sexta-feira, 2 de março de 2012

O segredo das mães francesas

BOA MÃE
A americana Pamela, autora de French children don’t throw food (
Crianças francesas não atiram comida).
As crianças da França parecem se comportar melhor na rua e em casa
(Foto: Benjamin Barda)
Elas já são mais magras, elegantes e bem-educadas.
Agora parece até que criam melhor os filhos.
Por que as francesas viraram o ideal
da mulher moderna?
Uma simples ida ao restaurante com as crianças pode se tornar um verdadeiro martírio. Passada a excitação inicial, elas começam a correr entre as mesas, atirar comidas nas pessoas e fazer a tradicional manha pedindo – ou exigindo – que os pais as levem para casa. A jornalista americana Pamela Druckerman, de 41 anos, casada com um inglês e residente há dez anos na França, onde deu à luz os três filhos, viu-se nesse cenário caótico. Num bistrô local, observou que era a única mãe atormentada pelos pequenos selvagens. A partir da experiência, decidiu debruçar-se sobre a tese de que os franceses são melhores educadores. O trabalho resultou no livro French children don’t throw food (Crianças francesas não atiram comida), recém-lançado na Inglaterra e nos Estados Unidos.
O que poderia ser um manual de generalidades tolas – afinal, nem toda criança francesa é bem-educada – mostra-se um divertido relato de uma americana desesperada em desvendar alguns enigmas do país que a acolheu: por que os pequenos franceses dormem mais cedo que os de outras nacionalidades? Por que conseguem brincar tranquilos em seu canto e se comportar melhor à mesa, num país cujos restaurantes têm fama de permitir a entrada de cachorros, e não de crianças? A resposta está, diz Pamela, nos pais franceses, que sabem dar limites firmes e não deixam que seu mundo gravite em torno dos filhos.
A investigação da autora é quase instintiva. No lugar dos especialistas, ela parece confiar mais na experiência de casais de amigos franceses. As mães respondem, candidamente, que “não fazem nada demais”, que aplicam na maternidade o princípio nacional do “laissez-faire” (algo como “deixa rolar”), base do liberalismo econômico do século XVIII. Ele parece libertar as mães francesas da culpa de não estar 24 horas por dia disponíveis para suas crianças. As francesas amamentam menos, têm licença-maternidade de quatro meses com cursos de ginástica vaginal pagos pelo Estado e voltam à forma com mais rapidez que as americanas. Tampouco alimentam as neuroses de uma geração de mães que, desde o início dos anos 1980, recorre ao divã dos analistas.
As francesas não mostram medo de traumatizar os filhos por dizer um simples não. Também não ocupam as crianças com cursos extracurriculares de piano, expressão artística e computação, na esperança de criar futuros Mozarts, Picassos ou Steve Jobs. O estímulo precoce dá lugar a um método que tem como princípio básico deixar que a criança brinque sozinha em casa, sem obrigar os pais a inventar brincadeiras participativas ou se atualizar sobre os mais recentes jogos educativos. A prática estimula a criança a se entreter em seu quarto, enquanto os adultos recebem as visitas. Alguns exemplos podem parecer cruéis, como deixar o bebê chorar no berço até aprender a dormir durante uma noite inteira ou o filho com fome, caso ele não se adapte ao menu e aos horários das refeições da casa. E o mais importante: quando uma mãe francesa diz “basta”, a criança não abre o berreiro; simplesmente reconhece seus limites. “Passamos a ver as crianças como seres muito frágeis, prestando atenção a tudo o que diz respeito a seu corpo e a seu espírito. O resultado é um estilo de educação que acaba por escravizar os pais”, afirma Pamela.
A empresária Marie Annick Mercier, presidente do Instituto Diálogo Euro-Brasil, diz reconhecer os benefícios da educação em seu país. Mas preferiu criar a filha, Marie, no Brasil. “As crianças francesas estão abaixo dos pais na hierarquia familiar. Os limites são transmitidos bem claramente desde cedo”, diz. “Aqui no Brasil elas são tratadas como os reis da casa, mas, em contrapartida, o afeto é mais desmedido, e as crianças crescem com mais autoconfiança, autoestima e segurança.”
O livro de Pamela é um contraponto suave a outro fenômeno de vendas, O grito de guerra da mãe tigre, da americana descendente de chineses Amy Chua. No ano passado, ela chocou o mundo com seus métodos quase militares de criar as crianças. Amy aconselha mães a chamar seus filhos de “lixo” quando desobedecerem e a proibir brincadeiras na casa dos amigos. No caso das supermães francesas enaltecidas por Pamela, nada disso é necessário, pois as crianças sabem, desde cedo, reconhecer as linhas invisíveis que as separam do mundo dos adultos. Para a psicóloga infantil Rita de Cássia Lino, do Rio de Janeiro, a moda de manuais com fórmulas mágicas revela a impotência dos pais. “A questão crucial é não dar o limite com tom de punição”, diz.
O fascínio das americanas pelas colegas do outro lado do Atlântico ganhou força na última década com a publicação de livros que enaltecem as qualidades atribuídas às francesas. A herança remonta à época em que a América era um apanhado de colonos menosprezados pela metrópole inglesa, cujas elites pretendiam civilizar-se à moda da corte dos Bourbons. Nessas obras, as francesas são magras (Mulheres francesas não engordam, de Mireille Guiliano), elegantes (Como se vestir como uma mulher francesa, de CeCe Montagne), sedutoras (O que as mulheres francesas sabem, de Debra Ollivier) e bem resolvidas na maturidade (Envelheça bonita como as chiques mulheres francesas, de Anne Barone). Segundo esses livros, as francesas estão mais preocupadas com parecer femininas que feministas.
Mas o mito da supermulher está bem distante da realidade. Três em cada quatro franceses (de ambos os sexos) acreditam que os homens têm mais qualidade de vida que as mulheres; 82% delas, entre 25 e 49 anos, trabalham em tempo integral e, apesar de a lei do país obrigar os partidos a apresentar listas igualitárias de candidatos de ambos os sexos, a maioria prefere pagar multas a cada eleição por causa do favoritismo aos homens. Mais de dois terços da Assembleia Nacional, a Câmara dos Deputados francesa, são compostos de homens. Há também o lado perverso da política de estímulo à maternidade, que oferece reduções de impostos por filho, descontos para famílias grandes em meios de transporte públicos e creches gratuitas até o início da noite. As francesas dedicam cinco horas por dia às crianças e às atividades domésticas. Os franceses, duas horas. A legislação estimula a natalidade, mas, na prática, não libertou as mães da rotina extenuante de obrigações que os homens acham que cabe a elas.
Três em quatro franceses acreditam que os homens têm mais qualidade de vida que as mulheres A visão da mulher independente e liberal também se esfacelou no ano passado com o escândalo sexual do ex-presidente do FMI Dominique Strauss-Khan. Acusado de estuprar uma camareira num hotel em Nova York e de participar de orgias, ele não negou as puladas de cerca, mas nem por isso sua mulher, a jornalista Anne Sinclair, pediu o divórcio. Pelo contrário, tomou sua defesa, para espanto geral. Diante do romance do intelectual Bernard-Henri Lévy com a socialite inglesa Daphne Guinness, a mulher traída, a atriz Arielle Dombasle, preferiu um silêncio submisso. “A França é um país de velhos machos gauleses”, afirmou Lévy. Uma tese reforçada pela primeira-dama, Carla Bruni, famosa pela coleção de namorados e amantes do passado. Casada com o presidente Nicolas Sarkozy, adotou sapatos sem salto (para não passar o companheiro baixinho), interrompeu a carreira de cantora e anda protocolares três passos atrás do marido. Pelo visto, as mães francesas ainda têm, oh-la-la, muitas questões para resolver.
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Reportagem por BRUNO ASTUTO
Fonte: http://revistaepoca.globo.com/vida/noticia/2012/02/

A eterna vírgula da relação

Paulo Brabo*

Todo mundo quer ir pro céu, mas ninguém quer morrer.
Evandro Mesquita, em O romance da universitária otária (1982)
Existir é uma rede: ninguém pode escapar e ninguém está sozinho. Você pode ser invulnerável em todos os aspectos, mas as cordas das relações te amarram, velho. Amar é um saco. E é impossível.
O vertiginoso peso de todo relacionamento, aquela vírgula que nos leva a perder o fôlego vez após vez ao longo desta vida, é que são sempre os outros que determinam o status da relação deles com você. Quanto mais viva e intensa é a qualidade dos seus relacionamentos, meu caro, mais vulnerável você é. Quanto mais rico tu és, mais tens a perder. Todo mundo quer amar, mas ninguém quer sofrer.
Que os outros tenham autonomia para determinar em cada dado momento e para sempre o status de nossa relação com eles não deve ter sido fácil para ser humano nenhum em época nenhuma; num mundo como o nosso, em que estamos aprendendo a desejar (e ter) tudo debaixo do nosso controle – um mundo que só consideramos ideal se não existirem variáveis fora do nosso poder, – essa fragilidade essencial da condição humana é motivo de escândalo e de embaraço universais.
Porque às vezes, pasme-se, os outros estão tão entretidos em suas próprias questões egoístas que chegam a se esquecer de que o mundo gira ao nosso redor. Tornam-se tão ensimesmados que se esquecem de dar a atenção que eu e você merecemos, com a intensidade que eu e você esperamos e do modo que eu e você decidimos que nos trará mais prazer. E não é sempre, você pode já ter notado, que estamos prontos para aturar essa postura infantil e irresponsável da parte deles.
É evidente que algumas vezes os modos como os outros nos tratam podem ser traçados de volta a nós mesmos. Algumas vezes as pessoas acham necessário se afastar de nós porque entendem que não estamos dando a devida atenção a elas; outras vezes se afastam porque entendem o oposto, que estamos exigindo demasiada atenção delas. Alguns afastamentos são temporários, outros aparentemente mais definitivos. Alguns podem ser reparados se você se reaproximar da pessoa em questão; outros só podem ser reparados se você se mantiver distante dessa pessoa por tempo suficiente. Algumas pessoas você vai perder, outras você vai ter para sempre, outras vai recuperar de um modo inteiramente diferente… mas você não vai ter nunca como saber com absoluta certeza quem essas pessoas serão, a exata qualidade desse “pra sempre” e em que sentido tudo pode ser diferente.
Em resumo: os outros são instáveis e é uma indignidade para qualquer ser humano colocar os ovos da nossa estabilidade emocional numa cesta tão pouco confiável. Pessoas que não sou eu mesmo não deveriam ter autonomia para afetar coisas que são tão importantes para mim num nível pessoal. Proponho que a partir de agora as demais pessoas ajam exatamente como eu quero que ajam, ou do contrário enfrentem as consequências de não ter a têmpera necessária para que eu as ame.
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* O nome é Paulo Roberto Purim (Brabo™ é apelido), sou ilustrador e moro no Monastério de São Brabo, perdido numa região remota das Índias Ocidentais.
Imagens da Internet

''A internet é uma nova gramática de linguagem para a Igreja’’.

Entrevista com Gianfranco Ravasi
"O amor que não se renova todos
os dias e todas as noites se torna hábito
 e lentamente se transforma
 em escravidão".
Uma frase, uma citação, 140 caracteres podem conter um fulgor e uma profundidade deslumbrantes. Entre os 500 milhões de pessoas que todos os dias se deparam com os breves textos do Twitter, há também o cardeal Gianfranco Ravasi, e a citação de Kahlil Gibran é um dos seu tuítes mais recentes, juntamente com passagens dos Evangelhos, frases de Sciascia e John Lennon, Gesualdo Bufalino e Goethe, versículos do livro do Eclesiástico e das Cartas aos Coríntios.
Tudo isso com uma lógica: tuítes seculares de manhã, tuítes religiosos à tarde. É o atebti e meditado exercício de introduzir complexidade e sentido na rígida e, às vezes, um pouco vaga onda dos tuítes. E, ao mesmo tempo, uma resposta ao preconceito de uma Igreja fechada ao progresso. É o esforço do presidente do Conselho Pontifício para a Cultura, que desembarcou nas redes sociais "por curiosidade", mas imergiu nos 140 caracteres com o compromisso e a profundidade dos homens da Igreja.

Cardeal, como e quando o senhor começou a usar o Twitter?
Como migrante digital, e não como nativo, eu comecei a percorrer essas ruas de uma forma muito ingênua e muito curiosa. Foi essa curiosidade que me levou a começar...

O senhor refuta o estereótipo de uma Igreja fechada ao progresso?
A minha tarefa está no âmbito de um dicastério vaticano dedicado à cultura. É, portanto, a de ter um respiro no átrio, não tanto no templo, mais na praça do que no palácio. Isso vale para toda a cultura, não só para o Vaticano, porque atualmente não há mais o conceito aristocrático de cultura. Existe o antropológico da cultura industrial. E é por isso que eu saí para o átrio. Mas considero que toda a Igreja também deve estar na praça e não só entre os incensos do templo.

Conceitos profundos na brevidade do Twitter: esse é o desafio da Igreja?
Um dos aspectos mais interessantes do Twitter é o vínculo de ficar na gaiola dos 140 caracteres. Isso lhe obriga não só à incisividade, ao fulgor, ao brilho, mas também ao rigor. E isso vai contra uma certa tendência atribuída à eloquência sacra, que, dizia Voltaire, "é como a espada de Carlos Magno, longa e plana...", porque o que os pregadores não sabem dar em profundidade procuram dar em extensão.

Não há o risco de desnaturalizar a mensagem da Igreja?
Essa é uma pergunta capital, porque, efetivamente, percorrer as artérias desse novo meio de comunicação não deve nos fazer esquecer que a linguagem é muito mais suntuosa e gloriosa, sobretudo a religiosa, que tem séculos de elaboração nas costas. Por isso, nunca se deve abandonar a subordinada. A informática exige as coordenadas, as frases breves, enquanto a filosofia, a teologia, a grande cultura preferem as subordinadas, as deduções, as ramificações. Não usamos o Twitter de modo ingênuo.

O senhor tem mais de 13 mil seguidores, mas segue apenas 32 pessoas. Segue outros cardeais, editores de jornais, mas acho que só vimos um político: Matteo Renzi. É uma escolha de campo?
Para mim, é uma surpresa, eu não tinha percebido. Mas, além de Renzi, devo dizer que o sentido da minha participação no Twitter é dirigido aos não crentes e particularmente aos polêmicos... Nestes tempos em que se fala muito do ICI [imposto sobre os imóveis] da Igreja, no Twitter, eu fui ininterruptamente alvejado e devo dizer que a palma do tuíte mais divertido vai para a minha seguidora que parafraseou o lema de Santo Agostinho: "Oh, Senhor, fazei-me casto, mas não ainda" para "Oh, Senhor, fazei-me cadastrado, mas não ainda".

Essa sua familiaridade com a Web tem encontrado resistências no Vaticano?
O fato de haver perplexidade é normal, às vezes eu também tenho. Muitas vezes, há um desvio na comunicação informática. E deve ser aprofundado o impacto sobre as culturas jovens, porque um rapaz que está cinco horas por dia na frente de um computador muda antropologicamente. Mas, por outro lado, estar na Web é necessário, porque é uma nova gramática de linguagem. E muitos bispos começam a frequentar a Web: o bispo de Soissons inventou as tweet-homilias. Uma forma para alcançar um horizonte de pessoas que jamais colocarão os pés em uma igreja.

O Santo Padre também foi parar no Twitter. Foi o senhor que o aconselhou?
Não, o mérito é de Dom Celli, presidente do Conselho Pontifício para as Comunicações Sociais e responsável vaticano por esse setor. Mas, recentemente, com Bento XVI, falamos longamente sobre esses assuntos e ele estava muito curioso sobre a decifração do que eu chamo de "sexto poder". Um poder que realmente tem uma eficácia imperial. Porque não se trata mais de um agregado, como podia ser a televisão com o olho, ou o telefone para o ouvido. É um verdadeiro ambiente em que estamos imersos, embora não queiramos estar...
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A reportagem é de Cesare Buquicchio e Maddalena Loy, publicada no jornal L'Unità, 29-02-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Fonte: IHU on  line, 03/03/2012

Sobre a mentira e bobagens de Kant

Umberto Eco*
Não muito tempo atrás, seguindo na trilha de Jonathan Swift e seu panfleto "A Arte da Mentira Política" (1712), escrevi sobre grandes mentirosos e abordei a antiga disputa entre moderados e rigoristas. Os primeiros admitem que, em última análise, é aceitável dizer algumas mentiras (por exemplo, no interesse da diplomacia ou da cortesia), ao passo que os segundos sustentam que não se deve mentir - nem mesmo para salvar a vida de uma pessoa.
O clássico dilema do "assassino à porta" foi colocado por Santo Agostinho, ele próprio um rigorista: uma pobre alma busca refúgio em sua casa dizendo que um assassino temível está em seu encalço - e você concorda em escondê-lo. Após algum tempo, o assassino aparece e pergunta sobre o paradeiro do homem que está buscando. O que faz você? O senso comum nos diz que devemos mentir e dizer ao assassino que não sabemos por onde anda o outro homem ou que o viu indo para outro lugar. Mas o rigorista lhe dirá que, como não devemos mentir sob quaisquer circunstâncias, você deveria confessar ao assassino que a potencial vítima está em sua casa. Naturalmente, com o passar do tempo, as convenções mudaram, e esse dilema parece hoje muito menos nítido - uma pessoa poderia, simplesmente, omitir informações ao assassino, sem dizer uma mentira explícita. De modo geral, porém, os rigoristas nunca se afastaram de sua oposição incondicional à mentira.
Isso nos leva a Immanuel Kant, um dos expoentes mais renomados da posição rigorista.
Kant, eu gostaria de salientar, foi também uma das mais importantes mentes na história da filosofia. Mas, por vezes, como Homero, fez afirmações que hoje ainda nos deixam perplexos. Um das mais conhecidas é sua condenação da música, dita uma arte inferior, em "Crítica do Juízo" (1790). Música nada mais é do que uma arte "agradável", escreveu ele, porque "apenas joga com as sensações" - ao passo que artes "formativas", como pintura, escultura e arquitetura, deixam uma "impressão [mais] duradoura". Kant observou, também, que a música perturba os que não querem ouvi-la: comparou-a aos lenços perfumados que os homens no passado traziam em seus bolsos e de onde os removiam, ocasionalmente, forçando outras pessoas por perto a inalar o odor involuntariamente.
Sobre o tema do assassino que indaga se a vítima está em sua casa, Kant ofereceu um argumento extraordinário. Em "Sobre um Suposto Direito de Mentir por Motivos Altruístas" (1797), escreveu:
"Se, por dizer uma mentira, você impediu um assassinato, tornou-se legalmente responsável por todas as consequências; mas se você se manteve rigorosamente fiel à verdade, a justiça pública não pode pôr as mãos em você, quaisquer que possam ser as consequências imprevistas. Após você ter respondido honestamente à pergunta do assassino - sobre se sua pretendida vítima está na casa - pode ser que a pessoa tenha se esgueirado para fora, para não deparar-se com o assassino, e, assim, o assassinato não pôde ser realizado. Mas se você mentiu e disse que ele não estava em casa, quando, na realidade, ele saíra sem você saber, e se o assassino, ao partir, acabou encontrando-o e assassinando-o, você poderia ser justamente acusado como causador de sua morte. Porque, se você tivesse dito a verdade - pelo menos o que acreditava ser verdade -, o assassino talvez pudesse ter sido agarrado pelos vizinhos enquanto fizesse uma busca na casa e, assim, sua ação poderia ter sido evitada. Portanto, quem conta uma mentira, por mais bem intencionado que seja, deve responder pelas consequências, por mais imprevisíveis que sejam, e pagar as penalidades por isso, até mesmo em um tribunal civil".
Espero efetivamente que o próprio bom Kant nunca tenha sido punido por ter mentido por "motivos altruístas". Quanto à fé de Kant nesses hipotéticos vizinhos, se tivessem a mesma coragem que ele, então a potencial vítima estaria condenada.
Por que estou contando essa história, em vez de, generosamente (para com o legado de Kant) esquecê-la? A estupidez sempre me fascina, mas quando expressões de estupidez aparecem nos escritos de homens verdadeiramente grandes, é como ser impactado por uma visão redentora: o fato de que mesmo gênios podem falar tolices é uma fonte de grande consolo para o resto de nós, que pomos em dúvida, cotidianamente, nosso próprio senso comum. (Tradução de Sergio Blum)
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Umberto Eco é autor de "O Cemitério de Praga" e "Sobre a Feiura", dentre outros livros. Este artigo foi publicado originalmente no "New York Times"
Fonte: Valor Econômico on line, 03/03/2012

Títulos de longo prazo

Galpão da biblioteca de Delfim Netto, em seu sítio, em Cotia: coleção abriga um dos melhores
acervos de marxismo analítico no Brasil,
com mais de dez mil exemplares.
Alguns anos depois de comprar uma cobertura nos Jardins, em São Paulo, Antônio Delfim Netto passou a receber insistentes alertas do engenheiro responsável pelo projeto do prédio. O homem tentava convencer o economista a interromper o processo de expansão de sua já superlativa coleção de livros, temendo que o peso excessivo pudesse abalar as fundações do condomínio. "'Delfim, você está abusando', ele me dizia. 'O cálculo foi bem feito, aplicamos um coeficiente de 50% depois de todo cálculo bem feito, mas você não pode continuar a pôr esses livros aí. O peso vai abalar as estruturas'", conta o ex-ministro da Fazenda.
Interromper a coleção, jamais. Obstinado por livros desde os 14 anos, quando comprou seu primeiro título, da Civilização Brasileira, Delfim costuma dizer que a biblioteca é seu "maior patrimônio". O economista, portanto, não teve dúvidas: optou por seu edifício intelectual e arranjou um destino mais seguro para todos os seus livros - os que já existiam e os que estavam por chegar. Era o fim da década de 1980, quando levou para o sítio que acabara de comprar em Cotia o núcleo do que é hoje uma das maiores e mais impressionantes coleções particulares no Brasil: 290 mil itens, cerca de 130 mil deles apenas de livros.
Nas proximidades de São Paulo, houve condições de a biblioteca ser expandida mais tranquilamente, ao som do canto de centenas de tucanos, bem-te-vis, sabiás e jacus também cuidados por Delfim e alimentados com dois sacos de semente de girassol por semana. Os pássaros permanecerão no local, mas as quatro amplas salas de 1.500 m2 serão esvaziadas. Todos os livros organizados por Delfim ao longo de 70 anos vão mudar para uma nova e definitiva casa: a Faculdade de Economia, Administração e Ciências Contábeis, a FEA, da Universidade de São Paulo.
Com o novo endereço, o acervo passa a ser público e integrado à biblioteca da FEA. A reforma do prédio, erguido no andar térreo e adequadamente projetado para aguentar todo o peso do conhecimento, está praticamente concluída. Com a bênção do dono dos livros, a transferência ocorrerá até o segundo semestre. "Estou alegre, porque a biblioteca, para os descendentes, é um peso", diz o ex-ministro de 84 anos. "Qual era o fim daquilo? Era ser vendido em pedaços ou um livreiro comprar e tudo aquilo que eu juntei ser dividido."
Uma das quatro salas que abrigam a coleção: todas são aromatizadas
 com uma essência de mamona,
desenvolvida por Solon Luís Pereira, para evitar pragas.

Pessoas próximas a Delfim temem que ele sofra da síndrome do ninho vazio. Como na tela "O Bibliotecário", de Giuseppe Arcimboldo - em que um homem tem cabeça, membro e tronco compostos de livros -, a coleção de Delfim parece "parte do seu ser, um pedaço de seu corpo, um braço", revela um amigo. "A sensação é como a de doar um filho. A biblioteca tem sido um investimento pessoal, emocional, intelectual e financeiro de uma vida."
Delfim é modesto ao falar sobre seu acervo. Gosta de dizer que a biblioteca nasceu por acidente e rejeita o adjetivo bibliófilo, já que suas prateleiras valem mais pelo todo do que pelas raridades. Sente-se mais confortável com a palavra colecionador. "Não queria ter uma biblioteca. Ela foi se acumulando. O fetiche é pelo livro em si, que tem um sabor sensual", conta Delfim.
Hoje o acervo está num espaço de estilo sóbrio, com poucas fotos de família, alguns quadros e preenchido por uma sucessão infindável de fileiras ordenadas de livros dispostos em estantes de madeira escura. "É tudo compensado", explica Solon Luís Pereira, que acompanha Delfim e seus livros desde o período em que ele era ministro nos governos dos generais Costa e Silva, Emílio Garrastazu Médici e João Baptista Figueiredo.
Nos galpões aromatizados com uma essência de mamona - especialmente desenvolvida por Pereira para combater pragas - estão abrigadas as primeiras edições de "O Capital" (Karl Marx) e de "A Riqueza das Nações" (Adam Smith). São obras que integram uma coleção germânica de grandes clássicos. "Quando você pega 'A Riqueza das Nações', está consultando exatamente a primeira edição, só que é uma cópia feita por alemães, portanto, melhor que a original", brinca Delfim.
A biblioteca exibe algumas obsessões do colecionador: quase todas as 19 edições de "Introdução à Análise Econômica", de Paul Samuelson, e uma coleção definitiva da obra de John Stuart Mill. O economista é o único no Brasil de posse desse tesouro. Há também um farto e raro material de pensadores italianos escrito antes de clássicos de Smith, Mill, Thomas Malthus e David Ricardo. Nomes como Antonio Serra (século XVI) e G. Montanari (século XVII) se destacam. A coleção ("Collezione Custodi") de 50 volumes é desconhecida no Brasil, já que muitos imaginam "que a economia nasceu em Cambridge", comenta.
A mesa de trabalho do ex-ministro, em Cotia, que vai ser transferida para a USP.

Há ainda uma queda por enciclopédias. Duas edições de Diderot e D'Alembert - a primeira, de 1777, e uma edição crítica de John Lough e Jacques Proust, de 1976 -, além de quatro diferentes da "Britânica". Duas fazem os olhos de Delfim brilharem: a de 1909, com verbetes do economista Francis Ysidro Edgeworth, e a de 1929, com textos de Allyn Young. "A coleção de Delfim é impressionante menos pelas primeiras edições e mais pelas edições corretas", diz Eduardo Giannetti, professor do Insper e escritor com livre acesso à biblioteca. Ele mesmo se beneficiou de duas orientações bibliográficas de Delfim, que só existem em Cotia e mudaram o rumo de seu trabalho: "Statement of Some New Principles on the Subject of Political Economy" (John Rae) e "Les Consequences de la Hausse des Prix au Point de Vue National, Moral et Intellectuel" (C. Gide).
Leitor voraz, Delfim investe 7 horas por dia em leitura, uma vantagem de seus 84 anos, assegura. "Tenho prazer em pegar o livro, de olhá-lo, lê-lo. Talvez seja um desvio", observa. "Quase não leio livro inteiro, apenas um capítulo que me interessa mais, mas sempre dou uma olhada na diagonal no resto." Para ele, os livros são obras abertas e variam de acordo com o tempo. "Quando você lê o Adam Smith a primeira vez, é um Adam Smith. Quando você lê o Adam Smith mais velho, acha que tudo está no Adam Smith."
Muitos de seus exemplares são "vivos", com registros que evidenciam sua intimidade com os textos, marcados com observações nas margens, trazendo palavras e frases sublinhadas. Cerca de 50% dos títulos são em inglês, 30% em português e o restante em francês, italiano, espanhol e alemão.
"Não se constitui mais uma biblioteca como a do Delfim. Não é só a parte de seu investimento financeiro. É a obsessão dele, o método. Sou capaz de apostar que, em teoria econômica e filosofia, não há nada que se compare", afirma Giannetti.

Não queria ter uma biblioteca.
 Ela foi se acumulando.
O fetiche é pelo livro em si,
 que tem um sabor sensual

Uma das marcas dessa biblioteca é a constante atualização, com média de seis registros diários de novos títulos selecionados pessoalmente pelo próprio economista. E, uma vez escolhidos, a lealdade impera: os volumes passam a se hospedar em caráter permanente. "Ele não joga nada fora", confidencia Eduardo Frin, ex-aluno da FEA e administrador da biblioteca há 17 anos.
A atualização do acervo segue alguns princípios. Delfim lê avidamente bibliografias e citações de artigos, livros, teses e periódicos de sua área. As novidades são anotadas e invariavelmente repassadas para a fiel assistente, Beti Kogan, que corre atrás das referências. Tão logo o material chegue, o ex-ministro olha um a um antes de serem arquivados.
Cada exemplar transforma-se, assim, numa testemunha do empenho de seu colecionador, iluminando a sua personalidade. "A biblioteca sempre reflete a forma como o seu dono vê o mundo", diz. E suas escolhas estão a anos-luz do pugilato ideológico que domina o debate econômico desde sempre. Para alguns, é a melhor biblioteca de marxismo analítico no Brasil, com mais de dez mil exemplares. "Como colecionador, Delfim tem uma visão ampla, sem dogmas, sem preconceitos", diz Reinaldo Guerreiro, diretor da FEA.
O ex-ministro tem também uma veia de editor: reorganiza artigos de livros e "papers" em volumes, dando origem a novos padrões e combinações. No início, o material era fotografado. Depois veio o xerox, e a vida ficou mais fácil. Com a internet, nem se fala.
"Tenho prazer em pegar o livro, de olhá-lo, lê-lo. Talvez seja um desvio",
diz Delfim Netto.

O primeiro capítulo dessa história começou quando Delfim entrou para a Gessy Lever como office-boy, aos 14 anos. Na empresa, conheceu Ayrton Alves Aguiar, médico que o encaminhou por um enredo de admiração pela leitura e o orientou nos primeiros passos. Ambos conversavam sobre livros da coleção "Espírito Moderno", organizada por Monteiro Lobato e Godofredo Rangel. Logo se tornou cliente assíduo da Livraria Ornabi, um dos maiores sebos do Brasil até os anos 80. "Eu tinha uma conta lá. Tirava os livros e no fim do mês pagava um pouquinho."
Primeiro, os livros, acomodados num quarto na casa onde morava com mãe, eram mais de interesse geral e dialogavam com o conhecimento científico. Em 1951, os volumes já não cabiam em um cômodo. A entrada na faculdade mudara seu foco de interesse. Enquanto boa parte dos jovens se encantava pela lógica de Marx, Delfim era um fabiano, que buscava os ideais socialistas por meios graduais e reformistas. Em 1947, influenciado por "Teoria do Preço", de George Stigler, viu que os sonhos de fazer o monopólio dos bens de produção nas mãos do Estado, caro aos fabianos, "ia levar a uma porcaria, como levou".
A partir desse momento, sua biblioteca passou a ganhar os contornos atuais, mais dirigida para as ciências econômicas, área que responde por mais de 50% de todo o acervo. Temas coadjuvantes são matemática e ciências sociais, que representam cerca de 20%.
Delfim revela que há tempos não lê ficção. "Isso foi uma coisa que ocorreu no meu mundo até os 20 anos. De vez em quando acontece um negócio tão importante, como o Guimarães Rosa. Aí você é obrigado a ler, e não entender", diz. Seu favorito é Machado de Assis. A finura dos textos, a estrutura dos livros e sua visão de mundo ainda são "insuperáveis".
Apesar do foco, as lombadas expostas nas estantes revelam uma constelação de temas tão variados quanto história, literatura, biologia, geografia, artes, estatística, política, religião, antropologia... Um passeio pelos corredores relativamente estreitos permite o encontro com algumas surpresas, como "As Mil e uma Noites", cartas de d. Pedro I à marquesa de Santos, obras de Lewis Carroll, de Câmara Cascudo, originais de Olavo Bilac, livros de Shakespeare, Richard Dawkins, filosofia zoológica, São Tomás de Aquino, Plínio Salgado, coleções de grandes pintores. Apesar de não ser uma biblioteca universalista, em meio àquela infinidade de títulos se tem a impressão de que todas as coisas que não se conhece estão ali materializadas em letras.
Eduardo Frin, Dulcinéia Jacomini, diretora da biblioteca da FEA,
Guerreiro, Azzoni e Yokota, em reunião sobre
a transferência do acervo Delfim Netto para a USP.

Muitos daqueles livros foram adquiridos por meio de um trabalho de detetive. Depois de frequentar livrarias no Brasil, Delfim passou a explorar novas geografias: bisbilhotava sebos e antiquários no exterior. "A procura é melhor do que o achado", diz. "Hoje não tem a menor importância, porque tem a internet. Você está no mundo inteiro."
Na época em que trabalhou como ministro, o acesso aos livros de ponta era muito difícil, mas suas viagens internacionais eram comuns: o Brasil se preparava para lançar bônus no exterior e empréstimos externos estavam sendo negociados. Em todos os destinos, Delfim aproveitava pelo menos um dia para vasculhar as capitais atrás de boas publicações usadas ou novas. "A forma de descansar de Delfim era pesquisar esses sebos", diz Paulo Yokota, ex-professor da USP que há mais de 40 anos trabalha com o economista.
Alguns dos melhores sebos estão em Londres, que tem "coisas do arco da velha", e no bairro de Kanda, em Tóquio, garante Delfim. Na cidade, tornou-se um freguês. Giannetti atesta a veracidade de sua preferência. Quando esteve numa livraria no Japão, foi questionado pelo vendedor, assim que sua nacionalidade foi identificada: "Quem é esse brasileiro, Antônio Delfim Netto, que compra todos os livros que saem?"
Aqui no Brasil, o círculo de livreiros amigos de Delfim também era imenso. Disputou e adquiriu bibliotecas inteiras, o que faz até hoje. A média de cada livro usado está em torno de R$ 20,00. Em geral, quando são comprados cem volumes, a biblioteca sai por R$ 1.500, em três vezes. "Mas o valor da coleção é emocional", diz Delfim. Luís Arroba Martins (1920-1977), secretário da Fazenda do governador Abreu Sodré, foi durante anos um dos mais ferrenhos competidores por bibliotecas.
Recentemente, Delfim "salvou" um acervo de matemática "espetacular". "Um professor da USP morreu e a biblioteca dele teve o fim de todas as bibliotecas dos professores da USP que morrem", lamenta. "Essa paixão é muito mais generalizada do que parece. E o drama é este: morreu, o livro se torna um transtorno, a família associa ao sujeito. É até um processo psicológico."
As conversas sobre a doação da biblioteca e a manutenção de seu filtro de colecionador foram tema de negociações ao longo de anos com dois diretores da FEA, Carlos Roberto Azzoni e seu sucessor, Guerreiro. Instituições particulares haviam elaborado projetos para receber o acervo, mas sua relação com a USP determinou o destino. Ele foi aprovado no vestibular da universidade em 1948 e lá seguiu carreira até tornar-se professor emérito. "Estou devolvendo à USP um infinitésimo do que ela me deu."
Novo prédio da biblioteca da FEA: USP investiu R$ 7 milhões com recursos próprios e
espera captar mais R$ 7 milhões via lei Rouanet e
doações de pessoa física e empresas.

A USP já havia montado um projeto para abrigar a coleção Brasiliana, parte do acervo formado por José Mindlin e sua mulher, Guita, também doado à universidade. São cerca de 17 mil títulos nacionais e estrangeiros raros, em 40 mil volumes, com temática brasileira. "A natureza do Mindlin era diferente. Ele era um bibliófilo feliz e não há nenhuma comparação entre as coisas", despista Delfim.
Por ser um acervo que evoluiu a partir de uma perspectiva pessoal, a classificação do acervo de Delfim não obedece a critérios de biblioteconomia. Na nova configuração, todo o material vai ser separado da biblioteca pedagógica da FEA. Sua coleção deve ser mantida como "organismo vivo", atualizada por meio de fundo de doações, que permitirá custear as futuras aquisições, recomendadas por um conselho. Delfim, no entanto, continuará presente. Para tentar diminuir a síndrome do ninho vazio, uma sala foi projetada para trazer a mesa, a cadeira, as estantes e as máquinas de escrever de sua sala de trabalho em Cotia. "O Delfim não vai se separar dos livros, ele vai junto", diz um funcionário da FEA.
A USP investiu R$ 7 milhões na modernização e expansão da biblioteca - para 2.500 m 2 -, abrindo espaço para o acervo Delfim Netto mais os 170 mil itens da FEA. A transferência dos livros do ex-ministro - que exigirá caminhões e caminhões -, a aquisição de arquivos deslizantes e a força-tarefa de dois anos para a catalogação de todos os livros demandarão mais R$ 7 milhões, que devem ser captados via Lei Rouanet. A FEA já arrecadou R$ 170 mil com a doação de pessoas físicas. A meta é chegar a R$ 1 milhão. Quatro empresas também já apoiaram o projeto.
Mas, enquanto os livros de Delfim partem para novas paisagens, o economista envereda por um novo mundo: há quatro semanas, rendeu-se aos encantos do livro eletrônico. Ele atribui a decisão à insistência do amigo e jornalista Elio Gaspari e conta que passou um fim de semana do quentíssimo verão paulistano virando as páginas de seu Kindle para ler "The House that Uncle Sam Built", que explica como os formuladores de política econômica criaram a bolha do mercado imobiliário e a recessão de 2008.
Para surpresa de muitos, aprovou a novidade. Já está até de olho num livro animado de introdução à macroeconomia desenvolvido especialmente para iPad que será atualizado diariamente. "É uma experiência que está sendo feita. O que vai acontecer? Bem, é um mundo que está nascendo." Longe de ser apocalíptico e tampouco integrado, o economista defende a superioridade das obras impressas e aposta em sua durabilidade. "O livro não vai morrer", sentencia. "Acho que o conhecimento obtido no livro é de natureza diferente do conhecimento no iPad. Aquilo é coisa passageira. O livro é um negócio permanente. O outro está na nuvem, não tem importância."
É bom acreditar que em solo firme - longe das nuvens e de coberturas nos Jardins - uma vida toda dedicada aos livros encontrará caminhos para ser preservada. Como o filósofo Walter Benjamin, também um aficionado pelas letras, dizia: o colecionador sempre acredita que ele é quem preserva os livros, mas, na verdade, são os livros que preservam seu colecionador. "Não que os livros se tornem vivos nele", escreveu. "É ele quem vive nos livros."
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Por Robinson Borges De São Paulo
Fonte: Valor Econômico on line, 03/03/2012

Jornalismo calcinha

Juremir Machado da Silva*

Crédito: ARTE JOÃO LUIS XAVIER
É sabido que os franceses gostam de polêmica, de queijo podre e de conceitos sofisticados. Um sociólogo francês cria mais rótulos do que um publicitário. Os jornalistas não ficam atrás. Luc Le Vaillant, repórter do prestigioso jornal Libération, acaba de criar um conceito capital: "jornalismo fundo de calcinha". Ou, quem sabe, fundilho. Faz sentido. Descobre-se cada coisa. Busca-se o que cheira mal. Jornalismo não é contar sobre alguém o que esse alguém deseja que contem, mas o oposto. Há mais coisas entre o fundilho de uma calcinha e o céu dos poderosos do que pode imaginar um eleitor desavisado. A obrigação da mídia seria rastrear tudo o que acontece nesse universo secreto, erótico e, por vezes, trepidante.
Vaillant criou o seu conceito para atacar a posição do seu colega Jean Quatremer em defesa da transparência total. Esse Quatremer, pelo jeito, entende que tudo o que se esconde sob as calças de um homem público ou sob o vestido de uma mulher de poder deve ser revelado. Já se descobriu, por exemplo, que sob a calça de um político pode se esconder uma calcinha, assim como sob o vestido de um dama de alto poder político pode se abrigar uma cueca. Qual é o problema? Essa polêmica tem a ver com a recente nova prisão de DSK, ex-diretor-geral do FMI, acusado desta vez de participar de bacanais com prostitutas. Na primeira vez, nos Estados Unidos, a questão era estupro. Agora, sexo consentido, mas pago.
DSK - feito Ronaldo Fenômeno, que levou 4 horas num motel para perceber que estava com homens - declarou não saber que as moças cobravam pelos seus favores. É um rapaz inocente. Vaillant bateu com o peru na mesa: um político deve prestar contas sobre seus atos no governo ou sobre uma suspeita de enriquecimento ilícito, mas é seu direito espiar saunas, participar de surubas ou fazer xixi sentado sem que a população tenha de ser avisada ou consultada. Uau! O resto, segundo ele, é puritanismo no pior estilo norte-americano. Exceto, bem entendido, se o político fizer discurso moralista ou se eleger defendendo os valores sagrados da família e dos costumes?
Não. Vaillant acha que um político pode fumar maconha e ser contra a sua legalização, posicionar-se contra uniões legais de homossexuais e ser gay, adotar posturas individuais que contrariem escolhas políticas. Complexo esse Vaillant. Parece ter muito bom-senso até certo ponto e depois resvalar numa casca de banana. Mas o seu raciocínio está baseado na ideia de que cobrar perfeição moral de alguém é hipocrisia e de que coisas íntimas que não afetam o público devem permanecer íntimas. O caro jornalista prega o direito à contradição entre a esfera privada e a esfera pública. Define: jornalista nem é policial nem juiz. Muito menos um preceptor de moral. Deve deixar as calcinhas em paz. O jornalismo, sugere ele, virou uma brigada de costumes.
Boa polêmica. O Brasil não é diferente da França nessa área. Nossos jornalistas não costumam bisbilhotar o cesto de roupas sujas dos nossos poderosos. Será que o jornalismo fundilho de calcinha vai pegar entre nós?
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* Sociólogo. Prof. Universitário. Escritor. Tradutor. Cronista do Correio do Povo
Fonte: Correio do Povo on line, 02/03/2012

A teologia e o direito dos pobres - Milton Schwantes


Milton Schwantes
Faleceu no dia de ontem, 1° de março,
o biblista Milton Schwantes.  
Milton viveu os últimos anos de sua vida com
sérios problemas de saúde, dando
um testemunho de resistência e de alegria. Desde agosto de 2002,
depois de uma delicada cirurgia
para retirada de um tumor na hipófise, conviveu
com sobriedade com graves limites físicos.
 Os últimos dois meses passou hospitalizado.
Livro de Milton sobre Gn 1-11 (CEBI).
Milton Schwantes é teólogo e pastor da Igreja Evangélica
de Confissão Luterana no Brasil (IECLB).
Biblista, Schwantes é uma das principais
referências do método de leitura popular da Bíblia
 na América Latina e autor de diversos livros,
alguns traduzidos em espanhol, alemão e inglês.

Transcrevemos abaixo entrevista concedida ao IHU.

IHU On-Line - O senhor pode falar um pouco da sua trajetória de vida?
Milton Schwantes - Nasci em Tapera, no Rio Grande do Sul. Meus pais eram agricultores em Lagoa dos Três Cantos. Tinham uma pequena gleba de terra e plantavam de tudo. Lagoa dos Três Cantos era uma pequena vila em meio às colônias de pequenos agricultores, todos evangélicos. A rigor não existia Igreja Católica lá. Havia um ou outro católico no meio. Trabalhei um pouco na roça, como agricultor, quando pequeno, mas, como era o último da família, fui o que menos recebeu influência da roça diretamente. Saí da roça antes dos 10 anos. Minha mãe procurou emprego na cidade, pois meus irmãos já haviam ido estudar como era a orientação do meu pai.

IHU On-Line - E sua trajetória intelectual?
Milton Schwantes - Estudei no Pré-Teológico, em São Leopoldo, que era uma formação anterior à teologia. Aprendia-se grego e latim além das outras disciplinas do atual Ensino Médio. Depois fui estudar Teologia, formando-me em meados de 1970. A Igreja, que tem muito contato com a Europa, me encaminhou para um estudo de pós-graduação na Alemanha, em Heidelberg. Estudei de 1971 a 1974 e terminei o doutorado em Antigo Testamento, com um professor que foi muito especial, Hans Walter Wolff. Voltei em 1974 e assumi uma paróquia em Santa Catarina, numa cidadezinha chamada Cunha Porã. Era uma cidade também evangélica do tipo dessas colonizações que alocavam católicos e evangélicos em povoados diferentes. No caso, Cunha Porã fora inicialmente prevista para evangélicos. Aí havia uma igreja evangélica bem numerosa, algo como mil e duzentas famílias, mais do que cinco mil pessoas. Eu acompanhava várias comunidades, 26 no total. Foi um trabalho muito bonito. Fiquei lá até 1978. Depois trabalhei nove anos aqui no Morro do Espelho, em São Leopoldo, de 1978 a 1987, na Faculdade de Teologia, na formação de pastores e pastoras, isso até 1988, quando me transferi para São Paulo. Lá atuei como pastor na comunidade luterana de Guarulhos e fui e sou professor no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo. É o que faço até hoje.

IHU On-Line - A sua tese doutoral foi sobre "O direito dos pobres".
Milton Schwantes - Sim, o título em português será este, mas ainda não consegui publicar a tese no Brasil. Está em alemão, Das Recht der Armen, tendo sido publicada por uma editora de Frankfurt. A tese aborda o sentido social do conceito pobre. O que é sociologicamente o pobre e em que sentido ele tem direito? O que quer dizer, neste caso, direito? Direito, no caso da cultura semita, significa aquilo que corresponde a alguém que tem necessidade de obter coisas da sociedade. Este seria o significado político do termo hebraico que costumamos traduzir por direito. O pobre tem, pois, o direito também de receber comida e uma terra da sociedade. O direito é o de obter da sociedade o apoio na necessidade e na crise, em meio aos parentes e à comunidade. Igualmente quis saber quem são exatamente os pobres. O termo pobre é usado no Antigo Testamento e na Bíblia de modo diferente do que nós o usamos. Nós damos aos pobres o sentido de carentes. A Bíblia o entende como quem tem o direito de reivindicar os direitos sociais garantidos. Na tradição bíblica, um pobre não pede (não é pedinte), mas exige sua parcela da sociedade.

IHU On-Line - Como foi a sua descoberta da teologia da libertação?
Milton Schwantes - Quando estudei na Faculdade de Teologia, no que hoje é a Escola Superior de Teologia, ainda tínhamos muita aula em alemão. Na década de 1960, os professores vinham da Alemanha e não se entendiam muito bem com nossa língua, nem aprendiam muito português. A nós, alunos e alunas, cabia aprender alemão e inglês. A dependência da nossa teologia, até então, foi mais ou menos completa; as bibliotecas estavam cheias de livros em línguas estrangeiras. A teologia era importada, sua língua também. A nacionalização da teologia foi um dos temas muito importantes dos anos 1960. Sim, esse processo foi muito importante para a nossa geração. Não foram poucos os conflitos, em especial com professores que davam aulas em alemão. Tais insistências com o português não só eram um dos temas de nós, estudantes de teologia, a própria Igreja passava rapidamente ao português, porque as comunidades evangélicas se tornavam mais e mais urbanas, nos anos 1960 e 1970. Eram tempos de grande crise interna. A pobreza aumentava, principalmente na periferia dos centros urbanos. A Igreja corria o risco de perder o contato com o seu povo da periferia. Tivemos que reestruturar-nos. Uma igreja de imigrantes nas colônias e roças tornava-se urbana e periférica. Logo, o português tornava-se urgente dentro das comunidades e paróquias. E, simultaneamente, requeria-se, de nós, estudantes, uma teologia mais social, mais contextual. A teologia européia clássica e em língua estrangeira era percebida como deslocada, e como descolada de nossas comunidades eclesiais. Buscávamos naqueles dias por novas águas. A teologia da libertação foi vivida, por nós, como fonte de água fresca. Correspondia a um anseio que vivíamos, naqueles dias, no País, ocupado por militares desde 1964, e por teologias importadas em línguas estrangeiras. A teologia da revolução, formulada já nos anos 1950 e aprofundada nos anos 1960 por Richard Shaull[1], um teólogo norte-americano que atuou entre outros no seminário teológico presbiteriano de Campinas (SP), era muito lida entre nós, protestantes. Nos anos 1960, antes e durante o Concílio Vaticano II, o mundo protestante teve uma teologia que não se tornou muito conhecida pelos católicos. Nós a chamamos de "teologia da revolução" [2]. O conceito vinha deste teólogo e ético, Richard Shaull, professor em Campinas. Ele influenciou, com sua corrente inovadora, o movimento de jovens estudantes de teologia. Afinal, os acontecimentos revolucionários em Cuba, em 1959, punham na ordem do dia o tema da transformação social rápida na América Latina, seja para solucionar a grave crise de integração dos camponeses nas cidades, seja de distribuição de terra e renda. A "teologia da revolução" tematizava a participação cristã nestas transformações. No Brasil, o golpe de 1964[3] desmantelou mais e mais essa teologia, que representava os setores mais dinâmicos dos protestantes nos anos 1950 e 1960.

IHU On-Line - Como a "teologia da libertação" ajudou ou ajuda na interpretação da Bíblia?
Milton Schwantes - A "teologia da libertação" situa-se para mim na continuidade da "teologia da revolução". Encontrava-me em estudos doutorais em Heidelberg, quando Gustavo Gutiérrez[4] publicou sua obra. E, dizendo-o de modo abreviado, a magnífica obra da teologia da libertação inicialmente tende a apresentar uma dificuldade que já se podia observar na teologia da revolução: ambas enfocam principalmente os quadros da própria igreja, seus colaboradores mais diretos, bispos, padres, pastores, irmãs e irmãos de congregações. Inicialmente também a teologia da libertação é de quadros e não do povo. Sim, o livro de nosso querido Gustavo Gutiérrez é uma reflexão para os bispos e teólogos, e, a rigor, não tanto para o povo. Cita muitos autores europeus e franceses, situando-se ainda em parte, no âmbito da teologia "importada". A reflexão popular ainda não iniciou, de verdade e com força. A reflexão é antes sobre o povo, mas não popular. Assim, o livro da Teologia da libertação é tão espetacular quanto frágil. Penso que grande passo inovador e exemplar, culturalmente revolucionário é a segunda grande obra de Gustavo Gutiérrez: Teologia a partir dos pobres (1978). Essa reflexão completa a primeira e coloca a nova teologia em seu devido foco: os pobres como sujeitos teológicos. Este enfoque implica numa maravilhosa conversão: a igreja precisa ouvir os pobres, mulheres, crianças e homens, para poder teologizar. Sem escuta não há libertação. Na teologia da libertação, em seu sentido profundo, a Igreja é aprendiz do caminho dos empobrecidos. Estes, os últimos, são de verdade os primeiros. Entendo, pois, que nesta sua versão a partir de 1978, a teologia toda dá uma virada, encontra seu eixo, sua tarefa própria, a de ser seguidora de Jesus nos caminhos das manjedouras e das cruzes, das vidas sofridas e destruídas de nossos países. Quem tem vida são as "vidas secas". Dá-se uma virada radical e definitiva na vida teológica latino-americana. Passa a experimentar-se que os pobres são eixo de tudo. Antes a Igreja modernizada e mundanizada, a do aggionamento, era o eixo de tudo. Em 1978, Gustavo Gutiérrez alcançou formular a grande inovação que é o que de verdade impacta: não se trata de modernizar a Igreja, mas de retornar às manjedouras. Penso que estas luzes, que a teologia nos foi dizendo naqueles anos, continuam sendo nossas luzes. E o ciclo da teologia da libertação não está concluído, pois das luzes da manjedoura da pobreza de Belém e do crucificado emerge a profundeza da vida. O desafio permanece. E este está delineado em Teologia a partir dos pobres. Os cânticos nascidos deste desvendamento teológico, desta coragem de ver a verdade cristológica carregam nossa vida de fé. Dia a dia, Jesus nos arranca da morte para que, com alegria, vivamos com nosso próximo, pobre e destituído da vida em nossa América Latina. Nas terras latino-americanas, não se pode viver sem ser militante de uma fé centrada nos pobres.

IHU On-Line - Haveria uma crise da Igreja hoje?
Milton Schwantes - A crise se refere, a meu ver, à tarefa pastoral. Sem coração pelo social, a pastoral esfarela-se, esmigalha, despedaça-se. Movimento eclesial nenhum faz jus às terras brasileiras, se não tiver uma intuição social clara. Eis a crise das paróquias. Nelas, assim me parece, tende a esquecer-se de animar pessoas para a presença maciça nas periferias. Os pobres, aquele cinturão de empobrecidos que faz aumentar os cinturões ao redor das cidades, continua sendo prioridade. Nas periferias, não pode faltar mão-de-obra pastoral.

IHU On-Line - Quais as perspectivas do diálogo inter-religioso?
Milton Schwantes - Não me agrada muito o termo "diálogo inter-religioso", quando se pretende diferenciá-lo de ecumenismo. Ecumênico seriam as aproximações entre igrejas e tradições cristãs, enquanto "diálogo inter-religioso" seria a atividade ecumênica com não-cristãos. Pode-se acentuar tais diferenças por questões práticas, mas em seguida há que voltar a insistir em que em Deus todos e tudo se encontra. Aí não há departamentos. Logo, sou dos que têm criticado essa linguagem, em que o ecumênico reúne igrejas cristãs e em que o inter-religioso convoca pessoas religiosas de boa índole. Penso que o diálogo entre as igrejas sempre é uma forma do diálogo inter-religioso, não cria uma outra categoria. Prefiro designar também todo diálogo inter-religioso de ecumênico. Ambos têm a mesma qualidade. Afinal, no diálogo, seja ele ecumênico ou inter-religioso, queremos experimentar Deus, em sua compaixão com a humanidade e sua criação. Temos diversas experiências deste encontro com Deus, mas todas elas se complementam. O protestante e o católico se complementam ao buscarem o convívio ecumênico. Ambos se alteram! E ambos também encontram a si mesmos no outro. Ora, o encontro ecumênico com os muçulmanos nos permite dar novos passos de mutua admiração e alteração no que se chamaria de atividade inter-religiosa. Mas, por igual se poderá designar este encontro cristão-muçulmano de ecumênico, por ser da qualidade humana e teológica equiparável ao de atividades intracristãs. Não há aí uma grande diferença. No convívio, as distâncias criam novos espaços. A mãe-de-santo é tão profundamente dedicada ao encontro com Deus como nós o somos com o mesmo Deus, considerando que o Deus da Vida não existe em duas espécies, como Deus e não-Deus. Ele só subsiste como Deus "exodal", do qual estamos igualmente próximos e desesperadamente distantes. Outro dia escrevi um pequeno ensaio sobre este problema. Pensei-o com base em uma cena do metrô. Lá não tem setor ecumênico, ou setor inter-religioso. No metrô só há um lugar, simultaneamente excludente e coeso. Nele, o metrô nos torna um.

IHU On-Line - O senhor está num estado delicado de saúde. Como está enfrentando este momento, tendo uma história de vida cheia de fé?
Milton Schwantes - Para mim, está tudo bem. Dou risada. E muita. Fiquei com muitas seqüelas, com as quais agora vivo, mas não posso dizer que vida sob as condições de limites e restrições seja vida ruim. É vida boa, porque não canso de receber uma mãozinha, seja para atravessar uma rua ou entrar em um ônibus. Tenho experimentado muita graça. E descobri muitas pessoas que vivem com limites como os que experimento. Importa que os vivamos na alegria da fé em Jesus, na alegria da vida, doada por Deus.

IHU On-Line - O senhor completou 60 anos. Quais suas perspectivas profissionais e de vida?
Milton Schwantes - Andei limitando minha atuação. Ao menos, era este o meu desejo. Mas as tarefas continuam sendo muitas. Com grande alegria dou aulas. Convivo com alunos e alunas, e trato de mostrar que teologia é gratuidade, graça. Trabalho Universidade Metodista de São Paulo e gosto muito de dar aula. Tenho muitos orientandas e orientandos no mestrado e no doutorado. Vejo com grande felicidade que aumentam os sinais ecumênicos.

IHU On-Line - Na vida pessoal, há alguma coisa que o senhor queira fazer?
Milton Schwantes - Gostaria de ir a Israel, Palestina e Jordânia com meus alunos e minhas alunas. Mas, isso ainda não deu certo. Espero que o plano dê certo em 2007. Depois tenho muita alegria em viver com minha esposa. A Rosi é mesmo um encanto de pessoa. É bom demais conviver com ela. Graça gratuita! As meninas vão fazendo suas experiências na vida. De algumas aprendo; para outras prefiro preparar-me com bom humor. Afinal, cada qual precisa ter o direito de equivocar-se. Bater a cabeça é algo como um direito natural. De todo modo, somos uma bela comunidade, de muita risada.
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[1] Richard Shaull (1919-2002): teólogo presbiteriano norte-americano, levantou a questão sobre se a revolução teria um significado teológico. Escreveu Surpreendido pela graça - Memórias de um teólogo. Trad. Waldo César. Rio de Janeiro: Record, 2003. (Nota da IHU On-Line)
[2] Teologia da Revolução: título de um importante livro de José Comblin, de 1970. Comblin é teólogo católico belga, ensinou Teologia no Recife durante sete anos, sendo depois expulso do Brasil, em 1972. Hoje vive em João Pessoa, na Paraíba. Confira a entrevista que publicamos com ele, sob o título Uma radiografia da América Latina, na edição nº 176, de 17 de abril de 2006. (Nota da IHU On-Line)
[3] Golpe Militar: Movimento deflagrafo em 1º de abril de 1964. Os militares brasileiros, apoiados pela pressão internacional anticomunista liderada e financiada pelos EUA, desencadearam a Operação Brother Sam, que garantiu a execução do Golpe, que destituiu do poder o presidente João Goulart, o Jango. Em seu lugar os militares assumem o poder. Sobre a ditadura de 1964 e o regime militar o IHU publicou o 4º número dos Cadernos IHU em Formação, intitulado Ditadura 1964. A memória do regime militar. Confira, também, as edições nº 96 da IHU On-Line, intitulada O regime militar: a economia, a igreja, a imprensa e o imaginário, de 12 de abril de 2004, e nº 95, de 5 de abril de 2005, 1964 - 2004: hora de passar o Brasil a limpo. (Nota da IHU On-Line)
[4] Gustavo Gutiérrez (1928): padre e teólogo peruano, um dos pais da Teologia da Libertação. Gutiérrez publicou, depois de sua participação na Conferência Episcopal de Medellín de 1968, a Teologia da Libertação. Petrópolis: Vozes, 1975, traduzida para mais de uma dezena de idiomas, e que o converteu num teólogo polêmico. Uma década mais tarde participou da Conferência Episcopal de Puebla (México, 1978), que selou seu compromisso com os desfavorecidos e serviu de motor de mudança na Igreja, especialmente latino-americana. Alguns dos últimos livros de Gustavo Gutiérrez são: Em busca dos pobres de Jesus Cristo. O pensamento de Bartolomeu de Las Casas. (São Paulo: Paulus, 1992); e Onde dormirão os pobres? São Paulo: Paulus, 2003. (Nota da IHU On-Line)
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Do BLOG: Fui aluno do Milton, quando estudante da PUC/RS de Teologia. Ele fazia encontros em sua casa em SLeopoldo. De uma humanidade tocante. Sábio de linguagem suave e terna. De atenção com tudo e com todos. Lia os textos bíblicos com profundidade e ouvia o que falávamos com o mesmo interesse. Perdemos um santo, porque de tão humano, só poderia ser santo.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Fé na medicina

Contardo Calligaris*
Quem diz se uma mulher apresenta ou não "condições psicológicas de arcar com a maternidade"?
A comissão do Senado Federal que projeta a reforma do Código Penal apresentou publicamente sua proposta (reportagem de Flávio Ferreira na Folha de sábado). O capítulo dos crimes contra a vida trata de eutanásia e aborto (resumo das mudanças: http://migre.me/845Dp).
Sem entrar na complexidade moral das questões, o que me impressiona, na primeira leitura, é a facilidade com a qual a medicina é (sempre) chamada a regulamentar nossa vida.
A liberdade é uma conquista, mas é também um fardo. Para aliviá-lo, faz 200 anos que inventamos um truque, graças ao qual, nos dilemas morais, 1) conseguimos afirmar que estamos decidindo sem obedecer a ninguém (nem a textos sagrados, nem a autoridades morais e religiosas) e, ao mesmo tempo, 2) evitamos o exercício (aflitivo) de nosso foro íntimo. Qual é o truque? Como Michel Foucault cansou de repetir, o truque consiste em deixar as decisões para ciências e disciplinas que administram nossa vida em prol de nossa saúde (e, portanto, para o nosso bem, não é?).
Por exemplo, na reforma proposta, o aborto não seria crime: "Por vontade da gestante até a 12ª semana da gestação, quando o médico constatar que a mulher não apresenta condições psicológicas de arcar com a maternidade".
Só para começar, o requisito de que seja respeitada a vontade da gestante é uma ideia simpática, mas, infelizmente, problemática.
Há gestantes que suplicam para serem liberadas da gestação, cujas sensações lhes são intoleráveis. Algumas conseguem abortar, mas se culpam e entenebrecem até o fim da vida. Outras levam a gravidez a termo no desespero e no ódio ao feto que carregam como se fosse "Alien, o Oitavo Passageiro". Muitas dessas, no fim, choram de alegria e agradecem que ninguém as tenha escutado quando pediam para abortar.
Inversamente, uma mulher raramente pede para abortar no caso mais certeiro em que ela não teria "condições psicológicas" de ser mãe.
Lembro-me de uma mulher encontrada na banheira de sua casa, cantarolando e brincando com sua bebê morta afogada. Não é muito raro: entre uma e duas mulheres em cada mil partos passam por uma psicose puerperal -ou seja, uma psicose transitória desencadeada pelo parto. Entre elas, há mulheres que, recuperadas, tentam com sucesso outra gravidez. Quanto à mulher encontrada na banheira com seu brinquedo inerte, dois anos antes, ela tinha tido outro bebê, que morrera (misteriosamente) de "morte súbita", no berço.
Quando ela deixou o hospital (livre, pois na hora do infanticídio ela era incapaz de entender e querer), tentamos dissuadi-la de uma nova gravidez. Voltou meses depois, toda feliz, para mostrar à equipe que estava grávida de novo.
Os que viram aquela mulher brincando na banheira pensavam que deveríamos impor um aborto sem o consentimento da gestante. Os que não a viram pensaram que, no fundo, não havia como excluir completamente que a nova gravidez fosse o prelúdio de uma maternidade feliz. Hoje, não sei de que lado eu me situaria.
Naquele caso, os favoráveis ao aborto por falta de "condições psicológicas" podiam invocar os antecedentes e talvez prevalecessem num debate. Mas, na ausência de antecedentes, quem poderia mesmo constatar que uma mulher "não apresenta condições psicológicas de arcar com a maternidade"?
Em tese, o psiquiatra e, mais ainda, o psicólogo (porque, numa avaliação prognóstica, é útil recorrer a testes projetivos e de inteligência emocional e cognitiva). Mas não vai ter briga: psiquiatras e psicólogos só lutarão por essa duvidosa prerrogativa se eles precisarem muito pagar as contas do fim do mês.
Obviamente, "o médico" (genérico), sugerido pelo texto da proposta, não teria treino algum para avaliar psicologicamente as gestantes.
Mas se entende que, no texto da proposta, "o médico" não é mencionado por sua suposta competência; ele é invocado como a entidade para a qual delegamos nossa incômoda liberdade moral. Algo assim: não sabemos se, quando e como o aborto deveria ser criminalizado ou não, mas chamem o médico, e que ele decida, na base de suas avaliações "científicas".
Ou seja, não vamos discutir, entre nós ou dentro de nós, sobre o que é certo e o que é errado; é muito mais fácil remeter nossa vida nas mãos de quem nos diz o que é "saudável" ou não.

PS: Para uma reflexão complementar, veja-se este post no blog de um psiquiatra, Leandro Gavinier (http://migre.me/846qf).
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*Psicanalista italiano radicado no Brasil. Escritor. É colunista da Folha de S. Paulo. ccalligari@uol.com.br
@ccalligaris
Fonte: Folha on line, 01/03/2012
Imagem da Internet

Para FHC, disputa em SP ‘revitaliza’ Serra e não o tira do páreo presidencial


Jonne Roriz/AE - 30/06/2011
FHC afirma que política é dinâmica e Serra não está fora do páreo presidencial em 2014

Ex-presidente acha correta decisão do tucano
de candidatar-se à Prefeitura de São Paulo
e afirma acreditar que opção ‘não significa
que ele não possa ser outra
coisa’ no futuro
A candidatura de José Serra à Prefeitura de São Paulo permitirá a ele "voltar à cena política com força" e foi a decisão mais adequada para o ex-governador e para o PSDB, afirmou na segunda-feira, 27, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em entrevista exclusiva ao Estado. "Dá a chance para o partido ganhar e dá a ele uma revitalização política", analisou o ex-presidente.
Segundo FHC, a eleição para prefeito não significa que o ex-governador abandona o projeto de disputar a Presidência no futuro. "Política é uma coisa muito dinâmica. Tem sempre a cláusula de prudência. Política não é uma coisa em que os horizontes se fecham", disse, ao comentar sobre a possibilidade de o tucano, mais uma vez, deixar um cargo para se candidatar a outro, como aconteceu quando era prefeito e governador de São Paulo.
O ex-presidente falou com o Estado em Nova York, onde lidera uma comitiva de 12 CEOs de empresas brasileiras ligadas à Comunitas, entidade criada por Ruth Cardoso para incentivar o investimento social corporativo.

O anúncio da candidatura de José Serra à Prefeitura não esvazia as prévias do PSDB?
Não estou no Brasil e não acompanhei de perto esta evolução. Quem está coordenando é o governador Geraldo Alckmin. Agora, o peso eleitoral do Serra é de tal magnitude que eu acho que o partido vai se ajustar à realidade política.

Mas não faltam caras novas no PSDB? Afinal, há anos Serra e o Alckmin se revezam em candidaturas em São Paulo. O PT tenta essa renovação agora com Fernando Haddad.
As prévias foram uma tentativa nesta direção. Mas quando você tem alguém com a densidade política do Serra, que se disponha a ser candidato a prefeito, do ponto de vista do PSDB há uma importância estratégica porque existe realmente viabilidade de ganhar São Paulo.

O sr. mencionou que o senador Aécio Neves (MG) é o candidato óbvio do PSDB para 2014.
Foi uma pergunta feita pela revista The Economist: quem é o candidato óbvio? Eu respondi que o Serra vai sair candidato, não vai desistir. E eles perguntaram quem seria o outro. É o Aécio. É uma coisa que todo o mundo sabe. São os dois que estão despontando com mais força.

Mas com o Serra se candidatando a prefeito...
Abre espaço para uma outra candidatura para presidente. Agora, sempre tem que colocar aquela cláusula de prudência. A política é muito dinâmica. O Serra pode ganhar ou pode perder. Nos dois casos, o fato de ele ser candidato agora reforça a presença dele como um líder. Todo líder político, enquanto quiser se manter ativo na política, tem de ter a expectativa de poder. Tem que ser candidato. Eu, por exemplo, quando deixei a Presidência, disse que não seria mais candidato a nada e não fui. Disse que estava saindo de cena. No começo, as pessoas não acreditaram. Como não sou ingênuo, ao tomar esta decisão, estava mesmo saindo de cena. Para quem não tomou esta decisão ainda, a melhor coisa a fazer é se candidatar. Você pode se candidatar em vários níveis. O Serra, ao tomar a decisão de se candidatar (para a Prefeitura), volta à cena política com força. Onde ele é necessitado neste momento? Onde o partido o vê com bons olhos neste momento? É aí (na Prefeitura). Isso significa que amanhã ele não pode ser outra coisa? Não.

Mas não pega mal para o Serra, que já foi prefeito uma vez e saiu para se candidatar (o tucano deixou a Prefeitura em 2006, para disputar a Presidência, e o governo do Estado, em 2010, para mais uma vez entrar na disputa presidencial)?
Ele vai tomar as precauções devidas porque ele tem de ganhar a eleição. Provavelmente ele vai reafirmar a disposição dele (de permanecer na Prefeitura). Mas não vi, não falei com ele. Política não é uma coisa em que o horizonte se fecha. De repente, o que estava fechado se abre. Acho que a decisão do Serra foi a mais adequada neste momento para ele e para o partido. Dá a chance para o partido ganhar e dá a ele uma revitalização política.

Mas para a Presidência, o Serra e o Aécio continuam sendo os dois nomes fortes do PSDB?

Eu acho que sim.
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Reportagem por Gustavo Chacra, correspondente de O Estado de S.Paulo
Fonte: Estadão on line, 27/02/2012

Responsabilização

Verissimo*

O Christopher Hitchens disse certa vez que se fizera uma promessa: não leria mais nada escrito pelo Henry Kissinger até que fossem publicadas suas cartas da prisão. O Hitchens já morreu, o Kissinger continua escrevendo (seu último livro é sobre a China) e são poucas as probabilidades de que venha a ser julgado, o que dirá preso, pelo que aprontou - no Chile e no Vietnã, por exemplo. Sua posteridade como estrategista geopolítico e conselheiro de presidentes está assegurada, ele morrerá sem ser responsabilizado por nada e não serão seus inimigos que escreverão seu epitáfio.
O juiz espanhol Garzón, aquele que mandou prender o Pinochet, estava mexendo com o passado franquista da Espanha, também atrás de responsabilização, e bateu de frente com a reação. Recorreram a um tecnicismo de legalidade duvidosa para barrá-lo. Lá também se invoca uma Lei da Anistia para impedir uma investigação dos crimes da ditadura. Anistia não anula responsabilização. A partir do tribunal de Nuremberg que julgou a cúpula nazista no fim da Segunda Guerra Mundial, passando pelos julgamentos de tiranos em cortes internacionais desde então, o objetivo buscado é a responsabilização, que não tem nada a ver com retribuição, vingança ou mesmo justiça. Até hoje se discute a legalidade formal, de um ponto de vista estritamente jurídico, dos processos em Nuremberg, mas era impensável, diante da enormidade do que tinha acontecido, e sob o impacto das primeiras imagens dos corpos empilhados nos campos de concentração nazistas recém-liberados, que eles não se realizassem. Alguma forma de responsabilização era uma necessidade histórica. Com alguma grandiloquência se poderia dizer que a consciência humana a exigia.
A tal Comissão da Verdade que se pretende no Brasil responderia à mesma exigência histórica, além da necessidade de completar a história individual de tantos cujo destino ainda é desconhecido. A julgar pela rapidez com que, aos primeiros protestos de evangélicos e bispos católicos, o Gilberto Carvalho correu para lhes dizer que a posição do governo em relação ao aborto continuaria retrógrada como a deles, pode-se duvidar da disposição do governo para enfrentar a reação que virá, como na Espanha do Garzón, ao exame do nosso passado e a responsabilização dos seus desmandos. Vamos torcer para que, neste caso, a espinha do governo seja mais firme.
Pois sem responsabilização as histórias ficam sem fim, soltas no espaço como fiapos elétricos, e o passado nunca vai embora.
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* Escritor. Cronista.
Fonte: Estadão on line, 01/03/2012
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''Resiliência'': uma palavra no poder

Stefano Bartezzaghi*
A resiliência é uma resistência mais específica,
mais aculturada: uma resistência
 com mestrado.

Mesmo que você não saiba o que significa "resiliente", espere sê-lo. Adquira resiliência. Sempre pode lhe servir, ou, melhor, vai lhe servir, sem dúvida. Pegue um dicionário. Quanto mais recente for o dicionário, mais extenso será o verbete "resiliência". Os dicionários de alguns anos atrás se limitavam à acepção técnica: a capacidade de um material de resistir a deformações e choques sem se romper. Mas, dado que a palavra está se tornando de moda em diversos campos, acrescentam-se acepções sobre acepções.
Há a resiliência têxtil, a capacidade dos tecidos de retomar a sua forma original, no iron, nem ironias. Há a resiliência psicológica, a capacidade de absorver traumas e de enfrentar adversidades. Há a resiliência ecológica, que se refere às espécies e ao seu modo de enfrentar as catástrofes ambientais. Há a resiliência informática, a geriátrica e até uma resiliência que concerne à produção de dentaduras. Mas tudo o que tem a ver com esse conceito, aparentemente tão técnico e na moda, parece ser, no fundo, no fundo, melancólico e velho.
Talvez, seja preciso desconfiar de termos abstratos que não tem um verbo por trás: a resistência é a ação de quem resiste, a residência é a condição de quem reside, mas e a resiliência? Quem de vocês simplesmente já começou a resiliar? Julgando a partir do fim das liberalizações, os lobbies têm uma grande resiliência: depois de cada golpe (decreto ou listagens) voltam ao seu estado original com grande velocidade.
Além disso, pode ser que o resiliente tenha no seu nome ecos do rei exilado, coisas de Shakespeare e do Rei Lear, mas o fato é que ele parece ser como um dote um pouco defensivo demais, em termos futebolísticos, um pouco "retranqueiro" demais.
É verdade que a resiliência é uma resistência mais específica, mais aculturada: uma resistência com mestrado. Mas não faça a piada "Agora e sempre, resiliência". Ela definitivamente incendiou um congresso em Bolonha, convocado justamente com esse título alguns dias. Desta vez, quem deveria ser resiliente é a escola pública. Esperamos que ao menos faça alguns gols no contra-ataque.
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*Jornalista e escritor italiano Stefano Bartezzaghi, professor de Semiótica do Enigma da Libera Università di Lingue e Comunicazione de Milão (IULM),
em artigo publicado no jornal La Repubblica, 29-02-2012.
A tradução é de Moisés Sbardelotto
Fonte: IHU on line, 01/03/2012
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O menino e a bola

Ruy Carlos Ostermann*
Foi o tio que espichou a rede, deu a volta por cima e fez descer para trás num chumaço de corda e laços. As duas traves tinham sido cerradas de manhã, um metro e meio cada uma, o travessão foi posto por cima encaixado na espera. Madeira boa formava uma goleira digna, ajeitada, do tamanho que se podia colocar no pátio acanhado da casa.
A pequena área foi marcada com um tubo de cal, a grande área era de se presumir que fosse bem mais adiante, bem perto de onde terminava o campo de jogo. Seria apenas para isso, para chutar numa goleira pequena, mas o rebuliço pela cozinha e pela sala indicava uma conquista festejada pelo tio e pelo menino.
Estava fardado de alto a baixo: camiseta com distintivo do colégio, número 10 às costas, manga curta, gola redonda, calção comprido sem bolsos – e por baixo, a primeira sunga de homem, cerimônia discreta no quarto antes de sair – meias pretas de lã, chuteiras amarelas, fechadas por cima com cadarço curto, travas de borracha.
Estava quase pronto, faltava a bola, que veio debaixo do braço do tio, colorida, número cinco, quase toda amarela e branca. A marca do pênalti ficava a um passo, o tio foi ser goleiro, não haviam mais testemunhas.
Fez-se silêncio, tio e sobrinho estavam imobilizados, olhando a bola, sentindo a respiração. E então anunciou-se o primeiro chute daquele refúgio.
– Vamos lá! – gritou o tio e abriu os braços agachando-se um pouco.
O menino continuava imóvel. Então deu dois passos para trás. Olhou melhor a bola e o tio logo à frente dela, avançou os dois passos, levantou o pé direito, e deu um grito:
– Neymar!
Chutou com a parte externa do pé, a bola começou a girar, era suave e fazia uma curva até bater na trave e parar. O tio estava estendido no chão, feliz, foi abraçar o sobrinho que também sorria. E assim ficaram um bom tempo, abraçados, a bola imóvel longe deles.
Trata-se da cultura do futebol.
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* Escritor. Cronista.
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