sexta-feira, 3 de agosto de 2012

A nossa busca da felicidade

 Samuel Brittan*
A busca da felicidade tem uma tradição venerável na economia política britânica. Jeremy Bentham, fundador do utilitarismo no século XVIII, a definiu assim: "Por princípio da utilidade entende-se aquele princípio que aprova ou desaprova toda ação, seja qual for, de acordo com a tendência que ela parece ter a aumentar ou diminuir a felicidade da parte cujo interesse está em questão [...] se essa parte é a comunidade em geral, então se trata da felicidade da comunidade; se é um indivíduo em particular, então se trata da felicidade desse indivíduo [...] O interesse da comunidade, então, o que é? É a soma do interesse dos vários membros que a compõe."
O princípio não é tão óbvio quanto pode parecer. Na época de Bentham, era contestado por muitos princípios rivais; por exemplo, julgar ações por sua contribuição à glória da França ou ao avanço do Estado prussiano. Mais perto de suas fronteiras, era contestado pelo eudemonismo aristotélico, que celebrava a felicidade apenas se contribuísse para a ideia filosófica de uma boa vida.
Enquanto isso, os seguidores de Jeremy Bentham se preocupavam em saber como mensurar a felicidade. Acabaram interpretando-a como a oportunidade de satisfazer os desejos revelados pelas escolhas das pessoas nos mercados ou eleições. Isso não satisfez as mentes mais sábias; mas pelo menos atribuiu um alto valor à escolha individual e não buscou intrometer-se na alma dos homens.

O governo poderia contribuir melhor ao concentrar-se em suas responsabilidades de ordem pública, segurança nacional, de criar condições para a prosperidade e de corrigir as grandes disparidades de renda e riqueza. Temos um longo caminho a percorrer.

Os críticos do utilitarismo o viam como algo que tornava o Produto Interno Bruto (PIB) um fetiche. Isso, contudo, era besteira. Economistas sabiam há muito tempo que havia muitos componentes do princípio da utilidade que não eram levados em conta integralmente nas medidas do PIB per capita. Exclui o lazer, o valor do trabalho realizado em casa e os benefícios ou danos ao ambiente. Alguns tentaram construir índices mais abrangentes sobre o desenvolvimento humano, que também incluíssem assuntos como o conhecimento, acesso a água potável e expectativa de vida. Sempre tive a opinião de que é melhor considerar esses assuntos de forma separada, em vez de combinada em um indicador geral, que inevitavelmente vai refletir os valores pessoais daqueles que o elaboraram.
Uma contestação mais direta a todas essas formas de pensar, no entanto, foi lançada por um nova onda de cientistas sociais, que dizem poder medir a felicidade diretamente e basear as políticas públicas nessas descobertas. O principal método de investigação para essa área de pesquisas é o questionário. Pede-se às pessoas para classificar sua felicidade, satisfação com a vida e assim por diante. David Cameron, nunca superado no que se refere a artifícios de propaganda, pediu à Agência Nacional de Estatísticas do Reino Unido para pesquisar o assunto e os primeiros resultados estão agora disponíveis.
Com a típica cautela britânica, os estatísticos oficiais evitaram a palavra "felicidade" e perguntaram sobre "satisfação na vida". As respostas são transformadas em uma escala que vai de um a dez e apresentadas como um complemento, não um substituto, aos indicadores econômicos convencionais. Os resultados, é preciso dizer, não são muito impressionantes.
As notas médias para quase todos os grupos giram por volta dos sete pontos e pouco. Entre as principais exceções com taxas abaixo disso, lamentavelmente, estão os "negros, africanos, caribenhos e negros britânicos". Pessoas divorciadas e separadas também mostram nota abaixo de sete. A ocupação faz pouca diferença. "Gerentes e diretores" parecem estar ligeiramente mais satisfeitos com a vida do que aqueles em "ocupações elementares". Tampouco há grandes diferenças regionais - embora, se é que ajuda a entender algo, os maiores índices venham da Irlanda do Norte.
Tudo isso é bastante inofensivo; e, se os estatísticos oficiais continuarem com suas pesquisas, podem encontrar algo mais interessante. É o que pode estar no fim da estrada que é mais preocupante. Aldous Huxley soou o alarme em seu romance "Admirável Mundo Novo", de 1932. As pessoas são criadas em incubadoras seletivas para serem alfas, betas, gamas, deltas e ípsilons e ficar satisfeitas com seu destino. Ao menor sinal de diminuição da felicidade, elas recebem uma droga, "soma", para voltar ao normal.
Se analisarmos a questão de um ponto de vista laico, em vez de religioso, o que há realmente de errado com o "Admirável Mundo Novo" de Huxley? É que não existe tal coisa como a soma. Pelo que é de meu conhecimento, ainda não há uma droga da felicidade que não tenha efeitos colaterais.
Vamos supor que houvesse. John Stuart Mill, celebremente, disse que é melhor ser um Sócrates infeliz do que um porco feliz. Eu sempre tive uma simpatia oculta pelo porco. Talvez afortunadamente, no entanto, não temos essa escolha.
Sem dúvida, deixemos a Agência Nacional de Estatísticas levar adiante seus estudos sobre atitudes. Mas, no fim das contas, o governo poderia contribuir melhor para a felicidade seguindo o caminho indireto de concentrar-se em suas responsabilidades de ordem pública, segurança nacional, de criar condições para a prosperidade e de corrigir as grandes disparidades de renda e riqueza. Ainda temos um longo caminho a percorrer.
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* Samuel Brittan é comentarista econômico do FT. É vencedor dos prêmios George Orwell, Senior Harold Wincott e Ludwig Erhard.
Fonte: http://www.valor.com.br/opiniao/2775040/nossa-busca-da-felicidade#ixzz22UA9LutN

A memória de um silêncio

Eric Nepomuceno*

Dida Sampaio/Agência Estado / Dida Sampaio/Agência Estado 
O major Curió, que participou da repressão durante a ditadura, e seu arquivo da guerrilha do Araguaia, em 2009: beneficiário da Lei da Anistia, ele figura em dois livros recentes
Ao longo dos últimos meses apareceram novos livros que tratam de diferentes aspectos da repressão nos anos do regime militar. Pode-se ter a impressão de que a questão do resgate da memória ganha espaço na produção editorial brasileira. Agora mesmo chama a atenção o lançamento dos livros do repórter Leonencio Nossa, "Mata! O Major Curió e as Guerrilhas no Araguaia", e "Memórias de Uma Guerra Suja", que reúne entre os autores dois jornalistas, Marcelo Netto e Rogério Medeiros, e um antigo agente da repressão em seu período mais duro, Claudio Guerra.
Mas a verdade é que, passadas várias décadas do fim do regime militar e da censura, o Brasil dedicou espaço apenas relativo ao resgate da memória de seus tempos de breu. Uma comparação superficial com vizinhos que também padeceram as agruras de regimes militares fortalece essa sensação de escassez. Pode-se dizer, e com razão, que o Brasil não enfrentou nada parecido ao que aconteceu na Argentina, com seus 30 mil mortos e desaparecidos, com seu roubo sistemático de bebês nascidos em cativeiros clandestinos, com seus "voos da morte", quando prisioneiros eram jogados vivos de aviões no mar. Em compensação, o Brasil viveu debaixo de ditadura longos 21 anos. Até mesmo o Uruguai, um país cuja população inteira cabe várias vezes em cidades como São Paulo ou Rio, produziu, proporcionalmente, mais livros tratando do passado que o Brasil. É como se o tema da memória, da busca do acontecido, estivesse fora da esfera de interesse tanto de leitores como de autores.
Após um primeiro momento, ainda nos anos 1980, com a sequência de livros de René Dreifuss, Fernando Gabeira, Alfredo Sirkis, Jacob Gorender e um punhado mais, conta-se nos dedos o que veio depois. Em sua maioria são livros jornalísticos, uns com mais, outros com menos rigor em sua investigação e pesquisa.
Mas, a não ser por escassas exceções, e de imediato recordo três livros - "Memórias do Esquecimento", de Flávio Tavares, e "Uma Tempestade como a Sua Memória", de Martha Vianna, ambos editados pela Record, e o demolidor "K.", de Bernardo Kucinsky, da Expressão Popular -, se houve bons trabalhos jornalísticos ficaram faltando textos de qualidade literária.
Tome-se, uma vez mais, a produção uruguaia, chilena ou argentina sobre seus respectivos anos de chumbo, e há textos esplendorosos. No Brasil, fora os mencionados e pouquíssimos outros, os autores ficaram devendo.
É nesse cenário de escassez que aparece o belo "Antes do Passado", de Liniane Haag Brum, lançado pela pequena Arquipélago Editorial. O livro conta a busca inglória de um fim inalcançável: reconstruir a figura de seu tio e padrinho, Cilon Cunha Brum, um dos que foram desaparecidos, ou seja, assassinados, durante a campanha das Forças Armadas contra os que participaram da guerrilha que o Partido Comunista do Brasil tentou implantar na região do Araguaia, no começo dos anos 1970.

Mercado editorial da Argentina, 
do Chile e até do Uruguai contam com 
extensa produção de obras sobre 
seus anos de chumbo

Logo na abertura do livro surge o tom de busca, uma busca vã, que vai percorrer todas as suas páginas: "Tio Cilon me acompanhou sempre. Pena que quando eu nasci ele desapareceu".
Liniane conseguiu, em 260 páginas, erguer uma estrutura fragmentada, de equilíbrio tão ousado e incerto como a sua procura do tio que nunca conheceu, e armar um texto de pungente singeleza. Velhos recursos de estilo que são de um risco enorme - cartas ficcionais a um determinado personagem, no caso sua avó paterna morta anos antes - são conduzidos com uma habilidade surpreendente, ainda mais por se tratar de uma estreante.
O livro narra uma busca, a de um guerrilheiro que foi assassinado estando preso. Se a morte é sabida, se até a data da morte é sabida, qual é a busca? A verdade. Liniane quer saber onde foi enterrado, onde estão os restos de seus restos. Quer saber quem matou. Quem mandou matar, já se sabe: o mesmo major Curió que vive ao abrigo da impunidade assegurada pela Lei de Anistia imposta no crepúsculo do regime militar.
A autora quer saber isso e muito mais, e é desse mais que nasce a força do livro. Ela quer reconstruir a imagem diáfana do irmão de seu pai. Recuperar o som da voz, os gestos e jeitos, as palavras. Recuperar o que ela nunca viu, encontrar o homem que nunca conheceu.
Ao longo da narrativa, Liniane faz exatamente isso: narrar o pouco que conseguiu colher. Não interfere, não julga, não determina: apenas narra. E assim fala de um vazio que não está apenas na sua memória, mas na memória de um tempo, de um país. Ela reconstrói a vida do tio até o dia em que ele abandona tudo e vai se juntar à guerrilha no Araguaia.
A partir daí, o que restou dele são fiapos de lembranças esparsas, réstias de uma claridade tênue que não permite avistar mais que vultos difusos. Com uma estrutura refinada, de uma simplicidade impactante, como se fosse uma narrativa de ficção, o livro conta verdades dolorosas e a história de uma derrota, a da autora: depois de tudo, não é muito o que ela tem para revelar à avó morta.
O personagem do livro existiu. Foi fuzilado na mata, na época do Natal de 1973. No pequeno cemitério de São Sepé, cidadezinha do interior do Rio Grande do Sul, há uma tumba vazia. Na tumba, uma placa: "Esta sepultura aguarda o corpo de Cilon Cunha Brum".
Depois de fuzilado, Cilon foi abandonado na intempérie. Numa das cartas fictícias escritas para a avó, Liniane conta: "O seu filho Cilon não foi enterrado. Foi semeado. Deixado em cima da terra como grão que um dia vai germinar".
Que pelo menos a memória desses tempos de breu germine, para que ele, o breu, nunca mais torne a acontecer.
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*Eric Nepomuceno é escritor e tradutor, autor de "Coisas do Mundo" (Companhia das Letras), "O Massacre" (Planeta) e "Antologia Pessoal" (Record).
Fonte: Valor Econômico on line, 02/08/2012

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

''O modelo masculino está em crise''

Entrevista com Alain Touraine 

"As mulheres estão se tornando o motor de uma mudança política, porque podem imaginar um outro modelo social depois que o masculino, que já tem séculos de idade, entrou em crise". Alain Touraine está convencido de que os casos, pequenos ou grandes, de liderança feminina nas contestações estão destinados a se multiplicar. "Há casos marginais e outros mais centrais, mas também observamos a aparição de novas vozes na cena pública", diz o sociólogo francês que publicou há alguns anos O mundo das mulheres (Vozes, 2006).

A reportagem é de Anais Ginori, publicada no jornal La Repubblica, 30-07-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Mulheres também lideram os protestos?


Entretanto, é preciso enfatizar que não é um fenômeno completamente novo. Uma das revoltas francesas mais famosas foi liderada por Joana d'Arc. No passado, já existiram muitas personagens femininas de ruptura e de desafio ao poder existente. Portanto, prestemos atenção para não cair em preconceitos ou estereótipos fáceis.

No entanto, o senhor prevê um novo protagonismo.

Estamos em uma fase histórica propícia às mulheres. Nos movimentos estudantis, por exemplo, no Irã como no Chile, as jovens estão na vanguarda porque já são maioria nas universidades. As mulheres não só participam, mas também trazem para dentro desses protestos o tema da paridade. É um processo que avança há décadas no Ocidente, enquanto em outros lugares é mais recente.

Há uma diferença com as reivindicações lideradas por vozes masculinas?

Isso é bobagem. Não acredito em uma psicologia feminina predeterminada que possa imprimir uma diferença "natural". As características, no mínimo, são o fruto de uma construção social e como tais não deve ser assimiladas ao sexo, mas sim ao contexto em que se produzem. A verdadeira diversidade das mulheres vem da experiência da qual são portadoras.

De que experiência o senhor está falando?

As mulheres foram encerradas durante séculos no âmbito privado. A sua irrupção no espaço político é o fim de uma vistosa ausência. Elas são portadoras, não por características psicológicas, mas sim históricas, de um novo interesse pela esfera pública, justamente por serem tradicionalmente excluídas.

E em nome desse passado elas estariam hoje mais prontas para levantar as barricadas?

Os homens esgotaram a sua capacidade de imaginar um mundo novo, representam um modelo político velho. As mulheres são, por assim dizer, avantajadas porque hoje fazer política significa reconciliar público e privado. As reivindicações femininas são globais, têm um discurso mais inclusivo.

O mundo será mudado pelas mulheres?

É um processo longo e que não devemos avaliar com os olhos do passado. Os homens são revolucionários, as mulheres são democráticas. Elas são capazes de elaborar projetos de reforma da sociedade. Comprometem-se com a defesa da liberdade, igualdade, solidariedade. Também são as primeiras vítimas das ditaduras, dos abusos, das injustiças. E, como tais, têm mais interesse em imaginar uma mudança. Não para si mesmas, mas para todos.
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Fonte: IHU on line, 02/08/2012
Imagem da Internet

Celebração

 L.F. Verissimo*
 
Caiu muita coisa do céu no espetáculo de inauguração da olimpíada de Londres: as argolas olímpicas incandescentes, várias Mary Poppins – e a rainha, de paraquedas. Está certo, não era a rainha e sim um fac-símile razoável, mas Elizabeth se prestou a participar da encenação e só cedeu seu papel a um dublê na hora do salto, apesar da insistência do príncipe Charles para que ela mesmo se atirasse.

De qualquer jeito foi admirável ver a rainha incluída numa seleção de ícones britânicos – Shakespeare, Beatles, 007 – feita sem distinção entre o pop e o solene. Tudo que era solidamente inglês se integrava no espetáculo, fosse a rainha ou o Mr. Bean.

Imagino que a primeira decisão de quem organiza uma festa como a da inauguração da olimpíada ou de evento similar como uma Copa do Mundo deva ser entre celebrar o país que faz a festa ou o chamado espírito olímpico, de congraçamento entre os povos acima de fronteiras e identidades nacionais, etc., etc.

Os ingleses decidiram ser ingleses ao ponto de ostentação. Nada de espírito olímpico, o festejado, e bem festejado, foi o espírito nacional. Mas não foi uma celebração acrítica. Mostraram a revolução industrial que começou na Inglaterra e mudou o mundo e ao mesmo tempo – com aquelas espantosas chaminés brotando do chão para espalhar a fuligem por campos outrora verdes e pastorais – as consequências das sombrias usinas satânicas, as dark satanic mills do poema de William Blake, na vida das pessoas.

E não deixou de haver política na apresentação. Não havia muita razão para aquele longo segmento dedicado ao serviço nacional de saúde, o plano de assistência médica universal posto em prática pelos trabalhistas que nenhum governo conservador ousou tocar, a não ser como um recado para o atual governo conservador. Como medida de austeridade para enfrentar a crise o governo Cameron está cortando benefícios sociais com um entusiasmo inédito desde os tempos da sra. Thatcher e sua machadinha impiedosa.

O show das enfermeiras dançantes e das crianças bem tratadas foi para lembrar que o National Health Service é uma instituição inglesa tão digna de ser celebrada quanto as outras – e quem se atrever a mudá-la terá que se entender com a Mary Poppins.
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* Cronista. Escritor. 
Fonte: ZH on line, 02/08/2012
Imagem da Internet

Silêncio de Deus, silêncio crente

É necessário o silêncio interior e exterior, para que tal palavra possa ser ouvida. E este é um ponto particularmente difícil para nós, no nosso tempo. Com efeito, a nossa é uma época na qual não se favorece o recolhimento; aliás, às vezes a impressão é de que as pessoas têm medo de se separar, mesmo por um instante, do rio de palavras e de imagens que marcam e enchem os dias. (...)
A grande tradição patrística ensina-nos que os mistérios de Cristo estão ligados ao silêncio e só nele é que a Palavra pode encontrar morada em nós (...). Este princípio - que sem silêncio não se sente, não se ouve, não se recebe uma palavra - é válido sobretudo para a oração pessoal, mas também para as nossas liturgias: para facilitar uma escuta autêntica, elas devem ser também ricas de momentos de silêncio e de acolhimento não verbal. É sempre válida a observação de Santo Agostinho: Verbo crescente, verba deficiunt — «Quando o Verbo de Deus cresce, as palavras do homem faltam».
Os Evangelhos apresentam com frequência, sobretudo nas escolhas decisivas, Jesus que se retira totalmente sozinho num lugar afastado das multidões e dos próprios discípulos para rezar no silêncio e viver a sua relação filial com Deus. O silêncio é capaz de escavar um espaço interior no nosso íntimo, para ali fazer habitar Deus, para que a sua Palavra permaneça em nós, a fim de que o amor por Ele se arraigue na nossa mente e no nosso coração, e anime a nossa vida. Portanto, a primeira direção: voltar a aprender o silêncio, a abertura à escuta, que nos abre ao próximo, à Palavra de Deus.
Porém, há uma segunda importante relação do silêncio com a oração. Com efeito, não há apenas o nosso silêncio para nos dispor à escuta da Palavra de Deus; muitas vezes, na nossa oração, encontramo-nos diante do silêncio de Deus, experimentamos quase um sentido de abandono, parece-nos que Deus não ouve e não responde.
Mas este silêncio de Deus, como aconteceu também para Jesus, não marca a sua ausência. O cristão sabe bem que o Senhor está presente e escuta, mesmo na escuridão da dor, da rejeição e da solidão. Jesus garante aos discípulos e a cada um de nós que Deus conhece bem as nossas necessidades, em qualquer momento da nossa vida.
Ele ensina aos discípulos: «Nas vossas orações, não sejais como os gentios, que usam vãs repetições, porque pensam que, por muito falarem, serão atendidos. Não façais como eles, porque o vosso Pai celeste sabe do que necessitais, antes que vós lho peçais» (Mt 6, 7-8): um coração atento, silencioso e aberto é mais importante que muitas palavras. Deus conhece-nos no íntimo, mais do que nós mesmos, e ama-nos: e saber isto deve ser suficiente.
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Bento XVI
01.08.12
Fonte:  http://www.snpcultura.org/silencio_Deus_silencio_crente.html

Sou sei-lá-o-que sexual

Paulo Ghiraldelli Jr*

 
Ninguém mais é burguês ou proletário. Alguns até dizem que são comunistas, mas são tão poucos que caberiam no banco traseiro de um Lada. Há os que proclamam que são ateus, mas antes para afastar evangélicos fundamentalistas ou de igrejas-caça níqueis e católicos da linha dura que por querer negar Deus. Há os que se afirmam negros, mas nem sempre – conforme o lugar é desnecessário, e há os lugares em que isso é tão necessário que é bom não ir. Agora, há algo que se diz sempre e até é gritado por aí.  Parece necessário dizer que se é heterossexual ou homossexual ou bissexual ou alguma lá outra coisa, mas que seja “sexual”. Ou se é “sexual” ou não se é nada. Finalmente chegamos ao que eu disse que chegaríamos: uma identidade calcada no corpo ou em alguma coisa bem relacionada ao que está no imaginário popular como sendo do corpo ou no corpo.
Já se disse certa vez que o maior escândalo do mundo nos tempos contemporâneos é ser um “nada sexual”. A mulher que não consegue engravidar e o homem que não consegue fazê-la engravidar nunca foram louvados. Confundiam-se tais pessoas com frígidas e impotentes. Essas coisas, hoje, estão mais separadas. Mas ninguém quer para si a fama de frígida ou de impotente. Ser um não-sexual era bem pior que ser homossexual. O segundo apanhava da sociedade, mas nem sempre fisicamente, o primeiro apanhava do parceiro fisicamente, se mulher, quando no caso do homem, a humilhação diária era tanta que restava para ele a forca. A ditadura do “sexual” continua valendo – mais hoje que nunca. Embora hoje possamos ver vários casais que, à primeira vista, poderiam ser tomados como “casais gays” ou “invertidos”, mas que são apenas pessoas que podem até se erotizar, mas sexualizar jamais.
Alguns diriam que há um preconceito contra os que não se sexualizam. Outros diriam que não é pré-conceito, mas que o conceito mesmo do que Platão chamou de “bípede sem penas” é o de ser sexualizado. Portanto, os que não se sexualizam não sofreriam de preconceito, eles próprios teriam ficado, realmente, aquém do conceito. Talvez em resposta, eles poderão dizer: “estamos é além do conceito”. Duvido que digam isso em casa.

 O sujeito moderno é o “consciente dos seus pensamentos e responsável pelos seus atos” 
(Luc Ferry)

Tudo isso é polêmico e geram assuntos para textos diversos. O que não é polêmico, o que acredito que é possível de se notar por qualquer um, é que estamos vivendo em uma época que nossa função como “sujeito” tem perdido força. A filosofia já mostrou isso de várias formas, tralhando sobre essa atrofia do sujeito moderno através de abordagens distintas, tanto as das correntes continentais quanto as das vertentes analíticas. Do meu ponto de vista aqui, o da filosofia social, o que se nota é que enquanto o projeto moderno faz água e o projeto contemporâneo não consegue se por positivamente, só negativamente ao moderno, a atrofia do sujeito se mostra como um processo longo, expondo cada fase como o que cristaliza uma característica do sujeito em um dado elemento. O sujeito ou, melhor dizendo, seu conceito moderno (Descartes-Locke) ou moderno reformado (Darwin-Marx-Freud), está nadando em mar alto e está tendo câimbras, mas nega-se a afundar. Agarra-se em pedaços do barco estraçalhado que boia no oceano. O corpo é um desses destroços. Mas agora, nem mais o corpo, e sim a ideia de “sexual”, que tem a ver com o corpo, é claro.
O sujeito moderno é o “consciente dos seus pensamentos e responsável pelos seus atos” (Luc Ferry). Essa é uma definição sucinta e válida. Para complementá-la podemos dizer que o “eu moderno” é delineado por duas características, trata-se de um fio de pensamentos que se entendem como emanados de um só âmbito ou centro, uma unidade, e que fixam uma identidade ou, então, várias identidades sem que elas se ponham em conflito quanto o núcleo comum que poderiam ou deveriam ter. Essa noção é filosófica, mas já consta dos nossos dicionários comuns. Por ela, podemos notar que o sujeito moderno ainda não morreu. Há algo dele vivo que é a ideia de que há um núcleo a ser chamado de “eu”. Tudo que já foi núcleo identitário pode ter ido para o brejo, e o corpo ou, mais corretamente, o “sexual”, sobrou e então nos agarramos a ele como quem não quer ver desaparecer nosso último gancho metafísico.
“Sexual” na atual conjuntura pode não parecer metafísico. Quer coisa mais corporal, material, física e, portanto, por definição, menos metafísica que isso? Mas, justamente aí, nos domínios do físico, há uma metafísica. Sexual não indica nada de empírico e físico. Talvez só à primeira vista. Mas, bem analisado, o que é um “X-sexual”?  Homo, hétero, bi, tri e poli sexual. Tudo-sexual.
Quem tem boa escolaridade não acha interessante chamar alguém de “demônio”, a não ser em brincadeiras. A palavra perdeu seu uso mais forte, aterrorizador, o de “senhor do mal” para valer. Mas, como o X-sexual impera como um último reduto do sujeito, o demônio adquiriu outros nomes: “pervertido”, “pedófilo”, “tarado” e, enfim, um “demoninho” seria um “vouyer”. Ou se coloca alguma coisa no âmbito do “sexual” ou não se pode dizer o que ela é como algo vivo que pode ser “consciente dos seus pensamentos e responsável pelos seus atos”. O eu é um eu-sexual (ou um eu não-sexual, o que dá na mesma).
Quanto tempo esse resto de identidade irá durar? Não sei. Mas o que sei é que enquanto ele durar também durará a briga entre os que acham que tem de dizer que são sexuais e os que acham que ao ouvir isso deverão ou aplaudir ou sacar, para qualquer lado, para criticar ou não, a expressão “olha o preconceito!”.
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* Paulo Ghiraldelli Jr. é filósofo, escritor e professor da UFRRJ. Agora também com cartuns: http://gametas.blogspot.com.
Fonte:  http://ghiraldelli.pro.br/2012/08/01/sou-sei-la-o-que-sexual/

Crise e capitalismo de Estado

 Jorge Arbache*
A "The Economist" publicou um provocativo relatório especial sobre capitalismo de Estado, modelo que, segundo a revista, "combina as forças do Estado com as forças do capitalismo". Desde então, o assunto ganhou atenção mundo afora e tem contribuído para os debates sobre a crise econômica e sobre modelos de desenvolvimento. A crescente influência das economias emergentes na economia mundial e a sua resiliência à crise financeira estariam por detrás do grande interesse pelo assunto. Contrariamente ao dirigismo muitas vezes observado até recentemente em muitos países em desenvolvimento, o capitalismo de Estado se utilizaria, segundo a revista, de instrumentos e métodos de gestão de mercado para atingir seus objetivos. O relatório justifica o foco nas experiências recentes dos países emergentes, notadamente a da China, porque elas "parecem ser cada vez mais a tendência futura".
As manifestações do capitalismo de Estado são variadas e podem ser complexas e sofisticadas, como as políticas públicas de apoio aos conglomerados privados sul-coreanos, ou a montagem de fundos soberanos com crescente influência nos fluxos de capitais e investimentos. Mas as experiências de capitalismo de Estado de países emergentes coexistem com manifestações de forte intervencionismo estatal na economia também nos países desenvolvidos, como no caso da empresa de petróleo estatal norueguesa, Statoil, e das políticas americana e europeia de subsídios ao setor agrícola. As experiências das diferentes vertentes de capitalismo de Estado sugerem haver em comum entre elas uma tensão, em maior ou menor grau, entre pragmatismo e ideologia.

Impactos adversos na economia brasileira, incluindo valorização cambial, especulação com preços de ativos e barreiras ao comércio e ao investimento, precisam ser mitigados com o emprego de estratégias de desenvolvimento e de inserção internacional 

Mais recentemente, as inéditas e massivas intervenções na economia pelos governos dos países no epicentro da crise financeira por meio de "quantitative easing" e "bailouts", por exemplo, têm provocado profundas repercussões na alocação de recursos e formação de preços não apenas no plano doméstico, mas, também, internacional. Essas intervenções, muitas delas oportunistas, são especialmente intrusivas devido ao tamanho dessas economias e ao fato de suas moedas serem reserva de valor internacional, criando e agravando desequilíbrios macroeconômicos internacionais e acentuando as condições já assimétricas de competição.
O emprego de políticas de capitalismo de Estado parece estar se popularizando mundo afora à medida que a crise econômica e as incertezas se agravam. O capitalismo de Estado da China e o fracasso de políticas econômicas ultra-liberais, como algumas perseguidas pelos Estados Unidos até antes da crise, nos ajudam a entender porque um dos prováveis legados dessa crise para os políticos é a lição de que governos não devem limitar os seus papéis na economia.
Embora seja compreensível a atratividade do capitalismo de Estado num contexto de crise econômica, a sua multiplicação em escala global tem implicações deletérias. De fato, parece ser pouco plausível que muitos países possam se beneficiar, simultaneamente, de políticas de capitalismo de Estado devido à falácia da composição e devido às externalidades negativas por elas provocadas, que tendem a desorganizar o sistema econômico, fomentar reações mercantilistas e alimentar tensões políticas entre países. Por isso, é muito provável que a popularização dessas políticas dificulte a recuperação da economia mundial. O emprego de políticas de capitalismo de Estado também suscita questões associadas às escolhas entre interesses nacionais e compromissos internacionais, como os do G-20, com reflexos para a credibilidade do sistema multilateral.
Para que se mitiguem a proliferação do capitalismo de Estado e seus potenciais riscos para o crescimento econômico mundial, será preciso que os países, notadamente Estados Unidos, União Europeia e China, reconheçam a interdependência das políticas micro e macroeconômicas nacionais e seus impactos nos países em desenvolvimento. Será preciso, assim, redobrar os esforços de coordenação de políticas e de gestão de interesses conflitantes. No entanto, experiências como o colapso do Acordo de Doha, crise do Euro e as dificuldades de avanço nos acordos do clima ilustram os desafios de coordenação e de solução de controvérsias em períodos de crise.
Como as políticas de capitalismo de Estado têm significativos impactos adversos na economia brasileira, incluindo valorização cambial, especulação com preços de ativos e barreiras ao comércio e ao investimento, torna-se necessário o emprego de estratégias de desenvolvimento e de inserção internacional que busquem mitigar esses impactos. Tais estratégias deveriam levar em conta a combinação dos benefícios do comércio com os das políticas públicas de promoção da indústria conciliada com o desenvolvimento e a exploração das vantagens produtivas e competitivas nacionais. Deveriam, também, reconhecer as relações entre comércio e variáveis macroeconômicas como câmbio, juros e política fiscal e seus impactos na indústria e no comércio, buscar o reconhecimento internacional dos impactos dos grandes desequilíbrios macroeconômicos e das políticas de outros países na economia brasileira, e intensificar esforços indutores do aumento da competitividade através da redução dos custos de produção e aumento da produtividade e dos investimentos em capital humano e inovação.
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*Jorge Arbache é professor de economia da UnB. jarbache@gmail.com
Fonte: Valor Econômico on line, 01/08/2012

Homenagens a Gore Vidal, Oscar Wilde do século XX

A morte do escritor americano Gore Vidal, aos 86 anos, rendeu tributos ao redor do mundo. Celebridades e leitores compartilhavam suas tiradas favoritas do escritor, o "Oscar Wilde do século XX". Vidal, cujas observações sobre política, sexo e a cultura americana fizeram dele um dos maiores autores americanos de sua geração, morreu em Los Angeles anteontem, de pneumonia. Sidney Blumenthal, ex-assessor de Bill Clinton, afirmou à radio BBC que Vidal possuía "senso da alta política e compreensão de Washington que eram únicos".
O diretor de teatro e ópera britânico Jonathan Miller definiu Vidal como "um patrício americano da velha escola". "Esse estilo era fácil de perceber, pela maneira como ele falava e pela forma como se afastava de algumas idiotices dos EUA nos últimos 20 ou 30 anos."
Vidal nasceu em West Point, no Estado de Nova York. Começou a escrever aos 19 anos, quando era soldado e estava de serviço no Alasca. A experiência da 2ª Guerra Mundial foi a matéria-prima para sua primeira obra, "Williwaw", de 1946. Em 1948, "A Cidade e o Pilar" retratava abertamente pela primeira vez um protagonista homossexual e o alçou à fama. Uma série de romances históricos - "Lincoln" e "A Era Dourada" entre eles - compõem o legado de uma carreira de seis décadas.

  "Metade dos americanos jamais leu jornal. Metade nunca votou para presidente. Tomara que seja a mesma metade".
 (Cineasta Michael Morre)

O autodenominado "cavalheiro piranha" era célebre por seus comentários cáusticos. Considerava Ernest Hemingway uma piada e comparou Truman Capote a um "animal sujo que descobriu como se enfiar na casa". Seus maiores inimigos foram Norman Mailer e o conservador William F. Buckley Jr. Vidal comparou Mailer ao assassino Charles Manson e Mailer aplicou uma cabeçada no rival. "Ele tinha pavor da ideia de vida após a morte, porque teria de ver Norman Mailer de novo", disse o comediante Frank Conniff, no Twitter, onde os tributos a Vidal apareciam sobretudo sob a forma de citações.
"Estilo é saber quem se é, o que se quer dizer e não se importar", citou a roqueira Courtney Love. O cineasta Michael Morre escolheu: "Metade dos americanos jamais leu jornal. Metade nunca votou para presidente. Tomara que seja a mesma metade". O também britânico escritor Owen Jones escolheu uma passagem sobre amizade e morte. "Sempre que um amigo tem sucesso, algo morre em mim.
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 Por Agências internacionais
Fonte:  http://www.valor.com.br/cultura/2773232/homenagens-gore-vidal-oscar-wilde-do-seculo-xx
Foto da Internet


Bullying no trabalho é uma bomba relógio para as empresas

Enio Rodrigo*

 
O resultado é de uma pesquisa canadense, publicada no periódico Human Relations, que acompanhou profissionais de saúde em ambientes onde o bullying ocorria contra colegas de trabalho. Os profissionais que trabalhavam juntos com esses alvos de bullying eram, de acordo com seus relatos, tão ou mais impactados por este tipo de violência.
“As empresas que não coíbem, ou fazem de conta que o problema não existe, têm muito a perder, pois o número de pessoas impactadas pelo bullying não se limita àquelas que são agredidas por colegas ou chefias”, explica Marjan Houshmand, um dos autores do estudo feito pela Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá.
O estudo partiu da análise de dados coletados de mais de 350 profissionais da área de saúde em 41 hospitais diferentes, o que indica também que o problema não é algo pontual, mas mais comum nos ambientes de trabalho do que se imagina.
De acordo com os pesquisadores, os alvos das agressões têm pensamentos constantes de sair da empresa e irem para outros locais, assim como aqueles que presenciam os bullies (quem comete o ato de agressão) também são mais propensos a isso. Mesmo empregados que trabalham em outras áreas longe de onde o bullying ocorre – e ficam sabendo dos atos por meio de terceiros – também engrossam as fileiras do chamado turnover (um jargão usado para indicar alta rotatividade de empregados dentro de uma empresa).

Turnover custa caro
O turnover é custoso, já que os investimentos feitos no empregado (ajustes às escalas e métodos de trabalho, cursos, integração à nova equipe) são altos e acabam aumentando ainda mais quando há necessidade de retomar a formação de um novo empregado. Além disso, um ambiente de trabalho onde o bullying ocorre acaba sendo visto por novos candidatos como um local negativo, o que afasta bons profissionais ou atrai o tipo de trabalhador que precisa apenas de um local de trabalho temporário enquanto procura lugares melhores para se trabalhar.
“O índice de turrnover pode ser previsto pelo nível de episódios de bullying no ambiente profissional. E o mais interessante é que os administradores preferem acreditar que um bom ambiente de trabalho é aquele que traz boas experiências pessoais para o trabalhador. Mas nosso estudo mostra que, mesmo que o empregado não seja alvo de agressões, ele tende a simplesmente esquecer tudo de bom que a empresa possa ter oferecido anteriormente. Isto é muito ruim para as empresas e administradores”, diz Houshmand.
Os trabalhadores não impactados indiretamente pelo bullying, em hipótese, se sentem indignados com o que ocorre com os outros e também tendem a achar que o que ocorre não é justo, responsabilizando a empresa pela situação (o que não está errado).
Isso, dizem os pesquisadores, pode se tornar um círculo vicioso e apenas os profissionais com menos empatia por outras pessoas acabam se estabilizando no emprego. No longo prazo, o ambiente de trabalho acaba sendo formado apenas por profissionais com pouco ou nenhum trato pessoal, pouco empáticos – não se propõem a ajudar em problemas alheios e não se envolvem com os companheiros de trabalho – e que tendem a trabalhar de forma individual em detrimento do grupo.
“Aqueles com maior senso de justiça e que ficam nesse tipo de organização também podem se tornar um problema, já que podem passar a desafiar constantemente as ordens que lhe são passadas, não se sentindo na obrigação de cumprir metas e mesmo trabalhar contra a empresa como forma de ‘vingar’ seus colegas agredidos”, finaliza o pesquisador.
(O que eu tenho) 
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*Jornalista.
Fonte:  http://mercadoetico.terra.com.br/ 01/08/2012

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

“Fernando Pessoa me encanta e me oprime”

Leia entrevista exclusiva com José Paulo Cavalcanti Filho, o maior colecionador de objetos pessoais do poeta

Maior colecionador de objetos pessoais de Fernando Pessoa, José Paulo Cavalcanti Filho acaba de comprar em leilão em Lisboa a escrivaninha e os óculosdo poeta.
A aquisição faz parte do projeto pessoal desse advogado pernambucano e ex-ministro da Justiça (governo Sarney) demontar as peças da vida desse imenso quebra-cabeça feito de heterônimos. A ideia é reconstruir a figura do homem “real”que se esconde atrás desse mito da literatura portuguesa. O resultado foi “Fernando Pessoa – Uma Quase Autobiografia” (Ed.Record, 2011).
Membro da Academia Pernambucana de Letras, José Paulo Cavalcanti também compõe hoje a Comissão da Verdade, que visa a apurar os registros que indiquem violações de direitos humanos durante o regime militar.
Em entrevista à CULT, Cavalcanti Filho explica abaixo sua obsessão pela vida do autor de “Tabacaria” e também o que espera da Comissão da Verdade.

CULT – Qual foi o seu primeiro contato com a obra do Fernando Pessoa?
José Paulo Cavalcanti Filho – Em 1966, ouvi “Tabacaria” recitada pelo ator português João Villaret. Nessa época, ainda não sabia que Villaret era Deus. Nem que Pessoa era esse gênio absoluto. Foi o começo de uma paixão que até hoje me encanta e oprime. Tanto que nunca mais parei de lê-lo, com obsessão. Tudo. Sempre.
Aos poucos, fui sendo tomado por uma angústia indefinida. Explico: o grande Octavio Paz, ao início de um livro sobre Pessoa, comparando a insignificância da vida à majestade da obra, disse que, nele, “a obra é a vida e a vida é a obra”. O que é verdade, certamente, mas também não é. Porque, por trás do autor, há um homem que dorme, acorda, se veste, trabalha e sonha. “Mas quem era ele?”, eis a questão.
Não só isso. Sempre quis saber mais. Qual era a tabacaria da “Tabacaria”. Quem era a pequena que comia chocolates? Existiu mesmo um Esteves, aquele que conversava à porta com o dono da tabacaria? Procurava esse livro e ele não existia. E então, no mais íntimo, pouco a pouco se formou o desejo de escrevê-lo. Foi mais ou menos assim.

Quando tomou a decisão de fato de escrevê-lo?
A decisão se deu em um momento mágico, quando tentava escrever a “biografia” do heterônimo Álvaro de Campos. Porque então percebi, claramente, que Pessoa só escrevia sobre o que estava em torno dele.
Nos outros escritores, é comum que, nos textos, apareçam pedaços da vida, nomes de amigos, por aí. Em Pessoa, não. Era mais. Era um estilo próprio.
Vamos ao que fui percebendo. Por que Álvaro era de Campos? Por conta de um sósia (os narizes eram rigorosamente iguais), Ernesto Campos Melo e Castro, oito anos mais novo que Pessoa. E que tinha muitas outras de suas características: era beirão, judeu de Covilhã e engenheiro.
Por que nasceu em 15 de outubro? Porque nesse dia nasceram Virgílio e Nietzsche, duas das admirações literárias de Pessoa. E nasceu onde? Em Tavira, terra do avô paterno de Pessoa, o general Joaquim Antônio de Araújo Pessoa.
E por que era engenheiro naval? Porque essa era a profissão do genro da tia Anica, Raul Soares da Costa, que dormia então num quarto ao lado do seu. E viaja a Newcastle-on-Tyne. Por quê? Porque lá era cônsul outra de suas admirações literárias, Eça de Queirós.
E, em “Opiário”, viaja pelo Mediterrâneo. Por quê? Porque também Pessoa fez essa viagem. Mas, diferentemente de Pessoa, que vai até Lisboa, no poema a viagem é interrompida em Marselha. Por quê? Porque Rimbaud fez essa mesma viagem quando voltou da África para morrer e desembarcou em Marselha.
Por fim, Campos escreve como o homossexual que, no fundo, talvez Pessoa quisesse ser. Mas só até quando surge em sua vida Ophélia Queiroz. A partir daí, Campos passa a escrever como Pessoa. Tanto que, fosse o Campos dos primeiros tempos, seria feliz não casando com a filha de uma lavadeira, como está na “Tabacaria”, mas sim se, ao invés disso, se casasse com algum marinheiro.
Então reli as quase 30 mil páginas que escreveu e tudo se encaixava. A grande descoberta, portanto, é que a obra de Pessoa é como um testamento que esperou mais de 70 anos para ser desvendado.

Como coletou informações, fez contatos e traçou os rumos da pesquisa? Como foi compor a figura de Pessoa com base em seus heterônimos?
Fui mais de 30 vezes a Lisboa, contratei um jornalista e um historiador, em Portugal, para conferir cada página que escrevi, li todos os livros, passei centenas de horas, muitas, na Biblioteca Nacional, na Casa Fernando Pessoa, na Torre do Tombo, nas igrejas, nas conservatórias, conversei com muitos que o conheceram, inclusive anônimos, na rua, que conversavam sempre com ele e iam ao seu quarto.
Tentei até desenterrar o corpo do amigo Sá Carneiro, que foi sepultado no cemitério de Pantin, em Paris, na esperança de que no caixão estivessem as cartas que Pessoa lhe escreveu.
Digo, sem medo de errar, que tentei conferir tudo. Ninguém acreditará na quantidade de correções dos textos anteriores que estão no livro, que vão até ao que não tem importância.
Para ficar num exemplo tosco, na transcrição dos papéis de Pessoa, consta que ele comprava sapatos na Sapataria Contexto. Pedi a meu historiador para conferir onde era. Não havia nenhuma com esse nome. Então pedi que começasse a procurar desde o começo da Rua do Ouro e fosse subindo até a Restauradores, verificando se havia alguma sapataria com nome semelhante a Contexto. Tudo naquele tempo, claro.
E encontramos, vizinha à Casa Lourenço e Santos, onde fazia ternos, a Sapataria Contente, a mais famosa da Lisboa daquele tempo, dando-se que quem transcreveu a anotação simplesmente se embaralhou na péssima letra de Pessoa. Trocou o “nte” por um “xto”. Nem mesmo detalhes assim foram descuidados. E penso que o resultado não ficou mal.

O senhor já afirmou que Fernando Pessoa era um escritor sem imaginação e usava óculos de 3 graus mesmo tendo 12 graus de miopia. Essa ótica singular de mundo influenciou sua literatura?
Essa história de escritor sem imaginação é quase uma brincadeira, porque uso a expressão não no seu sentido corrente, algo como a capacidade de sonhar (e poucos no mundo sonharam tanto quanto ele), mas no estilo de escrever.
Sem imaginação porque poderia usar um nome qualquer, na “Tabacaria”, mas preferiu usar o do amigo Joaquim Esteves, um vizinho da família, que frequentava sua casa e que declarou seu óbito, só para constar. Desses quase anônimos, e tantos há em nossas vidas, que passam por esse insensato mundo quase sem deixar registros! “Sem metafísica”, como a ele se referia Pessoa.
Assim, como que juntando peças de um quebra-cabeça, foi se formando a figura implausível do meu amigo Fernando Pessoa. Um homem extremamente vaidoso no vestir; e, ao mesmo tempo, extremamente discreto no conviver. Foi uma bela aventura.

O senhor já adquiriu diversos itens pessoais do Fernando Pessoa. É para acervo pessoal ou existe algum plano futuro?
Penso que tenho quase tudo dele, e a intenção é destinar a algo público. Farei isso. Há só um risco, o de antes me acontecer algo desagradável. Por isso já disse a mulher e filhos que, se algo acontecer, por favor, tirem isso do inventário e transfiram a quem possa usar. À Academia de Letras, talvez.

Como conciliou a paixão pela literatura com a carreira política? Como se deu esse avanço?
Hoje eu não concilio, estou fora da política. Nem filiado a partido político sou. Na Grécia Antiga, havia a polis, a cidade, o patrimônio público e a idios, o patrimônio particular. Por isso se dizia dos que se ocupavam das causas públicas, que eram políticos: uma homenagem. E, dos outros, que eram idiotas: algo menor.
Se for me considerar político nesse sentido grego, aceito.

O sr. foi ministro da Justiça, é advogado, consultor da Unesco, do Banco Mundial e figura atualmente na Comissão da Verdade. Onde se encontra o vínculo com a literatura?
O destino, penso que foi o destino. Mas esse percurso interfere no ato de escrever de duas maneiras, uma boa e uma ruim. A boa é que me permite conhecer melhor a natureza humana, o insensato coração, a alma dos homens, que para Pessoa “é um abismo”. A ruim é não ter tempo para nada.

Em entrevistas, o senhor afirmara que em princípio não iria fazer parte da Comissão da Verdade. Por que repensou a ideia?
Foi diferente. Eu simplesmente imaginei que havia mais gente querendo fazer parte da comissão, ligada aos partidos. E eu não sou nada. Mas essa não é missão que se possa recusar e aceitei com devoção. Por espírito público.

Qual a sua participação na Comissão? Atende a algum interesse específico?
Somos todos iguais nela. Se acertarmos ou se errarmos, faremos isso juntos. E seremos julgados pelo indeterminado cidadão comum, no fim dos trabalhos. Mas estou otimista. Corrigindo, sou otimista. Vai dar certo.

Como o senhor classifica os desdobramentos que essa iniciativa inédita terá no cenário político brasileiro?
Com tranquilidade. Não estamos na comissão para julgar ninguém. Nosso dever é contar um pedaço da história do Brasil, com equilíbrio, mas com determinação.
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Reportagem por  GUILHERME S. ZANELLA
Fonte:  http://revistacult.uol.com.br/home/2012/07/fernando-pessoa-me-encanta-e-me-oprime/

O consumismo: uma doença?

Marcelo Colussi*

consumismo O consumismo: uma doença? 
No coração da selva do Petén, no que atualmente é a Guatemala, no cume do Templo IV, joia arquitetônica legada pelos maias do Período Clássico, duas jovens turistas norte-americanas – com roupa Calvin Klein, com sapatos Nike, óculos escuros Rayban, telefones celulares Nokia, câmeras fotográficas digitais Sony, videofilmadoras JVC e cartão de crédito Visa, hospedadas no hotel Westing Camino Real e tendo viajado com milhas de “viajante frequente” por meio de American Air Lines, hiperconsumidoras de Coca-Cola, Mc Donald’s e de cosméticos Revlon – comentavam, ao escutar os gritos de macacos nas copas das árvores próximas: “Pobrezinhos, gritam de tristeza, porque não têm por perto um ‘super’ onde possam fazer compras”…
Consumir, consumir, hiperconsumir, consumir mesmo que não seja necessário; gastar dinheiro; ir ao shopping… Tudo isso passou a ser a consigna do mundo moderno. Alguns – os habitantes dos países ricos do Norte e as camadas acomodadas dos do Sul – conseguem sem problemas. Outros, os menos afortunados – a grande maioria do planeta – não. Porém, da mesma forma, são compelidos a seguir os passos ditados pela tendência dominante: quem não consome está out, é um imbecil, sobra, não é viável. Mesmo correndo o risco de se endividarem, todos têm que consumir. Como ousar contradizer as sacrossantas regras do mercado?
Poderíamos pensar que o exemplo das jovens acima apresentado é uma ficção literária – uma má ficção, por certo. Porém, não: é uma tragicômica verdade. O capitalismo industrial do Século 20 teve como resultado as chamadas sociedades de consumo onde, asseguradas as necessidades primárias, o acesso a banalidades supérfluas passou a ser o núcleo central de toda a economia. Desde a década de 1950, primeiro nos Estados Unidos, em seguida na Europa e no Japão, a prestação de serviços superou a produção de bens materiais. Supostamente, os bens suntuários ou destinados não somente a garantir a subsistência física (recreação, compras não unitárias, mas por quantidades, mercadorias desnecessárias, porém impostas pela propaganda, etc.) encabeçam a produção geral. Por que essa febre consumista?
Todos sabemos que a pobreza implica carência, falta; se alguém tem muito é porque outro tem muito pouco, ou não tem. Em uma sociedade mais justa, chamada socialismo, “ninguém morrerá de fome porque ninguém morrerá de indigestão”, disse Eduardo Galeano. Não é necessário um doutorado em economia política para chegar a entender essa verdade. Porém, contrariamente ao que se poderia considerar como uma tendência solidária espontânea entre os seres humanos, quem mais consome anseia, mais do que tudo, continuar consumindo. A atitude das sociedades que têm seguido a lógica do hiperconsumo não é de detê-lo, repartir tudo o que se produz com equidade para favorecer aos despossuídos, deter o saqueio impiedoso dos recursos naturais. Não, ao contrário, o consumismo traz mais consumismo. Um cachorro de uma casa de classe média do Norte come uma média anual de carne vermelha maior do que um habitante do Terceiro Mundo.
Enquanto muita gente morre de fome e não tem acesso a serviços básicos no Sul (água potável, alfabetização mínima, vacinação…), sem a menor preocupação e quase com frivolidade são gastas quantidades incríveis em, por exemplo, cosméticos (US$ 8 bilhões anuais nos Estados Unidos), ou sorvetes (US$ 11 bilhões anuais na Europa), ou comida para mascotes (US$ 20 bilhões anuais em todo o primeiro mundo). Então, os seres humanos somos uns estúpidos e superficiais individualistas, desperdiçadores irresponsáveis, compradores vazios compulsivos? Responder afirmativamente seria parcial, incompleto. Sem dúvida, todos podemos entrar nessa louca febre consumista; a questão é ver porque esta é instigada, ou ainda mais: fazer algo para que esta não continue sendo instigada. Isto leva a reformular a ordem econômico-social global vigente. Essa loucura não pode continuar!
Mas, é certo que nas prósperas sociedades de consumo do Norte surgem vozes chamando a uma ponderada responsabilidade social (consumos racionais, energias alternativas, reciclagem dos desperdícios, ajuda ao subdesenvolvido Sul…), mas não devemos esquecer que essas tendências são marginais, ou, pelo menos, não têm a capacidade de incidir realmente sobre o todo.
Recordemos, por exemplo, o movimento hippie, dos anos 60 do século passado: apesar de representar um honesto movimento anticonsumo e um questionamento aos desequilíbrios e injustiças sociais, o sistema finalmente acabou devorando-o. Dito seja de passo: as drogas ou o rock and roll, suas insígnias das décadas dos 1960 e 1970, acabaram sendo outras tantas mercadorias de consumo massivo, geradoras de grandes lucros (não para os hippies, precisamente!).
Uma vez fomentado o consumismo, tudo indica que é muito fácil – muito tentador, sem dúvida – ficar seduzido por suas redes. Por exemplo: os polímeros (as distintas formas de plástico) constituem uma invenção recente na história; no Sul chegam em meados do Século 20; porém, hoje, nenhum habitante de nenhum empobrecido país poderia viver sem eles; e, de fato, em proporção, são consumidos mais nos países empobrecidos do que no mundo desenvolvido, onde começa a haver uma busca por material reciclado. Por diversos motivos (para estar na moda que lhe impuseram?), é mais provável que um pobre do Terceiro Mundo compre uma cesta de plástico do que de cipó. O consumismo, uma vez em marcha, impõe uma lógica própria da qual é difícil desvencilhar-se. É “aditivo”…
Do mesmo modo, e sempre nessa dinâmica, vejamos o que acontece com o automóvel. Atualmente, é mais do que sabido que os motores de combustão interna – ou seja, os que rendem tributo à monumental indústria do petróleo – são os principais agentes causadores do efeito estufa; sabe-se que produzem um morto a cada dois minutos em escala planetária devido aos acidentes de trânsito, inconvenientes que poderiam ser resolvidos ou pelo menos minimizados com o uso maciço de meios de transporte público, mais seguros em termos de segurança individual e ecológica (um só motor pode transportar cem pessoas, por exemplo); porém, até que não se acabe a última gota de petróleo não haverá veículos impulsionados por energias limpas (água ou sol, por exemplo).
Um motor queimando combustíveis fósseis por pessoa não é sustentável a longo prazo em termos ambientais; porém, curiosamente, para os primeiros 25 anos do século em curso, as grandes corporações de fabricantes de automóveis estimam vender um bilhão de unidades nos países do Sul, e os habitantes dessas regiões do globo, sabendo de tudo o que se escreveu acima e conhecedores dos disparates irracionais que significa mover-se em cidades atoladas de veículos, estão festejando o boom dessas máquinas fascinantes.
Nessa lógica, quem pode, mesmo endividando-se durante anos, faz o impossível para obter seu “zero quilômetro”. Tudo isso nos leva a duas conclusões: por um lado, parece que todos os seres humanos somos muito manipuláveis, fáceis de convencer (os publicitários sabem disso perfeitamente). A semiótica ou a psicologia social de cunho norte-americano, centrada no manejo mercadológico das massas, dizem o mesmo. Se não fosse assim, George W. Bush, um alcoólatra recuperado, pouco douto nas lides políticas, não poderia ter sido presidente de seu país por duas gestões (graças a um vídeo sensacionalista em sua segunda campanha presidencial, por exemplo, que explorou os medos irracionais do eleitorado); ou o cabo de exército alemão Adolf Hitler não poderia ter feito o “educado” povo alemão acreditar ser uma raça superior e levá-lo a um holocausto de proporções dantescas.

 "...o grande capital, dominador cada vez mais absoluto do cenário econômico-político-cultural do planeta, impõe o consumo com mais ferocidade que as forças armadas que o defendem lançam bombas sobre territórios rebeldes que resistem a seguir esse roteiro."

Porém, por outro, como segunda conclusão – e isso é, sem dúvida, o nó górdio do assunto – as relações econômico-sociais que desenvolveram com o capitalismo não oferecem saída para essa cilada da dinâmica humana. O grande capital não pode deixar de crescer; porém, não pensando no bem comum: cresce, da mesma forma que um tumor maligno, de forma descontrolada, desordenada, sem sentido. Para que a grande empresa tem que continuar se expandindo? Porque sua lógica interna a força a isso; não pode deter-se, mesmo que isso não sirva para nada em termos sociais. Por que os milionários donos de suas ações têm que continuar sendo cada vez mais milionários? Porque a dinâmica econômica do capital o força; porém, não porque esse crescimento sirva à população. E esse crescimento, justamente – como tecido cancerígeno – se faz a expensas do organismo completo, do todo social, nesse caso; fazendo-se consumir, consumir o desnecessário; depredando recursos naturais e tornando-nos cada vez mais bobos; manipulando nossas emoções com as técnicas de comércio, para que continuemos comprando. “Pobrezinhos, gritam de tristeza, porque não têm por perto um ‘super’ onde possam fazer compras”…
Ditando modas, fixando padrões de consumo, obrigando a mudar desnecessariamente os produtos com ciclos cada vez mais curtos (obsolescência programada), fazendo sentir como um “selvagem primitivo” a quem não segue esses níveis de compra contínua, com refinadas – e patéticas – técnicas de comercialização (propaganda enganosa, manipulação midiática que não dá sossego, crédito pré-aprovado…), o grande capital, dominador cada vez mais absoluto do cenário econômico-político-cultural do planeta, impõe o consumo com mais ferocidade que as forças armadas que o defendem lançam bombas sobre territórios rebeldes que resistem a seguir esse roteiro.
Por certo que, dadas certas circunstâncias, o “consumismo” desenfreado poderia ser considerado como uma conduta patológica. De fato, na Classificação Internacional das Enfermidades (CIE), da Organização Mundial da Saúde, bem como no Manual de Transtornos Mentais, da Associação de Psiquiatras dos Estados Unidos (DSM), versão IV, aparece como uma possível forma das compulsões. E, a partir dessa matriz médico-psiquiatrizante, a “compra compulsiva” pode chegar a ser descrita como uma categoria diagnóstica determinada. “Preocupação frequente com as compras ou o impulso de comprar, que se experimenta como irresistível, invasivo e/ou sem sentido. Compras mais frequentes do que uma pessoa se pode permitir e de objetos que não são necessários, ou sessões de compras durante mais tempo do que se pretendia.”
Sem negar que isso exista como variável psicopatológica (“calcula-se que a compra compulsiva atinge entre 1,1% e 5,9% da população geral e é mais comum entre as mulheres do que entre os homens”), o consumismo voraz que o sistema nos impõe é mais do que uma conduta compulsivo-aditiva individual. Em todo caso, nos fala de uma “enfermidade” intrínseca ao próprio sistema. Se as jovens do exemplo que dei no começo desse artigo são tão “estúpidas”, frívolas e superficiais, são apenas o sintoma de um transtorno que se move atrás delas. Transtorno que, certamente, não se resolve com nenhum produto farmacêutico, com um novo medicamento milagroso, com outra mercadoria a mais para consumir, por melhor apresentada e por mais publicidade que tenha. Ao contrário, se resolve mudando o curso da história.
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* Marcelo Colussi é escritor e cientista político argentino. Atualmente radicado na Venezuela.
** Publicado originalmente no site Adital.
Fonte:  http://envolverde.com.br/01/08/2012

“Nossa meta não é o dinheiro”, diz chefe de design na Apple



Durante uma conferência do grupo British Business, que reúne executivos do mundo todo, Sir Jonathan Ive declarou que a Apple está mais comprometida em “criar grandes produtos” do que em ganhar dinheiro.
“Nossa meta não é ganhar dinheiro. Isso pode soar petulante, mas é verdade”, disse o chefe de design da empresa. “Nossa meta, e aquilo que nos empolga, é criar grandes produtos. Nós acreditamos que, se tivermos sucesso, as pessoas vão gostar deles, e se formos competentes nas nossas operações, teremos lucro, mas nossa meta é muito clara”.
Levando em conta que o valor estimado da Apple ultrapassa $550 bilhões (mais de 1 trilhão de reais) e que, atualmente, a empresa está movendo um processo bilionário contra a Samsung, as declarações de Sir Ive devem gerar polêmica.

Crise e foco

Durante sua fala, ele relembrou a época em que entrou para a Apple, em 1992. Era um momento de crise e, segundo ele, de grande aprendizado. “A Apple estava muito perto da falência e da irrelevância, [mas] você aprende muito sobre a vida por meio da morte”, disse.
“Você pensaria que, quando o que há entre você e a falência é dinheiro, seu foco seria ganhar mais dinheiro, mas essa não era a preocupação [de Steve Jobs]“. De acordo com Ive, Jobs concluiu que os produtos da empresa não eram “bons o suficiente”, e que mudar esse quadro poderia evitar o fim da empresa.
Esse alto nível de exigência, curiosamente, quase evitou que o iPhone, um dos produtos mais vendidos da Apple, fosse às lojas. Um dos principais problemas do aparelho era que os usuários poderiam ativar acidentalmente a tela de toque com a orelha enquanto atendiam a uma ligação. Corrigir esta e outras falhas exigiu meses de testes e estudos.
Ive aproveitou para criticar a ideia de que realizar pesquisa de mercado é a chave para o sucesso. “Não fazemos pesquisa de mercado. Não focamos, absolutamente, em grupos. Isso seria uma negação de responsabilidade por parte do designer, e uma busca por política de seguros no caso de algo dar errado”.[The Telegraph]
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Fonte:  http://hypescience.com/01/08/2012

Nascimento: FAQ

Antonio Prata*
 
Como faço para voltar pro útero? Infelizmente, não existe essa possibilidade. Não existe mesmo? Não 

1. Por que me tiraram do útero?
Você nasceu! O útero era só um breve estágio em que seu corpo estava sendo formado. A vida mesmo é aqui fora, na luz: seja bem-vindo e aproveite!
2. Como faço para voltar pro útero?
Infelizmente, não existe essa possibilidade.
3. Não existe mesmo?
Não.
4. O que eu estou fazendo aqui?
Essa pergunta é passível de muitas respostas. Religiosos acreditam que a vida é um presente de Deus. Ateus afirmam que não há exatamente uma razão para existirmos e que tudo é fruto do acaso e da seleção natural. Ao longo do seu percurso você descobrirá para que lado pende seu coração e poderá até mesmo criar uma explicação própria para a incrível jornada que se inicia agora!
5. O que é aquela coisa redonda, quente e macia que vira e mexe põem na minha boca e contém um líquido delicioso?
Chama-se seio. O seio é parte do corpo de uma mulher. A mulher chama-se mãe. Mãe é a principal encarregada por você nos primeiros anos de vida. (Mais info. nos formulários Mãe: FAQ I, II, III, IV e V).
6. Como faço para que a mãe venha e ponha o seio na minha boca quando eu estiver com vontade?
Chore. Esgoele-se o mais alto que puder que a mãe costuma aparecer.
7. Posso ter o seio quantas vezes quiser, a qualquer hora do dia ou da noite?
Teoricamente, sim, mas isso varia de mãe para mãe.
8. Quem é aquele cara que geralmente aparece ao lado da mãe e fica ali sem fazer nada, com um sorriso abobalhado?
Chama-se pai. Ele é responsável por metade de sua carga genética. Realmente, é meio inútil neste começo, porém mais tarde ajudará bastante em sua criação. (Ver Pai: FAQ I e II).
9. Ele tem seio?
Não. Embora tenha mamilos, fato que até hoje intriga os evolucionistas, mas isso absolutamente não vem ao caso.
10. Além do seio, tem algo mais que preste do lado de cá do útero?
Ah, impossível enumerar todas as delícias desta grande aventura! Em breve você conhecerá a manga e o cafuné, o mar e a bicicleta, os livros, os esportes, o amor, a música, o sexo... Prepare-se, você vai se divertir a valer!
11. Vou ter mais alguma experiência traumática ou a saída do útero foi o fundo do poço?
Bem, em algum lugar adiante está a morte.
12. O que é a morte?
O fim da vida.
13. E, depois da morte, não tem nada?
Eis mais uma pergunta passível de muitas respostas. Religiosos acreditam que a vida continua, incessantemente, seja em outro plano ou neste aqui, através de reencarnações. Ateus dizem que não: a morte é mesmo o limite.
14. Não tem mesmo como voltar pro útero?
Não. 
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* Escritor. Cronista da Folha.
antonioprata.folha@uol.com.br
@antonioprata
Fonte: Folha on line, 01/08/2012
Imagem da Internet 

Eu, o Coringa, venci o Batman!

Frei Betto*

 

Meu nome é James Holmes, mas podem me chamar de O Coringa. Tenho 24 anos. Sou o Cavaleiro que Ressurge das Trevas. Quando menos se esperava, a plateia atenta às aventuras de Batman viu irromper, na escuridão, a cena real de sangue e ódio. Eu, O Coringa, faço a diferença.
Meu avô morreu na guerra do Vietnã. Era especialista em enterrar minas nas trilhas dos arrozais por onde trafegavam camponeses. Meu tio garante que, graças à habilidade de meu avô, mais de 500 vietnamitas tiveram seus corpos destroçados por minas. Há uma foto, no arsenal do meu pai, na qual se vê pedaços do corpo de um vietnamita voando pelos ares.
Meu avô teve azar. Ao se agachar numa estrada para cavar o chão e enterrar uma mina, caiu numa armadilha de espetos de bambu. Um buraco de dois metros de altura. Seu corpo foi resgatado por nossos helicópteros. Meu tio contou 18 perfurações. Meu avô mereceu honras militares em seu enterro em Denver.
Meu pai lutou no Iraque contra os terroristas de Saddam Hussein e Bin Laden. Teve a sorte de regressar vivo. Trouxe para casa um verdadeiro arsenal de guerra, dando início à sua espantosa coleção de armas. Todas legais, como outras 242 milhões que circulam pelos EUA.
Desde criança aprendi que um verdadeiro ianque não teme matar. E sabe dar o tiro certo. Na infância, eu me divertia com videogames de jogos bélicos. Cheguei a vencer o campeonato de eliminação sumária de bonequinhos virtuais. Derrubei 42 em menos de 1 minuto.
Meu irmão se encontra incorporado às nossas tropas no Afeganistão. Fiquei muito frustrado por não ter sido o escolhido. Tentei negociar com a Marinha e ir no lugar dele. Seria uma curtição matar terroristas e seus cúmplices talibãs.
 
Quando contei ao meu professor que pertencia a uma família de guerreiros, e que matar uma pessoa com certeza proporcionaria mais prazer do que sexo, ele sugeriu que eu fizesse terapia. Fiz melhor: fui estudar neurociência para entender a mente humana. Buscar respostas a perguntas que ainda hoje me inquietam. Por que há quem se sinta culpado por matar uma pessoa, enquanto políticos, como o presidente Truman, que atirou bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki, morrem com a consciência tranquila?
Meu nome é James, como James Bond. Dei-me licença para matar. Acusam-me de ser tímido, reservado, recluso, e até repulsivo. Na verdade, eu quis experimentar, naquela noite de 20 de julho, a mesma volúpia de Charles Whitman, que em agosto de 1966 fuzilou 16 pessoas na Universidade do Texas; de James Hubert, que em 1984 matou 21 numa lanchonete da Califórnia; de Pat Sherrill, que em 1986 exterminou 14 numa agência dos correios de Oklahoma; de James Pough, que tirou a vida de 9 funcionários da General Motors, na Flórida, em junho de 1990; de George Hernnard, que numa cafeteria do Texas eliminou 23 pessoas, em outubro de 1991; de John Muhammad e Lee Malvo, que com seus rifles abateram 10 em outubro de 2002, em Washington D.C.; de Cho Seung-Hui, que em abril de 2007 exterminou 33 estudantes e professores na Universidade de Virgínia Tech.
Não sou assassino. Assassinato é quando se mata um, no máximo dois. Chacina, meia dúzia. Extermínio, uma dezena. Massacre, centenas. Guerra, milhares.
 
Sou um exterminador do presente. Meu sonho é a guerra. É legal, faz dos matadores heróis, move a indústria. Este é mais um genuíno produto de exportação made in USA: a guerra. Protegida pelas mais solenes convenções.
Vivo num país livre, onde se podem adquirir armas como quem compra pães na esquina. Não tive a menor dificuldade de obter dois revólveres Glock calibre 40; uma espingarda Remington 870; um fuzil Smith & Wesson AR-15, e ainda 16 mil cartuchos, comprados pela internet.
As doze pessoas que exterminei no cine de Aurora ainda não foram suficientes para saciar a minha fome de prazer. Porém, de uma coisa estou certo: naquela noite, eu desafiei e venci o Batman.
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* Frei Betto é escritor, autor de “A obra do Artista – uma visão holística do Universo” (José Olympio), entre outros livros. www.freibetto.org Twitter:@freibetto.
Fonte:  http://mercadoetico.terra.com.br/31/07/2012
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Deriva?

                                                                 Sírio Possenti*

Deriva?
  Será possível prever os rumos das línguas? (foto: Flickr/ el Fep – CC BY-NC 2.0)
Em 1921, o antropólogo e linguista alemão Edward Sapir 
 propôs a tese de que há mudanças previsíveis na língua. 
Em sua coluna de julho, Sírio Possenti discute 
a questão e arrisca algumas previsões de 
 mudanças no português do Brasil.

Uma das poucas coisas que se sabem com absoluta segurança sobre as línguas é que, aconteça o que acontecer, nenhuma será no futuro como é hoje. Ou seja, é certo que as línguas mudam. As variações que podem ser facilmente observadas são sua origem e seu mais forte sintoma.
Vejamos um exemplo: coexistem formas como [peixe] e [pexe], [outro] e [otro]. A queda da semivogal (i, u) implica a eliminação de ditongos. Mas o fenômeno não é linear; obedece a certas restrições que levam em conta uma relação entre a semivogal e a consoante que a segue. Por exemplo, ocorre [otro] (outro), mas não [oto] (oito). Ou seja, o /u/ cai antes de /t/, mas o /i/ não.
Uma das poucas coisas que se sabem com absoluta segurança sobre as línguas é que, aconteça o que acontecer, nenhuma será no futuro como é hoje
A queda é ‘geral’ antes de /x, ch/ (caixa / caxa, deixa / dexa, frouxo / froxo). Formas como [partiro] são parte do mesmo fenômeno. A grafia final da palavra, am, pode enganar um observador desatento, mas a pronúncia é [ãw], um ditongo. Aliás, a posição final das formas verbais escritas com ou é a que mais favorece o fenômeno, praticamente geral: [pegô], [matô], [deixô] etc.
Uma boa pergunta é se todos os ditongos que hoje concorrem com sua variante desaparecerão. É difícil ter certeza, mas o que ocorre em línguas da mesma família pode ser uma indicação, embora não uma garantia absoluta. Observe-se que, em espanhol, a forma exclusiva é otro, já sem concorrência, sem contar ocho. Em francês, embora a escrita seja autre, a pronúncia é [otr(e)], exatamente como no popular [otoridade].

Previsões no inglês

Edward Sapir, já em 1921 (no livro A linguagem: introdução ao estudo da fala), propôs a análise de um caso de variação do inglês que lhe permitiu sustentar a tese de uma tendência geral da língua, que chamou de deriva. A tese diz que há mudanças previsíveis: formas hoje consideradas erros podem sobreviver e virem a ser as corretas, enquanto as atuais corretas desaparecerão.
Sapir: formas hoje consideradas erros podem sobreviver e virem a ser as corretas, enquanto as atuais corretas desaparecerão
Sapir afirma que se pode profetizar que, dentro de duas centenas de anos (uma quase já passou...), nem o mais erudito jurisconsulto dirá Whom did you see?, porque ‘whom’ desaparecerá. A correlação I : me = he : him = who : whom será posta de lado. Sua análise parte da constatação de que essa forma soa artificial. Seus argumentos são quatro.
O primeiro é que as únicas formas pronominais objetivas (isto é, objetos diretos) em inglês são me, him, her, us, them e whom. Em todos os outros casos, o objeto tem a mesma forma do sujeito.
O segundo é que who e whom são associados aos pronomes relativos e interrogativos which, what e that (e não aos pessoais), e também a where, when e how, todos invariáveis e, geralmente, enfáticos.
O terceiro, que as formas subjetivas e objetivas dos pronomes ocupam, em inglês, posição fixa na frase – e esta é sempre diferente, complementar: nunca ocorrem formas objetivas antes do verbo, como em português (me disseram, te vi etc.), nem mesmo nas interrogativas (não se diz Him did you see?).
O quarto argumento é baseado no ritmo: o enfático whom, “com sua pesada estrutura”, contrasta com a sílaba “leve e sutil” seguinte. A forma “soa mal”, diz Sapir. Esse juízo não se aplica a what did, when did. “Nosso instinto rítmico” não aceita a forma, assim como um poeta não aceitaria “dreamed” num verso de cadência rápida.
From whom the bell tolls
Edward Sapir, autor da tese da deriva, já apostava, na década de 1920, no desaparecimento de 'whom' na língua inglesa. Na foto, capa do livro de Hemingway, de 1940, cujo título inclui o pronome condenado à extinção.
Os quatro fatores operam em conjunto, afirma Sapir, formando uma resultante. O mais importante em sua tese não é, no entanto, a explicitação desses fatores, que tendem a produzir mudanças definitivas no inglês. O que mais importa é que são sintomas de tendências que trabalham na língua.
É a essas tendências que o autor chama de derivas. São três, segundo ele, que devem persistir por séculos, talvez milênios.
A primeira é a tendência a igualar a forma do sujeito e a do objeto (a diferença entre essas formas é o último suspiro do velho sistema indo-europeu). O sistema de casos foi se enfraquecendo progressivamente, e já se ouve mais vezes “the fases of the moon” do que “the moon’s fases” e “the appearence of it” do que “its appearence”. Resistem apenas as formas flexionais relativas aos seres animados. Por isso, dificilmente se dirá “Me see him”, até porque a diferença sonora entre I e me é grande.
A segunda tendência é a de tornar as posições das palavras cada vez mais fixas, à medida que as flexões diminuem. Trata-se de fato histórico atestado (em português o fenômeno é similar: "o homem vê o cão" não quer dizer a mesma coisa que "o cão vê o homem"; e é apenas a posição das palavras que define o sujeito e o objeto). Assim, diz Sapir, he e him não são mais, a rigor, sujeito e objeto, mas formas pré e pós verbais.
A terceira tendência leva o inglês na direção das palavras invariáveis. Sapir menciona que ainda resistem as formas verbais de terceira pessoa (works) e os plurais (books), mas demonstra que palavras derivadas perdem progressivamente seu sentido original: goodness significa cada vez menos "bondade" e cada vez mais "aptidão"; unable está tão descolado de able quanto stupid. Finalmente, diz Sapir, “sentimo-nos bem com believe e credible (...) Good e well vão melhor entre si do que quick e quickly”. Todas são formas não relacionadas morfologicamente.

Hipóteses para o português

Nunca se deve desprezar as forças sociais, especialmente as diversas formas de contato entre falantes das diversas variedades e seu peso social. A escola pode impedir ou retardar mudanças. Já os meios de comunicação tendem à informalidade, associada à mudança. Mas não esqueçamos que a TV pode mudar até expressões consagradas, como “perigo de vida”, muitas vezes substituída por “perigo de morte”, processo que se iniciou por mero capricho de um mandachuva. No que se refere às forças gramaticais, no entanto, esse tipo de intervenção não teria efeito. Até porque, em grande medida, escapam à consciência.
Podem ser detectados casos que indiquem derivas no português? Algumas hipóteses são:
  • tendência a aumentar o 'peso' do lado esquerdo da frase – isto é, antes do verbo –,  que se deve a vários fenômenos, como a diminuição do número de flexões verbais, derivada, por sua vez, da mudança dos pronomes (a substituição de “vós” por “vocês” é o caso mais claro, porque a forma verbal associada a “vocês” e a “eles” é uma só); acompanha esse fato a maior presença de sujeitos explícitos; além disso, cresce o uso de estruturas como “A inflação, ela é cíclica”;
  • tendência a substituir proparoxítonas por paroxítonas, embora essas formas populares sejam muito marcadas, como são os casos de “figo” (fígado), “uter /utro” (útero), mas também “chacra” (chácara), “xicra” (xícara) e “abobra” (abóbora), estas menos marcadas, além de claramente presentes nos diminutivos “chacrinha / xicrinha / abobrinha”;
  • tendência de aumento das formas analíticas, substituindo as sintéticas, muito clara na conjugação verbal, de que são prova formas como “vou estudar” (estudarei), “tinha saído” (saíra); o fenômeno ocorre também nas relativas, especialmente no emprego cada vez mais raro de “cujo”: em vez de “o time cujo técnico muda muito...”, “o time que o técnico (dele) muda muito”...
Uma coisa é certa: línguas mudam. Outra é menos clara: quais mudanças podem ser previstas. Mas, sem dúvida, algumas apostas têm boas chances de acerto.
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* Sírio Possenti Departamento de Linguística.Universidade Estadual de Campinas
Fonte:  http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/palavreado/deriva