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domingo, 30 de julho de 2023

‘Os acordos ambientais hoje são inviáveis e irrealistas’

Por Lucas Zacari09 de jun de 2023(atualizado 09/06/2023 às 14h09)

Pessoa segurando uma Terra inflável em protesto pedindo por mais ações climáticas durante reunião do G20, em Nápoles, Itália

 Foto: Guglielmo Mangiapane/Reuters - 22/07/2021Pessoa segurando uma Terra inflável em protesto pedindo por mais ações climáticas durante reunião do G20, em Nápoles, Itália

 

Pesquisador de crises socioambientais contemporâneas e professor da Unicamp, Luiz Marques fala ao ‘Nexo’ sobre a importância da década atual para frear os efeitos mais graves das mudanças climáticas

Um combate às mudanças climáticas que consiga manter o aquecimento do planeta em níveis seguros e lidar com as consequências do fenômeno que já estão em curso requer um enorme esforço global para além de tratados internacionais como o Acordo de Paris.

Na visão de Luiz Marques, professor e colaborador do Departamento de História da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e autor de “O Decênio Decisivo – propostas para uma política de sobrevivência”, as atuais propostas debatidas em negociações climáticas não são realistas sem pré-condições que dependem de mudanças no funcionamento da economia e da política mundial.

Transformações no comportamento, redução da desigualdade, novos conceitos de soberania nacional e direitos ambientais são algumas dessas condições propostas pelo autor, que destaca a importância da década atual para o futuro do planeta. “O sistema econômico globalizado e expansivo está hoje colocando em risco a própria sobrevivência da humanidade e de inúmeras outras espécies”, disse.

Lançado em de maio de 2023, “O Decênio Decisivo” é o segundo título ambientalista de Marques, que fez carreira como historiador da arte. O primeiro, “Capitalismo e colapso ambiental”, conquistou o Prêmio Jabuti de 2016.

Nesta entrevista para o Nexo, o pesquisador explica a importância do período até 2030, como chegamos até o nível atual de emergência e as possibilidades de se retornar a uma vivência socioambiental segura.

Por que este decênio é considerado decisivo para a continuidade da vida humana?

Luiz Marques Na primeira COP [Conferência das Partes, conferência climática da ONU], de 1995, em Berlim, sugeriu-se que o nível perigoso de aumento da temperatura média do planeta seria um aquecimento de 2°C em relação ao período 1850-1900 [níveis pré-industriais]. Na COP 15, em 2009, em Copenhague, os países assinaram um compromisso oficial de não ultrapassar os 2°C.

Desde então, os modelos climáticos foram se aprimorando. Os dados observacionais se acumularam e se tornaram cada vez mais precisos. E o que começa a se perceber então é que um aquecimento médio global de 2°C acima do período pré-industrial não era um limite capaz de garantir uma interferência antrópica [do ser humano] não perigosa no sistema climático.

No Acordo de Paris, em 2015, já se sabia claramente que 2°C era uma receita para o desastre. O sexto relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), publicado em abril de 2022, admite que os modelos climáticos adotados por esse grande coletivo de cientistas haviam subestimado o aquecimento global. Em outras palavras, nenhum modelo climático sugeria que o nível atual de aquecimento médio global, em 1,2°C, causaria efeitos tão brutais como os que estamos vendo hoje.

Outro elemento importante a se observar é que já estamos condenados a um aquecimento maior do que o atual, mesmo que não se emitisse mais nenhuma molécula de CO2. Isso porque o pico do aquecimento da atmosfera causado pela emissão de uma molécula de CO2 ocorre cerca de 10 anos após esse evento. O aquecimento que estamos observando em 2023 é, em grande parte, resultado de uma emissão de 2013. E dado que o CO2 é um gás muito estável, uma vez emitido por uma combustão, ele permanece na atmosfera por séculos. Seu efeito de aquecimento não declina.

O que temos que fazer agora é desacelerar esse processo de aquecimento. Por isso, esse decênio é decisivo, porque é o último no qual ainda podemos ter uma interferência estabilizadora relevante no sistema climático, de maneira a efetivamente manter o aquecimento em um ritmo compatível com nossa capacidade de adaptação.

A grande questão em jogo quando se fala em adaptação de espécies não é propriamente o nível desse aquecimento. A variável crucial em todo processo de adaptação é o tempo. Se você tem tempo, você se adapta. Para ganhar tempo, temos que nos engajar num processo de transformação social jamais ocorrido. Se não começarmos agora a dar passos robustos em direção à saída dos combustíveis fósseis, não teremos condições de nos adaptar.

Como o sr. entende que chegamos a esse nível de emergência e colapso socioambiental?

Luiz Marques Tudo que nós sabemos hoje de essencial sobre a mecânica do aquecimento global nós já sabíamos em 1979, quando cientistas americanos fizeram o Relatório Charney. Em 1988, no Congresso de Toronto, foi a primeira vez em que representantes governamentais discutiram essa questão a nível internacional.

A declaração do congresso começa assim: “a humanidade está conduzindo uma experiência, um experimento não intencional, descontrolado e global cujas consequências finais poderiam ser excedidas apenas por uma guerra nuclear global”. É a primeira vez em que se percebe que existe uma ameaça na questão da mudança climática.

E, no entanto, desde 1988 as emissões de gases de efeito estufa vêm aumentando. Na realidade, mais gases de efeito estufa foram emitidos na atmosfera desde 1988 do que do início da Revolução Industrial até 1987.

O primeiro grande fator que pode responder essa questão é que a estrutura de poder econômica não quer deixar o uso de combustíveis fósseis. O sistema energético e o sistema alimentar vigente estão encadeados à produção desses combustíveis. Em suma, abandonar o uso de combustíveis fósseis requereria desmontar completamente toda a estrutura de funcionamento da economia globalizada e, consequentemente, toda a estrutura de poder político baseado nessa economia.

Em Toronto, foi construída uma proposta clara para: 1) estabelecer uma taxa carbono; 2) redução de 20% as emissões de CO2 até 2005; 3) redução final de 50%; e 4) proposta de um tratado internacional. Dessas quatro, somente a quarta proposta foi efetivada. Mas as três primeiras propostas, obviamente as mais importantes, permaneceram letra morta.

Por quê? Primeiro, porque as poderosas multinacionais ligadas à produção de combustíveis fósseis sempre se opuseram a qualquer ação nesse sentido. E em segundo lugar, porque os Estados nacionais são, em grande parte, os proprietários das reservas de petróleo. As reservas de petróleo do Brasil são estatais. Da mesma maneira, a Saudi Aramco, a maior companhia de petróleo do mundo, é do Estado da Arábia Saudita. Portanto, as reservas de petróleo são fundamentais para a contabilidade do Estado de todos esses grandes produtores de petróleo.

Além desses dois fatores, há também o fato de que as sociedades contemporâneas estão viciadas em petróleo e demais combustíveis fósseis. Abandonar o consumo desses combustíveis requereria sair de uma zona de conforto, sacrifícios que as sociedades ainda não parecem dispostas a aceitar. Mas terão que aceitá-los, e ainda neste decênio, se quiserem manter nosso planeta habitável. Não há outra saída.

Nos últimos anos, o Brasil passou por uma intensa instabilidade política. De que forma esse cenário afetou e agravou o cenário socioambiental a nível nacional e mundial?

Luiz Marques O governo Bolsonaro teve um papel tão catastrófico quanto o governo Trump. [Donald] Trump retirou os Estados Unidos do Acordo de Paris [o governo de Joe Biden retornou ao acordo em 2021]. Os EUA são o segundo país que mais emite gases de efeito estufa no mundo, somente atrás da China. Quando os Estados Unidos declararam a intenção de sair, os demais signatários se viram no direito de dizer: se os Estados Unidos não estão mais dispostos a diminuir suas emissões, por que os demais países deveriam se esforçar?

E se não há punição, por que cumprir um compromisso? A inexistência de um mecanismo legal capaz de punir os países que não honram suas promessas e compromissos de Estado é a razão básica pela qual o Acordo de Paris morreu e a esfera da diplomacia climática se tornou uma enorme mentira.

O mesmo vale para [Jair] Bolsonaro, porque o Brasil está rumando em direção aos combustíveis fósseis. A proporção de energia gerada por termelétricas no Brasil é cada vez maior. A geração de energia por hidrelétricas está cada vez mais envolvida em risco porque a desestabilização do sistema climático está tornando grandes secas mais prováveis e mais frequentes.

Isso posto, mais de 70% das emissões de gases de efeito estufa no Brasil são de responsabilidade do agronegócio, posto que advém do desmatamento e das queimadas associadas ao desmatamento. E com Bolsonaro tivemos um processo de aceleração do desmatamento da Amazônia absolutamente sem precedentes.

O que distingue Bolsonaro dos outros governos é que, mesmo em governos onde houve um desmatamento muito forte, esse desmatamento decorria de negligência e de complacência com o crime. Com Bolsonaro, o desmatamento tornou-se meta de governo. Havia um claro programa de destruição da Amazônia, correspondente à ideologia da ditadura e às pressões do agronegócio.

O agronegócio atingiu com Bolsonaro uma influência sem precedentes nas decisões governamentais. Hoje é muito mais difícil diminuir o desmatamento, dado o poder destrutivo e de bloqueio da Frente Parlamentar da Agropecuária. Quem é que estava atrás da passagem da PL 490, do marco temporal [que muda regras na demarcação de terras indígenas e foi aprovado pela Câmara em maio de 2023]? Era a Tereza Cristina, que tinha sido ministra da Agricultura do Bolsonaro.

Bolsonaro não está mais no governo, mas a estrutura de poder do agronegócio instalada por ele no centro do poder Legislativo e com uma grande influência no poder Executivo continua dando as cartas. O próprio Carlos Fávaro, Ministro da Agricultura, disse ser a favor do marco temporal, pois é um agropecuarista e um homem de confiança do agronegócio.

Em seu livro, o sr. explica que a extinção de espécies e o desmatamento afeta o sistema alimentar global. Como acontece essa mudança?

Luiz Marques A agricultura requer um sistema climático relativamente estável, certa regularidade no regime de chuvas, ausência de picos excepcionais de calor e frio. A desestabilização em curso do clima gera riscos cada vez maiores de quebras de safras.

Outro problema gravíssimo é o colapso em curso dos polinizadores. Mais de 80% das plantas com flores do mundo dependem de insetos para polinização e cerca de 3/4 de todas as espécies cultivadas dependem da polinização por insetos.

Além de polinizadores, os insetos situam-se na base da pirâmide trófica, sendo a grande fonte de alimentação de inúmeros outros animais. Uma diminuição catastrófica das populações de insetos, como a que está acontecendo agora, coloca em risco todo o sistema alimentar humano.

Posso apostar com você que até o ano de 2030 vamos ter cada vez mais quebras de safra, seja por causa da diminuição dos polinizadores, seja por secas cada vez maiores que se alternam com grandes inundações. Tenho convicção de que estamos no limiar de uma situação de verdadeira precarização da agricultura brasileira.

Um dos capítulos de seu livro trata sobre políticas de sobrevivência. O que é esse tipo de política e como ela pode ser formulada e implementada?

Luiz Marques São oito condições que eu proponho para que as negociações climáticas tenham alguma chance de existir.

A primeira é a diminuição das desigualdades. Nenhuma medida tendente a diminuir a emergência climática terá qualquer esperança de existência sem um aprofundamento da democracia. Quando uma quantidade pequena de pessoas concentra um poder econômico descomunal, elas são capazes de deter qualquer processo de mudança. É preciso, portanto, aumentar a renda mínima e instituir uma renda máxima. Não podemos permitir que uma elite econômica minúscula seja capaz de determinar a condução da governança.

Claro, instituir uma renda máxima, dentro da estrutura de poder atual, é algo inexequível. Mas as propostas em curso hoje nas negociações internacionais sobre o clima, a biodiversidade e a poluição são muito mais inexequíveis exatamente por causa dos níveis absurdos de desigualdade social e de erosão da democracia.

O segundo ponto é a redução drástica do consumo de materiais e de energia fóssil dos 20% ou 30% mais ricos da humanidade. O consumo dos 50% mais pobres é quase irrelevante e poderia aumentar consideravelmente sem impactos maiores, desde que o consumo dos 30% mais ricos diminuísse de modo significativo.

A terceira proposta é a extensão da ideia de sujeito de direito a demais espécies, uma questão mais filosófica do que política propriamente dita. Temos que estender essa ideia de direito à biosfera de forma geral. Como consequência disso, a quarta proposta é a ampliação das reservas naturais, que devem permanecer protegidas das pressões dos mercados globais.

Desglobalização econômica é a quinta proposta, porque sem ela não vamos descarbonizar a economia. Plantar soja no Mato Grosso para alimentar os porcos na China ou os frangos na Europa é incompatível com a descarbonização da economia.

Sexta proposta: a alimentação tem que ser radicalmente desglobalizada, minimizando o consumo de carne e migrando para o consumo de nutrientes vegetais. Há hoje mais gado do que gente no Brasil, com mais de 80% do desmatamento da Amazônia decorrente da abertura de pastagens para esse gado. E embora o Brasil seja o maior exportador de carne bovina do mundo, a maior parte dessa carne é consumida no país. Evidentemente, não é assim que o sistema alimentar pode funcionar.

Em sétimo, uma governança global democrática. Temos que abandonar o velho paradigma da soberania nacional absoluta em prol de uma soberania nacional relativa. Os grandes problemas da humanidade hoje são problemas globais. Eles não podem ser resolvidos, mantido o axioma da soberania nacional absoluta.

Finalmente, a oitava proposta é a aceleração da transição demográfica. Para tanto, é necessário que as mulheres tenham o poder de decidir sobre os seus direitos reprodutivos. Se quiserem interromper uma gravidez indesejada, fazer um aborto, elas têm que ter esse direito assegurado e assistido pelo Estado.

Em países onde o aborto é legalizado, há uma rápida transição demográfica. Precisamos caminhar rapidamente para uma taxa de fecundidade de reprodução e para uma população humana menor, o que pode acelerar a implementação das sete propostas acima evocadas.

Essas propostas são aquelas que, de uma forma ou de outra, garantiriam a exequibilidade dos acordos que existem hoje. Porque os acordos atuais não são viáveis, não são realistas em hipótese alguma. Não há nada mais irrealista hoje do que eles.

O sr. acredita que seja possível retornar a um nível seguro da vivência socioambiental?

Luiz Marques Não a curto e médio prazo. No âmbito climático, seria preciso retornar a concentrações atmosféricas de CO2 não superiores a 350 ppm (partes por milhão). Estamos com aproximadamente 418 ppm e aumentando a uma taxa anual de cerca de 2,5 ppm. Então, as consequências que já estamos sofrendo são inevitáveis e serão nos próximos decênios muito mais graves.

Outro elemento importante são os níveis atuais de extinções de espécies. O IPBES (Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos) alerta que os níveis de extinção hoje são de 10 a 100 vezes maiores do que os níveis de extinção deduzidos do exame dos registros fósseis no passado.

Extinção é um fenômeno natural. Espécies nascem e morrem, é normal. Mas o chamado sexto evento de extinção em massa de espécies, que está acontecendo sob nossos olhos, é causado pelo sistema econômico globalizado e expansivo vigente, e está evoluindo a uma velocidade muito maior do que a das cinco extinções anteriores.

Voltar aos níveis seguros de habitabilidade do planeta vai requerer um esforço imenso, e só será obtido com paz e grande cooperação internacional, tudo o contrário do que o que temos hoje. Isso posto, mesmo que se faça a lição de casa, ainda assim um aquecimento de 1,5°C e mesmo de 2°C já é inevitável neste segundo quarto de século e, portanto, vamos sofrer consequências graves e igualmente inevitáveis.

Por outro lado, se as sociedades perseverarem na trajetória atual, estarão se condenando a impactos cada vez mais devastadores e a riscos e ameaças verdadeiramente existenciais. O sistema econômico globalizado e expansivo está hoje colocando em risco a própria sobrevivência da humanidade e de inúmeras outras espécies.

Fonte:  https://www.nexojornal.com.br/entrevista/2023/06/09/%E2%80%98Os-acordos-ambientais-hoje-s%C3%A3o-invi%C3%A1veis-e-irrealistas%E2%80%99

Postado por Zelmar Guiotto às 17:30 Nenhum comentário:

Utopia, não futurismo: por que realizar o impossível é a coisa mais racional que podemos fazer

Por Emersom Karma Kontchog

30 de jul. de 2023


 Murray Bookchin (1921 ~ 2006)

 

Esta palestra de Murray Bookchin de 1978 continua extremamente relevante hoje


Encontrei a transcrição de uma palestra de Murray Bookchin, de 1978, e gostei tanto que republico abaixo uma tradução automática (do DeepL) revisada.

Bookchin foi um pensador e ativista estadunidense muito influente entre ecologistas e ativistas, principalmente nos anos 70 e 80, tendo desenvolvido a filosofia da "ecologia social", que propõe princípios éticos naturais para substituir a atual tendência em direção à dominação e hierarquia por democracia e liberdade.

Acaba sendo surpreendente como esse alertas de 45 anos atrás se concretizaram, especialmente em relação ao colapso ambiental, ao autoritarismo e à dominação tecnológica (apesar de ele não ser contra tecnologias em si). Sua crítica, além de atingir a direita oligárquica, também não poupa as ideias mais comuns da esquerda socialista.

Sua proposta é uma utopia de auto-organização da sociedade de modo descentralizado e harmônico, que desenvolveu e aprofundou em diversos livros.

Em relação ao modo de pensar tecnocrático com verniz ecológico, nessa palestra, ele critica frequentemente a ideia da Terra como sendo uma nave espacial. Na época, essa era uma ideia bastante difundida mesmo entre a vanguarda da "sustentabilidade" e, apesar de hoje não ouvirmos falar tanto disso, o sentido subjacente, que é o da natureza como uma máquina (com todos seus desdobramentos), continua prevalecendo.


Palestra de 24 de agosto de 1978, na Toward Tomorrow Fair, em Massachusetts, EUA. Editado e publicado no site Uneven Earth, em 2019.

por Murray Bookchin

Esta manhã, às onze horas, tentei explicar a vocês por que eu não fui um ambientalista, mas sim um ecologista. E tentei dar-lhes uma ideia, pelo menos do meu ponto de vista, do que significava ecologia, diferentemente de ambientalismo. O ponto que tentei enfatizar mais fundamentalmente é que o ambientalismo tenta consertar as coisas, aplica band-aids e cosméticos ao meio ambiente. Ele meio que se apodera da natureza, acaricia-a e diz: "Produza!" Ele tenta usar o solo, despejar produtos químicos nele e, se ao menos eles não fossem venenosos, tudo estaria ótimo. Já a ecologia acredita em uma harmonização genuína da humanidade com a natureza. E essa harmonização da humanidade com a natureza depende fundamentalmente da harmonização dos seres humanos entre si. A atitude que temos tido com relação à natureza sempre dependeu da atitude que temos uns com os outros. Não vamos nos enganar, não existe uma "natureza pura".

O simples fato agora é que não apenas não sou um ambientalista, mas também tenho uma notícia quente: não sou um futurista. Não sou um futurista de forma alguma. Sou um utopista. Quero ver essa palavra reavivada. Quero que a usemos. Quero que pensemos em utopia. Não pensar em futurismo. E é sobre essas questões que eu gostaria de falar, se me permitem.

O que é futurismo?

O que é futurismo? Futurismo é o presente como ele existe hoje, projetado para daqui a cem anos. É isso que é o futurismo. Se você tem uma população de X bilhões de pessoas, como vai ter comida, como vai fazer isso... nada muda. Tudo o que fazem é tornar tudo maior ou mudar o tamanho — você viverá em prédios de trinta andares, viverá em prédios de sessenta andares. Frank Lloyd Wright ia construir um prédio de escritórios com um quilômetro de altura. Isso era futurismo.

O fato é que eu simplesmente não acredito que tenhamos de estender o presente para o futuro. Temos que mudar o presente para que o futuro seja muito, muito diferente do que é hoje. Essa é uma noção extremamente importante a ser transmitida. Portanto, há muitas pessoas andando por aí hoje que parecem muito idealistas. E o que elas querem fazer? Elas querem que as corporações multinacionais se tornem corporações multicósmicas [risos da plateia] — literalmente!

Eles querem levá-las para o espaço, querem colonizar a Lua, mal podem esperar para ir a Júpiter, muito menos a Marte. Eles estão todos muito ocupados, estão chegando, têm até cabelos compridos e barba, e chegam e dizem: "Ah, mal posso esperar para entrar no meu primeiro ônibus espacial!" — esse é o futuro.

Isso é visto como ecologia e não é ecologia. É futurismo! É o que a Exxon quer fazer. É o que o Chase Manhattan quer fazer. É o que todas as corporações querem fazer. Mas não é utopia, é puro futurismo. É o presente estendido para o futuro.

Há uma sociedade de massa, e como mantemos contato uns com os outros? Não precisamos nem olhar uns para os outros. Olharemos para as telas de televisão. Apertarei um botão, verei você na tela da televisão, você estará em Marte, pelo que sei, e teremos uma conversa maravilhosa um com o outro, e diremos: "Nossa! Temos uma tecnologia alternativa!" A questão é que não se trata de uma tecnologia libertária. Posso conhecer pessoas no futuro por anos e anos — jogar xadrez com elas, ter conversas intelectuais interessantes com elas — e nunca tocá-las. Se é assim que o futuro será, fico feliz por ter cinquenta e sete anos e não ter muito tempo pela frente. Eu não quero isso. [risos] Estou falando muito sério.

O movimento antinuclear

Agora gostaria de tocar em alguns nervos. Não acredito que a Terra seja uma nave espacial. Estou pedindo que pensem no que significa pensar na Terra como uma nave espacial. Ela não tem válvulas. Não tem todos os tipos de equipamentos de radar para guiá-la. Não é movida por foguetes. Ela não tem nenhum encanamento. Talvez tenhamos encanamento. Mas ela não é "uma nave espacial". É uma coisa orgânica e viva, em grande parte, pelo menos em sua superfície, construída com material inorgânico. Está em processo de crescimento e desenvolvimento. Não é "uma nave espacial".

Estamos começando a desenvolver uma linguagem que não tem nada em comum com a ecologia. Ela tem muito a ver com eletrônica. Falamos de "input".'Dê-me seu input. Conecte!" [risos] Bem, eu não "conecto", eu converso [aplausos]. As máquinas se conectam. O radar é a linguagem que o produziu e foi a linguagem militar que produziu a palavra "conecte" ("plug in").

"Dê-me seu input". Não é isso que eu quero. Não quero seu output, quero você. Quero ouvir suas palavras. Quero ouvir sua linguagem. Não estou engajado em um "feedback" com você [risos], estou engajado em um diálogo, uma conversa. Não é o seu "feedback" que eu quero, quero sua opinião. Quero saber o que você pensa. Não quero ter um circuito conectado a mim em que eu possa receber seu "feedback" e você possa receber meu "input". [risos]

Por favor, estou fazendo um apelo aqui, e se você acha que estou falando de linguagem, acho que está enganado. Não estou falando de linguagem, estou falando de sensibilidade. Uma planta não tem "input" ou "output". Ela faz algo para o qual a eletrônica não tem absolutamente nenhuma linguagem — ela cresce! Ela cresce! [aplausos]. E deixe-me dizer outra coisa, ela não apenas cresce, ela faz mais do que mudar; ela se desenvolve. Temos um grande problema com todas essas palavras que refletem uma maneira de pensar, e é isso que me incomoda.

Essa é a sensibilidade do futurismo. É a linguagem do futurismo, na qual as próprias pessoas são molecularizadas e depois atomizadas e, por fim, reduzidas a partículas subatômicas, e o que realmente temos em termos de ecossistema não é crescimento nem desenvolvimento, o que temos é encanamento. Nós gastamos quilocalorias no ecossistema. E ligamos as válvulas aqui e desligamos as válvulas ali.

Agora, isso pode ser útil, não nego isso. Devemos saber como a energia se move em um ecossistema. Mas isso, por si só, não é um ecossistema. Estamos começando a aprender que as plantas têm vida própria e interagem umas com as outras. Que existem mecanismos sutis que não podemos realmente entender. Elas não podem ser reduzidas a energia, não podem ser reduzidas a quilocalorias, temos que olhar para elas de um ponto de vista diferente. Temos que vê-las como vida, diferenciando-as do que não é vivo, e mesmo essa distinção não é tão nítida e clara como muitas pessoas pensam.

Portanto, essa é a linguagem do futurismo e a linguagem da eletrônica, que reflete uma sensibilidade muito distinta, que me incomoda muito, muito mesmo. Não é utópica — e falarei disso mais tarde — é a linguagem da manipulação. É a linguagem da sociedade de massa. A maioria dos futuristas começa com a ideia: "Você tem um shopping center, o que você faz então?" Bem, a primeira pergunta a ser feita é: "Por que diabos você tem um shopping center? [risos] Essa é a verdadeira pergunta que deve ser feita. Não é "e se" você tiver um shopping center, o que fazer depois.

Lá fora, na grande e vasta distância — que as pessoas acham que deveríamos colonizar, indo em naves espaciais, ou que de alguma forma deveríamos nos relacionar com o universo distante e ouvir as estrelas —, mas ainda não começamos nem a ouvir nossos próprios sentimentos.

Nem sequer começamos a ouvir nossa própria localidade. Este planeta está sendo arruinado, e as pessoas estão falando de meios de projetar plataformas espaciais lá fora, falando de uma aldeia global, quando, para começar, não temos "aldeias" em nenhum lugar deste planeta. Não as temos. Não temos vilas, não temos comunidades, vivemos em um estado de atomização e esperamos nos comunicar eletronicamente uns com os outros por meio de vilas globais.

Isso me incomoda porque pode ser boa física, pode ter boa mecânica, pode ser uma boa dinâmica, pode ser qualquer coisa que você queira, mas não é ecologia. Não é ecologia.

O que é ecologia?

O erro mais fundamental começa com a ideia de que as coisas mudam. Agora, você sabe, mudar pode significar algo ou pode não significar nada. Se eu me afastar daqui e andar um metro e meio, eu "passei por uma mudança". Eu me afastei um metro e meio, mas não fiz nada no que me diz respeito, ou no que diz respeito a você. Não é com a "mudança" que estou preocupado. O que me preocupa é o desenvolvimento, o crescimento. Não me refiro ao crescimento no sentido comercial, mas ao crescimento da potencialidade humana, ao crescimento do espírito humano. Refiro-me ao crescimento do contato humano. Isso é ecológico. Desenvolver é o que é realmente ecológico. Mudar pode significar qualquer coisa. A questão é: qual é o fim para o qual você quer se desenvolver? Qual é o objetivo que você está tentando alcançar e, depois, se você se desenvolveu ou não até esse objetivo. Portanto, o mero input, output e feedback, o mero movimento, não significam nada — o verdadeiro problema é a discussão e o diálogo, o reconhecimento da personalidade, o crescimento e o desenvolvimento, que é o que interessa à biologia. Ela não se preocupa apenas com a mudança.

Por fim, é preciso deixar bem claro que se você acredita que a Terra é uma nave espacial, então você acredita que o mundo é um relógio. Você e Sir Isaac Newton concordam perfeitamente, o mundo é um relógio, assim como uma nave espacial é um monte de encanamentos com muitos foguetes, com muitos mostradores, com muitos pilotos e todo o resto. E se você ainda acredita que a beleza da mudança, hoje, é poder se deslocar para todos os lados em um helicóptero, que pegará sua cúpula geodésica, ou usar algum tipo de comunicação eletrônica para se relacionar com alguém que está a três mil milhas de distância, que você talvez nunca veja, então não estamos mudando nada, no sentido de desenvolvimento, estamos piorando as coisas, e piorando o tempo todo. E essa é uma questão que também me preocupa muito.

A ecologia — ecologia social — deve começar com o amor pelo lugar. Deve haver um lar. "Oikos" = lar, ecologia = o estudo do lar. Se não tivermos um lar — e esse lar não for uma comunidade orgânica e rica —, se não conhecermos a terra em que vivemos, se não entendermos seu solo, se não entendermos as pessoas com quem vivemos, se não conseguirmos nos relacionar com elas, então, nesse ponto específico, estaremos realmente em uma nave espacial. Estamos realmente em um vazio.

A ecologia deve começar com uma compreensão muito profunda da interação entre as pessoas e a interação entre as pessoas e o ecossistema imediato em que vivemos. De onde você vem, o que você ama, qual é a terra que você ama. Não me refiro ao país ou ao estado, estou falando da terra que você ocupa. Pode até ser um vilarejo, pode ser uma cidade, pode ser uma fazenda.

Mas, acima de tudo, sem essas raízes que o colocam na natureza, e em uma forma específica de natureza, é um engano falar sobre unidade cósmica, é um engano falar sobre naves espaciais, é um engano até mesmo falar sobre ecossistemas sem ter esse senso de unidade com seu local imediato, com seu solo, com sua comunidade, com seu lar. Sem essa comunidade e sem esse senso de lar, sem esse senso do orgânico — do orgânico e do desenvolvimento, em vez do mero inorgânico e da "mudança" em que você simplesmente muda de lugar — você não está mudando nada, os problemas são apenas ampliados ou diminuídos, mas continuam sendo os mesmos problemas.

O que não é ecologia?

É por essa razão que o futurismo hoje desempenha um papel cada vez mais reacionário, porque trabalha com o preconceito de que o que você tem é dado. Você tem que assumir o que existe hoje, extrapolar para o futuro e fazer um jogo de números. E, então, você sai por aí e manipula logisticamente aqui e ali, e implícita em tudo isso está a ideia de que vocês são coisas a serem manipuladas. Há todos os tipos de técnicos que decidirão, por meio de seus conhecimentos de eletrônica, por meio de seu "know-how", por meio de seu "feedback" e de seu "input", para onde você vai, o que você deve fazer: e isso está se tornando um problema muito sério hoje em dia, especialmente quando é confundido com ecologia, baseada no orgânico, no crescimento, no desenvolvimento como indivíduo, como comunidade e como lugar.

Finalmente, chega-se ao jogo de números mais sinistro de todos: quem deve viver e quem deve morrer. O "jogo da população". A aterrorizante ética do bote salva-vidas, na qual agora, em nome da ecologia, estão sendo propostas visões que são quase indistinguíveis do fascismo alemão. Há pessoas que são obrigadas a se afogar e que, por acaso, vivem na Índia. Convenientemente, eles têm pele negra ou escura, e você pode identificá-los. E há aqueles que ocupam outro bote salva-vidas, que se chama América do Norte. E nesse bote salva-vidas, você tem de conservar o que tem, entende?

Você tem de estar preparado para desenvolver uma ética, tem de estar preparado para desenvolver a resistência para ver as pessoas morrerem. É claro que você se arrependerá, mas com recursos escassos e população crescente, o que você pode fazer? Em vez de tentar descobrir o que havia de errado com o navio que o fez afundar e em vez de tentar construir um navio que possibilite que todos nós compartilhemos o mundo, você entra em um bote salva-vidas, assim como entra em uma nave espacial e, nesse ponto específico, que se dane o mundo. E essa é uma ideologia muito sinistra.

Falo como alguém que vem da década de 30 e se lembra, de forma muito dramática, que havia a ecologia demográfica, se preferirem, na Alemanha, não diferente de algumas das ecologias demográficas que tenho testemunhado hoje. Lembrem-se bem de que as implicações de algumas dessas concepções são extremamente totalitárias, extremamente antiecológicas, extremamente inorgânicas e tendem, no mínimo, a promover uma visão totalitária do futuro em que não há escala humana, em que não há controle humano.

Outra coisa que me incomoda muito é a enorme extensão em que a ecologia social ou os problemas ecológicos são reduzidos simplesmente a problemas tecnológicos. Isso é ridículo. É um absurdo. A fábrica é um local onde as pessoas são controladas, quer construam coletores solares ou não. Isso não faz diferença.[aplausos] Lá existirão as mesmas relações que existem em qualquer outra circunstância de dominação. Se "casa" significa que as mulheres cuidam da louça e os homens saem e fazem o trabalho masculino, como fazer a guerra, limpar o planeta e reduzir a população, aonde chegamos? Nada mudou. Como será a aparência de uma "nave espacial" na Terra? O que ela será? Quem será o general que dará as ordens, quem será o navegador que decidirá em que direção a "nave espacial" irá?

Tenha em mente quais são as implicações dessas coisas. Se as pessoas moram em cidades com uma milha de altura, como diabos vocês poderão se conhecer? Como você pode sentir a terra em que vive, se a paisagem que você vê vai até um horizonte a vinte, trinta, quarenta milhas de distância? No topo do World Trade Center, não sinto nada por Nova York. Se eu fosse um produto comum e simples da Força Aérea dos Estados Unidos e recebesse uma ordem do World Trade Center, lá no alto, para bombardear Manhattan, olhando para baixo, eu não veria nada. Eu apertaria o botão e isso não teria sentido. A grande bomba, o grande clarão, a grande nuvem subiriam. Isso não teria nenhum significado para mim. Lá embaixo no chão, quando olho para o Empire State Building ou para o World Trade Center, sinto-me oprimido. Sinto que fui reduzido a uma formiga humilde. Começo a sentir a demanda por um ambiente que eu possa controlar. Que eu possa começar a entender. Mas quando vejo as plantas crescendo ao meu redor, quando vejo a vida existindo ao meu redor — vida humana, vida animal de todas as suas diferentes formas, flora — então posso me identificar. Esta é a minha terra.

Pensar humano

O que temos de fazer não é apenas "pensar pequeno" [referência a um livro de sucesso na época], temos de pensar humano. Pequeno não é suficiente. O que conta é o que é humano, não apenas o que é pequeno. O que é belo são as pessoas, o que é belo são os ecossistemas e sua integridade nos quais vivemos. O que é belo é o solo que compartilhamos com o resto do mundo da vida. E, particularmente, aquele pedaço especial de solo no qual sentimos que temos algum grau de responsabilidade.

Não é apenas o que é pequeno que é belo, é o que é ecológico que é belo, o que é humano é belo.

O importante não é apenas que a tecnologia seja apropriada. Como já disse antes: a Comissão de Energia Atômica está absolutamente convencida de que as usinas nucleares são uma tecnologia apropriada — para a Comissão de Energia Atômica. Os bombardeiros B1 são uma tecnologia muito apropriada para a Força Aérea.

O que me preocupa é, novamente, o que é libertário, o que é ecológico. Temos de trazer essas palavras carregadas de valor e temos de trazer esses conceitos carregados de valor para o nosso pensamento, ou então nos tornaremos meros físicos, lidando com matéria morta e lidando com as pessoas como se fossem meros objetos a serem manipulados, em naves espaciais, ou a serem conectados por meio de várias formas de dispositivos eletrônicos, ou sujeitos a jogos mundiais ou, finalmente, à deriva em uma jangada ou em um bote salva-vidas no qual eles expulsam qualquer um que ameace comer seus biscoitos ou que ameace beber sua água destilada — e isso se torna ecofascismo. Isso se torna ecofascismo, e fico horrorizado ao pensar que qualquer coisa ecológica — até mesmo a palavra "eco" — possa ser associada ao fascismo.

Antes de mais nada, precisamos voltar à tradição utópica, no sentido mais rico da palavra. Não à tradição eletrônica, não à tradição da NASA, não à tradição de Sir Isaac Newton, na qual o mundo inteiro era uma máquina ou um relógio.

Você pode viajar por todo o país e não aprender nada, porque está carregando algo muito importante com você, que decidirá se você aprenderá ou não, e isso é: você mesmo. Mude-se para a Califórnia amanhã e, se ainda tiver os mesmos problemas psicológicos, espirituais e intelectuais, você estará suando em São Francisco da mesma forma que em Amherst ou Nova York. Isso é o mais importante: recuperar-se e começar a criar uma comunidade. E que tipo de comunidade a imaginação pode começar a criar.

O que significa ser utópico?

"Da imaginação ao poder", como disseram os estudantes franceses. "Seja prático, faça o impossível", porque se você não fizer o impossível, como eu disse várias vezes, acabaremos com o impensável — e isso será a destruição do próprio planeta. Portanto, fazer o impossível é a coisa mais racional e prática que podemos fazer. E esse impossível é, tanto em nossa própria convicção quanto em nossa convicção compartilhada com nossos irmãos e irmãs, começar a tentar criar ou trabalhar em direção a uma noção bem distinta do que constitui uma sociedade finalmente liberada e ecológica. Uma noção utópica, não uma noção futurista.

Finalmente, isso significa o seguinte: temos de começar a desenvolver comunidades ecológicas. Não apenas uma sociedade ecológica — comunidades ecológicas, compostas por um número comparativamente pequeno de grupos, e belas comunidades espaçadas umas das outras, de modo que você possa quase caminhar até elas, e não apenas ter de entrar em um carro e viajar sessenta ou setenta quilômetros para chegar até elas. Isso significa que temos que reabrir a terra e reutilizá-la novamente para criar canteiros de hortas orgânicas e aprender a desenvolver uma nova agricultura na qual todos nós participaremos da horticultura.

Temos de procurar comunidades que possamos ter uma visão única, como disse Aristóteles há mais de 2.200 anos — e ainda temos de aprender muito com os gregos, apesar de todos os seus defeitos como proprietários de escravos e patriarcas —, uma comunidade que possamos ter uma visão unificada, para que possamos nos conhecer. Não uma comunidade em que nos conhecemos uns aos outros por nos sentarmos e conversarmos por telefone, ou ouvirmos algum chefe falar por um microfone, ou ouvirmos algum chefe maior falar por uma tela de televisão. Isso tem de ser feito sentados em comunidades, em reuniões municipais e nas estruturas que temos aqui nos Estados Unidos como parte do legado — o melhor legado dos Estados Unidos — pelo menos, e começar a pensar em utopia no sentido mais amplo da palavra.

Também temos que desenvolver nossas próprias tecnologias. Não podemos deixar que outras pessoas simplesmente as construam para nós. Elas não podem ser transportadas sabe-se lá de onde para nós. Temos que saber consertar nossas torneiras e criar nossos próprios coletivos. Temos de nos tornar seres humanos ricamente diversificados. Temos de ser capazes de fazer muitas coisas diferentes.

Temos de ser cidadãos-agricultores e agricultores-cidadãos. Temos de recuperar o ideal que até mesmo Ben Franklin — que de forma alguma pode ser considerado, em minha opinião, algo mais do que um filisteu — acreditava no século 18: você pode tanto imprimir quanto ler e, quando imprime, lê o que imprimiu. É isso que temos de trazer para nós mesmos. Temos de pensar não apenas em termos de mudança; temos de pensar em termos de crescimento. Temos de usar a linguagem da ecologia para que possamos nos tocar com a magia das palavras e nos comunicarmos uns com os outros, com a magia e a riqueza dos conceitos, e não com frases de efeito que são realmente rápidas [estala os dedos] — "input", "output". O diálogo é mais longo, mas tem uma bela ressonância. "Dia" + "logos", discurso entre dois, conversa entre dois. Logos = lógica, raciocínio criativo, dialético, e crescimento por meio da conversa, e crescimento por meio da comunicação. É isso que quero dizer com utopia. Temos de voltar a Fourier, que disse que a medida da opressão de uma sociedade poderia ser determinada pela maneira como ela trata suas mulheres. Não foi Marx quem disse isso, foi Charles Fourier... Temos de voltar à rica tradição da reunião da cidade da Nova Inglaterra, e tudo o que havia de saudável nela, recuperá-la e aprender um novo tipo de confederalismo.

Hoje, os verdadeiros movimentos do futuro, na medida em que são utópicos em suas perspectivas — na medida em que estão tentando criar não uma extensão do presente, mas tentando criar algo que seja realmente novo, que por si só possa resgatar a vida, o espírito humano, bem como a ecologia deste planeta — devem ser construídos em torno de uma nova e rica comunicação, não entre líder e liderado — mas entre aluno e professor, de modo que cada aluno possa eventualmente se tornar um professor, e não um ditador, um governador, um controlador e um manipulador.

E, acima de tudo, temos de pensar organicamente. Temos de pensar organicamente — não eletronicamente. Temos de pensar em termos de vida e biologia, não em termos de relógios e física. Temos de pensar em termos do que é humano, não do que é meramente pequeno ou grande, porque só isso será belo. Qualquer sociedade que busque criar uma utopia não será apenas uma sociedade livre, mas também precisa ser uma sociedade bela. Não pode mais haver nenhuma separação — mais do que entre mente e corpo — entre a arte e o desenvolvimento de uma sociedade livre. Devemos nos tornar artistas agora, não apenas ecologistas, utópicos. Não futuristas, não ambientalistas.

[aplauso]

[Murray Bookchin recebeu duas perguntas relevantes da plateia, que não foram ouvidas na gravação. O primeiro questionador perguntou se ele era contra a tecnologia.]

Não, isso não é verdade. Vejo um uso muito grande para a tecnologia. O que estou falando é de uma tecnocracia. Estou falando de um governo por técnicos. Estou falando do uso de vários tipos de dispositivos tecnológicos que são desumanos para as pessoas e desumanos em sua escala, e não podem ser controlados por pessoas. A beleza de uma tecnologia ecológica — uma ecotecnologia, ou uma tecnologia libertária, ou uma tecnologia alternativa — é que as pessoas podem entendê-la se estiverem dispostas a tentar dedicar algum grau de esforço para isso. É a simplicidade, sempre que possível, é a pequena escala, sempre que possível. É disso que estou falando. Não estou falando em voltar ao paleolítico, não estou falando em voltar para as cavernas. Não podemos voltar a isso e acho que não queremos voltar a isso.

[Na próxima pergunta da plateia, Bookchin é solicitado a descrever, de forma bem concreta, sua visão política. Houve risos após a pergunta.]

Vou ser realmente duro com isso e ir direto ao ponto, e não apenas dizer que estou lhe dando alguns princípios filosóficos vagos. Eu gostaria de ver comunidades, cooperativas de alimentos, grupos de afinidade, todos esses tipos de estruturas — reuniões urbanas desenvolvidas em todos os Estados Unidos. Gostaria de ver organizações de bairro, não hierárquicas em sua forma, desenvolvidas em todos os Estados Unidos, da cidade de Nova York a São Francisco, da zona rural de Vermont à zona urbana da Califórnia. Quando essas organizações específicas se desenvolverem rapidamente e se confederarem, primeiro regionalmente e, com sorte, nacionalmente e talvez até internacionalmente — porque não estamos mais falando apenas dos Estados Unidos, estamos falando até mesmo do que está acontecendo na União Soviética em grande parte —, espero que elas, de uma forma ou de outra, pelo exemplo e pela educação, conquistem a maioria das pessoas para essa sensibilidade. E, tendo feito isso, exijam que a sociedade seja transformada e, depois disso, teremos de enfrentar o que tivermos de enfrentar. A única alternativa que temos depois disso, se não fizermos isso, será a seguinte: seremos organizados em burocracias, burocracias em nome do progresso, bem como burocracias em nome do reacionarismo, bem como burocracias em nome do status quo.

E se estivermos organizados na forma dessas burocracias, quer usemos energia solar ou gases nervosos, não faz diferença, acabaremos, em última análise, com a mesma coisa. Na verdade, a ideia de que a energia solar, a energia eólica ou o metano estejam sendo usados em vez de combustíveis fósseis se tornará apenas uma desculpa para manter o mesmo sistema multinacional, corporativo e hierárquico que temos hoje.

Portanto, proponho que esses tipos de organizações e esses tipos de formas sociais sejam desenvolvidos em todo o país e, cada vez mais, esperamos que afetem a maioria da opinião, a ponto de o povo americano, de uma forma ou de outra, fazer com que suas vozes sejam ouvidas, porque eles são a maioria esmagadora e dizem que querem mudar a sociedade.

E se os Estados Unidos mudarem, o mundo inteiro mudará, em minha opinião pessoal. Porque esse é o centro, literalmente a pedra fundamental do que eu chamaria de todo o sistema capitalista que hoje envolve o mundo, seja na China, em Cuba e na Rússia, ou nos Estados Unidos, no Canadá e na Europa Ocidental. Isso é, muito concretamente, o que proponho.

Gostaria de deixar isso bem claro: primeiro, o povo americano começará a mudar inconscientemente, antes de mudar conscientemente. Você irá até eles e perguntará: "O que você acha do trabalho?" E eles dirão que é nobre. Você lhes perguntará o que acham da propriedade? E eles dirão que é sagrada. E você lhes perguntará, o que acham da maternidade, e eles dirão que é grandiosa, que é piedosa. O que você acha da religião e elas dirão que pertencem a ela e que são completamente devotadas a ela. Se você perguntar a eles o que acham dos Estados Unidos, eles dirão: "ame-os ou deixe-os". Você perguntará o que acham da bandeira e eles dirão que é gloriosa, a Velha Glória.

Mas, um dia, algo vai acontecer. Um dia, o inconsciente, a expectativa, o sonho, a imaginação, a esperança com a qual você vai para a cama e se afunda nas horas crepusculares do sono, ou de manhã cedo, quando sonha acordado, logo depois que o despertador toca e você o desliga — essas expectativas e sonhos que estão enterrados na mente inconsciente de milhões e milhões de americanos vão se tornar conscientes. E quando eles se tornarem conscientes, que Deus ajude esta sociedade. [empolgação da plateia] Estou falando muito sério.

Essa é a estranha catálise, o estranho processo de educação; todos hoje em dia são esquizofrênicos, estamos todos levando vidas duplas, e sabemos disso. E não apenas nós estamos levando vidas duplas, mas também as pessoas comuns — as chamadas "comuns" — que estão por aí também estão levando vidas duplas. E um dia, essa vida dupla se tornará uma vida unificada. Talvez seja para pior. mas talvez seja para melhor. Nesse momento específico, talvez comece algo como maio, junho de 1968 em Paris. Em todos os lugares, serão hasteados todos os tipos de bandeiras que não se parecem com as bandeiras que estamos acostumados a ver. [risos do público] Talvez seja preta ou vermelha, não sei. Nesse momento específico, milhões de pessoas deixarão de trabalhar e começarão a discutir.

Então, você terá aquela situação aterrorizante chamada governo da multidão. Mas isso acontecerá, e foi o que aconteceu aqui em 1776, eles acreditavam no rei até julho de 1776. Nesse meio tempo, eles estavam tendo dúvidas. Eles nem sabiam que não gostavam da monarquia. Mas um dia acordaram e disseram: que se dane o Rei George. Correram para a frente e escreveram a Declaração de Independência, que foi lida para as tropas.

Naquele momento específico, a Union Jack caiu e as estrelas e listras subiram. É assim que as pessoas realmente mudam. As pessoas mudam inconscientemente antes de mudar conscientemente.

Elas começam a ter sonhos — os sonhos são perigosos. Os sonhos são peças de imaginação, são pedaços de poesia. Eles são os balões que voam na história.


(Transcrito e editado, em inglês, por Constanze Huther.)

Murray Bookchin foi um teórico político, filósofo e ativista. Ele desenvolveu a filosofia da ecologia social e a teoria política do municipalismo libertário, ou comunalismo, que influenciou o crescente movimento "municipalista" em todo o mundo. Foi cofundador do Institute for Social Ecology, que continua ativo até hoje. Bookchin faleceu em 2006. A versão completa em áudio desse discurso está disponível na University of Massachusetts Special Collections and University Archives aqui.

Fonte: https://circular.emer.email/p/utopia-nao-futurismo-por-que-realizar?utm_source=post-email-title&publication_id=78191&post_id=135567205&isFreemail=true&utm_medium=email

Postado por Zelmar Guiotto às 17:13 Nenhum comentário:

Geração Selfie

P. Giselo Andrade*

D.R.

Um sociólogo espanhol, ao estudar a presente geração de jovens, denominou-a por “geração selfie”. Uma expressão que “reflete o permanente ensaio do estou-aqui-agora” (González-Anleo, 2015). Neste sentido, uma das caraterísticas mais valorizadas da juventude é a visibilidade. A pessoa existe, na medida em que é vista. A dimensão pública e exterior associada a uma cultura consumista, e os problemas sociais que retiram uma perspetiva de futuro, conduzem os jovens a formar um mundo à parte, uma espécie de subcultura. É uma forma de adaptação à modernidade líquida. 

Muitos jovens desanimam com as instituições que lhes deviam apoiar, gerando um sentimento de indiferença perante a política, economia e religião. Será que consideram valer a pena lutar pelos seus direitos? 

Sobre a relevância da religiosidade na identidade juvenil, um estudo em Portugal, entre 2008 e 2020, revela que “é entre os jovens que se verifica o maior afastamento da pertença à religião católica, descendo em 27 pontos percentuais entre os 12 anos em estudo. Em 2008, 7 em cada 10 jovens dizia-se católico, passando a ser, em 2020, 4 em cada 10” (E. Duque, Valores e Religiosidade em Portugal, 2022). 

Sobre a prática religiosa, verificou-se também uma descida identificada no mesmo estudo: “É entre os jovens que se encontram os católicos com menos prática religiosa e é também entre eles que mais se vê descer este vínculo institucional nos 12 anos em estudo. Se em 2008 apenas 36% dos jovens que se diz católico frequentava a eucaristia ao menos 1 vez por mês – ou seja, 4 em cada 10 jovens católicos -, em 2020 passam a ser apenas 18% – ou seja, 2 em cada 10 -, verificando-se assim uma descida significativa de 18 pontos percentuais”.

A Jornada Mundial da Juventude é a melhor oportunidade para uma reaproximação entre os jovens e a Igreja. Como podemos testemunhar com estes quase 600 jovens que chegaram à Diocese do Funchal, os jovens são verdadeiros protagonistas da evangelização: só precisam de portas abertas e mãos que acolham.

Fonte: https://www.jornaldamadeira.com/2023/07/29/geracao-selfie/

Postado por Zelmar Guiotto às 16:35 Nenhum comentário:

sábado, 29 de julho de 2023

Ainda vale a pena aprender línguas?

Hélio Schwartsman*

 Crianças de 2 a 5 anos aprendem inglês em atividade na brinquedoteca de colégio particular em São Paulo - Raquel Cunha/Folhapress - Folhapress

Avanço da inteligência artificial reduz razões instrumentais para estudar idiomas estrangeiros

São Paulo

Com a proliferação de programas de tradução baseados em inteligência artificial, ainda vale a pena aprender uma língua estrangeira? Quem levantou essa bola foi o cientista cognitivo Douglas Hofstadter num artigo para The Atlantic, que logo ganhou coluna-comentário do linguista John McWhorter no New York Times.

Hofstadter vem com a visão mais dramática. As novas tecnologias privarão as pessoas de aprender outros idiomas, conquista que representa uma das mais belas expressões da humanidade de um indivíduo. McWhorter é mais pé no chão. Para ele, os programas até podem eliminar as razões instrumentais que levam alguém a tentar assenhorar-se de uma língua estrangeira, mas não tornarão esse tipo de aprendizado uma atividade obsoleta.

Embora partilhe com Hofstadter a paixão por estudar idiomas, acho que concordo mais com McWhorter. Penso que estamos diante demais um caso de especialização do trabalho. A maioria das pessoas não está interessada em dominar as singularidades de idiomas, mas apenas em comunicar-se. Para estes, os programas são uma mão na roda. Permitem a compreensão mútua sem cobrar um investimento prévio de centenas de horas de estudo.

É claro que, se sua meta for mais ambiciosa do que pedir um quibe numa lanchonete de Beirute, aí a IA não ajuda tanto. Quem quer mergulhar na cultura de outro povo precisa saber o idioma. Ao menos por enquanto, o domínio da língua é indispensável para traduções literárias e para historiadores e filósofos.

Já vimos esse filme antes. No século 19, para obter cidadania no mundo da cultura, era preciso pensar em latim. Mesmo um físico tinha de comandar esse idioma. Hoje, as línguas necessárias para cada ramo do saber seguem uma lógica "ad hoc". Um físico se vira só com o inglês, mas não dá para tornar-se especialista em Aristóteles sem o grego. Isso já garante que haverá sempre nas universidades uma pequena demanda pelo ensino de línguas.

* Jornalista, foi editor de Opinião. É autor de "Pensando Bem…". 

Fonte:  https://www1.folha.uol.com.br/colunas/helioschwartsman/2023/07/ainda-vale-a-pena-aprender-linguas.shtml?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=newscolunista n

Postado por Zelmar Guiotto às 20:34 Nenhum comentário:

Notas sobre a Igreja Católica em Portugal

Anselmo Borges*

Notas sobre a Igreja Católica em Portugal
 © Arquivo DN

A poucos dias do início da Jornada Mundial da Juventude, deixo aí, também a partir de perguntas de jornalistas, inclusivamente estrangeiros, algumas notas dispersas sobre a Igreja em Portugal.

Genericamente, diria que o seu estado geral é um pouco estagnado, falta dinamismo. Entre os pontos mais positivos, parece-me que é de justiça sublinhar, disso ninguém duvidará, o papel social que a Igreja presta aos mais vulneráveis, nomeadamente através das IPSS (instituições particulares de solidariedade social), um papel insubstituível, mas também através de outras instituições como o Banco Alimentar, as conferências vicentinas de São Vicente de Paulo... A Igreja desempenha também um papel importante, decisivo, na salvaguarda de valores essenciais, como a família, a dignidade humana, a solidariedade...

Aspectos negativos. Pouco dinamismo pastoral, um clero envelhecido.... Sublinho que a Universidade Católica Portuguesa com a sua Faculdade de Teologia deveria desempenhar um papel mais activo e dinamizador na evangelização e quanto a questões de ética, nomeadamente de bioética...

Quero sublinhar que a Igreja Católica é ainda uma realidade pública reconhecida mesmo pelos media..

Neste contexto, é importante apresentar dados estatísticos. Segundo o Censos de 2021, os católicos constituem a grande maioria da população: 80,2% declara-se católica (em 2011, eram 88%); 14% diz não seguir nenhum credo religioso. Um outro estudo, de 2022, sobre "Jovens, fé e futuro" revela que 56% dos jovens entre os 14 e 30 anos se afirmam católicos e 34% dizem rezar regularmente e participar em celebrações. Mariano Delgado, director do Instituto para o estudo das religiões e o diálogo inter-religioso na Universidade de Friburgo/Suíça, faz notar que "quase nenhum outro país europeu conta com estatísticas tão favoráveis para a Igreja católica". Note-se, por exemplo, que, segundo uma sondagem recente, mais de um terço da população italiana, 37%, se declara "não crente".

Claro que a prática religiosa tende a cair devido à secularização e também ao modo das celebrações. Precisamos, também neste nível, de uma reforma profunda. As celebrações têm de ser mais vivas, pois correm o risco de serem um ritual seco. As homilias são, de modo geral, um desastre. Neste contexto, julgo que bispos e padres deveriam aceitar o desafio de passar para o outro lado, isto é, disfarçados, assistir entre os fiéis de modo a sentir o que levam dessas celebrações, tomando consciência de certo vazio.

Entre os maiores desafios está certamente uma secularização crescente, no sentido de a religião já não ser tão determinante como era para a auto-compreeensão e realização das pessoas nas diferentes esferas da vida. Assim, cada vez mais há menos casamentos pela Igreja e aumenta o número de divórcios... O Estado legalizou o aborto, acaba de legalizar a eutanásia activa...

A transformação da Igreja só pode realizar-se verdadeiramente, se cada um, a começar pelos bispos, padres, cardeais, perguntar a si próprio: acredito verdadeiramente nesta mensagem?, ela é boa para mim?, para mim? De facto, só se a considerar existencialmente boa e felicitante para mim, poderei ir convictamente entregá-la aos outros também.

Mas tenho a convicção de que a Igreja ainda encontra um lugar no mundo moderno, um lugar central, pois é portadora da mensagem decisiva do Evangelho, a melhor notícia que a Humanidade ouviu ao longo da sua História. Como diz a própria palavra Evangelho, que vem do grego: notícia boa e felicitante. Jesus entregou à Humanidade o Evangelho, essa notícia boa e felicitante: Deus é bom, é Pai e Mãe, ama todos os seus filhos e filhas e o seu maior interesse é a alegria, a felicidade, a plena realização de todos. Portanto, a Igreja transporta consigo não só o mandamento da parte de Deus da justiça e da paz, mas também a mensagem do sentido último da existência: não caminhamos para o nada, mas para a plenitude da vida em Deus.

Assim, a transformação da Igreja só pode realizar-se verdadeiramente, se cada um, a começar pelos bispos, padres, cardeais, perguntar a si próprio: acredito verdadeiramente nesta mensagem?, ela é boa para mim?, para mim? De facto, só se a considerar existencialmente boa e felicitante para mim, poderei ir convictamente entregá-la aos outros também.

Como é natural, a confiança na Igreja viu-se abalada por causa dos abusos sexuais. Como diz um estudo acabado de ser publicado, 68% dos portugueses pensa que a imagem da Igreja piorou no último ano precisamente ao ter de lidar com os resultados da investigação sobre os abusos sexuais. Ao mesmo tempo, o estudo mostra que 72% achou bem ou mesmo muito bem que a Conferência Episcopal Portuguesa tenha criado a Comissão Independente para um estudo independente dos abusos da Igreja desde 1950, mas 42% pensa que a mesma Conferência Episcopal respondeu mal ou muito mal aos resultados que a Comissão apurou, enquanto 33% pensa que a sua atuação foi "nem boa nem má".

Numa outra sondagem sobre a confiança nas instituições, em relação à Igreja Católica 42% dizem tender a confiar e 53% tender a desconfiar.

É importante fazer notar que faz parte do programa da visita do Papa Francisco, para presidir à Jornada Mundial da Juventude, um encontro com um grupo de abusados.

Significativamente, desta mesma sondagem resulta que 79% crê que a Jornada Mundial da Juventude, com a presença do Papa Francisco, terá um impacto mais positivo do que negativo. Pessoalmente, também penso isso e que, com a presença de mais de um milhão de jovens vindos de todos os Continentes e quase todos os países, de diferentes cores, línguas, culturas e credos, ela poderia constituir uma espécie de micro-ensaio de como um mundo em diálogo, em justiça e em paz é possível.

*Padre e professor de Filosofia.
Escreve de acordo com a antiga ortografia 

Fonte:  https://www.dn.pt/opiniao/notas-sobre-a-igreja-catolica-em-portugal-16771382.html

Postado por Zelmar Guiotto às 20:14 Nenhum comentário:

sexta-feira, 28 de julho de 2023

A constituição em língua nheengatu

 José de Souza Martins*

 — Foto: Carvall

Foto: Carvall

Este é o primeiro grande ato oficial de reconhecimento cultural da identidade do importante grupo linguístico cuja língua foi a língua brasileira até 1727, quando foi proibida

 

A presidente do STF, ministra Rosa Weber, acompanhada da ministra Cármen Lúcia, estiveram em São Gabriel da Cachoeira, no Alto Rio Negro, no Amazonas, para o lançamento da primeira edição oficial da Constituição brasileira em língua indígena, a língua nheengatu, o tupi moderno.

O fato é dos mais importantes da história do reconhecimento da pluralidade do povo brasileiro e da história dos nossos povos originários. É o primeiro grande ato oficial de reconhecimento cultural da identidade do importante grupo linguístico cuja língua foi a língua brasileira até 1727, quando o rei de Portugal proibiu a língua geral e tornou o português a língua obrigatória da colônia.

Era uma reação às revoltas nativistas que prenunciavam a transformação do Brasil em país independente. A língua é um instrumento de consciência social e política. As palavras da língua nheengatu contém uma concepção da vida, das coisas e do universo que expressam uma visão de mundo que, na perspectiva de hoje, é uma visão universal e humanista. Portugal temia o que não era apenas uma língua, mas consciência de um possível anticolonialista.

A língua nheeengatu não é traduzível para o português sem grande esforço. Ermano Stradelli, que viveu na região de Tefé e se tornou nheengatu-falante, preparou um precioso “Vocabulário Português-Nheengatu/Nheengatu-Português”, nos anos 1920, quando juiz na Amazônia, só publicado muito depois de sua morte num leprosário de Manaus. O livro teve recente e bem cuidada edição pela Ateliê Editorial.

No vocabulário de Stradelli nota-se o esforço feito pelos missionários para subjugar culturalmente o nheengatu. A palavra “capela” virou tupã-ocamiri, “pequena casa de tupã”, que não existia nem existe na cultura tupi. Os missionários traduziram tupã por Deus, quando não existe a concepção de Deus na cultura indígena.

 Nheengatu, a língua (não tão) perdida comum dos índios, dos escravos e dos  jesuítas

 Imagem da Internet

Tupã é o dono do fogo, como o raio e o trovão decorrente, que causam grande medo aos indígenas. A igreja trouxe para eles um cristianismo do medo. O padre Manuel da Nóbrega, em carta de 1567, à Mesa de Consciência e Ordens, um tribunal, dizia que esta gente não pode ser sujeita senão pelo medo. O Deus do Brasil foi durante longo tempo um Deus do medo para subjugar e não para libertar.

A consequência da repressão linguística tornou clandestina a língua da maioria da população integrada. Forçada, passou a falar português com sotaque nheengatu. Os índios da costa, falantes da língua geral, o tupi, tinham dificuldade para pronunciar as palavras da língua portuguesa.

No século XVI já se tinha consciência de que os indígenas não conseguiam pronunciar as consoantes isoladas, como o erre do infinitivo, e as consoantes duplas. Daí que no dialeto caipira, que resultou da proibição, falar tornou-se falá como dizer tornou-se dizê e, outras, cantá, corrê, chorá. Ou orêia por orelha, muié por mulher. Um número enorme de pessoas no Brasil, mesmo cultas, é bilíngue, isto é, escreve  em português e fala em brasileiro.

Em várias regiões fala esse brasileiro com inclusão de palavras nheengatu: coivara, pipoca, carioca, pacuera, quirera. Minha mãe, que era culturalmente caipira, referia-se a um cunhado urbano e sovina como muquirana, isto é, inseto que vive do sangue alheio.

Em muitas regiões do Brasil rural, o lugar que teve casa e habitante e não tem mais é definido como tapera, que não é o propriamente abandonado, mas o transformado, em desuso. Isto é, o que já foi, não é mais, mas continua sendo como outra coisa que é a mesma, porém transformada. Em “Grande sertão: veredas”, Guimarães Rosa, em certo momento, se refere a uma “fazenda taperada”, que foi e deixou de ser fazenda para, no abandono, ser tapera.

O poeta Álvares de Azevedo, estudante da Academia de Direito, da elite paulista, comentava com horror que as moças ricas da elite de São Paulo, nos bailes e saraus promovidos pela Marquesa de Santos, diziam, para desculpar-se: “Nóis num sabe dançá”.

Fora do ambiente tribal, a língua geral resistiu de vários modos. Até nos silêncios de uma linguagem que parece incompleta, mas não é, em contraste com a loquacidade dos brancos e dos donos de terra seus senhores. Uma língua de que faltam palavras ao caboclo que se dirige ao interlocutor de fora, de cabeça baixa, o silêncio completado com monossílabos e tímidos gestos das mãos. Só quem é membro dessas comunidades conhece e interpreta as palavras silenciadas e faltantes.

A tradução da Constituição brasileira para a língua nheengatu foi feita por indígenas bilíngues do Alto Rio Negro e Médio Tapajós. Já existe uma Academia da Língua Nheengatu e está surgindo uma geração de escritores indígenas autores de literatura nheengatu.

*José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge, e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Academia Paulista de Letras. Entre outros livros, é autor de "As duas mortes de Francisca Júlia - A Semana de Arte Moderna antes da semana" (Editora Unesp, 2022).

Fonte: https://valor.globo.com/eu-e/coluna/jose-de-souza-martins-a-constituicao-em-lingua-nheengatu.ghtml  28/07/2023

Postado por Zelmar Guiotto às 18:02 Nenhum comentário:
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