Na vida
comum das comunidades cristãs, muitas vezes falta um olhar para os casais que moram juntos, um
olhar que não tenha o matrimônio como seu objetivo primeiro e muitas
vezes único.
O
comentário é de Sergio Di Benedetto, colaborador de diversas
realidades eclesiais italianas e doutor em Literatura Italiana pela Universidade
da Suíça Italiana, em Lugano. O artigo foi publicado por Vino
Nuovo, 21-06-2022. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.
Nesta
quarta-feira, 22, em Roma, começa o 10º Encontro Mundial das Famílias,
que concluirá o ano Amoris laetitia. Nesses
meses, portanto, deveria ter havido uma atenção particular ao tema da família
nas atividades comunitárias, mesmo que se sobrepondo aos vários caminhos
sinodais.
Valerá a
pena, então, lançar luz sobre uma situação que se cruza com a familiar e que
diz respeito a hoje de um modo muito forte, ou seja, a da coabitação.
Na Itália,
em 2020, havia um milhão e meio de coabitações; um em cada três filhos
nasceu de casais que moram juntos. São dados que os agentes de pastoral
envolvidos nos vários caminhos de preparação ao matrimônio conhecem bem,
pois nos vários “cursos de noivos” a maioria dos casais já mora junto, e não
raramente com filhos.
Portanto,
diante desses números, que, aliás, são a realidade cotidiana – quem não tem
amigos, conhecidos, parentes que moram juntos? – surge a pergunta obrigatória:
que tipo de pastoral ordinária pensamos e implementamos para os casais que
coabitam? Estou falando dos casais, antes do que dos filhos (isso merece um
raciocínio à parte).
A nossa
pastoral parece muitas vezes oscilar entre o esquecimento e a falsa indiferença,
por um lado, e o proselitismo, por outro. Ou seja, por um lado, fingimos que
certas situações, embora envolvendo muitas pessoas, não existem; por outro
lado, assim que nos aproximamos de um casal que mora junto (talvez para o
batismo de um filho), notamos o preconceito de uma “falta relacional” e
sentimos imediatamente o dever de “sugerir” as “bodas religiosas”, quase uma
reflexão incondicional herdada dos tempos em que se casar significava “curar” e
“regularizar” situações “irregulares”. Ou, melhor: a única proposta pastoral
que não raramente sabemos fazer e na qual conseguimos pensar é a do matrimônio
religioso, razão pela qual que a comunidade cristã só parecer poder
oferecer o caminho do matrimônio religioso a um casal que coabita.
Mas isso
é realmente eficaz, é realmente bom, é realmente evangélico, é realmente
inteligente, ou seja, capaz de ler aquilo que é a realidade?
Pensar em
uma pastoral para os coabitantes, que capte as sementes de amor, de
fecundidade, de estabilidade, de graça presentes em tais relações, valorizando-as,
acolhendo-as, abrindo-se também a um diálogo recíproco entre experiências, não
significa diminuir ou negar a fé cristã no sacramento do matrimônio, mas
significa captar as situações reais, olhar para a vida das pessoas, saber
compreender os caminhos, ter a coragem de nos deixarmos evangelizar.
Não
podemos relegar o encontro entre a comunidade cristã e os casais que moram
juntos apenas ao momento em que eles decidem pelo matrimônio religioso.
Se isso não ocorrer durante anos, vamos nos limitar a ignorar tais existências?
Temos fé na força e na beleza do sacramento do matrimônio, mas também devemos
ousar fazer outra coisa, evitando o terrível mal-entendido de instrumentalizar
situações para alcançar um propósito que corre o risco de ser meramente
“normativo”, se não nascer de uma resposta livre a um caminho interior e de
casal.
Nem
sempre, nem imediatamente, nem obrigatoriamente quem deve agir é o “reflexo
regularizador” (forma jurídica da pureza sexual como primeira preocupação).
É
importante, parece-me, poder dizer que, em cada situação da vida, há uma
Palavra boa para as pessoas; em cada situação da vida, há uma semente do
Espírito; em cada situação da vida, é possível um seguimento a Cristo, que
sempre será um pouco manco, um pouco incerto, talvez com intensidades
diferentes.
Mas Cristo
é para todos, não para alguns. Esse é um dos núcleos da Amoris laetitia,
mas sobretudo da Evangelii gaudium. É
urgente pensar em uma pastoral que traga no coração também os casais que
coabitam, que supere a dialética lícito/ilícito (que no cotidiano paroquial se
torna um simples “quem pode comungar? Quem pode se confessar?”), que não marque
diferenças entre batizados em classes de mérito.
Os recentíssimos
“Itinerários catecumenais para a vida matrimonial” (embora dentro de
impulsos nem sempre harmoniosos e harmonizados) dão alguma margem teórica de
trabalho [1], embora sempre subordinada a uma proposta de matrimônio
cristão (como é óbvio, dada a natureza do documento).
Ainda com
dificuldade, tentamos sair do modelo familiar “comercial de margarina”, atualização do “modelo
santinho”, para uma visão bem mais concreta, complexa, menos esquemática da
vida familiar. Mas é hora de pensar além dos esquemas, é hora de nos deixarmos
solicitar por aquela é a vida cotidiana de muitos.
No poço
da Samaria, Jesus não disse à mulher para “regularizar” a sua
situação, para se conformar com as normas da pureza, mas se pôs ao seu lado
para perguntar, escutar, dialogar, dizer que ali havia chegado a salvação da
sua vida.
Talvez
devêssemos voltar ao poço do Sicar e entender que há água para todos. As
escolhas talvez possam ser consequentes, na liberdade dos filhos de Deus. Mas
não serão o fim da nossa proximidade.
Nota:
1. "No entanto, a presença já
generalizada de casais coabitantes e com filhos que pedem para se casar na Igreja
requer, paralelamente à pastoral vocacional evolutiva que aqui se propõe, a
elaboração de caminhos locais centrados na realidade concreta desses casais,
que certamente precisam de um cuidado e de uma atenção especiais em relação aos
noivos que, de algum modo, já vivem uma experiência de vida cristã” (p. 98).
Psicanalista fala sobre a atual busca pelo prazer e
pelo risco do efeito rebote desse período de ressocialização. “O futuro
já não é mais tão magnético”
Ficamos tão próximos à morte que agora queremos viver em excesso. A
pandemia não acabou, mas as vacinas possibilitaram um período de
ressocialização permeado de euforia, festas e mais festas e sensação de
que temos que ser felizes agora ou nunca. Nesta edição do Podcast da
Semana, a conversa é com o psicanalista Lucas Charafeddine Bulamah,
doutor em psicologia clínica pela USP, que fala sobre a atual busca pelo
prazer.
”Adiar o gozo ou o prazer caiu em desuso”, ele afirma, e diz que essa
ideia está ligada ao imediatismo da vida contemporânea: ninguém quer
mais perder tempo, como mostram os altos números de divórcio no país.
Além da prática clínica, Bulamah tem um canal no Youtube em que discute psicanálise e não monogamia.
“Antigamente
o futuro era onde você depositava o fruto dos investimentos ao longo da
vida: prazer, trabalho. Hoje, um hiperaproveitamento da vida é marca do
período que a gente vive. O futuro é amanhã e o presente é o de mais
interessante que a gente pode viver. Antigamente as pessoas tinham certa
ideia do futuro, mas ele já não é mais tão magnético”, afirma Bulamah.
Mas
tanta euforia assim pode fazer mal? “O lado B de tanto prazer é um
crescimento do sofrimento também”, diz Bulamah, que acredita e defende
uma política de redução de danos.
Na abertura do Collision, em Toronto, a
autora de O Conto da Aia defendeu que é preciso construir um novo modo
de vida a partir do que temos disponível hoje
Juliana Causin*, de Toronto
A autora canadense Margaret Atwood já escreveu sobre uma sociedade teocrática que suprime todos os direitos das mulheres - enredo do best-seller e da série “O Conto de Aia”
-, já imaginou um mundo pós-apocalíptico que é tomado por criaturas
geneticamente modificadas (“Oryx e Crake”) e, depois, mostrou esse mesmo
mundo sendo atingido por um enorme desastre natural ( “O Ano do
Dilúvio”).
Mas, apesar das distopias que a tornaram célebre, a
escritora aposta na utopia como forma de construir um futuro habitável
para o planeta. “Eu sou muito otimista”, disse Atwood durante a abertura
do Collision, festival de inovação e tecnologia que acontece em
Toronto, no Canadá. “Talvez porque eu seja bem velha. E posso lembrar
quando o mundo esteve pior do que hoje”, completou.
Para a autora
premiada, a emergência climática é o ponto fundamental que irá
determinar o futuro. Ela costuma dizer que não se trata de “mudança
climática”, mas de “mudança de tudo”. Apesar do cenário desanimador,
Atwood acredita que ainda dá tempo para lutar. “Nós ainda estamos em um
momento no qual é possível mudar o curso das história”, afirmou.
Seu
projeto para coletar e endereçar soluções climáticas é chamado de
“Practical utopias: an exploration of the possible” (Utopias práticas:
uma exploração sobre o possível”, em tradução livre). Em uma plataforma
de aprendizagem colaborativa, a Disco, a autora reúne pessoas do mundo
inteiro engajadas em encontrar saídas para a crise do clima. “As pessoas
pensam juntas em como construir um novo modo de vida com o que temos
disponível agora”, conta. “Para mim, é preciso começar com o que as
pessoas fazem todos os dias - onde vivem, como se alimentam, o que
vestem.”
Segundo Atwood, as propostas que endereçam soluções
práticas contra as mudanças climáticas passam por três pontos
fundamentais: precisam ser carbono neutras ou zero em emissões de
carbono, têm que ser acessíveis e escaláveis e, por último, precisam
parecer atrativas para as pessoas. “Eu fiquei impressionada com a
quantidade de soluções que já foram criadas e já existem”, reforçou a
escritora.
Vontade política
Sobre como endereçar as
transformações necessárias para reverter o aquecimento do planeta,
Atwood usou uma analogia de Les Stroud, apresentador do reality show
canadense “Surviverman”, sobre técnicas de sobrevivência em situações
extremas. “Ele diz que, pra sobreviver, são necessárias quatro coisas:
conhecimento, experiência, equipamentos adequados, força de vontade e
sorte. Você pode sair de situações difíceis se tiver ao menos duas
dessas coisas. Se você não tem nenhuma delas, você está perdido”,
explica a escritora.
Hoje, diz, nós temos o conhecimento e a
tecnologia para lidar com a questão climática. “O que falta é a força de
vontade no nível político. E aí, sim, vamos precisar de sorte”,
completa.
House Grupo Editorial, S. A. Barcelona. 2021. 103 págs.
Tinha lido alguma resenha sobre este filósofo sul-coreano/ alemão,
mas foi da minha irmã, professora de filosofia num Instituto em Madrid,
de quem me chegou o “touché” : “Estamos lendo este livro na classe,
revolucionário, um gosto excessivo por Heidegger, mas mexe com a
juventude”. E como ainda não tinha mergulhado na sintonia de Han fui à
internet, baixei o livro, na versão espanhola (não havia em português) e
comecei a ler.
Algumas páginas depois tropecei com esta bofetada (que, como o resto
do texto, traduzo livremente do espanhol): “No e-book, o livro é
reduzido ao seu valor informativo. Falta-lhe idade, local, produtor e
proprietário. Falta-lhe completamente o afastamento atrativo do qual um
destino individual nos falaria. O destino não se enquadra na ordem
digital. A informação não tem nem fisionomia nem destino. Nem admite uma
ligação intensa. É por isso que não existe nenhum exemplar do livro
electrónico. A mão do proprietário dá a um livro um rosto inconfundível,
uma fisionomia. Os livros electrónicos não têm rosto e não têm
história. São lidos sem as mãos. O ato de folhear é táctil, algo que é
constitutivo de qualquer relação. Sem toque físico, não são criados
laços”.
Encaixei o golpe, e continuei lendo as pouco menos de 100 páginas
deste pequeno-grande livro. Aliás, como todos os deste autor -depois
pesquisei sobre outras obras que comentaremos em seu momento- são livros
pequenos, curtos, densos, diretos. Uma boa síntese do sentido prático
dos coreanos com a precisão terminológica germânica.
Mas afinal o que são essas “não- coisas” que o autor traz à tona
neste escrito? Copiamos as suas palavras: “Hoje em dia, as não-coisas
penetram no nosso ambiente de todos os lados e deslocam as coisas. A
isto chama-se informação”. Hoje estamos na transição da idade das
coisas para a idade das coisas que não são coisas. É a informação, não
as coisas, que determina o mundo em que vivemos. Já não habitamos a
terra e o céu, mas sim o Google Earth e a nuvem. O mundo torna-se cada
vez mais intangível, nublado e espectral. Nada é sólido e tangível”.
As não-coisas que o Han analisa, são dados, informação, rapidez, e
toda essa voragine que nos cerca nos dias de hoje. Texto corrido,
direto, um cruzado de esquerda para nos acordar, pois afinal os culpados
somos nós mesmos: “É antes o nosso frenesim de comunicação e informação
que faz desaparecer as coisas. A informação, isto é, não coisas, é
colocada à frente das coisas e torna-as pálidas. Não vivemos num reino
de violência, mas num reino de informação disfarçada de liberdade (….) A
digitalização desmaterializa o mundo. Também reprime memórias. Em vez
de armazenarmos memórias, armazenamos imensas quantidades de dados. Como
caçadores de informação, tornamo-nos cegos a coisas silenciosas e
discretas, incluindo o habitual, o pequeno ou o lugar-comum (…) Os
impulsos de informação não são descanso para a vida. Não é possível
deter-se na informação. Vive-se do estímulo da surpresa que, pela sua
transitoriedade, desestabiliza a vida, e exige constantemente a nossa
atenção”.
O que se perde nesse turbilhão? As histórias de vida, o cuidado e
atenção com os outros e conosco mesmos. “A informação é aditiva, não
narrativa. Podem ser contadas, mas não narradas. Como unidades
descontínuas de breve atualidade, não se combinam para formar uma
história. Apenas as narrativas criam significado e contexto. No digital,
ou seja, numérico, a ordem carece de história e memória, e
consequentemente fragmenta a vida (…) A percepção ligada à informação
exclui a observação longa e lenta. A informação torna-nos míopes e
apressados. É impossível ficar a pensar na informação. A lenta
contemplação das coisas, a atenção não intencional, que seria uma
fórmula de felicidade, retira-se face à caça à informação. Hoje,
corremos atrás de informação sem obter conhecimento. Tomamos nota de
tudo sem ganhar sabedoria. Viajamos para todo o lado sem adquirir uma
experiência. Comunicamo-nos continuamente sem participar numa comunidade
. Armazenamos grandes quantidades de dados sem preservar memórias .
Acumulamos amigos e seguidores sem nos encontrarmos uns com os outros. A
informação cria assim um modo de vida sem permanência e duração”. De
fato, sobram comentários diante de tanta clareza. O que falta é tempo
para parar e pensar, por exemplo, nesse parágrafo acima.
Dos conceitos -claríssimos e demolidores- Han (que estudou
metalúrgica antes de filosofia) passa a questões operacionais, reflexo
dessa mentalidade torta, subjugada pelas não-coisas. “A mão é o órgão de
trabalho e de atividade. O dedo, por outro lado, é o órgão de eleição. O
humano manualmente inativo do futuro só fará uso dos seus dedos. Ele
irá escolher em vez de agir. Para satisfazer as suas necessidades, ele
carregará nas teclas. A sua vida não será um drama que o obriga a agir,
mas sim um jogo. Não vai querer ser dono de nada, mas sim experimentar e
desfrutar. O humano manualmente inativo do futuro estará próximo
daquele Phono sapiens que lhe dedica o seu smartphone. A utilização do
smartphone é uma forma de jogo. É tentador pensar que o humano do futuro
apenas irá brincar e desfrutar, ou seja, que não terá “preocupações”.
Obviamente, entre as questões operacionais, as diatribes de Han tem
no telefone celular um alvo contínuo e perfeito: “Não somos nós que
utilizamos o smartphone, mas o smartphone que nos utiliza. O verdadeiro
ator é o smartphone. Estamos à mercê deste informador digital, atrás de
cuja superfície diferentes atores nos dirigem e nos distraem (…)
Plataformas como o Facebook ou o Google são os novos senhores feudais.
Incansavelmente, lavramos as suas terras e produzimos dados valiosos,
dos quais eles depois lucram. Sentimo-nos livres, mas somos
completamente explorados, monitorizados e controlados (…) O smartphone
não é um ursinho de peluche digital. Pelo contrário, é um objecto
narcisista e autista em que não se sente os outros, mas antes e
sobretudo a si próprio”
Dos celulares e aplicativos até as fotografias e as selfies, prato
forte desta crítica suculenta. “O smartphone produz uma fotografia com
uma temporalidade completamente diferente, uma fotografia sem
profundidade temporal, sem extensão de novela, uma fotografia sem
destino ou memória, ou seja, uma fotografia momentânea (…) O narcisismo
por si só não esgota o essencial da selfi. O que há de novo sobre a
selfi tem a ver com o seu estado. A selfi não é uma coisa, mas uma
informação, uma não-coisa. Também na fotografia acontece que coisas que
não são coisas deslocam as coisas. Os selfies não são feitos para serem
mantidos. Não são um meio de memória. É por isso que não são feitas
cópias delas. Como qualquer informação, estão ligados à atualidade. As
repetições não têm qualquer significado. Os selfies só são conhecidos
uma vez. O seu estatuto é semelhante ao de uma mensagem ouvida numa
secretária eletrônica. A comunicação digital de imagens relega-as para o
estatuto de mera informação”
Narcisismo que nutre um egoísmo essencial, onde toda a procura
converge no próprio umbigo (palavras minhas, pouco acadêmicas para Han).
Anoto textualmente: “Produzimo-nos nas redes sociais. A expressão
francesa se produire significa colocar-nos em palco. Nós
próprios encenamos. Representamos a nossa identidade (..) A informação
que não me interessa é apagada num instante. Por outro lado, o conteúdo
que gosto pode ser aumentado com os meus dedos. Tenho o mundo
completamente sob controle. O mundo tem de obedecer a mim. O smartphone
reforça assim o egocentrismo. Ao tocar na sua tela, submeto o mundo às
minhas necessidades. O mundo parece estar digitalmente à minha
disposição e à minha chamada”.
Que sobra para os outros? Qual é o papel deles? Na verdade, são
atores figurantes para a prima dona que sou eu mesmo, o centro digital
do universo. “Na comunicação digital, a outra está cada vez menos
presente. Com o smartphone, retiramo-nos para uma bolha que nos protege
da outra. Na comunicação digital, a forma de abordar os outros
desaparece frequentemente. Não chamamos o outro para falar. Preferimos
escrever mensagens de texto em vez de telefonar, porque ao escrever
estamos menos expostos ao contacto direto. Assim, o outra como voz
desaparece. Os afetos humanos são substituídos por classificações ou
gostos. Os amigos são contados em números”.
Han adverte que não é um detalhe, mas um verdadeiro equívoco
metafísico, uma postura obtusa de conhecimento falso. Explica: “O objeto
é originalmente algo que se opõe e me resiste. Os objetos digitais não
têm o negativismo do obstaculizar, não noto qualquer resistência nele. O
smartphone é inteligente porque remove a resistência à realidade. Já a
sua superfície lisa produz uma sensação de ausência de resistência. Na
sua superfície tátil tudo parece dócil e agradável. Com um clique, ou
com o toque de um dedo, tudo é acessível e disponível. Com a sua
superfície lisa, comporta-se como um achatador digital, o que nos dá
constantemente um permanente convite a produzir um like”
Nos capítulos finais do livro, Han aprofunda nesses equívocos
filosóficos que produzem a constelação de absurdos que diariamente
contemplamos à nossa volta….e em nós mesmos!! Anotamos algumas pérolas
que fazem pensar: “A inteligência artificial não tem coração. O
pensamento do coração percebe e sente espaços antes de trabalhar com
conceitos. Nisto difere do cálculo, que não precisa de espaços. A
inteligência artificial nunca atinge o nível conceptual de conhecimento.
Não compreende os resultados dos seus cálculos. O cálculo difere do
pensamento na medida em que não forma conceitos e não avança de uma
conclusão para outra (…)A filosofia começa com um. Não é a
inteligência, mas sim um idiotismo, que caracteriza o pensamento. Cada
filósofo que produz uma nova língua, um novo pensamento, uma nova
língua, é um idiota. Despede-se de tudo o que tem sido. Ele habita essa
imanência virgem, ainda não descrita, do pensamento. Com este “fairel’idiot“,
o pensamento atreve-se a saltar para o totalmente diferente, para o
desdobrável. A história da filosofia é uma história de idiotismos, de
saltos idiotas. A inteligência artificial é incapaz de pensar, porque é
incapaz de “”fairel’idiot“. É demasiado inteligente
para ser um idiota”. Impossível não evocar a obra de Dostoievsky que,
por sinal, eu estava lendo em paralelo com o livro do Han.
E das não-coisas um giro filosófico à procura das coisas e seu
sentido. “As coisas pérfidas são coisa do passado. As coisas já não nos
maltratam. O seu comportamento já não é destrutivo, nem nos resiste. Não
os percebemos na sua alteridade ou estranheza. Isto enfraquece o nosso
sentido da realidade. A digitalização, acima de tudo, exacerba a
desrealização do mundo através da sua descosificação. A observação de
que a coisa é a totalmente outra” ( le tout autre ), que dita a
sua lei, à qual temos de nos submeter, já soa estranho. As coisas hoje
em dia são bastante submissas. Estão submissas às nossas necessidades
(…) Para Rilke, as coisas irradiam calor. É por isso que sonha com uma
relação íntima com as coisas: “Quero dormir um dia com cada coisa,
cansar-me do seu calor, sonhar que a sua respiração me chegue, sentir a
sua querida vizinhança nua em todos os meus membros e fortalecer-me com o
cheiro do seu sono, e depois, de manhã cedo, antes de acordar, antes de
me despedir, continuar, continuar”.
Poético, emocionante, a materialização das coisas; uma poesia
impossível de digitalizar. Neste sentido continua Han: “Desapareceram
os dias em que as coisas tinham arestas. A digitalização retira às
coisas qualquer materialidade rebelde, qualquer resistência. Perdem
completamente o carácter de obstáculo, não nos oferecem qualquer
resistência. Os Infomata não têm pontas, por isso temos de os
tratar com grande destreza. Eles preferem moldar-se às nossas
necessidades. Ninguém se magoa com o smartphone escorregadio”.
As coisas se opõem no seu ser contundente. E, naturalmente, as
pessoas, o outro, também. “A comunicação digital significa uma redução
considerável nas relações humanas. Hoje estamos todos nas redes sem
estarmos ligados uns aos outros. A comunicação digital é extensa.
Falta-lhe intensidade. Estar na rede não é sinónimo de estar relacionado
(…) Sem nada à nossa frente só nos contornamos a nós próprios. A
depressão não é senão uma exacerbação patológica da sensação de pobreza
do mundo. A digitalização tem contribuído para a sua difusão. As
infosferas intensificam o nosso egocentrismo. Submetemos tudo às nossas
necessidades. Só um renascimento do outro nos poderia libertar da
pobreza do mundo (…) Ouvir o outro . Quem realmente ouve, presta atenção
sem reservas a outro. Quando não se presta atenção ao outro, o eu volta
a levantar a sua cabeça. A fraqueza metafísica para o outro é
constitutiva da ética da escuta como uma ética da responsabilidade. O
ego que se fortalece é incapaz de ouvir, porque em todo o lado só ouve a
si próprio falar. Hoje não temos tempo para o outro. O tempo do eu
torna-nos cegos para o outro. Apenas o tempo do outro cria fortes laços,
amizade e até mesmo comunidade. É o bom momento”.
Neste ponto, a invocação do Pequeno Príncipe de Saint Exupéry é
inevitável. “Os homens já não têm tempo para saber nada. Eles compram
coisas prontas aos revendedores. Mas, como não há comerciantes de
amigos, os homens já não têm amigos. Hoje em dia, Saint-Exupéry poderia
ter afirmado que agora também existem comerciantes amigos com nomes como
Facebook ou Tinder” E acrescenta em citação magnífica: “Quem diz tu não
tem algo, na verdade não tem nada. Mas tem sim: uma relação!!”
Das coisas e das pessoas, o tumulto estende-se à arte, à incapacidade
de apreciar a beleza. “O problema da arte hoje em dia é que ela tende a
comunicar uma opinião preconcebida, uma convicção moral ou política, ou
seja, a transmitir informação. A concepção precede a execução. Como
resultado, a arte degenera em ilustração. A arte já não é uma arte que
dá à matéria a forma de uma coisa sem intenção, mas uma obra de
pensamento que comunica uma ideia pré-fabricada. O esquecimento das
coisas toma conta da arte. Permite deixar-se levar pela comunicação.
Está carregada de informação e de discurso. Quer instruir em vez de
seduzir (…)Se olharmos para um quadro apenas para nos informar sobre
algo, deixamos de sentir a sua independência e a sua magia. É o excesso
do significante que faz a obra de arte parecer mágica e misteriosa”.
E da arte até os rituais e lembranças queridas, que também são
sacrificadas: “Tanto os rituais como as coisas amadas são momentos de
descanso que estabilizam a vida. As repetições distinguem-nas. A
compulsão da produção e do consumo suprime as repetições. Desenvolve a
compulsão para o novo. A informação também não é repetível. Desenvolve
uma compulsão para estímulos sempre novos. Não há espaço para estímulos
nas coisas que nos são queridas. É por isso que são repetíveis. A hiper
comunicação, o ruído da comunicação, dessacraliza, profana o mundo.
Ninguém ouve. Cada indivíduo produz-se a si próprio”.
Mas o que fazer, poderíamos nos perguntar, se o mundo hoje é assim?
Han invoca uma referência nada suspeita para lembrar que “ a cultura
aristocrática é caracterizada pela capacidade de não reagir
imediatamente a um estímulo. Controla os instintos que dificultam, que
isolam. O desconhecido, o novo de qualquer espécie, deve ser abordado
com uma calma hostil. Manter todas as portas abertas, estar sempre
pronto a entrar, a saltar para outros homens e outras coisas, ou seja, a
incapacidade de resistir a um estímulo, é uma atitude destrutiva para o
espírito. A incapacidade de não reagir já é uma doença, uma decadência,
um sintoma de esgotamento”. O conselho não provém de um místico, nem
de um estoico, nem de um tomista, ou de Agostinho. É Nietzsche puro,
logo ele!!
Releio o anotado até aqui, e apalpo a densidade da obra, do
pensamento de Han. É verdade que utilizei recursos digitais para
elaborar este resumo, mas enquanto digitava, o meu pensamento se
agarrava às coisas, colocando as não-coisas sob suspeita. Uma atitude
que encontrei descrita quase no final e me consola de ter feito, às
presas, este apanhado de sabedoria: “A digitalização acaba com tudo o
que está à nossa frente. Como resultado, perdemos a sensação de apoio e
transporte, de sermos ultrapassados por algo, do sublime em geral. A
ausência desse algo à nossa frente faz-nos recorrer constantemente ao
nosso ego, o que nos deixa sem um mundo, ou seja, deprimidos. O papel
amarelado e o seu cheiro aquecem-me o coração. A digitalização destrói
memórias e contatos. Para sermos felizes, precisamos de algo à nossa
frente que nos ultrapasse”. Nada a comentar; muito, muito mesmo, para
refletir.
El escritor y director del Instituto Cervantes presenta su nuevo libro, dedicado al mito de Prometeo
A Luis García Montero
le incumbe la figura de Prometeo, el Titán encadenado por Zeus tras
robar el fuego para darlo al ser humano. A lo largo de los últimos años,
el escritor ha reflexionado sobre la vigencia del mito del patrón de la
cultura. Muchos de sus ensayos y textos se publican ahora recogidos en Prometeo
(Alfaguara), incluida la adaptación teatral que hizo para el Festival
de Teatro Clásico de Mérida en 2019. Aún estando encadenada, la
humanidad puede encontrar aún una posibilidad de redención.
******
—La acción liberadora de Prometeo acaba en el fracaso. ¿Es su soberbia lo que lo hace contemporáneo?
"Hay
que hacer compatible la conciencia crítica con una voluntad de
resistencia.
Entre el pesimismo y el optimismo puede
estar la palabra
esperanza"
—La situación en la que vive la
cultura y la democracia en la actualidad exige reivindicar la esperanza.
Hemos sabido hacer una crítica a instituciones e ideas por su falta de
legitimidad. Pero esa crítica corre el peligro de desembocar en el
cinismo. Hay que hacer compatible la conciencia crítica con una voluntad
de resistencia. Entre el pesimismo y el optimismo puede estar la
palabra «esperanza».
—¿Esa es la razón por la que hace conversar a un Prometeo anciano y otro joven, para que se rediman mutuamente?
—Cuando
Juan Carlos Plaza me pidió una versión de Prometeo, decidí dividirlo en
dos: el joven y el anciano, porque en esto de la esperanza o la
soberbia lo que se plantea es la falta de diálogo generacional. Muchos
mayores piensan que los jóvenes son tontos, y los jóvenes que los
mayores son unos carcas. No es lo mismo mi hija, que nació en
democracia, que yo, que nací en el franquismo. A la hora de entender sus
opiniones es necesario saber a qué España pertenece.
—Eso tampoco justifica los adanismos, ¿no le parece?
"Prometeo se enfrenta a los dioses, pero también
a sus propias dudas"
—Los
adanismos son también fruto de esa incomunicación. Está bien que los
jóvenes sepan que la vida no es de usar y tirar. La memoria es lo que da
sentido al tiempo y al compromiso con el futuro. Por eso quería volver
al fuego, sentarme en torno a la hoguera y propiciar el diálogo entre
anciano y joven. Prometeo se enfrenta a los dioses, pero también a sus
propias dudas, porque es lógico pensar que se ha equivocado dando el
fuego a unos seres humanos que lo usan para la guerra y que quizá
hubiese sido mejor que nos muriéramos de frío.
—¿Cómo recuperar a Prometeo si desparece el latín, el griego y la filosofía de los planes estudio?
—Me
preocupa más la desaparición de la filosofía de los planes de estudio
que la desaparición del latín y el griego. Corremos el peligro de que el
pensamiento acabe sustituido por las corrientes que se desenvuelven en
redes. Por eso me asusta mucho más que se ponga en duda la enseñanza de
la filosofía, al igual que me preocupa la separación del estudio de la
lengua y la literatura como elementos comunes.
—¿De qué sirve desafiar a los dioses si el progreso no nos hace moralmente mejores?
—Vivimos
en una sociedad donde prima la tecnología. Parece que el futuro es
tecnología, pero se desconsidera a las humanidades. Quien desconfía de
la técnica y la ciencia es un cretino. Pero el que desprecia las
humanidades también, porque cada vez que la ciencia pierda su contrato
social con las humanidades quedan al servicio de la catástrofe.
—¿Vivimos con mitos de peor calidad?
"Los mitos representan valores que nos
trascienden y nos mejoran"
—Los
mitos se reciclan y pueden ser bien o mal utilizados. Acabo leer la
nueva novela de Laura Restrepo, en la que la evocación de la reina de
Saba y de Salomón se convierte en una idea que ensalza la belleza, pero
que acaba relacionando esa figura con Médicos Sin Fronteras y la
capacidad de ayudar a una joven violada. Los mitos representan valores
que nos trascienden y nos mejoran. Hay otros mitos más complicados, que
tienen que ver con una vida sin pensamiento.
—¿Me da un ejemplo?
—Soy
muy futbolero y estoy en desacuerdo con quienes piensan que el fútbol
no tiene nada que ver con la cultura. El problema es cuando lo que a mí
me gusta, en este caso el fútbol, acaba convirtiéndose en una obsesión e
impongo mi deseo sobre un derecho. Que un seguidor del Real Madrid vaya
a las puertas de un juzgado en un juicio por fraude a hacienda de
Cristiano o que uno del Barça hiciera o mismo con Messi, es ahí donde el
mito se convierte en fanatismo dentro de una sociedad que invita a la
irracionalidad.
—¿Existe una guerra cultural?
—La
cultura es una invitación al conflicto. Es el ejercicio de la razón por
encima de la superstición. Lo de «guerra» es algo que me incomoda:
parece que hay que asumir un bando, cuando lo que existen son
reflexiones. La cultura te invita a analizar las luces y las sombras de
cada cosa. Estoy a favor del matrimonio homosexual, sin duda, pero no
estoy de acuerdo con que esa misma pareja, para poder tener hijos,
alquile un vientre de alquiler. Es como comprarse un niño.
—¿Qué piensa de la decisión de Daniel Ortega de cerrar la RAE en Nicaragua?
"La
situación en Nicaragua es horrorosa. Hace bien Ortega en cerrar la
Academia,
porque demuestra que la cultura es incompatible
con la
barbarie que él representa"
—La situación en
Nicaragua es horrorosa. Hace bien Ortega en cerrar la Academia, porque
demuestra que la cultura es incompatible con la barbarie que él
representa. El problema son las consecuencias de esa incompatibilidad.
La palabra y la cultura están llenas de significados y valores. La
lengua es más que un vocabulario, y él ha optado por el silencio.
—Usted creyó en esa revolución, ¿cierto?
—De
joven tuve mucho contacto con la cultura nicaragüense. Milité en el
comité Solidaridad con Centroamérica. Conocí a Sergio Ramírez, a
Gioconda Belli y a Ernesto Cardenal, que habían luchado contra la
dictadura de Somoza. En ese momento aprendí que la lucha por los
derechos sociales es incompatible con falta de libertad. La libertad
separada de la igualdad es inviable. Es una lástima que después de
superar la dictadura de Somoza, Ortega haya terminado convirtiéndose en
un dictador tan peligroso como él.
—Sergio Ramírez acabó condenando a sus compañeros de lucha al mismo exilio al que los envió Somoza.
—El
Instituto Cervantes está trabajando con Sergio Ramírez en un programa
para fomentar los valores democráticos en Bruselas y Alemania. La lengua
española es tajante en la defensa de los valores de la democracia.
—La Feria del Libro que acaba de culminar homenajeó a Almudena Grandes. Su ausencia resonó en esta edición.
"Ir a una feria sin ir a recogerla a una caseta de firmas te pone en contacto con la pérdida"
—Agradecí
a la Feria el homenaje a Almudena. Fue muy emocionante. Estar en un
lugar donde uno ha estado tantas veces te hace entender que la vida
cotidiana tiene que ver con las ausencias. Ir a una feria sin ir a
recogerla a una caseta de firmas te pone en contacto con la pérdida.
—Almudena Grandes ha sido nombrada hija predilecta de la ciudad. El alcalde, sin embargo, no acudió al acto.
—Madrid
fue importante para Almudena. Es inseparable de su biografía, y yo
agradezco que la ciudad la haya nombrado hija predilecta, la primera
mujer hija predilecta de Madrid. Agradezco a todos los grupos
parlamentarios que votaron a favor y los mensajes privados de tantas
personas. A partir de ahí, creo que lo importante son las instituciones,
en este caso el Ayuntamiento de Madrid, que nos representa a todos los
que vivimos y trabajamos en esta ciudad. Por la emoción que siento,
prefiero evitar la polémica personal.
Há 13 anos, o padre Tobias Rodrigues pediu para ser dispensado das obrigações sacerdotais. Casou-se e teve uma filha, mas assegura que a mudança de vida não dependeu apenas do amor
Mariana Almeida NogueiraJornalista
Nasci e vivi em Winnipeg, no Canadá, até aos 14 anos, onde tive uma infância bastante natural. Em casa, brincava aos padres, mas também aos bombeiros ou cabeleireiros. Os meus pais foram excelentes pais e, sendo muito católicos, ficaram contentes quando entrei no seminário.
Quando, 15 anos mais tarde, expliquei que deixar de ser padre era uma questão de integridade pessoal e que, se continuasse, não ia gostar da pessoa que ia ser, também perceberam. Custou-lhes, mas aceitaram e apoiaram-me.
Segui o meu coração. Não quer dizer que tenha feito tudo bem, mas não são coisas que possamos planear, ter uma ideia completa de como vai ser. A vida acontece.
Acho que a primeira vez que fiz perguntas acerca do sentido disto tudo e de quem eu era foi quando, com 14 anos, fui de férias aos Açores, visitar os avós, e os meus pais disseram que já não íamos voltar ao Canadá. Foi um choque e uma mudança enorme.
Aos 18 anos, a melhor forma de obter respostas para estas perguntas existenciais parecia-me ser estudar Teologia e Filosofia na Universidade Católica, em Lisboa. Mas um amigo acabou por convencer-me a entrar no seminário e lá fui para Angra do Heroísmo.
Desde cedo, no seminário, comecei a trabalhar voluntariamente na cadeia e aí testava, de certa forma, as coisas que ia aprendendo. Gostava muito de ajudar as pessoas, para que pudessem ter uma vida melhor, com mais sentido.
Nunca fui um seminarista-modelo ou convencional. O cabelo grande já vem desde os 20 anos, era um bocadinho contra o sistema, questionava a autoridade e tive altos e baixos. Cheguei a fugir à noite para ir à discoteca. Uma vida normal de estudante…
Perguntei-me várias vezes se era mesmo aquilo que queria fazer com a minha vida, mas nunca tive crises de fé. Sempre vi o meu caminho como um chamamento de serviço às pessoas através do ministério do sacerdócio e pareceu-me que era uma coisa boa de se fazer.
“Podíamos despir a Igreja e ir à essência”
Os primeiros três anos como sacerdote foram passados na ilha de Santa Maria onde trabalhei com o meu colega e grande amigo, o Padre Adriano. Foram excelentes anos de trabalho, mas comecei a ter ainda mais perguntas. Achava (e acho) que a Igreja continua a fazer um diagnóstico da Humanidade de um tempo que não é o tempo de hoje.
As pessoas têm outra forma de expressar a espiritualidade. Por exemplo, não entendo como a homossexualidade não é aceite e entendida porque, quer dizer… está aí. Também, em termos de economia, a Igreja podia dar mais vezes o exemplo, e não dá.
Não me via numa paróquia a fazer as mesmas coisas durante 40 anos. Quis estudar melhor a Bíblia e acabei por passar um ano na Terceira a estudar grego, latim e hebraico, antes de seguir para um curso de cinco anos no Pontifício Bíblico, em Roma, onde as inquietações que tinha acabaram por aumentar.
A certa altura, estive seis meses em Jerusalém, onde encontrei uma Igreja muito mais simples, mais pura e mais próxima das origens. Jerusalém ajudou a confirmar que, efetivamente, podíamos despir a Igreja de muitos séculos de rituais e ir mais à essência. E foi assim que, no fim do quarto ano, apercebi-me, de uma forma bastante viva e intensa, que a Igreja ia mudar, mas muito lentamente, não ao ritmo e com a profundidade que eu esperava. Então a crise saiu.
Ser obediente, pobre e celibatário custa. Pode parecer materialista, mas eu entreguei essas três coisas em função de fazer parte de um movimento que ia ser revolucionário. Isso era o que eu tinha na minha cabeça, de certa forma idealista e romântica, mas queria essa revolução e quando me apercebi que não ia acontecer, deixou de ter sentido
Nessa altura, tinha tido uma oferta do reitor do Instituto Bíblico para fazer o doutoramento onde eu quisesse e regressar para dar aulas. Era uma oportunidade fantástica, mas só conseguia pensar: “Vais passar o dia na biblioteca fechadinho, depois vais dar umas aulas, talvez vás celebrar uma missa, mas, no fim da tua vida, o que vai mudar?”
Podia voltar para uma paróquia, mas parecia uma roda de hamster, a andar sempre à volta. Apesar de ajudarmos as pessoas, enquanto instituição as coisas iam ficar na mesma.
Ser obediente, pobre e celibatário custa. Pode parecer materialista, mas eu entreguei essas três coisas em função de fazer parte de um movimento que ia ser revolucionário. Isso era o que eu tinha na minha cabeça, de certa forma idealista e romântica, mas queria essa revolução e, quando me apercebi que não ia acontecer, deixou de ter sentido.
“Sentia medomdo desconhecido”
Quando vim de férias aos Açores, falei com o Bispo e contei-lhe o que estava a passar-se comigo, que pensava seriamente deixar de ser padre. Regressei a Roma para acabar o curso, mas, como tinha todas estas dúvidas, não quis que a Diocese pagasse, por isso comecei a dar aulas de grego na Universidade Gregoriana, além de fazer locuções em português e inglês da voz do Papa.
Aí trabalhava a Cláudia, com quem viria a casar-me. Não deixei de ser padre só porque me apaixonei. Já me tinha apaixonado antes, de forma platónica… Com muita liberdade para tomar a decisão, voltei aos Açores e confirmei ao bispo o que já lhe tinha dito no ano anterior. Falar com o bispo e com os meus pais foi das coisas mais difíceis que tive de fazer.
Mas o bispo disse uma coisa muito importante: explicou que a Igreja tinha feito um grande investimento em mim e que queria que desse fruto, dentro ou fora da Igreja. Tirou-me um enorme peso das costas e da consciência. Hoje tenho como missão vital dar fruto àquele investimento.
Decidimos viver em Barcelona, onde a Cláudia tinha uma proposta de trabalho, e casámo-nos pelo civil, em 2009. Nunca mudei de ideias por ter deixado o sacerdócio.
Ainda assim, foram 15 anos dedicados à Igreja e eu não conhecia outro mundo, sentia medo do desconhecido. A Cláudia ajudou-me muito, mostrou-me que existiam outras coisas e que eu podia integrar-me no mundo de outra maneira. Estive casado com a Cláudia 11 anos e tivemos uma filha, a Irene, de 8 anos. A Irene está na catequese.
Fiz um mestrado em Resolução de Conflitos e, hoje em dia, formo aquilo que se chamam “badass teams” em empresas. É um trabalho de crescimento e conhecimento pessoal, estabilidade emocional, empatia e vulnerabilidade.
Sou um sortudo. Nasci com muito amor e tenho prazer em viver. Quando vejo o Sol a nascer, quando saio a correr, a ouvir música, quando trabalho com as pessoas e vejo as suas dores, o seu esforço, a sua vontade de crescer, vejo Deus nessas coisas todas. Chamem-me louco, mas Deus está em todo o lado.