sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Jesus Cristo segundo Paulo Leminski

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 "O programa de Jesus é uma utopia. Curioso que, na frondosa bibliografia sobre os socialismos utópicos, nunca apareça a doutrina de Jesus como uma das mais radicais.”
Profeta, poeta, utopista: Jesus aparece a Leminski como tudo isso junto e misturado. Este messias, tão incômodo quanto um Spartacus (ambos terminaram pregados na cruz pelos romanos), demandava um outro mundo e teve sua boca calada com violência. Em uma interpretação que talvez soe herética aos ouvidos daquelas seitas cristãs mais conservadoras e elitistas, Leminski reclama que a utopia de Jesus seja inserida na galeria do socialismo utópico. E denuncia os inúmeros desvios e perversões que transformam a mensagem de Jesus de Nazaré em algo capaz de produzir Cruzadas, Inquisições e Massacres.
“O Reino de Deus era a restauração da autonomia nacional do povo hebreu. Sobre isso, a autoridade romana não se equivocou, ao pregar o profeta na crux, exemplar suplício com que os latinos advertiam os rebeldes sobre os preços em dor da sua insurreição. Esse o suporte material, sócio-econômico-político, da pregação, por Jesus, de um (novo) Reino, um (outro) poder. Nessa tradução/translação do material para o ideológico, Jesus forneceu um padrão utópico para todos os séculos por vir. As duas grandes revoluções, a Francesa e a Russa, estão carregadas de traços messiânicos de extração evangélica. Ambas prometeram a justiça, a fraternidade, a igualdade, enfim, a perfeição, o ideograma da coisa-acabada projetada sobre o torvelinho das metamorfoses. Natural que seja assim. Afinal, as utopias são nostálgicas, saudades de uma shangrilá/passárgada, estado de excelência que lá se quedou no passado, Idade de Ouro, comunidade de bens na horda primitiva, antes do pecado original da divisão da sociedade em classes, plenitude primitiva, paleolítica, intra-uterina, antes do pesadelo chamado História.
A revolução é o apocalipse, o Juízo Final de uma ordem e de uma classe social: o cristianismo primitivo cresceu à sombra da expectativa da segunda vinda, quando Jesus, vitorioso sobre a morte, voltaria, apocalipticamente, para julgar, ele que foi julgado e condenado pelas autoridades: o retorno do reprimido, a vendeta, o acerto de contas entre os miseráveis da terra e seus prósperos opressores e exploradores. (…) O programa de vida proposto por Jesus é, rigorosamente, impossível. Nenhuma das igrejas que vieram depois invocando seu nome e cultuando sua doutrina o realizou. Religião saída de Jesus não poderia ter produzido Cruzadas, inquisição, pogrons e as guerras de religião entre católicos e protestantes, que ensangüentaram a Europa nos séculos XVI e XVII. O programa de Jesus é uma utopia. Curioso que, na frondosa bibliografia sobre os socialismos utópicos, nunca apareça a doutrina de Jesus como uma das mais radicais.” (PAULO LEMINSKI, Vida, Cia das Letras, p. 221)
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Fonte:  http://acasadevidro.com/2015/06/14/jesus-cristo-segundo-paulo-leminski/

Controvérsia: porcos, ovelhas e outros bichos

 Mansueto Almeida*

 

Não tinha prestado atenção a essa polêmica. O economista Alexandre Schwartsman escreveu um texto na sua coluna semanal na Folha de São Paulo, “O Porco e o Cordeiro”, uma fábula econômica com um diálogo entre animais (ver aqui).

Um grupo de economistas e não economistas ficou irritado e enviou uma “Nota de Repúdio” contra Schwartsman à Folha de São Paulo (ver aqui). Pelo que entendi, o grupo de 154 profissionais que assinam a nota  reclamam da linguagem cifrada e, segundo eles, desrespeitosa, com que Schwartzman trata as pessoas de quem discorda.

Ao que parece, Schwartsman poderia ter “agredido de forma respeitosa”, chamando essas pessoas idiotas, mas jamais usando uma fábula, comparando as pessoas a animais. A crítica é essa? Pelo amor de Deus.

O interessante é que muito dos que assinam a Nota de Repúdio não são também muito educados no debate público e costumam usar adjetivos bastante fortes para descrever ideias com as quais não concordam, seja em artigos, seja nos posts nas redes sociais.

Por exemplo, em entrevista em abril de 2015, o professor Belluzzo disse que muitas pessoas que saíam da USP eram idiotas fundamentais como dizia Nelson Rodrigues (ver aqui), porque não aprendiam história e sociologia. Isso não seria uma ofensa para alguns ex-alunos de economia e engenharia da USP? Será que os físicos da USP seriam idiotas fundamentais? Será que quem discorda das ideias do professor Belluzzo, seria idiota fundamental? Ou só idiota?

O professor licenciado da USP, Carlos Eduardo Gonçalves, escreveu um post sobre essa polêmica no seu Blog no Estadão (clique aqui) curto que vai direto ao ponto. Concordo com Carlos Eduardo.

Alexandre Schwartzman escreve bem, em geral está correto e muita gente, eu inclusive, aprende com seus artigos. É um grande economista que contribui MUITO para o debate. Ele tem um estilo agressivo como Paul Krugman que muito dos que assinam a Nota de Repúdio adoram (no caso do Paul Krugman).

A Folha de São Paulo não deveria fazer absolutamente nada, afinal o jornal tem dado bastante espaço para ideias divergentes e, algumas, bastantes malucas na minha opinião. Nem por isso há um abaixo assinado pedindo para que a Folha não publique certas ideias malucas.

O ideal é que no debate de ideias houvesse respeito de ambos os lados. Mas talvez uma parte dos economistas mais ortodoxos esteja cansado de ser chamado de idiota neoliberal, defensor de banqueiro, etc. por algumas pessoas que se auto denominam “intelectuais” e que se acham de esquerda porque defendem aumento do gasto público. Seriam “idiotas fundamentais” com fala o professor Belluzzo?

O nível do debate no Brasil é tão ruim que, se você defende aumento da despesa pública, juros subsidiados, forte intervenção do governo na economia, proteção comercial, etc. é visto como uma pessoa boazinha, mesmo que quebre o país.

Mas se você prega austeridade, fim de subsídios para ricos, maior abertura comercial, aponta vários erros de politica econômica, etc. é taxado de entreguista, neoliberal burro, pessimista, etc.

Dada a maior exposição dos nossos jovens ao que vem lá de fora e maior intercâmbio com o resto do mundo, com o tempo, teremos a chance de melhorar o debate aqui no Brasil. Enquanto isso, talvez não seja bom esperar  que os economistas liberais baixem a cabeça e sejam xingados por serem contra ideias que consideram equivocadas.
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 * Mansueto Facundo de Almeida Jr é  formado em economia pela Univ. Federal do Ceará, Mestre em Economia pela Universidade de São Paulo (USP) e cursou Doutorado em Políticas Públicas no MIT, Cambridge (USA), mas não defendeu a tese. É Técnico de Planejamento e Pesquisa do IPEA, tendo assumido os seguintes cargos em Brasília: coordenador-geral de Política Monetária e Financeira na Secretaria de Política Econômica no Min. da Fazenda (1995-1997), assessor da Comissão de Desenvolvimento Regional e de Turismo do Senado Federal (2005-2006) e Assessor Econômico do Senador Tasso Jereissati. É funcionário de carreira do IPEA em Brasília, mas a partir de junho de 2014 passará a gozar de licença sem vencimento do instituto.
Fonte:  https://mansueto.wordpress.com/2015/12/25/controversia-porcos-ovelhas-e-outros-bichos/
Imagem da Internet

O Porco e o Cordeiro

 
Estava o Cordeiro a tocar o Ministério da Fazenda quando apareceu o Porco, de horrendo aspecto, e perguntou: "Que desaforo é esse de reduzir meu PIB?". 

Ao que o Cordeiro respondeu: "Mas, seu Porco, como é que eu poderia ter reduzido o seu PIB se só cheguei aqui no começo do ano e a economia vem em recessão desde o meio do ano passado?". 

"Ah", disse o Porco, "mas você cortou o gasto público, o que fez o PIB cair ainda mais." 

"Olha", retrucou o Cordeiro, "desde que estou aqui o consumo do governo aumentou. Só um pouquinho, sabe, mas foi o único componente da demanda doméstica que subiu em 2015." 

"Esse negócio de argumentar com números não me convence", voltou o Porco, "porque, em primeiro lugar, só interessa aos esbirros do conservadorismo, na cúspide de uma sociedade submissa ao rentismo, prisioneira da defesa da riqueza estéril, e, em segundo lugar, porque eu não conheço as quatro operações e não entendo o que você está falando. Fora isso, o investimento também está desabando, e o multiplicador keynesiano diz que isso vai fazer a renda cair ainda mais." 

"É verdade", confirmou o Cordeiro, "mas o investimento despenca desde o segundo trimestre de 2013, ao menos, quando ainda o que valia era a tal Nova Matriz Macroeconômica, que, segundo eu soube, veio da cabeça de Porcos que nem o senhor." 

"Aliás", continuou, "pelo que me disseram, os Porcos sumiram quando ficou claro que o investimento seguia em queda e que a recessão viria para valer. Só ficou por aqui um jumentinho italiano, otimista 'pra' burro (sem trocadilho, sabe?), que me passou as chaves da casa." 

"Não quero saber!", vociferou o Porco. "Quando o jumentinho te deu as chaves, a inflação era menor que 6,5%, mas agora já varou os 10%." 

"Também verdade", admitiu o Cordeiro. "Acontece que, ao chegar aqui, encontrei uma porcaria (sem querer ofender, sabe?): tinha um monte de preço congelado, saindo caro para o Tesouro, mais caro ainda para a Petrobras. Só me restou ajustar tudo de uma tacada." 

"Aliás, foi difícil achar um Porco que assumisse a responsabilidade pelo congelamento dos preços. Até o final do ano passado vários deles estavam ainda comemorando que a inflação não tinha estourado o teto da meta, e havia até uma Leitoa afirmando que era tudo 'terrorismo econômico'." 

"Mas vocês clamam pelo aumento do desemprego!", grunhiu o Porco, "a Pnad diz que já alcançou 9%. Sua culpa, Cordeiro!" 

"Aí, seu Porco", respondeu o Cordeiro, "é que lhe faz falta saber ler os números. A Pnad diz que o desemprego também vem crescendo desde o meio do ano passado, e o Caged revela que a perda de empregos formais também ocorre desde aquela época." 

"Você, Cordeiro, quer pôr a culpa num governo popular, cujo único erro foi ter adotado o programa adversário, que jogou o país na depressão", guinchou o Porco, já fora de si com a atitude do Cordeiro.
"Olha, seu Porco, seus colegas de vara deixaram as coisas aqui em pandarecos. Dívida crescendo, inflação em alta (mesmo com preços congelados), desemprego idem, economia em recessão, um buraco sem precedentes nas nossas contas externas. Tanto estrago que nem Dona Anta aguentou vocês e teve de chamar um Cordeiro para arrumar a bagunça." 

E, já que Porco não come Cordeiro, deu-lhe as costas e o deixou chafurdando na lama. 
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Fonte:  http://www1.folha.uol.com.br/colunas/alexandreschwartsman/2015/12/1719539-o-porco-e-o-cordeiro.shtml

 

NOTA DE REPÚDIO

Endereçada ao jornal Folha de S. Paulo em desagravo aos professores Leda Paulani e Luiz G. Belluzzo.

Ao jornal Folha de S. Paulo
São Paulo, SP

Nós, abaixo assinados, vimos a público protestar veementemente contra a vileza de Alexandre Schwartsman (“O Porco e o Cordeiro”, Folha de S. Paulo, 16/12/2015), que atinge de forma acintosa a professora Leda Paulani e o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, com quem o colunista mantém divergências públicas no campo das ideias, aludidos covarde e indiretamente como “Leitoa” e “Porco”.
A agressão é duplamente vil, porque, cifrada, só pode ser compreendida pelas pessoas que tenham conhecimento de outras ofensas, igualmente violentas, perpetradas pelo mesmo colunista aos dois professores.
A falta de decência também se manifesta no chamar de “jumentinho italiano” e de “Dona Anta” duas autoridades legítimas de governo eleito e democrático.
Em geral, tal tipo de vilania merece ser desconsiderado, pois visa sempre a estampar manchetes, às quais não logra o agressor chegar por mérito, talento ou conhecimento. Mas há limites até para a sordidez!
Repudiamos o desrespeito no plano pessoal, a intolerância inadmissível no plano da disputa política democrática e a violação de todas as regras elementares do debate plural e civilizado de ideias.
Repudiamos também a conivência da Folha de S.Paulo e do respectivo editor na prática de tamanha torpeza, transgredindo o código de ética que o próprio jornal afirma seguir.
Assinaturas:

  1. Ademir Aparecido Paschoa, produtor.
  2. Adriana Nunes Ferreira, economista.
  3. Adriano Biava, economista.
  4. Airton Paschoa, escritor.
  5. Alcides Goularti Filho, Unesc.
  6. Alcides Silva de Miranda, Professor Associado – Cursos de Graduação, Pós-graduação e Laboratório de Apoio Integrado em Saúde Coletiva – UFRGS.
  7. Amilton Jose Moretto, economista
  8. Ana Mesquita, economista.
  9. Ana Rosa Ribeiro de Mendonça, professora do IE/Unicamp.
  10. Ana Tereza da Silva Pereira Camargo, médica, Diretora Administrativa do CEBES.
  11. Anderson Henrique dos Santos Araújo, professor, Universidade Federal de Alagoas.
  12. Andre Lázaro, professor da UERJ e pesquisador da Flacso-Brasil.
  13. André Martins Biancarelli, professor e diretor associado do Instituto de Economia (IE/Unicamp).
  14. André Paulani Paschoa, Advogado.
  15. Andrés Vivas Frontana, economista, professor de Economia da ESPM e da Fecap.
  16. Anivaldo Padilha, presidente do Fórum 21.
  17. Antônio do Amaral Rocha, jornalista e editor, São Paulo.
  18. Antonio Prado, economista.
  19. Antonio Tadeu Oliveira, demógrafo.
  20. Barbara Fritz, director of the Institute for Latin American Studies (Freie Universität Berlin).
  21. Bruno de Conti, economista.
  22. Camila Gripp, pesquisadora, The New School for Social Research.
  23. Carlos Alonso B. de Oliveira, economista.
  24. Carlos Eduardo Silveira, economista.
  25. Carlos Salas, economista.
  26. Ceci Vieira Jurua, economista.
  27. Celso Amorim, diplomata.
  28. Christy Ganzert Pato, professor da Universidade Federal da Fronteira Sul.
  29. Cilaine Alves Cunha, professora de literatura brasileira (FFLCH/USP).
  30. Claudio Castelo Branco Puty, professor UFPA e secretário executivo do Ministério do Trabalho e Previdência.
  31. Cornelis Johannes van Stralen, psicologo social e cientista político, professor aposentado da UFMG.
  32. Dainis Karepovs, historiador.
  33. Daniel Brazil, roteirista e diretor de TV.
  34. Daniela Magalhães Prates, economista, professora associada do Instituto de Economia da Unicamp e pesquisadora do CNPq.
  35. Danilo Araujo Fernandes, professor da Universidade Federal do Pará.
  36. Denis Maracci Gimenez, professor do Instituto de Economia da Unicamp.
  37. Domingos Leite Lima Filho, Programa de Pós-Graduação em Tecnologia, Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).
  38. Eduardo Fagnani, economista (IE/Unicamp).
  39. Eleutério F. S. Prado, professor titular da USP.
  40. Eli Iola Gurgel Andrade, professora associada da Faculdade de Medicina da UFMG.
  41. Elias Jabbour, professor adjunto da FCE-UERJ.
  42. Elizabeth Harkot de La Taille, professora associada, Estudos Linguísticos e Literários em Inglês, Departamento de Letras Modernas (FFLCH/USP).
  43. Elizete Mitestaines, jornalista.
  44. Emilio Chernavsky, doutor em Economia (FEA/USP).
  45. Erminia Maricato, professora titular aposentada da USP.
  46. Fabrício de Oliveira, economista.
  47. Fernando Caldas, historiador, mestre pela USP.
  48. Fernando Ferrari Filho, professor de Economia da UFRGS.
  49. Fernando Nogueira da Costa, professor titular do IE-UNICAMP.
  50. Fernando Rugitsky, professor da FEA/USP.
  51. Francisco Alambert, professor de História (FFFLCH/USP). istóriaHist´roia
  52. Francisco Luiz C. Lopreato, economista e professor do IE/Unicamp.
  53. Francisco Menezes, economista.
  54. Francisco Roberto Papaterra Limongi Mariutti, professor.
  55. Frederico Gonzaga Jayme Jr., professor Economics Department, Cedeplar (UFMG).
  56. Frederico Mazzucchelli, economista.
  57. Gaudencio Frigotto, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
  58. Gema Martins, advogada.
  59. Giorgio de Marchis, Università degli Studi Roma Tre, Dipartimento di Lingue, Letterature e Culture Straniere.
  60. Guilherme Leite Gonçalves, professor de Sociologia do Direito da UERJ.
  61. Guilherme Mello, economista.
  62. Heloísa Fernandes, socióloga, USP.
  63. Iná Camargo Costa, professora aposentada da USP.
  64. Isabel Frontana, historiadora, mestre pela USP.
  65. Isabel Loureiro, professora de Filosofia (UNESP).
  66. Isabela Soares Santos, cientista social.
  67. João Policarpo R. Lima, Departamento de Economia da UFPE/Pesquisador do CNPq
  68. João Sayad, economista, professor da FEA/USP.
  69. João Whitaker, professor livre-docente (FAU/USP) e secretário municipal de Habitação de São Paulo.
  70. José Carlos Braga, economista.
  71. Jose Dari Krein, economista.
  72. José Esteban Castro, Newcastle University, Reino Unido.
  73. Juan Pablo Painceira, economista, Banco Central do Brasil.
  74. Julia Braga, professora associada da Faculdade de Economia da UFF.
  75. Jurema Alves Pereira, assistente social, doutoranda (UERJ).
  76. Laura Carvalho, professora da FEA/USP.
  77. Laura Tavares, economista.
  78. Lauro Mattei, professor de Economia da UFSC.
  79. Lena Lavinas, professora titular do Instituto de Economia da UFRJ.
  80. Lenina Pomeranz, professor da FEA/USP.
  81. Léo Heller, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz.
  82. Leonardo Boff, teólogo, professor emérito de ética da UERJ e membro da Iniciativa Internacional Carta da Terra.
  83. Ligia Giovanella, médica, pesquisadora Fiocruz.
  84. Luciana Vieira, economista.
  85. Luiz Eduardo de Vasconcelos Moreira, psicanalista.
  86. Luiz Eduardo Simões de Souza, Universidade Federal do Maranhão – PPGDSE.
  87. Luiz Fernando de Paula, economista (UERJ).
  88. Luiz Filgueiras, professor de Economia da UFBA.
  89. Magda Biavaschi, desembargadora aposentada e pesquisadora CESIT
  90. Manuela Lavinas Picq, Universidade San Francisco de Quito.
  91. Marcelo de Carvalho, docente do Curso de Ciências Econômicas (Unifesp).
  92. Marcelo Miterhof, economista.
  93. Marcelo Weishaupt Proni, economista.
  94. Márcio Lupatini, professor da UFVJM.
  95. Marcio Pochmann, economista.
  96. Marcio Sotelo Felippe, advogado.
  97. Maria Augusta Bernardes Fonseca, professora universitária.
  98. Maria Ciavatta, PPG-Educação Universidade Federal Fluminense.
  99. Maria de Lourdes Rollemberg Mollo, professora do Departamento de Economia da Universidade de Brasília.
  100. Maria Elisa Cevasco, professora (FFLCH/USP).
  101. Maria Noemi de Araujo, psicanalista.
  102. Maria Rita Kehl, psicanalista.
  103. Marildo Menegat, professor (UFRJ).
  104. Marina Macambyra, bibliotecária.
  105. Mário da Costa Campos Neto, professor titular em Geologia Estrutural e Geotectônica do Instituto de Geociências (USP).
  106. Maryse Farhi, economista.
  107. Maurílio Maldonado, advogado.
  108. Miguel Bruno, economista.
  109. Nazareno Affonso- Urbanista e artista Plástico
  110. Nelson Fernando de Freitas Pereira, médico.
  111. Niemeyer Almeida Filho, professor titular do Instituto de Economia da Universidade Federal de Uberlândia e presidente da Sociedade Brasileira de Economia Política.
  112. Paula Motagner, economista.
  113. Paulo Daniel e Silva, economista.
  114. Paulo Sérgio Fracalanza, diretor do IE/Unicamp.
  115. Paulo Henrique Furtado de Araujo, economista, professor da Faculdade de Economia da Universidade Federal Fluminense (UFF) e diretor da Sociedade Brasileira de Economia Política (SEP).
  116. Pedro Cezar Dutra Fonseca, professor titular do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFRGS.
  117. Pedro Paulo Zahluth Bastos, professor associado (livre-docente) do Instituto de Economia/Unicamp.
  118. Pedro Rafael Lapa, economista.
  119. Pedro Rossi, economista.
  120. Pierre Salama, Professor emeritus, economia, Universidade de Paris XIII
  121. Potyara Pereira, professora da Universidade de Brasília.
  122. Ramón García Fernández, professor (UFABC).
  123. Raquel Raichelis, assistente social, professora da PUC/SP.
  124. Remi Castioni, Faculdade de Educação (UnB).
  125. Rennan Martins, jornalista e editor do Blog dos Desenvolvimentistas.
  126. Ricardo Antônio de Souza Karam, especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, doutor em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento (PPED/UFRJ).
  127. Ricardo Musse, professor de Sociologia (FFLCF/USP).
  128. Ricardo Oliveira Lacerda de Melo, professor associado da Universidade Federal de Sergipe/ Departamento de Economia.
  129. Roberto Schwarz, professor de Literatura, Unicamp.
  130. Rodrigo Pimentel Ferreira Leão, mestre em Desenvolvimento Econômico.
  131. Ronaldo Coutinho Garcia, técnico de Planejamento e Pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA).
  132. Rosana Icassatti Corazza, economista, doutora em Política Científica e Tecnológica e professora do Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas.
  133. Rosangela Ballini, Professora – IE/Unicamp
  134. Rubem Murilo Leão Rego, professor (Unicamp).
  135. Rubens Luis Ribeiro Machado Jr., professor da ECA/USP.
  136. Rubens Sawaya, economista.
  137. Salete de Almeida Cara, professora (FFLCH-USP).
  138. Sandra Regina Alouche, professora universitária.
  139. Sebastiao Velasco, IFCH/Unicamp.
  140. Sérgio Alcides Pereira do Amaral, professor da Faculdade de Letras da UFMG.
  141. Sérgio Rosa, bancário.
  142. Silvio Antônio Ferraz Cario, economista e professor da UFSC (Campus Florianópolis).
  143. Simone Deos, economista.
  144. Solange Puntel Mostafa, professora da USP.
  145. Tania Bacelar de Araujo, doutora em economia e professora aposentada da UFPE.
  146. Tarso Genro, ex-governador do Rio Grande do Sul.
  147. Tiago Oliveira, economista, mestre e doutor em Desenvolvimento Econômico pela Unicamp.
  148. Vanessa Petrelli Corrêa, professora titular, IE/UFU.
  149. Wagner Nabuco, editor da Caros Amigos.
  150. Waldir Quadros, professor.
  151. Walquiria Domingues Leão Rego, professora universitária, Unicamp.
  152. Walter Belik, economista.
  153. Wilson Cano, economista.
  154. Wladimir Pomar, economista.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

A fobia de ficar longe do celular

A fobia de ficar longe do celular
A nomofobia é um vício em que a pessoa não consegue se afastar do celular, apresentando quadro semelhante à crise de abstinência 

Aumento do número de pessoas dependentes do celular gerou um novo transtorno: a nomofobia, ou o medo de se desconectar do mundo virtual

Nos últimos anos, avanços tecnológicos têm tornado os celulares cada vez mais indispensáveis. O acesso à internet nos aparelhos ampliou as possibilidades de comunicação, mas essa rápida evolução também gerou um novo problema. Para muitos, a obsessão pelo celular é tão intensa que se caracteriza como um quadro de dependência com efeitos similares às drogas pesadas, como ansiedade, perda de contato social e até mesmo depressão, além de outras consequências físicas e mentais que se agravam com o uso prolongado do celular.

O alerta é feito pela psicóloga clínica Mônica Vidal, mestranda em Comportamento e Cognição Humana na Universidade de Barcelona, que em entrevista ao Opinião e Notícia apresentou um novo transtorno do século 21: o medo de se afastar do telefone celular, ou a “nomofobia”, uma palavra derivada da expressão em inglês No Mobile Phobia.

“Esse transtorno é caracterizado pelo medo irracional de permanecer isolado e desconectado do mundo virtual”, define a psicóloga.

Tecnologia móvel

Segundo um levantamento da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), em 2014 haviam 273,58 milhões de telefones celulares ativos no Brasil, superando o número de habitantes no país e 10 milhões a mais que no ano anterior.

Em uma recente pesquisa de conectividade, a empresa americana do ramo da tecnologia de celulares Qualcomm relevou que o Brasil é o quarto país mais conectado da América Latina e o 44º do mundo, em um ranking de 73 países. Na classificação, o Brasil está como intermediário – as classificações possíveis são ultraconectado, avançado, intermediário e emergente –, mas a pesquisa indica que o Brasil tende a avançar rapidamente nessa questão.

Com uma conectividade maior, o acesso à informação se torna mais fácil. Para Mônica, o acesso à internet, facilitado pelas tecnologias móveis, faz com que “o usuário não seja somente um consumidor de informação, mas também gerador de conteúdo” em um mundo hiperconectado.

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Segundo a Qualcomm, o Brasil é o 4º país mais conectado da América Latina (Foto: ITU Pictures)

O aumento da velocidade de circulação da informação também influi na percepção do tempo. Para a psicóloga, há uma necessidade de imediatismo por parte das pessoas que se expõem demais à tela do celular. “Se uma pessoa envia uma mensagem e você não responde imediatamente, fica uma situação desconfortável”, diz a psicóloga. “As relações digitais também dão uma ilusão de companhia, o que pode provocar relações superficiais entre as pessoas”, acrescentou. Uma das características da nomofobia é a tendência a supervalorizar os relacionamentos e as atividades online em detrimento das atividades presenciais.

Além disso,  a pessoa exposta ao celular pode perder a noção do tempo, o que ela classifica como “um estado alterado da consciência” que ocorre quando a pessoa se mantém em “um estado progressivo de contemplação”. “Por isso as pessoas ficam conectadas mais tempo do que pretendiam estar”, diz.

Características da nomofobia

“A pessoa que tem nomofobia apresenta um quadro semelhante à síndrome de abstinência de pessoas que são usuárias de drogas, trazendo um comprometimento tanto da saúde física quanto mental, além das esferas psicológicas, sociais e comportamentais”, afirma a psicóloga. “Geralmente a nomofobia está associada a outro transtorno, como ansiedade, síndrome do pânico, estresse pós-traumático, transtorno obsessivo compulsivo, bipolaridade, depressão, entre outros.”

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Uma das características da nomofobia é o isolamento de atividades diárias (Foto: Pixabay)

Os principais sintomas da nomofobia são a sensação de vazio existencial, angústia, desespero, irritabilidade, baixa autoestima, rejeição e também problemas físicos, como dores na coluna, torcicolo, lesão por esforço repetitivo, tremores, insônia, náusea, estresse, sudorese, tensão muscular, ressecamento de retina e perda auditiva.

Há sinais que indicam quando a pessoa pode ter nomofobia, como por exemplo, a checagem constante do celular, a procrastinação de tarefas diárias e o isolamento de atividades sociais.

A psicóloga alerta que a exposição exagerada compromete o rendimento escolar ou profissional, além de prejudicar o sono.  “A pessoa não consegue se desligar mentalmente da sua vida online. Ela chega a sonhar com o que fez no celular”, diz.

Segundo uma pesquisa da empresa francesa Ipsos, 18% dos brasileiros acima de 16 anos entrevistados em 70 cidades admitiram ser dependentes de seus celulares. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2013, 66% da população brasileira acima de 10 anos tem pelo menos um celular.

Tratamento

Mônica admite que na atual configuração social, há uma dificuldade de se distanciar das tecnologias móveis. No entanto, ela recomenda que as pessoas procurem um uso produtivo, que não comprometa a qualidade de vida. A psicóloga sugere limitar o uso diário para equilibrar a vida social e online.

O primeiro passo para tratar a nomofobia é reconhecer o problema e buscar uma solução. “Não tem como ajudar uma pessoa com algum problema se ela não reconhece que ela tem um”, diz. A partir daí, a pessoa pode ser levada para acompanhamento psicológico, ou se o quadro for mais grave, psiquiátrico, com uso de medicação para reduzir os níveis de ansiedade. Mônica também considera o apoio familiar fundamental para o tratamento.

Outra maneira de combater o vício está no próprio uso dos celulares, através de aplicativos que limitam o uso diário do aparelho, como o Break Free, Mental e Moment. No entanto, a psicóloga destaca que os aplicativos não substituem o tratamento psicológico.

Cuidado com crianças e adolescentes
O nível de atenção à exposição aos dispositivos móveis deve ser ainda maior para crianças e adolescentes. “A exposição excessiva das crianças e dos adolescentes pode causar danos e prejuízos no desenvolvimento do cérebro, comprometendo a atenção e o foco”, afirma Mônica.

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Crianças e adolescentes correm o risco de acessar conteúdos impróprios (Foto: Pixabay)

Em relação ao tempo de exposição ideal aos celulares, tablets e até mesmo à televisão, ainda não há uma recomendação padrão. É preciso usar o bom senso.

“Em média, é recomendável que crianças de um a dois anos de idade se exponham a no máximo 20 minutos e crianças de três a quatro anos até duas horas por dia”.

A psicóloga também alerta para possíveis casos de cyberbullying e de divulgação imprópria de conteúdo entre jovens, o que também resulta de uma exposição longa às tecnologias móveis. “Uma vez que um conteúdo cai na rede, você perde o controle sobre ele”, alerta.
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Reportagem  por Nycolas Santana - 22 Dec, 2015  - Foto: Pixabay
Fonte: http://opiniaoenoticia.com.br/opiniao/tendencias-debates/a-fobia-de-ficar-longe-do-celular/



Capitalismo

Antônio Delfim Netto*

 
O capitalismo "real" é o espantalho usado para exaltar as virtudes do socialismo "ideal", propagado nos nossos livros de história, fontes do delírio socialista de ingênuos que se pensam progressistas.
 
O "capitalismo" seria um ser monstruoso que existe fisicamente e tem alma: pensa, comanda, reage, oprime e se alimenta da conspiração permanente contra a maioria desprovida da sociedade.
 
A verdade é que a estrutura social e econômica a que chamamos de "capitalismo" é apenas um instante na incessante busca do homem por uma organização que lhe permita viver livremente a sua humanidade num ambiente de relativa igualdade.
 
O homem precisa, primeiro, satisfazer as suas necessidades naturais de forma eficiente, o que o levou a explorar a coordenação das atividades produtivas através do mercado. Nele, pela troca, descobriram como aproveitar suas diferentes habilidades na divisão do trabalho. Mas os mercados são tanto mais eficientes quanto mais apoiados num Estado forte, constitucionalmente controlado, capaz de mantê-los competitivos, o que está na base da propriedade privada. Essa propiciou a mercadização do trabalho e da terra, que separou os homens em duas classes: os que alugam a sua força de trabalho (os operários) e os que as alugam (os capitalistas). Para equilibrar o poder econômico do capital, os trabalhadores, organizados em sindicatos e partidos, impuseram o sufrágio cada vez mais universal, que os vem empoderando progressivamente.
 
Ninguém melhor do que Marx entendeu a eficiência revolucionária, as limitações e as injustiças do capitalismo, e que ele é apenas um momento da história que continuará a desenrolar-se.
 
Seu generoso sonho foi tentar encontrar "cientificamente" o caminho final.
 
O problema é que a história é um acidente aleatório, aberta a todas as possibilidades. Os caminhos podem ser muitos e surpreendentes, mas a direção do vetor tem sido a mesma: maior liberdade combinada com maior igualdade e relativa eficiência produtiva para que sobre tempo ao homem para realizar a sua humanidade. Tudo temperado com tolerância política porque, a rigor, os três valores (liberdade, igualdade e eficiência produtiva) são incompatíveis.
 
A última moda é culpar o "capitalismo" pela desgraça ecológica que se abate sobre o mundo. Pois bem, o socialismo "real" (produto de asseclas que certamente Marx rejeitaria) da União Soviética foi o maior destruidor de ambiente do século XX. E o socialismo "real" da China tem na poluição ambiental o seu maior problema. Isso mostra que a poluição não é privilégio de nenhum regime. É o resultado da atividade humana.
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* Economista, ex-deputado federal e ex-ministro da Fazenda, do Planejamento e da Agricultura
Fonte:http://jcrs.uol.com.br/index.php?id=/economia/index.php
Imagem da Internet

Opinião econômica: Rezar

Nizan Guanaes*

 

 "A cada manhã e a cada noite, 
eu rezo. 
Não para ser santo, 
 como disse, 
mas para não ser besta. 
Para ser homem."
Inspirado por Abilio Diniz e pelo meu personal trainer, que é presbiteriano, comecei a rezar todas as manhãs. Leio os jornais e depois rezo. No início, foi como começar a correr e fazer exercícios, uma decisão intelectual, um gesto de disciplina, que você faz por obrigação e pouco prazer. Mas, aos poucos, aquilo foi virando um oásis neste momento atribulado que, como qualquer empresário brasileiro, eu vivo.
 
Esta é uma crise braba, em que você tem que fazer sacrifícios para salvar o todo e vencer a crise. Um momento duro, de decisões duras, mas decisões necessárias e inadiáveis.
 
Neste momento, é preciso pedir a sabedoria que o jovem Salomão pediu a Deus. A sabedoria que David, o estadista, pediu tanto a Deus. Só mesmo Deus vai nos dar, por meio de seu Espírito Santo, as virtudes que não temos. No meu caso, por exemplo: paciência, sabedoria, parcimônia.
 
David diz nos seus lindos Salmos que o Senhor salva o homem e a besta. Tem uma besta no homem. E, se deixar a besta solta numa crise como essa, a besta desembesta.
 
Não rezo para ser santo. Rezo para ser homem, para ser humano. No sentido divino desta palavra: ser um líder humano, um profissional humano, um marido humano, um pai humano.
 
Humano como Francisco, o papa, que ao escolher seu nome já apontou o caminho. Que em dois anos tirou a Igreja Católica do intramuros do Vaticano e a trouxe de volta para os homens e as mulheres do mundo todo e de todas as fés.
 
Minha amiga Arianna Huffington, uma das empresárias e mulheres mais interessantes destes tempos modernos, me ensinou a prestar mais atenção em meditação em seu novo livro, "A Terceira Métrica", publicado no Brasil pela editora Sextante.
 
Nos Estados Unidos, só se fala em "mindfulness", em meditação. Até no Massachusetts Institute of Technology, o famoso MIT, Meca mundial da tecnologia, se fala disso. Roberto Zeballos, que é um dos médicos mais modernos do Brasil, fala muito em meditação.
 
Rezar é meditar. E fortalece muito o empresário. É bom para quem tem fé, é bom para quem quer ter fé, é bom para quem quer ter paz, é bom para quem quer ter foco e discernimento.
 
Não importa se você vai rezar para Jesus, Adonai, Alá, meditar sobre o que disse o Buda, rezar para Xangô e Iansã ou conversar com o vento.
 
Quando você reza ou medita, você foca, concentra, reúne forças, toma o controle da sua vida. Você toma o controle da besta, como a inveja, a usura, o olho gordo, a pequenez, o medo e os instintos animais que existem em cada um de nós.
 
Sem a oração e a meditação a gente desembesta a fumar, a beber, a tomar Rivotril. Desembesta a sofrer e a passar as noites acordado. Desembesta a pensar com o fígado em vez de pensar com a cabeça, com o coração e com a alma.
 
A besta é uma má pessoa e um péssimo empresário. Rezar é o meu antídoto contra ela.
 
Hoje é 22 de dezembro. A oração torna todo dia o dia 25 de dezembro. Por meio da oração nasce a cada dia um menino Jesus em nós. Rezar é um Natal na alma.
 
Acreditar em Deus é bom inclusive porque evita que a gente se ache Deus. E evita que a gente seja movido pela besta que está no homem. É por isso que, a cada manhã e a cada noite, eu rezo. Não para ser santo, como disse, mas para não ser besta. Para ser homem. Feliz Natal e feliz 2016!
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Publicitário e presidente do Grupo ABC
Imagem da Internet:  IMAN MALEKI, o pintor HIPERREALISTA do IRAN
Fonte:  http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2015/12/economia/473613-opiniao-economica.html

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Tecnologia, saúde, futuro: grandes mentes fazem previsões para a próxima década


Nas últimas duas décadas, a tecnologia provocou inúmeras disrupções e modificou nossa interação com pessoas e marcas. Redes sociais, vídeos sob demanda, pagamentos online, ecommerce, streaming de música e, sem contar os smartphones, que se tornaram tão indispensáveis. 

Há 20 anos, comenta Edmardo Galli, CEO da IgnitionOne, locadoras de vídeo ainda dominavam o mercado e não conseguiram prever o surgimento disruptivo do Netflix; há exatos 20 anos surgiam os celulares “tijolões", do tamanho de um telefone fixo e com longas antenas – curioso observar que, apenas um ano depois, em 1996, os celulares já tinham seu tamanho reduzido em 50%; Android era uma pequena startup que o Google tinha acabado de comprar e, hoje, o Google já tem mais de 1 bilhão de usuários de Android ativos; ninguém tinha ouvido falar de Uber ou AirBnb, hoje empresas que valem mais de $20 bilhões cada uma; Facebook, Twitter, Instagram, Snapchat, Tumblr, Spotify, Skype e muitas outras ferramentas que hoje usamos intensamente em nosso dia a dia, simplesmente não existiam.

É curioso como as tecnologias que moldam nosso cotidiano não existiam há tão pouco tempo. E o que virá pela frente? A questão foi apresentada pelo The Huffington Post a grandes mentes de diferentes áreas, como Michio Kaku, Mark Stevenson e Raymond Kurzweil, que já esteve no Fronteiras do Pensamento para abordar a temática, em 2010. Leia abaixo algumas das opiniões: 

MICHIO KAKU, professor da City University of New York, autor de O futuro da mente

"Nos próximos dez anos, veremos uma transição gradual de uma Internet para uma brain-net [cérebro-net], em que pensamentos, emoções, sentimentos e memórias poderão ser transmitidos instantaneamente através do planeta.

Cientistas já podem ligar o cérebro ao computador e começar a decodificar algumas memórias e pensamentos. Isso, eventualmente, revolucionará a comunicação e até o entretenimento. Os filmes do futuro serão capazes de transmitir emoções e sentimentos, não apenas imagens em uma tela (adolescentes enlouquecerão nas mídias sociais, enviando memórias e sensações de suas formaturas, primeiros encontros, etc). Historiadores e escritores serão capazes de registrar os eventos não apenas digitalmente, mas também emocionalmente. Talvez, até as tensões entre as pessoas diminuirão, já que elas começarão a sentir e experimentar a dor dos outros."

Ray Kurzweil, pioneiro na ciência da computação, diretor de engenharia da Google
"Até 2025, impressoras 3D imprimirão roupas a baixíssimo custo. Haverá variados tipos de design de código aberto, mas as pessoas ainda gastarão dinheiro para baixar arquivos de roupas do último grande designer, assim como gastam hoje com ebooks, música e filmes, apesar de todo material gratuito disponível. As impressoras 3D também imprimirão órgãos humanos usando células-tronco modificadas e sem problemas de rejeição. 

Passaremos um tempo considerável no mundo vitrual, as realidades aumentadas permitirão que visitemos as pessoas mesmo que estejam muito distantes. Seremos capazes, inclusive, de nos tocarmos. Algumas das pessoas que visitaremos dentro destas novas realidades serão avatares. Eles serão cativantes, mas não tão desenvolvidos em comparação aos humanos em 2025, isso acontecerá apenas por volta de 2030. 

Seremos capazes de reprogramar a biologia humana, evitando diversas doenças e processos de envelhecimento, como, por exemplo, desativando as células causadoras de câncer e retardando a progressão da arteriosclerose, a causa das doenças cardíacas. 

Seremos capazes de criar avatares de pessoas falecidas a partir de toda informação que deixaram para trás (e-mails, documentos, imagens, vídeos, entrevistas com pessoas que lembram delas). Isso também será cativante, mas só plenamente realista por volta e 2030, então, algumas pessoas considerarão esta tecnologia perturbadora." 

Anne Lise Kjaer, fundadora da agência de previsão de tendências Kjaer Global:
“A Organização Mundial da Saúde prevê que, até 2020, doenças crônicas serão responsáveis por três quartos das mortes no mundo. Então, a evolução da m-Health (diagnósticos mobile, biofeedback e monitoramento pessoal) revolucionará o tratamento de condições como diabetes e pressão alta. Apps criados por profissionais da saúde fornecerão feedback em tempo real de forma eficiente, identificando condições crônicas em estágios iniciais, ajudando a melhorar a qualidade de vida em comunidades de países desenvolvidos e em desenvolvimento. 

Esta melhoria no nosso bem-estar físico é empolgante, mas o que mais me empolga é o desenvolvimento paralelo de apps que ajudarão nossa saúde mental, tão negligenciada."

Mark Stevenson, autor de An Optimist's Tour of the Future:
“As tecnologias não são a questão mais importante, apesar de serem muito interessantes, mas sim o que a sociedade faz com elas. Atualmente, a pauta tem sido uma mudança institucional. O que você realmente deve observar, creio, são as novas formas de organização social. Meu novo livro, por exemplo, fala da revolução de energias renováveis em uma pequena cidade da Áustria, uma droga com código aberto na Índia, redes de pacientes como PatientsLikeMe e escolas que estão jogando fora seus currículos para proverem algum aprendizado de verdade."
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(introdução via ExchangeWire | depoimentos via The Huffington Post | tradução Fronteiras)
Fonte:  http://www.fronteiras.com/noticias/tecnologia-saude-futuro-grandes-mentes-fazem-previsoes-para-a-proxima-decada

“Traga cada um escrito no rosto o que sente da República”

Operação Catilinárias, que investiga, entre outros, Eduardo Cunha, tem nome inspirado em discursos de Cícero e clara ressonância política

Uma das diversões desde o início da década passada tem sido acompanhar a originalidade com que os responsáveis definem os “nomes código” para cada operação da Polícia Federal. Escolhidos por questões de sigilo, os nomes despertam bem-humoradas especulações quando a ação é desenrolada, e ficam claras (ou não) as relações entre o teor da operação e o termo escolhido para nomina-la. Nem sempre a correspondência é direta como na Arca de Noé, de 2002, que investigava o Jogo do Bicho, ou na Banco Imobiliário, de 2007, que desarticulou um esquema de notas tão falsas quanto o dinheiro de brinquedo do jogo. Às vezes, é uma piada interna, como a Hurricane, que se propunha a prender gente graúda e abalar o crime como um “furacão”.

Poucas, contudo, trazem subjacente uma declaração política tão clara quanto a recente Operação Catilinárias, que cumpriu 53 mandados de busca, entre eles nas residências do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, e dos ministros Henrique Alves e Celso Pansera, todos do PMDB. O motivo teriam sido tentativas de obstrução nas investigações da Lava-Jato.

Catilinárias é o nome com o qual passou à posteridade um conjunto de quatro discursos proferidos no Senado romano, no ano 63 a.C., pelo orador, jurista e político romano Marco Túlio Cícero, denunciando uma tentativa de golpe de Estado tramada por Lúcio Catilina, senador e adversário político de Cícero.

Cícero, na época, era Cônsul, cargo máximo na administração romana – sempre exercido simultaneamente por dois homens (o colega de Cícero era Caio Híbrida). Catilina, candidato derrotado nas eleições, tramava uma tentativa de golpe com uma série de jovens nobres arruinados por dívidas. Milícias já haviam sido espalhados pela Itália e mesmo uma tentativa de assassinato de Cícero havia sido encomendada e frustrada. Cícero foi ao Senado e pronunciou a primeira e mais famosa das Catilinárias (a que inicia com o “Até quando, Catilina, abusarás de nossa paciência”), denunciando o golpe, informando nomes dos conspiradores e lugares fora de Roma onde os sediciosos aglomeravam suas tropas. Catilina fugiu da cidade no mesmo dia, e Cícero, com a Lei Marcial autorizada pelo Senado, desbaratou o complô, prendeu cúmplices e condenou-os, bem como Catilina, à morte:

“Eu vos prometo, Padres Conscritos, que tanta será em mim a diligência, tanta em vós a autoridade, tanto nos cavaleiros o valor, tanta em todos os bons a concórdia, que com a retirada de Catilina tudo vejais manifesto, ilustrado, suprimido, vingado.” – disse Cícero, ao pedir a declaração de Lei Marcial.

Não é preciso pensar muito para ver uma relação entre essa história antiga de conspiração dentro do parlamento contra um ocupante do cargo máximo e um nome escolhido para uma operação cujo principal alvo é o atual presidente da Câmara, um conhecido e atuante adversário político do maior cargo da República. 
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Texto por Carlos André Moreira
carlos.moreira@zerohora.com.br
Imagem: Cícero denuncia Catilina, fresco por Cesare Maccari, 1882-1888.
 

POR DONALD SCHÜLER

As catilinárias soam-me aos ouvidos, principalmente a primeira, desde minha juventude. Catilinárias é nome que designa uma série de discursos proferidos por Marco Túlio Cícero contra Catilina, senador que, no dizer de Cícero, conspirava contra a República. Não é o momento de discutir a confusa política romana no fim do regime republicano. Vale destacar o valor da palavra. O que hoje deixam de realizar, pelo exercício da palavra, os homens e as mulheres que nos representam, realiza silenciosamente a polícia federal para susto de políticos em evidência. Em vez da imagem lamentável de pancadaria quando se discute a correção de governantes, estamos sedentos de palavras orientadoras de pessoas que foram levadas ao poder pela força esperançosa de nossos votos. “Até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência”? – perguntava Cícero em discurso inesquecível no senado romano. “Até quando...”, gritamos todos. Cícero e nós: Que Tempos! Que costumes!

Poeta, professor e tradutor*
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Fonte:  http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a4933964.xml&template=3898.dwt&edition=28064&section=3605

domingo, 20 de dezembro de 2015

Depois da polêmica carta de Temer, escritores debatem correspondências 'É uma estética bela, que vai da escolha do papel até a caligrafia', teoriza Marco Lucches


O poeta Armando Freitas Filho sempre escreve para o crítico literário Antonio Candido -
 Ana Branco / Agência O Globo

RIO - A história do Brasil também existe em forma de cartas. Nosso documento inaugural, escrito em maio de 1500 por Pero Vaz de Caminha, foi uma missiva. Relatava ao rei Dom Manuel I, de Portugal, as belezas de uma terra fértil e inexplorada, onde as moças, ingênuas, andavam com “as vergonhas tão nuas”. Mais tarde viria a escravidão (e com ela, as cartas de alforria); a chegada da Corte (e com ela, as cartas de amor entre Dom Pedro I e a Marquesa de Santos); a instauração da República (e com ela, a carta-testamento que antecedeu o suicídio de Getúlio Vargas, em 1954). Desde então, a tradição epistolar ficou algo restrita aos rincões da literatura.

Até que o vice-presidente da República, Michel Temer, do PMDB, resolveu resgatar a nobre tradição. Duas semanas atrás, descontente com os rumos do país, ele enviou uma missiva à mandatária Dilma Rousseff. Poeta e jurista — com livros publicados em ambas as áreas —, abriu o texto com uma citação em latim: “Verba volant, scripta manent’’ (“As palavras voam, os escritos permanecem’’). Depois, usou mais 879 palavras para queixar-se da falta de protagonismo (“Passei os quatro primeiros anos do governo como vice decorativo”), da falta de cargos (“A senhora não teve a menor preocupação em eliminar do governo o deputado Edinho Araújo, deputado de São Paulo e a mim ligado”) e da falta de prestígio (“A senhora, na posse, manteve reunião de duas horas com o vice-presidente americano Joe Biden — com quem construí boa amizade — sem convidar-me”).

A carta, que vazou à imprensa no mesmo dia em que entregue, tornou-se um novo marco nacional. Ainda que explicitasse uma notória inabilidade política da presidente — e antecipasse um possível rompimento entre PT e PMDB —, acabou dizendo mais sobre o remetente. Cássio Cunha Lima, líder do PSDB no Senado, descreveu-a como “uma demonstração de fisiologismo puro”. Ciro Gomes, voltando a flertar com a ideia de concorrer à Presidência, disse nunca ter visto “uma coisa tão ridícula, de tão baixo nível, absolutamente cretina e risível”. Nas 24 horas que se seguiram à divulgação, o documento foi citado na internet ao menos 120 mil vezes (em geral, de forma irônica).
Mas, para além de rusgas pessoais e políticas, o fato fez surgir uma pergunta mais mundana na cabeça do brasileiro. Quem, num mundo dominado por Gmail, Facebook, Skype, FaceTime e WhatsApp, ainda se dignifica a enviar uma carta em papel?
 
O escritor Marco Lucchesi trocou correspondência com a psiquiatra Nise da Silveira e ainda envia cartas para autores na Romênia e na Itália 
- Ana Branco / Agência O Globo

— A carta tem o cheiro, a delicadeza, a cor do selo, o atraso do correio, o oxigênio da expectativa. É uma estética de grande beleza, que vai desde a escolha do papel até o contorno da caligrafia — teoriza o escritor Marco Lucchesi, de 52 anos, membro da Academia Brasileira de Letras (ABL). — Ela segue uma liturgia, como o namoro. Te desnuda, exige que você se ponha no papel. É um confessionário, um divã psicanalítico.

Lucchesi conta ter se iniciado no métier aos 12 anos, quando enviou uma carta ao programa de rádio “A voz da América’’. No começo da vida adulta, passou a se corresponder com a psiquiatra Nise da Silveira, pioneira no tratamento humanizado em manicômios.

— Eu tinha ficado atordoado com o que vi após uma visita a um hospital psiquiátrico — relembra Lucchesi. — Passei a ler tudo sobre o assunto até que dei de cara com o livro dela. Eu era um velho de 23 anos, e a doutora Nise, uma jovem de 82. Escrevi dizendo que a amava.

Como morassem em cidades distintas — ele no Rio, ela em Niterói —, passaram a se corresponder. Trocaram mensagens por 13 anos, até que Nise adoeceu. Lucchesi tentou então animá-la, descrevendo uma suposta viagem dos dois a Florença — que jamais existiu. Em 1999, Nise respondeu: “A b c d não posso escrever mais. Estou muito doente, abandonada e tentando fazer amizade com a morte. Não é tão difícil.” Foi sua última missiva. Lucchesi publicou o conjunto em livro, quatro anos depois:

— Tinha medo que se perdessem.

Hoje ele ainda troca cartas com um escritor da Romênia (em romeno) e com um autor da Itália (em italiano). Também se corresponde com o pintor Israel Pedrosa e com um detento do Complexo Penitenciário de Bangu (onde vez por outra dá aulas de Literatura). Está prestes a lançar mais um livro, de cartas trocadas com o padre italiano Paolo Dall Oglio.

— Conheci Paolo na Síria, em 1996. Ele tentava proporcionar um encontro entre judeus, muçulmanos e cristãos. Foi um dos primeiros a ser raptados pelo Estado Islâmico — diz. — Doei metade das cartas à Biblioteca Nacional, metade à ABL. Ao contrário da carta do Temer, eram muito bem escritas.

Ele faz uma longa crítica à carta do vice-presidente, que define como “vergonhosa, primária, freudiana e horrivelmente escrita”:

— Um dos protocolos essenciais da carta é a reserva. Uma carta não pode ser reservada e aberta ao mesmo tempo. Por isso entra no museu das coisas mais deploráveis que atingiram a política brasileira nos últimos dois anos. Torço para que o texto não tenha sido escrito pelo Temer, não só pelo desastre moral, mas pela qualidade, que é péssima.

A INTIMIDADE DA LETRA E DO PAPEL

O sentimento é endossado pelo poeta Armando Freitas Filho, de 75 anos:

— Achei a carta do Temer infantil. Não porque eu seja um homem de esquerda, mas porque é um chororô de um vice-presidente da República. Parece um ginasiano se queixando à mãe.

Missivista contumaz, Freitas Filho já trocou correspondências com Ana Cristina Cesar e com Carlos Drummond de Andrade. Diz que a carta carrega “a intimidade da letra e do papel”:

— Eu, por exemplo, tenho papel de carta timbrado com meu nome. Passo um risco em cima do Freitas Filho quando quero que ela ganhe um teor mais íntimo.

É assim quando escreve a Antonio Candido, maior crítico literário do Brasil, com quem se corresponde há 15 anos:

— Ele não usa computador, não gosta. Escreve à mão, sem nenhuma rasura, em papel branco, sem pauta. Eu também, para acompanhar aquela letra linda. Até fiz um poema chamado “Família de Letras”, que fala da linhagem ortográfica que vem de Machado de Assis e passa por Graciliano Ramos. O traço dos três é o mesmo.

Diz ter no crítico um conselheiro não apenas literário:

— Se tenho alguma dúvida, as soluções estão com ele. Ao dormir, fico pensando na carta. Rememoro o que ele diz, como diz, num estilo perfeito, nada afetado.

Exemplifica:

— Quando minha mãe morreu, Antonio Candido me escreveu, dizendo se sentir órfão até hoje. Foi um esclarecimento, clareou aquele estado de luto, trouxe uma luz e uma companhia. Ele é como Carlos Drummond, que não deixava nada sem resposta. Drummond respondia a todos. Nunca perguntei a ele como tinha tempo para tudo: poema, trabalho, falar no telefone e responder cartas.

A ‘CARTEIRA’ E O POETA

A professora aposentada Helena Vicari, de 75 anos, também não perguntou. Preferiu exercer o privilégio sem questionar o que levou o cânone da poesia brasileira a se corresponder com alguém que não conhecia ao longo de 26 anos.

— Minhas cartinhas não eram fenomenais; foi uma coisa que jamais imaginei — lembra. — Eu ficava comovida em saber que o maior poeta do Brasil respondia à professorinha dos confins de Guaporé. Ele era e sempre foi muito querido, terno. Eram três, quatro cartas por ano.

A troca começou quando Helena ainda estudava Literatura, no interior gaúcho. Indignada com uma professora que reprovava os versos de Drummond, resolveu escrever ao próprio, defendendo-o. Recebeu em troca uma resposta polida, datilografada, e um cartão com um autógrafo. Helena chegou a vir ao Rio duas vezes, mas não teve coragem de visitá-lo. Na terceira, com Drummond já falecido, encontrou seu neto, Pedro Augusto. Abraçou-o e disse: “Esse abraço era para o seu avô.” A correspondência rendeu texto na revista “Piauí” e inspirou a diretora Mirela Kruel a filmar o documentário “O último poema” (2015).

Helena ainda se corresponde com Maria Esenilde da Costa, professora da Paraíba que conheceu (por carta) há 33 anos.

— Escrevi para uma revista procurando pessoas para me corresponder — conta. — Várias responderam. Selecionei 19, e acabei me afeiçoando a ela e a uma menina de Belo Horizonte.

Dois anos atrás, Maria Esenilde resolveu migrar da troca escrita para o encontro pessoal. Tomou um avião da Paraíba para o Rio Grande do Sul; passou 17 dias na casa de Helena. Depois, voltaram à rotina missivista.

— Meu pai vendia sapatos, tecidos, viajava muito, escrevia cartas às filhas. Eu ficava encantada — conta Helena. — A gente se sente mais próximo quando recebe uma carta. É uma visita. A alma que vai junto com o envelope.

No caso de Temer, ela não viu alma nem visita:

— Aquela carta parece uma ciranda. Vai escrever pra dizer isso? Não confio.
 
Cartas do poeta Cruz e Sousa para a mulher Gavita Rosa, preservadas na Fundaçao Casa de Rui Barbosa
 - Ana Branco / Agência O Globo

Embora date de cinco séculos atrás, o acervo epistolar brasileiro só começou a ser estudado a fundo nos anos 1990, quando a USP publicou um livro com as cartas de Mário de Andrade. Hoje, as mais importantes coleções estão com a Fundação Casa de Rui Barbosa e com o Instituto Moreira Salles, ambos no Rio. Eliane Vasconcellos, pesquisadora da Casa de Rui, diz que alguma cartas, como as de Cruz e Sousa, ainda a emocionam.

— Há cartas de amor, cartas com pedido de emprego, cartas que falam de livros que seriam publicados e não foram — enumera. — Algumas do Manuel Bandeira têm esboços de poemas. Já o Fernando Sabino escreveu a Clarice Lispector sugerindo edições em “Laços de família’’.

Ela acredita que, no futuro, a instituição passará a receber um acervo cada vez maior de e-mails:

— Já contamos com uma coleção, do Rodrigo Souza Leão, mas a linguagem é distinta. As cartas chegavam a ter sete páginas. O e-mail é pontual, sucinto.

Ela mesma só escreve cartas em situações específicas:

— Outro dia escrevi para a síndica do meu prédio, com uma reclamação. A carta é algo formal, que você entrega em mãos. Fazia sentido.

Cartas anunciam amores, brigas, cobranças, rompimentos. Idosos enviam cartas de reclamação, adultos enviam cartas de aniversário, nubentes enviam cartas com convite de casamento. Segundo dados dos Correios, das sete bilhões de cartas e correspondências enviadas no Brasil em 2015, 133 milhões eram de pessoas físicas (não comerciais). Ao menos 500 mil eram endereçadas ao Papai Noel (graças ao programa voluntário em que é possível “adotar” uma carta para realizar o pedido de uma criança). Em tempos menos analógicos, o número surpreende: em 2010, foram 66 milhões de cartas na mesma categoria. Mas nada que supere as 6,9 bilhões de missivas comerciais enviadas por pessoas jurídicas este ano. Ou mesmo em 2010: 6,8 bilhões.

Na música, cartas foram cantadas por Odair José, Waldick Soriano, Erasmo Carlos, Maria Bethânia, João Mineiro e Marciano. Na televisão, Xuxa fermentou o imaginário infantil (e adulto) com a chuva de cartas que lançava ao alto nos anos 1980. No cinema, Fernanda Montenegro recebeu a indicação ao Oscar pelo papel de escrevedora de cartas em “Central do Brasil’’.

 
O designer Kammal João transformou em livro as cartas que escreveu para o irmão durante uma viagem
 - Guito Moreto / Agência O Globo

Seis anos atrás, quando viajou ao Norte e ao Nordeste, o designer Kammal João lançou mão da prática. Enviou uma série de cartas a Amir, o irmão caçula, então com 7 anos.

— Eu havia achado alguns papéis antigos do nosso avô. Desenhava neles todo dia, durante a viagem, e enviava uma vez por semana, porque alguns lugares não tinham Correios. As cartas eram mais notas, impressões de viagem. Era uma pesquisa sobre o olhar do artista viajante. Escolhi meu irmão como interlocutor para simplificar a linguagem, torná-la mais lúdica.

No começo do ano, a correspondência foi lançada em livro.

Já Luiza Helena Rizzo Perez, de 19 anos, começou a se corresponder há um ano, quando inscreveu-se num dos vários sites dedicados a aficionados por cartas (eles existem).

— Como eu estudo Turismo, quis trocar cartas com pessoas de outros países — conta. — Acabou sendo muito mais interessante do que conversar pela internet. Você vê a letra, recebe fotos, postais. Guardo tudo numa caixinha.

Dentre as interlocutoras há uma que mora nos Estados Unidos e outra que vive no Japão (são brasileiras; Luiza desistiu de se corresponder com homens após dois episódios em que as missivas estavam mais para Fórum da “Ele e Ela’’).

— A menina do Japão é a Talita. Tem 27 anos, mora em Tóquio, a família é japonesa — conta. — Ela é dona de uma loja de motos. Mora lá desde os 18 anos.

As duas trocaram sete cartas. Luiza enviou fotos de amigos e de pontos turísticos. Talita respondeu com desenhos e retratos do gato.

Ensinou-lhe também a balbuciar o japonês:

— Quando leio as cartas, vejo como é diferente a religião, a cultura, o modo como as pessoas vivem. Fiquei sabendo que tudo por lá é voltado para a tecnologia, e que todo mundo usa quimono.

A última carta foi mandada há duas semanas por Luiza. Ela perguntava o que Talita faria no fim do ano, se tinha planos de viagem. Também contava que havia reativado seu aquário e que ganharia um cachorro no próximo ano. Foi mandada de uma agência dos Correios no Grajaú, a alguns quilômetros de sua casa. O envio custou cerca de R$ 4.

 
A atriz Keli Freitas coleciona cartas antigas compradas em feiras do Rio e já usou trechos em vários trabalhos 
- Daniel Marenco / Agência O Globo

Tudo começou com Geraldo e Marina. Nos idos de 1950, ele escrevia para ela. Seus textos, lidos hoje, dão a pista de que aquele era um caso mal resolvido. “Ai, não escreve isso, Geraldo, ela vai querer que você suma”, pensava a atriz Keli Freitas, enquanto se aprofundava no material. Aquelas eram apenas as primeiras cartas das quase duas mil que Keli guarda em casa, grande parte delas adquirida em feiras de antiguidade, como a da Praça XV. No começo, ela ficou apenas encantada com todos aqueles escritos. Com o tempo, este conteúdo deu origem a trabalhos acadêmicos, peças de teatro, carimbos...

— Um dos projetos que desenvolvi foi o Carimbaria. Pinço frases que praticamente saltam das cartas e as transformo em carimbos, todos feitos do jeito antigo — explica.

São frases como “Estamos tão velhos. Agora é que precisamos um do outro”. Ou “Que aflição que tanta coisa ficará por conhecer, não?”. Hoje a atriz estará no Bazar da Passagem (Rua da Passagem 142), das 15h às 20h, expondo este material.

Além dos projetos que ela mesma se propõe a fazer a partir das cartas, vários trabalhos dos quais participa têm relação com troca de correspondência. Um acaso sempre bem-vindo. Em janeiro, Keli será Emília, na série “Ligações perigosas”, da Globo, que é baseada em um romance epistolar. Já a peça “Incêndios”, com a qual ficou meses em cartaz, começava com a leitura de duas cartas:

— Receber uma carta é receber também o papel em que a pessoa escreveu, transportou a algum
lugar, colocou em um envelope... Uma pessoa que você ama ou tem saudades. Este universo é fascinante.
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Reportagem por Roberto Kaz
http://oglobo.globo.com/cultura/depois-da-polemica-carta-de-temer-escritores-debatem-correspondencias-18333083