terça-feira, 3 de abril de 2012

X-tudo ambiental

Xico Graziano*

Passadas duas décadas desde que se realizou a Rio-92, a Organização das Nações Unidas (ONU) resolveu organizar no Brasil uma nova conferência mundial. Concebida para avaliar o desenvolvimento sustentável, a Rio+20 ameaça ser um fracasso. Sua complexa agenda virou uma torre de Babel.
A primeira conferência mundial sobre meio ambiente foi realizada em 1972 na capital sueca, a cidade de Estocolmo. Lá nasceu o importante Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). Começavam a ser conhecidos, cientificamente, os limites da Terra para a explosão populacional humana. Consequências ecológicas do crescimento econômico.
Importante relatório da ONU divulgado 15 anos depois, intitulado Nosso Futuro Comum, definiu as bases do conceito que virou mantra na atualidade: o desenvolvimento sustentável. Derivada da noção pioneira de "ecodesenvolvimento", proposta pelo economista polonês naturalizado francês Ignacy Sachs, a expressão propunha conciliar a economia com a ecologia. Mais tarde, na Cúpula da Terra (nome original da Rio-92), ampliou-se a compreensão sobre o tema, consagrando o famoso tripé da sustentabilidade: ecologicamente equilibrada, socialmente justa e economicamente viável.
Ao se incorporar à temática do desenvolvimento econômico, a causa do ambientalismo, antes restrita aos idealistas e aos visionários, ganhou importância. A sociedade global mudava a compreensão sobre o seu devenir. O crescimento predatório, que emite notas promissórias contra o futuro, perdeu cartaz, abrindo espaço para o surgimento da "economia verde", novo paradigma da civilização.
Em tese, tudo resolvido; na prática, imensas dificuldades. As nações jamais consolidaram passos subsequentes, necessários para obter governança global sobre o meio ambiente. As empresas, por seu lado, perderam tempo tratando a sustentabilidade apenas como uma jogada de marketing, pouco modificando os processos tecnológicos de produção. Entre as pessoas, a conscientização ecológica jamais ultrapassou as elites da sociedade. Em consequência, anda atrasado o enfrentamento consistente da crise ambiental.
Falta também clareza sobre a ideia central. Desde que se formulou o conceito de desenvolvimento sustentável, suas três dimensões - ambiental, social e econômica - disputam espaço político em sua agenda. Se, num primeiro momento, a luta ambiental se robusteceu ao ser incorporada aos processos decisórios da economia, aos poucos o ambientalismo passou a dividir o seu ativismo com grupos centrados nas desigualdades sociais. Uma sociedade miserável, afinal, não pode ser considerada sustentável.
Especialmente nos países emergentes, como o Brasil, os dilemas elementares do crescimento - emprego, moradia, energia, transportes - exigem obras que pressionam fortemente as variáveis ambientais. Nesse sentido, o preservacionismo radical, coerente nos países ricos, por aqui soa como elitista. Por isso a ideia de sustentabilidade, mais ampla, ganhou espaço, forçando o ambientalismo a ser realista. Mais do que eloquentes palavras, ações concretas.
Em outra linha, certas organizações fizeram da sustentabilidade uma estratégia de combate à exclusão humana, fornecendo uma grife aos movimentos ligados à erradicação da miséria e à justiça social. Estes, agora, pegaram carona nos preparativos da Rio+20 e praticamente dominaram a mídia sobre a reunião. Negros, feministas, sem-terra, índios, gays, causas humanitárias variadas imiscuíram-se com o ambientalismo, resultando boa confusão, teórica e política.
Resultado: a Rio+20 perdeu seu foco original, ligado à crise ecológica da civilização. Assim argumentam os cientistas, militantes da causa ambiental, laureados com o prêmio Planeta Azul, uma espécie de Oscar da sustentabilidade. O físico José Goldemberg é um dos que lideram a grita contra essa deformação nos debates pré-conferência, marcada para início de junho. Rubens Ricupero, diplomata cuja ação foi decisiva para o sucesso da conferência de 20 anos atrás, esclarece: "Se a questão ambiental não for encaminhada de maneira satisfatória, se o clima aquecer demais, não teremos nem social nem econômico (...), virá o colapso total".
Para piorar o quadro, entidades (que se julgam) esquerdistas passaram a contestar o tema da economia verde, proposto originalmente pela ONU, argumentando que esverdear os processos produtivos interessa apenas ao capitalismo. Para libertar os povos oprimidos, defendem, será necessária uma nova e ampla "revolução", que, obviamente, ninguém sabe definir qual nem como. Nem onde.
E assim nos aproximamos da Rio+20. Nesse contexto, provavelmente nada de importante nela se decidirá. Uma avaliação séria, se viesse a ser realizada, mostraria que, a despeito de boas ações aqui e ali, a civilização continua caminhando para o colapso. Inexiste uma força coordenadora, decisória, que enquadre a sociedade global na agenda futurista. Essa governança, que poderia ser o grande assunto do encontro no Rio de Janeiro, será provavelmente substituída pelas resoluções de sempre, genéricas, que empurram o problema com a barriga.
A grande conferência da ONU deve configurar, infelizmente, apenas uma grande festa ideológica, cujo brilho até poderá ajudar no avanço da consciência ecológica mundial, mas não deixará marca registrada. Haverá uma mistureba semelhante ao recheio daqueles sanduíches do tipo x-tudo: uma fatia da diplomacia internacional, uma rodela de terceiro-mundismo clássico, pitadas da Via Campesina, pedacinhos de ambientalismo com molho oriundo dos povos oprimidos, um caroço do empresariado inteligente amolecido pelas entidades científicas, tempero blá-blá-blá à vontade.
Fica delicioso, enche a barriga, mas não guarda o gosto de nada. 
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*Agrônomo, foi secretário de Agricultura e secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo. E-mail: xicograziano@terra.com.br
Fonte: Estadão on line, 03/04/2012
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O filme 'Pina' é um spa mental

Arnaldo Jabor *


Fui ver o filme de Wim Wenders sobre a vida e obra de Pina Bausch e saí do cinema deslumbrado. Estava mesmo precisando de um pouco de beleza, sufocado pela feiura da calamidade urbana de São Paulo e envenenado pela vida política do País, que balança entre vícios ideológicos paralisantes e a corrupção institucional. Com a crise entre governo e aliados, a política virou uma gincana de obstáculos que impedem o Executivo de governar. Além disso, vivemos longe da beleza, intoxicados pelo furacão de irrelevâncias 'pop' que matam a contemplação muda da arte. E Pina é grande arte. Fui ao cinema em busca de um spa mental. Depois de uns trailers repulsivos de violência para crianças, começou o filme do Wim. Eu andava meio de saco cheio do alemão, desde Asas do Desejo com aquele papo de que os anjos só eram vistos pelas criancinhas. Mas, esse filme é o máximo. Há muito tempo não via algo tão emocionante. Wim parece ter seguido as lições da própria Pina na delicadeza de um teatro dançado. Sua linguagem sem palavras diz mais que conceitos claros.
Jean-Luc Godard disse uma vez que o balé clássico aspira à imobilidade, a uma pose final que atinja um momento 'sublime'. Pina nunca buscou o tal 'sublime', mas só se interessava pela vida concreta (sem realismo, claro), com seus vícios, inibições, medos que impedem encontros definitivos e harmônicos. Seu tema é o desejo humano que resiste, mesmo debaixo do 'mal-estar de nossa civilização'.
Estive com Pina Bausch por alguns minutos, em sua última apresentação em São Paulo. Fiquei tímido e 'tiete' e mal conseguia dizer-lhe algumas frases decentes. Só me ocorriam banalidades sobre seu trabalho, coisas como 'awesome' ou 'cool', equivalentes a 'bem legal' ou 'irado', enquanto ela me olhava, fumando, pálida, pouco antes de sua morte.
Em seu filme, Wim Wenders criou uma mise-en-scène original, tirando bailados do palco e encenando-os nas ruas de Wuppertal. E melhor ideia ainda foi fazer o filme em 3D, o que nos revelou uma coreografia em camadas quase 'cubistas', exibindo closes e 'planos abertos' simultaneamente. É lindo ver toda essa riqueza de ângulos para um tipo de coreografia feita sobre os sentimentos mais comuns de nosso cotidiano: a angústia de viver sem sentido, a confusão de papéis sexuais, a fome de amor, o riso misturado a lágrimas. Bob Wilson disse uma vez: "A importância da obra de Pina será uma das poucas lembranças da arte do século 20". Fellini, outro gênio, chamou Pina para seu filme E La Nave Va e assim falou da grande artista: "O que Pina conta no palco é um teatro dançado que liberta todas as inibições; é festa, jogo, sonho... Mas é um conforto que se esvai aos poucos, porque o que a gente quer é que toda essa harmonia, toda essa leveza não acabe nunca e que a vida seja assim".
Pina Bausch fez uma arte que podemos até chamar de "terapêutica". Dentro de um mundo à beira do trágico irracionalismo que vemos nascer nos impasses políticos internacionais, Pina nos faz esquecer o mundo lá fora, sem nos 'alienar', redesenhando nossa crise absurda pela luz mágica da poesia. E não é apenas o êxtase de uma sinfonia ou de um grande filme; a arte de Pina nos deixa ver a máquina leve que organiza a composição estética, o segredo do processo criativo. Ela não nos emociona apenas; ela nos ensina. Aquela coisa do "beleza é verdade e verdade é beleza" se realiza diante de nossos olhos.
Pina é imensa, porque é das poucas pessoas que conseguiram descrever nosso tempo com angústia e compaixão. Isso: uma rara mistura de melancolia com esperança.
Já vimos na arte do século 20, desde o pós-guerra, o sentimento do absurdo, o horror, a desesperança crítica. Os mendigos de Beckett vagueavam em desertos sem saída. O Estrangeiro de Camus pedia que saudassem sua morte com "vivas" de ódio. Hoje, na literatura, restou um anarquismo sem rumo, detritos masoquistas de uma desesperança superficial, "Kafkas pop", "sub-joyces" despejando um automatismo narrativo porra-louca e superficial.
Pina Bausch, que era filha da Guerra Fria, não estava nessa. Ela sempre deixou um fio de felicidade passar por entre seus bailarinos solitários, desunidos, mal-ajambrados nas tristes roupas comuns, pobres ternos, pobres vestidinhos, desamparados transeuntes do nada para o nada. Pina criou um minimalismo afetivo, sem a frieza rancorosa de tantos artistas "engajados", sem a negra alegria de saudar a morte, de festejar a impossibilidade, o juízo final. Pina exalta a vida mesmo através de uma triste beleza, uma paz dark diante deste tempo que a indústria cultural está deformando com sua feira de ofertas. Pina via com amor nossos clichês e aprofundava-os, mostrando-nos a estranheza escondida sob a familiaridade, como um Brecht lírico da primeira fase (Baal, Selva das Cidades). Ela captava o imperceptível. Seus atores/bailarinos/personagens são quase sempre carentes, sozinhos, tentando alguma forma de encontro. Ver seus espetáculos era uma aula de "grande arte" e, por entre os corpos bailando, percebíamos as influências mais límpidas da arte contemporânea. Vemos Fellini, claro, vemos Chaplin, vemos na cenografia o minimalismo mais espontâneo, sem exibição vanguardista, vemos Mondrian, vemos os Irmãos Marx repetindo as mesmas routines de chanchadas, vemos Beckett curado de sua depressão doentia, vemos um painel amplo do melhor da criação do século 20, tudo interpretado pela espantosa capacidade técnica de seus bailarinos esfarrapados.
Pina humanizava nossos defeitos e nosso ridículo. Seus atores/personagens oscilavam entre desejo e repressão, entre liberdade e medo.
É isso aí. Ao sair do cinema, eu estava oxigenado, purificado, pronto para mais uma temporada no inferno da estupidez nacional. 
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* Cineasta. Jornalista. Cronista
Fonte: Estadão on line, 003/04/2012
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Lições de Camus


Juremir Machado da Silva*


<br /><b>Crédito: </b> ARTE JOÃO LUIS XAVIERTem leitor que fica fulo da vida quando eu falo de franceses. Recebo mensagens duras contra esses franceses chatos, esses "franceses sebentos". O leitor tem medo de parecer ignorante. Aí eu falo de Michel Teló. Sou magnânimo e culturalmente flexível. Hoje, correndo o risco de despertar a ira de alguns desses leitores impiedosos, falarei de um francês que já morreu, deixando saudades, um certo Albert Camus. Era goleiro. Bom goleiro da seleção universitária. A tuberculose o tirou dos campos. Só lhe restou ser filósofo e escritor. Na falta de melhor, ganhou o Prêmio Nobel da Literatura de 1957. Passou a vida às turras com outro francês mala, que também ganhou o Nobel, mas o recusou, um tal de Jean-Paul Sartre.

Saiu há pouco um texto inédito de Camus, publicado no Brasil pela Falha de S. Paulo, opa!, quer dizer, a Folha de S.Paulo, sobre as quatro qualidades principais de um jornalista: lucidez, recusa, ironia e obstinação. Camus pensa assim: "Em face da maré de besteiras, é preciso igualmente opor algumas recusas. Nenhuma das limitações do mundo leva um espírito um pouco limpo a aceitar ser desonesto. Ora, por menos que conheçamos o mecanismo das informações, é fácil nos assegurarmos da autenticidade de uma notícia". Eu me reconheci nesse texto de Camus. Tenho convicção de que ganharei o Nobel. Só não sei se irei buscá-lo. Já estive na Suécia. É longe. Faz frio. Recusar dá ainda mais mídia. Preciso pensar. Sou ironicamente obstinado: recuso-me a crer que me falta lucidez. Estou no caminho certo. O olho da rua.

Só a ironia salva segundo Camus: "Podemos estabelecer que, em princípio, um espírito que tem gosto e os meios para impor limitações é impermeável à ironia. Não vemos Hitler, para tomar apenas um exemplo entre outros, utilizar a ironia socrática. Conclui-se que a ironia permanece como uma arma sem precedentes contra os poderosos demais. Ela completa a recusa na medida em que permite não rejeitar o que é falso, mas muitas vezes dizer o que é verdadeiro. Um jornalista livre, em 1939, não tem muitas ilusões sobre a inteligência daqueles que o oprimem. Ele é pessimista no que diz respeito ao homem". Em 2012, nada mudou. Sim, algo mudou. Um jornalista livre não tem muitas ilusões sobre a inteligência da humanidade, uma humanidade que dança com Michel Teló, lê Paulo Coelho e despreza um gênio como eu.

Camus esteve em Porto Alegre. O Correio do Povo anunciou em 9 de agosto de 1949: "Camus chega hoje". No seu "Diário de Viagem", o escritor comentaria: "Quatro ou cinco franceses congelados esperam-me no Aeroporto. Anunciam que devo fazer uma conferência à noite, o que não estava combinado". Já tinha enroladores naquela época. Influência brasileira por certo. Ele disse ainda: "A luz é muito bela. A cidade, feia". Que falta de lucidez! Apesar dos nossos belos rios, observa: "Essas ilhotas e civilização são frequentemente horrendas". Enfim: "Minha preocupação é ir embora e acabar com isto, acabar com isto de uma vez por todas". Erico Verissimo discursou: "Vós sois uma das mais claras, belas e corajosas vozes da França de hoje". Ele não nos poupou.
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* Sociólogo. Escritor. Prof. universitário. Tradutor. Cronista do Correio do Povo
juremir@correiodopovo.com.brCrédito: ARTE JOÃO LUIS XAVIER
 Fonte: Correio do Povo on line, 03/04/2012

Millôr em Portugal

João Pereira Coutinho*
 
Na ditadura portuguesa, Millôr era um cometa de anarquia e liberdade a cruzar os céus de Lisboa
Millôr Fernandes escreveu para o "Diário Popular" de Lisboa entre 1964 e 1974. Anos sombrios. Portugal estava envolvido nas suas guerras coloniais.
Internamente, as universidades fervilhavam de contestações ao regime, com a respectiva dose de violência policial sobre os contestatários. Humberto Delgado, o candidato às eleições presidenciais de 1958 que prometera demitir Salazar se fosse eleito, era assassinado em Villanueva del Fresno, na Espanha.
Salazar não duraria muito mais tempo: em 1968, após acidente vascular cerebral, o ditador entraria num processo de degenerescência física e mental, em perfeita sintonia com o Estado Novo. O óbito ocorreria dois anos depois.
Entretanto, com a ascensão ao poder de Marcello Caetano, ainda se alimentaram algumas esperanças de que o regime iria "democratizar-se".
Esperanças vãs -e, atendendo ao intratável problema colonial, impossíveis também. O regime só terminaria com o pronunciamento militar de 25 de abril de 1974.
E, no meio de tudo isso, Millôr Fernandes. Conheço bem os textos publicados por Millôr em Portugal: dez anos atrás, por convite do editor Vasco Rosa, selecionei uma espécie de "best of" de Millôr em um livro para o público luso.
Todos os elogios são conhecidos. Mas é preciso acrescentar mais um: nos anos finais da ditadura portuguesa, Millôr era um cometa de anarquia e liberdade a cruzar os céus de Lisboa.
Paradoxalmente, o próprio Salazar sabia disso. Rezam as crônicas que, ao ler o "Diário Popular", Salazar começava sempre pela página "Pif-Paf", de Millôr. Para concluir: "Este gajo tem piada. Pena que escreva tão mal o português."
A sentença ilustra bem a ignorância literária de Salazar. Mas também a sua ignorância política.
As fábulas de Millôr; as suas máximas e aforismos; os haicais; e até os desenhos e cartuns, revolucionários para a época, eram sobretudo expressões de um temperamento antiautoritário em pleno regime autoritário: "O país que precisa de um salvador não merece ser salvo"."O voto é a arma do cidadão. A arma é o voto do governo."
Como era possível a Salazar rir dessas sentenças, que eram um verdadeiro insulto para o credo político do ditador?
Sem falar do resto. Na imprensa portuguesa, a censura procurava anular, previamente à publicação, todas as matérias que fossem "contra a verdade, justiça, moral, boa administração e bem comum".
As palavras de Millôr, feitas de subversão e irrisão, eram o avesso desses dogmas: "Nada é mais falso do que uma verdade estabelecida". "Quando um homem casa, aceita totalmente a lei da oferta e da procura. O que ele não oferta, a mulher procura." "Até mesmo o suor do trabalho e o suor do prazer têm cheiros diferentes."
Que tudo isso tenha sido publicado entre 1964 e 1974, no Portugal fechado de Salazar e Marcello, eis um milagre que os nativos não esquecem.
E não esqueceram: na hora da morte, os jornais portugueses, e sobretudo a nova geração de jornalistas, muitos deles nascidos depois do 25 de Abril, prestaram a sua homenagem em páginas longas e gratas a um mestre que veio do Rio.
Um ponto, porém, merece ser corrigido ante o consenso geral: não creio que Millôr fosse um exemplo acabado de cinismo, pelo menos de cinismo nas versões brutais de Ambrose Bierce ou H.L. Mencken.
O caso de Bierce, aliás, é exemplar: quando lemos o seu "Dicionário do Diabo", uma espécie de antecessor espiritual da "Bíblia do
Caos" de Millôr, o que espanta e desilude é o artificialismo dos textos.
Millôr nunca desilude. Não apenas porque o seu cinismo, se merece o nome, revela uma leveza de tom e uma espantosa criatividade verbal que Bierce nunca alcançou.
Mas porque esse cinismo era exercido sem o tom moralista de um pregador -ou não fosse Ipanema bem mais aprazível do que a América rural de Bierce.
"O dinheiro não dá felicidade. Mas paga tudo o que ela gasta". "É impressionante a altura que um homem pode atingir apenas não descendendo de nível."
"Depois de bem ajustado o preço, a gente deve sempre trabalhar por amor à arte."
E a minha preferida, em apenas três palavras: "Herdar é humano". 
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* Jornalista português. Colunista da Folha
jpcoutinho@folha.com.br
Fonte: Folha on line, 03/04/2012
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Depois da paixão

Francisco Daudt*
Ela só dura cerca de quatro anos, mas se não for correspondida pode nos assombrar por décadas 
SEGUNDO OS evolucionistas, a paixão surgiu há poucas dezenas de milênios em nossa espécie, selecionada como uma vantagem evolutiva, já que permitia à mulher ter a ajuda de um homem para aumentar as chances de sobrevivência de sua prole. Ficou em nós como um software inato, com um prazo de validade de cerca de quatro anos (o bastante para que a cria seguisse o grupo por suas próprias pernas).
Na savana africana, as mulheres raramente tinham mais que dois filhos, com grande espaçamento, pois o aleitamento inibe a ovulação.
As mães morriam mais, os filhos mais ainda, o que manteve a população humana estável até o surgimento da agricultura e pecuária (há 10 mil anos), quando deu um pequeno salto, e até o começo do século 19, com a descoberta dos germes, o saneamento básico, a tecnologia dos remédios e o agronegócio, que resultaram nesta desgraceira procriativa de 7 bilhões de pessoas a sugar o planeta.
Mas, se a paixão só dura quatro anos (correspondida, a não correspondida pode nos assombrar por décadas), o que vem depois dela?
São três as principais consequências: 1. Indiferença; 2. Sadomasoquismo; 3. Amor companheiro.
Indiferença: se de ambas as partes, há separação mais ou menos tranquila. Se da parte da mulher, que quer se separar porque se apaixonou por outro, ela corre um risco muito grande de ser assassinada pelo abandonado. Ou de ser "stalked" ("perseguida", quem viu "Atração Fatal" sabe o que é). Se da parte do homem, que se apaixonou por outra, o assassinato é mais raro, o "stalking" mais comum, a vingança na Vara de Família, mais comum ainda. É frequente que os filhos sejam usados como munição de vingança.
Sadomasoquismo: os dois se sentem prisioneiros/carcereiros da situação, e desenvolvem um jogo de maltrato, mais ou menos sutil -vai desde um deles depreciando o outro em público até à lei Maria da Penha não aplicada, pois sempre se reconciliam, e dão tempero ao sexo com a briga (ou o sexo some, e só fica o maltrato). Desgraçadamente, bodas de prata são mais comuns derivando do sadomasoquismo que do amor. É vício a dois, mesmo.
Amor companheiro: o tipo de amor muda. É mais calmo, menos sujeito a percalços. Eles têm projetos comuns e afinidades. Gostam de ser pais e acompanharem juntos o crescimento dos filhos. Apreciam-se, desfrutam da companhia do outro, têm assunto, mesmo sozinhos no restaurante.
As tentações (essas existirão sempre) são declinadas para não atrapalhar o bem precioso que partilham. Tornam-se amigos que são prioridade na vida um do outro. E amizade é algo que pode crescer sempre. Adoram a ideia de envelhecerem juntos. Cultivam uma intimidade que parece sobrepor-se à nossa inescapável solidão. Têm vida própria e zonas de partilha; não se sentem obrigados ao grude.
Têm-me perguntado se, agora que eles se tornaram amigos, o desejo não está fadado ao desaparecimento. Certamente, o sexo animal não vai mais rolar. Mas o sexo derivado do carinho e do aconchego tem seu valor especial, e só fará fortalecer a amizade. 
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* COLUNISTA DA FOLHA
fdaudt2@gmail.com
FONTE: FOLHA ON LINE, 03/04/2012 

Não basta ser bom, importa ser misericordioso

Leonardo Boff*
A Semana Santa nos convida a pensar sobre o sentido maior de nossas vidas à luz daquele que foi radicalmente humano e por isso também divino. Ele não se propôs fundar uma nova religião. Nem pretendeu que as pessoas fossem mais religiosas. Mas o que de fato quis, foi que todos, com a religião ou sem ela, fossem mais humanos, solidários, fraternos, justos, amorosos e misericordiosos.
Para Jesus não bastava ser bom. Tinha que ser misericordioso. Só assim seria plenamente humano. O Deus que anunciava era um Pai bom mas principalmente era um Pai misericordioso. Sentir a dor do outro, abaixar-se até o seu nível e compreender sua vulnerabilidade sem logo julgá-la, constituía a originalidade de sua mensagem.
Ela é atualíssima. Num mundo cruel e sem piedade, onde nações são arrasadas pela voracidade do capital que as mergulha em dívidas, como se faz urgente e necessária esta virtude escandalosa e tão radicalmente humana que é a misericórida.Precisamos trazer de volta a figura do Pai bom mas fundamentalmente misericordioso.
Se há um eclipse da figura do pai na sociedade moderna, há também uma saudade por sua volta, já testemunhada há séculos por Telêmaco, filho de Ulisses, na Odisséia de Homero: “Se aquilo que os mortais mais desejam, pudesse ser conseguido num abrir e fechar de olhos, a primeira coisa que eu quereria, seria a volta do pai”. Curiosamente esta volta é augurada pelo Cristianismo, numa página memorável de São Lucas ao falar da volta do pai ao filho pródigo.
Para compreender esta volta do pai, importa situar a parábola no contexto da prática e da proposta de Jesus. É um dado historicamente assegurado que Jesus circulava entre pessoas de má companhia e que comia com elas. Comer era considerado, para os critérios do tempo, um sinal de amizade. Naturalmente provocava escândalo entre as pessoas piedosas que passavam a criticá-lo.
Por que Jesus assumia um comportamento assim ambíguo? Responder a isso é identificar sua experiência espiritual e sua forma de entender Deus. Jesus experimentou um Deus que é Pai de infinita bondade e que, por isso, assumiu características de mãe: acolhe a todos, a bons e a maus e revela uma misericórdia ilimitada. A forma como Jesus expressa a misericórdia de Deus é ser ele mesmo misericordioso, coerente com o que aconselhava aos outros: “sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso”. Em razão disso, se misturava às pessoas de má fama para que, em contacto com ele, pudessem sentir a misericórdia divina.

 Com isso Jesus quis deixar claro: 
Deus é um Pai materno ou uma Mãe paterna 
que sempre volta para os filhos e filhas, 
por malévolos que sejam, porque 
nunca lhe saem do coração.

Para facilitar a compreensão dos piedosos que se escandalizavam, narra três parábolas: a da moeda perdida, a da ovelha desgarrada e a mais conhecida de todas, a do filho pródigo. Cada parábola termina com estas palavras consoladoras: “alegrai-vos comigo porque encontrei a ovelha desgarrada, a moeda perdida e porque este meu filho estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi encontrado”.
Precisamos ser duros de coração e faltos de espiritualidade para não apreciarmos essa experiência de Deus como Pai de misericórdia. Como o amor é incondicional, incondicional é também a misericórdia. Nisso a parábola do filho pródigo é explícita. A novidade não reside no fato de o filho voltar ao pai, depois de haver esbanjado tudo e se encher de remorsos e de saudades. A novidade reside no fato de o pai voltar ao filho: ao vê-lo na curva da estrada, o pai corre-lhe ao encontro, lança-se ao pescoço e cobre-o de beijos. Não lhe cobra nada. Ao contrário, prepara-lhe uma festa.
Com isso Jesus quis deixar claro: Deus é um Pai materno ou uma Mãe paterna que sempre volta para os filhos e filhas, por malévolos que sejam, porque nunca lhe saem do coração.
As Igrejas, diferentes de Jesus, raramente se voltam para as pessoas para que façam uma experiência de misericórdia. Antes, continuam a aterrorizar as consciências com as chamas do inferno. Escolhem o caminho do moralismo, reforçando o medo que mantém cativa a liberdade e torna triste a vida.
Jesus mesmo denuncia essa atitude, presente no filho bom que ficou em casa, à sombra do pai. Ele se nega a voltar para o irmão. Quer a observância da norma e a aplicação do castigo. Esse filho bom é o único a ser criticado por Jesus. Para Jesus não basta sermos bons. Importa sempre voltar para o outro e mostrar amor e misericórdia.
Pai e filho voltam um ao outro: fecha-se o círculo e irrompe então a irradiação da plena humanidade.
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* Teólogo. Escritor.
Fonte:  http://leonardoboff.wordpress.com/2012/04/03
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segunda-feira, 2 de abril de 2012

Os intelectuais e a paixão pela catástrofe.

  Slavoj Zizek 

Publicamos aqui a introdução ao novo livro do filósofo esloveno Slavoj Zizek, intitulado Gli intelletuali e la passione per la catastrofe. O trecho foi publicado no jornal La Repubblica, 31-03-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Dizem que, na China, se você realmente odeia alguém, você o amaldiçoa assim: "Que você viva em tempos interessantes!". Historicamente, os "tempos interessantes" foram períodos de irrequietação, de guerra e lutas pelo poder que trouxeram sofrimentos a milhões de inocentes.

Hoje, estamos claramente nos aproximando de uma nova época de tempos interessantes. Depois de décadas de Estado social, em que os cortes financeiros eram limitados a breves períodos e eram sustentados pela promessa de que as coisas logo voltariam ao normal, estamos entrando em um novo período em que a crise econômica se tornou permanente, é agora um simples modo de vida.

Essas mudanças não podem senão despedaçar a cômoda posição subjetiva dos intelectuais radicais, bem representada por um dos seus exercícios mentais preferidos ao longo de todo o século XX: o impulso a "catastrofizar" a situação. Seja qual fosse a situação presente, ela devia ser declarada "catastrófica", e quanto mais as coisas pareciam positivas, mais nos comprazia esse exercício. Assim, independentemente das nossas diferenças "puramente ônticas", todos fazemos parte da mesma catástrofe ontológica.

Heidegger acusou a nossa época de ser a do "perigo" do niilismo consumado. Adorno e Horkheimer viram nela o ápice da "dialética do iluminismo" no "mundo administrado". Giorgio Agamben chegou até a definir os campos de concentração do século XX como a "verdade" de todo projeto político ocidental. Era como se a frase irônica de Churchill – a democracia é o pior sistema político possível, se excluirmos todos os outros – fosse repetida de forma séria: a "sociedade administrada" do Ocidente é pura barbárie escondida sob as vestes de civilização, o extremo limite da alienação, a desintegração do indivíduo autônomo, e assim por diante. E, entretanto, a partir do momento em que todas as outras estruturas sociopolíticas são piores, no fim das contas não nos resta outra alternativa senão apoiá-la...

Somos, portanto, tentados a propor uma interpretação radical dessa síndrome: talvez o que esses infelizes intelectuais não conseguem suportar é o fato de levar uma vida fundamentalmente feliz, segura e cômoda e, assim, para justificar a sua vocação mais elevada, são forçados a construir um cenário de catástrofe radical.

Sob tratamento psicanalítico, aprende-se a ser claro sobre os próprios desejos: eu quero verdadeiramente aquilo que penso querer? Tomemos o caso proverbial de um marido envolvido em uma paixão relacional extraconjugal, que sonha com o dia em que sua esposa desapareça e assim ele estará livre para viver com a amante. Quando isso finalmente acontece, o seu mundo inteiro entra em colapso, e ele descobre que, no fim das contas, ele não quer verdadeiramente a amante.

Como diz o velho ditado: só há uma coisa pior do que não ter o que se quer: é chegar a tê-lo. Os acadêmicos de esquerda estão se aproximando hoje de um desses momentos de verdade: queriam uma mudança de verdade, agora vocês a têm!
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Fonte: IHU on line, 02/04/2012
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''Acredito na emancipação, mas não renuncio à democracia''.

  Entrevista com Slavoj Zizek 

"Todos os nossos problemas, da crise ao ambiente, 
são problemas do viver juntos: nesse sentido, eu falo de comunismo". 

O filósofo esloveno Slavoj Zizek conta nesta entrevista as suas posições políticas.

Eis a entrevista.

Por que você se interessa tanto por psicanálise?


Por um só e único motivo: chegar a uma nova compreensão de Hegel. Esse é o verdadeiro núcleo do meu trabalho: o meu entusiasmo maníaco por Hegel. Recém escrevi um livro sobre Hegel, que está sendo impresso agora, será publicado em inglês, em cerca de três meses. É uma loucura, mais de mil páginas de Hegel.

Em seu livro, você afirma que o comunismo representa a única saída da atual crise social...
Eu digo isso de verdade?

Em que sentido o comunismo é a solução?
Ok, eis aqui a minha posição oficial a respeito. Acima de tudo, eu sei que tenho um pequeno problema de relações públicas. Muitos dos meus amigos, mas também pessoas com quem eu não tenho relações de amizade, me perguntam: por que você não abandona finalmente esse estúpido conceito do comunismo, que traz consigo tantas implicações infelizes?".

E por que não o abandona?

Posso lhe dar três motivações. Como bom freudiano, eu sei que, quando se dão muitas motivações, logo nos tornamos suspeitos (risos). Primeiro: gostaria de enfatizar que, apesar de tudo, existe uma tradição bem definida do comunismo que não tem nada a ver com o stalinismo. Por exemplo, a linha radical e emancipada representada pelo milenarismo, com a sua crença no fim dos tempos. O reino eterno é aqui! É possível encontrá-lo no cristianismo, na revolta espartaquista, na guerra dos agricultores e assim por diante. Considero essa tradição muito importante. Eu gostaria de levá-la adiante.

E a segunda motivação?
O problema com todos os outros conceitos, com exceção do comunismo, é que eles estão comprometidos no sentido exatamente oposto: são levianos demais para digerir. Tomemos o conceito de "solidariedade". Até Hitler poderia falar de solidariedade. Ou "dignidade" – mas, é claro, tudo depende do que entendemos por "dignidade". Veja, a palavra comunismo é ao menos desestabilizante: fazer entender que não estamos aqui para nos iludir, para falar de conceitos de honra e vazios, como o de "maior justiça".

E a terceira razão?

Talvez seja realmente uma coisa boa que esse conceito esteja sobrecarregado por uma história tão assustadora. Ela nos lembra que projetos de tal porte prático estão sempre embebidos por perigo. (...) Mas a minha verdadeira resposta, a definitiva, é: a palavra "comunismo", como eu destaco mais de uma vez no meu livro, não é o nome da solução, mas sim o do problema.

De qual problema?

Se examinarmos as questões diante das quais nos encontramos hoje – a poluição do ambiente, o capitalismo financeiro, a biogenética, a defesa da propriedade intelectual –, todos esses são "problemas do viver juntos, em comum": referem-se a um âmbito que foge tanto do controle do Estado, quanto das soluções concebíveis no âmbito privado da economia de mercado. O conceito de "comunismo" (do latim, communis) para mim, portanto, identifica o problema. (...)".

Falemos do movimento Ocuppy Wall Street. Em sua opinião, ele contribui, mesmo que em pequenos passos, para mudar as coisas, ou faz parte do problema?

Quem viver verá, eu sou muito cauteloso. A minha opinião sobre o Ocuppy Wall Street, no entanto, é a seguinte: a existência dele é significativa, dado que se trata do primeiro movimento, nos Estados Unidos, que conseguiu obter um amplo eco social e não se ocupa de um único tema, por exemplo, só do racismo ou só do endividamento criado por especulações financeiras. As pessoas se deram conta de que há algo que não funciona no sistema. Mas eu não gosto da fórmula "é culpa do capital financeiro".

Por que não?

O problema, na realidade, é: qual é a lógica na base do atual sistema capitalista, que permite que o capital financeiro aja assim? Trata-se de uma coação sistêmica. Os banqueiros são maus desde sempre – que estranho, hein? Não devemos culpar só os banqueiros de hoje! É uma idiotice! E eu acho que o erro mais grave que se pode cometer é moralizar essa crise (...).

Você afirmaria que a nossa atual forma de democracia não é capaz de combater o capitalismo?
Não, não, não, eu diria quase o contrário! Certamente, a liberdade de que dispomos só é formal – mas esse, entretanto, é o único âmbito em que a liberdade pode existir. No momento em que se abole a democracia formal, não se obtém a verdadeira democracia. Em vez disso, perde-se a democracia enquanto tal. O único espaço de liberdade que temos encontra-se no campo intermediário entre a democracia formal e as formas efetivas da nossa não liberdade... Devemos começar a pensar na política para além das definições restritas próprias do Estado multipartidário. Quero dizer o seguinte: eu odeio o 1968. Muita liberdade, muito divertimento. Mas ao menos uma coisa eles entenderam: o pessoal é político e todas essas coisas. Não são coisas que devem ser sobrevalorizadas, que fique claro, mas naturalmente são justas: a opressão das mulheres, as estruturas familiares, o que acontece nas fábricas... nesses âmbitos também são postas questões de liberdade, de política. E aqui, a meu ver, se insere o problema mais sério: não se deveria acabar com a democracia formal. Mas, ao mesmo tempo, como incluir esses âmbitos no processo político?
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A reportagem é de Wolfram Eilenberger e Svenja Flasspölher, publicada no jornal La Repubblica, 31-03-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Fonte: IHU on line, 02/04/2012
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domingo, 1 de abril de 2012

A invenção da antropologia


Roy Wagner e a revolução nos modos de pensar
RESUMO Em entrevista a um time de antropólogos brasileiros, o norte-americano Roy Wagner, autor de "A Invenção da Cultura" e crítico da presunção à autossuficiência dos Estados Unidos, defende o humor como forma de invenção e argumenta que, ao reverter causa e efeito, ele se torna o conhecimento íntimo de todas as coisas. 

EM AGOSTO DE 2011, seis universidades brasileiras receberam Roy Wagner, autor de "A Invenção da Cultura", de 1975, publicado no Brasil pela Cosac Naify em 2010.
O livro propôs uma verdadeira revolução nos modos de pensar e fazer antropologia, pondo em questão, a partir de um olhar sobre os povos melanésios, dualidades como natureza e cultura, universalismo e relativismo, tradição e inovação, sujeito e objeto.
Entre os trabalhos que apresentou no Brasil estão um livro inédito, "The Place of Invention", e uma reflexão sobre a obra do polêmico antropólogo e escritor Carlos Castañeda (1925- 88), à qual vem dedicando nos últimos anos um curso na Universidade de Virginia, Charlottesville, onde ensina desde 1974.
Esta entrevista, concedida aos antropólogos Florencia Ferrari, Iracema Dulley, Jamille Pinheiro, Luísa Valentini, Renato Sztutman e Stelio Marras, oferece uma amostra da prosa do autor, um crítico da presunção à autossuficiência dos EUA, país onde nasceu e se formou, mas também um contador de histórias, fascinado pelas mais diferentes culturas e práticas de conhecimento.
Toda a teoria de Wagner (que é tão dele como dos melanésios) pode ser vista como um flerte com a poesia e com o humor. Afinal, como ele não cansa de afirmar, a produção de significado no mundo é, como nesses campos, um exercício incessante e insistente de metaforização, isto é, invenção. 

Como resume a questão central de "A Invenção da Cultura", a dialética cultural entre convenção e invenção, memória e improvisação?
A memória, é claro, é uma parte vital e básica de nós. Não conseguiríamos viver sem ela. Mas a cultura não se resume a ela, pois contém um outro lado, que é a invenção. Estou usando o termo "invenção" como uma palavra mágica.
A invenção é a metáfora. Existe uma espécie de diálogo ou interação entre a memória e a invenção. Temos que lidar com a vida em família, as leis do direito de família ou o que algumas pessoas nos EUA entendem por valores familiares [risos], mas também com a Constituição dos EUA, a Constituição brasileira ou a forma de governo brasileira.
Os dois são inovações do Novo Mundo em relação à cultura europeia. Nossas revoluções estabeleceram um novo tipo de sociedade, inventando e modificando as convenções de uma vez por todas, definindo parte do que constitui o hemisfério ocidental.
É importante prestar atenção ao modo como as civilizações americanas pensam: elas pensam de modo diferente das civilizações do Velho Mundo. 

Em sua obra há uma associação entre perspectivismo e humor. Qual é o lugar do humor no seu trabalho?
O humor é uma forma de invenção. É um exercício de ver a partir de uma perspectiva e então se deslocar para outra repentinamente, com algo um pouco confuso. Uma piada inventa; ela usa a perspectiva para inventar. É preciso enfatizar isso.
O senso de humor é algo que pessoas têm, como os índios que conheci na Amazônia, e que não percebemos facilmente. O que eles fazem é integrar a alteração de perspectivas que existe em uma piada à antropologia de uma maneira bastante sorrateira e sutil. E, em muitos casos, isso se faz com tal sutileza que acabamos achando que estamos lidando com fatos antropológicos.
Existe um tipo de ironia ou senso de humor na base de todas as culturas. Ao morar em um país, descobrimos onde reside esse humor. O que estou tentando dizer ao afirmar isso sobre o humor é que, em primeiro lugar, o objetivo do livro "A Invenção da Cultura" foi fazer com que as pessoas usassem a ideia da invenção como uma coisa em si mesma, como uma maneira de pensar sobre as coisas.
Estamos acostumados a pensar no humor como forma de entretenimento, não como forma de alteração de perspectivas, de alteração sujeito-objeto. Fomos treinados a pensar na cultura como um conjunto de memórias que deve ser exaltado. Procuramos o conhecimento onde ele fica armazenado, na biblioteca, no computador. São memórias artificiais. 

 "Wittgenstein provavelmente diria 
que a lógica é o humor; a lógica não é causa e efeito. 
Ele desprezava totalmente a ideia de causa e efeito. 
Os Estados Unidos parecem estar presos a um tipo de mentalidade assim. É um país que 
sente muito orgulho de si próprio, 
que não quer ouvir o que outras pessoas têm a dizer.
 É muito difícil ensinar antropologia a pessoas assim! "

O que você chama de "deslocamento perspectivista" -e sua tradução na ideia de invenção- tem um impacto forte sobre o que concebemos, no Ocidente moderno, como racionalidade. Você poderia falar mais sobre isso?
O [Carlos] Castañeda nos dá uma lição muito importante sobre o humor. Toda metáfora é uma piada. Toda metáfora é um ato de humor. Temos que aprender a pensar em cada metáfora como uma torção irônica de palavras, de perspectivas. Vamos pensar nisso de modo analítico.
Tudo o que nós chamamos de razão (e tudo o que nós chamamos de tecnologia -razão, lógica, tecnologia) é baseado na relação de causa e efeito. A causa é o que Wittgenstein chamou de superstição. A ideia de causa e efeito só pode funcionar quando a causa e o efeito são a mesma coisa. Quando falamos de causa e efeito, criamos uma separação ou um espaço artificial. No entanto, se não fizéssemos isso, não teríamos nada para chamar de razão ou lógica.
Em uma piada, a causa e o efeito são reversos. É por isso que o humor é o conhecimento íntimo de todas as coisas; se usamos o humor, revertemos causa e efeito. Os barok (Papua Nova Guiné) me contaram que quando aprendemos que tudo funciona por meio de um truque, não nos encontramos no fim do conhecimento, mas no início. Isso constitui um ataque à racionalidade, considerando o modo como normalmente pensamos sobre ela.
Não significa que esse processo seja ilógico. Wittgenstein provavelmente diria que a lógica é o humor; a lógica não é causa e efeito. Ele desprezava totalmente a ideia de causa e efeito. Os Estados Unidos parecem estar presos a um tipo de mentalidade assim. É um país que sente muito orgulho de si próprio, que não quer ouvir o que outras pessoas têm a dizer. É muito difícil ensinar antropologia a pessoas assim! 

Como se dá essa dialética entre os povos que estudou na Nova Guiné?
Minha experiência entre eles me ensinou que a convenção é o que damos como certo, pois é a base da existência; é o que é dado, é o que existe. Como indivíduos, o que fazemos é nos diferenciar "contra" ela. Essas pessoas, dotadas de uma criatividade maravilhosa, produzem formas estonteantes de arte, nominação, mitos. Tudo isso é diferenciação. Por não ser convenção, ela possui um poder de corte. As convenções são simples, conhecidas por todos, dadas como certas, e é assim que produzimos a diferenciação.
Na civilização ocidental, tratamos a convenção como um ideal, como fazemos com nossos códigos de lei, nossas constituições, organizações governamentais e educacionais. Tendemos a aderir a ideais platônicos. E nossos grandes inventores, as pessoas que aperfeiçoam e modificam nossa sociedade, são considerados excêntricos.
Em "A Invenção da Cultura", argumento que os povos indígenas, os povos tribais, não têm governo nem religião centralizados -e o que são um governo e uma religião centralizados, e um sistema de escrita, senão formas profundamente enraizadas de convenção? 

Como descreve o impacto da antropologia na contracultura e vice-versa, nos EUA, e em seu trabalho em particular?
A contracultura foi algo que existiu de forma muito deliberada e determinante nos anos 1970. Na época em que escrevi "A Invenção da Cultura", ela era muito provocadora nos EUA. Mas muito do que produziu foi assimilado pela mídia, pela propaganda.
Muitos dos tropos poderosos e inovadores criados pela contracultura na década de 1970 foram assimilados pela propaganda e coisas do tipo, de modo que os protestos dos hippies acabaram, mais tarde, sendo usados em comerciais para vender produtos. Portanto, a contracultura foi corrompida pela convenção e usada para estender a cultura convencional.
A contracultura operou por algum tempo, mas depois foi, de certa maneira, sugada para dentro, totalmente dissolvida. Algumas pessoas tentaram fazer contracultura novamente, mas não funcionou da mesma forma que nos anos 1970. Assim, a contracultura foi -e acho que meu livro deixa isso claro- uma diferenciação inovadora que aconteceu no interior da cultura americana, algo que se mostrou ameaçador para muitos americanos, por razões políticas ou por outras razões. Mas em 2001 já havia se tornado terrorismo.
Tradução: Iracema Dulley e Jamille Pinheiro. A íntegra da entrevista será publicada na próxima edição da "Revista de Antropologia", da USP, em abril.
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Fonte: Folha on line, 01/04/2012
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Ao mestre, sem retoques

O adereço. Manifestações públicas são difíceis para Bento XVI: ‘É fino, culto, mas muito tímido’ - Osservatore Romano/Reuters
Osservatore Romano/Reuters
O adereço. Manifestações públicas são difíceis para Bento XVI: ‘É fino, culto, mas muito tímido’

Vinte anos após deixar o sacerdócio, teólogo censurado por Ratzinger analisa o papa em excursão latina

Até o âncora da CNN saiu do sério no último domingo quando, quase incrédulo, abriu os braços para mostrar o tamanho do sombrero que Bento XVI afundou na cabeça ao ouvir um conjunto de mariachis na cidade mexicana de León. Era o início da primeira viagem do bávaro Joseph Ratzinger à América de língua espanhola desde que virou papa, em 2005. Observadores mais entusiasmados, ou mais fervorosos, podem ter vislumbrado ali uma latinidade que sairia do armário, com desdobramentos inesperados em Cuba, terra não dos sombreros, mas das guayaberas. Falso foguetório. Bento XVI, 85 anos incompletos, rapidamente se reconduziu à sobriedade germânica que o caracteriza. Do México saltou para a ilha caribenha, encontrou-se com os irmãos Castro, repetiu a palavra “liberdade” em diferentes momentos e arrumou outras tantas para condenar o bloqueio econômico americano. Daí pegou seu aeropapa e voltou para casa.
E a empatia esperada? E aquela sedução diante das massas que fez de seu antecessor, o polonês Karol Wojtyla, o João de Deus neste lado do mundo? Enfim, o que fica do primeiro ensaio de Bento XVI no terreiro da latino-americanidade? Quem reflete sobre essas e outras questões é o catarinense Leonardo Boff, 73 anos, que o papa conhece de longa data e a quem ainda se refere como “der frommer theologe”, o teólogo piedoso. “Esse tratamento tem a ver com o que ele me dizia no passado, ao aprovar meu jeito de aproximar teologia e espiritualidade. Ele leu o que escrevi, e gostava. Em compensação me condenou em outros campos”, relembra Boff, ex-aluno dileto de Joseph Ratzinger, depois confrontado irremediavelmente com o mestre quando este se tornou prefeito da poderosa Congregação para a Doutrina da Fé, ex-Santo Ofício, no pontificado de João Paulo II.
Sentar-se no banco de Galileu diante dos inquisidores da Igreja, tendo à frente o mestre que o formou e pressionado a renegar teses da Teologia da Libertação, da qual era um dos formuladores, não é experiência de vida que o tempo apague. Em 1985, o franciscano indexado como rebelde recebeu uma condenação ao silêncio obsequioso. Depois seguiu-se um leve relaxamento das sanções. Mas, em 1992, portanto há exatos 20 anos, veio o enquadramento mais forte de Roma: silêncio total, sem direito a escrever, recolhido a um convento nas Filipinas ou na Coreia. Boff então se despediu da Ordem dos Frades Menores, abandonou os votos sacerdotais e se declarou leigo.
Mas a Igreja, especialmente a dos pobres, segue dentro dele. A teologia, também. Recentemente acrescentou um título à lista de mais de 60 livros com o lançamento de Cristianismo: Mínimo do Mínimo (ed. Vozes), em que discute como as igrejas criam respostas complicadas para o mistério da fé, “que é feito de simplicidade”. Vê-se que o aluno continua na trilha oposta à do seu mestre na Universidade de Munique. Boff quer simplificar. Ratzinger, feito papa, quer recuperar a simbologia católica mais tradicional e austera. São antípodas que se referenciam mutuamente.
Nesta conversa em torno de Bento XVI, Boff traz à tona momentos em que ambos atuaram juntos, ou bem próximos, desde os anos que se seguiram ao Concílio Vaticano II (1961-62) até o derradeiro momento da ruptura. Professor emérito da Uerj, honoris causa das universidades de Turim (Itália) e Lund (Suécia) e detentor em 2001 do Right Livelihood Award, Nobel alternativo concedido em Estocolmo, hoje mora em Araras (RJ) com a mulher, a também teóloga Márcia Miranda, cercado da prole que adotou como sua. Além de falar aos movimentos sociais, mantém agenda extensa de palestras dentro e fora do País. “Vivo neste ciganismo intelectual”, brinca. 

No sétimo ano do pontificado e na sua 23ª viagem internacional, esta é a primeira vez que Bento XVI empreende uma visita à América de língua espanhola. Sendo o continente um reduto do catolicismo, terá demorado a vir para esses lados?
A preocupação central do atual papa é recuperar visibilidade para a Igreja no continente europeu. É isso. Ele considera que o processo de secularização fez com que a Igreja perdesse importância social, tornando-se mais e mais invisível. Diante de um cristianismo agônico, como se vê em muitas partes da Europa, ele traça uma estratégia de reconquista, que não se aplica à América Latina, considerada já conquistada. Aqui ele procura reforçar o existente. Considero uma estratégia equivocada, pois implica optar pelos ricos e não pelas maiorias empobrecidas do mundo. Mas é justamente dessa estratégia que vem toda uma valorização do catolicismo tradicional, uma parafernália de símbolos religiosos recuperados, algo que a mim soa como coisa meio vaidosa. Acredito que a renovação não virá do centro, mas da periferia onde vivem 52% dos católicos. O cristianismo tornou-se uma religião do Terceiro Mundo que um dia teve origem no Primeiro Mundo. Mas isso é de difícil compreensão para o papa.

O senhor reconhece no Bento XVI de hoje o Ratzinger dos anos 80, que o condenou ao silêncio obsequioso e o levou, por fim, a abandonar a Ordem e o sacerdócio?
Há um Ratzinger anterior, com quem estudei e trabalhei nos anos 60, 70. Era um professor adorado pelos alunos, teólogo de posições avançadas, tínhamos estreita ligação. A partir de 1965, com a criação da revista Concilium, formou-se o grupo dos 25 teólogos mais influentes no mundo, grupo que se reunia uma vez ao ano em alguma cidade europeia, sempre na semana de Pentecostes, para discutir os rumos da igreja pós-Vaticano II. Ratzinger estava lá, conosco. Ficou tão entusiasmado com a minha tese de doutorado na Universidade de Munique, sobre a Igreja como sinal no mundo secularizado, que tratou de arrumar editora e financiamento de 14 mil marcos para a publicação. O que o teria feito mudar? Acho que ele chegou à Congregação para a Doutrina da Fé muito rapidamente. De simples teólogo em Munique foi a cardeal em pouco tempo e logo promovido a um posto importantíssimo no Vaticano, graças à amizade com Karol Wojtyla. Quando este virou papa, logo o chamou para a congregação. E é como eu sempre digo: Roma tem uma enzima que transforma todo mundo.

Roma mudou Ratzinger?
O papa, no meu modo de ver, vive um processo de regressão em sua capacidade de formular uma visão coerente do mundo, seja do ponto de vista da análise, seja do ponto de vista da teologia. Ele é cada vez mais conservador. É risível teologicamente ressuscitar a idéia medieval de que fora da Igreja Católica não há salvação e de que a romana é a única igreja verdadeira. Comete-se um erro teológico. Seria o mesmo que dizer: Evangelho é somente o de Marcos, o mais antigo. Os demais, de Mateus, Lucas e João, que vieram depois, têm apenas elementos evangélicos, mas não são o Evangelho. Ora, ele próprio me ensinou que, assim como os quatro Evangelhos se aceitam mutuamente, assim deveria acontecer com as igrejas. Juntas elas formam o legado de Jesus. Ele aceitou essa tese como teólogo, mas a renegou no Vaticano. E por quê? Eis uma coisa tão alemã... Ao ir para a congregação, Ratzinger o fez como um típico burocrata alemão, assumindo como algo pessoal o que era oficial. Lembro de uma passagem: logo depois de sua nomeação, escrevi uma carta para ele felicitando-o e dizendo que, enfim, a teologia iria florescer no mundo. Quinze dias depois recebi carta dele avisando que havia processos abertos contra mim na congregação e que daria andamento a eles. Pensei, puxa, vida, em 15 dias ele já terá mudado tanto?

A visita ao México e a Cuba servirá para diluir a imagem de Ratzinger como desagregador da Teologia da Libertação?
O papa carrega um fardo negativo na história da teologia cristã. Não apenas perseguiu teólogos levando-os a julgamento em Roma, como fez comigo e Gustavo Gutiérrez (teólogo e frade dominicano nascido no Peru), como proibiu que publicássemos a primeira Suma Teológica (obra doutrinária e filosófica de São Tomás de Aquino, do século 13) na perspectiva da libertação. 

Como assim?
Eu coordenava um grupo de cem teólogos da América Latina envolvidos na publicação da obra, em 53 volumes. Quando lhe expus o projeto, o então cardeal Ratzinger perguntou “e quem paga?”.Depois me disse que deveríamos publicar apenas um volume por ano, mas argumentei: “Eminência, não viveremos para ver o final do trabalho”. Por fim condicionou a autorização da publicação, o imprimatur, a uma licença especial que deveria vir de bispos espanhóis muito conservadores. Abandonamos o projeto. Tudo isso causou grande dano às comunidades que ter-se-iam enriquecido na sua compreensão da fé e também de seu compromisso político a partir da fé.

O giro latino-americano dos últimos dias também não poderá distrair a opinião mundial dos escândalos sexuais na Igreja?
Tanta perspicácia política não possuem os estrategistas do Vaticano. A concepção deles é centrada sobre a Igreja em si mesma, bastião de defesa contra o secularismo, ateísmo e materialismo do mundo moderno. Roma apoia o cristianismo da América Latina desde que mantenha sua lógica colonial, dependente do centro, e não pretenda fazer aqui um ensaio original com outras culturas, de onde saia um rosto índio-negro-latinoamericano de cristianismo. Ou seja, cristianismo, sim, desde que romano. Agora, a pedofilia atacou de fato o coração da Igreja Católica, aquele capital simbólico e espiritual do qual vivia sua legitimidade e força moral. Isso tudo deve causar uma tremenda perplexidade ao papa.

Por quê?
A concepção que eu ouvia em suas aulas era de que a Igreja deve ser o pequeno rebanho, um pedaço do mundo reconciliado, o oásis onde a salvação se realiza de forma exemplar, como representação para todos os demais. Ocorre que esse oásis e pedaço de mundo reconciliado é uma ideia platônica, realidade que nunca existiu. A Igreja está no mundo como as demais realidades, sujeita a vulnerabilidades da condição humana. Os antigos diziam e sobre isso o teólogo Ratzinger escreveu algumas belas páginas: a Igreja é uma casta meretriz. De noite ela peca como meretriz. De dia Deus a limpa, a torna casta e a faz sua esposa. Quanto à pedofilia na Igreja, a estratégia do Vaticano é desviante ao separá-la do celibato. O elo entre os dois temas é a sexualidade. Notoriamente a educação dos candidatos ao sacerdócio, e ao celibato, tem sido insuficiente, fazendo da sexualidade o mundo da tentação e do pecado. Ora, uma educação inadequada faz com que muitos deem azo a expressões perversas e criminosas da sexualidade. O normal seria a Igreja rever a lei do celibato e torná-lo facultativo, como o fizeram todas as igrejas. 

Como o senhor compara o estilo João Paulo II ao de Bento XVI no contato com fiéis?
Podemos discutir a teologia conservadora de João Paulo II, mas não podemos desconhecer seu irradiante carisma, que galvanizava multidões. Num mundo sem figuras carismáticas, pois hoje a maioria dos chefes de Estado, opacos burocratas, sai das escolas de administração, a figura de João Paulo II se sobrelevava. Não possuía boa teologia, tanto que sua tese doutoral sobre a fé em São João da Cruz não foi aprovada. Mas era um grande pastor. Falava mais por gestos que por palavras. Sua aparição ao público era uma encenação. Vê-se que tinha sido na juventude ator. E foi ator a vida inteira, encenou a própria morte. Sua irradiação era tão grande que fascinou e, eu diria, até cegou Ratzinger, que, em seu entusiasmo, logo o beatificou. Já o papa atual preserva dentro de si o mestre, que de fato foi, de uma rigorosa universidade alemã. Não possui carisma por isso não projeta aura benfazeja, mas severa, contida. O professor com quem privei sempre foi uma pessoa gentil, fina, mas extremamente tímida. Sim, Bento XVI é um homem muito tímido. Posso imaginar como deve sofrer longe de seus livros e da leitura de Santo Agostinho, do qual é eminente especialista, tendo que fazer saudações e dar manifestações públicas de carinho, algo inimaginável na sua atividade de Herr Professor.

João Paulo II e Fidel desenvolveram, guardadas as distâncias, um contato sincero aparentemente. E tem-se que a Igreja católica em Cuba recuperou terreno social e até presença política. Isso poderá ser ‘reeditado’ com Bento XVI e Raúl Castro?
Quem seguiu de perto o encontro de Fidel Castro com João Paulo II teve a clara percepção de que eles se afinavam profundamente. Pudera, tinham as mesmas características de base: o exercício autoritário do poder. E ambos eram figuras carismáticas. Com o papa atual é diferente. Eu diria que nessa semana vimos o encontro de dois chefes de Estado, cada qual com sua identidade, sem nenhum gesto que rompesse o plano burocrático. Como de praxe o papa tem que falar dos direitos humanos, já que a Igreja levanta a pretensão de ser especialista em humanidade, mas quem a conhece por dentro percebe a falácia da presunção. 

Cuba e o contato com a gente simples de lá podem mudar concepções em Bento XVI?
O encontro é sempre criativo, muda a cabeça das pessoas. Seria preciso ser inimigo da própria humanidade e não se comover diante dos humildes que acenam e estendem a mão para uma figura que representa algo de sagrado, de uma realidade que ultrapassa a nossa. Para João Paulo II as viagens significavam grande aprendizado. Para Bento XVI deve também haver um quociente de aprendizado, mas como é intelectual de grandes conhecimentos teóricos, num nível realmente alto, penso que o aprendizado servirá para confirmar as próprias convicções. Mas talvez eu esteja subestimando a força intrínseca que todo encontro possui... Isso já é filosofia, não é análise.

Mas ele desembarcou no México, primeira etapa desta viagem, anunciando-se como ‘peregrino da fé, da esperança e do amor’.
Que outra mensagem poderia dizer? Ele não é um político, porém maneja símbolos poderosos, que alcançam fundo a alma das pessoas. Todos anseiam por amor, fé, esperança. Não será um Berlusconi ou um Sarkosy que farão semelhantes discursos. Então o papa está em seu papel.

Na coletiva para 70 jornalistas no voo Roma-León, rumo à primeira escala mexicana, o papa disse textualmente: ‘Hoje é evidente que a ideologia marxista, como foi concebida, já não responde à realidade’. Mas a frase chegou a ser publicada como ‘o papa disse que comunismo em Cuba não funciona’...
Como a maioria dos alemães, ele é profundamente anticomunista. E não diferencia os tipos de marxismo como fez inteligentemente João XXIII na Mater et Magistra, ele que era bem menos culto que Ratzinger. Se Bento XVI tivesse se restringido ao marxismo como teoria social, como conjunto de ferramentas para entender uma sociedade e analisar a lógica perversa do capital, talvez falasse o contrário. Hoje, dizem-no livreiros da Europa e dos Estados Unidos, Marx é um dos autores mais lidos e estudados por financistas que foram à falência e procuram entender por quê. 

Fidel, no breve encontro com Bento XVI em Havana, ousou perguntar ‘o que faz um papa’. O que o senhor acha da indagação?
Se eu fosse o papa responderia com toda a simplicidade: “Não faço nada. Fazem tudo por mim”. Porque o que ele tem que fazer, e essa é sua única missão, é viajar pelo mundo para fortificar os irmãos na fé, mantendo a unidade de uma instituição que hoje tem o tamanho de uma China inteira. No mais, fazem tudo por ele. Uma vez alguém perguntou a João XXIII quantas pessoas trabalhavam na Cúria Romana. E ele disse: “A metade” (risos). É assim mesmo, metade trabalha, metade vagabundeia.

A secularização, como já se disse aqui, está no topo das preocupações do Vaticano. E o papa prega que é possível redescobrir Deus como orientação fundamental de vida no contexto da racionalidade moderna. O senhor está de acordo com ele?
Estimo que o papa possua um conceito reducionista de secularização. Na verdade é um conceito nascido no interior da teologia protestante do século 19 e começo do século 20 para afirmar a legítima autonomia do saeculum, quer dizer, do mundo, da criação. Na secularização, Deus não é pronunciado, o que não significa que esteja ausente. Ele está presente sob o nome de justiça, amor, retidão, boa consciência, solidariedade e compaixão. Ilusão dos cristãos pensarem que Deus esteja presente somente onde seu nome é pronunciado, pois muitos se dão por piedosos e comportam-se como malfeitores. Nosso mundo político está cheio deles. Já o “secularismo” é a patologia da secularização ao afirmar que só existe este mundo e qualquer aceno a algo que o transcenda é ilusão ou alienação. Creio que o papa deveria ter feito a distinção para não condenar aquilo que é são. 

Ele quer uma Igreja menor, mais disciplinada e homogênea. No ano passado, se não me engano, visitou sua Baviera natal, pregando ‘uma outra Alemanha’, não a Berlim secular, administrada por um prefeito gay...
Quem conhece a Baviera entende suas palavras. Vivi lá cinco anos ininterruptos e pude conversar muito com Ratzinger sobre o tipo de catolicismo que se originou na região. Para o professor aquilo significa uma das mais perfeitas e completas encarnações da fé cristã numa cultura rústica, camponesa, de virtudes ligadas ao trabalho, à piedade familiar, às festas de Igreja e à impregnação de elementos religiosos em todas as casas. Ele me disse várias vezes que “o caminho romano passa pela Baviera”. Só que se trata de um cristianismo que não se confrontou com a modernidade!

Depois de deixar a ordem e o sacerdócio, o senhor esteve com seu ex-professor?
Não, não. Numa famosa conferência que fez em Florença, sobre o Vaticano II, ainda cardeal, Ratzinger me citou em público. Curioso, ele se refere a mim como “der frommer theologe” (o teólogo piedoso), aprovando a maneira como eu aproximo espiritualidade e teologia, mas me criticando duramente em outros textos... Pois bem, depois da conferência houve uma entrevista e um jornalista indagou por que, afinal, fizera a citação de alguém que havia condenado. E ele respondeu algo assim: “Boff é um homem inteligente, bom teólogo, espero que um dia volte e acolha o magistério da Igreja”. Continuará esperando.
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Reportagem por Laura Greenhalgh
Fonte: Estadão 01/04/2012

Sobre a AMIZADE


“Entre amigos tudo é comum”, já diziam os gregos. Eles foram os primeiros a estabelecerem a separação público e privado. A esfera pública diz respeito ao que deve ser compartilhado, colocado em comum; já o âmbito do privado se refere ao que pertence a cada indivíduo, à sua singularidade. A amizade se tece na interface entre o público e o privado. Através dela publicizamos a nossa individualidade, compartilhamos nossos desejos e sonhos. Mas isto não se dá aleatoriamente, e sim em comunidade. Esta é a chave da amizade: os amigos formam uma comunidade de compartilhamento, sentem-se em comum. Não se trata, portanto, de uma relação restrita a dois indivíduos, mas a um fórum mais amplo que inclui os que constituem “os amigos”. Isto não quer dizer que tudo entre eles é “comum”, nem que a relação de igualdade suprima as diferenças A amizade supõe um certo igualitarismo, fundado no que é comum, e divergências.
A amizade pressupõe partilha, igualdade. Não pode haver amizade em relações de poder, em que um se sobrepõe ao outro e um dos pólos se submete. “Quando se é amigo, mesmo se existir discordância ou rivalidade, é-se igual. Para um grego, só é possível ter amizade por alguém que é, de alguma forma, um semelhante: um grego para com outro grego, um cidadão para com outro cidadão” (p.28). [1] A política do “inimigo meu inimigo teu” exige submissão ao indivíduo que se considera o líder ou se imagina a personificação do grupo. A homogeneidade do grupo não pode descartar a diferença. “Não há philía sem rivalidade, éris” (Id.). A amizade pressupõe conflitos e, portanto, uma relação democrática. Sem discussão não se tem amizade, mas sim submissão.
A amizade inclui os amigos, mas também os colegas. A diferença talvez esteja no grau de intensidade: se considero alguém meu amigo, sinto-me mais próximo dele e mais predisposto a compartilhar; já o colega é alguém mais distante, porém, como o amigo, compõe o círculo, a comunidade, isto é, constitui uma referência.
A amizade pressupõe igualdade e partilha, mas não em qualquer circunstância e com qualquer um. Na verdade, escolhemos com quem compartilhar, quem é o nosso igual. A amizade é eletiva e seletiva. “As pessoas que escolhemos, aqueles com quem temos afinidades são aquelas que nos inspiram uma confiança total. Existe nisso algo da ordem da escolha, da avaliação; o “nós” não existe necessariamente apenas porque trabalhamos no mesmo setor ou porque temos as mesmas idéias” (p.30). É preciso sentir-se em comunidade. “E não existe comunidade sem philía, sem o sentimento de que, entre o outro e nós, alguma coisa circula, a qual os gregos podiam representar sob a forma de um daímõn alado, que voa de um para o outro” (p.31).
“Existimos com e pelos outros, que, ao mesmo tempo, são e não são como nós” (p.35). A amizade não é um percurso harmonioso, fácil de percorrer. Implica conflitos, transformações do eu e do outro. “É assim que se tece a amizade, por meio de percursos mais ou menos difíceis, de fracassos, de contra-sensos, de retomadas… Não existe imediato no homem. Tudo acontece por meio de construções simbólicas” (Id.).
A amizade pressupõe a luta por sua construção; ela não está dada a priori, tem que ser tecida. Se ela pressupõe fidelidade, como o amor, pode ocorrer a necessidade do rompimento, que se corte o tecido para ser fiel a si mesmo. Há indivíduos que precisam romper com os outros e com eles mesmos. “Só conseguem ser eles mesmos cortando não só o tecido que os une aos outros, como também aquele que os une a si mesmos” (p.37). Um exemplo dessa dupla ruptura é as cisões políticas e/ou religiosas. Muitos não conseguem consolidar o rompimento sem que se transforme no oposto do que eram.

* Anotações de leitura da obra Entre Mito e Política, de Jean-Pierre VERNANT (São Paulo: Edusp, 2002). [1] Todas as citações são da obra supracitada. FONTE: http://antoniozai.wordpress.com/2012/03/31/sobre-a-amizade/

O sentido da vida: o consumidor como elite revolucionária

O truque mais incrível da Apple, alcançado através tanto de marketing quanto de filosofia, é fazer com que seus consumidores sintam que estão pessoalmente fazendo história – que são uma espécie de elite histórico-espiritual, mesmo quando existem milhões deles. O comprador de um produto da Apple sente que está fazendo parte de uma missão histórico-mundial, uma revolução – e Jobs gostava tanto da retórica revolucionária que a revista Rolling Stone deu a ele o apelido de “Sr. Revolução”.
[...] Não é de admirar que a contracultura tenha malogrado no começou da década de 1980: a promessa era que todos podiam mudar o mundo comprando um Macintosh. Equiparar a Apple ao processo histórico (Hegel chega a Palo Alto!) e convencer o mercado de que a companhia sempre representa o lado bom de todo conflito abriu horizontes não mapeados em criatividade promocional. Para vender seus produtos Jobs recorreu ao poder da cultura; ele foi um gênio do marketing porque apelava sempre para o sentido da vida. Com sua primeira linha de computadores, a Apple apropriou-se com sucesso do tema da decentralização de poder na tecnologia que foi tão caro para a Nova Esquerda na década anterior. Se as pessoas ansiavam por uma tecnologia que fosse pequena e bonita – para emprestar o slogan de E. F. Schumarcher, popular naquela época, – Jobs podia dar isso a elas.
A Apple permitiu que gente que havia perdido todas as batalhas importantes da sua era pudesse participar de uma luta sua – uma batalha por progresso, por humanidade, por inovação. E essa era uma batalha que só podia ser vencida nas lojas. Como disse à revista Esquire, no começo da década de 1980, o diretor de marketing da Apple: “Todos sentíamos que tínhamos perdido o movimento dos direitos civis. Tínhamos perdido o Vietnam. O que tínhamos era o Macintosh”. O consumidor como revolucionário: era uma noção brilhante – e, é claro, uma ilusão terrível.
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Fontes: Evgeny Morozov, em Form and Fortune,
pela mão de Matt Cardin
http://www.baciadasalmas.com/31/03/2012 

“Homens e mulheres não são iguais” by Pathfinder



Uma conversa rápida com o polêmico filósofo sobre mulheres, homens, filhos e envelhecimento

O filósofo e escritor Luiz Felipe Pondé costuma despertar reações extremadas, sobretudo entre mulheres, em função dos pontos de vista considerados por muitos como conservadores e, eventualmente, pessimistas. Recifense, de origem judaica, atualmente é professor de Ciências da Religião na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e de Filosofia, na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP).

Num bate-papo rápido, ele falou ao iG o que pensa sobre mulheres, homens, machismo, envelhecimento, filhos e conquistas. Confira a seguir.

O que falta às mulheres? 

Pondé: As mulheres devem sempre buscar igualdade diante de um tribunal da lei e de salários. Mas homens e mulheres não são iguais. O tema da igualdade fora desse contexto jurídico e trabalhista, é um enorme erro e coisa de mulher infeliz, que só conhece homens ruins. Pena que as mulheres mais felizes não têm tempo para escrever sobre a relação delas com os homens.

Machismo é…

Pondé: Só entendo o machismo no que se refere a homens que espancam mulheres.

O que é fundamental ensinar para os nossos filhos homens?

Pondé: Que eles não precisam ser mulheres para serem do bem e que não precisam ter medo das mulheres só porque começam a percebem que gostam delas e por isso, como todo mundo, homem ou mulher, temem aquilo que mais desejam.

 E para nossas filhas?

Pondé: É claro que devemos ensinar as meninas a buscarem independência econômica e financeira, mas também precisamos dizer a elas que mulheres que gostam de homens são uma benção para os homens. É essencial ensinar a meninos e meninas que homens e mulheres são “feitos” um para o outro e que não devemos pensar em “nós” e “elas” ou “nós” e “eles”, mas sim lembrar da delicia que é quando estamos juntos nos desejando mutuamente, mesmo que de forma apenas platônica. Para mim, o mundo profissional melhorou muito depois que as mulheres entraram nele, essa, aliás, é minha principal razão de defender a emancipação feminina: egoísmo sexual. Uma reunião de business sem mulheres é um deserto.

 O que dizer para uma mulher que acabou de casar?

Pondé: Boa sorte e cuidado. Não esqueça que a partir de agora tem um ser diferente de você vivendo com você e não adianta querer que ele seja como você porque ele jamais será. Sim, não seja pudica e goste de sexo.

O que define uma bela mulher?

Pondé: Isso é como pedir a definição de Deus. Uma bela mulher consome a realidade à sua volta com suas pernas, seus seios, cabelos e gestos (a brecha por onde aparece a alma invisível). Respira-se melhor quando há uma bela mulher por perto!

Quem está envelhecendo bem?

Pondé: A rigor, ninguém, o envelhecimento não é para covardes. E quanto mais as pessoas querem ser jovens quando não mais o são, pior fica. Jogue fora cremes de pele, maquiagem, viagra. Para envelhecer bem você precisa aprender a detestar baladas e não bancar o ridículo (ou a ridícula) mandando para o mundo mensagens relacionadas com hábitos que há muito você não tem mais.
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Fonte: Redação iG São Paulo | 30/03/2012