sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Como não se deixar influenciar

Noemi Jaffe*
 
AP / AP
 Wislawa: livro podia ser assunto principal ou servir só para "desencadear associações"

Durante algumas décadas, a poeta Wislawa Szymborska, ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura em 1996, escreveu uma coluna para um jornal polonês, chamada "Nonrequired Reading" - ou leituras não obrigatórias. Como ela conta no prefácio a uma coletânea desses textos, "era garantido que livros de ciência popular e manuais passassem despercebidos" pelas resenhas críticas dos grandes jornais e, por isso, ela "sentiu a necessidade de dar a eles alguma atenção".
Dessa necessidade resultou uma coluna que, ao longo de vários anos, falou sobre assuntos que vão desde "Pássaros na Polônia" passando pelos "Santos e Magos dos séculos XVII e XVIII" até "Gladiadores". "No começo eu pensei que escreveria resenhas de verdade. Mas rapidamente percebi que não podia escrever resenhas e nem mesmo queria. Que eu basicamente sou e quero permanecer como uma leitora, uma amadora. Às vezes o livro é o meu assunto principal; outras vezes é somente um pretexto para desencadear várias associações soltas. Quem chamar esses textos de rascunhos estará correto."
É daí que surge a ideia geral desta nova seção mensal: "Leituras Amadoras". Uma seção amadora no sentido de ser escrita por amor à leitura diletante - aquela que se faz por deleite. Ler por entusiasmo e curiosidade; sem a utilidade específica de quase tudo o mais que fazemos.
Uma leitura amadora pode estar num livro de culinária para quem não cozinha, num livro infantil para adultos, num best-seller para acadêmicos ou num livro de autoajuda para filósofos.
O livro "As Armas da Persuasão - Como Influenciar e Não Se Deixar Influenciar", por exemplo, procura ensinar as pessoas, entre outras coisas, a não cair na lábia de vendedores que procuram nos enfiar goela abaixo alguns produtos desnecessários. Há um capítulo inteiro sobre amostras grátis: "Quem oferece amostras grátis pode liberar a força de gratidão natural inerente a um presente, quando parece ter apenas a intenção inocente de fazer uma divulgação". Trata-se da sensação constrangedora de devolver, à moça do supermercado, apenas o palito e ir embora sem comprar o queijo. Santo Tomás de Aquino também teorizou sobre a gratidão.
"A gratidão se compõe de diversos graus. O primeiro consiste em reconhecer o benefício recebido; o segundo, em louvar e dar graças; o terceiro, em retribuir de acordo com suas possibilidades e segundo as circunstâncias mais oportunas de tempo e lugar". Robert B. Cialdini, Ph.D.(1), autor desse livro, procura desconstruir a forma como as grandes indústrias exploram nosso espírito de reciprocidade, fazendo-nos comprar uma mercadoria indesejada mais por gratidão ao presente do que pelo desejo de consumi-la.
Dr. Robert, me perdoe, mas preciso confessar: só no mês passado, sem reconhecer o benefício recebido, sem louvar e dar graças e sem as circunstâncias oportunas de tempo e lugar, comprei um pote de geleia de framboesa (que detesto), um pacote de biscoitos diet (que não como), assinei uma revista de culinária só para poder ajudar um garoto que certamente mentia e contribuí com R$ 50 para uma instituição de caridade suspeita. Dr. Robert, desculpe novamente: seu livro não me influenciou a não me deixar influenciar e estou contente com isso. Aliás, uma pergunta: se todos aprenderem a não se deixar influenciar, como faremos para continuar influenciando os outros?

(1) Por que essa mania de colocar a titulação acadêmica dos autores na capa?

"As Armas da Persuasão: Como Influenciar e Não Se Deixar Influenciar". 

Robert B. Cialdini, Ph.D. Sextante. 303 págs., R$ 29,90

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Noemi Jaffe é doutora em literatura brasileira pela USP e autora de "Quando Nada Está Acontecendo" (Martins Editora)
Fonte:  http://www.valor.com.br/cultura/2811528/como-nao-se-deixar-influenciar

A filosofia está viva

 Carla Rodrigues*

 http://www.valor.com.br/sites/default/files/crop/imagecache/media_library_small_horizontal/0/0/1143/748/sites/default/files/images/31cul-900-filosofo-d26-img01.jpg
 Sloterdijk: apesar de sua aposta no fim da filosofia nos anos 80, sua “Crítica da Razão Cínica” (1983), 
agora lançada no Brasil, acabou por provar o contrário, tornando-se um best-seller

"Há um século a filosofia está morrendo. No entanto, ela não consegue morrer porque sua tarefa não foi cumprida." O diagnóstico foi feito pelo filósofo alemão Peter Sloterdijk nos anos 1980, quando a filosofia parecia ter perdido a importância dos anos 1960 e a rebeldia dos anos 1970. Nascido em 1947, Sloterdijk não integrou a geração glamourosa nem a rebelde e apontou o fim da filosofia em "Crítica da Razão Cínica", 720 páginas que passam em revista a história do pensamento ocidental. Logo depois de lançado, em 1983, o calhamaço vendeu 150 mil exemplares, tornando-se o livro de filosofia mais vendido na Alemanha desde a Segunda Guerra e provando que a filosofia estava viva e passava bem, obrigada. São essas 720 páginas que a Estação Liberdade publica no Brasil, depois de um investimento de R$ 50 mil e cinco anos de trabalho de uma equipe de cinco professores, estudiosos brasileiros da obra do autor. A empreitada contou com o apoio do Instituto Goethe para a publicação de dois mil exemplares a R$ 96,00.
Coordenados por Marco Antonio Casanova, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e importante tradutor da obra de Heidegger no país, os outros quatro integrantes da equipe de tradutores já estudavam a obra de Sloterdijk na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e se debruçaram sobre o texto em um trabalho de comparação com as outras traduções, como a espanhola e a francesa.
Para quem pretendia concordar com Sloterdijk e apostar no fim da filosofia, a boa notícia é o crescimento, no mercado brasileiro, de títulos de grandes filósofos vivos, resultado do investimento em traduções de qualidade. Lançado na Alemanha por ocasião do bicentenário de "Crítica da Razão Pura" - clássico de Immanuel Kant que seria ao mesmo tempo o auge e o início do suposto fim da filosofia -, "Crítica da Razão Cínica" é o primeiro de uma lista de 34 livros escritos por Sloterdijk, dos quais 6 já estavam traduzidos no Brasil pela Estação Liberdade. A aposta no autor começou por títulos menores, mas só em tamanho. O primeiro a chamar a atenção dos editores foi "Regras para o Parque Humano - Uma Resposta à Carta de Heidegger sobre o Humanismo", traduzido em 2000, apenas um ano depois da edição alemã, impulsionado pelo imenso debate que provocou entre Sloterdijk e o filósofo Jünger Habermas, com trocas de acusações mútuas que em muito se distanciaram de um debate filosófico.
Se foi a polêmica nas páginas dos jornais alemães que trouxe Sloterdijk para o Brasil, a amplitude de sua obra ajudou a consolidar o interesse nas traduções. Títulos como "O Desprezo das Massas", debate sobre o que o autor chama de "luta cultural", tem atraído pesquisadores na área de comunicação, e "Se a Europa Despertar", na área de ciência política, ambos textos mais pontuais. O mesmo não se pode dizer dos três volumes da série "Esferas", cada um com 800 páginas, cujos direitos autorais já foram comprados pela Estação Liberdade. "Nosso público-alvo são alunos e professores universitários da área de ciências humanas em geral, não apenas na filosofia", diz um dos editores, Fabio Bonillo.

Publicação dos filósofos corre em paralelo 
ao fenômeno de popularização da filosofia, 
seja por obras básicas, 
seja por títulos de autoajuda

Vem da Itália outro grande filósofo vivo: Giorgio Agamben, de quem "O Homem sem Conteúdo" acaba de chegar às prateleiras. Lançamento da Autêntica, com tradução do professor de filosofia Claudio Oliveira, da Universidade Federal Fluminense (UFF), estudioso da obra do autor e coordenador da recém-criada série "FilôAgamben", que integra a coleção "Filô". Coordenada por outro professor de filosofia, Gilson Iannini, da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), a coleção "Filô" está subdividida em séries dedicadas a autores, como "FilôBenjamin" e "FilôEspinosa", ou a temas, como "FilôMargens" e "FilôEstética". "O Homem sem Conteúdo" é o primeiro livro de Agamben, publicado na Itália em 1970, e inaugura a série "FilôAgamben", que já tem direitos autorais comprados, tradutores contratados e previsão de lançamentos para os próximos anos: "Ideia da Prosa", "A Comunidade Que Vem", "O Tempo Que Resta", "Bartleby ou a Fórmula da Criação", "Meios sem Fim", "A Potência do Pensamento".
Nascido em Roma em 1942, Agamben também é destes autores que provam a força da filosofia. O mercado brasileiro já dispõe de parte de suas obras traduzidas, com títulos lançados pela Editora UFMG e pela Boitempo Editorial. Um de seus grandes êxitos recentes, "O Que É o Contemporâneo", é publicação da pequena Argos, editora da Universidade Comunitária da Região de Chapecó (SC), cuja aposta em títulos de peso se constata por títulos como "A Filosofia do Como Se", do alemão Hans Vaihinger (edição de luxo, capa dura, 724 págs., R$ 79,00). Apoiada pelo Instituto Goethe, a tradução foi parte da pesquisa de doutorado em letras, defendido na UFF, do pesquisador Johannes Kretschmer.
"Estamos completando o álbum de figurinhas", diz Claudio Oliveira. Agamben é um filósofo de grande produtividade e apenas 12 dos seus 29 livros estavam traduzidos no Brasil quando o professor carioca começou a trabalhar na tradução, há pouco mais de um ano. "Se é verdade que outras editoras importantes já publicaram Agamben, é também verdade que, em alguns anos, a Autêntica será referência no Brasil para sua obra, pois já negociamos os principais títulos dele", argumenta Iannini, o coordenador da coleção "Filô". Agamben não é o único filósofo contemporâneo que a Autêntica vai publicar. O catálogo da coleção inclui autores como Slavoj Zizek e Arthur Danto, além de filósofos contemporâneos, como o francês Gilles Deleuze, nome consagrado do pensamento francês do século XX.
O investimento da editora prevê o lançamento de 20 a 25 títulos por ano, o que equivale, em dinheiro, a R$ 500 mil, gastos em direitos autorais e em pagamento de tradutores. "A área de filosofia pede tradutores especializados, que conheçam a obra do autor", afirma Oliveira. Fazem parte de uma edição bem-acabada as notas do tradutor e um posfácio em que ele comenta, situa e contextualiza a importância da obra. Também é indicação de qualidade da tradução a capacidade do tradutor de localizar, como fez Oliveira, as referências bibliográficas usadas pelo autor nas edições brasileiras das obras citadas, grande ajuda para brasileiros que estejam iniciando os estudos sobre Agamben.
 
Giorgio Agamben: o importante filósofo italiano tem títulos publicados por várias 
editoras brasileiras, ao lado de Michel Foucault, Slavoj Zizek e Gilles Deleuze
 
"O mercado editorial ainda não se deu conta do potencial da área de filosofia", acredita Oliveira, que vê nos investimentos da Autêntica os primeiros sinais de que, com a expansão do ensino de filosofia, a tendência é que esse campo de publicação continue crescendo. É o que anima outras coleções da editora, como "Ensino de Filosofia", voltada para textos de reflexão sobre o que é ensinar filosofia, e "Estudos Foucaultianos", já com nove títulos assinados por comentadores da obra do francês Michel Foucault. A edição bilíngue latim-português da "Ética" de Spinoza, trabalho do professor Tomaz Tadeu, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), lançado em 2007, marcou os dez anos da editora e comprovou que investimentos em filosofia podem dar resultado: são 424 páginas em capa dura, a R$ 68,00, já na terceira edição.
A edição de grandes filósofos vivos e complexos corre em paralelo ao fenômeno de popularização da filosofia, seja por obras de introdução que inundam as prateleiras, seja por títulos de autoajuda, dos quais "Mais Platão e Menos Prozac" é o mais emblemático representante, seja por livros em que os próprios filósofos se dedicam a tornar acessível seu pensamento, facilitando as vendas. É o que está acontecendo, por exemplo, com o americano Michael J. Sandel. Proclamado pela editora Civilização Brasileira como o "filósofo político mais importante da atualidade", o professor de Harvard lança sua segunda tradução: "O Que o Dinheiro não Compra", que chega no rastro do sucesso de "Justiça - O Que É Fazer a Coisa Certa", edição dos cursos que já levaram mais de 15 mil alunos à sala de aula.
Há outra linha rentável de traduções, a de autores que ganharam grande notoriedade na mídia, como o esloveno Slavoj Zizek. Suas obras interessam também pelo caráter ideológico. É como Ivana Jinkings, diretora editorial da Boitempo, justifica o investimento nos livros dele, dos quais 7 entre os 16 títulos já publicados estão traduzidos pela editora. O lado da obra de Zizek mais voltado para a psicanálise reúne outros cinco títulos editados pela carioca Jorge Zahar Editora. "É dos autores mais instigantes da atualidade, que contribuem de forma ampla para reconstruir um arcabouço teórico da esquerda no mundo", diz Ivana.
O catálogo da Boitempo é ideologicamente orientado para autores de esquerda e privilegia pensadores como o húngaro István Mészáros e o francês Alain Badiou. Mesmo do italiano Agamben os títulos escolhidos ("Estado de Exceção", "Profanações", "O Que Resta de Auschwitz", "O Reino e a Glória") foram os dedicados diretamente a questões políticas. "São filósofos engajados, que despertam interesse não apenas na academia, mas também nos meios sindical e político", reconhece.
Por ter identificado crescente interesse de alunos de graduação e até de ensino médio, a Boitempo se empenha em promover os autores nas universidades e se orgulha de lotar auditórios com os debates que organiza. Foi o que ocorreu quando o geógrafo inglês David Harvey esteve no Brasil, no início do ano, e reuniu multidões nas universidades para lançar "O Enigma do Capital e as Crises do Capitalismo". A Boitempo já tem comprados os direitos de "A Companion to Marx's Capital", com previsão de lançamento para o ano que vem. Sucesso de público em sala de aula, na Universidade da Cidade de Nova York, e na internet, onde as aulas estão disponíveis em vídeo, o livro é uma coletânea de seus cursos sobre Marx. O crescente interesse nesse filósofo alemão do século XIX é só mais uma prova de que o diagnóstico de Sloterdijk pode estar certo: a filosofia está morrendo, mas não consegue morrer porque sua tarefa não foi cumprida.
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*Carla Rodrigues é professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-Rio), doutora em filosofia e pesquisadora do CNPq
Fonte: Valor Econômico on line, 31/08/2012 - http://www.valor.com.br/cultura/2811542/filosofia-esta-viva

A missão da família no Ano da Fé

Entrevista com Jowita Kostrzewska, correspondente do semanário católico Niedziela
 

Qual é o papel da família no contexto 
da nova evangelização 
e na celebração do Ano da Fé? 

ZENIT fez esta pergunta a Jowita Kostrzewska, correspondente do Niedziela, semanário católico polonês, e voluntário em atividades de caridade da igreja local.

Mariusz: No mundo contemporâneo, falamos de crise familiar. Ao mesmo tempo, alguns reafirmam a família como crucial para o testemunho no Ano da Fé, que terá início em outubro. Qual é o seu ponto de vista?
Jowita: Hoje em dia, é fácil ver a crescente crise da família. Em muitas famílias, surgem problemas graves como a falta de trabalho e de recursos para uma vida digna. E quando não há ajuda externa, vem a solidão, a falta de esperança, e aí ocorrem tragédias e dramas. Por outro lado, na correria da vida moderna, as pessoas estão tão envolvidas no trabalho que muitas vezes não têm tempo para os filhos. Nas famílias, os laços de afeto tendem a se enfraquecer. O utilitarismo, a dependência cada vez mais obsessiva dos ritmos extremos de trabalho, a redução do tempo dedicado à vida emocional, tudo isso leva à desagregação da família.
O problema é especialmente verdadeiro para as pessoas que vivem o casamento de maneira superficial. Um número crescente de divórcios acontece quando as pessoas não lutam pela unidade e pelo fortalecimento da dimensão sagrada das suas famílias. Não se esforçam para fortalecer os laços e as relações. Essas situações ocorrem frequentemente quando Deus e a fé não estão no lugar certo. Eu acho que o Ano da Fé será uma boa oportunidade e um evento extraordinário para fortalecer as famílias.

Mariusz: Que frutos são esperados no Ano da Fé?
Jowita: Primeiro, eu espero que o Ano da Fé aproxime a família do evangelho de Cristo. As inúmeras crises nas famílias surgem quando não há segurança nas relações entre pais e filhos, mas especialmente quando não há valores evangélicos, como amor, esperança, fé, confiança, lealdade e verdade. Quando falta na família o evangelho de Cristo, os jovens muitas vezes se refugiam na desordem e no relativismo, tornando-se vítimas dos excessos, incluindo as drogas e o álcool. E dão um mau exemplo. As pessoas que não vivem nem imaginam um modelo adequado de família terão dificuldades no futuro para criar um relacionamento verdadeiro e sólido em família. É por isso que é tão importante construir relacionamentos familiares baseados em valores verdadeiros, particularmente os valores do evangelho. O Ano da Fé é um momento ideal para parar e pensar no papel da família no mundo de hoje.

Mariusz: Fala-se hoje em diferentes formas de família. Qual é a sua opinião sobre isto?
Jowita: Eu penso particularmente na família natural, que tem um papel muito importante no mundo moderno e um impacto enorme na boa educação das crianças e dos jovens. As famílias são o lugar onde a pessoa descobre e vê praticados os valores fundamentais que serão necessários para o futuro. A família é o primeiro lugar onde se vê e se ensina a fé, a responsabilidade para com os outros. A família é uma escola de amor.

Mariusz: A secularização afetou muitas famílias. A transmissão da fé de pai para filho não é mais uma prática sólida. Alguns pais crentes acham que não é necessário transmitir a fé para os filhos. Há quem ache que as crianças têm que decidir livremente se elas querem uma religião e qual. Qual é a sua visão sobre este fenômeno?
Jowita: Eu acredito que o Ano da Fé é muito importante para aprofundar na qualidade e na quantidade das relações familiares. Vamos ter a oportunidade de refletir sobre o que é a fé realmente e para transmiti-la.
No Ano da Fé, eu acho que a família tem que procurar mais tempo para ficar junta, para ler a bíblia e rezar, mas também para conversar, rir, compartilhar alegrias e tristezas, reforçar os laços de afeto. É muito importante participar em família na missa do domingo. Se a nossa fé é forte, ela vai nos ajudar a superar as maiores dificuldades.
Para as famílias crentes, o Ano da Fé é uma oportunidade para evangelizar e ajudar as famílias afetadas pela crise, aquelas que mais precisam de ajuda. Temos que dar apoio espiritual e material para essas famílias. Assim, vamos descobrir muitos tesouros espirituais. Eu faço questão de mencionar aqui os documentos do concílio Vaticano II e o pensamento do beato João Paulo II, que sublinham que “a família é sagrada”.
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Fonte:  ROMA, quinta-feira, 30 de agosto de 2012 (ZENIT.org) –
Reportagem por  Mariusz Frukacz

Direita e esquerda – o que é isso?

Paulo Ghiraldelli Jr.*

 
Os liberais inventaram a igualdade perante a lei. Nada de ser julgado pelo dono da terra, segundo seus critérios voláteis e idiossincráticos. A lei é a lei: escrita, sempre igual, aplicável da mesma maneira ao rico e ao pobre, ao coxo e ao lépido, ao homem e à mulher, ao branco e ao negro etc.
Os conservadores tradicionais nunca gostaram do liberalismo. Diziam eles: não somos iguais, então, por que a lei deve ser igual em sua aplicação?  Partindo dessa ideia, sempre tentaram criar situações especiais, de modo que a justiça pudesse ser cega, mas não tanto a ponto de não querer notar o rosto magnânimo dos ricos e poderosos.
A esquerda descobriu um dia que talvez os conservadores tivessem lá alguma razão: não somos iguais. E mais: se quisermos lutar por uma comunidade de igualitarismo rasteiro, vamos acabar construindo antes uma granja industrial que uma sociedade. Então, a esquerda, ao menos a mais inteligente, começou a redirecionar sua oposição aos liberais, sem se igualar à oposição dos conservadores tradicionais. Passou a dizer que não somos iguais e, por isso mesmo, não conseguimos nem ser iguais perante a lei. Para sermos iguais perante a lei teríamos de ter mecanismos de compensação no meio do caminho, de modo que, ao fim e ao cabo, pudéssemos ser iguais perante a lei.
Foi assim que do liberalismo tradicional chegamos ao primeiro neoliberalismo, como se dizia na América, e à social-democracia, como se dizia na Europa. Nos Estados Unidos, foi a época do New Deal, na Europa, foi a época do pós-Guerra.
O liberalismo social americano e a social democracia europeia tiveram seus altos e baixos, nós sabemos bem, mas estão longe de ser uma ideia descartável. São boas políticas. São de base inteligente. Todavia, nos dois casos, elas demandam um carreamento dos recursos dos impostos para as políticas sociais que visam fazer com que os menos ricos e menos poderosos não cheguem aos tribunais de um modo tão desvantajoso que, enfim, acabe por gerar uma justiça não cega. Sempre há o perigo que a justiça tire a venda dos olhos e privilegie o rico se o pobre, ao seu lado, é muito pobre a ponto de ser insignificante. Afinal, se a justiça é cega, é para olhar para dois e não ver nenhum dos dois. No entanto, se um dos dois é muito insignificante a ponto de nem ser uma pessoa, de nem existir, qual a razão da justiça ter de ficar com venda nos olhos? Não há dois, há um só para ser julgado. Então, não há mal em tirar a venda e ver quem é o réu. Fazer com que o mais humilde não chegue ao tribunal tão pobre e tão sem poder a ponto de ser descartado como alguma coisa que nem é existente, é a função das políticas sociais que vieram após o liberalismo clássico.
A direita democrática quer diminuir a ação dessas políticas sociais. Ela invoca o perigo da feminilização da sociedade. Ela diz que cada um, na sociedade, venha de onde vier, deve trilhar o seu caminho de fracassos. O fracasso, diz ela, faz com que cada um se torne humano, isto é, saiba o que é a dor, e então possa compreender a dor do outro. Sentir o fracasso e a dor torna todos menos maricas, cria uma sociedade com pessoas não cruéis, porque o conhecimento da dor produz pessoas másculas, que sabem que para sair do buraco é preciso coragem e determinação, porque não haverá nada que possa ajudá-las. Assim, os conservadores entendem que ao fazer das pessoas “gente máscula” terminará por ter uma sociedade com menos problemas, com menos manha, fintas e matreirices.

 

A esquerda duvida muito que o fracasso individual de cada um ajude a se ter, ao final, um conjunto social melhor. Para a esquerda o fracasso cria antes de tudo o ressentimento. A esquerda nem precisaria ler Nietzsche para aprender isso. Marx falou disso quando comentou sobre o “comunismo de inveja”. Os ressentidos não desejariam o fim da propriedade privada para organizar uma nova sociedade, mas apenas para ter o gosto de ver o patrimônio dos ricos em suas mãos, enquanto funcionários públicos da nova ordem.
Fracasso e perda, para determinada esquerda, nunca foi atrativo. Nisso, ela se opôs à direita. Esta, por sua vez, acusou a esquerda de ser “religiosa”, ou seja, de usar da política social como que um segundo cristianismo, uma forma de proteger os pobres, então tomados como “coitadinhos”. A esquerda retrucou dizendo que o cristianismo estava era na direita, que queria que todos passassem, efetivamente, pelo pecado e expulsão do paraíso, uma vez que só o fracasso e a dor dariam condições de fazer o homem ser alguma coisa digna para uma sociedade justa. Para a esquerda, ter o estado fornecendo um apoio nunca foi um modo de gerar “coitadinhos”, pois o que gera este tipo de personalidade, segundo a esquerda, é justamente a vida em condições indignas que anos e anos de pobreza podem produzir. O que gera o “coitadinho”, efetivamente, para a esquerda, é chegar aos tribunais e, tendo razão, sempre perder.
Esse debate entre esquerda e direita não está empatado. Por que as vitórias de um lado e outro não se dão em simetria. Nenhuma sociedade ocidental cedeu à direita totalmente, mesmo após a onda de mais de vinte anos de políticas autodenominadas neoliberais (em uma segunda forma), caracterizadas pela tese da retirada do estado do comando das políticas sociais. Assim, em termos práticos, os Welfare States do mundo não foram destruídos. Mas, é certo, há muito mais gente hoje que ontem acreditando que talvez não seja bom pagar impostos como pagamos, porque esse dinheiro vai ser carreado para a política social e esta, enfim, não irá necessariamente gerar uma sociedade de pessoas melhores. A tese da direita é que gente que é ajudada por política social cresce sem fibra moral e, enfim, terá pouco a oferecer em qualquer tipo de organização social.
Desse modo, o resultado que temos hoje, no Ocidente, é que em termos de estrutura da organização legislativa dos países, o Welfare State não perdeu muito, mas, em termos de mentalidade, estamos longe daquela ideia dos anos sessenta, de generosidade de todos para com todos, quando vários dos que educam os educadores começaram a insistir que nenhum de nós precisava do Calvário para ser gente.
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*Filósofo. Escritor e professor da UFRRJ
 Fonte: http://ghiraldelli.pro.br/2012/08/29/direita-e-esquerda-o-que-e-isso/

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Livro do ilustrador e quadrinista Shaun Tan ganha versão em português

Ilustração do livro 'A Coisa Perdida', de Shaun Tan - Divulgação
Divulgação
Ilustração do livro 'A Coisa Perdida', de Shaun Tan

Em 'A Coisa Perdida', uma criatura estranha leva a refletir sobre tudo o que foge de classificações


ARYANE CARARO - O Estado de S.Paulo
Shaun Tan não queria escrever uma grande história. Pelo menos não era o que tinha em mente quando começou a rabiscar, na mesa da cozinha, um homem e um caranguejo enorme na praia. O australiano tinha acabado de ver a foto de um caranguejo azul em uma revista e pôs o homem ali apenas para dar uma noção de escala. Não havia enredo nem ideia genial por trás. Mas eles pareciam conversar. E daqueles esboços surgiu A Coisa Perdida que, publicada em 2000, conquistou menção honrosa na Feira Internacional do Livro de Bolonha, virou peça de teatro e ganhou Oscar de melhor curta de animação de 2011. Agora, a coisa acaba de achar o caminho do Brasil, trazida pelas Edições SM. E pode fazer adultos e crianças se perderem em pensamentos sobre tudo o que parece perdido ou não se encaixa.

No livro, uma estranha criatura que se alimenta de enfeites natalinos é encontrada na praia por um garoto. Meio máquina, meio polvo e caranguejo, ela não tem definição ou origem conhecida. Está perdida e triste. Mas é amigável. Tanto que o rapaz decide ajudá-la a encontrar seu lugar. Na cidade de céu e cidadãos cinza, eles passam sem chamar a atenção. Surreal.

A resposta parece vir do anúncio do Departamento Federal de Tralhas e Troços. Mas, nesta repartição burocrática, uma seta surge para salvar a coisa do esquecimento. Ela aponta para um não lugar colorido, atrás de uma porta, onde os seres estranhos são felizes. A sanfona toca sozinha, a gaiola tem asas e o compasso dança em rodopios.

Não há respostas claras. O próprio Shaun, ganhador do Astrid Lindgren Memorial Award 2011 e autor de A Árvore Vermelha e A Chegada, vive encontrando novos significados: crítica ao racionalismo econômico, à burocracia e à alienação, transição da infância para a idade adulta. Por e-mail, ele fala mais sobre essas coisas. Mas, num livro em que ideias e sentimentos são evocados, não explicados, uma frase do narrador prevalece: "Essa é a história. E, por favor, não me pergunte qual é a moral".

O que é a coisa perdida?

Esta é uma boa questão. Poderia dizer que toda a história é, na verdade, apenas um modo elaborado de perguntar isso. Para ser honesto, não sei! É por isso que gosto muito dela. Originalmente, imaginei uma criatura que pudesse ser levada à praia pelo mar, um mutante de um estranho acidente de fábrica ou ainda algo do espaço, mas percebi que essas explicações não são importantes. Simplesmente gostei da ideia de um animal amigável, que "não vem de lugar nenhum e não pertence a lugar algum".

Por que os rabiscos viraram livro?

Só pensei que era uma grande e simples ideia. E queria saber com o que a coisa se parecia, o que aconteceria, porque, no início, eu não sabia. Isso é uma motivação. Até começar a fazer, não é fácil imaginar.

Qual é o lugar para as coisas perdidas?

É uma espécie de lugar nenhum, sem nomes ou significados, onde qualquer coisa é possível e nada pode ser classificado: o reino da possibilidade pura. Se ele existe em algum lugar, é só ultrapassar a fronteira de cada palavra ou pensamento consciente, sempre próxima, mas nunca inteiramente visível, e facilmente esquecida quando ficamos mais velhos.

O que você já perdeu?

Perdi animais de estimação, um gato que fugiu e, mais recentemente, um pássaro. Fico feliz em dizer que eles foram recuperados - você nunca deve desistir cedo demais! Muitas vezes vejo anúncios sobre cães e gatos perdidos (ou encontrados) e fico fascinado pelo drama por trás disso. São incrivelmente comoventes e fico muito preocupado.

O que você já encontrou e levou para casa?

Nosso primeiro gato (que fugiu) vagava na rua perto da minha escola quando eu tinha uns 10 anos. O diretor, um cara meio estranho, ameaçou exterminá-lo a menos que alguém o levasse para casa. Então, meu irmão e eu nos oferecemos e carregamos aquele grande e mal-humorado gato para casa. É claro, ele fugiu. Mas, na segunda vez que o recuperamos, dias depois, ele acabou ficando com a gente por 10 anos. A Coisa Perdida é, em parte, inspirada por essa lembrança, especialmente quando escondemos o gato no galpão, pois não sabíamos como contar a nossos pais.

O mundo real tem muitas coisas perdidas?

Sim, acho que uma coisa perdida é qualquer uma que nós possamos ignorar porque é muito difícil, inconveniente ou desagradável para tentar entender ou fazer algo a respeito. Essas coisas podem ser objetos, animais, pessoas, situações ou apenas ideias.

Você já se sentiu perdido?

Sim, muitas vezes, e acho que a maioria de nós se sente assim em alguns momentos. Você pode se sentir perdido em uma situação estranha, como numa festa em que não conhece ninguém, ou se mudar para uma nova casa, escola, trabalho ou país. Ou pode se sentir perdido sem nenhuma razão especial, apenas por querer saber por que existe ou não saber para onde sua vida está indo. Não acho que isso seja sempre ruim, porque pode fazer você pensar sobre seu lugar no mundo de uma forma positiva.

Que artistas o inspiram?

São tantos. De modo geral, qualquer artista ou escritor que olhe o mundo de um ângulo estranho, a fim de revelar algo especial e verdadeiro. Não importa se eles são bobos ou sérios, grandes obras de literatura adulta ou livros infantis, desde que reconheçam que a realidade cotidiana pode realmente ser bastante estranha quando nós paramos e a examinamos de perto.

A COISA PERDIDA
Autor: Shaun Tan
Tradução: Sérgio Marinho
Editora: Edições SM (32 págs., R$ 37)
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Fonte: Estadão on line, 30/08/2012

Pais e filhos


Entenda melhor a proposta do livro “Pais Santos, Filhos Nem Tantos” em entrevista do autor, Carlos Catito Grzybowski, ao Instituto Jetro
 
O Instituto Jetro entrevistou no dia 17 deste mês Carlos Catito Grzybowski, autor do livro Pais Santos, Filhos Nem Tanto, o lançamento de junho da Editora Ultimato. Leia a entrevista abaixo e entenda melhor a proposta do livro.
 
Quem não gostaria de ter uma receita infalível para a criação de filhos? O livro Pais Santos, Filhos Nem Tanto mostra uma “família de verdade”, com erros e acertos, sua dinâmica interna e as verdades bíblicas sobre as quais devemos nos debruçar para aprender melhor sobre a tarefa de cuidar e educar filhos.
 
Nem mesmo o fato de Davi ser chamado na Bíblia de “homem segundo o coração de Deus” garantiu ao rei de Israel sucesso como pai. Por quê? O que o modelo de Davi, as relações familiares e outros aspectos descritos na narrativa bíblica nos dizem?
 
Para falar sobre esta realidade dual, o Instituto Jetro entrevistou o Prof. Dr. Carlos “Catito” Grzybowski.
 
Carlos “Catito” Grzybowski é psicólogo e terapeuta familiar, mestre em Psicologia da Adolescência, PhD e doutor em Linguística Aplicada. Coordenador de EIRENE do Brasil e Assessor para Assuntos Internacionais do CPPC. Escritor dos livros: “Família: crise  e crescimento”, “De bençãos e traições”, “Como se livrar de um mau casamento”, “Macho e fêmea os criou – celebrando a sexualidade”, “Pais santos, filhos nem tanto – a trajetória de um pai segundo o coração de Deus.”

Por que este livro: “Pais santos, filhos nem tanto”? 
Catito - A ideia de escrever o livro Pais santos, filhos nem tanto surgiu depois que eu ouvi, ainda nos anos 90, uma pregação do Pr. Caio Fábio a respeito deste assunto e li o livreto que ele escreveu deste sermão. Então comecei a estudar, junto com minha esposa, a partir do enfoque sistêmico, a família de Davi. Descobrimos então, muitos aspectos disfuncionais que contribuíram para a desgraça familiar de Davi. Não tínhamos a intenção de escrever um manual sobre educação de filhos como já existem muitos na prateleira, mas analisar como Davi, um homem devoto a Deus, excelente rei, estrategista político e militar, cometeu tantos erros como pai. É preciso olhar para o modelo familiar de Davi, e a partir daí lançar luz sobre as próprias dinâmicas familiares a fim de não cair nas mesmas armadilhas que ele caiu.
 
Qual a “receita” para criarmos filhos tementes ao Senhor?
Catito - Um psicólogo e terapeuta familiar argentino, Daniel Schipanni, em um de seus livros intitulados “Nuestros hijos e sus necesidades básicas” diz que o melhor que um pai pode fazer por seu filho é amar a mãe deste filho (sua esposa), e o melhor que uma mãe pode fazer por seu filho é amar o pai desta criança (seu marido). E ainda: “O amor entre os pais condiciona a capacidade de amar por parte dos filhos. Saber que seus pais se amam traz segurança, estabilidade, respeito e gozo pela vida. Desta forma, abrem o caminho para que possam compreender o amor de Deus ou a beleza do sexo, entre outras coisas”. Essa para mim é a melhor “receita”.
 
Davi, um “homem segundo o coração de Deus”, falhou como pai. Como pessoas com ótimo relacionamento com Deus podem ter fracassos na vida familiar?
Catito - No texto central de Deuteronômio – o “Shemá” – descrito no capítulo 6, versos 5 a 7, a Palavra de Deus afirma que devemos falar “assentado em casa” (ensino formal, contando histórias, lendo a Bíblia); “andando pelo caminho” (aproveitar as muitas horas que passamos no trânsito e na rua conversando sobre coisas que vemos juntos, avaliando no contexto o que é certo e errado); “deitando-te e levantando-te”. Isso resume que em todos os momentos devemos estar prontos para ensinar, orar e vivenciar nossa fé. Parece-me que Davi não tinha este momento especial com seus filhos, pois estava muito ocupado guerreando ou gerindo o reino de Israel. Os filhos tinham um rei a quem admirar, um compositor a quem apreciar, mas não tinham um pai a quem recorrer com suas “infantilidades”. Davi foi o “homem segundo o coração de Deus”, mas não soube transmitir esta vivência aos seus filhos.
 
No livro você utiliza-se de uma análise com enfoque sistêmico. Por quê?
Catito - Esse é o enfoque com o qual trabalho há 30 anos com casais e famílias. Não é possível descrever os detalhes de tal enfoque, mas acredito que o mesmo é o que mais se aproxima de uma visão integral do ser humano e que parte do princípio que somos seres criados para viver em relação, portanto, neste sentido aproxima-se da antropologia hebraico-cristã também.
 
Como disse, Davi era íntimo de Deus, um excelente estrategista. O que o cegou tanto a ponto de não perceber/agir a respeito do que estava acontecendo com seus filhos?
Catito - Na minha interpretação basicamente Davi não teve a coragem de confrontar seus filhos com seus pecados, talvez porque ele não havia perdoado a si próprio pelo pecado cometido com Bate-Seba. Deus já o havia perdoado, mas Davi talvez não tenha conseguido aceitar este perdão plenamente. Por isso, se sentia impotente para repreender seus filhos, o que gerou toda a catástrofe familiar.
 
Alguns líderes dirão: “a culpa é do diabo”. O que pensa a respeito?
Catito -  Sem dúvida que o diabo, como o próprio Senhor Jesus afirmou, vem para roubar, matar e destruir, e vai aproveitar todas as oportunidades que puder para atingir seus intentos. Mas também a Bíblia é clara em dizer que se resistirmos ao diabo ele fugirá de nós (Tg 4.7). Nada mais “apavora” o diabo que a expressão do amor genuíno e incodicional manifesto nas relações humanas – que é o mandamento que Jesus equiparou ao amor a Deus (Mt 22.39). Na forma concreta este amor se manifesta na dedicação e tempo que dispensamos para estarmos interessadamente atentos aos outros – principalmente nosso cônjuge e filhos!
 
Quais os principais erros e acertos da família de Davi?
Catito -  Em geral os próprios filhos dão as dicas de que as coisas não estão bem! Quando um filho muda seu comportamento de forma estranha, é necessário estar atento e procurar um caminho para que o jovem possa se abrir e revelar o que o está afligindo. Ao verificarmos a vida dos filhos de Davi, percebemos que eles deram muitas dicas ao seu pai de que as coisas não estavam bem. Mas Davi foi incapaz de enfrentar os problemas, que incluíram incesto, homicídio e rebeldia explícita. Ele simplesmente se omitiu, fez de conta que não estava acontecendo nada, delegou ao avô de Absalão, Talmai, que trouxesse o filho à razão. Delegou a Joabe a responsabilidade de trazer Absalão de volta a Jerusalém. O resultado foi extremamente desastroso, resultou na morte de dois de seus filhos, além da desonra da filha. Resumindo: omissão na construção ativa de um relacionamento entre pai e filho e o delegar a educação dos filhos a terceiros foram os principais erros desta família. Por paradoxal que pareça, o mais acertado em toda esta confusão foram as condutas (iniciais) disfuncionais de Absalão, porque elas estavam denunciando algo que não estava bem na família. Entretanto Absalão também não soube traduzir esta sua inquietação e sensibilidade em um diálogo maduro e profícuo com o pai.
 
Sobre quais verdades bíblicas devemos nos debruçar para aprender melhor sobre a tarefa de cuidar e educar filhos?
Catito - Como citei acima, basta se ater ao “shemá” de Deuteronômio 6. Verifico que grande parte dos pais não dedica tempo para falar de Deus, dos valores do Evangelho, da sua própria fé, do que Deus faz e fez em suas próprias vidas aos filhos. A vivência cristã tem de ser integrada com a educação de uma forma natural, os filhos têm antenas que percebem quando se ensina algo que não se pratica. O exercício da fé deve permear todos os momentos da vida, norteando as atitudes que se tomam no dia a dia. Se os pais não têm temor do Senhor, se eles não amam a Deus acima de todas as coisas vai ser muito difícil ensinar aos filhos uma fé que não praticam.
 
Quais as lições que esta desarmonia familiar na casa de Davi pode ensinar para aqueles que exercem liderança?
Catito -  A simples verdade dita por Paulo a Timóteo (1 Tm 3.5) – qualquer líder deve saber primeiro governar sua própria casa. Lembro que no Novo Testamento existe somente um modelo de liderança apontada por Jesus: o líder servo (Jo 13.12-17). Esse ponto é delicado, pois nosso machismo histórico sempre aponta para a ideia de que os pais devem ser servidos no lar – a Bíblia aponta o contrário. Nesse sentido a sujeição é mútua (Ef 5.21) e a liderança é sempre de serviço – qual filho que não vai querer seguir um líder/pai que dá a sua vida em favor dele? Dar a vida significa sim morrer – para o tempo, interesses, etc, que usaríamos em nosso favor para o usarmos em favor de nossos filhos e nosso cônjuge. O difícil é acreditar que depois destas pequenas “mortes” sempre haverá ressurreição – para algo mais glorioso, pois a essência do ensino bíblico é que não há morte sem ressurreição. Realmente somos homens de pequena fé!
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Fonte:  http://www.ultimato.com.br/conteudo/pais-e-filhos

Bin Laden estava desarmado ao ser morto, diz livro


Osama bin Laden em um dos vídeos encontrados pelos soldados americanos em seu esconderijo em Abbottabad, no Paquistão

Osama bin Laden em um dos vídeos encontrados pelos soldados americanos em seu esconderijo em Abbottabad, no Paquistão (Departamento de Defesa dos EUA/Reprodução/AFP)

Integrante do comando de elite que eliminou o terrorista apresenta versão diferente da oficial em obra que estará à venda no começo de setembro. Pentágono diz nesta 4ª que está 'analisando o texto'


Um novo relato da extraordinária operação militar americana que eliminou o terrorista Osama bin Laden em maio do ano passado causa controvérsias antes mesmo de chegar às livrarias. O livro No Easy Day: The Firsthand Account of the Mission that Killed Osama Bin Laden (Nenhum Dia é Fácil: Relato em Primeira Mão da Missão que Matou Osama Bin Laden, em tradução livre), com lançamento anteriormente previsto para 11 de setembro, deve estar disponível a partir do dia 4, devido à grande procura on-line. 
AFP
Capa do livro 'No Easy Day'
Capa do livro 'No Easy Day'

O texto foi escrito por um ex-comandante da Marinha que participou da operação que executou o terrorista, sob o pseudônimo de Mark Owen. Ele foi identificado pela rede Fox News, que teve acesso ao livro na semana passada, como Matt Bissonnette, de 36 anos, um ex-membro do comando de elite Team Six, da Navy Seal - a força de elite da marinha americana responsável pelo ataque. A expressão que dá título ao livro é usada pelos seals como uma espécie de lema e quer dizer que eles vivem sob risco permanente, e os únicos dias fáceis são aqueles que já passaram.
Contradições - Publicações americanas que tiveram acesso ao livro antes do lançamento afirmam que o autor apresenta uma versão surpreendente da morte de Bin Laden: ele estaria desarmado quando foi ferido pelos seals, em seu esconderijo em Abbottabad, no Paquistão. A versão oficial diz que o terrorista resistiu à prisão, estava armado e foi morto pelos comandos enquanto procurava uma arma para atirar contra eles.
Em trechos do livro, citados pela imprensa americana, o autor conta que o chefe de sua equipe viu um homem aparecer rapidamente na porta do quarto onde estaria Bin Laden e disparou. "Estava a menos de cinco passos de chegar ao topo (da escada) quando ouvi tiros. Eu não podia dizer, da posição onde estava, se os tiros acertaram o alvo ou não", diz o ex-soldado. Segundo o autor, o terrorista estava desarmado quando os soldados entraram no quarto. Eles teriam visto mulheres sobre o corpo de Bin Laden - que usava uma camiseta sem mangas branca, calças soltas e uma túnica.
"Sangue e pedaços de cérebro se espalhavam para fora do crânio. Ele ainda se contorcia em convulsões", conta Owen. Só então, ele e outro soldado atiraram no peito de Bin Laden, que ficou inerte no chão. Depois, confirmaram a identidade do terrorista com a ajuda das mulheres que estavam no quarto. De acordo com o livro, havia armas no cômodo, mas nenhuma delas estava preparada para ser utilizada. Ele afirma que não houve tiroteio de 40 minutos e que o terrorista não teve tempo de encarar os seus captores.
Owen afirma que os soldados já previam que o presidente Barack Obama procuraria tirar vantagem da morte de Bin Laden para se reeleger. O livro, assim, deve se tornar tema relevante na campanha eleitoral americana. Seu lançamento ocorre menos de dois meses antes das eleições presidenciais, nas quais o presidente democrata Barack Obama enfrentará o republicano Mitt Romney. A eliminação de Bin Laden, que conseguiu escapar das forças americanas por uma década depois dos atentados de 11 de setembro, é um dos grandes trunfos políticos da atual administração

Reação - O anúncio da publicação do livro parece ter tomado o Pentágono de surpresa. Na semana passada, o órgão disse à agência France Presse não ter conhecimento de que alguma autoridade da Defesa houvesse lido o manuscrito. O autor do livro não teria respeitado as regras para esses casos, segundo as quais os militares reformados que pretentem publicar livros devem antes entregar os manuscritos às autoridades, para que informações que eventualmente coloquem em perigo a segurança nacional sejam vetadas. O Pentágono anunciou nesta quarta-feira que obteve uma cópia da obra e a está analisando.
O sucesso antecipado do livro foi tamanho, que já surgem boatos sobre uma possível adaptação para o cinema. Os estúdios da DreamWorks teriam demonstrarado interesse no roteiro e Steven Spielberg seria um dos nomes cogitados para participar da produção do filme. Por enquanto, no entanto, essas possibilidades não passam de rumores.
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Fonte:  http://veja.abril.com.br/noticia/internacional/bin-laden-estava-desarmado-ao-ser-morto-diz-livro

Cientista americano destaca os desafios da ciência para o século XXI

 
O século XXI é um dos mais desafiadores para humanidade diante das mudanças climáticas e degradação da terra em meio ao crescimento da população mundial que precisa de garantia de alimentos, de água com qualidade e energia. A avaliação é do cientista e presidente da Rede Interamericana de Academias de Ciências (Ianas) e professor da Universidade da Califórnia (EUA), Michael Clegg, em videoconferência realizada na tarde de ontem (29) na sede da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), onde é realizado o primeiro encontro preparatório para a sexta edição do Fórum Mundial de Ciência que será realizado no Rio de Janeiro, em novembro de 2013.


Com o tema "O papel das redes de Academias de Ciência", a palestra de Clegg foi realizada por videoconferência em razão do furacão Isaac que atrapalhou sua vinda ao Brasil.

"O século XXI é um dos mais desafiadores para a ciência e a humanidade porque as estimativas são de crescimento da população mundial nos próximos anos, quando temos os grandes desafios internos de produzir alimentos, de garantir a qualidade da água e fornecer energia, em um momento em que enfrentamos mudanças climáticas que trazem grandes impactos no mundo todo", disse ele.

"Teremos de enfrentar, nessa transição, a degradação da terra e a preservação de ecossistemas e espécies. E esses desafios terão de ser enfrentados pela ciência", acrescentou.

Ao abordar o tema de sua palestra, o cientista fez uma pergunta. "Por que a voz da ciência é tão importante para o futuro?". Em seguida ele respondeu: "A resposta é porque a ciência é a forma mais aceitável de criação de conhecimento que lida, exclusivamente, com a forma com que os eventos acontecem; sempre precisando ser confirmada, reproduzida e sempre baseada nas evidências". Segundo ele, a evidência e a previsibilidade são os maiores valores da ciência.

O presidente da Ianas destacou que a ciência é também uma atividade social e considerou fundamental a ética na ciência. "O sistema ético da ciência é também crucial para o bem estar da humanidade no futuro. A ciência permite uma abertura e respeito pelo próximo e pela evidência".

Em sua palestra, Clegg discorreu sobre o papel das redes de Academias de Ciência que, segundo ele, têm de ter credibilidade para levar ao público informações sobre políticas de ciência e tecnologia para solucionar os problemas da sociedade; e sugerir programas educacionais para vários segmentos. 
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(Viviane Monteiro - Jornal da Ciência)

O capitalismo americano

José Luís Fiori*

Nos cerca de 250 anos de história independente, os EUA iniciaram - em média - uma guerra a cada três anos, exatamente como a Inglaterra. Contando com a vantagem de ser “membro por nascimento”, da pequena comunidade dos estados produtores da “ética internacional” que arbitram as “guerras justas” e o “livre comércio”.

“Years before the Declaration of Independence…Benjamin Franklin, George Washington and Thomas Jefferson, as well as a considerable ratio of New England´s most proeminent Congregationalist ministers already talked of America reaching the Mississippi or even the Pacific to become the next century great empire”
Kevin Phillips, “The Cousins´ Wars”, Basic Books, New York, 1999, P:116

A publicação - em 1894 - do livro do economista inglês, John A. Hobson (1858-1940) - “A Evolução do Capitalismo Moderno” - transformou-se numa referencia obrigatória para a interpretação do desenvolvimento econômico dos Estados Unidos. Depois de Hobson, vários historiadores e economistas retomaram sua tese sobre a originalidade radical do capitalismo americano, vis a vis o desenvolvimento europeu. Em particular, depois da Guerra de Secessão (1861-1865), com o surgimento das grandes corporações e do capital financeiro que teriam revolucionado a organização microeconômica, e mudado a face do capitalismo mundial. Do nosso ponto de vista, entretanto, estas transformações ajudam a entender o “milagre econômico” americano do início do século XX, mas não explicam as próprias transformações.

Os Estados Unidos foram o primeiro estado nacional que nasceu fora da Europa, mas não fora do sistema geopolítico e econômico europeu. Pode-se dizer inclusive, que a “Guerra da Independência” americana foi, em grande parte, um capítulo da disputa entre a Inglaterra e a França pela supremacia mundial. E sua conquista definitiva ocorreu entre as duas grandes guerras (“Dos 7 Anos” e “Bonapartista”) que definiram a hierarquia de poder internacional, e a supremacia inglesa, dentro e fora da Europa, a partir de 1815.

Durante este período de guerras, os Estados Unidos sempre se sentiram “cercados” e ameaçados - simultânea ou sucessivamente - pela Inglaterra, França e Espanha, e tiveram que negociar seu reconhecimento e suas fronteiras com o “núcleo duro” das Grandes Potências europeias.

Assim mesmo, os EUA acabaram se transformando no único estado nacional extra-europeu que nasceu de um império e de uma economia em plena expansão vitoriosa. Mais do que isto, durante a chamada “revolução industrial” que transformou os Estados Unidos – imediatamente - na primeira periferia “primário-exportadora” de sucesso da economia industrial inglesa. Situação econômica privilegiada que se consolidou e expandiu durante todo o século XIX, antes e depois da Guerra de Secessão, enquanto a Inglaterra abria espaços de expansão comercial para sua ex-colônia, e assumia a responsabilidade – em alguns momentos - por cerca de 60% do investimento direto dentro de todo o território norte-americano, que passou a fazer parte de uma espécie de “zona de co-prosperidade” anglo-saxônica , ou mesmo, num caso avant la lettre, de “desenvolvimento a convite”, da Inglaterra.


Por outro lado, desde sua independência, os Estados Unidos foram governados por uma elite coesa e com um intense commitment imperial, e mantiveram um ritmo de expansão política e territorial contínua, através da guerra, da diplomacia e do comércio. Antes da Guerra Civil, foram 37 “guerras indígenas”, e mais as Guerras do Texas e do México, em 1837 e 1846, responsáveis pela duplicação do território americano. Mais a frente, vieram a Guerra Civil e a Guerra Hispano-Americana, e uma sucessão de intervenções militares no Caribe, num movimento de expansão que se acelerou no século XX, alcançando Europa, Ásia, Oriente Médio e África. De forma que nos cerca de 250 anos de história independente, os EUA iniciaram - em média - uma guerra a cada três anos, exatamente igual como a Inglaterra. Contando com a vantagem de ser “membro por nascimento”, da pequena comunidade dos estados produtores da “ética internacional” que arbitram as “guerras justas” e o “livre comercio”.

A história segue e é extensa, mas já se pode dizer que ela fornece fortes indícios de que:

- o desenvolvimento econômico dos EUA não foi uma exceção, pelo contrário, foi uma parte essencial da expansão e das contradições do sistema inter-estatal e do capitalismo europeu;

- o sucesso do capitalismo americano não foi puramente endógeno, nem foi apenas uma obra das grandes corporações e do capital financeiro que nasceram à sombra da Guerra Civil;

- o “apoio externo” foi decisivo para o sucesso da economia americana, que foi sempre a principal “fronteira de expansão” do capital financeiro inglês;

- a “guerra contínua” teve um papel estratégico no desenho da política industrial e agrícola, e no desenvolvimento científico e tecnológico dos EUA;

- e por fim, a expansão política, territorial e bélica dos EUA foi na frente do processo de internacionalização das grandes corporações, do capital financeiro e da moeda norte-americana.

Uma história de desenvolvimento econômico como a das demais potências do sistema mundial, mas muito diferente da interpretação economicista de Hobson e seus discípulos.
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*José Luís Fiori, cientista político, é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Fonte:  http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=5750&boletim_id=1352&componente_id=22383
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“Nossos sonhos não cabem no capitalismo”

Para Fernando Meirelles, reconstrução da política exige superar lógicas que associam felicidade e sucesso a consumo e acumulação sem fim

Entrevista a Inês Castilho


Avançou de modo notável, nos últimos anos, a sensação de que o peso do poder econômico está desfigurando a democracia, a ponto de levá-la ao colapso. Um número crescente de pensadores, ativistas, cidadãos comuns dá-se conta de fenômenos como a mercantilização das eleições e a institucionalização do tráfico de influência. Envolvidos em disputas eleitorais cada vez mais caras, partidos e governantes comprometem-se profundamente com os interesses de grupos empresariais que nutrem suas campanhas políticas.
O dinheiro oferecido pelos financiadores é visto como um investimento e cobrado ao longo de cada dia de mandato. Com tal intensidade que muitos já não creem que seja possível adotar políticas contrárias aos interesses do poder econômico associado à política; e que mesmo decisões simples e de bom senso elementar – como a reconstrução de uma malha ferroviária no Brasil, ou a instalação de redes de ciclovias eficazes nas cidades – não saem do papel. Mas, se o diagnóstico é conhecido, as alternativas rareiam. Como excluir da política o Poder Corruptor?
O cineasta Fernando Meirelles formulou uma hipótese provocadora, em entrevista que concedeu à jornalista Inês Castilho, condutora da série de diálogos sobre Política Cidadã, produzida pelo Instituto de Pesquisas Ideafix, por solicitação do Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS). Suas respostas sugerem que uma nova política e um novo sistema econômico virão juntos. Ou seja, o que vivemos é o desgaste geral de nossas formas de socialização – um conjunto de relações que envolve produção de bens e serviços, formas de decisão coletiva, hierarquias concretas e simbólicas. Para superá-las será necessário levar muito adiante certas transformações culturais que já estão se dando.
Meirelles destaca a tensão entre política institucional (restrita aos “gabinetes e restaurantes”) e o intenso desejo de participação da sociedade (“sou muito mais convocado, como cidadão, que cinco anos atrás”). Ele lembra que não se trata apenas de discurso: atitudes transformadoras estão se multiplicando em todo o mundo. No entanto, esbarram em obstáculos estruturais: “a lógica do dinheiro é produzir sempre mais” e a dos políticos “esgota-se em mandatos de quatro anos”. Nenhum poder importa-se com as “perspectivas de longo prazo”, necessárias para preservar a vida.
Caberá à própria sociedade, conclui Meirelles, estabelecer uma ruptura. Não se trata da velha fórmula de tomada do poder de Estado – mas da “dificílima e demorada transformação das nossas vidas”. Só a empreenderemos, no entanto, se soubermos que se trata de construir um novo sistema: “a lógica do capitalismo (…) poderia fazer algum sentido (…) num mundo que não é mais o nosso”. A superação desta lógica implicará, entre outros passos, “valorizar bens não-materiais: educação, esporte, cultura, ciência – atividades humanas que não consomem o planeta e preenchem mais a alma que a busca desesperada pela reposição de bens”.
A entrevista completa de Fernando Meirelles, que abre nossa série, vem a seguir. Na próxima semana, a seção recebe o economista Ricardo Abramovay. (A.M.)

Qual sua percepção sobre a participação política do brasileiro?
A política no Brasil ainda é feita muito nos gabinetes e restaurantes, tem um quê de futebol, o interesse pelo jogo de poder entre os partidos vem antes do debate das ideias. Isso é muito frustrante para quem tenta acompanhar nossos homens públicos. A boa notícia é que, com o crescimento das redes sociais, a participação popular também tende a crescer e o processo político, a ficar mais transparente. A mobilização popular pela Ficha Limpa e contra o Código Florestal demonstraram que a população começa a ter mais peso nas decisões do país.

Que temas você acha que mobilizam a sociedade brasileira, hoje?
A falta de transparência dos partidos e do governo vem mobilizando a sociedade, já não é tão fácil ser corrupto, hoje. A preocupação com questões ambientais também mostra ser um forte tema para a moblização social. Isso já havia sido sentido com a expressiva votação que teve a Marina Silva na última eleição à presidência e foi reforçado agora, no processo de votação e veto parcial do Código Florestal, que contou com abaixo-assinado de 2 milhões de pessoas. Isso entre outras manifestações, incluindo a criação de sites especializados, transmissão ao vivo do congresso etc.

Que formas o cidadão comum tem de atuar politicamente?
Passei anos sem receber nenhum abaixo-assinado, agora semanalmente sou chamado a me posicionar sobre os mais diferentes temas, internos e externos. Sinto-me hoje muito mais convocado, como cidadão, do que cinco anos atrás, e estimula saber que muitos desses movimentos populares estão dando resultado. Está aí a primevera no norte da África que não nos deixa mentir.

Você vê alguma particularidade quanto ao jovem?
Os jovens talvez tenham menos interesse em política do que quem lê jornal e tem o hábito de se manter informado, mas estão cada vez mais plugados, graças às redes sociais. A era dos Sarneys, dos coronéis que trabalham em segredo, está acabando.

Você acha que a política institucional dá conta da democracia?
Sinto que os partidos não representam a vontade da população, não trabalham para o Estado nem para o bem do país – trabalham prioritariamente para se manter no poder. Não saberia inventar outro sistema, mas percebo que este não dá conta da complexidade do mundo de hoje. O ex-presidente Lula declarou recentemente em um programa de TV que aceitaria se candidatar novamente à presidência, para que o PSDB não ocupasse o lugar. Essa declaração infeliz resume a questão: o poder político é um jogo que se vence ou se perde, e é isso que mobiliza seus participantes – o país vem depois, quando vem. Outro aspecto que tem me chamado a atenção é que, por estarmos todos muito mais ligados, praticamente não há mais poder local. Um prefeito que não trabalhe com os outros prefeitos da região não consegue fazer seu trabalho direito. Países que não integrem órgãos internacionais nos quais se debatam os interesses comuns ficam de mãos atadas.

Os anos 60 marcaram época, politicamente. O que mudou de lá pra cá?
Nos anos 60 o mundo estava dividido entre esquerda e direita, estava-se do lado de cá ou do lado de lá. Quando você polariza, o jogo fica mais acessível e mais apaixonante, vira um Fla-Flu. Depois tivemos o período em que a nossa sociedade foi convidada a se calar, e então o mundo ficou muito mais complexo. Hoje a esquerda é apoiada, por exemplo, pelo José Sarney e pelo Aldo Rebelo – este, um comunista que vota com os ruralistas. Tudo é mais confuso, mais impenetrável. O pensamento e as fórmulas de governança dos anos 60 não cabem mais no mundo de hoje.

Você percebe uma mudança de valores, dos anos 60 pra cá?
Um grande valor hoje, praticamente inexistente 40 anos atrás, é em relação às questões ambientais. Há 40 anos o planeta era inesgotável, ainda estava sendo conquistado. Hoje temos a percepção de que vivemos num planeta onde os recursos são finitos e, pior, estão se esgotando rapidamente. A grande descoberta em termos de valor é entendermos a necessidade de pararmos de pensar como nações e passarmos a pensar como planeta. A ideia de soberania nacional vai aos poucos sendo revista, ou relativizada. A interdependência global é um dado inquestionável. Se queimarmos a Amazônia, não choverá no Sul e vai haver seca no centro do Brasil, o carbono liberado vai acelerar o aquecimento do planeta, geleiras irão derreter, rios que dependem delas deixarão de ser formados, populações ficarão sem suas fontes de alimentos. Tudo está ligado. Não tínhamos essa noção 40 anos atrás. Hoje sabemos que o degelo da Groenlândia vai afetar imensamente a vida de enorme população na Ásia que vive à beira-mar. Essas questões bateram à nossa porta e já estão nos atropelando. Apenas cegos, cínicos ou oportunistas se recusam a enxergar.

Um parêntese: a despeito disso tudo, existem 69 povos isolados indígenas no Brasil.
Sim, pequenas aldeias devidamente localizadas e demarcadas com GPS. Esses índios podem não estar nos vendo, mas sabemos exatamente onde eles estão, quantos são, e fotos deles estão disponíveis para qualquer um no Google Earth. Não tenho dúvidas de que, se um dia suas terras nos interessarem para a construção de barragens hidrelétricas, por exemplo, em pouco tempo estará justificada a invasão. Este roteiro não é novo, ainda se repete depois de 500 anos de história.

Quanto ao exercício da cidadania, você percebe mudanças?
Está na moda falar em cidadania, ser responsável pelo coletivo, mas estamos longe de uma noção verdadeira de que nossos atos afetam a vida do próximo e precisam ser repensados. Em alguns lugares onde tenho trabalhado sinto que a noção de se viver numa comunidade está bem mais incorporada do que aqui. Tenho um caso recente. Estava em Toronto e fui almoçar na casa de um produtor amigo. Ele serviu salada e depois tinha uma lentilha, pois sabe que sou vegetariano. Quando foi trocar meu prato, falei: “Não precisa, pode deixar”. Ele respondeu de bate-pronto: “Não tem problema porque eu espero a máquina encher, não vou gastar mais água lavando mais este prato”. Eu havia pensado em ficar com o prato para aproveitar o molhinho de azeite, mas a noção de que seus atos podem repercutir na vida dos outros, de que a água é um bem coletivo, está tão impregnada que ele nem entendeu minha intenção. No Brasil ainda estamos longe desta noção de cidadania. Mas está melhorando.

Alguma articulação ou movimento social, no Brasil e fora dele, chamou sua atenção nos últimos tempos?
Sim, os movimentos ambientalistas que questionam o nosso modelo de desenvolvimento, o business as usual. O impressionante é que os jornais comemoram o crescimento do consumo ou da economia como se isso ainda fosse saudável. Há movimentos mostrando que precisamos urgentemente fazer uma curva na história e buscar outros modelos de desenvolvimento. Os movimentos que lidam com estas questões são os mais importantes, hoje. Infelizmente nossos homens públicos trabalham com a perspectiva de futuro de três ou quatro anos, que é o quanto duram seus mandatos. Difícil construir um mundo sem perspectiva de longo ou longuíssimo prazo. Estamos ameaçados justamente por essa lógica.

E como fica a questão do consumo diante disso? O seu, o meu, o nosso?
Temos que mudar nosso padrão de consumo, rapidamente. Esta mudança precisaria ser como uma mobilização de guerra, na qual todos entendessem que precisam abrir mão de alguma coisa para poder prosseguir. Tenho feito mudanças nesse sentido na minha vida, mas talvez só quando os efeitos da carência de recursos baterem à nossa porta é que mudaremos de fato nossas vidas. A lógica do dinheiro como motor da sociedade é tão perversa quanto difícil de ser alterada. Sabemos, por exemplo, que há falta de alimento no mundo, e sabemos também que 40% do alimento produzido é desperdiçado no processo de produção, transporte, comercialização e preparação para o consumo. Contudo, quando olhamos para esta questão, a maneira de atacá-la é sempre o aumento da produção, e não o uso racional do que já existe. Para quem produz, transporta ou comercializa alimentos, o desperdício é boa notícia, pois significa maior demanda, mais renda. A racionalização do uso dos recursos é a nova economia de que o mundo precisa.
Li recentemente um editorial do Estadão [jornal O Estado de S.Paulo] no qual o Washington Novaes [jornalista e ambientalista] comentava o gosto dos governos pelas grandes obras. Dava exemplos de como pequenas medidas poderiam ser mais eficazes, mais racionais, falava de outra maneira de pensar a administração pública e a organização da sociedade. Um dos exemplos era a notícia de que a Caixa Econômica Federal, a partir de agora, não vai mais financiar moradias em lugares onde não houver água e esgoto disponíveis. É uma loucura pensar que até ontem o Estado financiava moradias que usavam os rios como esgoto. O texto falava sobre desperdício e trazia dados interessantes: no Brasil desperdiçamos 40% da água usada, e o estado de São Paulo vai fazer uma reformulação para desperdiçarmos 24%. No Japão desperdiçam-se 3%. Seguindo a mesma lógica, o pensamento dominante quando se fala em água é a construção de novas barragens, novos reservatórios, tratar mais água. Pensa-se sempre em novas obras, e no entanto há muita brecha para a racionalização. Temos que chegar ao ponto em que 100% do que é produzido possa ser reciclado, mas isso demanda uma mudança cultural inimaginável.

Essa mudança é compatível com o capitalismo?
Não, a lógica do capitalismo é expandir, crescer. Isso poderia fazer algum sentido num mundo inesgotável e infinito, mas já sabemos que não é mais o nosso. Um novo modelo de desenvolvimento implica uma dificílima e demorada transformação nas nossas vidas. Ela virá com mais ou menos dor. A questão que os capitalistas colocam é: se vamos consumir menos, para onde vai o trabalho e a atividade humana? Uma resposta é que o trabalho pode migrar da área de produção de bens de consumo para áreas como educação, cultura, serviços. A aspiração das populações, hoje, é por bens de consumo, roupas, automóveis. A mudança cultural necessária é passarmos a valorizar bens não materiais. Educação, esporte, música, ciência são atividades humanas que não consomem tanto o planeta e preenchem mais a alma do que a busca desesperada pela reposição de bens, que é uma das principais razões pelas quais se trabalha e se vive, hoje.

Ao longo da história, vários movimentos sociais lutaram pela liberdade. Você acha que a liberdade ainda é uma questão?
Claro que é. A plena liberdade política é desfrutada por apenas uma parcela da população mundial. Mas, mais do que a liberdade de influir nas decisões que afetam a própria vida, a pobreza é o maior limitador da liberdade humana. Sem justiça social não há liberdade, e a injustiça social ainda é dominante no planeta. Em todos os países encontraremos diferenças entre ricos e pobres, maiores ou menores, mas não há lugar onde a diferença seja tão grande quanto no planeta Terra como um todo. A diferença entre países com altas taxas de consumo e países sem margem para desfrutar de alguma autonomia é mais brutal do que qualquer diferença interna entre os que têm e os que não têm. Um país que consome sozinho 25% dos recursos do mundo inexoravelmente estará tolhendo a liberdade de outros.

Que outros direitos e valores há a serem conquistados, hoje?
Creio que a noção de que somos parte de uma mesma humanidade e de que dependemos um do outro, que afetamos a vida do outro, precisa ser mais bem compreendida. Mais do que nunca, estamos todos conectados. A dona Kátia Abreu [senadora pelo PSD-TO, líder da bancada ruralista do congresso] ainda não entendeu que a expansão das fronteiras agrícolas na Amazônia, que ela defende, vai gerar seca e derrubar a produção de soja de sua fazenda em Campos Lindos, no Tocantins.

Ao mesmo tempo em que descobrimos essa interdependência, vivemos um individualismo exacerbado.
Pode parecer paradoxal, mas não creio que a busca de uma identidade ou da própria individualidade seja conflitante com a noção de pertencer a uma grande comunidade global. Todos queremos ter uma cara, deixar de ser invisíveis, mas ao mesmo tempo vejo mais pessoas engajadas em lutas e num pensamento de cardume. A compreensão de que somos uma só espécie passa pelo autoconhecimento.

Como você vê as próximas gerações coexistindo nesse planeta cada vez menor?
Menor e mais rápido, vale lembrar. Meus netos irão viver num mundo muito diferente do meu. Passei a infância em um mundo natural ainda em expansão, onde a manteiga era feita na fazenda e a fruta, colhida no pé. Onde meu avô dizia que “desde que o mundo é mundo as coisas são assim e assim ficarão”. Meus netos vão viver num mundo onde as transformações acontecem a cada bimestre, um mundo que é como uma aldeia, totalmente conectado e sem muitas fronteiras, onde a busca pelo crescimento perderá o sentido. Segundo o último Censo, a população brasileira parou de crescer e já começa a envelhecer.
Sem população em crescimento, o esforço para suprir bens e alimento para quem está chegando deve ser deslocado para o esforço de distribuir melhor os bens, alimentos e energia já disponíveis. Nessas condições, me parece mais fácil organizar a sociedade. Mas a possibilidade de termos que conviver com populações refugiadas da fome, da falta de água, do aumento do nível do mar, assim como os desafios para mudarmos nossa matriz energética ou conseguirmos manter a produção de alimentos com menos água, coloca no futuro variantes tais que qualquer tentativa de previsão se torna quase um exercício de adivinhação.
Ha outro aspecto, a velocidade do novo mundo. Quando penso em futuro sempre me sinto enganado. Prometeram que a tecnologia iria libertar o homem, dar-lhe mais tempo para cuidar do espírito e para o lazer, mas aconteceu o contrário. Viramos prisioneiros das máquinas. Antes eu saía do trabalho às 7 da noite e só voltava no dia seguinte. Hoje, conectado, me vejo respondendo emails e trabalhando em qualquer hora e lugar. Todo mundo recebe solicitações de trabalho durante o almoço, nos finais de semana. A tecnologia nos transformou em trabalhadores compulsivos. Nem nas férias nos desconectamos dessas maravilhas tecnológicas.

Mas talvez o trabalho fosse mais separado do lazer.
No meu caso, trabalho e lazer são praticamente a mesma coisa. Mas sei que sou um caso raro e, mesmo assim, gostaria de ter um tempo em que pudesse virar o disco. Para quem tem funções que exigem mais esforço e menos criatividade, a tecnologia realmente veio para diminuir os prazos e roubar o tempo que se tem para desfrutar da vida e ser feliz.

Você vê a possibilidade de uma governança global?
Será inevitável. O rio Ganges ou o Amarelo, e a população que eles alimentam, não dependem de decisões da Índia ou da China para continuarem a correr. Eles dependem do corte e emissão de carbono no mundo todo, da preservação das florestas que ainda existem, de modo que o planeta não se aqueça mais e as geleiras do Himalaia, que os alimentam, continuem a se formar anualmente. Como esses, há muitos outros exemplos de problemas cujas decisões nacionais, nos países onde podem ser tomadas, não conseguem mais dar conta. Creio que tentativas de governança global como a do Mercosul ou da Zona do Euro são ensaios para um mundo em que as decisões precisam ser compartilhadas. A ONU não funciona muito bem porque os Estados Unidos, apesar de serem seu maior financiador, não respeitam muito suas decisões. Mas a tendência é cada vez mais organizações globais passarem a ter mais influência no mundo. Precisamos urgentemente de organizações que regulem as questões ambientais no planeta. Nada mais razoável, dada a nossa interdependência.
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21 anos

L. F. VERISSIMO*

 

Anders Behring Breivik vai ficar um mínimo de 21 anos preso por ter matado aquelas 77 pessoas na Noruega, no ano passado. Um tribunal o considerou mentalmente são. Depois de ouvir a sentença, Breivik, que matou por uma causa – supremacia racial, anti-islamismo, anti-imigrantes, – pediu desculpas aos que pensam como ele por ter matado tão poucos.

No fim de 21 anos, a Justiça norueguesa decidirá se Breivik pode ser solto, presumivelmente regenerado, ou se aproveitaria a liberdade para terminar o serviço e portanto deve continuar preso. Na prisão, ele não deve se tornar menos radical do que é, talvez fique mais. Ou talvez se arrependa do que fez e saia depois de 21 anos como um cidadão exemplar. Ou talvez, com o tempo, se transforme num mártir da causa, que tem cada vez mais adeptos numa Europa conflitada.

O tribunal deve ter pensado nisso, ao pesar todas as consequências da sua decisão. Recusando-se a considerá-lo louco, reconheceu que muita gente pensa como ele. Não fez como os que atribuem o fascismo a uma patologia passageira na história europeia, o que é quase uma forma de absolvição.

Como deveria ser o castigo de Breivik? Qual é a forma matemática de repartir 21 anos por 77 mortos? Como se contabiliza a culpa por uma chacina para que pareça justiça? A justiça bíblica tinha a vantagem da simetria: um olho por um olho, um dente por um dente, uma quantidade de chibatadas proporcional ao tamanho do pecado. Ou, sempre que possível, uma retribuição que imitasse a ofensa, uma morte por uma morte.

A pena de morte, que não existe mais na Noruega e na maioria dos países civilizados, é um castigo irracional, ou só explicado como uma recaída na simetria primitiva. Para ensinar alguém a não cometer o crime mais hediondo, o de tirar uma vida, o Estado repete nele o crime hediondo.

Mas se nenhuma forma de retribuição parece adequada aos crimes de Breivik, ficamos nós apenas com nossa perplexidade diante do comportamento humano, do ódio e da constatação de que não é preciso ser louco para lamentar que 77 mortos foi pouco.
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* Luis Fernando Verissimo é escritor. Cronista da ZH
Fonte: ZH on line, 30/08/2012
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Competir consigo mesmo para viver o sentido da própria existência

Eugenio Fizzotti
 Viktor E. Frankl, fundador da logoterapia e da análise existencial: no esporte, a regra é dar o melhor de si
Convidado a palestrar sobre Esporte, ascetismo do nosso tempo, em congresso científico organizado por ocasião dos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972, o psiquiatra austríaco Viktor E. Frankl propôs e aplicou ao esporte as seguintes quatro teses, cujo pressuposto é que o homem se caracteriza pela orientação a algo ou a alguém que está fora dele mesmo: 1) O homem não é apenas essencialmente preocupado em reduzir a sua tensão; ele também precisa de tensões.

2) Portanto, ele está à procura de tensões.
3) Hoje, porém, ele não encontra tensões suficientes.
4) Esta é a razão pela qual ele às vezes cria tensões para si mesmo.
Frankl comentou da seguinte forma as quatro teses:

1) É óbvio que o homem não deve se submeter a uma tensão excessiva. Ele precisa, sim, de uma quantidade moderada de tensão, a quantidade certa, em dose equilibrada. Por outro lado, não só as exigências excessivas, mas também o contrário, a ausência de indução, pode determinar um estado mórbido. [...] Pessoalmente [...], eu diria que o homem tem necessidade de uma tensão específica, isto é, da tensão que se forma entre o ser humano, por um lado, e, por outro, a significância, que ele tem que realizar. Afinal, se um indivíduo não é estimulado por alguma tarefa que ele deva assumir, e evita com essa ausência de estímulo a tensão específica que dele derivaria, ele pode acabar sofrendo uma espécie de neurose.

2) É claro que o homem não está em busca somente de tarefas cujo cumprimento possa dar sentido à sua existência. O homem é essencialmente motivado por aquilo que eu chamo de "vontade de significado", como nos últimos anos foi confirmado pela pesquisa empírica.

3) Hoje, no entanto, muitas pessoas não são capazes de encontrar esse significado e propósito da vida. Em contraste com as descobertas de Sigmund Freud, o homem já não é, em primeiro lugar, sexualmente frustrado, mas "existencialmente frustrado". E, em contraste com os achados de Alfred Adler, a principal razão para os lamentos não é mais um sentimento de inferioridade, mas um sentimento de futilidade, uma sensação de falta de sentido e de vazio da vida: em suma, o que eu expresso com o termo "vazio existencial". Seu principal sintoma é o tédio. [...] Levando-se em conta que a sociedade do bem-estar oferece uma tensão baixa demais, o homem começa a criar as suas próprias tensões.

4) Ele cria artificialmente a tensão que é poupada pela sociedade do bem-estar! Ele procura as tensões ao se fazer deliberadamente as perguntas sobre si mesmo, ao se expor a situações de estresse, ainda que durante um curto espaço de tempo. E, a meu ver, esta é precisamente a função que o esporte deve desempenhar.
De acordo com Frankl, portanto, o esporte permite que os homens do nosso tempo, que não precisam mais andar porque dirigem carros, que não precisam mais subir escadas porque usam o elevador, consigam criar situações de emergência: nelas, o que o homem espera de si mesmo é testar os limites da sua capacidade, para que, aproximando-se dos limites, possa empurrá-los para mais longe.
“Em todas as competições esportivas”, diz Frankl, “o homem realmente compete consigo mesmo. Ele é o seu adversário pessoal. Ou deveria ser. Este não é um imperativo moral, mas uma constatação de fato, porque quanto mais se luta para competir com os outros e vencê-los, menos se está em condições de realizar o próprio potencial plenamente. E quanto mais o homem concentra os seus esforços em dar o melhor de si, sem se preocupar muito com o triunfo sobre o outro, mais cedo e mais facilmente os seus esforços serão coroados de êxito. Há coisas que eludem a intenção direta: só podem ser obtidas como efeitos secundários de outra finalidade. Mas quando essas coisas são elevadas a escopos, elas falham".
No esporte, vale a regra de dar o melhor de si, mais do que a regra de ganhar a todo custo. Ilona Gusenbauer, que até os Jogos Olímpicos de Munique, em 1972, detinha o recorde mundial de salto em altura, disse em uma entrevista: "Eu não tenho que dizer a mim mesma que bater os outros é algo que eu deva fazer custe o que custar".
E o mesmo conceito foi expresso pelo treinador Stastny para a equipe austríaca, no final do primeiro tempo de um jogo de futebol em que perdiam de dois a zero para a Hungria. Stastny disse ao time que eles ainda tinham chance, mas que não os culparia se eles perdessem a partida, desde que cada um realmente desse o melhor de si mesmo. O resultado foi maravilhoso: dois a dois.
"O verdadeiro atleta compete apenas consigo mesmo", afirmava um velho campeão do paraquedismo. "O atual campeão absoluto de paraquedismo é Clay Schoelapple. Ao analisar as causas da vitória dos Estados Unidos na última disputa, e a derrota da União Soviética, ele simplesmente disse que os russos tinham ido para ganhar, enquanto Clay tinha ido para competir apenas consigo mesmo". E foi ele quem ganhou.
O problema do esporte, portanto, deve ser considerado de uma perspectiva mais ampla. Se a atividade competitiva vê ocorrerem hoje episódios incomuns de arrogância, de intolerância, de violência, de agressão exagerada, isto se deve fundamentalmente ao que o homem pensa de si mesmo e, por conseguinte, à motivação que o guia no esporte: tornar-se o primeiro de todos, sair nas primeiras páginas dos jornais, derrotar o adversário, obter recompensas pessoais que não podem ser alcançadas em outras áreas da vida.
E ao verem correr rios de dinheiro sem qualquer indício de aceitação da superioridade do adversário, da admissão de que também se pode perder, da busca da vitória através do sacrifício e da preparação, os fãs do esporte sentem uma poderosa carga agressiva, que se traduz, infelizmente, em gestos impensados, ditados por uma mentalidade que rejeita até mesmo a hipótese do insucesso.
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Fonte:  ROMA, quarta-feira, 29 de agosto de 2012 (ZENIT.org) -
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