Brasil não aguentaria outro ciclo assim.

Aprovada a reforma da Previdência, o que o senhor vislumbra na sequência? Vamos partir para a reforma tributária e para as privatizações. Já dei sinal verde para privatizar os Correios. A orientação é que a gente explique por que é necessário privatizar. No caso dos Correios, o PT destruiu a empresa. A bandalheira era tão grande que o fundo de pensão dos funcionários, que hoje está quebrado, fez investimentos em papéis da Venezuela. Com que interesse? Pelo amor de Deus! Então, temos de mostrar à opinião pública que não tem outro caminho a não ser privatizar os Correios. Será assim com outras estatais. Há muitos cabides de emprego dentro do governo.

Presidente, para quando o senhor espera a diminuição do atual nível de desemprego? O general Mourão acabou de chegar da China. Lá também tem desemprego. Mas há uma diferença. Quando os chineses quiseram fazer a usina hidrelétrica de Três Gargantas, só avisaram: “Olha, daqui a dois anos a água vai subir, se vira”. No Brasil você não faz isso. Aqui, Belo Monte está sendo construída há quase dez anos. E existe um outro problema. Uma parte dos nossos milhões de desempregados não se encaixa mais no mercado de trabalho, por falta de qualificação. Há também os universitários que só têm diploma. Alguns acham que gastar mais dinheiro é sinal de que está melhorando a educação. Tem país que gasta per capita menos que nós e tem uma educação muito melhor. A situação não está nada bacana. Essa é a realidade.

Mas o Ministério da Educação em seu governo será um exemplo de eficiência? Errei no começo quando indiquei o Ricardo Vélez como ministro. Foi uma indicação do Olavo de Carvalho? Foi, não vou negar. Ele teve interesse, é boa pessoa. Depois liguei para ele: “Olavo, você conhecia o Vélez de onde?”. “Ah, de publicações.” “Pô, Olavo, você namorou pela internet?”, disse a ele. Depois, tive de dar uma radicalizada. Em conversas aqui com os meus ministros, chegamos à conclusão de que era preciso trocar, não se pode ter pena, e trocamos.

Qual é o nível de influência que o filósofo Olavo de Carvalho tem no governo? Nenhum. O Olavo foi uma pessoa importante na minha campanha. Ele vinha disseminando os ideais da direita havia muito tempo, uma visão que abriu a cabeça de muita gente. Então, de alguma forma, ajudou na minha eleição. Mas raramente eu converso com o Olavo. Ele tem a sua liberdade de expressão, e ponto. Quantas vezes eu fui chamado de ladrão, safado, sem-vergonha, homofóbico, racista. Eu fico quieto? Agora, se ele responde às agressões de lá… O Olavo não faz por maldade. Ele, pela idade talvez, quer as coisas resolvidas mais rápido. Talvez seja isso aí.

EMINÊNCIA – O guru Olavo de Carvalho: pivô de crises no governo (Jay Westcott/Getty Images)

“Ele foi uma pessoa importante na minha campanha. Vinha disseminando os ideais da direita, uma visão que 
abriu a cabeça de muita gente. Mas raramente 
converso com o Olavo”

A questão do Ministério da Educação está resolvida então? Tive de escolher. Chegaram vários currículos aqui, de pessoas bacanas. Mas aquilo é um campo minado, pessoas concursadas, militantes. Quando vazou aquela história de que o MEC estava orientando a cantar o Hino Nacional, a filmar os estudantes e tudo debaixo do slogan “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, eu cheguei: “Pô, Vélez, tem uma lei do Lula que diz para cantar o Hino Nacional, conforme eu conversei contigo. Por que colocar o slogan ‘Brasil acima de tudo’? Quem escreveu isso lá?”. “É, foi o meu gabinete.” “Demita o cara, pelo amor de Deus.” Foi para sabotar o ministro.

Há outros casos de sabotagem dentro do governo? Claro. É uma luta pelo poder. Há sabotagem às vezes de onde você nem imagina. No Ministério da Defesa, por exemplo, colocamos militares nos postos de comando. Antes, o ministério estava aparelhado por civis. Havia lá uma mulher em cargo de comando que era esposa do 02 do MST. Tinha ex-deputada do PT, gente de esquerda… Pode isso? Mas o aparelhamento mais forte é mesmo no Ministério da Educação. Eu não sou contra você falar nas escolas, nas universidades sobre quem foi, por exemplo, Che Guevara. Mas tem de falar também quem foi Brilhante Ustra (coronel do Exército apontado como torturador durante o governo militar), com verdades, e não com mentiras.

Como o senhor vê o papel da esquerda no Brasil? Há poucas semanas teve o deputado petista Paulo Pimenta defendendo o Maduro, discursando. Esse pessoal todo da esquerda defende o Maduro. Será que nós queremos isso para o Brasil? Ou o cara está com o cérebro corroído por alguma coisa ou é maluco. Não tem outra explicação. O que eles pregam não deu certo em lugar nenhum do mundo e continuam defendendo. No governo Lula foi criada uma dezena de estatais e no governo Dilma elas foram ampliadas. Temos de ficar livres desse peso.

O presidente Lula, pelo Twitter, tem postado críticas ao senhor e a seus filhos. Em 1986, quando eu fiz aquele artigo na revista VEJA em que defendi aumento de salário para os militares, fui punido acertadamente pelo ministro do Exército com quinze dias de prisão. Minha prisão não foi dentro de uma cela, foi dentro do quartel. Porque eu não era uma pessoa perigosa para estar trancafiado naquele local. E mesmo dentro do quartel você sente. Imagine o Lula dentro de uma cela. O cara sente. Costumo dizer muitas vezes: se você está comendo coisa não muito boa e passa a comer uma coisa boa, legal. Mas, quando você está comendo bem e volta a comer uma coisa ruim, você sente. Ele saiu de uma situação de líder para a de um cara preso, condenado por corrupção. Apesar disso, não tenho nenhuma compaixão em relação a ele. Ele estava trabalhando para roubar também a nossa liberdade.

DA CADEIA – Lula: críticas a Bolsonaro pelas redes sociais (Ricardo Stuckert/.)

“Ele saiu de uma situação de líder para a de um cara preso, condenado por corrupção. Apesar disso, não tenho nenhuma compaixão por ele. Ele estava trabalhando para roubar
 também a nossa liberdade” 

Muitos consideram o seu governo uma ameaça à democracia. Os caras usam o período militar, o fato de eu ser capitão do Exército, como se aquele período fosse um período de terror. Acho que na balança houve muito mais coisa positiva do que negativa. Se não fossem os dois choques do petróleo, o Brasil estaria muito melhor. Qual ditadura faz uma campanha “Brasil, ame-o ou deixe-o”? Você imagina a Coreia do Norte e Cuba fazendo isso daí? Não fica ninguém lá, pô! Então fale as coisas ruins, tudo bem, mas fale as positivas também. Isso é democracia.

Como o senhor avalia a atuação da bancada do PSL, o seu partido? É um partido que foi criado, na verdade, em março do ano passado e buscava pessoas, num trabalho hercúleo no Brasil. Então nós fomos pegando qualquer um: “Quebra o galho, vem você, cara, vamos embora”. E tem muita gente que entrou e acabou se elegendo com a estratégia que eu adotei na internet. Só para ter uma ideia, o Major Olimpio, que estava em quarto em São Paulo, passou a ser o primeiro e se elegeu senador. Eu falava: “Clica aqui. Vote em um desses colegas nossos”. Teve muita gente que falou para mim: “Nossa, eu não esperava me eleger”. Por isso o pessoal chegou aqui completamente inexperiente, alguns achando que vou resolver o problema no peito e na raça. Não é assim.

Existe possibilidade de o senhor mudar de partido? Quando a gente se casa, a gente jura amor eterno. Está respondido?
Como o senhor vê o retorno de propostas de mudança de sistema de governo? Vamos por partes. O Congresso quer participar do governo como antigamente. Alguns pelo menos. Então sabe que a gente vai cumprir o que prometeu durante a campanha. Agora todos os ministérios estão abertos para o Congresso. Todo mundo é bem recebido e, havendo recurso e sendo justo, a gente repassa. O parlamentarismo foi tentado duas vezes, se não me engano. É preciso realizar um plebiscito. O povo, no meu entender, não seria favorável.

Seria uma maneira de esvaziar o poder do presidente? A luta pelo poder existe até dentro de casa. A minha mulher, por exemplo, no passado só podia ir ao shopping na hora do jogo do Palmeiras ou do Botafogo. E daí ela fala: “Você vê futebol todo fim de semana”. “E você vê novela seis dias por semana e não reclamo.” Não é um problema. É natural.

O seu comportamento pouco formal é alvo de críticas. O senhor não exagera? Você deve estar falando do dia em que apareci com a camisa do Palmeiras. Eu estava em recuperação. Tinha de usar roupa larga. A matéria de vocês acabou sendo favorável. A camisa era falsificada mesmo. Não vou falar de onde, mas, depois, chegaram três malas de camisas oficiais do Palmeiras. Tem muitas camisas — todas originais. Não fiz aquilo para aparecer. Foi maldade de vocês.

O senhor já recebeu alguma demanda não republicana? Sim, mas é coisa raríssima. Uma ou duas vezes apareceu gente aqui pedindo alguma coisa que a gente sabe que tem algo por trás. A gente compõe, conversa, não cede, até porque, se você ceder uma vez, já era. Aí você escancara a porteira. Compare os meus ministros com os do Temer, da Dilma e do Lula. Quem você acha que tem o melhor ministério nos últimos anos? A gente vai ganhar de todo mundo. Uma ou outra exceção, talvez.

Qual a importância da comunicação via Twitter? Acho que sou a pessoa que consegue atingir mais gente no mundo, tem mais interações, mais engajamento. Foi meu filho Carlos que começou a fazer isso daí — e foi muito importante no sucesso de nossa campanha.

O Carlos continua autorizado a postar na sua conta? O Carlos tem muita impetuosidade, quer resolver as coisas muito rapidamente. De vez em quando há um atrito entre mim e ele em função da velocidade com que ele quer resolver as questões.

Na campanha, o senhor disse que seria implacável com a corrupção. E sou. Mas não posso punir ninguém antes de a culpa ficar minimamente demonstrada. Veja o caso do ministro Marcelo Álvaro Antônio, investigado por irregularidades eleitorais. Eu tenho um compromisso com o Moro. Tem de ter algo de concreto. Só em cima de denúncias fica complicado. Ele nem é réu ainda, não foi denunciado. Deixa apurar um pouquinho mais. Meu filho Flávio, por exemplo, é acusado de envolvimento com laranjas no Rio de Janeiro. Cada candidato recebeu 2 800 reais do partido. Então não vai falar em laranjal com essa importância de recursos. “E foi dinheiro para quê?”, perguntei a ele. “Para poder pagar contador e as despesas que os candidatos tiveram durante a campanha”, porque entraram na chapa para compor. Depois, resolveram não fazer campanha. É um absurdo.

O Ministério Público pediu a quebra dos sigilos do Flávio. Isso o preocupa? Lógico. Se alguém mexe com um filho teu, não interessa se ele está certo ou está errado, você se preocupa. Eu estava em casa quando estourou o primeiro momento no Jornal Nacional. Um milhão de reais para pagar um apartamento, não sei o quê. Eu estava com meu filho Eduardo em casa, e eu conversando com ele: “Vou falar com o Flávio, perguntar o que é isso, o cara pegando dinheiro do Queiroz e pagando apartamento de 1 milhão de reais”. Flávio pagou um título bancário de 1 milhão de reais à Caixa Econômica. Ele quitou um financiamento com o banco depois de ter transferido os débitos que tinha com a construtora para a Caixa. Os documentos estão registrados em cartório. Pô, o cara era deputado, a esposa dele é dentista, tem uma renda, e a Caixa queria comprar a dívida dele. Consequentemente, ele assume a dívida não mais com a construtora, mas com a Caixa, pagando um pouquinho menos. Assim foi feito. Ponto-final.

ZERO UM E ZERO DOIS – Flávio e Carlos: movimentações bancárias e impetuosidade (Adriano Machado/Reuters)

“Se alguém mexe com um filho teu, não interessa se ele está certo ou está errado, você se preocupa. (… ) O Carlos tem muita impetuosidade. De vez em quando há um atrito 
aqui entre mim e ele em função da velocidade 
com que ele quer resolver as questões”

Mas houve denúncias de que ele fazia os depósitos picados na conta dele para esconder a origem do dinheiro. São os tais 96 000 reais em depósitos de 2 000. Ele vendeu um apartamento, recebeu em dinheiro e fez os depósitos na conta dele. Um relatório do Coaf diz que, entre junho e julho de 2017, foram identificados 48 depósitos, de 2 000 reais cada um, na conta do Flávio. O valor de 2 000 é o máximo permitido para depósitos em envelope no terminal de autoatendimento da Assembleia Legislativa do Rio. Falaram que os depósitos fracionados eram para fugir do Coaf. Dois mil reais é o limite que você pode botar no envelope. O que tem de errado nisso? Aí vem o Queiroz. Realmente tem dinheiro de funcionário na conta dele. O Coaf disse que há movimentações financeiras suspeitas e incompatíveis com o patrimônio do Queiroz. Mas quem tem de responder a isso é o Queiroz.

 
INVESTIGADO – Fabrício Queiroz, amigo do presidente: suspeita de rachadinha (SBT/Reprodução)

“Estou chateado porque teve os depósitos na conta dele, 
ninguém sabia disso, e ele tem de explicar. 
Eu conheço o Queiroz desde 1984. Foi meu 
soldado na Brigada de Infantaria”

O senhor continua considerando o ex-policial Fabrício Queiroz como amigo? Estou chateado porque houve depósitos na conta dele, ninguém sabia disso, e ele tem de explicar isso daí. Eu conheço o Queiroz desde 1984. Foi meu soldado, recruta, paraquedista na Brigada de Infantaria Paraquedista. Ele era um policial bastante ativo, tinha alguns autos de resistência, contou que estava enfrentando problemas na corporação. Vocês sabem que esse pessoal de esquerda costuma transformar muito rapidamente auto de resistência em execução. Aí começou a trabalhar conosco. E você sabe que lá no Rio você precisa de segurança. Eu mesmo já usei o Queiroz várias vezes. Teve um episódio dele com o meu filho em Botafogo, um assalto na frente de casa, e o Queiroz, impetuoso, saiu para pegar o cara. Então existe essa amizade comigo, sim. Pode ter coisa errada? Pode, não estou dizendo que tem. Mas tem o superdimensionamento porque sou eu, porque é meu filho. Ninguém mais do que eu quer a solução desse caso o mais rápido possível.

Na campanha, o senhor se dizia contra a reeleição. O que mudou? O que eu falei é que se a gente fizer uma boa reforma política eu topo ir para o sacrifício e não disputar a reeleição. Porque um dos grandes problemas do Brasil na política é a reeleição. O cara chega ao final do primeiro mandato dele, ou ele quer continuar no poder, que lhe deu fama e prestígio, ou ele quer continuar porque se o outro, o adversário, assumir vai levantar os esqueletos que ele tem no armário. Existe isso no Brasil. Então o meu caso é o seguinte: com uma boa reforma política, que diminuiria o número de parlamentares de 500 para 400, entre outras coisas mais, eu toparia entrar nesse bolo aí de não disputar a eleição.

Presidente, qual foi a primeira coisa que lhe veio à cabeça quando o senhor recebeu a facada? No primeiro momento eu não vi que era uma facada. Eu senti a batida. Parecia que foi um soco ou uma bolada. E eu levantei a camisa e vi um rasgo de uns três dedos. Falei pro meu assessor: “Fica tranquilo, foi uma porrada, já vai passar”. E não sangrava. É lógico que não sangrava. O sangue estava jorrando lá por dentro. Daí alguém teve a ideia de me levar para a Santa Casa. Eu dei uma sorte terrível.

Quando percebeu que não era uma bolada? Vi o furo e pensei que tinha sido rasgado com um soco inglês. Doía muito. Cheguei consciente ao hospital, e me levaram para fazer uma radiografia. Lembro que o médico falou: “Não faz nada, corta”. Não tinha tempo. O cara começou a pegar a pulsação… E daí só lembro que senti uma tesoura cortando. Quando acordei, me perguntaram: “Quer ir para onde? Sírio-­Libanês? Albert Einstein?”. Quando entrei no avião, não sabia para onde estava indo. O médico perguntou: “Está doendo? Quer tomar um analgésico?”. Eu falei: “Quero”. Dormi durante a viagem para São Paulo. No aeroporto acordei, me levaram para um helicóptero e fui para o Albert Einstein. Não teria sobrevivido se não tivessem me levado pra lá. Perdi 2 litros e meio de sangue. Mas, graças a Deus, sobrevivi. Foi um milagre.

Como é ver a morte tão perto? Você vê a vida de novo. Você vê passar um filme na cabeça desde quando você teve consciência de que era um ser humano na Terra. (choro) Vem uma imagem à sua cabeça. Eu vi minha filha Laura de 7 anos. Ela vai ficar órfã? Eu morrer, vamos assim dizer, até faz parte da vida. Mas como é que vai ser a vida dessa menina aí perdendo o pai tão cedo?

HINO NACIONAL – O ex-ministro Ricardo Vélez foi demitido depois de polêmicas (Cristiano Mariz/VEJA)

“Errei no começo quando indiquei o Vélez como ministro. 
Foi uma indicação do Olavo de Carvalho? 
Foi, não vou negar. Chegamos à conclusão 
de que era preciso trocar, 
e trocamos”

O que o senhor achou da decisão da Justiça de considerar inimputável o seu agressor? Esse cara aí viajava o Brasil todo, esse cara aí tinha um cartão de crédito, esse cara frequentou academia de tiro em Santa Catarina, foi filiado ao PSOL até 2014. Surpreendentemente, em 6 de setembro, dia do crime, o nome dele apareceu no cadastro de visitantes do Congresso. Isso ia ser usado como álibi, caso ele não tivesse sido preso em flagrante. É tudo muito suspeito.

Continua convicto de que foi um crime encomendado? Sim. Eu tenho poder sobre a Polícia Federal e posso dizer: “Bota aí 200 caras no caso e corre atrás”. Não estou fazendo nada disso. Estou aguardando o Moro me informar. Não quero me vitimizar nem inventar um culpado para o episódio, mas isso não saiu da cabeça dele.

Publicado em VEJA de 5 de junho de 2019, edição nº 2637
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 Reportagem  Por Mauricio Lima e Policarpo Junior

sábado, 1 de junho de 2019

Amigos à parte

Lya Luft*

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"A amizade é um meio-amor sem o ônus do ciúme - bela vantagem".

De todas as relações que temos no mundo, na vida, ainda mais se for longa, possivelmente esta seja a mais essencial: a amizade.

Pois mesmo entre pais e filhos, e marido e mulher ou amantes, a amizade deve ser um traço de confiabilidade. Confio nele, nela, porque há entre nós, além de laços de sangue e amor, uma amizade que inclui respeito, entendimento, paciência, compreensão, alegria, bom humor. Amigo não tem ciúme, amigo não abandona, amigo não ofende conscientemente, amigo também procura não mentir ainda que doa, a não ser que a verdade fosse demais mortal.

- Que qualidade primeira a gente deve esperar de alguém com quem pretende um relacionamento? - perguntou o jovem jornalista, e respondi: aquelas que se esperaria no melhor amigo. O resto, é claro, seriam os ingredientes da paixão, que vão além da amizade. Pode ser um bom critério. Não digo de escolha - pois amor é instinto e intuição -, mas uma dessas opções mais profundas, arcaicas, que a gente faz até sem saber, para ser feliz ou para se destruir.

Eu não quereria como parceiro de vida quem não pudesse querer como amigo. E amigos fazem parte de meus alicerces emocionais: são um dos ganhos que a passagem do tempo me concedeu.

Falo daquela pessoa para quem posso telefonar não importa onde ela esteja, nem a hora do dia ou da madrugada, e dizer: "Estou mal, preciso de você". E ele ou ela estará comigo pegando um carro, um avião, correndo alguns quarteirões a pé, ou simplesmente ficando ao telefone o tempo necessário para que eu me recupere, me reencontre, me reaprume, não me mate, seja lá o que for.

Mais reservada do que expansiva num primeiro momento, mais para tímida, tive sempre muitos conhecidos e poucas - mas reais - amizades de verdade, dessas que formam, com a família, o chão sobre o qual a gente sabe que pode caminhar.

Falo de pessoas para as quais eu sou apenas eu, uma pessoa com manias e brincadeiras, eventuais tristezas, erros e acertos, os anos de chumbo e uma generosa parte de ganhos nesta vida. Não uma escritora conhecida: sou gente. Com uma dessas amizades posso fazer graça ou fazer fiasco, chorar, eventualmente dizer palavrão quando me irrito ou quando esmago o dedo na porta. (Ou sempre que me der vontade, aliás.)

A amizade é um meio-amor sem o ônus do ciúme - bela vantagem. Ser amigo é rir junto, é dar o ombro pra chorar, é poder criticar (com carinho, por favor), é poder apresentar novo amor ainda que meio esquisito, é poder até brigar e voltar um minuto depois, sem ter de dar explicação.
Quando mais uma vez o destino tirou de baixo de mim todos os tapetes e perdi o prumo, o rumo, o sentido de tudo, foram amigos, amigas - e meus filhos, jovens adultos já revelados amigos -, que seguraram as pontas - pontas ásperas aquelas.

Com amigos, sem grandes conversas nem palavras explícitas, aprendemos solidariedade, simplicidade, honestidade, e carinho. Com eles a gente pode simplesmente ser: que alívio, neste mundo complicado e desanimador, deslumbrante e terrível, fantástico e cansativo.
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* Escritora. Cronista. Tradutora.
Fonte: https://flipzh.clicrbs.com.br/jornal-digital/pub/gruporbs/acessivel/materia.jsp?cd=e8f0589577396a5cf5e499e64e9b2700 
Imagem da Internet: Pintura lavoura da amizade 2 (2009) de Eduardo Lima
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