quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Tolentino Mendonça - O poeta chegou a cardeal. E o que quer o Papa com esta escolha?


Tolentino Mendonça fotografado em Maio de 2018, em Lisboa. Fotografias © Maria Marujo


Há duas décadas, Tolentino Mendonça confessava gostar de sentir-se em tensão. Ontem, o Papa Francisco anunciou o seu nome entre 10 novos cardeais. Razões de um percurso e de uma nomeação meteórica.

Na primeira entrevista que concedeu ao PÚBLICO, em Setembro de 1998, José Tolentino Mendonça falava da sua poesia e respondia à pergunta sobre se estávamos perante um padre que se tornara poeta ou perante um poeta que por acaso era padre. Respondendo que preferia não o saber bem, acrescentava: “Gosto dessa circularidade, de manter essa pergunta. Gosto de viver oscilando, muitas vezes, nessa pergunta. Gosto desse balanço, porque gosto de viver assente num pé só e de sentir uma tensão, porque dentro desses dois nomes cabe uma tensão muito grande.”

Ontem, Tolentino Mendonça pode ter sentido de novo esse balanço entre as suas várias condições: além de bibliotecário da Santa Sé, continua a manter uma coluna semanal no Expresso e a publicar livros em que alia a reflexão teológica, a investigação bíblica e a sua alma literária, poética e artística. O autor de A Leitura Infinita foi um dos nomes anunciados pelo Papa como integrando a lista de 13 novos nomeados como conselheiros privilegiados de Francisco.

O consistório que formalizará a nomeação decorrerá em 5 de Outubro. Na lista, não é difícil ver escolhas bem pessoais do Papa e proveniências que traduzem a “vocação missionária da Igreja, que continua a anunciar o amor misericordioso de Deus a todos os homens da terra”, como disse Francisco quando fez o anúncio.

Aquela afirmação fica confirmada com os nomes dos actuais arcebispos de Jacarta, Havana, Kinshasa, Rabat (defensor dos imigrantes africanos que chegam a Marrocos) ou Huehuetenamgo (na Guatemala). As outras quatro escolhas são cirúrgicas e contemplam pessoas que apoiam claramente a reforma desejada por Francisco. Além de Tolentino Mendonça, outros dois homens da Cúria: o presidente do Conselho para o Diálogo Inter-Religioso, ele próprio já oriundo dos Missionários Combonianos; e o jesuíta Michael Czerny, que trata das migrações no dicastério para o Desenvolvimento Humano.

Matteo Zuppi, arcebispo de Bolonha, foi um dos negociadores, enquanto padre da Comunidade de Santo Egídio, do acordo de paz em Moçambique, há 20 anos e é outra escolha pessoal do Papa, que já o tinha nomeado para uma difícil diocese italiana. Sobra o arcebispo do Luxemburgo, um dos países minúsculos da Europa e onde a realidade da imigração também está presente.

O Espírito Santo fora da Igreja

 

Numa primeira impressão, poderia pensar-se que não foi a poesia a fazer com que o nome de Tolentino Mendonça constasse da lista escolhida por Francisco e anunciada pelo próprio Papa ao início da tarde, no final da oração do Angelus. Num segundo momento, entende-se claramente que foi decisiva, para esta rapidíssima nomeação, a forma como Tolentino Mendonça pega na Bíblia, a sua área preferencial de estudos, e a cruza com a poesia, a literatura, as artes ou a música.

O Papa percebeu essa capacidade no retiro da Cúria Romana, na Quaresma do ano passado, para cuja orientação convidou o então ainda padre Tolentino, nessa altura director da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa e capelão da Capela do Rato, em Lisboa. Desenvolvendo o tema do “elogio da sede” em dez intervenções (desde 2018 disponíveis em livro, publicado pela Quetzal) o agora bibliotecário da Santa Sé começou por falar da necessidade de os crentes serem “aprendizes do espanto”.

No final do retiro, as palavras do Papa eram claras, acerca do que apreciara nas meditações do padre natural do Machico: “Obrigado por nos ter recordado que a Igreja não é uma gaiola para o Espírito Santo, que o Espírito voa também fora e trabalha fora. E, com as citações e as coisas que o senhor nos disse, fez-nos ver como trabalha nos não-crentes, nos ‘pagãos’, nas pessoas de outras confissões religiosas.”

Essa capacidade de fazer pontes que Tolentino Mendonça tem e cultiva contrasta com a incapacidade, que predomina ainda nas estruturas católicas – sobretudo em Portugal –, em dialogar com o universo da cultura, a política ou a ciência, por exemplo. Desde há muito que o ex-responsável da Capela do Rato tinha feito daquele espaço um lugar de encontro cultural (por exemplo, abrindo as portas da capela à intervenção artística de Lourdes Castro, Ilda David’ ou Duarte Belo, entre muitos outros. Mas também por ali passaram debates sobre temas pouco pacíficos no interior da Igreja como o lugar das mulheres no catolicismo.

O trabalho na Capela do Rato, no entanto, era apenas um microcosmo do que Tolentino fazia noutros âmbitos mais alargados e que já iniciara muito antes. Enquanto capelão da Universidade Católica (na década de 1990), por exemplo, ele levava a poesia, o cinema e a literatura para os corredores e anfiteatros académicos.

Essa perspectiva de diálogo cultural e plurisdisciplinar prosseguiu depois, já enquanto professor da Faculdade de Teologia, com a organização de seminários, colóquios onde, a propósito da reflexão teológica, convidava poetas, escritores, artistas, cineastas, actores e actrizes. Por exemplo, Maria do Céu Guerra, em Novembro de 2014, a ler o Cântico dos Cânticos na 5ª Jornada de Teologia Prática, uma iniciativa que o autor de A Noite Abre Meus Olhos, título da antologia poética, pôs de pé com Alfredo Teixeira e outros nomes destacados da faculdade.

Noutros espaços católicos, Tolentino ajudou a programar debates sobre o humor, a crise, a esperança ou a homossexualidade. E foi ele que, dirigindo a colecção Teofanias, ajudou a trazer para Portugal pensadores contemporâneos como Etty Hillesum ou Dietrich Bonhoeffer, ambos vítimas do nazismo, ou o cardeal Newman, vulto maior do cristianismo britânico.

Um “nomadismo arriscado”
 

Sabia-se, desde que foi nomeado para o cargo de bibliotecário da Biblioteca Apostólica Vaticana e arquivista da Santa Sé., que rapidamente Tolentino Mendonça seria cardeal – a dúvida era se seria nomeado no primeiro ou no segundo consistório após a nomeação do ano passado.

E já se podem fazer outras adivinhações não muito difíceis: em breve, por atingir o limite de idade para exercer tal cargo, o cardeal Gianfranco Ravasi terá de deixar o lugar de presidente do Conselho Pontifício da Cultura. Esse facto, aliado à reforma dos organismos da Cúria Romana que o Papa tem quase pronta pode fazer com que Tolentino seja o futuro responsável pela área da Cultura do Vaticano – papel onde estará ainda mais à vontade do que no seu actual cargo.

Aliás, a sucessão será natural, já que foi o cardeal Ravasi a chamar Tolentino para membro do Conselho Pontifício enquanto conselheiro. Ravasi notou a qualidade da reflexão do biblista português – o cardeal italiano é, ele próprio, um especialista da Bíblia – e foi ele que sugeriu o nome de Tolentino ao Papa para o retiro da Cúria em 2018.

A Bíblia e a investigação sobre a pessoa e a vida de Jesus continuam a ser a matéria-prima da reflexão e da obra de Tolentino. O texto bíblico é, para ele, não apenas matéria de fé, mas também a possibilidade de uma ágora na cultura ocidental. Os seus livros maiores neste campo, até agora, A Construção de Jesus(ed. Assírio & Alvim), que resulta da tese de doutoramento, e A Leitura Infinita(ed. Paulinas), que colige vários estudos com perspectivas muito inovadoras nos estudos bíblicos, são já incontornáveis na matéria.

Sobre Jesus, dizia, numa outra entrevista ao PÚBLICO: “Jesus voltou a cruzar o seu nome com o interesse, com as aspirações, com as procuras, também com as perplexidades da contemporaneidade. Por isso ele é uma referência reencontrada. (…) O pior que podíamos fazer era encaixar, enquadrar Jesus numa moda ou numa imagem que se volta a vender. Esse reencontro tem de corresponder a algo de mais estável e profundo do que os simples interesses circunstanciais.

E, na primeira entrevista antes referida, afirmava Tolentino Mendonça: “Para mim, o ser padre não é, de nenhuma maneira, um destino de funcionário ou de repetidor de normas e de minudências. O ser padre é praticar um nomadismo arriscado que é o desta procura do sentido.”

Se o Papa Francisco recusa em absoluto o carreirismo clerical, com o novo cargo para o qual chamou Tolentino Mendonça, deve querer que este alimente o seu “nomadismo arriscado”.
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Reportagem Por  António Marujo2 Set 19
(Texto publicado inicialmente na edição do Público de segunda-feira, 2 de Setembro)

terça-feira, 3 de setembro de 2019

Amazônia: por que fazer um sínodo?

Dom Walmor Oliveira de Azevedo*

Dom Walmor Oliveira de Azevedo, presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) - 06.mai.19/Arquivo Arquidiocese de BH

Igreja deve alertar sobre a exploração irracional

Respostas constroem o diálogo, desfazem ruídos, fomentam a aproximação e contribuem para entendimentos. Torna-se, pois, oportuno, nesta semana em que celebramos o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, dedicar-se à seguinte pergunta: por que fazer um sínodo, o Sínodo da Amazônia, convocado pelo papa Francisco, a ser realizado em outubro deste ano? Trata-se de acontecimento com repercussões e indicações para a vida e a missão da Igreja Católica, fortalecendo-a ainda mais no anúncio do Evangelho, na promoção da vida.

Instrumento de trabalho, o sínodo faz parte da vida da Igreja desde o Concílio Vaticano 2º, realizado de 1962 a 1965. O papa Francisco renova a compreensão a respeito do sínodo ao afirmar que é um instrumento privilegiado de escuta do povo de Deus. Seus participantes, convocados pelo pontífice, estão abertos à ação do Espírito Santo e buscam novos caminhos para a evangelização. É oportunidade para se dedicar a questões que dizem respeito à tarefa missionária da Igreja Católica em todo o mundo. Por isso, acolhendo apelos dos bispos servidores na Amazônia, o papa Francisco, sempre zeloso por toda a Igreja, convocou o Sínodo dos Bispos para a Amazônia há dois anos —em outubro de 2017.
A motivação fundamental é avaliar a atuação e a presença missionária da Igreja na Amazônia para cumprir melhor a sua missão —anunciar o Evangelho, configurando uma presença que, cada vez mais, promove grandes heranças culturais. É próprio da Igreja contribuir com a humanidade em importantes áreas: artes e arquitetura; educação formal, com escolas e universidades; e ação social, constituindo uma rede de serviços à vida, especialmente dedicados aos pobres e desamparados. Tudo para impulsionar e qualificar o exercício da cidadania, a colaboração para construir uma sociedade justa à luz da fé.

A Pan-Amazônia, região do mundo que abrange nove países da América Latina, tem presença maior no território brasileiro. O Estado brasileiro é proprietário da maior parte dessa região.

Esse território tem presença histórica da Igreja Católica, que se dedica a cumprir o que pede Jesus, seu Mestre e Senhor: “Ide, pois, fazer discípulos entre todas as nações” (Mateus 28,19). Ao se dedicar à evangelização na Amazônia, a Igreja olha para si e para a vida, revê sua história, contempla o meio ambiente e o povo —o povo de Deus. 

Nesse horizonte estão os parâmetros de uma ecologia integral, indicações pertinentes do papa Francisco, delineadas na sua Carta Encíclica sobre a Casa Comum. Inclui uma compreensão que gere novos hábitos e costumes para tratar adequadamente o patrimônio ambiental —com riquezas impressionantes na fauna, na flora e nos recursos minerais, em interface com a vida e a história, tradições e valores religiosos de povos tradicionais.

A Igreja reconhece e defende a soberania nacional sobre a Amazônia. Entende que a nação brasileira deve cultivar consciência amadurecida para tratar essa região como dom da criação de Deus, um bem de seu povo, na contramão das tiranias advindas da idolatria do dinheiro. 

A Igreja se coloca, humildemente, na condição de servidora. É sensível aos anseios dos povos, especialmente dos pobres, sem qualquer motivação ligada a interesses políticos ou econômicos. A Igreja tem o dever de alertar sobre as consequências da exploração irracional da Amazônia: níveis de 4 °C de aquecimento, ou um desmatamento de 40%, constituem “pontos de inflexão” do bioma amazônico rumo à desertificação, o que significa a transição para uma nova condição biológica, geralmente irreversível. E é preocupante que, atualmente, já nos encontramos entre 15% e 20% de desmatamento.
* Arcebispo de Belo Horizonte e presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) 
Fonte:  https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2019/09/amazonia-por-que-fazer-um-sinodo.shtml

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

O ÓDIO


FRANCISCO MARSHALL*
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Nos mitos clássicos e nas pinturas renascentistas, Afrodite (Vênus/amor) triunfa sobre Ares (Marte/guerra), selando a vitória da doçura sobre a violência. É o sonho das almas sensíveis, que artistas deleitam-se em nos entregar, com belas imagens, que inspiram e nos dão o necessário alimento do pensar. Na literatura mais popular da história, porém, o protagonista é um personagem virtuoso, que espalha mensagem estoica, de amor abnegado, mas ao final é perseguido por ódio coletivo e divino, para ser, no clímax trágico, condenado em tribunal injusto e também para a saciedade de seu pai, que lhe impõe cálice amargo e toma seu sofrimento e seu sangue em sacrifício. A mensagem de amor contrasta com o cenário de triunfo do ódio, e uma laje removida da tumba não é suficiente pra suprimir a memória trágica da descomunal violência, praticada contra personagem amoroso. Será o ódio mais forte que o amor?

Vizinha do ódio, a cólera tem o poder de provocar a revelação das entranhas, quando a possessão furiosa supera barreiras do decoro e o sujeito diz o que estava reprimido, ou comete o que o juízo interdita. É assim na tragédia Édipo Tirano, de Sófocles, quando o soberano ataca ao vidente Tirésias, até que este, agastado, revela o que ocultava, a verdade da identidade do rei parricida e incestuoso. A cólera tem o condão de revelar intimidade terrível, com certo grau da verdade, usualmente insuportável no convívio social. Quando esta revelação libera o que estava reprimido, produz-se um prazer associado à sensação de alívio, poder e triunfo.

A cultura, todavia, desde a era da tragédia grega, no século V a.C., dispõe de recurso eficiente para purgar o ódio pela arte, projetando-o ritualmente nas tensões do palco, a certa distância e proximidade do espectador, e provocando o que Aristóteles chama, com vocabulário médico, de catarse. Desde então, a representação de paixões odiosas é matéria potente da arte - que o digam também Shakespeare e Nelson Rodrigues.

Deu-se no Brasil que o ódio mimetizado nas ruas e mídias ocupou o lugar da arte, e fez aflorar o horror íntimo de milhões de pessoas. Assim liberado, o ódio premia e cativa a libido, de modo irresistível. Eis porque é quase impossível despertar aos que entraram nesse transe, mesmo diante dos fatos hediondos que ora assombram nosso cotidiano; estão reféns de um tipo de prazer que já parecia impossível. Por anos, milhões de pessoas preconceituosas reprimiram seu ódio sob a luz de um novo pacto cultural. Hoje atacam sem pejo ao politicamente correto, a ética contemporânea de respeito, que recusa todos os preconceitos. Descartada a ética e consagrado o ódio, avança-se para trevas em que Eros está ausente e a irracionalidade campeia contra cultura, educação, ciência, dignidade humana e meio ambiente.

Eis como o Brasil se tornou teatro do ódio, com todas as suas fúrias. Para que Vênus novamente dome Marte, precisamos de teatro e pensamento, capazes de purgar com arte os monstros que ora assombram nosso tempo.
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* Professor Universitário e pesquisador.
Fonte: https://flipzh.clicrbs.com.br/jornal-digital/pub/gruporbs/acessivel/materia.jsp?cd=449813ff3f5a8a8d9fbc3fc03edce90b 30/08/2019
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domingo, 1 de setembro de 2019

Não é o trabalho que enobrece

 Lya Luft*
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Algumas frases feitas ouvidas desde sempre ficam gravadas em nós como verdades. Amadurecendo, a gente vai se libertando desses mitos, ou compreendendo que só algumas vezes são verdade.

Uma delas é “Querer é poder”, o que cedo constatamos não ser bem assim... Quando menina, tive uma caixinha de lápis de madeira, escrito em cima esse lema. Eu o detestava, porque queria acordar magrinha, e não funcionava o querer – mesmo intensamente...

Outra poderia ser “A dor nos torna melhores”, estranha apologia do sofrimento. Cedo veremos que a muitos ele apenas torna amargos, eternas vítimas, queixosos, azedos, revoltados. Mais um desses ditos seria que “O trabalho enobrece”, coisa que vou questionar aqui.

Trabalhar pode ajudar a conferir segurança, qualidade de vida razoável, dignidade sobretudo, que é o que de verdade importa. Confiança em si mesmo, melhor ainda. Mas depende de inúmeras condições, então não é o trabalho em si, mas um conjunto de situações de cada indivíduo, ou de um grupo. Assim como a frustração de não poder tudo o que queremos, mesmo com muita luta, e de nem sempre nos tornarmos melhores com a dor, o trabalho pode nos desmoralizar, pode nos embrutecer.

Só nos enobrece aquilo que nos compensa, nos dá alegria, sentido de vida e alguma importância, ainda que seja a de colocar corretamente uma pecinha de engrenagem para que um carro, um avião, um aparelho cirúrgico ou uma engrenagem imensa funcione direito salvando vidas, trazendo progresso, melhorando alguma coisa. 

O bom trabalho é aquele para o qual vamos todas as manhãs (ou noites) com uma disposição boa, mesmo enfrentando condução péssima ou atrasada, distâncias, cansaço. Mas saberemos que aquela oficina, escritório, mina, avião, cozinha ou rua, espera nossa ação. Temos um lugar no vasto mundo, talvez alguns colegas formem uma nova família, apesar de diferenças e desentendimentos – como ocorre numa família.

Aos poucos emergimos da servidão e da escravidão para o trabalho instituído, com operários ou trabalhadores de qualquer setor e hierarquia, com alguns direitos embora ainda muito por fazer, e deveres que precisam ser atendidos pelo trabalhador.

Mas mesmo em grandes cidades, onde as leis imperam mais e melhor, diariamente multidões humanas seguem espremidas em condições inaceitáveis para o lugar do seu emprego – eu ia dizer “como animais”, mas faço a ressalva: como alguns animais, pois cavalos e touros ou vacas ditos “nobres” recebem tratamento bem melhor do que muitos trabalhadores.

Nenhuma condição porém, nem mesmo alto salário e lugar ideal, vale tanto quanto sentir-se necessário e valorizado – ainda que seja por colocar diariamente centenas de vezes o mesmo parafuso no mesmo lugar da mesma engrenagem, para que ela funcione bem – para que o mundo funcione bem.

E um automóvel, ou um avião, ou algo menor, não se fragmente matando duzentas, cinco, ou uma só pessoa que seja. Então, o trabalho vale tudo.
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* Escritora
Fonte:  https://flipzh.clicrbs.com.br/jornal-digital/pub/gruporbs/acessivel/materia.jsp?cd=f9976ba0412905de769066797512c79e 31/08/2019
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sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Transformar Amazônia em dinheiro súbito não é próprio de verdadeiros empresários e governos


 José de Souza Martins* 
 
A transformação da questão ambiental em vômito de ignorância no templo da natureza preocupa a parte humana do mundo cujo cérebro não foi corroído pelos gases tóxicos da voracidade incondicional de lucros incendiários. Os obtidos à custa do presente e do nosso futuro. Justificar a transformação da Amazônia em dinheiro súbito, porque o país se tornou um entreposto de commodities, não é próprio de verdadeiros empresários e menos ainda de competentes governos. O tempo do desenvolvimento econômico e social não é o tempo do imediato, é o tempo histórico da prudência. Sem consciência do futuro, o atual é pressa tola.

No Brasil, no entanto, não é incomum que o governo e as autoridades, que devem fiscalizar e reprimir os crimes e as atividades antissociais, tenham sempre uma desculpa para o indesculpável. É o caso em relação às queimadas destrutivas do meio ambiente. Este é um momento particularmente significativo dessa violação do dever governativo.

Quando governantes acham que consumir o meio ambiente com a motosserra e as chamas é lícito, para assegurar os ganhos dos poucos em prejuízo dos muitos, e que disso depende o PIB, confessam que o dinheiro de poucos é mais importante do que a vida de todos. Quando dizem que o trabalho escravo, um item amazônico, não é escravo, confessam que a liberdade não é um valor essencial desta sociedade. O que dessa liberdade faz mera liberdade condicional.

Quando proclamam e asseguram que possam armar-se os que quiserem, especialmente no meio rural, onde é alta a violência dos que podem contra os que não podem, revogam o princípio de que é das Forças Armadas o monopólio da violência, para cumprir as leis e assegurar os direitos de todos. E os da própria nação, como sujeito coletivo da nacionalidade.

Os problemas destes dias são apenas a ponta flamejante de um conjunto de desorientações conexas que nos põem aquém da civilização. Estamos no rumo da desordem e da barbárie. Adeus, ordem e progresso.

Bravata e ignorância não resolvem problemas sociais e problemas ambientais. Além dos prejuízos econômicos que no curto prazo acarretará, a conduta brasileira em relação à questão ambiental afetará o setor produtivo, do lucro ao emprego. A desorientação do governo indica uma inclinação que, pelas consequências possíveis, poderá ser interpretada como genocida.

A pátria está em perigo. Atualizando a palavra do botânico Saint-Hilaire, que conheceu o Brasil inteiro como ninguém antes de o Brasil ser independente: ou o Brasil acaba com a saúva da criminalidade ambiental, ou a saúva da criminalidade ambiental acaba com o Brasil.

O empresariado brasileiro, não só o do agronegócio, tem não só o direito, mas o dever de se insurgir contra os negocistas desse novo capitalismo, o neocapitalismo do prejuízo que lhes virá. Capitalismo só vale um: o do lucro com responsabilidade social. O capitalismo é um sistema político de coadjuvantes, não só quem investe e lucra, mas também quem ajuda e quem trabalha. Ao que parece, é possível ganhar muito dinheiro,
rapidamente, com a mentalidade anticapitalista desse neocapitalismo emergente, o do lucro de hoje no lugar do lucro de sempre.

A ignorância palavrosa produziu em poucas horas, nestes dias, para o capitalismo brasileiro, um retrocesso e um prejuízo cujo tamanho não será indicado pelos índices da bolsa. O liberalismo econômico de botequim gera uma democracia de bêbados, mas não supre nem sustenta a carência de inteligência e de prudência política e governativa.

Essa espécie de pacto com satanás, de que nos fala Guimarães Rosa, que disso soube como capanga de Manuelzão para aprender as coisas do sertão, como a que se esconde na ambição de dinheiro e de poder, é coisa de gente que não enxerga o que faz.

Disso, ouvi muito nos sertões do Brasil central, caboclos me demonstrando, tim-tim por tim-tim, cumaé que o coisa ruim, o pactário de encruzilhadas e cemitérios, ensina o muito do poder de ganhar em troca da alma do vivente, o prejuízo do finalmente. Mesmo quem não sabe que fez o pacto, está nele em pensamento, palavras e obras. O dinheiro existe para ser possuído e usado, e não para possuir as pessoas que o usam.

Aqueles que se omitem e debocham dos dramas do mundo, em nome do dinheiro fácil, parecem não saber dessas coisas e de seus silêncios ruidosos. Cada árvore tombada e queimada indevidamente, pensando o queimador que o que é de todos é só daquele um, é um ponto a mais para a cota de azeite fervente no tacho em que penam os que mandam derrubar a mata para endinheirar-se. Quando chegar a hora quente dos confins e dos confinamentos, o muito dinheiro não vai refrigerar o modo anticapitalista de ganhar e de gastar. É só esperar.
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José de Souza Martins é sociólogo. Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Academia Paulista de Letras. Entre outros livros, autor de Fronteira - A Degradação do Outro nos Confins do Humano (Contexto).
Fonte: https://www.valor.com.br/cultura/6413647/jose-de-souza-martins-transformar-amazonia-em-dinheiro-subito-nao-e-proprio-de-verdadeiros-empresari 30/08/2019