segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Uma cidade partida! Orla para quem?

Marcelo Sgarbossa*

Foto: Guilherme Santos/Sul21
Tudo vai muito bem até que a periferia resolve descer o morro, “com seus hábitos indesejáveis” para  frequentar lugares públicos, causando estranhamentos  para muitos que desejam uma cidade para poucos.

A polêmica em torno dos frequentadores da nova orla do Guaíba revela muito mais do que o direito das pessoas usufruírem um mesmo espaço, mas escancara os processos de disputa que se dão dentro do espaço urbano, revelando um apartheid social criado pela desigualdade de classe, raça, estética e seus modos de vida que as classes populares trazem para o espaço público.

O Estado, quando imagina construir uma obra pública como a da Orla, reproduz um imaginário social em que tudo vai ser uma maravilha, pois o espaço vai ser frequentado pelos ditos “cidadãos de bem”.
Acontece que essa ideia, pensada para poucos, revela as contradições sociais existente em nossa Porto Alegre repartida pela miséria econômica e moral.

Os ambulantes indesejáveis nestes locais higienizados, os jovens da periferia com seus modos de vida, revelam uma cidade que os quer invisíveis. O que esta acontecendo com a orla já vem há mais tempo ocorrendo com a Cidade Baixa. A frequência da Cidade Baixa só se tornou um problema para alguns quando jovens da periferia passaram a frequentar o bairro.

Uma cidade não pode se tornar um lugar com segregações como a que está em curso neste momento, com capital privado se apropriando dos espaços públicos que são coletivos, que são de todos independente de classe e origem. O que chama atenção é que este debate só ocorre quando os da periferia vem a ocupar os espaços dos que se sentem mais legítimos na sociedade.  Quando apenas a parcela incluída da população ocupa os espaços públicos, o discurso é de bom gosto, de valorização, de aumento de auto estima e do surrado discurso de lugares “para as família” aparecem, como se existisse apenas um determinado tipo de família socialmente legítima (ordeira, consumidora, formada por pai, mãe e filhos, etc).

Para aumentar a auto estima dos porto alegrenses, além mudar o olhar etnocêntrico e preconceituoso sobre a cidade, sobre seus frequentadores, os lugares públicos terão que ser pensados levando em conta a diversidade que existe em nossa cidade.

Uma cidade mais humana passa por este olhar e por políticas públicas que  acolham a diversidade social.
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(*) Marcelo Sgarbossa é vereador de Porto Alegre (PT).
Fonte:  https://www.sul21.com.br/opiniaopublica/2018/12/uma-cidade-partida-orla-para-quem-por-marcelo-sgarbossa/

sábado, 29 de dezembro de 2018

A UM PASSO

Martha Medeiros*

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"Muita vida te aguarda, muita vida te procura." São versos do poeta português Joaquim Pessoa, que fazem parte do poema A um Passo do Amor. Escolhi começar assim a última crônica do ano, pois a ideia de que muita vida nos aguarda faz bem para o espírito. O futuro às vezes é associado ao fim, e não a mais vida.

É bem verdade que este início de ano nos pega com os dentes trincados: o primeiro dia de janeiro inaugurará um novo estilo de governo e seja o que Deus quiser - mesmo, já que Deus estará sendo representado no primeiro escalão. Que não se faça muita bobagem em nome Dele.

Mas não terei o mau gosto de falar de política neste fim de semana. Realidade demais cansa, e estamos exaustos deste 2018 esgotante. Pausa. Trégua. Hora de embarcar na poesia dos fogos de artifício e dos abraços à meia-noite, confiando no conceito de renovação: 2019 há de ser o ano em que viveremos tudo - exceto as mesmas coisas de sempre, combinado?

Que a gente valorize os relacionamentos acima de outros interesses, principalmente dos interesses de Mark Zuckerberg. Que a gente aprenda a ouvir, a escutar profundamente, considerando as necessidades de quem nos cerca. Que a gente sirva a quem tem menos do que nós: nossos sofrimentos diminuem quando damos atenção à dor alheia.

Que tenhamos um ano mais light, sem tanto bate-boca virtual, sem patrulha, sem grosserias generalizadas. Reatemos os laços. Que nossas irritações momentâneas não reduzam nosso plantel de afetos.

Que resgatemos na memória os acontecimentos da nossa infância para compreender melhor o modo como nos comportamos hoje, que deixemos de lado as máscaras que escondem nossos sentimentos e sejamos mais francos, sem receio de expor nossas fragilidades.

Que tratemos bem de nós mesmos, mas sem deixar que a vaidade fique maior do que a lucidez. Que usemos mais cores, que pratiquemos muitos esportes e exercícios, mas sem esquecer de privilegiar o conhecimento e de defender a arte livre quando ela estiver sendo ameaçada.

Que a gente descanse. Durma mais. E ame, ame, ame sem receio de parecer um bobo. Que a gente atraia os outros com uma atmosfera mais pacífica, generosa, risonha. Que sejamos mais inventivos e originais, que sejamos eficientes por meio da criatividade, não por meio da força bruta, da energia mal canalizada. Que não façamos nada da marra, que não violemos nossa essência primária.

Sem querer ser retrô, mas já sendo: voltemos a valorizar o mundo artesanal.

Muita vida te aguarda, muita vida te procura, diz o poema. Confie nisso. Ao findar do último minuto de segunda-feira, diga adeus aos tutoriais (este, inclusive) e siga sua intuição, seu olfato, seu radar, até localizar pessoas de bem e as oportunidades surpreendentes que estão a um passo, esperando pelo seu sim.
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* Escritora
Fonte: http://flipzh.clicrbs.com.br/jornal-digital/pub/gruporbs/acessivel/materia.jsp?cd=a14c2ff4ad3fc72f55d66186c2abc04e

Esqueça os postais

O jornalista Seth Kugel fala sobre a busca por experiências mais autênticas de viagem e dos desafios do Brasil para se tornar uma potência no turismo

Em 2004, o jornalista americano Seth Kugel cruzou a pé a fronteira da cidade de Letícia, na Colômbia, até a amazonense Tabatinga. De lá, embarcou em um cruzeiro pelo Rio Amazonas com destino a Manaus, trajeto que durou quatro dias e lhe proporcionou, entre conversas e leituras bíblicas, um salto de fluência na língua portuguesa — útil nos dois anos em que morou em São Paulo como correspondente do site Global Post. Foi mais uma das experiências surpreendentes do profissional formado pelas universidades Yale e Harvard, que atuou no jornal The New York Times por oito anos, à frente das colunas Weekend in New York (Fim de Semana em Nova York) e Frugal Traveler (Viajante Econômico). No livro Rediscovering Travel: A Guide for the Globally Curious (Redescobrindo a Viagem: um Guia para os Globalmente Curiosos, em tradução livre), lançado em novembro nos Estados Unidos, ele relata andanças pelo mundo para mostrar como simples férias podem se tornar recordações indeléveis, tema da entrevista a seguir.

As pessoas estão viajando mal? Perdemos um pouco o senso de aventura e ousadia que os viajantes tinham antes, e a culpa é principalmente da indústria, que está nos tratando como bebês ao propor, por exemplo, que a pessoa “compre experiências”. O Airbnb usa essa expressão em seu site (na página oficial brasileira, “reserve acomodações e experiências únicas”). Uma experiência é algo ocasional. Não está à venda como um serviço, um tour.

Como tornar uma viagem mais surpreendente? Acho que a maioria das pessoas deseja viajar para conhecer o mundo, sair dessa fatia restrita onde mora e deparar com outras ideias, outras formas de viver, outros tipos de sociedade. Para isso, você tem de traçar planos apenas para metade do tempo que vai despender. Se for ficar dez dias em uma cidade, faça programas para cinco deles. Deixe o restante do tempo livre para decidir quando chegar lá, porque é impossível saber antes como você vai se sentir no local. Se quiser comprar um city pass para conhecer as atrações principais, que seja para dois dias, não para dez. E depois se abra para uma viagem mais espontânea. Tente também falar com muitos locais, tantos quanto for possível — não com as pessoas do hotel, mas sim com as que encontrar na rua, no metrô, nos restaurantes —, conversar com outros turistas e ver o que eles fizeram, do que gostaram, e não tenha medo se seu inglês não for perfeito. Outra coisa: procure economizar. Em geral, quando gastamos menos dinheiro, somos forçados a ser mais espontâneos. Em vez de pagar um tour que dura um dia inteiro, você pode planejar seu roteiro usando a internet. Além disso, escolha destinos menos comuns. Nos Estados Unidos, muitos brasileiros vão para a Flórida, mas perdem outras ótimas atrações.

Quais destinos americanos podem ser mais explorados para quem quer ir além de Miami? Os parques nacionais no oeste, a exemplo do Yellowstone e do Yosemite, e a região sul do país, que tem muita cultura, uma atitude bem receptiva com os visitantes, como as cidades de Nova Orleans (no Estado da Louisiana), Savannah (na Geórgia), as da Carolina do Sul. Em qualquer país é importante sair das grandes capitais e ir para o interior.

“Conheci na Amazônia uma menina de 15 anos que estava fugindo do marido violento. Onde se aprende mais sobre o Brasil? Com um monte de turistas em 
volta do Cristo Redentor?”

O chamado fomo (fear of missing out, ou medo de perder alguma coisa) torna as viagens menos interessantes? Vou falar do ponto de vista do turista brasileiro, que por vezes está muito focado em destinos famosos e é suscetível à pressão dos colegas quando sai de férias. Já fui a Paris cinco vezes e acho que nunca subi na Torre Eiffel. Se pensar assim: “Só quero ir para a torre, ver a Mona Lisa e postar foto posando nesses dois lugares, voltar para o Brasil e falar para meus amigos como eu vi essas atrações”, tudo bem. Se você vir uma foto de alguém diante da Mona Lisa, é uma mentira. Para começar, não é possível chegar muito perto dela: o visitante do Museu do Louvre fica tentando conseguir um clique sem exibir as outras 50 000 pessoas que estão lá. Você está mostrando uma mentira ao mundo. As pessoas veem isso e vão lá replicar a mesma farsa.

Em seu canal do YouTube, Amigo Gringo, há muitas dicas para não ser um “babaca” no exterior. O senhor já se percebeu nesse papel? Todo turista que viaja para outro país é um babaca. Essa é mais ou menos a ideia do canal. Nas minhas primeiras experiências, passei um semestre em Paris, e fui um babaca o tempo todo. Posso dar vários exemplos. Estava hospedado na casa de uma família francesa e tomei um banho de mais de três minutos. Foi como se o mundo tivesse acabado: a madame ficou irritada porque eu estava gastando muita água quente no chuveiro. E olhe que nem sou brasileiro, que toma banho várias vezes ao dia. Outra situação: eu me encontrava do lado de um rio em Toulouse, havia uns jovens tocando instrumentos e eu disse: “Ah, adorei essa música, como se chama?”. O cara respondeu: “Bonjour” (bom dia). Eu realmente achei que aquele fosse o nome da canção. Depois aprendi que não se pode falar com as pessoas informalmente sem dizer bonjour e toda essa cerimônia que o francês faz para começar uma conversa. Na China, as pessoas são muito curiosas. Em um museu de Xangai, o segurança pediu meu passaporte e ficou lendo todas as páginas e dizendo: “Nossa, maravilhoso, olhe só esses carimbos”. Isso é uma violação de privacidade para mim, que sou americano, mas para os chineses é absolutamente normal.

E no Brasil? Quando me mudei para São Paulo, eu não tinha muita paciência para a burocracia. Algo deu errado em alguma agência do governo, e eu me destemperei. Nova-iorquinos ficam irritados e demonstram isso, mas aprendi que agir dessa forma não funciona muito bem no Brasil. Na verdade, o mundo é muito grande e todos estão acostumados a agir conforme as regras de comportamento da pequena parte onde moram. Quando a pessoa sai dessa bolha, ela vai ser inadequada em algum momento, não tem como. Acho importante admitir que cometeu um erro, explicar que você é de outro lugar. No geral, a população local é simpática e entende que se trata de alguém de outra cultura, pelo menos se existe um pedido de desculpa.

E quanto aos brasileiros quando viajam? Eles não pagam mais micos que as pessoas de outras culturas. Há algumas coisas que chamam atenção, mas são um pouco bobas, como usar tênis brilhantes de academia na rua, fazer o gesto “joinha”, que nos Estados Unidos é algo considerado brega, ou ficar tirando fotos com esquilos. O que mais me incomoda é alguém marcar e desmarcar um compromisso. Dizer que vai fazer algo e depois desaparecer ou cancelar. Quando fui morar no Brasil, tive grande dificuldade em entender que um plano nem sempre é um plano — não raro, trata-se de uma sugestão. Ah, e há uma coisa que não compreendo: a obsessão por compras. Vir a Nova York só para comprar não parece fazer muito sentido. Vale dizer que os brasileiros têm uma inteligência social bastante sofisticada. São bons de falar com as outras pessoas e, em geral, os estrangeiros amam a sociabilidade de vocês.

“Viajar pelo mundo procurando lugares com
 drinques de 15 dólares é um equívoco. 
Se quer conhecer o bairro descolado de cada cidade, 
ótimo, mas não confunda isso 
com cultura local”

O senhor tem um longo relacionamento com o Brasil. Como isso começou? Fui salvo da ignorância. Brasileiros gostam de acreditar que americanos não sabem nada do Brasil, e eles estão certos. Dei aulas a imigrantes, então conheço muito bem o espanhol. Até que um amigo me disse que eu deveria aprender português, por estudar a América Latina. Percebi que não conhecia muita coisa sobre o país, embora soubesse que a capital não é Buenos Aires. Um dia eu estava planejando minha viagem para melhorar o português e um belga no Bronx sugeriu um roteiro de barco até Manaus. Ele me deu a melhor dica: “Leve uma gramática, fique na sua rede estudando e todo mundo vai querer ser seu professor”. E foi o que aconteceu. Na minha opinião, é como um spa dos pobres. É tão relax porque não tem nada para fazer, mal existe sinal de celular. Uma vez a cada quatro dias você vai ver os botos-cor-de-rosa, e só. Nem mosquito tem. Entrei em um barco de evangélicos. Passavam muito tempo estudando a Bíblia, mas alguns eram semianalfabetos e pediam que eu lesse para eles. Conheci nesse barco da Amazônia uma menina de apenas 15 anos que queria me ensinar, e ouvi a história dela: estava fugindo do marido, que era violento. Onde se aprende mais sobre o Brasil? Com um monte de turistas em volta do Cristo Redentor ou ouvindo histórias de vida como essa? Não foi uma coisa que planejei, não com­prei essas experiências. Ouvi uma ideia e estava aberto a ela. Daí acontece o inesperado, que é o melhor de uma viagem. Sou um típico nova-iorquino judeu não praticante, e não ficaria lendo a Bíblia em outra situação. Mas, quando você viaja, tem de suspender um pouco suas ideias típicas de como as pessoas devem agir.

Em um relatório sobre competitividade no turismo do Fórum Econômico Mundial de 2017, o Brasil aparece em primeiro lugar em potencial de recursos naturais, mas fica na 27ª posição entre 136 países. Onde erramos? A estrutura de transporte não ajuda. Se eu quiser ir para o lugar que considero o mais maravilhoso do Brasil, os Lençóis Maranhenses, como faço para chegar lá saindo de Nova York? Não é muito fácil. Outra coisa: as maravilhas do Brasil não são bem divulgadas. Todos sabem que é bom assistir ao Carnaval, ir para o Rio de Janeiro, talvez para a Amazônia. Mas quase ninguém conhece Minas Gerais, que possui as melhores cidades históricas do país, comida única, beleza natural e gente legal. E o nível de inglês na área de serviços no Brasil está melhorando, mas ainda é problemático. Trata-se do idioma internacional de turismo. Não estou dizendo que isso é justo, apenas que funciona assim. Houve uma ocasião em que fiz um experimento no Aeroporto de Guarulhos. Tentei alugar um carro e teria desistido se não falasse português. Uma vez, um profissional de turismo brasileiro foi a Nova York e não conseguiu fazer a apresentação em inglês. Fora isso, existe a questão da segurança, que preocupa turistas.

Em seu livro, o senhor destaca que toda grande cidade tem hoje seu Wil­liams­burg, bairro nova-iorquino cheio de cervejarias artesanais e lojas de produtos orgânicos. Hipsters tornam o turismo mais sem graça? Acho inacreditável a obsessão que turistas que visitam Nova York têm por Wil­liamsburg, bairro do Brooklyn. Eles estão procurando o lugar que existia anos atrás. Ainda é uma região legal, mas um espaço de hipsters ricos; não existe mais a cultura genuína de antes. Viajar pelo mundo procurando lugares com drinques de 15 dólares e pensar que você está experimentando a cultura local é um equívoco. Ri muito de uma reportagem feita por um cara de Nova York que estava em busca da experiência hipster em Porto Rico e, no fim da matéria, disse que era exatamente como estar no Brooklyn, só que com praia. Se você tem tempo e quer conhecer o bairro mais descolado de cada grande cidade, ótimo, mas não vá confundir isso com cultura local.
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Publicado em VEJA de 2 de janeiro de 2019, edição nº 2615
Reportagem Por Luísa Costa 28 dez 2018,
Fonte:  https://veja.abril.com.br/entretenimento/esqueca-os-postais/

Almanaque Bolsonaro

Um guia para entender o país que vem por aí, a partir da posse, em 1º de janeiro

Todo início de governo é um mar de novidades, com a revelação de novos nomes, novos gostos, novos estilos — e, quase sempre, velhos hábitos. Na recente história da democracia brasileira houve a República de Alagoas, de Fernando Collor. Depois do impeachment de 1992, o Brasil apressou-se para conhecer a República mineira do pão de queijo de Itamar Franco. Com Fernando Henrique Cardoso e Lula, o país primeiramente entrou no bairro paulistano de Higienópolis para depois flanar pelas ruas de São Bernardo do Campo, e em cada região teve de aprender a reconhecer gestos inéditos.
Veio Dilma, deu-se um outro impeachment, veio Michel Temer — e a velocidade das mudanças impôs uma corrida para intuir o que se veria pela frente. É o que viveremos a partir da próxima terça-feira, com a posse de Jair Bolsonaro. VEJA preparou um almanaque para começar a entender o cotidiano do presidente eleito e seu círculo. É o modo mais eficaz e divertido de navegar no ineditismo — e sobretudo o mais rápido. Em 1890, Machado de Assis publicou um conto, Como Se Inventaram os Almanaques, um texto de apresentação e defesa daquele tipo de publicação divertida e rica importada da Europa. Escreveu Machado, louvando a agilidade dos livretos de variedades: “O Tempo inventou o almanaque”.

OS PENSADORES

Três autores celebrados pelo chanceler Ernesto Araújo, o homem das relações exteriores
OSWALD SPENGLER (1880-1936)
 (Caio Borges/.)
Sem modéstia alguma, na introdução de seu livro mais celebrado, A Decadência do Ocidente, de 1918, o historiador alemão dizia ter escrito não “uma” filosofia do nosso tempo, mas “a” filosofia de nosso tempo. Seu argumento central: todas as sociedades, como as plantas, brotam, florescem, amadurecem — e morrem. Para ele, todo caminho de evolução histórica é cultural, alimentado pela criatividade dos povos. Depois, vem o contraponto negativo, a etapa civilizatória, em que prevalece a tola imitação. Para Spengler, não havia retrato mais claro dessa involução do que a passagem da magnífica cultura grega para a decadente civilização romana. Numa de suas máximas mais conhecidas, ele disse: “O socialismo é o capitalismo das classes inferiores”. Admirado pelos nazistas, rompeu com eles por não aceitar a ideia de superioridade racial e por enxergar um futuro pessimista para a Alemanha hitlerista.

RENÉ GUÉNON (1886-1951)
 (Caio Borges/.)
Nascido em Blois, na França, filho de pais católicos, foi estudante de matemática, mas logo enveredou pela teologia, maçonaria, cristianismo medieval, hinduísmo e islamismo. Em A Crise do Mundo Moderno, publicado em 1927, está a essência de suas ideias: o Ocidente representava o estágio derradeiro, a decadência na qual o materialismo se sobrepunha ao espírito; a individualidade, à comunidade. Para Guénon, o Renascimento não foi um renascimento, mas uma morte, na definição extraída pelo jornal The New York Times. A ciência, a racionalidade e o humanismo seriam fruto de uma ilusão. Nas palavras do chanceler Ernesto Araújo, o intelectual francês acreditava que “somente o cristianismo, e especificamente o catolicismo, poderia salvar o Ocidente”. A obra de Guénon, segundo o filósofo e ex-astrólogo Olavo de Carvalho, guru dos Bolsonaro, “é cheia de alçapões e disfarces; ali tem mais coisa escondida do que escrita”.

JULIUS EVOLA (1898-1974)
 (Caio Borges/.)
Filósofo, escritor, poeta e pintor italiano, escreveu sobre praticamente tudo — de religiões orientais a sexo e alquimia. É celebrado por uma linha de pensamento, o “tradicionalismo”, segundo a qual progresso e igualdade são quimeras. Nos anos 1960 e 1970, foi adotado pelos fascistas italianos que se autointitulavam “filhos do sol” — Evola imaginou uma nova ordem burguesa que chamou de “civilização solar”. Para o americano Richard Spencer, líder nacionalista e figura de proa do movimento da direita radical, “Evola é um dos homens mais fascinantes do século XX”. De um dos textos de Evola: “A mulher tradicional, a mulher absoluta, ao dar-se, ao não viver para si, ao querer ser toda para outro ser com simplicidade e pureza, realizava-­se, pertencia a si mesma, tinha um heroísmo todo seu — e, no fundo, tornava-se superior ao homem comum. A mulher moderna, ao querer ser por si mesma, destruiu-se”.

PEQUENÍSSIMO DICIONÁRIO

A origem de duas expressões que estão em voga
 (Caio Borges/.)
O.K. (“TALQUEI”, EM BOLSONARÊS) interj. Do inglês, expressa aprovação, concordância; a origem etimológica mais aceita é curiosa: seria uma abreviação de orl korrekt, um erro ortográfico de all correct (tudo certo), em voga nos Estados Unidos nos anos 1830; as referências escritas mais antigas datam de seu uso como slogan do Partido Democrata americano nas eleições de 1840. O candidato e futuro presidente Martin van Buren (1782-1862) foi apelidado de Old Kinderhook, numa referência à sua cidade natal, Kinderhook. Não demorou para se formar o OK Clube, tá o.k.?
 (Arte/VEJA)
COLOSTOMIA s.f. “Abertura cirúrgica do abdome ligada à terminação do cólon, com a finalidade de criar um ânus artificial para a eliminação das fezes”, na definição do Dicionário Houaiss; Bolsonaro deve retirar a bolsa de colostomia, colocada depois do atentado em Juiz de Fora, ainda no primeiro mês de seu mandato.
 (Caio Borges/.)

VERBATIM 3 ESTRELAS

As assombrações dos generais da reserva mais próximos da futura Presidência
 (Caio Borges/.)
“Os livros de história que não tragam a verdade sobre 1964 precisam ser eliminados.”
De ALÉSSIO RIBEIRO SOUTO, general da reserva que participou da equipe de transição
“Uma Constituição não precisa ser feita por eleitos pelo povo. Já tivemos vários tipos de Constituição que vigoraram sem ter passado pelo Congresso.”
De HAMILTON MOURÃO, general da reserva que ocupará o Palácio do Jaburu na condição de vice-presidente
“O presidente está isento disso aí porque não teve participação. O que apareceu dele é irrisório, uma quantia pequena, e ele mesmo já explicou. Acredito que não vai atingi-lo.”
De AUGUSTO HELENO, general da reserva, futuro ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, a respeito das movimentações atípicas na conta do ex-motorista do primeiro-filho, o senador eleito Flavio Bolsonaro

GASTRONOMIA

A iguaria matinal — e de outros momentos do dia — do presidente eleito
 (Caio Borges/.)
Pão com leite condensado
Ingredientes
1 pão francês
Leite condensado a gosto
Modo de preparo
(1) Corte ao meio o pão francês com faca de serra, no sentido longitudinal.
(2) Retire o miolo, ou pelo menos parte dele (vai depender do grau de doçura desejado).
(3) Besunte a cavidade com leite condensado, que deve ser levado à mesa na latinha original.

MODA PRAIA

 (Caio Borges/.)
As mil e uma utilidades, ou um pouco menos, de uma prancha de bodyboard
(1) Improvisada como mesa para apoio de gravadores e microfones das emissoras de televisão e rádio, como ocorreu numa das primeiras entrevistas coletivas de Jair Bolsonaro, logo depois da eleição
(2) Peça de decoração; pendurada na parede, leve e colorida, concede ao aposento um ar jovem, um tantinho hippie e muito cool
(3) Bandeja; acomoda bebidas e comidinhas em profusão, inclusive na piscina, onde pode ser puxada pela cordinha

UMA NOTA SÓ

O Brasil já teve o Ministério da Cultura da Broa de Milho, nome dado pelo ministro Aluísio Pimenta (1985-1986) para enfatizar que cultura não era apenas a arte, mas também a broa de milho. Osmar Terra, futuro ministro da Cidadania e Ação Social, que abrigará as pastas de Desenvolvimento Social, Esporte e Cultura, inaugurou uma nova era ao dizer: “Só toco berimbau”. Vem aí o Ministério do Berimbau.
 (Caio Borges/.)
s.m. Instrumento de corda típico da Bahia, oriundo de Angola, onde é conhecido como hungo. Constituído por uma vara em arco, de madeira ou verga, com comprimento aproximado de 1,50 metro e um arame preso nas extremidades da vara. Na base é amarrada uma cabaça (Lagenaria siceraria) ou um coité (Crescentia cujete).

DIVERSIDADE

Em quase todas as aparições de Bolsonaro na internet há intérprete de libras. A futura primeira-dama, Michelle Bolsonaro, diz ter se apaixonado pela linguagem de sinais por causa de um tio surdo
“Tem que mudar isso aí, viu?”
 (Caio Borges/.)


OS LIVROS DA ESTANTE — E OS DA LIXEIRA

Na campanha e na vitória, Bolsonaro fez questão de aparecer diante de livros — alguns ele diz servirem de guia, outros, de mau exemplo. Deu 5 a 2.
Os títulos amigos…
A Mensagem — Uma Versão da Bíblia, de Eugene Peterson

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Uma edição simplificada, em tom coloquial, escrita por um pastor presbiteriano
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Constituição de 1988 (Arte/VEJA)
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Exemplar da “Constituição Cidadã”, promulgada por Ulysses Guimarães
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Memórias da Segunda Guerra Mundial, de Winston Churchill
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Minucioso relato do conflito, de sua gênese ao fim, nas palavras do primeiro-ministro britânico
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O Mínimo que Você Precisa Saber para Não Ser um Idiota, de Olavo de Carvalho

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É, na verdade, um pouco mais que o mínimo. Trata-se de uma coletânea de 193 artigos e ensaios do filósofo e ex-astrólogo
‘A Verdade Sufocada — A História que a Esquerda Não Quer que o Brasil Conheça’, de Carlos Alberto Brilhante Ustra (Arte/VEJA)

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A versão da ditadura brasileira nas palavras do torturador que comandou o DOI-Codi de 1970 a 1974

…e os títulos inimigos
‘Uma Ovelha Negra no Poder — Confissões e Intimidades de Pepe Mujica’, de Andrés Danza e Ernesto Tulbovitz (Arte/VEJA)

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Biografia oficial do ex-guerrilheiro tupamaro, que esteve preso por catorze anos e virou presidente do Uruguai
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Aparelho Sexual e Cia. — Um Guia Inusitado para Crianças Descoladas, de ZEP e Hélène Bruller
Aparelho Sexual e Cia. — Um Guia Inusitado para Crianças Descoladas, de ZEP e Hélène Bruller (Arte/VEJA)
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O livro educativo que Bolsonaro disse ter sido distribuído pelo MEC, coisa que nunca aconteceu

A ALMA DO NEGÓCIO

Ou: como uma propaganda de televisão foi incorporada pela política
 (Caio Borges/.)
Posto Ipiranga
Campanha criada em 2011
Tudo começou com o superministro da Economia, Paulo Guedes, o “Posto Ipiranga” de Bolsonaro. Ou seja: o sujeito que sabe tudo e tem todas as respostas. Procurada por VEJA para falar sobre a campanha publicitária, a Ipiranga informou: “O bordão de sua campanha publicitária, por ter uma linguagem bem-humorada e o posicionamento claro, ‘um lugar completo esperando por você’, associado ao dia a dia das pessoas, gerou uma repercussão histórica que, por vezes, ultrapassa o meio publicitário. O jargão ‘Pergunta lá’ é utilizado por diferentes pessoas em situações distintas. O fato de já estar inserido na vida dos brasileiros tornou o Posto Ipiranga uma referência ampla, nacionalmente reconhecido, quando o objetivo é trazer o sentido de completude a algum tema específico. A empresa acompanha as citações divulgadas na mídia, porém não tem como evitar ou restringir o seu uso verbal em qualquer meio de comunicação. Cabe reforçar que a Ipiranga é apartidária e respeita a pluralidade democrática”.

Não é raro, na história da publicidade, que boas sacadas de marketing ganhem voo próprio. Dois exemplos:
Cigarro Vila Rica, “Lei de Gérson”
Campanha criada em 1976
É aquela da famosa máxima “quero levar vantagem em tudo”. A frase é proferida pelo craque da seleção brasileira ao final do comercial de TV. Colou, caiu na boca do povo, mas, com o tempo, à revelia de Gérson, o “canhotinha de ouro”, passou a ser negativamente associada ao egoísmo e ao “jeitinho brasileiro”.

Fiat, “Vem pra Rua”
Campanha criada em 2013
Incitava a torcida brasileira a ir para a rua e celebrar a seleção na Copa das Confederações que antecedeu a Copa do Mundo de 2014. Coincidiu com as manifestações de junho, que começaram com o “não são só os 20 centavos”. O “vem pra rua” tornou-se o chamariz, virou nome de um movimento político e, no fim da história, tirou Dilma, pôs Temer e elegeu Bolsonaro.

ARMA DE VERDADE…

 (Caio Borges/.)
Glock 380
É a pistola que Bolsonaro, então deputado federal, em 1995, levava debaixo da jaqueta e que foi roubada num assalto — surrupiaram a arma e uma moto Honda Sahara de 350 cilindradas. No início deste ano, no programa Roda Viva, o então candidato do PSL falou sobre o assunto: “Eu fui assaltado, sim, eu estava numa motocicleta, fui rendido, dois caras, um desceu e me pegou por trás, o outro pela frente. Dois dias depois, justamente com o 9º Batalhão da Polícia Militar, nós recuperamos a arma e a motocicleta e por coincidência — não é? — o dono da favela lá de Acari, onde foi pega… foi pego lá, estava lá, apareceu morto um tempo depois, rápido. Não matei ninguém, não fui atrás de ninguém, mas aconteceu”.

…E ARMA DE BRINCADEIRINHA

 (Caio Borges/.)
Lição de anatomia
O gesto aparentemente banal da arminha, marca de Bolsonaro, envolve um balé de ossos e músculos. Para manter o polegar estendido para cima, na posição de quase 90 graus, são utilizados dois músculos do dedo: os extensores longo e curto. O dedo indicador apontado também trabalha com um músculo extensor. No movimento de fechar os três dedos recolhidos, são acionados outros dois músculos: o flexor superficial e o flexor profundo.


 (Caio Borges/.)
 (Arte/VEJA)

ADMIRAÇÃO E ÓDIO

 (Caio Borges/.)
Um herói de Bolsonaro…
Luís Alves de Lima e Silva (1803-1880), “O Pacificador”, “O Duque de Ferro”, conhecido como Duque de Caxias, é o patrono do Exército brasileiro. Em 1977, o colunista Lourenço Diaféria, do jornal Folha de S.Paulo, foi detido pela Polícia Federal depois de escrever um texto — “Herói. Morto. Nós” — no qual criticava Caxias. Na crônica, ao defender o ato de um homem que salvara um adolescente num tanque de ariranhas, em Brasília, Diaféria escreveu: “Prefiro esse sargento ao herói Duque de Caxias. O duque de Caxias é um homem a cavalo reduzido a uma estátua. (…) o povo está cansado de espadas e de cavalos. O povo urina nos heróis de pedestal”.
 (Caio Borges/.)
…e um anti-herói
Em agosto, durante uma palestra para empresários no Espírito Santo, Bolsonaro não poderia ter sido mais claro quanto ao que pensa sobre educação, ao dizer que entraria com “um lança-chamas no MEC para tirar Paulo Freire lá de dentro”. Paulo Reglus Neves Freire (1921-1997) foi um educador brasileiro, autor de uma obra clássica, Pedagogia do Oprimido, na qual afirma que aprender é um modo de o indivíduo tomar consciência de sua condição histórica. Freire dizia: “Não basta saber ler mecanicamente que Eva viu a uva. É preciso compreender qual posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir uvas e quem lucra com esse trabalho”.

DA BÍBLIA

Bolsonaro costuma pontuar suas aparições com a frase do apóstolo João, filho de Zebedeu, parte do Novo Testamento. O presidente eleito é católico apostólico romano, mas antes de começar a campanha presidencial foi batizado na Igreja Assembleia de Deus. Manteve uma rotina de cultos evangélicos com a mulher, Michelle, fiel da Igreja Batista Atitude.
Do versículo 32, capítulo 8 do Evangelho de João:
“E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”.

DO OXFORD

 (Caio Borges/.)
Post-truth (pós-verdade): relativo ou referente a circunstâncias nas quais os fatos objetivos são menos influentes na opinião pública do que as emoções e as crenças pessoais.

ÁGUAS NA CABEÇA

 (Caio Borges/.)
RIO JORDÃO
Nascente: Monte Hérmon (Líbano)
Foz: Mar Morto (Israel, Jordânia e Cisjordânia)
História: é um lugar sagrado para os cristãos. Segundo a Bíblia, o batismo de Jesus foi realizado por João Batista em suas águas. Em 12 de maio de 2016, enquanto o Senado abria o processo de impeachment de Dilma Rousseff, Jair Bolsonaro também foi batizado pela Igreja Evangélica no Jordão.Qualidade da água: péssima. É um esgoto a céu aberto com resíduos de mineração. Não é raro encontrar em suas margens minas terrestres — resultado de anos de conflito de Israel com os vizinhos árabes.
PRAIA DA BARRA (POSTO 4)
Localização: em frente ao Vivendas da Barra, o governo fora de Brasília
História: o litoral da Barra da Tijuca foi ganhando frequentadores conforme a epidemia de condomínios fechados ia se espalhando e tomando conta da beira-mar. Mas o coco verde do Posto 4 não tem um décimo do charme do servido no Posto 2, onde fica a lendária — lendária, sim — Barraca do Pepê.
Qualidade da água: boa, mas cuidado com a arrebentação.
PRAIA DA JOATINGA
Localização: um ponto remoto do Joá
História: tornou-se uma lenda entre os fãs de celebridades pela vasta quantidade de fortões seminus equilibrando-se em uma prancha de surfe. Também atrai pelo ambiente relaxado, com cachorros correndo pela areia e pelo cheiro de erva no ar. Para chegar lá, é preciso descer uma trilha e pular algumas pedras — nada que desanime os surfistas frequentes, como o ator Cauã Reymond, e os nem tanto, como o deputado federal Eduardo Bolsonaro.
Qualidade da água: própria para banho, mas mais revolta que um debate interno do PSL.

O ESTILO MICHELLE

 (Caio Borges/.)
Uma avaliação do vestuário e do jeito de ser da primeira-dama do 38º presidente do Brasil
André Lima, estilista paraense
“A nova alfaiataria pede um estudo de proporções menos careta: tanto o blazer quanto a calça podem ficar mais longe do corpo e menos colados, para não marcar as curvas.”
“Para ficar mais sofisticada, ela deveria abandonar tecidos de elastano. O ideal é o crepe de seda.”
“Que tal substituir o scarpin por uma sandália mais leve? O resultado fica mais jovem e atual.”
Reinaldo Lourenço, estilista paulista
“O visual é adequado, com cores e modelagens discretas. Correto para uma primeira-dama.”

 (Arte/VEJA)


 (Arte/VEJA)
Publicado em VEJA de 2 de janeiro de 2019, edição nº 2615
Fonte:  https://veja.abril.com.br/politica/almanaque-bolsonaro/

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

MEUS PASSOS

Juremir Machado da Silva*
 Imagem relacionada

Mas os teus passos eram meus
Estranhamente como um sinal
Estranhamente de tão normal
Os teus passos eram os meus.

Fim de ano me torna nostálgico. Gosto cada vez mais de palavras e de frases que ecoam nas tardes como velhos relógios de parede. A gente ouve e sente uma melancolia sem motivo. Dói como uma lembrança de nossos melhores dias. Sei que avanço lentamente para trás como um trem que só existe para enfeitar a paisagem e corre sobre os trilhos feito um cão em busca do seu dono. Não me queixo nem sofro. Fotos na parede da memória não sangram. Apenas dão um ar outonal, como uma sala de vidro escuro sempre com o ar-condicionado ligado, aos momentos de hesitação e medo. Estou velho para falar com os jovens e jovem para conversar com os velhos. Minhas palavras são acordes num instrumento que jamais serviu para fazer boa música.

Encontro beleza nessas palavras e nessas frases que se afundam no tempo como imensas paredes num desfiladeiro de faroeste. Sei que muitos se espantam com estes devaneios, estas abstrações que se espiralam como redemoinhos em antigas chácaras, e até se perguntam: está sem assunto? Curiosamente é o assunto que mais me pega, aquele que me faz retesar a corda até sentir meus dedos feridos. Então me pego contemplando o poente como quem busca na silhueta dos prédios distantes uma mensagem de amor. Eu queria escrever o mundo, descrever a alma, capturar as profundezas do ser que caminha pela rua ensimesmado às voltas com o que nunca saberá dizer.

      Fim de ano me deixa perplexo. Sinto o tempo passar entre os meus dedos como uma lufada de vento frio em pleno verão. Fantasmas ressurgem das entranhas do passado e sorriem na volta da esquina. Vozes se cruzam e se vão empurradas por brisas do anoitecer. Imagens embalsamadas se estampam nos muros de construções decadentes num rendilhado de sol e sombra. Abro minha caderneta e tento cercar o vivido numa cadeia de acontecimentos, de fórmulas, de conceitos, de recordações inclassificáveis e urgentes. Ninguém poderá escrever o que eu sinto, esta agridoce sensação de ver um menino se afastando no retrovisor com o sorriso que era meu.

Não me sinto triste. Quem pode se sentir triste vendo o sol nascer e morrer para de novo nascer e morrer com a mesma alegria de dezembro? Outro dia, dormi no ônibus. Quando acordei, no subúrbio, a cidade me afagava com seu cotidiano mais terno e verdadeiro. Lembrei dos meus primeiros tempos na capital. Espreguicei-me como se estivesse na cama, espichei as pernas e empreendi a longa viagem de volta como quem se descobre para viver. De uma casa, com janelas coloridas, escapava uma melodia de Chet Baker. Deixei como uma gaivota as minhas pegadas na areia da solidão. Lentamente vi a cidade se redesenhar a traços de giz enquanto me acomodava para sonhar.

– Não vá perder o ponto, professor – me disse uma moça.
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* Jornalista. Escritor. Prof. Universitário
Fonte:  http://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/2018/12/11447/cronica-meus-passos/
Imagem da Internet

Os arquivos da Igreja: o bordel dos franciscanos e um assassinato na missa

O historiador Juan Postigo em uma rua de Zaragoza, cidade protagonista de seu livro.
O historiador Juan Postigo em uma rua de Zaragoza, cidade protagonista de seu livro.

Historiador retrata subterrâneos dos séculos XVII e XVIII através de documentos da Justiça eclesiástica

Em uma rua do centro de Zaragoza havia uma casa com as janelas sempre fechadas pela qual desfilavam autênticas romarias de padres franciscanos entrando e saindo com chave própria. Em uma das visitas, vários deles chegaram até a se trancar ao mesmo tempo em um quarto com uma mulher de nome Francisca. Até que os vizinhos disseram basta e acabaram com esse “lupanar especializado”. Uma simples denúncia de um morador da mesma rua acabou com o prostíbulo preferidos dos franciscanos no século XVII.

Se esse processo não ficou enterrado em séculos de história é porque chegou aos tribunais com todos os detalhes. Os arquivos judiciais eclesiásticos reúnem centenas de relatos de amores proibidos, terríveis agressões sexuais, prostituição, a à época proibida homossexualidade e até brigas em plena missa. O historiador Juan Postigo mergulhou durante meses no arquivo diocesano de Zaragoza para rastrear os subterrâneos da sociedade dos séculos XVII e XVIII.

“Os documentos são realmente explícitos. Como não existiam provas forenses, os investigadores faziam interrogatórios extenuantes que ficaram completamente registrados”, diz o pesquisador, cujo trabalho está no livro El Paisaje y las Hormigas (A Paisagem e as Formigas). Como diz Postigo, muitas das práticas consideradas ilegais eram aceitas pela sociedade, até que um ponto de inflexão as transformava em insustentáveis e chegavam aos tribunais. No caso do prostíbulo dos franciscanos, o detonador foi a discussão de um dos vizinhos com o dono da casa.

Os processos judiciais mostram pequenos retratos dos costumes da época. Um deles narra a tempestuosa relação entre um nobre e uma criada, que acabou com a gravidez dela. Quando a mulher foi pedir ajuda ao homem para criar o bebê ele se esquivou de suas responsabilidades, de modo que ela recorreu a uma feiticeira moura. Um criado escutou a mulher em plena conversa com a suposta bruxa e contou ao nobre, que sugestionado pelas práticas mágicas começou a ter problemas para ter relações sexuais e decidiu ajudar a mãe de seu filho.
O gênero feminino precisou entrar dentro dos padrões moralistas de uma vida dependente do marido. Se elas queriam manter idílios amorosos precisavam entrar no mundo da ilegalidade
Nas leis morais da época, o público e o privado se confundem. Os escritos mostram denúncias contra nobres por deitarem-se com algumas de suas criadas. E, por exemplo, uma acusação contra a mulher de um hospedeiro por manter uma relação com um hóspede. “A sexualidade só tinha espaço dentro do casamento, todo o resto era perseguido. Além disso, as pessoas de diferentes classes não podiam ficar juntas e constantemente encontramos casos de homens e mulheres que burlaram essas normas”, diz Postigo.

O historiador define a mulher como um “agente de transgressão permanente”, pelas rígidas regras em que estavam presas. “O gênero feminino precisou entrar dentro dos padrões moralistas de uma vida dependente do marido. Se elas queriam manter idílios amorosos precisavam entrar no mundo da ilegalidade”. Também são detalhados numerosos casos de maus-tratos a mulheres, que se tornavam assunto público somente quando a crueldade era especialmente grave, como no caso de Agustín Pintor, um homem que obrigava sua mulher a se prostituir, a agredia quando os clientes se cansavam e deixavam de pagar e andava pelo mercado com sua amante abertamente”. A pobreza tornava as mulheres dependentes dos homens”, afirma Postigo.

Além das histórias de bairro levadas a julgamento, os documentos dão descrições detalhadas de fatos atrozes, como tiros no meio da noite, mães que prostituem suas filhas e agressões sexuais a meninas. O escritor pega o assassinato dentro da basílica do Pilar do ourives Tomás Teller, que ao acabar suas orações recebeu um tiro de rifle de alguém que havia preparado cuidadosamente o lugar e o modo que iria acabar com sua vida. Aconteceu na noite de 29 de agosto de 1687. “Como os templos eram os lugares em que a sociedade cristã passava a maior parte de sua vida, também se transformaram em cenários de crimes”, diz Postigo.

A vizinha catedral de La Seo também abrigou contendas, como a impressionante briga a socos de dois religiosos em plena missa de 2 de novembro de 1747. Tudo aconteceu porque um disse ao outro que ele havia se esquecido de ler um versículo.

Postigo extrai uma conclusão da análise dos crimes passados: “As rigidezes impositivas só faziam com que as pessoas precisassem encontrar brechas para satisfazer seus instintos. Muitas vezes pode ser contraproducente deixar as pessoas presas demais”.
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Reportagem por  - Zaragoza

Cíceros

LUIS FERNANDO VERÍSSIMO*

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Cícero era o cara. Orador brilhante, político atuante, filósofo, poeta, republicano exemplar... Foi o intelectual que dominou duas eras de transição, a do ocaso do mundo pré-cristão e a da passagem do grego para o latim como língua civilizatória. Li em algum lugar que, se não fossem as traduções que Cícero fez do grego para a língua de Roma, a história do mundo teria sido outra. Uma especulação "un po exaggerata", diriam em Roma.

Shakespeare botou Cícero na sua peça Júlio César, mas como um coadjuvante que pouco aparece, embora seja muito citado. Os conspiradores que se preparam pra assassinar César e frear sua ambição autocrática discutem se Cícero deve ser convidado para o golpe. Afinal, nenhum romano era mais republicano do que ele. Mas a razão para convocá-lo não seria sua oratória inflamadora ou sua predisposição para derrubar possíveis tiranos.

"Vamos chamá-lo porque seus cabelos prateados nos comprarão boas opiniões e vozes que elogiarão nossos feitos", diz um dos conspiradores. "Dirão que o julgamento dele guiou nossas mãos e que nossa juventude e loucura não aparecerão, pois estarão enterradas na sua gravidade." Cabelos prateados e gravidade é o que Cícero, que está vivendo seu próprio ocaso, tem para oferecer aos conspiradores, que não o convidam para ajudar a matar César. Mas, mesmo não participando do golpe, Cícero não escapa da terrível vingança de Antônio, que pede para lhe trazerem a cabeça e as mãos do poeta decepadas.

Cícero foi um exemplo do perigo de incorporar virtudes cívicas quando todos à sua volta só querem é poder, e a emprestar seu prestígio - ou seus cabelos brancos - a causas incertas. A redescoberta da era clássica pela Renascença resgatou Cícero da obscuridade, mas é outro Cícero que aparece agora, o inspirador da República das Letras, que surgirá para compensar os horrores de um mundo em ebulição e defender um humanismo transnacional. Infelizmente, um ideal que depende da política como uma atividade de cavalheiros, governos de uns poucos iluminados e todas as práticas antidemocráticas que você pode imaginar. Esse Cícero não nos serve.
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* Jornalista. Escritor.
Fonte: http://flipzh.clicrbs.com.br/jornal-digital/pub/gruporbs/acessivel/materia.jsp?cd=bdad32300cee64091dd5b5e7e91d7849
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