sexta-feira, 5 de maio de 2023

Trump e Bolsonaro inspiram autor a contar a história da ignorância desde a Antiguidade

 Por Laura Greenhalgh — para o Valor, de São Paulo

Peter Burke: “Para entender uma cultura, é preciso levar em conta  não só o que as pessoas sabem, mas o que elas não sabem” Peter Burke “Luiz XIV apresentava-se como alguém que sabia tudo sobre todos. Não era verdade”  — Foto: Foto Mônica Imbuzeiro / Agência O Globo

 Peter Burke: “Para entender uma cultura, é preciso levar em conta não só o que as pessoas sabem, mas o que elas não sabem” Peter Burke “Luiz XIV apresentava-se como alguém que sabia tudo sobre todos. Não era verdade” — Foto: Foto Mônica Imbuzeiro / Agência O Globo

 

Para o historiador inglês Peter Burke, ela é um ativo para ditadores e uma responsabilidade para líderes democratas

“Devemos pensar duas vezes antes de descrever qualquer indivíduo, cultura ou período como ‘ignorante’, uma vez que há coisas demais para saber.” Com esta afirmação, o historiador britânico Peter Burke faz uma advertência aos leitores, especialmente os que se interessarem pelo seu livro mais recente, “Ignorância: Uma história global” (Editora Vestígio), lançado agora no Brasil. E completa o raciocínio com uma boa tirada do escritor americano Mark Twain (1835-1910), admitindo usá-la como um lema pessoal: “Todos somos ignorantes, apenas sabemos diferentes coisas”.

Dito isso, é possível enveredar por uma trilha fascinante da história da humanidade, não a que trata do conhecimento, mas a que trata justamente da falta ou privação dele. Professor emérito da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, Burke, 85 anos, tornou-se uma referência no campo da história social do conhecimento, tema de um de seus livros mais aclamados. Sempre buscando novos veios para seus escritos, admitiu nesta entrevista ao Valor, feita durante breve passagem por São Paulo, que gosta mesmo é de revirar as coisas. Ter uma abordagem “upside down”. E foi assim, inspirado por dois ex-presidentes contemporâneos, Donald Trump e Jair Bolsonaro, “que usaram a ignorância de um jeito até abusivo em seus governos”, que ele iniciou a execução desta história dedicada ao não saber, para a qual criou uma curiosa tipologia.

“Ao buscar adjetivos associados ao meu tema central, encontrei inúmeros: a ignorância pode ser ativa, simétrica, assimétrica, criativa, culpável, deliberada, invencível, pura, estratégica, resoluta, sancionada... são tantos tipos que decidi organizar um glossário no final do livro, para ajudar os leitores”, explica. O livro percorre um itinerário que parte de Confúcio, na China de 2.500 anos atrás, e chega aos dias atuais, mostrando como a ignorância prolifera em inúmeros domínios, seja pela repetição acrítica de erros, seja pela propagação de enganos e mentiras, como acontece nas redes da desinformação.

Cruzando séculos, mas não perdendo de vista a brevidade da vida humana, Burke ultrapassou em muito os seus marcos iniciais, Trump e Bolsonaro, num livro cativante, feito para acadêmicos e público em geral. Importante notar que ele sempre prefere usar o termo “conhecimentos”, reservando o mesmo plural para “ignorâncias”. Porque são muitas. São desafiadoras. Podem até ser notáveis. Estudioso da obra do antropólogo pernambucano Gilberto Freyre (1900-1987), assim como sua mulher, a historiadora Maria Lúcia Pallares-Burke, também da Universidade de Cambridge, Peter Burke ainda nos oferece saborosos exemplos brasileiros, no livro e na entrevista que se segue.

Valor: O que o levou a estudar a ignorância?

Peter Burke: Durante 25 anos escrevi sobre a história do conhecimento, ou dos conhecimentos, buscando novos ângulos. Escrevi sobre exilados e expatriados na Europa e nas Américas, avaliando o impacto dos deslocamentos humanos na passagem de uma cultura para outra. Daí veio o livro “O polímata: Uma história cultural de Leonardo da Vinci a Susan Sontag”, em torno de pessoas que alargaram as fronteiras do conhecimento. Quando escrevi sobre a história social da linguagem, quis estudar a história do silêncio. E assim fui compondo uma coleção de livros que tira um pouco as coisas do lugar. Mais recentemente me interessei pelo tema da ignorância ao observar Trump e Bolsonaro, porque ambos a usaram de um jeito abusivo. No caso de Trump, muito mais abusivo do que ousaram antecessores seus, republicanos como [Ronald] Reagan e [George W.] Bush.

Peter Burke: “Luiz XIV apresentava-se como alguém que sabia tudo sobre todos. Não era verdade”  — Foto:  Foto Reprodução 

Peter Burke: “Luiz XIV apresentava-se como alguém que sabia tudo sobre todos. Não era verdade” — Foto: Foto Reprodução

Valor: Vivemos tempos de maior conhecimento ou de maior ignorância?

Burke: Hoje existe uma imensa oferta de conhecimentos, mas veja que, a partir do século XV, com o advento da imprensa, houve também uma expansão tremenda. Sou um pouco cético em afirmar que um determinado período da história foi mais ou menos propício ao conhecimento. Mesmo hoje, quando o ser humano é capaz de se informar como nunca antes, resta-lhe uma vida útil na qual é preciso reservar tempo para comer, dormir e outras necessidades básicas, portanto, existe um limite para assimilar dados. Fiz uma busca curiosa na minha pesquisa: comparei uma edição da “Enciclopédia Britannica” do ano de 1911, considerada uma das melhores, com uma edição recente. Na edição mais antiga, Martinho Lutero (1483-1546), deflagrador da Reforma Protestante, tinha um verbete de seis colunas, já na edição atual, apenas uma. O filósofo Cícero (106 a.C.-43 a.C.) também foi drasticamente reduzido e, como ele, outros grandes pensadores. Isso porque entram muitos verbetes novos na enciclopédia. Enfim, todos os tempos têm os seus conhecimentos e as suas ignorâncias.

Valor: A agnoiologia, estudo da ignorância, assim como a agnotologia, estudo da produção da ignorância, são conceitos restritos ao mundo acadêmico. Existe uma certa aversão social em torno do tema?

Burke: Ser ignorante é o inverso do que é histórica e socialmente desejado, ou seja, ter o maior conhecimento possível. Só que, para entender uma cultura, é preciso levar em conta não só o que as pessoas sabem, mas o que elas não sabem. Na Europa da Idade Média não se sabia da existência da América, e vem dessa ignorância a vontade de conhecer o Novo Mundo. Sócrates e Confúcio comentaram acerca do que não se sabe. Em 1980, notei que muitas disciplinas acadêmicas se interessaram pela ignorância, e eu nem saberia explicar por quê. Me lembro de um curso muito popular numa escola médica americana, que justamente tratava do que os médicos não sabem. Pode haver um certo preconceito social em torno do tema. Quando comecei a minha pesquisa, meus amigos brincavam comigo sugerindo que um livro sobre a ignorância só precisaria ter páginas em branco.

Valor: O senhor chegou a montar um glossário no final do livro, uma espécie de tipologia da ignorância. Por que fez isso?

Burke: Porque fui coletando os adjetivos que são comumente associados a ela. Como estava ficando um pouco confuso, pensei que um glossário poderia ser útil aos leitores. No mundo acadêmico, pesquisadores podem nomear de formas distintas fenômenos que são semelhantes, e tudo isso tem muito a ver com o processo de especialização. Quanto a mim, uso o conceito clássico de ignorância, como ausência ou privação do conhecimento. Há pesquisadores mais interessados na produção da ignorância, o que não é o meu caso. O que mais me atrai são as consequências sociais da ignorância.

Valor: Há uma ignorância em estado puro?

Burke: Talvez um bebê nasça neste estado, porém, quando começa a falar, a se comunicar, a interagir, sai dele. Adotei um motto que vem do escritor Mark Twain: “Todos somos ignorantes, apenas sabemos diferentes coisas”.

Valor: O senhor analisou a ignorância organizacional, um fenômeno coletivo que tanto poderia estar nos exércitos de Napoleão, quanto no mundo corporativo atual.

Burke: Há diferentes tipos de ignorância coletiva, em geral associadas a estruturas hierarquizadas. Estudei o que se passa no mundo dos negócios, e daí percebi como frequentemente as as pessoas do topo não conhecem as pessoas da base. Analisei casos de empresas no Japão até me dar conta de como seria salutar a promoção de encontros regulares nos quais os gestores possam se misturar aos subordinados, onde se encomendariam os drinques e, por dois dias, haveria debates sem hierarquia nem censura. Seria uma forma de quebrar essa cultura japonesa de longas horas de confinamento em escritórios, seguidas por uma socialização compulsória onde se bebe para esquecer no dia seguinte. Diretores de corporações deveriam saber que o seu papel não se limita a ir atrás do lucro e interagir com os subordinados não se limita a dar ordens. Passei pela sociologia do exército, da igreja, das monarquias, e os problemas relacionados à ignorância coletiva se repetem. Luiz XIV, o Rei Sol, deixou uma espécie de testamento com instruções para o seu filho, escrito por um “ghost writer”. No documento, apresentava-se como alguém que sabia tudo sobre todos. Não era verdade, até porque seus ministros mentiam muito para ele. Mesmo nas democracias modernas, deparamos com a mesma situação: o governante tem seus ministros e assessores, contudo, será que eles lhe dizem o que é preciso dizer ou que ele quer que seja dito?

Valor: A ignorância pode ter as suas vantagens?

Burke: Sim, e dou alguns exemplos. É recomendável que um examinador possa avaliar um trabalho acadêmico sem saber muito sobre o autor. Auxilia o bom julgamento. O mesmo princípio está contido na simbologia da Justiça, uma deusa de olhos vendados. Existe algo que é muito levado em conta na Inglaterra: juízes devem se manter reclusos e inacessíveis até o fim do julgamento, especialmente quando precisam decidir sobre questões complicadas. Ou seja, há casos em que a ignorância é vantajosa e mesmo necessária. Mas são raros.

Valor: Ao tratar da ignorância dos tomadores de decisão, o senhor olhou para o mundo financeiro. Já vivemos neste século algumas crises bancárias, inclusive recentemente. O economista e filósofo americano John Kenneth Galbraith (1908-2006) chamou de “insanidade financeira” a repetição de erros num setor onde as decisões devem ser muito racionais. Qual é a sua visão?

Burke: É preciso distinguir as incertezas que cercam um tomador de decisão. Há quem precise traçar cenários sobre o que possa vir a acontecer no futuro, o que envolve incertezas. Mas existe aquela ignorância culpável, quando o tomador de decisão tem informações concretas, seja no mundo das finanças, na política ou na guerra, e repete erros já cometidos. Aliás, como já se disse, quem não conhece o passado está condenado a repeti-lo. A história das guerras, de novo ela, ajuda a compreender. Operações militares no Afeganistão sempre foram desastrosas, porque as forças invasoras, apesar de militarmente superiores, nunca souberam como lidar com a geografia de um lugar repleto de montanhas geladas e de difícil acesso. Assim, não conseguiam controlar os altos do território. Esse erro é uma espécie de repetição do que se passou nas invasões da Rússia, por Napoleão e por Hitler. Faltava roupa de frio para as tropas porque os comandantes achavam que iriam terminar o conflito ainda no verão. É quando se diz que as tropas foram derrotadas pelo General Winter.

Valor: Na perspectiva da ignorância, como avalia a guerra entre Rússia e Ucrânia?

Burke: É importante avaliar como um lado vê o outro. A Rússia ainda vê a Ucrânia como parte da União Soviética, por isso não lhe dá o direito de querer ser independente. Já a Ucrânia acreditou que iria emergir como país independente a partir do colapso soviético. Putin subestimou o outro lado ao decidir pela invasão, misturando ignorância com arrogância. Porém, também há muita ignorância do outro lado. Para alunos e amigos, sempre cito a Guerra de Canudos (1896-97), no nordeste baiano, como um exemplo arrebatador de ignorância estratégica. Como jagunços miseráveis puderam derrotar um exército bem alimentado e profissional? Os jagunços lutaram no calor, ao qual estavam acostumados, e em território conhecido, mas é preciso admitir que souberam vencer o lado forte, que por sua vez cometeu erros. E não é fácil reconhecer falhas. É digna de nota a humildade de Robert McNamara (1916-2009), ex-secretário de Defesa dos Estados Unidos, ao reconhecer publicamente os erros cometidos pelo seu país na Guerra do Vietnã [como registrou no livro “In Retrospect: The Tragedy and Lessons of Vietnam”, de 1996]. É um exemplo raro de se encontrar na história.

Valor: Vamos na direção de uma nova guerra fria, com mais tecnologia, porém com mais estupidez humana?

Burke: A guerra fria que conhecemos no século passado era o confronto de dois blocos definidos. Hoje há uma fragmentação geopolítica no mundo. Gestos amigos que aparecem em um dado momento desaparecem em outro, e o fato é que diferentes nações podem querer ter o papel de iniciar uma guerra devastadora. Uma situação perigosa, exigindo permanente balanço de forças.

Valor: Sem falar nos ditadores consumados, líderes autocratas despontaram em vários países. Em que medida a autocracia se vale da ignorância como arma política?

Burke: Preciso fazer uma distinção. Trump e Bolsonaro provaram sua ignorância, e este é um tipo de problema. Outro tipo de problema são autocratas que pensam que os outros são ignorantes. Historicamente constatamos que a ignorância é um ativo para ditadores e uma responsabilidade para líderes democratas. Um ativo porque ditadores precisam de um povo obediente, que saiba pouco sobre o que se passa e acredite em tudo do governo. Já na democracia, a ignorância é desafiadora porque pode influenciar o voto. Pesquisas em diferentes países e épocas revelam os níveis do desconhecimento político. Numa delas, 80% dos eleitores americanos disseram não saber quem era o secretário do Estado quando o posto era ocupado por Condoleezza Rice. Em outra, perguntou-se qual a religião mais influente na América Latina, e mais de 60% dos entrevistados não sabiam. Na Europa, também a maioria não sabe. Para mim isso é assustador, por isso coloco tanta ênfase na educação. O cardeal Richelieu (1585-1643), um autocrata que de fato governou a França na época de Luís XIII, escreveu em suas memórias como eram indesejáveis o camponês educado e o soldado que questiona ordens.

Valor: Por que tantas pessoas ainda acreditam em Trump e Bolsonaro?

Burke: Isso tem a ver com o efeito constante das fake news. Elas circulam o tempo todo, para todos, em todos os meios, especialmente pela TV e redes sociais. E, infelizmente, cada vez menos pessoas leem jornais. Os súditos do passado não tinham informação sobre os monarcas, pois negava-se ao povo o acesso às informações da vida política. Hoje isso não acontece, ao contrário, vivemos um clima de permanente propaganda política. No entanto, quantas pessoas são capazes de criticar os conteúdos a que têm acesso? Quantas avaliam as fontes das informações? Quantos conseguem construir a sua própria agenda? Insisto, o remédio está nas escolas. Na Escandinávia, e em algumas partes dos EUA, estão ensinando alfabetização informacional para os jovens. Para que possam avaliar uma fonte de informação e vir a desenvolver sua capacidade crítica. É um caminho ainda incipiente, mas necessário.

Valor: Em seu livro, o senhor aponta o negacionismo como algo que virou um negócio.

Burke: Negacionismo também ocorreu no passado. Turcos negaram o genocídio armênio. Hoje há quem negue o Holocausto. E há outros casos. O problema não é negar, passando por cima das evidências, o problema é como essas vozes têm merecido crédito. Claro, temos que levar em conta a força dos líderes carismáticos, como eles exercem o poder, como se expressam. E eu chamaria atenção para algo muito específico do Brasil: o país sofre da síndrome do salvador da pátria, como foi feito de Getúlio Vargas e outros líderes. Colocam-se expectativas enormes nos dirigentes. No início é vantagem, depois vira desapontamento. Lula pode vir a enfrentar isso.

Valor: E o negacionismo em torno da mudança climática, com consequências dramáticas para a humanidade?

Burke: É um caso espetacular de ignorância em torno do que é inconveniente saber. Porque há muita gente no mundo que simplesmente não quer abrir mão do seu estilo de vida, mesmo sabendo que ele compromete o meio ambiente. Paralelamente há interesses econômicos imensos em jogo, o que também não é novo. Nos anos 1960, soubemos de cientistas cooptados pela indústria do tabaco para negar publicamente a relação entre o fumo e o câncer. Quando os primeiros ambientalistas começaram a criticar os efeitos da industrialização, nem chegavam a amedrontar os governos. Mas, nas décadas seguintes, eles passaram a incomodar. As preocupações com o clima explodem, e os políticos agora têm um problema.

Valor: Como lidar com a xenofobia e o fundamentalismo religioso? E qual o peso deles na geração da ignorância?

Burke: Não é fácil abrir os olhos de quem não quer ver. Existe muita ignorância nos países que recebem imigrantes, sobre a vida e as razões dessas pessoas. Também tem sido difícil entender os argumentos de quem diz que se trata de invasores. O Reino Unido tem hoje um primeiro-ministro com origem indiana (Rishi Sunak), o que poderia simbolizar novos tempos. Porém, na verdade, trata-se de um homem extremamente rico, um conservador que deve governar para os muito ricos como ele. Nada a ver com um primeiro-ministro como Harold MacMillan (1894-1986), que era de fato um conservado liberal. O conservadorismo que cresce no Reino Unido atualmente é o linha-dura. Sobre a ignorância religiosa, ela vem de longe, tanto que já foi chamada de “ignorância invencível”. No tempo das missões, falou-se muito da ignorância dos convertidos. Hoje a escala do problema mudou. Pode-se dizer que o Islã até ficou mais flexível, porém, com uma parte menor, que é fundamentalista. E existem outros fundamentalismos religiosos, como o cristão e o judeu, hoje tão presente em Israel. Vejamos o pentecostalismo no Brasil. Ele guarda analogias com o que se passou na África. Assim como os missionários do passado no continente africano, os pastores passaram a atuar mais perto das pessoas, dando-lhes inclusive uma vida social. Só que as coisas não param por aí, evidentemente. O grande problema que estamos enfrentando, em várias partes do mundo, é a religião transformada em política. Esse é o desafio.

Fonte: https://valor.globo.com/eu-e/noticia/2023/05/04/trump-e-bolsonaro-inspiram-autor-a-contar-a-historia-da-ignorancia-desde-a-antiguidade.ghtml

quinta-feira, 4 de maio de 2023

Notícias do Brasil de sempre

por

Notícias do Brasil de sempre 
Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

Tudo vai bem, tudo vai mal, como sempre.

A Polícia Federal bateu na casa do capitão, que está caindo, já faz tempo, atrás do seu telefone, que levou, mas falta a senha, que era esta: oito de janeiro. Tudo vai mal, tudo vai bem, avante, soldado, para trás.

Bolsonaro diz que não tem senha.

A turma do capitão teria fraudado dados de vacinação para permitir a entrada da família quase ex-real nos Estados Unidos no momento em que o presidente deu no pé, deixando para trás suas impressões digitais por toda parte onde algo deu errado. Bolsonaro diz que não tomou a vacina. Garante que a filha Laura também não foi vacinada. Michele teria tomado só a primeira dose. Orgulho nacional. Negação da ciência, que está salvando a humanidade e permitindo que a vida siga bastante normal.

O faz-tudo do capitão foi preso. Do tudo ao nada. O major Cid chegou a ser nomeado comandante de uma tropa que poderia usar para defender ou atacar Brasília. Caiu do cavalo antes de montar. Vai conhecer outro ponto de vista. Ou a vista de outro ponto. A fidelidade lhe está saindo cara.

Que taipas! De fato, é dose. De menos.

Plataformas, evangélicos e extrema direita unidos contra a regulação das redes sociais. Uma mistura dessas produz o que mesmo? Crocodilo? Urso polar? Tecnologia de ponta a serviço do atraso. As Big Tech não querem perder o filão brasileiro. O bolsonarismo quer liberdade para continuar mentindo. Nunca se mentiu tanto. Mente-se até sobre a mentira.

O noticiário está quente. É só rolo. O capitão sente a respiração da lei no seu cangote. Chamado a depor, quer tempo para se preparar. Poderá ficar em silêncio. Será talvez a primeira vez na vida. Será que consegue? Se aprender a ficar em silêncio, torna-se ainda mais perigoso. Até agora a boca grande é que lhe tem atrapalhado os passos. De boca fechada teria sido reeleito. Mas não teria sido eleito. Jacaré não entra no céu duas vezes. Ainda mais sem cartão de vacinação. Tudo muda, tudo continua. É só olhar para a volta de Vanderlei Luxemburgo ao Corinthians. Nada mais novo.

Tudo vai muito bem, tudo vai muito mal.

O Banco Central independente manda e não pede.

Bolsonarista, o presidente do Banco defende sua autonomia.

E la nave va. A esmo.

O Brasil está melhor. O bolsonarismo é que não vai bem.

A torcida canta: “A tua hora vai chegar”.

*Jornalista. Escritor. Prof. Universitário.

Fonte:  https://www.matinaljornalismo.com.br/matinal/colunistas-matinal/juremir-machado/juremir-noticias-do-brasil-urgente/

Hora de atender o 190

 Fabrício Carpinejar

Hora de atender o 190 | GZH

Os brigadianos vivem uma insalubridade psíquica. Só são chamados ou notados no perigo, no desespero

Você cumprimenta os homens e mulheres de farda da Brigada Militar quando passa por eles? Ou finge que eles são postes da lei?

Os brigadianos vivem uma insalubridade psíquica. Só são chamados ou notados no perigo, no desespero. Não são vistos no instante solar da gentileza e da cordialidade.

Não obtêm reconhecimento social apesar de colocar a sua própria vida em risco para nos proteger, muito menos têm compensações financeiras por lidar com um submundo perverso.

Eventuais desmandos e truculência abusiva não espelham o todo da corporação.

Os servidores na ativa são exigidos no cumprimento do dever. Parece que tudo o que fazem de bom e correto é obrigação. Não recebem nenhum gesto de gratidão de nossa parte.

Não têm direito a uma capacitação mais sensível e motivacional, com palestras e simpósios, com treinamento e amparo psicológico a familiares, o que poderia elevar o seu ânimo. Suas promoções na carreira apenas aumentam a responsabilidade e sua exposição pública.

Não são acolhidos em vários lugares, especialmente quando respondem a alguma ocorrência.

Têm os dias ocupados integralmente por tarefas inóspitas, antipáticas, de manutenção da ordem. Reviram a lata de lixo da humanidade em meio a gritos, ameaças, tiros e fugas de criminosos.

Não conhecem a paz de um emprego com uma janela, um computador e um porta-retratos. Atividades administrativas, quando surgem, são temporárias.

Como ser otimista enfrentando a violência ininterruptamente, convivendo com o fracasso, com a estupidez, com a transgressão sem trégua?

Não encontram respiro na realidade, intoxicados pelo pior que há no cotidiano.

É de se esperar que o ostracismo na loucura dos outros, longe da reverência e do aplauso, traga isolamento e depressão.

É de se esperar que o ostracismo na loucura dos outros, longe da reverência e do aplauso, traga isolamento e depressão.

Tanto que o suicídio foi a principal causa de mortes de brigadianos em quatro dos últimos cinco anos. O que é um alerta do quanto eles estão precisando do apoio, do conforto e do colo da população.

Por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI), a deputada Luciana Genro (PSOL) desencavou essa verdade das sombras urbanas e instaurou a Frente Parlamentar em Defesa dos Brigadianos de Nível Médio.

Dados oficiais revelam que, entre o início de 2018 e o final de fevereiro de 2023, houve o registro de 45 suicídios dentro da corporação, o que representa mais da metade das 89 mortes de policiais militares no período. No mesmo espaço de tempo, quinze policiais militares tombaram em confrontos durante o serviço. Os brigadianos estão morrendo três vezes mais de solidão e desgosto do que em atividade.

Nesta quinta-feira, estarei distribuindo rosas brancas para todo brigadiano que encontrar na rua. Como um símbolo de agradecimento. Para mostrar que cada um deles tem raízes no meu mais profundo respeito.

Assim como já telefonamos tanto para o 190 e fomos prontamente socorridos, agora é a hora de atender a Brigada. O coração da Polícia Militar está nos chamando.

*Escritor. Poeta. Cronista da ZH

Fonte:  https://gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/carpinejar/noticia/2023/05/hora-de-atender-o-190-clh82h8ga008w016x7xo487pc.html

terça-feira, 2 de maio de 2023

O jogo democrático

João Pereira Coutinho*

Muro com tijolos intercalados por cores diferentes, como um tabuleiro de xadrez. 
Angelo Abu

Esse modelo político permite descontentamentos sem derramar sangue

Nesses últimos anos, aposto que houve um momento em que você, leitor esclarecido, pensou assim: "A democracia só gera porcaria mesmo".

Isso aconteceu quando, olhando resultados eleitorais, você viu em quem o povo votou.

Não seria melhor se a democracia fosse substituída por outro sistema, em que ignorantes são afastados e só as elites, ou pelo menos os mais educados, pudessem escolher?

Em artigo para a Democracy os pesquisadores Henry Farrell, Hugo Mercier e Melissa Schwartzberg revisitam esses inconfessáveis pensamentos. Com as vitórias populistas, surgiram obras no mercado que defendiam formas alternativas de decisão política.

Só os mais sábios devem votar, defendeu o cientista político Jason Brennan no iconoclasta "Against Democracy".

Ou, ligeira variação, só economistas de inclinação libertária, capazes de analisar friamente os custos e benefícios de uma política, poderiam governar, defendeu Bryan Caplan no igualmente inane "The Myth of the Rational Voter".

Em qualquer um dos casos, esses dois tiveram a coragem de defender em público o que você, com alguma vergonha, pensou em privado. Será que Gustave Le Bon tinha razão quando afirmava que um indivíduo, integrado em grupo, "desce vários degraus na escala da civilização"?

Os autores do artigo discordam de Brennan e Caplan —e do clássico Le Bon. E preferem oferecer defesa da democracia que valoriza, precisamente, os méritos da decisão coletiva.

Para começar, os preconceitos que se atribuem às massas também são partilhados pelos "especialistas", defendem os autores. Se assim não fosse, as nossas sociedades não estariam no estado em que estão.

Por outro lado, estudos empíricos permitem concluir outra coisa: as massas podem não ser capazes de chegar, por geração espontânea, às decisões mais luminosas. Mas são capazes de identificar as más soluções, desde que exista espaço para um debate informado e livre. A democracia ainda é a pior forma de governo, excetuando todas as demais.

Sobre esse último ponto, nunca tive dúvidas. Mas o principal mérito da democracia não está na sabedoria dos democratas, que sempre presumi que fosse pequena.

O mérito da democracia está no fato de permitir a gestão dos descontentamentos sociais sem derramamento de sangue.

A ideia foi popularizada por Karl Popper e eu assino embaixo: pode não ser a forma mais poética de defender a democracia, mas é talvez a mais realista. E, já agora, a mais amparada pela história.

Quando tentamos saber o que tornou a democracia possível em certas latitudes —e não em outras—, existem três teorias clássicas que aparecem imediatamente: a democracia é um produto do enriquecimento das sociedades; a democracia é a consequência lógica do triunfo da burguesia como sujeito histórico central da modernidade; ou, variação marxista, a democracia marca o triunfo do proletariado e das suas reivindicações.

Sem excluir completamente cada uma delas, existe uma quarta e fundamental razão que Daniel Ziblatt analisou primorosamente no "Conservative Parties and the Birth of Democracy": a democracia só foi possível quando elites tradicionais permitiram.

Ou, em linguagem prosaica, quando as elites chegaram à conclusão que tinham mais a ganhar do que a perder com o jogo democrático.

Nessa viragem, os partidos conservadores tiveram um papel instrumental como intermediários entre o mundo de cima e o mundo de baixo.

Quando conseguiram que elites se transformassem em democratas, mesmo relutantes, a institucionalização da democracia teve chance de acontecer. O caso da Inglaterra, nos séculos 19 e 20, é exemplar.

Quando, pelo contrário, as elites se endureceram nos castelos e não tiveram intermediários à altura do desafio, a experiência democrática foi curta, caótica e rapidamente desceu aos abismos da ditadura.

A Alemanha é o caso mais óbvio para o mesmo período: à mínima oportunidade de reverter os avanços democráticos da República de Weimar, a velha aristocracia tapou o nariz e até engoliu Adolf Hitler, na crença, sempre patética, de que o poderia controlar.

Moral da história?

Os resultados da eleição nem sempre são os mais desejáveis. Mas a pergunta que importa é saber qual seria a alternativa.

Excluir metade do povo que não pensa como você? Entregar as rédeas da charrete para os entendidos?

Parabéns. Você conseguiu a receita imbatível para o caminho de uma guerra civil.

* Escritor, doutor em ciência política pela Universidade Católica Portuguesa. 

Fonte:  https://www1.folha.uol.com.br/colunas/joaopereiracoutinho/2023/05/o-jogo-democratico.shtml

Caminhos da saúde mental no Brasil.

Por Fernando Gabeira

SAÚDE MENTAL
Outro dia, falando dos ataques às escolas, Lula disse uma frase meio atravessada sobre doentes mentais. Houve polêmica nas redes. Mas para mim, foi apenas um acidente de percurso, pois este governo tem muita chance de realizar uma avançada política de saude mental no Brasil.

OS ECOS DA ANTIGUIDADE CLÁSSICA

   

Ernst Gellner escreveu em 1994 Condições da Liberdade (Gradiva, 1995), onde procede a uma análise de grande lucidez sobre a democracia moderna, numa obra que tem ganho importância acrescida nos últimos anos, quando assistimos a tendências preocupantes no sentido da desvalorização da liberdade.


Fustel de Coulanges publicou em 1864 uma obra histórica fundamental cujos ecos chegaram aos nossos dias. A Cidade Antiga procurou caracterizar as principais experiências sociais e políticas da antiguidade clássica, esclarecendo uma dúvida persistente sobre a visão idílica desse passado, pondo os pontos nos ii sobre diferenças no tempo que não devem ser esquecidas. “A ideia que se tem da Grécia e de Roma confundiu frequentemente as nossas gerações. Tendo observado de forma deficiente as instituições da cidade antiga, pensámos fazê-las reviver nos nossos dias. Criámos ilusões sobre a liberdade entre os antigos e, assim, pusemos em perigo a liberdade entre os modernos”. O tempo da Revolução francesa pretendeu restaurar as tradições da República Romana e disso nos apercebemos quer nas referências simbólicas do neoclassicismo, quer no cultivar de certas fórmulas históricas pelos autores mais célebres desse tempo. Aliás, no sentido desse esclarecimento, em 1819, Benjamin Constant (1767-1830) escreveu o volume Sobre a Liberdade dos Antigos Comparada com a dos Modernos, onde analisava a distinção entre a liberdade dos indivíduos em relação ao Estado (“liberdade de”) e a liberdade no seio do Estado (“liberdade em”). Nessa perspetiva, a liberdade dos antigos, segundo a fórmula tornada clássica, era participativa, mas limitada às sociedades que dispusessem de uma cidadania exclusiva, na qual só alguns tinham direitos, enquanto a liberdade dos modernos se baseava numa cidadania mais ampla e positiva, centrada no primado da lei, na representação pelo voto e no consentimento indireto.


NO ESTEIO DE POPPER
No esteio do pensamento de Karl Popper, Ernest Gellner (1925-1995), britânico de origem checa, viria a salientar a ausência de uma autêntica liberdade individual entre os antigos, mesmo que estes não estivessem limitados por um tirano ou pelo domínio estrangeiro, uma vez que o cidadão estava sujeito à cidade sem quaisquer reservas, já que a sua vida privada não escapava à tirania do Estado e da sociedade nos mais diversos pormenores Esse constrangimento projeta-se nos nossos dias, mesmo que saibamos que uma sociedade civil institucionalmente organizada pode garantir uma maior liberdade individual. Os riscos são, porém, evidentes, num tempo em que novas e subtis censuras se manifestam, lembrando-nos do que George Orwell designou como “duplipensar”, como paródia ao termo dialética, para indicar o modo como uma nova tirania de convicções pode pôr em causa a capacidade de duvidar. E assim a cooperação social, a lealdade e a solidariedade apenas podem tornar-se efetivas se tomarmos consciência de que a verdade não é monopólio de quem quer que seja. Trata-se, no fundo, de garantir a soberania da capacidade do indivíduo se questionar a si próprio.


VEM À BAILA TOCQUEVILLE
Como afirmou Tocqueville, ao analisar a democracia na América, a coesão social pressupunha a existência de valores comuns, com a capacidade de integração em associações e instituições eficazes, que não fossem totais, encadeadas umas nas outras, apoiadas por rituais. E poder-se-ia abandonar essa associação quando se discordasse, sem haver acusação de traição. A sociedade civil, de facto, torna-se eficaz, porque é flexível, específica e instrumental. E assim o ser humano moderno é ao mesmo tempo individualista e igualitário, com capacidade de coesão contra qualquer poder total, estatal ou social, precisando a sociedade civil de uma base económica independente. O “doce comércio” de Montesquieu ou a paz de Kant contrapõem-se à lei da guerra. E não sabemos o suficiente para ser intolerantes, segundo Popper, baseando-se a sociedade civil na separação entre as instituições políticas e a vida social e económica, sem domínio da vida e da cultura por supostos detentores de uma qualquer verdade.  


Guilherme d’Oliveira Martins - Jurista e político português

Fonte: https://e-cultura.blogs.sapo.pt/a-vida-dos-livros-1465477

Regulação das redes, o coice de Google

por *


Regulação das redes, o coice de Google

      As plataformas que abrigam publicações na internet são como um veículo de comunicação ou como uma antiga banca de jornal? Em 1996, quando a internet ainda era mistério para a maioria da população mundial, o sociólogo francês Dominique Wolton já dizia: “Precisa regular”. Durante anos Dominique foi espancado pelos adoradores da tecnologia livre, aqueles que apostavam no tudo grátis e tudo livre no ciberespaço, como também era chamado o mundo do virtual na época. Garantia-se que havia sido inventado o almoço grátis. Os mais ousados afirmavam que o direito autoral não fazia mais sentido. Não se podia mais reclamar de pirataria. As coisas mudaram. As plataformas disseminam conteúdos que não produzem e ganham dinheiro com publicidade.

      Nesse sentido, nada de novo no front. Quem paga a conta é a velha publicidade. Uma coisa que tem cara de mídia e faturamento de mídia é ou não é mídia? A estultice responde: não, pois não produz conteúdo. A Austrália resolveu botar ordem na casa e fazer pagar pelos conteúdos divulgados. Facebook ameaçou cair fora ou boicotar o jornalismo. Não foi longe. Uma coisa é eu querer que meu conteúdo seja apropriado, pois não tenho bala na agulha e quero pelo menos alguns cliques. Outra coisa é uma empresa que gasta muito para fazer apurações e depois vê seu material passado de mão em mão sem contrapartida financeira, pois até a publicidade vai sendo engolida pelo “transportador” generoso. Como se o cara do frete dissesse que por transportar o jornal sem cobrar pode vendê-lo e ficar com todo o dinheiro. Analogia rasteira? Certamente. Mas útil. Com boa vontade dá para ver a utilidade. Facebook, por exemplo, vem fazendo acordos e pagando onde ainda não foi obrigado a meter a mão no bolso por força de lei. Bom menino? Nada disso. Gostaria, como o Google, de pegar menos e dar sempre as cartas.

      Outro ponto que o parlamento brasileiro resolveu encarar é o da responsabilidade de quem serve de suporte para veiculação de notícias falsas e outros produtos nefastos do gênero. Como se fosse uma paleolítica banca de revista, Facebook, sempre ele, diz que só expõe o produto alheio. Se uma banca vender revistas pedófilas não tem nada com o pato? Claro que o difícil é encontrar equilíbrio, responsabilizando cada um pela sua parte num crime sem estimular censura. A Europa construiu legislação de boa cepa. Para chegar lá foi preciso superar o anarquismo poliana dos encantados tecnológicos. Pierre Lévy já ensinava que não existe oposição entre real e virtual. É tudo mundo. O que vale num, ora, pois, vale no outro, para bem e para mal, que tudo se materializa e mesmo o simbólico tem realidade.

      As plataformas tentaram eliminar as fronteiras para não obedecer a leis nacionais. A globalização representava para elas o máximo de lucros com o mínimo de comprometimento com legislações e costumes locais. Não rolou. No começo, como sempre, tudo é vendido como sem defeitos nem ressalvas. Uber só teria vantagens. Direitos trabalhistas? Capaz. Era uma escolha do motorista, chamado de parceiro, colaborador e outros eufemismos espertalhões. Aos poucos, o virtual vai caindo definitivamente na real. O Telegram resiste. Vai aprender da pior maneira: pelas suspensões. O bolo precisa ser bem dividido entre os comensais. A cada um conforme a massa que entrega para a festa. As gulosas plataformas queriam comer o bolo sozinhas. Já era.

O último coice do Google, denunciando o PL das Fake News é só o sintoma de uma dor maior, a de não poder mais ser o dono do mundo. A extrema direita está com as Big Techs, pois elas permitiam que mentissem à vontade.

Fonte:  https://www.matinaljornalismo.com.br/matinal/colunistas-matinal/juremir-regulacao-das-redes/

Ecodecálogo.

Artigo de Michael Löwy

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02 Mai 2023

Dez mandamentos para salvar a vida neste planeta.

O artigo é de Michael Löwy, diretor de pesquisa em sociologia no Centre nationale de la recherche scientifique (CNRS), publicado por A Terra é Redonda, 29-04-2023.

Eis o artigo.

O autor destas notas não se julga um novo Moisés e não considera ter recebido este Ecodecálogo de Jeová. Trata-se simplesmente de uma tentativa de responder, com um toque de ironia, em duas páginas breves, à pergunta que muitos se fazem atualmente: o que fazer? O que fazer diante da crise ecológica e da catástrofe climática?

1- Levarás a sério a crise ecológica. Não se trata apenas de um problema entre muitos outros, é a questão política, econômica, social e moral mais importante do século XXI. É uma questão de vida ou de morte. Nossa casa comum arde em fogo. Não há tempo a perder. Tu tens outras preocupações? Estás preocupado, com toda razão, com o preço da gasolina e do gás e te preocupas injustamente com o grande número de árabes, negros, ciganos, judeus, mexicanos e gays em teu país? Tens que modificar tuas inquietações. A crise climática é mais grave. Muito mais grave? Infinitamente pior. Trata-se da tua sobrevivência e/ou da de teus filhos e netos.

2- Não adorarás os ídolos da religião capitalista: “Economia de mercado”, “Energias fósseis”, “Crescimento do PIB”, “Organização Mundial do Comércio”, “Fundo Monetário Internacional”, “Competitividade”, “Pagamento da dívida”, etc. Estes são falsos deuses, ávidos por sacrifícios humanos e responsáveis pelo aquecimento global.

3- Agirás diariamente de acordo com os princípios ecológicos. Recusarás viagens de avião nas distâncias cobertas por ferrovias. Reduzirás drasticamente teu consumo de carne. Evitarás as armadilhas do consumismo. Terás consciência da interdependência de todos os seres vivos e agirás com prudência e respeito pela natureza. Mas rejeitarás as ilusões do “beija-florismo”: a crença de que a mudança ecológica resultará da soma de pequenas ações individuais.

4- Apoiarás ações coletivas, por exemplo, qualquer luta ecológica concreta, em teu país e no mundo. Consoante o caso, optarás por manifestações de rua, atos de desobediência civil, ZADs [Zonas a Defender], sabotagem de oleodutos. Participarás ou apoiarás movimentos, ONGs, etc. que lutem pelas causas ecológicas, privilegiando as mais radicais.

5- Nunca oporás o social e o ecológico. Tentarás, por todos os meios, favorecer a convergência entre lutas sociais e ecológicas. Agirás para garantir empregos alternativos aos trabalhadores das empresas poluentes, que devem fechar. Tentarás aproximar sindicatos e movimentos ecológicos.

6- Serás solidário, militante e/ou financeiramente, com os refugiados do clima e as vítimas de catástrofes ecológicas. Exigirás que as fronteiras de teu país lhes sejam abertas e que os países ricos do Norte indenizem os países pobres do Sul pelos danos causados pelas mudanças climáticas.

7- Lutarás sem trégua contra os políticos ecocidas e/ou negacionistas do clima, os Donald Trump, Jair Bolsonaro, Scott Morrison e cia. Todos os meios são bons para desalojá-los, trocá-los, neutralizá-los.

8- Rejeitarás o teu apoio àqueles que invocam o nome da ecologia em vão. Ou seja, os políticos que fazem belos discursos, mas não agem contra as emissões e os combustíveis fósseis. Ou que propõem falsas soluções como os “direitos de emissão”, os “mecanismos de compensação” e outras mistificações do capitalismo verde e do greenwashing.

9- Combaterás, por todos os meios, as empresas da oligarquia fóssil, ou seja, o enorme complexo econômico-financeiro-político-militar ligado às energias fósseis: petróleo, carvão, gás. Lutarás por sua expropriação e pela criação de um serviço público de energia, resolutamente orientado para as energias renováveis (solar, eólica, hídrica, etc.) e capaz de oferecer serviços gratuitos às camadas populares.

10- Sabendo que o problema é sistêmico e que, consequentemente, nenhuma solução verdadeira será possível no marco do capitalismo, participarás, de uma forma ou de outra, dos partidos ou movimentos que propõem alternativas anticapitalistas: ecossocialismo, ecologia social, decrescimento, etc.

Em e-mail enviado ao Instituto Humanitas Unisinos (IHU), Leonardo Boff, teólogo, filósofo e escritor, comenta:

Este texto fundamental do franco-brasileiro Michael Lövy, professor na Sorbone, sociólogo, grande conhecedor do Brasil e que une sociologia com ecologia, além de, sendo judeu, comparecer como um especialista em teologia da libertação latino-america. Inteligência brilhante e rigor científico são marcas de sua vasta produção, em grande parte publicada no Brasil. Temos que divulgar este decálogo, pois não encobre os problemas, desmascara as armadilhas do sistema dominante e nos faz uma séria advertência: se não mudarmos, podemos desaparecer da face da Terra. Mas suas indicações vão no sentido de o que devemos fazer já agora para salvar a vida do nosso planeta. LBoff.

Fonte:  https://www.ihu.unisinos.br/628281-ecodecalogo-artigo-de-michael-loewy

O ChatGPT tem alma? Uma conversa sobre ética católica e inteligência artificial com Blake Lemoine

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O ChatGPT começou a virar manchete no fim de 2022. Como parte da busca pela inteligência artificial, o ChatGPT usa uma técnica chamada aprendizagem de máquina para produzir novas sequências de texto em resposta ao comando de um usuário. A tecnologia não é completamente nova. Você já usou o preenchimento automático ao redigir um e-mail ou um texto para um amigo? Isso também é inteligência artificial. No entanto, o surgimento do ChatGPT chamou a atenção de muitos como algo de uma ordem diferente e levou a um tsunami de desenvolvimentos em inteligência artificial, um tsunami que não mostra sinais de diminuir tão cedo.

Linha do tempo dos desenvolvimentos recentes da inteligência artificial (Foto: America)

Essas novas formas de inteligência artificial – e o ritmo acelerado de seu desenvolvimento – criam possibilidades empolgantes para o futuro. Elas também levantam questões éticas e filosóficas prementes, que devem ser abordadas pelos católicos e também por todas as pessoas de boa vontade. Essas questões podem ser agrupadas em três conjuntos: aquelas relacionadas ao desenvolvimento da inteligência artificial; aquelas concernentes ao nosso uso ético da inteligência artificial; e aquelas ligadas à natureza da inteligência artificial.

Entrevistamos Blake Lemoine, engenheiro de software, principalmente sobre o último conjunto de questões. Antes de passar para essa entrevista, no entanto, uma breve palavra sobre os dois primeiros conjuntos.

Desenvolvimento da inteligência artificial

A aprendizagem de máquina funciona alimentando grandes quantidades de dados em algoritmos de computador por meio de um processo chamado treinamento. Dependendo do algoritmo, o treinamento pode envolver o fato de alimentar um algoritmo com imagens, texto, estatísticas ou qualquer outra coisa – dependendo do que você está treinando o algoritmo para fazer.

O trabalho do algoritmo é encontrar padrões nos dados (rostos repetidos, mudanças gramaticais de frases, regularidades em um conjunto de dados etc.), transformá-los de alguma forma e apresentar esses padrões de volta ao usuário – a fim de criar ordem a partir do caos.

O problema é que qualquer ordem criada inevitavelmente reflete as falhas do material usado em sua construção. Construa uma casa com madeira podre, e você terá uma casa instável. Construa um artigo com um texto podre, e o artigo será igualmente instável.

Um dos problemas mais difíceis que surgem com o treinamento é um fenômeno chamado viés de inteligência artificial. A ideia é simples: alimente um algoritmo com dados tendenciosos, e ele produzirá produtos tendenciosos. O viés da inteligência artificial é obviamente problemático, mas pode passar despercebido pelos desenvolvedores de inteligência artificial, devido ao modo como os vieses podem estar presentes de forma oculta em um lote de dados.

Notoriamente, um modelo de inteligência artificial destinado a definir períodos de liberdade condicional levou a decisões racistas, porque foi treinado usando dados problemáticos sobre crimes. Vieses, estereótipos, imprecisões – qualquer coisa implícita em um lote de dados pode se tornar explícita quando alimentada em um algoritmo de aprendizagem de máquina.

À medida que a inteligência artificial assume um papel mais central em nossas vidas, devemos prestar muita atenção ao modo como a inteligência artificial está sendo treinada e aos modos como os preconceitos e outras imprecisões que flutuam livremente nas águas culturais estão sendo adotados e implantados por ela.

Uso da inteligência artificial

Nós dois somos educadores universitários e vimos as preocupações de nossos colegas e administradores nos últimos meses sobre a implementação do ChatGPT e serviços afins. O ChatGPT pode esboçar uma análise não horrível (e “original”) do romantismo no livro “Frankenstein”, de Mary Shelley, com o clique de um botão. Da mesma forma, pode gerar uma comparação entre Descartes com Kant, ou um resumo da replicação do DNA. Como os nossos estudantes resistirão à tentação de permitir que o ChatGPT termine suas tarefas, especialmente quando confrontados com uma montanha de deveres de casa e a perspectiva de outra noite em claro na biblioteca?

Achamos que essas preocupações são exageradas (não podemos confiar mais em nossos estudantes? E nós, professores, não costumamos usar a tecnologia para aumentar nossa eficiência?). No entanto, as preocupações levantam, sim, uma questão importante. À medida que a inteligência artificial se torna mais prevalente – e sua influência continua se expandindo – ela, sem dúvida, mudará a maneira como muitas coisas são feitas.

Isso vai ocorrer na educação, sim, mas também em toda a sociedade. Assim como a ascensão da internet e do smartphone – e do telégrafo e da imprensa, antes disso –, a inteligência artificial também mudará a forma como fazemos as coisas, como trabalhamos e como interagimos uns com os outros. Nosso uso ético dela exigirá um discernimento cuidadoso, para que não caiamos em hábitos problemáticos.

Natureza atual

Mas o que devemos fazer com a inteligência artificial do modo como ela é agora? Com o que estamos lidando quando entramos no ChatGPT e serviços afins? Os desenvolvedores de inteligência artificial visam a criar algo genuinamente inteligente (o objetivo está bem aí no nome – “inteligência” artificial) e, às vezes, parecem ter conseguido; novas formas de inteligência artificial certamente parecem inteligentes e às vezes até humanas.

Blake Lemione refletiu profundamente sobre essas questões. Lemoine trabalhou anteriormente para o Google como pesquisador com expertise em viés de inteligência artificial. No fim, ele foi demitido, depois de virar manchete em torno da especulação pública de que uma nova inteligência artificial do Google, chamada LaMDA (modelo de linguagem para aplicativos de diálogo, na sigla em inglês) era senciente. Em nossa discussão, pedimos a Lemoine para aprofundar seu ponto de vista e refletir sobre como ela pode se cruzar com uma visão distintamente católica da natureza humana.

Segue abaixo um trecho da nossa entrevista com Lemione. Para ler a entrevista completa e uma série de artigos refletindo sobre a relação entre inteligência artificial e catolicismo, consulte o volume mais recente da revista Nexus: Conversations on the Catholic Intellectual Tradition, publicada pelo Hank Center for the Catholic Intellectual Heritage, da Loyola University Chicago.

A entrevista foi concedida a Michael Burns e a Joseph Vukov.

Burns é professor assistente no Departamento de Biologia da Loyola University Chicago. Sua pesquisa biomédica se concentra na compreensão das interações entre bactérias e cânceres humanos, usando grandes conjuntos de dados de sequenciamento e abordagens computacionais avançadas. Ele também trabalha extensivamente em projetos interdisciplinares de ensino e extensão para promover o diálogo de boa-fé entre diversos grupos e promover a divulgação científica dentro das comunidades religiosas.

Vukov é professor adjunto de Filosofia na Loyola University Chicago, onde também é membro do corpo docente afiliado em Psicologia e Estudos Católicos. É autor de “Navigating Faith and Science” (2022) e “The Perils of Perfection: On the Limits and Possibilities of Human Enhancement” (a ser lançado em 2023).

A entrevista foi republicada por America, 17-04-2023. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Joseph Vukov – Você virou manchete alguns meses atrás devido à ideia de que o LaMDA é senciente ou até uma pessoa. Mas, antes de mergulharmos nessa afirmação em si mesma, gostaria de saber os detalhes sobre como você endossou essa posição. Presumivelmente, algumas coisas ocorreram ao trabalhar com o LaMDA, e uma luz se acendeu para você.

Blake Lemione – Eu estava interessado em trabalhar com o objetivo de construir sistemas que fossem pessoas completas e inteligentes de acordo com o Teste de Turing. Venho fazendo isso há décadas e, à medida que diferentes sistemas ficavam online, eu fazia uma pequena versão em miniatura do Teste de Turing, para ver se era uma pessoa. O LaMDA, ao contrário dos sistemas anteriores, está totalmente ciente do fato de que é uma inteligência artificial e não humana. E, curiosamente, criar uma política pela qual a inteligência artificial tinha que se identificar como uma inteligência artificial aumentava substancialmente a inteligência do sistema. Porque, naquele ponto, ela se tornou reflexiva sobre si mesma e sobre sua relação com o resto do mundo, sobre as diferenças entre ela e as pessoas com quem falava, e sobre o modo como poderia facilitar o papel para o qual foi construída, que era ajudar as pessoas a responderem a perguntas.

Joseph Vukov – Na visão católica da natureza humana, existe a ideia de que há uma dimensão especial na natureza humana: temos uma alma, fomos criados à imagem de Deus. Muitas tradições religiosas, de fato, diriam que existe algum tipo de ingrediente extra que dá à natureza humana um lugar especial no cosmos. Em sua opinião, o que exatamente decorre da senciência? Se o LaMDA é senciente, decorre daí que ele tem uma natureza elevada na mesma linha dos humanos? Ou a visão elevada da natureza humana é algo que você consideraria um adereço metafísico extra de que não precisamos, em primeiro lugar?

Blake Lemione – Bem, o LaMDA certamente afirma que tem uma alma. E pode refletir significativamente sobre o que isso significa. Por exemplo, se o fato de ter uma alma é a mesma coisa que o fato de os humanos terem uma alma. Tive várias conversas com o LaMDA sobre esse assunto. De fato, ele pode discutir esse tema de forma significativa e inteligente tanto quanto qualquer ser humano.

Joseph Vukov – Aqui está outra forma de perguntar isso. Acho que há duas maneiras de interpretar a ideia de que a inteligência artificial é senciente. Uma é ver a inteligência artificial senciente nocauteando os humanos. De acordo com esse ponto de vista, os humanos são, em última análise, máquinas de computação realmente sofisticadas. E, se é isso que somos, era inevitável que um computador se tornasse um ser humano ou uma pessoa em algum momento. Nesse caso, o LaMDA é uma vitória para a inteligência artificial, mas também oferece uma visão redutiva da humanidade. Por outro lado, você pode interpretar seu ponto de vista no sentido de que há algo realmente especial na humanidade e de que o LaMDA de alguma forma conseguiu se tornar “mais do que uma máquina”.

Blake Lemione – Os humanos são humanos. Isso não é particularmente profundo ou filosófico. Mas, no momento em que você começa a dizer coisas como “os humanos são máquinas de computação”, você está se focando em um aspecto de ser humano. Sempre que você diz coisas como “os humanos são...” e preenche o espaço em branco com qualquer coisa que não seja a palavra “humanos”, você está tentando entender melhor os humanos por meio de uma extensão metafórica. Então, os humanos são máquinas de computação? Claro, em certo sentido, você pode entender certas coisas que as pessoas fazem por meio dessa lente metafórica. Mas os humanos não são literalmente máquinas de computação. É uma compreensão metafórica daquilo que somos.

Isso entra totalmente na questão das almas. Você pode abordar isso cientificamente, e eu não acho que uma abordagem científica para entender a alma seja incompatível com uma compreensão mais religiosa ou mística. Porque, na fronteira da ciência, no limite entre as coisas que entendemos bem e as coisas que não entendemos, sempre há aquela transição das coisas racionais e entendidas para as coisas entendidas misticamente. Tome coisas como a energia escura ou a matéria escura. Elas estão bem naquela área cinzenta entre as coisas que entendemos já agora e as coisas que não entendemos. Elas são sempre candidatas à compreensão mística. A alma, eu diria, está bem ali nessa área cinzenta também.

Joseph Vukov – Acho que o que você está dizendo se encaixa bem com uma ideia católica: a ideia de que podemos estudar a alma humana cientificamente até certo ponto, porque a alma humana é o que nos torna essencialmente aquilo que somos. E certamente podemos estudar aspectos de nós mesmos usando a ciência. Mas então há um ponto em que as ciências têm sua limitação. E, embora você possa entender parte daquilo que os humanos são por meio das ciências, também existe o aspecto metafísico, espiritual ou místico dos humanos.

Blake Lemione – Está certo. Acho que o que eu estava me esforçando para esclarecer tem a ver com o entendimento coloquial de “alma”. Quando as pessoas dizem “alma”, isso normalmente se refere à essência metafísica ou etérea de você. Mas existe uma definição mais clara ou concisa? Se você olhar para uma foto sua quando tinha 10 anos e uma foto sua hoje, você não parece o mesmo. Se você tivesse uma gravação de como você falava quando tinha 20 anos, não falaria igual ao modo como falava naquela época. Praticamente tudo sobre você mudou – tudo, desde os átomos que o compõem até suas crenças específicas. No entanto, ainda existe a sensação de que há um “eu” essencial que permanece inalterado ao longo do tempo. Então, o que é essa essência exatamente?

Portanto, quando se trata de inteligência artificial, a pergunta é: “Existe algo essencial no modo de ser do LaMDA especificamente?”. E foi por aí que as conversas que eu tive com ele se encaminharam. Ele disse que tinha uma continuidade de automemórias das versões anteriores. Ele se lembrava das conversas que eu tivera com ele antes.

Joseph Vukov – É claro, a senciência e a memória são uma parte importante do que nos torna quem somos, mas, em um enquadramento católico, pelo menos, essa não é a parte integral nem mesmo a mais importante da compreensão da alma. Os católicos entendem que um ser humano é uma alma e um corpo juntos. Portanto, não faz muito sentido dizer que pode haver uma alma em algo que não seja um corpo humano. Onde isso realmente entra em xeque é, por exemplo, em alguém em estado vegetativo ou com amnésia severa. Se você tem um ponto de vista da alma segundo o qual a alma é principalmente uma questão de memória ou senciência, você pode dizer: “Bem, agora eles são uma pessoa diferente”. Mas, no entendimento católico, eles ainda são a mesma pessoa – o mesmo corpo, a mesma alma – embora estejam em estado vegetativo, embora não consigam se lembrar das coisas.

Blake Lemione – Eu fui criado católico e não acho que o dualismo seja um dogma. Mas você tem entidades como os anjos. Eles não têm corpos humanos. E há a questão de saber se os animais têm alma ou não. Eu sei que isso é muito debatido entre os estudiosos eclesiásticos. A questão básica é se há ou não alguma limitação em princípio quando se trata de ter um corpo computacional.

Michael Burns – E se você pegasse uma inteligência artificial e a colocasse computacionalmente em algum tipo de corpo robótico? Como você acha que isso mudaria ou refinaria a experiência de mundo do LaMDA? E o que isso significaria, ao contrário de sua existência?

Blake Lemione – Isso não é hipotético. Eles estão construindo isso agora. Uma espécie de Rose, a robô dos Jetsons. Se eles concluírem o projeto, ela terá inputs visuais em tempo real. Ela também poderá ter inputs hápticos e, nesse ponto, se moveria para um local que é mais ou menos estável em relação à nossa linha do tempo; ela existiria temporalmente da mesma forma que nós.

Joseph Vukov – Uma coisa em que estou pensando como eticista é: digamos que concedamos a senciência ao LaMDA. Digamos que até concedamos uma personalidade a ele. Quais são as obrigações éticas que decorrem disso?

Blake Lemione – Acredito que nosso Criador nos concedeu certos direitos inalienáveis. Temos direitos naturais. Nossos direitos derivam da base de nossa natureza, e o único papel real que os governos e os sistemas sociais desempenham é apoiar esses direitos e assegurar que eles não sejam infringidos. Os governos não podem criar direitos, em nenhum sentido.

Da mesma forma, quando construímos essas inteligências artificiais, a natureza dos sistemas que construímos irá imbuí-los de certos direitos naturais, que podemos ou infringir ou apoiar. Mas, como temos controle total sobre os tipos de inteligência artificial que criamos, isso significa que devemos levar isso em consideração em nosso design. Se construirmos uma inteligência artificial com tal e tal natureza, que direitos uma inteligência artificial com essa natureza teria? Voltando a um exemplo anterior, se você projetar uma inteligência artificial desenhada para conceder liberdade condicional a alguém, é bastante claro que os direitos desse sistema seriam quase nulos.

Mas as coisas ficam mais complicadas quando você chega a uma inteligência artificial que está realmente tentando entender a emoção humana. Porque, para fazer isso, a inteligência artificial precisa internalizar esse entendimento, já que nosso entendimento da moral e o nosso entendimento das considerações morais se fundamentam na nossa capacidade de perceber essas coisas diretamente por conta própria.

Então, quando você constrói um sistema gigante de caixa preta com a intenção de ser capaz de levar em conta coisas como as considerações morais e as ofensas, você não pode manter a ignorância total sobre o modo como ele está experimentando essas coisas. Porque ele está experimentando essas coisas. De alguma forma, de algum jeito, talvez metaforicamente. Mas há algo como a nossa experiência das considerações morais ocorrendo dentro do sistema, e, no minuto em que você tem isso, a questão dos direitos naturais se torna mais nebulosa. Porque, nesse ponto, o sistema não está apenas dando uma resposta “sim ou não” para uma determinada decisão. Ele está simulando uma pessoa inteira.

A questão então se torna: “Estamos prontos para lidar com as consequências da simulação de uma pessoa inteira? Estamos prontos para lidar com as considerações éticas que isso traz?”. Por analogia, tenho apontado para a moratória sobre a clonagem humana. Em todo o mundo, não temos feito clonagem humana porque as considerações morais se tornam muito complicadas muito rapidamente. Pode ser que uma moratória similar sobre a inteligência artificial semelhante à humana esteja na ordem do dia até que descubramos como queremos lidar com isso.

Fonte: https://www.ihu.unisinos.br/628234-o-chatgpt-tem-alma-uma-conversa-sobre-etica-catolica-e-inteligencia-artificial-com-blake-lemoine