sexta-feira, 26 de julho de 2019

Primo Levi e o trauma da desumanização

Amir Labaki*
Primo Levi: testemunhar de viva voz foi,
até o fim, parte de sua missão de vida

"Sonhávamos nas noites ferozes
Sonhos densos e violentos
Sonhados com corpo e alma:
Voltar; comer; contar.
Até que soava breve e abafado
O comando da aurora: 'Wstawac';
E no peito o coração partia."
"Wstawac" significa "levantar" em polonês. Em italiano ("Alzarsi"), o mesmo verbo intitula o poema cuja primeira parte reproduzo acima, na tradução de Maurício Santana Dias, da recém-lançada coletânea bilíngue "Mil Sóis" (Todavia, 160 págs). É um dos primeiros escritos pelo judeu italiano Primo Levi (1919-1987), de regresso ao lar após mais de um ano no inferno nazista, passado no campo de concentração de Auschwitz na Polônia.

Voltar; comer; contar. Levi dedicou suas últimas quatro décadas a concretizar o programa ditado por aqueles sonhos. Voltou à Itália, mais precisamente à sua Turim natal, onde permaneceu até a queda final do topo da escadaria do prédio da residência familiar. Suicídio ou acidente, a questão permanece aberta, quando celebramos, na próxima quarta (31), seu centenário de nascimento.

Para comer, Levi dividiu seu espartano cotidiano entre o trabalho como químico e a vocação de escritor. Contar o ocupou noites adentro, encerrado o expediente profissional, nos legando uma extensa e complexa produção literária abarcando ficção e não ficção, narrativas autobiográficas, ensaios, poemas, contos e romances de ficção científica.

Levi já era um escritor diletante, sobretudo de poesia, ao ser preso como membro da resistência antifascista em dezembro de 1943. Depois de dois meses de confinamento no "calmo" campo de Fossoli, perto de Modena, ele foi enviado num dos trens da morte para Auschwitz. "Dos 650 que estavam nesse trem", lembraria ele numa de suas inúmeras e serenas entrevistas, "4/5 foram mortos na mesma noite (da chegada), levados diretamente à câmara de gás".

"Naquele tempo ninguém na Itália tinha ideia do que era Auschwitz", frisou ele em junho de 1982 para Daniel Toaff, no documentário de curta-metragem "Retorno a Auschwitz" (disponível no YouTube). Pela primeira vez lá de volta, acompanhava um grupo de fiorentinos, em sua maioria da comunidade judaica.

Como comprovam as três entrevistas a Giovanni Tesio em "Io Che Vi Parlo" (Eu Que Vos Falo, 2016, inéditas em português), realizadas poucos meses antes de sua morte, testemunhar de viva voz foi, até o fim, parte de sua missão. A ela começou a dar-lhe forma literária, inicialmente em poemas, logo ao completar sua longa volta para casa.

Os versos iniciais catalisaram a narração em prosa memorialística do trauma da desumanização vivenciada. Um dos poemas abre e batiza o pioneiro e cirúrgico "É Isto um Homem?" (1947, Rocco, 256 págs., tradução de Luigi del Re). A questão é colocada de saída: "(...) pensem bem se isto é um homem/ que trabalha no meio do barro/ que não conhece paz/ que luta por um pedaço de pão/ que morre por um sim ou por um não".

"É Isto um Homem?" inaugura no ápice as narrativas testemunhais sobre o processo de extermínio de 6 milhões de judeus pelos nazistas ("Holocausto" sendo para Levi uma denominação "retórica e equivocada"). Trata-se a um só tempo de um testemunho literário e de um ensaio sobre o gênero, essencialmente memória mas também reflexão, num estilo seco e minucioso. Tudo está lá: a indústria da morte e as estratégias para dia a dia a ela sobreviver, a fome, a dor, o frio, o destino, o horror.

A harmonia entre ética e estética; forma e conteúdo; as palavras e o narrado é o que torna "É Isto um Homem?" uma experiência literária imorredoura e única. Nos 40 anos seguintes à sua publicação, entre o ficcionista imaginativo e o poeta bissexto, o escritor lhe daria sequência.

Focou-se na narração memorialista de sua acidentada volta para casa em "A Trégua" (1963, Companhia das Letras, 360 págs., tradução de Marco Lucchesi), desenvolvendo e radiografando a batalha cotidiana pela vida contra a morte em "Os Afogados e os Sobreviventes" (1986, Paz & Terra, 168 págs., tradução de Luiz Sérgio Henriquez), para ficar apenas em dois outros volumes obrigatórios.

A organicidade literária, em sua limpidez estilística, explica a rala transcriação cinematográfica da escrita testemunhal de Primo Levi, seja em documentário como em ficção. Com John Turturro no papel central, o grande Francesco Rosi (1922-2015) despediu-se das telas com uma versão desnatada de "A Trégua" (1997), mesmo sendo uma aposta menos arriscada devido à sua ênfase narrativa.

Em cinema, reconheço apenas em "Shoah" (1985), de Claude Lanzmann (1925-2018), o magma de "É Isto um Homem?". É uma das duas fontes de inspiração assumidas pelo cineasta, sendo a outra "A Destruição dos Judeus Europeus" (1961), do historiador Raul Hilberg (1926-2007).

De Hilberg, a cadeia de fatos. De Levi, a potência do testemunho. Em "Shoah" ecoam seus versos: "Meditai que isto aconteceu:/ Vos comando estas palavras./ Gravai-as em vossos corações". Honrai Primo Levi.
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* Amir Labaki é diretor-fundador do É Tudo Verdade, Festival Internacional de Documentários.
E-mail: labaki@etudoverdade.com.br
Site do festival: www.etudoverdade.com.br

quinta-feira, 25 de julho de 2019

HERESIA

Luis Fernando Veríssimo*
 Imagem relacionada

O mundo da ciência econômica, como todos os mundos, está subdividido entre humanistas e seus contrários, que divergem nos seus pressupostos antes de divergirem nas suas interpretações e receitas

As culturas científica e humanística eram separadas, entre outras razões, pela linguagem. Tinham vocabulários diferentes. Seus códigos não combinavam. Previa-se até que se distanciariam tanto que um dia nenhuma comunicação seria possível entre as duas. O advento da língua comum dos computadores parecia ter diminuído essa discrepância, mas curiosamente a divisão perdurou, agora entre facções da mesma cultura, que usam o mesmo vocabulário e não se entendem. Economistas de um lado e de outro (rudemente, esquerda e direita) lidam com os mesmos números, analisam os mesmos gráficos, recebem as mesmas informações e falam todos o mesmo idioma universal, só variando o estilo – e veem e preveem coisas diferentes. 

A não ser que se procure a causa da cisão no terreno movediço do caráter de cada um, ela não tem explicação. Ou tem: o mundo da ciência econômica, como todos os mundos, está subdividido entre humanistas e seus contrários, que divergem nos seus pressupostos antes de divergirem nas suas interpretações e receitas. O que os separa é o valor que dão à vida humana, o princípio de todas as equações econômicas para uns e um dado irrelevante para outros. Não se trata de ter melhor ou pior coração. Como já disse alguém, ninguém tem o monopólio dos bons sentimentos. Mas a sua escolha de lado na divergência entre economistas, no fim, é uma definição de escolha política. É-se solidário pela mais egoísta das razões, por uma preocupação elementar com a salubridade do meio em que se respira, porque uma civilização que sacrifica o ser humano pelo lucro não é exatamente o ambiente em que se quer viver. 

Quando a Europa submergiu na intolerância religiosa e no obscurantismo da Idade das Trevas, dominada por um espécie de pensamento único que condenava como heresia qualquer forma de desafio aos dogmas da Igreja, e nem os reis sabiam ler, foi nos claustros da própria Igreja que a escrita e a cultura clássica foram preservadas e, quase sem querer, resistiram ao dogma. Hoje, outra vez, uma minoria herética se vê sitiada por dogmas inquestionáveis. Mas a Idade das Trevas acabou na Renascença. 
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* Escritor
Fonte: https://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,heresia,70002937290?utm_source=estadao:ibope&utm_medium=newsletter&utm_campaign=saiba-agora::e&utm_content=link:::&utm_term=::::
Imagem da Internet

Consumo como libertação?

Vinicius Siqueira*



O século XX é considerado como o receptáculo de uma mudança de perspectiva sobre o mundo do trabalho e da produção de mercadorias: a sociedade de produtores foi trocado 
por uma sociedade de consumidores, 
dizem Zygmunt Bauman e 
Gilles Lipovetsky.

Isso significa que a sociedade que dispersa seus indivíduos em através da distinção na área da produção, portanto, da posição ocupada pelo indivíduo em relação ao modo de produção, mas dentro desta primeira divisão, uma segunda feita a partir da posição em relação ao processo produtivo, é então modificada pela posição em relação às possibilidades de consumo.

Há um jeito específico de interpretar essa análise sobre a sociedade do consumo: as divisões objetivamente identificadas pelo marxismo através do corte entre detentores dos meios de produção e vendedores da força de trabalho não é anulada objetivamente. A sociedade dos consumidores trouxe um modelo de organização dos indivíduos e, acima de tudo, de formação da subjetividade individualista pós-moderna.

A organização, portanto, dispersão dos indivíduos através de suas possibilidades de consumo culmina na mistura entre o panóptico de Michel Foucault e o sinóptico de Thomas Mathiesen. Os indivíduos são, de fato, individualizados através da construção de uma subjetividade de desagregação (panóptico) e, ao mesmo tempo, seduzido a entregar suas informações e planos mais secretos através do consumo, ou seja, através da entrega gratuita e, para o consumidor, satisfatória de seus desejos, de sua conta bancária, de sua renda, de seu padrão de consumo, de seu padrão de práticas sociais em geral (sinóptico).

Zygmunt Bauman descreve a nova subjetividade nascente em seu Modernidade Líquida:

Cabe ao indivíduo descobrir o que é capaz de fazer, esticar essa capacidade ao máximo e escolher os fins a que essa capacidade poderia melhor servir – isto é, com a máxima satisfação concebível. Compete ao indivíduo “amansar o inesperado para que se torne um entretenimento”

Um consumidor é, de certa forma, um indivíduo portador de todas as escolhas que seu poder aquisitivo possa dar. Em resumo: escolhe quem consome, consome quem tem dinheiro, logo, escolhe quem tem dinheiro. Para além: se escolhe sozinho.

Até agora, é possível entender que a sociedade de consumidores ainda é cindida por classes sociais definidas através da posição ocupada pelo indivíduo em relação ao modo de produção, mas é organizada, dispersada e, claro, hierarquizada microscopicamente através do consumo.

Dito isso, é possível utilizar como gancho a ingênua aposta de Lipovestky sobre a sociedade do hiperconsumo. Para o autor, o desencaixe da sociedade pós-moderna e o foco no consumo poderiam render liberdade para destinos não sonhados até então.

Junto a isso, o segundo gancho é o artigo de Edson Mendes ao Lavra Palavra, em que o autor explica a posição do capital financeiro a respeito das lutas LGBT:

Wall Street não perde tempo. E se a maré vira, eles viram junto. Apesar de não importar para quem lucra se quem é motorista da Uber superexplorado, por exemplo, é gay, lésbica, bissexual ou trans, o capital financeiro não vê problemas em patrocinar movimentos conservadores e reacionários nos países periféricos, reafirmando de vez a divisão internacional do trabalho.

O motorista superexplorado do Uber não é um trabalhador do setor produtivo. É um trabalhador do setor de serviços. É um consumidor com emprego fora da produção. É um indivíduo já desligado da perspectiva da produção e inserido completamente na organização da sociedade do consumo. Sua função é ser trampolim para consumidores do aplicativo.

Na medida em que a libertação dos trabalhadores através do consumo não é propagandeada como possibilidade na dita pós-modernidade, é necessário agarrar o exemplo mais utilizado (e seus correlatos), foco do artigo de Mendes: a libertação LBGT acontece através do consumo?

A resposta óbvia através da leitura deste artigo é: o consumo não é libertador. Mas é necessário enriquecer esta afirmação com um incremento mórbido. O consumo não só não é libertador, como também é aprisionador.

Mas este incremento não pode ser lido com viés moral. O aprisionamento não se encontra em um tipo específico de anestesia psicológica. O aprisionamento está na posição ocupada por aqueles que fazem o consumo ser realizado.

Ninguém liga se o motorista do Uber é gay. Pior, acreditam que a superexploração do motorista do Uber é positiva e, de certa forma, política. Talvez o melhor exemplo seja o Lady Driver, app de corridas com motoristas mulheres para clientes mulheres. Parte de sua descrição é: “Somos irmãs, mães, filhas, esposas e trabalhadoras. Somos mulheres! Acreditamos no empoderamento feminino e na nossa capacidade de ganhar o mundo“.

Pode-se dizer, embora seja arriscado, mas vale como hipótese, que o consumo como libertação só é possível na dita pós-modernidade na medida em que o ato do consumo individual é o horizonte mais próximo de uma ação coletiva. De certa forma, na lógica do consumo como liberdade, a ação de libertação acontece na frágil ligação entre consumidor e mercadoria.

Se o Uber não liga se o motorista superexplorado é gay, o consumidor não liga se o motorista gay é superexplorado.

*Vinicius Siqueira é editor do portal Colunas Tortas.
Fonte:  https://lavrapalavra.com/2019/07/25/consumo-como-libertacao/

terça-feira, 23 de julho de 2019

Como os pobres sustentam os ricos

Frei Betto*

Em menos de 24 horas a França ar­re­cadou 2 bi­lhões de euros para re­cons­trução da Ca­te­dral de Notre Dame, na qual fiéis, sa­cer­dotes, bispos e car­deais ma­ni­festam a fé de que todos os seres hu­manos são fi­lhos de Deus e me­recem viver com dig­ni­dade. A mesma França que desde 1957, ou seja, após 62 anos de in­de­pen­dência de suas colô­nias na África, cobra delas 85% de suas re­servas na­ci­o­nais.

São 15 países que pagam um salvo-con­duto à França todo ano. Al­guns são mar­cados por des­truição, guerras e fome, como Benin, Bur­kina Faso, Costa do Marfim, Mali, Níger, Se­negal, Togo, Ca­ma­rões, Re­pú­blica Centro Afri­cana, Chade, Congo, Re­pú­blica da Guiné e Gabão. Destes, seis fi­guram entre os mais mi­se­rá­veis do mundo.

Seus go­vernos são obri­gados a co­locar 60% das suas re­servas no Banco da França, e só podem usar 15% ao ano. Caso re­tirem mais do que isso, devem pagar um ágio de 65% do valor. Ou seja, são pe­na­li­zados por uti­li­zarem o pró­prio di­nheiro.

Nas ex-colô­nias afri­canas, toda des­co­berta mi­neral per­tence à França. Todo equi­pa­mento e trei­na­mento mi­li­tares têm de ser fran­ceses, o que mostra quem lucra com as guerras lo­cais. Já mor­reram mais de 350 mi­lhões de ino­centes por causas de guerras cau­sadas pela po­breza na­queles países.

Até 2004, o Haiti também tinha de pagar essa mesma taxa à França. Em 1825, quando a in­de­pen­dência do Haiti foi re­co­nhe­cida, o então pre­si­dente hai­tiano, Jean-Pi­erre Boyer, as­sinou um acordo com o rei francês Carlos X, pelo qual a im­por­tação de pro­dutos da nação ca­ri­benha te­riam re­dução de 50% nas ta­rifas al­fan­de­gá­rias, e o Haiti pa­garia à França, em cinco par­celas, uma in­de­ni­zação no valor de 150 mi­lhões de francos, equi­va­lentes hoje a US$ 21 mi­lhões.

Essa quantia seria para com­pensar os fran­ceses por ha­verem per­dido imó­veis, terras e es­cravos. Caso o go­verno hai­tiano não as­si­nasse o tra­tado, o país con­ti­nu­aria iso­lado di­plo­ma­ti­ca­mente e fi­caria cer­cado por uma frota de na­vios de guerra.

Aquele valor equi­valia às re­ceitas anuais do go­verno hai­tiano mul­ti­pli­cadas por dez. Por­tanto, o Haiti teve que re­correr a um em­prés­timo para pagar a pri­meira par­cela. To­mado de um banco francês... Assim co­meçou for­mal­mente o que se co­nhece como a “dí­vida da in­de­pen­dência”. O banco francês em­prestou 30 mi­lhões de francos, valor da pri­meira par­cela, da qual de­duziu 6 mi­lhões de francos em co­mis­sões ban­cá­rias.

Com o res­tante 24 mi­lhões de francos, o Haiti co­meçou a pagar as in­de­ni­za­ções. Ou seja, o di­nheiro passou di­reto dos co­fres de um banco francês para os co­fres do go­verno francês. E o Haiti ficou de­vendo 30 mi­lhões de francos ao banco francês, e mais 6 mi­lhões de francos ao go­verno da França re­fe­rentes ao valor que faltou da pri­meira par­cela.

Es­ta­be­leceu-se uma es­piral ab­surda de dí­vidas para pagar uma in­de­ni­zação que con­ti­nuou alta de­mais para os co­fres do país ca­ri­benho, mesmo quando foi re­du­zida à me­tade, em 1830. Mais tarde, em 1844, o lado leste da ilha se de­cla­raria de­fi­ni­ti­va­mente in­de­pen­dente do oeste, for­mando a Re­pú­blica Do­mi­ni­cana.

Desde então, o Haiti teve que pedir grandes em­prés­timos a bancos es­ta­du­ni­denses, fran­ceses e ale­mães, com taxas de juros exor­bi­tantes que com­pro­me­tiam a maior parte das re­ceitas na­ci­o­nais.

Fi­nal­mente, em 1947, o Haiti ter­minou de com­pensar os fran­ceses. Foram 122 anos pa­gando dí­vidas desde a in­de­pen­dência. E restou ao país a triste re­a­li­dade de também fi­gurar entre os 20 países mais mi­se­rá­veis do mundo.

Notre Dame será re­er­guida, sem dú­vida. E ali a glória de Deus será exal­tada. Mas, e aqueles que foram cri­ados à Sua imagem e se­me­lhança, a po­pu­lação das ex-colô­nias? 
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* Frade dominicano. Escritor.
Fonte:  http://www.correiocidadania.com.br/2-uncategorised/13828-como-os-pobres-sustentam-os-ricos - Acesso 23/07/2019
*Assessor de movimentos sociais. Autor de 53 livros, editados no Brasil e no exterior, ganhou por duas vezes o prêmio Jabuti (1982, com "Batismo de Sangue", e 2005, com "Típicos Tipos")

segunda-feira, 22 de julho de 2019

Globalização fracassou para muitos, e reações podem ser violentas

  Lucas Chancel, co-diretor do World Inequality Lab e do World Inequality 
Database da Escola de Economia de Paris e PhD em economia pela Ecole des Hautes Etudes 
en Sciences Sociales - Paris Sciences Lettres
 

Coordenador do Relatório da Desigualdade Global diz que 'fuga para o mais barato' achatou as classes médias e levou à precarização dos serviços públicos

Fernando Canzian
Paris
 

Para o economista Lucas Chancel, um dos coordenadores do Relatório da Desigualdade Global, as promessas da globalização "fracassaram" para muitos ao redor do mundo.

Em sua opinião, os países precisam reorganizar a integração econômica global para evitar "reações violentas" no futuro.

Embora os muitos pobres estejam melhorando por causa da Ásia, os mais ricos ficam cada vez mais ricos em todo o mundo e a classe média está sendo espremida. Quais as razões e as perspectivas desse movimento?
O que vemos são os três lados da história da globalização. O lado mais feliz é o enorme crescimento da Ásia. Na China, na Índia e em outros países. Há uma melhora substancial nos padrões de vida,e isso levou à redução das desigualdades entre os países. 

Alguns se concentraram nisso para dizer que a globalização é ótima e que é preciso aprofundá-la,pois a desigualdade global diminuiu. 

Mas há um outro lado. A renda cresce em ritmo muito baixo entre as classes trabalhadoras na América do Norte e em alguns países europeus. Nos EUA, toda a metade mais pobre ficou de fora do crescimento da renda nos últimos 38 anos. 

Isso também precisa ser entendido a partir da perspectiva da terceira história da globalização, que é a da elite econômica global. 

Onde quer que olhemos o mundo, na Europa, na América Latina, na América do Norte ou na Ásia, vemos a renda do 1% mais rico subindo brutalmente. São taxas de crescimento acima de 100% ou de 200% para o 1% do topo entre 1980 e hoje. Em alguns países a taxa ultrapassa os quatro dígitos. 

Um debate bem informado sobre a globalização precisa levar em conta essas três histórias. Não dá para dizer apenas que os pobres estão melhorando e que isso é ótimo. Ou que as pessoas do topo estão ganhando muito e que isso é terrível. 

O que vai acontecer? O lado bom da história é que tudo depende de nós. 

Tudo vai depender do que os formuladores de políticas implementarem. E isso vai depender,em muitos países, das decisões dos cidadãos. 

Como os países individualmente podem combater a desigualdades e as empresas hoje são globais e o capital é livre para migrar, mas as pessoas, não?
O capital pode migrar por que organizamos a globalização dessa maneira. Assinamos tratados que nos permitem mover bens e às vezes trabalhadores e, em muitos casos, o capital. Mas não assinamos tratados que harmonizassem a tributação. 

Então, qualquer tipo de entidade na qual há livre comércio sem harmonização fiscal será uma entidade econômica que não funcionará adequadamente. Particularmente do ponto de vista da desigualdade. Com certeza, essa é uma questão-chave que precisa ser enfrentada. 

Nos últimos 30 anos houve, dentro da União Europeia, uma "fuga para onde for mais barato" em termos de tributação progressiva,ou em termos de tributação de uma empresa. Porque todo país acha que, se não fizer o jogo da "fuga para o mais barato", vai sair perdendo. 

Mas, no final, todo mundo perde porque não sobram recursos para os atores públicos que quer em financiar um bom nível de educação, transporte público e saúde. 

Basicamente, os formuladores de políticas foram um pouco preguiçosos, e apenas diziam que "tudo bem, vamos fazer o jogo da fuga para o mais barato". Mas qual é a consequência desse jogo?
Bem, há contribuintes "móveis", que são as multinacionais e os cidadãos ricos, que ameaçam e chantageiam o governo com o argumento de que "se você aumentar meus impostos, eu me mudo".
Mas também há"contribuintes imóveis", a classe trabalhadora, a classe média e o contribuinte que simplesmente não pode se mudar. E essas pessoas querem a manutenção de bons níveis de serviço público. 

Então, quem vai pagar os impostos? Se isso recair sobre a classe média, sobre os grupos de baixa renda, não será nenhuma surpresa que venhamos a ter uma reação muito violenta, brutal. 

Já temos fenômenos como Donald Trump, brexit e populistas ganhando terreno. A "desglobalização" vai se acentuar nessa onda?
Um dos problemas é que as promessas da globalização em grande parte fracassam. Ela deveria aumentar o padrão de vida em países de baixa renda, e isso aconteceu
Mas também deveria melhorar a vida das classes médias e dos trabalhadores nos países ricos, e isso não aconteceu. 

Uma das formas de entender a rejeição a o multilateralismo é o próprio fracasso do multilateralismo.
Mas uma maneira de tentar torná-lo bem-sucedido é abordar a questão-chave que você colocou, da fuga de capitais. É preciso organizar a globalização e saber com muito mais transparência onde está a riqueza e como ela se move de um país para outro. 

Isso significa, por exemplo, que não podemos continuar negociando com paraísos fiscais que não respeitam as regras básicas da transparência. Porque países e governos perdem nesse jogo. Isso justifica a imposição de limites. 

Em The Great Leveler, Walter Scheidel argumenta que a desigualdade é um fato da vida. Que só diminuiu após eventos extremos, como guerras e pestes. Qual a sua opinião?
Sim, é um fato da vida e, em certa medida, sempre existirá, até o fim dos tempos. 

Mas a questão é até que ponto aceitaremos esse nível de desigualdade. E há outro fato, não um fato da vida, mas das sociedades humanas, que é a discussão permanente sobre como a riqueza deve ser compartilhada. E esse tipo de discussão está no centro da construção das democracias modernas. 
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Fonte:  https://temas.folha.uol.com.br/desigualdade-global/europa/globalizacao-fracassou-para-muitos-e-reacoes-podem-ser-violentas.shtml 22/07/2019

domingo, 21 de julho de 2019

Entrevista ao neto de Nelson Mandela. “Este não é o mundo pelo qual o meu avô lutou”



Ndaba conheceu o avô Mandela na prisão e aprendeu com ele a ser um líder. Hoje, viaja pelo mundo a falar de Nelson Mandela às novas gerações. Em entrevista ao Observador, compara Trump ao apartheid.

O peso de um apelido pode ser esmagador. Ndaba Mandela, um dos 17 netos de Nelson Mandela, sabe-o bem. Nunca se distanciou do nome do avô — pelo contrário, agarrou o testemunho, criou a fundação Africa Rising e dedica-se a manter vivo o legado do homem que derrotou o apartheid. Hoje, viaja pelo mundo para falar aos mais novos sobre ele. Foi, aliás, o próprio Nelson Mandela quem o avisou, desde tenra idade, para que se preparasse para o que aí viria. “Lembro-me de que uma vez ele disse-me mesmo: ‘Ndaba, és meu neto, por isso as pessoas vão olhar para ti como um líder. Por isso, tens de ter as melhores notas da turma'”, diz Ndaba Mandela, 36 anos, numa entrevista ao Observador durante uma passagem por Portugal.

A visita a Portugal deveu-se à inauguração do Bosque Madiba, um projeto ambiental desenvolvido pela Associação Patrulheiros na Mata do Buçaco, que alia uma homenagem a Nelson Mandela — são 100 árvores, plantadas por 100 personalidades, para contar 100 episódios da vida do primeiro presidente democraticamente eleito da África do Sul — à sustentabilidade, já que inclui um parque para educar as crianças no uso da bicicleta. Um dos principais objetivos da Associação Patrulheiros, como explicou o líder, José Nuno Amaro, ao Observador, é promover a utilização da bicicleta desde a infância.

Em entrevista na redação do Observador, após aterrar em Lisboa e antes de seguir para o concelho da Mealhada para a inauguração, Ndaba Mandela lembrou como conheceu o avô na prisão que não parecia uma prisão, recordou a vida com Nelson Mandela — incluindo quando o avô o mandava arrumar o quarto — e lamentou que o mundo de hoje não seja aquele pelo qual Madiba lutou. O neto de Mandela compara a atuação de Donald Trump na fronteira entre os EUA e o México a um novo apartheid e diz que os líderes europeus têm de reconhecer que estão na origem da crise dos refugiados. E lembra um dos maiores momentos de orgulho da sua vida: aquele em que levou pela primeira vez com gás lacrimogéneo e se sentiu plenamente parte da luta anti-racismo.

 
Ndaba Mandela com o avô (DR

A maioria das pessoas que são conhecidas por serem o filho ou o neto de alguém importante arriscam sempre que o apelido se sobreponha à sua própria identidade — e nem sempre gostam. O Ndaba, pelo contrário, tem dedicado a sua vida a lutar para manter vivo o legado do seu avô Nelson Mandela. Tenho de lhe perguntar: como é levar consigo o apelido Mandela?
Ter o apelido Mandela implica uma grande responsabilidade e, claro, as pessoas têm grandes expectativas sobre o tipo de vida que nós devemos levar. Muitas pessoas no meu país querem que nós sigamos as pegadas do nosso avô e nos candidatemos a cargos públicos ou a algum tipo de cargos de liderança no Governo.

Já pensou nisso?
Já pensei em assumir cargos públicos e acredito que, se a necessidade surgir, faremos o que é necessário para representar o nosso país da melhor forma que conseguirmos.

Sente-se maior do que si próprio, maior do que apenas o Ndaba?
Não. Sou o Ndaba. Sou um produto de Nelson Mandela, fui criado por ele desde os 11 anos de idade, e por isso os valores e os princípios dele tornaram-se os meus.

Quando o Ndaba nasceu, o seu avô ainda estava na prisão. Quais são as primeiras memórias que tem dele?
Na primeira vez que fui conhecer o meu avô, os meus pais disseram-me que nos íamos encontrar com ele na prisão. Com 8 anos de idade, tinha uma imagem típica do que seria uma prisão: barras de cimento, segurança por todo o lado, guardas-prisionais, cães. Mas, quando lá cheguei, não era nada como tinha imaginado. Era, na verdade, uma casa.

Dentro da prisão.
Eu não percebia que eles o tinham tirado de Robben Island [prisão onde Nelson Mandela esteve preso 18 anos] e o tinham posto naquela casa [prisão de Victor-Verster] sozinho. Eles estavam a tentar quebrá-lo mentalmente. Para lhe dizerem: ‘Nelson Mandela, agora és um homem velho, vive o resto dos teus dias no meio do luxo, denuncia o movimento do ANC [Congresso Nacional Africano, partido anti-apartheid no poder desde 1994], denuncia a luta contra o apartheid, denuncia os teus próprios camaradas, a quem dedicaste a luta contra o apartheid‘.

Cinco anos antes de ter sido libertado, ofereceram-lhe a possibilidade de ser libertado e ele recusou, disse que só saía se também saíssem os companheiros. O que é preciso para que alguém que esteve preso mais de 20 anos recuse uma oferta destas?
É porque Nelson Mandela era muito focado no seu objetivo. Nunca perdeu o foco no objetivo. O objetivo era ter a oportunidade de serem reconhecidos como cidadãos iguais perante a lei. Como pessoas negras, como pessoas brancas, como indígenas, como pessoas de raça mista. Que todos tenham as mesmas oportunidades, independentemente da cor da pele. Ele dedicou a vida dele, sacrificou a sua própria família, pelos direitos da família maior da África do Sul.

"Foi a primeira vez que senti o gás lacrimogéneo e senti-me tão orgulhoso de ter a primeira memória do gás lacrimogéneo. A partir daquele momento, eu senti que era um camarada a marchar e a tentar fazer ouvir a minha posição contra os racistas, o Governo e a polícia" 

Fale-me da sua infância enquanto criança negra sob o regime do apartheid.
Ao viver durante o apartheid, experienciei e testemunhei a polícia a prender o nosso povo todos os dias. Prendiam-nos nas casas, nas ruas, e fiquei muito perturbado com isto. Por isso, queria tornar-me um soldado, queria ripostar contra os mesmos criminosos que estavam a atingir o nosso povo, sem qualquer razão para nos estarem a tratar assim. Lembro-me de que quando era criança houve uma marcha na rua, e juntei-me à parte de trás da marcha com os meus amigos. Quando chegámos ao topo da rua, estava lá um enorme carro da polícia, a que costumávamos chamar os “hippos“, e no topo do carro apareceu um polícia e disparou gás lacrimogéneo contra a multidão. A multidão dispersou e, claro, nós voltámos para trás a correr, para a nossa rua. Foi a primeira vez que senti o gás lacrimogéneo e senti-me tão orgulhoso de ter a primeira memória do gás lacrimogéneo. A partir daquele momento, senti que era um camarada a marchar e a tentar fazer ouvir a minha posição contra os racistas, o Governo e a polícia.

E a sua família estava particularmente exposta por causa do seu avô?
Sim. O nome do nosso avô era uma fonte de dor e de assédio. Por isso, nunca falávamos do nosso avô. Só ouvi falar do meu avô quando o fomos visitar à prisão, pouco antes de ele sair.

Era um tabu na sua família?
Era tabu. Tem de entender que, a dada altura, antes de ir para a prisão, Nelson Mandela era o inimigo público número um.

Um líder revolucionário.
Percebe? E, por isso, a família dele estava em risco. A nossa família sofreu muito com o assédio e a subjugação da polícia. Percebe o que estou a dizer?

Lembra-se do dia em que ele foi libertado da prisão?
Foi um dia glorioso. Foi um dia de celebração, um dia de triunfo. Lembro-me de que toda a gente estava nas ruas. Crianças, tias, tios, primos. Até os gatos e os cães estavam aos saltos nas ruas, a celebrar a libertação deste homem.

Quantos anos tinha?
Tinha oito anos.

E o que sentiu?
Senti-me muito orgulhoso. Também estava no desfile, a fazer assim [agita o punho no ar], porque vi o meu avô a fazê-lo e estava a fazer a mesma coisa, com o punho direito no ar. Foi um momento de muito orgulho para nós e para todo o país.

Depois disso viveu com ele diariamente?
Desde o momento em que ele foi libertado, passaram três anos até o ver de novo.

 
Ndaba Mandela conheceu o avô na prisão, quando tinha oito anos (KIMMY SIMÕES/OBSERVADOR) 

O que aconteceu nesses três anos?
Voltei à minha vida normal e ele, claro, andou por todo o mundo a angariar dinheiro e a chamar a atenção para a luta contra o apartheid e para eles trabalharem no sentido de se fazerem as primeiras eleições democráticas na África do Sul.

E a partir daí como foi a vida diária com ele? Nós conhecemos a imagem pública de Nelson Mandela e a sua luta contra o apartheid. Mas como era viver com ele, estar com ele em casa?
O meu avô era muito rigoroso. Lembro-me de que ele passava pelo meu quarto, olhava e via que as minhas coisas estavam desarrumadas, e chamava-me sempre para garantir que ficava tudo arrumado. O principal objetivo dele era garantir que eu tinha boas notas na escola. Lembro-me de que uma vez ele disse-me mesmo: “Ndaba, és meu neto, por isso as pessoas vão olhar para ti como um líder. Por isso, tens de ter as melhores notas da turma”. E fiquei: “Wow, avô, pressão, pressão, wow, wow! Não estou pronto para fazer isso. Não quero ser um líder”. Mas ele dizia-me, desde uma tenra idade, que tinha de me preparar para ser um líder. “Porque esse é o teu destino, meu filho.” Penso que ele pegou em mim, me criou, para me ensinar estas lições, porque acreditava que o trabalho tinha de ser continuado e que alguém teria de continuar este trabalho.

Agora, dedica a vida a manter o legado dele vivo. Como é que aprendeu mais sobre o seu avô? Através da interação diária com ele ou pelo que lia sobre ele fora de casa?
Não. Cresci com o meu avô a partir dos 11 anos. Ao viver com ele, percebi exatamente o tipo de homem que ele era.

Hoje, o Ndaba anda por todo o mundo a falar às novas gerações sobre o seu avô. O que é que os mais novos sabem sobre Nelson Mandela?
Penso que a maioria dos mais jovens apenas sabe que Nelson Mandela foi o primeiro presidente democraticamente eleito na África do Sul, que era negro, que representa o país e que passou 27 anos na prisão. Acho que não sabem muito mais do que isso.

E como explicaria às novas gerações quem ele foi?
Diria que Nelson Mandela é um homem que dedicou a sua vida a criar uma sociedade que trata as suas pessoas de forma igual. Diria que Nelson Mandela foi à escola pela primeira vez sem sapatos, a usar as calças do pai, e cresceu para se tornar um dos maiores, mais amados e mais respeitados líderes, porque se dedicou a garantir que todas as pessoas da África do Sul tinham oportunidades iguais. Diria que Nelson Mandela acredita que nos devemos dedicar a garantir que os jovens têm uma voz, que os jovens têm as oportunidades e têm acesso às ferramentas para serem capazes de quebrar o ciclo da pobreza. Em última análise, que os jovens tenham espaço para sonhar e para perseguir os seus sonhos até se tornarem uma realidade.

Começou por dizer que carregar o apelido Mandela traz uma responsabilidade. Esta responsabilidade é sentida por todos os membros da vossa família?
Não sei, não posso falar em nome dos membros da minha família. Posso falar em nome de mim próprio. Mas claro que a nossa família tem um maior motivação para fazer o bem, para contribuir para o desenvolvimento da nossa comunidade.

O que é este projeto do Bosque Madiba, que o traz a Portugal?
A nossa organização, Africa Rising, fez uma parceria com a associação Patrulheiros, que é uma organização dedicada a garantir que temos um bom ambiente e mobilidade, usam bicicletas de maneira a usarem a energia de uma forma consciente, que não degrade o ambiente, que proteja o ambiente. Sinto que é muito importante fazê-lo, porque não há muitas pessoas conscientes da forma como usamos a energia de forma segura, consciente, que não impacte negativamente a Terra. Também é uma parte do mundo em que ainda não tinha estado, é a minha primeira vez em Portugal, mas tive muita sorte em conhecer o líder da Patrulheiros no Mónaco, há uns anos atrás. Temos trabalhado neste projeto desde essa altura. Estou muito feliz por finalmente acontecer.

Acha que, se Nelson Mandela fosse vivo hoje, nos seus dias de juventude, as alterações climáticas seriam uma prioridade para ele?
Não me parece que as alterações climáticas fossem uma prioridade para ele. Porque a nossa prioridade era o bem-estar do nosso povo. Essa é a primeira prioridade. Depois, em segundo lugar, essas pessoas teriam acesso à educação e seriam capazes de desenhar e viver a vida que quiserem. Temos de entender que temos causas diferentes. Eu quero cuidar das pessoas, você quer cuidar do ambiente, ela quer tratar dos animais. Ao trabalharmos juntos, criamos um mundo melhor. É importante que também tenhamos causas diferentes e afinidades diferentes a causas diferentes.

O que vai acontecer no Bosque Madiba, qual vai ser o objetivo do projeto?
Bom, cheguei esta manhã e ainda estou a perceber tudo o que vai acontecer no bosque, mas penso que haverá uma pequena cerimónia que envolve as árvores. Como sabe, as árvores representam a vida, são uma grande fonte de recursos para a comunidade, por isso vai ser uma cerimónia simbólica em que usamos árvores para representar a vida de Nelson Mandela, os diferentes momentos da vida dele.

"Este não é o mundo pelo qual o nosso avô lutou. O nosso avô lutou contra o preconceito e vemos 
preconceito, aqui, hoje" 

Quando alguém com o apelido Mandela olha para o mundo de hoje, parece-lhe que este foi o mundo pelo qual o seu avô lutou?
Não. Este não é o mundo pelo qual o nosso avô lutou. O nosso avô lutou contra o preconceito e vemos preconceito, aqui, hoje.

Há novos apartheids no mundo?
apartheids. Quando olhamos para o Brasil, as pessoas negras são marginalizadas. Quando olhamos para um país como o Saara Ocidental, que tem sido dominado por Marrocos. Quando olhamos para a discriminação que acontece na América contra os jovens negros, contra os mexicanos, por um líder muito egoísta que não tem visão.

Compara Donald Trump ao regime do apartheid na África do Sul?
Definitivamente. Ele é algo como um Pieter Botha, como um de Klerk, [presidentes sul-africanos do tempo do apartheid] e às vezes até como um Zuma [presidente sul-africano que renunciou em 2018, investigado por crimes relacionados com a compra de armas na década de 1990].

E quando olha para a crise dos refugiados na Europa, qual deve ser a solução para acabar com esta crise?
Os europeus têm de entender que foram eles que criaram este problema. Não foram os africanos que criaram este problema. Foram os europeus que colonizaram África, foram os europeus que roubaram os recursos de África, foram os europeus que usaram os recursos que foram buscar a África para construir os seus próprios países. Não deixaram nada para trás. Por isso, quando estas pessoas procuram melhores oportunidades para os seus filhos, vão para a Europa. Para a Europa ser capaz de matar este problema, tem de investir e garantir que há escolas de alta qualidade em África, que há instituições que construam a economia. Só aí vão ver este problema desaparecer. Mas até a Europa assumir responsabilidade por este assunto, ele não vai desaparecer.

Por exemplo, quando olha para alguns líderes europeus mais ativos na campanha anti-refugiados…
Isso é ser anti-humano. Ser anti-refugiados é não reconhecer outros seres humanos. E, por conseguinte, não reconhecer a própria humanidade. Tenho uma responsabilidade, enquanto africano, de lembrar a Europa exatamente de onde é que ela vem. Exatamente o que são. Têm de entender que o Ubuntu é um valor ancestral em que nós, africanos, dizemos: “Eu sou, porque tu és, porque nós somos”. Não há nenhum homem que exista numa ilha, em isolamento. Percebe o que digo?

Vivemos em relação uns com os outros.
A sociedade, esta comunidade em que vivemos, em que estamos agora, foi construída por seres humanos a trabalhar em conjunto.

O trabalho do seu avô na África do Sul pode ser uma inspiração para resolver estes problemas no resto do mundo?
A 100%. Acredito que a razão pela qual Nelson Mandela é tão amado e admirado por todo o mundo é porque eles vêm o exemplo de liderança, que é uma liderança de serviço. Temos de encontrar uma forma de inspirar os jovens a liderar com os valores e à luz de Nelson Mandela.

Queria voltar à sua juventude na África do Sul. Quando foi para a universidade, já foi depois do fim do apartheid
Sim.

"Os europeus têm de entender que foram eles que criaram este problema. Não foram os africanos que criaram este problema. Foram os europeus que colonizaram África, foram 
os europeus que roubaram os recursos de África" 

Quando estava na universidade, como era a sua relação com os seus colegas? Sabiam que era neto de Nelson Mandela? Como reagiam a isso?
Alguns sabiam, outros não sabiam. Os que sabiam tinham reações diferentes. Uns gravitavam à minha volta, queriam conhecer-me. Os outros tinham simplesmente inveja de mim, viam-me como alguém mimado e que não queria saber de nada.

Até que idade viveu com o seu avô?
Fiquei com o meu avô desde os 11 anos até ao fim dos dias dele.

Qual foi a maior lição que aprendeu com ele a nível pessoal?
Ele ensinou-me muitas grandes lições. Mas uma das que se destacam é que ninguém nasce a odiar outra pessoa por causa da cor da sua pele. Uma pessoa pode ser ensinada a odiar e pode ser ensinada a amar. O amor aparece muito mais naturalmente na condição humana do que o ódio.

Depois do fim do apartheid, ainda sentiu preconceito na sociedade sul-africana?
Ainda há preconceito, dos sul-africanos brancos contra os sul-africanos negros. Ainda há preconceito em todo o mundo. As chamadas sociedades avançadas, a América, a Europa, ainda mostram muito preconceito. Portanto, na minha opinião, não são assim tão avançadas.

Diz que temos de nos entender uns aos outros, de entender de onde viemos. Como é que conseguimos fazer isso concretamente? O que sugeriria em concreto se tivesse uma reunião com Donald Trump ou com outros líderes?
Lembrar-lhes-ia que o país deles foi construído por países de todo o mundo, e que é uma posição vergonhosa aquela em que estão. Construíram este grande país, usando as mãos de imigrantes de todo o mundo, e agora que construíram um grande país, dizem-lhes para voltarem para o país deles. É uma vergonha.

 
Ndaba Mandela na redação do Observador (KIMMY SIMÕES/OBSERVADOR) 

Calculo que devido ao seu trabalho nos dias de hoje já se tenha encontrado com vários líderes mundiais, e tenho a certeza de que muitos dizem que o admiram por ser o neto de Nelson Mandela. Sente uma contradição nos líderes que dizem admirar Nelson Mandela e depois praticam este preconceito?
Claro que há uma contradição. Eles não admiram verdadeiramente Nelson Mandela, apenas gostam da imagem deles ao lado de Nelson Mandela, porque sabem o quão amado e respeitado ele é. Só o fazem por causa da forma como o mundo se sente em relação a Nelson Mandela. Mas eles não olham para Nelson Mandela da mesma forma.

É uma forma de chegar às pessoas.
É uma forma de chegar às pessoas. Estão a usá-lo como um veículo, como uma ferramenta. Mas não se preocupam sinceramente com as pessoas e não entendem qual é a posição e a responsabilidade de um líder.

Lembra alguma conversa com um líder mundial em que isto tenha sido um tema?
Conheci muitos líderes em África e em diferentes partes do mundo. Mas é como digo: os que são sinceros vão seguir os passos de Nelson Mandela cuidando do seu povo. É a melhor coisa de Nelson Mandela. Ele tinha compaixão. Consegue imaginar na minha casa. Fui visitado pelo Michael Jackson. Fidel Castro, conheci-o na minha própria casa. Mike Tyson, o príncipe Alberto… É dizer os nomes.

Iam a sua casa.
Iam conhecer o meu avô e eu estava lá para os conhecer também. Nelson Mandela, por causa da grande compaixão que tinha, tratava estas super-estrelas, estes líderes do mundo, da mesma forma que tratava a cozinheira. Nelson Mandela entendia que, independentemente da agenda, da idade, de toda a sociedade e a demografia, todos temos a capacidade de alcançar a grandeza.
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Reportagem Por João Francisco Gomes