quarta-feira, 3 de julho de 2013

Brasil em mudança: as ruas mostram sua força

RICARDO ALVAREZ*
 
Jovens de todo o Brasil saem às ruas movidos por uma pauta de reivindicações tão extensa quanto variada, oriundos de camadas sociais distintas e dispostos a marchar em frente rumo a novas conquistas, alguns envoltos em bandeiras partidárias outros com a do Brasil. O Brasil que acordou cerrou fileiras com o Brasil que nunca dormiu. Há, porém, muito que fazer para politizar esta grande energia liberta e prenhe de mudanças.

“O capital não resolve as crises, mas as move de um lugar para o outro”. David Harvey
Quando o torpor evapora

O mês de junho de 2013 deixou registrada sua existência na memória política brasileira. Milhares de manifestantes ocuparam as ruas em contraponto ao torpor reinante, e soltaram a voz em alto e bom som, num grito em várias tonalidades, mas facilmente audível em seu conteúdo: um cansaço geral contra tudo e contra todos.

Num primeiro momento as forças de repressão do Estado agiram com energia demasiada, o resultado foi o recrudescimento da insatisfação coletiva e do movimento nas ruas. Em seguida os poderes constituídos perceberam que não se tratava de fogo de palha, havia sim fôlego e disposição.

Inicia-se uma segunda etapa caracterizada pela tentativa de cooptação e criação de líderes, disputa por bandeiras de lutas, interferência na organização, enfim, os que repudiaram no início se convenceram que era preciso disputar o movimento.

Quais os limites e perspectivas do movimento? Como esta mobilização interferirá no quadro político nacional, inclusive nas eleições gerais de 2014? Qual o aprendizado possível para uma geração que nasceu distante desta prática?

Os pressupostos das mobilizações

O Lulismo deu a tônica na gestão federal na última década no Brasil nos governos Lula e Dilma. Internamente baseia-se num programa de governo de ações econômicas tímidas e com resultados sociais significativos. Elevou setores da base da pirâmide social, a partir de políticas compensatórias, para um patamar pouco acima, o que lhe rendeu amplo apoio popular, especialmente nas camadas mais pauperizadas.

Provocou mudanças sem mudar. Reduziu os níveis de pobreza e miséria sem afetar os grandes interesses e nem tampouco amedrontar os donos do capital. O PIB cresceu e as duas extremidades da pirâmide foram as mais beneficiadas. Os avanços obtidos circunscreveram-se nos marcos da manutenção da estrutura de desigualdade e segregação social reinantes de séculos no Brasil. Eis a chave de seu sucesso até então.

Antecedido por uma década de neoliberalismo em estado puro, sob o comando de Collor e FHC, que apertaram o garrote aos movimentos sociais, ampliaram a submissão aos agentes internacionais (FMI, Banco Mundial, OMC) e levaram às ultimas consequências os preceitos do Estado mínimo e da desregulamentação. Foram apoiados, diga-se de passagem, pelas elites e pela grande mídia.

Mas, não só, pois muitos no campo da esquerda chegaram a acreditar no “Fim da História”, na vitória triunfal do capitalismo e nos ditames da chamada globalização, cedendo e aceitando a agenda conservadora.

Herdando este cenário e sem disposição de romper de fato com ele, o Lulismo implantou na agenda conservadora algumas políticas públicas que, de fato, produziram alguma mobilidade no padrão de renda das classes mais baixas, abrindo a elas inclusive a perspectiva de uma maior inserção no consumo, via expansão do crédito, mas não deu respostas sobre as questões estruturais de desigualdades abissais persistente na sociedade brasileira. Foi uma mudança de rumos sem rupturas.
Creio que o estado de convulsão social observado nas últimas semanas resulte da combinação apontada acima: de um lado o esgotamento das políticas neoliberais típicas no Brasil (década de 90) e no mundo; de outro, o esgotamento de sua faceta nacional, o Lulismo (década de 2000).

Avanços sociais limitados

A síntese dos caminhos políticos trilhados pelo Lulismo aparece esboçada na “Carta ao povo brasileiro”. O temor de sua vitória pelo grande capital foi aplacado neste documento publicado em 22 de junho de 2002, e os anos seguintes foram de dedicação canina aos seus propósitos.

Combate à inflação, manutenção do superávit primário, amplo mercado interno de consumo de massas, desoneração da produção, enfim, um novo contrato social, que incluía a inserção precária ao mercado de consumo de uma parcela significativa da sociedade. A questão central que se colocava então era como navegar entre a negação do desastre social neoliberal e permitir uma melhora na qualidade de vida da base da pirâmide sem rupturas sociais.

A “Carta” dava pistas: “Trata-se de uma vasta coalizão, em muitos aspectos suprapartidária, que busca abrir novos horizontes para o país” dizia o documento. Quais horizontes poderiam se abrir quando se oferta mais ao capital e se promete também mais ao trabalhador?

A grande habilidade política de Lula foi essencial na costura desta coalizão esdrúxula. Aglutinar antigos desafetos e históricos inimigos fez crescer sua base de apoio na sociedade, no parlamento e nos poderes constituídos. Mas teve uma contrapartida pesada na perda de identidade do partido e no consequente rebaixamento do programa.

Navegar com cada um dos pés em uma barca diferente, como expressa corretamente Gilberto Maringoni, exigia apurado malabarismo político para se equilibrar permanentemente entre os diferentes atores sociais e econômicos que compunham a base do governo, claramente antagônicos, mas afinados com a lógica de um governo que “agrade a todos”.

“O ex-presidente da República criou um discurso e um comportamento político capaz de, mesmo em situações polarizadas, contentar lados opostos, sem se vincular claramente a nenhum deles. Diante de opções difíceis a saída é não optar. Não se trata de hesitação. É tática pensada e sofisticada.”[1]

Desta combinação decorrem duas outras consequências diretas: a abdicação da mobilização social como elemento de sustentação do poder e a permanente ocorrência de crises pela acirrada disputa de nacos orçamentários e de posições privilegiadas nos órgãos do governo.

O caminho encontrado apontava para a modernização conservadora: permitir a ampliação do consumo através da oferta de crédito e, ao mesmo tempo, manter intocadas as reformas estruturais típicas de um programa democrático popular, uma vez que estas explodiriam a sustentação do governo nesta ampla coalização costurada com setores conservadores.

Um dos elementos chaves para que esta agenda política contraditória, mas hegemonicamente voltada aos interesses dos grandes grupos pudesse seguir adiante, foi a transformação paulatina do PT num partido de lideranças e caciques. Os canais que oxigenavam a antiga relação líder e base crítica foram sofrendo asfixia lenta e gradual, porém deliberada.

Neste processo o PT foi deixado de lado e o gabinete da presidência da República foi alçado à condição de comitê central decisório. As correntes internas e grupos militantes que davam vida e criatividade às suas ações transformaram-se em equipamento acessório e secundário. A cúpula do partido trocou sua militância, sem ruborar, por adesistas de primeira hora e alianças eleitorais espúrias. A governabilidade mostrou seus dentes.

Charge de Latuff, ironizando o firmado entre Lula, Haddad e Maluf quando das eleições municipais de 2012
Charge de Latuff, ironizando o firmado entre Lula, Haddad e Maluf quando das eleições municipais de 2012

A reforma agrária patinou, o MST manteve proximidade com o governo, mas o agronegócio também, indicando ministros. Abriram-se vagas em novas universidades públicas federais, mas o grande capital no ensino privado superior se esbalda com recursos públicos do PROUNI. O salário mínimo aumentou e as bolsas assistenciais também, tirando da miséria absoluta uma parte da sociedade brasileira. Mas, ao mesmo tempo, cresceram os ganhos do capital financeiro e de outros setores, aos quais estão profundamente imbricados: o agronegócio  e mercado imobiliário. Como consequência, o Brasil continua a apresentar uma das maiores desigualdades de renda no mundo.

Com 84% da população morando em cidades, as contradições ganham maior visibilidade. Pequenas ilhas de riqueza ladeadas por um mar de assentamentos precários, transporte público insuficiente e caro, serviços públicos de educação e saúde cada vez mais deteriorados, ausência de espaços públicos de sociabilidade, trabalho precarizado e superexplorado, coação e violência por parte da polícia, dentre outros. E eis que agora começam a erigir nas grandes cidades novos templos, as modernas arenas de futebol, anunciando a todos, enfim, que há dinheiro!

As massas que foram para as ruas neste junho de 2013 disseram um não coletivo ao conjunto dos problemas e demonstram clara insatisfação com as limitadas políticas redistributivas, reivindicam serviços públicos de qualidade e mais baratos.

Crise de representação política

Não se ouvia por parte de estudiosos, analistas e imprensa de modo geral, a iminência de as ruas e esquinas serem tomadas por populares em municípios de grande e médio porte. O que se iniciou como uma mobilização em torno de tarifas abusivas dos transportes urbanos foi, na verdade, a última gota do copo transbordante.

O mais espantoso foi a velocidade da irrupção da mobilização. Os mecanismos tradicionais de organização foram suplantados, ao menos momentaneamente: partidos políticos, centrais sindicais e sindicatos, evidenciando uma crise de representação política no Brasil. Mas ela pode ser compreendida. Onde estão as referências populares?

Os setores mais conservadores, não geram lideranças populares há décadas. Durante a Ditadura Militar esta questão não estava colocada. No período pós-ditadura emerge a coalização de direita encabeçada por Tancredo Neves e José Sarney, ambos caciques regionais e sem apelo popular, pois a massa estava nas ruas a exigir “Eleições Diretas Já”. Collor não foi escolhido, foi falta de opção contra Lula. Fernando Henrique Cardoso era um acadêmico que foi alçado à condição de presidente navegando nas águas do consenso neoliberal hegemônico na ocasião. Serra, Aécio, Alckmin e, mais recentemente Joaquim Barbosa, carecem de popularidade nacional e liderança política, mas todos cirurgicamente ungidos pela grande mídia que, aliás, tem agido de maneira contumaz como o verdadeiro partido conservador no Brasil, com a vantagem de se esconder sob o manto da liberdade de imprensa, além de obter financiamentos e polpudas verbas de publicidade públicas.

Do outro lado o Lulismo tinha Lula, forjado nos movimentos sociais, e que ocupava o posto de Presidente da República. Com o processo de esvaziamento partidário vivido pelo PT, seu sucessor seria resultado de sua escolha, como o foi Dilma Russef.

Até esta mobilização nacional o inimigo mais poderoso e articulado do Lulismo foi a grande imprensa, ironicamente alimentada pelo Estado.

Próximos passos: o que fazer?

Parte da massa que vai para as ruas fala em impeachment de Dilma, proposta descabida, mas que sintetiza esta ação deliberada da grande mídia que busca pautar as reivindicações e opiniões das ruas. É indesejável, mas compreensível a despolitização de parcela dos manifestantes.

Reflexo direto deste quadro é a pauta de reivindicações extensa e diversificada. Exprime mais o descontentamento geral contra este estado de coisas, do que uma mobilização organizada e focada em temas específicos. O problema é que as forças políticas organizadas, que poderiam dar maior consistência aos pleitos, estão à deriva desta mobilização.

Restam pequenos partidos de esquerda que ainda carecem de maior representatividade política, mas que crescerão no decorrer do tempo em função da coerência das críticas voltadas ao governo e à direita.

Deve-se, contudo, saudar a irrupção desta mobilização e estimular sua manutenção. Deve-se mais: disputar as bandeiras de luta nas ruas, debatendo com esta parcela de descontentes uma pauta que alavanque mudanças no sentido da expansão da oferta e qualidade dos serviços públicos e da radicalização da democracia.

Parece que as vitórias obtidas, como a redução das tarifas de transportes, a rejeição da PEC 37, o congelamento provisório dos preços públicos, dentre outros, tiveram o caráter pedagógico de mostrar que as mudanças que queremos virão de baixo para cima e não o contrário. Este é o contexto da Reforma Política e por isso é incabível pensar em Referendo, mas sim em Plebiscito.

Claro está que estamos diante de um grande impasse, que será superado pelas contradições próprias da sociedade brasileira. De um lado as forças conservadoras que falam em impeachment, desidratam as lutas sociais com bandeiras estéreis como o combate à corrupção e a defesa do Brasil e da democracia, alçam Joaquim Barbosa (o Presidente do Supremo Tribunal Federal) à condição de líder, descarregam sua munição na PEC 37, etc.

Mas outro patamar de lutas é possível e deve ser a grande aposta da juventude que entendeu que as redes sociais servem à mobilização, mas não a substitui. E é exatamente aqui que se situa a ineficiência do Lulismo: atender as grandes demandas sociais por serviços públicos e de qualidade e não substituir este direito pela condição de consumidor de bens domésticos (importante, mas insuficiente).

Mas este caminho exige o enfrentamento e a ruptura com o Brasil da Casagrande e Senzala. A política do agrado aos dois lados permite se chegar exatamente aonde se chegou: ampliar consumo sem romper com a estrutura de desigualdades sociais historicamente constituídas e arraigadas na sociedade brasileira.

É o que se observa na Venezuela onde o Estado – a partir de um programa democrático popular –, procurou dotar os setores mais pauperizados da sociedade de serviços públicos básicos, invertendo uma lógica dominante calcada no confinamento dos pobres na periferia, limitados à condição de força de trabalho barata.

O que está em jogo é a construção de uma nação como nunca antes se viu: profundamente democrática, menos desigual, participativa e dotada de serviços públicos básicos de qualidade e universais. Não está dado qual será o resultado das manifestações, embora conquistas importantes tenham sido alcançadas. Há uma disputa de projetos distintos, que apontam para a valorização do social (esquerda) e do capital (direita).

O PT será um agente político importante neste momento. Se sua direção continuar na linha até então empreendida, pode estar cavando o buraco que guardará em definitivo suas parcas energias internas progressistas. Se as movimentações sociais em ebulição inverterem a correção de forças internas e o partido se aliar aos setores progressistas diante de uma agenda de mudanças estruturais, uma segunda chance foi dada pela história, caso raro, mas possível na atual conjuntura.

Se David Harvey estiver certo a crise chegou por aqui desmanchando no ar o que era sólido.

É luta de classes em estado puro. Uma disputa de projetos sobre a sociedade que queremos.

* RICARDO ALVAREZ é Geógrafo, professor e editor do site Controvérsia.

 Fonte: http://espacoacademico.wordpress.com/2013/07/03/brasil-em-mudanca-as-ruas-mostram-sua-forca/

13 coisas podem torná-lo mais feliz

Sabe qual é o segredo da felicidade? Dormir mais de seis horas por noite, ter mais de 10 melhores amigos e passar mais tempo perto do mar são exemplos comprovados

Gastar dinheiro com os outros Foi cientificamente comprovado, pelo 'Psychological Bulletin', que gastar dinheiro com os outros em vez de consigo mesmo pode torná-lo numa pessoa mais feliz e realizada. Este estudo concluiu que há uma relação entre o altruismo e a felicidade e avançou mesmo que os maiores altruistas são as pessoas mais felizes.

Contar as coisas boas que lhe acontecem
O conselho é: todos os dias, antes de se deitar, escreva ou lembre-se de três coisas boas que lhe tenham acontecido durante esse dia. Não precisam de ser coisas particularmente importantes ou extraordinárias, basta que o tenham feito sorrir ou sentir-se melhor. Isso vai ajudá-lo a tornar-se numa pessoa mais feliz, diz um estudo da Universidade da Pensilvânia, citado pelo 'Business Insider'. 
Experimentar coisas novas
As pessoas que experimentam coisas novas, que têm um espírito aventureiro e que gostam de alterar a sua rotina são geralmente mais felizes. Ter esse tipo de experiência também estimula o cérebro e mantém-nos alerta.  
Antecipar a felicidade
Parece contraditório mas ansiar por um jantar com amigos ou por umas férias que tardam em chegar pode na realidade torná-lo numa pessoa mais feliz.
Expôr-se à cor azul
Sabe porque é que se sente mais feliz na praia? Porque o mar é azul e, segundo investigadores da Universidade de Sussex, a exposição à cor azul aumenta a auto-confiança de uma pessoa, reduz o stress e aumenta a felicidade. O estudo foi feito confrontando várias pessoas com esta cor e medindo as suas ondas cerebrais.  
Estabelecer objectivos
Trabalhar para atingir um determinado objectivo suprime as emoções negativas e também activa sentimentos positivos, concluiu o neurocientista Richard Davidson, da Universidade do Wisconsin. E as pessoas que estabelecem aquilo que querem atingir são normalmente mais felizes do que as outras.  
Deixar de defender os seus pontos de vista
A melhor atitude a tomar se quer ser uma pessoa mais feliz é manter a neutralidade, diz Deepak Chopra, autor do livro 'The Ultimate Happiness Prescription: 7 Keys to Joy and Enlightenmen'.

"Pode economizar 99 por cento da sua energia psicológica e sentir-se muito mais feliz, se parar de envolver-se em discussões por causa das suas opiniões", diz Chopra, citado pelo 'Business Insider'.
Ir à igreja
Um estudo recente, feito pela Universidade de Melbourne, percebeu que as pessoas que frequentam uma igreja regularmente são mais felizes e estão mais satisfeitas com as suas vidas do que as outras. 
Dormir pelo menos seis horas por noite


Bastam seis horas e 15 minutos de sono por noite para que possa sentir-se melhor consigo mesmo, concluiu um estudo recente promovido pela empresa britânica 'Yeo Valley'. 
Reduzir o tempo no trânsito para 20 minutos


O tempo que se passa no trânsito afecta o humor de uma pessoa, a saúde e o seu estado físico. Sabe-se que o tempo ideal para o trajecto casa-trabalho são no máximo 20 minutos.  
Ter pelo menos 10 melhores amigos
O ditado "quanto mais, melhor" aqui aplica-se. Os adultos que têm pelo menos 10 melhores amigos são mais felizes do que aqueles que só têm cinco ou menos, concluiu um estudo feito pela Universidade de Nottingham.  
Sorrir mesmo quando se está triste
É o mesmo que dizer: sorria, mesmo que esteja triste, porque até um sorriso falso pode tornar-se verdadeiro. Está cientificamente provado que o simples acto de sorrir atrai sentimentos positivos e a própria felicidade.  
Arranjar um namorado


Os relacionamentos amorosos têm uma enorme influência na felicidade de uma pessoa. Por isso, o conselho dos cientistas da Universidade de Cornell é mesmo esse: apaixonar-se e deixar-se envolver. Está provado que as pessoas que estão num relacionamento são mais felizes do que as outras.
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Fonte:  http://www.sabado.pt/Multimedia/FOTOS/-span--b-Sociedade-b---span--%281%29/Fotogaleria-%28996%29.aspx

terça-feira, 2 de julho de 2013

O que vemos nas ruas?

Que há insatisfação, isso é evidente. As agendas múltiplas captadas nas ruas podem ser agrupadas em críticas aos serviços públicos e à questão da representatividade política. Não há partidos ou a igreja por trás dos manifestantes, fato intrigante e novo no Brasil. Mas por que as ruas “explodiram” agora? “Você conhece em química o processo de saturação?”, responde com outra pergunta o professor de filosofia da Universidade de São Paulo (USP), José Arthur Giannotti. Em um copo de água, você adiciona seguidas doses de açúcar, que vai sendo diluído até o ponto de saturação, quando então esse material sólido começa a se depositar no fundo.

“No caso da insatisfação política, ninguém consegue determinar o momento em que satura”, explica, ao lembrar que a questão do transporte e a polêmica em torno de um novo modelo de cobrança na tarifa já tinham derrubado um dos principais candidatos à Prefeitura de São Paulo, nas eleições do ano passado. “Os brasileiros enriqueceram e não mais aguentam os serviços de péssima qualidade que são oferecidos a eles.”

A reportagem é de Alessandro Silva e publicado pelo Jornal da Unicamp, 01 de julho de 2013 a 28 de julho de 2013.

Docentes ouvidos utilizaram a palavra “inferno” para descrever a vida de quem, para trabalhar e estudar, precisa do transporte público – o estopim da crise. “A vida cotidiana é infernal. Quatro horas para uma pessoa que mora na periferia de São Paulo, pega trem, metro, um ônibus, ou mais, para ir e voltar, é tratado como gado. O transporte público brasileiro, relativamente, é um dos mais caros do mundo e, efetivamente, um dos mais precários”, afirma o sociólogo Ricardo Antunes, professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, ao comparar a estrutura disponível na capital paulista e o serviço oferecido em outras capitais tão populosas quanto, como Londres e México, por exemplo.

E não é de hoje que o transporte público leva pessoas às ruas. No Rio de Janeiro, cerca de 5 mil pessoas, em uma cidade com então 192 mil habitantes, saíram de casa para protestar em 1879, contra o aumento de um vintém no valor da passagem. Na época, o bonde era um transporte de massa, que atendia cerca de 20 milhões de passageiros por ano. E essa nova taxa, segundo livros de história, era um recurso do Estado para socorrer a economia. “Ou seja, a história do transporte público em São Paulo, mas no Brasil de um modo geral, sempre foi caótica. Os governos, de um modo quase geral, nunca investiram corretamente, quando necessário, na melhoria da mobilidade urbana. Sempre disseram que não há recursos e investiram no transporte individual, isto é, dos ricos. A ideia de serviço público que o Estado deve aos cidadãos no Brasil não pega. Basta olhar a história do país e fazer um inventário destas explosões de protesto poderá perceber que a indignação contra a péssima qualidade do transporte público lidera de longe esse tipo de manifestação”, explica a socióloga Walquiria Gertrudes Domingues Leão Rêgo, professora do IFCH da Unicamp.

Em São Paulo, o epicentro da onda de protestos liderada pelo Movimento Passe Livre (MPL), que desde 2004 atua em diversas regiões do país sob a bandeira da redução de aumentos e da gratuidade das tarifas, uma pesquisa do Datafolha (18/06) mostrou que o 67% dos paulistanos, de maneira espontânea, reconheciam que os protestos estavam associados ao preço das passagens, mas para 38% deles, as marchas também protestavam contra a corrupção e contra os políticos (35%). As entrevistas, realizadas um dia depois do primeiro recorde de público na cidade, quando 65 mil pessoas saíram às ruas, mostraram ainda que a falta de prestígio dos três poderes da República era a maior em dez anos entre os paulistanos. No “ país do futebol”, 70% deles disseram ter interesse pelas manifestações e apenas 18%, pela Copa das Confederações.

“O que me chama a atenção é que, pela primeira vez, desde o final da ditadura, vejo populares na rua cobrando dos poderes estabelecidos, sobretudo do Executivo e do Legislativo, um maior respeito pelo bem público. É a primeira vez que vejo uma movimentação tão grande de massa sem uma direção direta de partidos políticos ou da igreja”, afirma o filósofo Roberto Romano, professor do IFCH da Unicamp, que analisa a questão dos protestos a partir de um recorte histórico brasileiro. “Tudo é feito no Brasil para valorizar os operadores do Estado, e essa é uma característica do absolutismo. Quem opera o Estado é superior ao cidadão comum. Quando você entra em qualquer prefeitura, você vê aquele cartaz grande dizendo: ‘desrespeito ao funcionário, tantos anos de cadeia’, mas não há nada do lado dizendo que desrespeito ao cidadão também pode dar cadeia.”

E a multiplicidade de pautas e demandas é uma característica dos movimentos de rua, e não uma anomalia excepcional no cenário brasileiro. “As mobilizações amplas de rua fazem isso. Elas levam as pessoas, mobilizam, fazem as pessoas prestarem mais atenção a determinados assuntos, mas a pauta fica desorganizada, porque não há um elemento político unificador. Partidos políticos fazem esse papel de articulação; no entanto, o descolamento das manifestações com relação aos partidos deve-se à percepção de que a ação política partidária é ineficaz, deficitária, descolada da agenda popular”, avalia a cientista política Rachel Meneguello, professora do IFCH e diretora do Centro de Estudos de Opinião Pública (CESOP) da Unicamp. Para ela, o Movimento Passe Livre exerceu um papel de agente catalisador das insatisfações acumuladas, que possibilitou a operacionalização da mobilização dos mais diversos tipos de movimentos, e o aproveitamento da repercussão dos protestos pela redução do preço da passagem do transporte na cidade de São Paulo.

Para o cientista político Luiz Werneck Vianna, pesquisador na Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro, o Brasil está diante de um movimento apartidário, mas que não é apolítico. “Boa parte dessas lideranças já identificadas está vinculada a universidades de elite, a setores da classe média, boa parte da classe média-alta. Este não é um movimento ‘espontâneo’, desinformado, ingênuo, do ponto de vista dos protagonistas que andaram tecendo esse processo”, analisa. Todas as pesquisas realizadas até agora mostram que a maioria dos participantes não tem partido. Militantes de esquerda, com bandeiras, chegaram a ser hostilizados e expulsos de protestos realizados nas ruas do país.

Ao comparar a juventude escolarizada que partiu para as ruas do Brasil, com outros movimentos recentes como o “Occupy” (EUA), que protesta contra a desigualdade econômica e social, e os “Indignados” (Espanha), todos com forte articulação pelas redes sociais, o sociólogo Marcelo Ridenti, professor do IFCH da Unicamp, destaca uma diferença essencial, o fato de os jovens brasileiros terem emprego. “No Brasil, é uma juventude de estudantes, muitos dos quais trabalham, e recém-formados que não encontram no trabalho a possibilidade de manter o padrão de vida familiar (no caso das classes médias estabelecidas), nem vislumbram a realização das promessas de ascensão social pelo estudo, no caso dos jovens com menos recursos”, afirma o pesquisador.

“A juventude atual assumiu o mesmo matiz da que lutou contra a ditadura: a esperança de mudanças”, avalia o economista Gustavo Zimmermann, professor do Instituto de Economia da Unicamp. “No entanto, diferentemente da geração anterior, a atual expressa profunda decepção com os partidos políticos e com os legislativos e executivos dos três níveis de governo, incapazes de dar respostas minimamente satisfatórias aos anseios da classe média. Esperanças e frustrações formaram o substrato das atuais manifestações”, avalia o docente.

A internet é tida hoje como um grande “motor” das manifestações, no passado organizadas de forma “artesanal” e trabalhosa. Tanto que 91% dos entrevistados em uma pesquisa realizada pelo Ibope, em oito capitais do país, disseram ter tomado conhecimento pela internet sobre as manifestações das quais participaram. “As formas tradicionais de manifestação estão sendo substituídas e a rede adquiriu uma dimensão, uma velocidade de propagação dos fatos, que funciona para a juventude e que surpreende”, avalia o professor do Instituto de Economia da Unicamp, José Dari Krein, pesquisador de relações do trabalho e sindicalismo.

“Do ponto de vista das formas de organização na base, o movimento atual é superior ao da minha época [‘Caras-Pintadas’]. Eles são muito mais democráticos. Na verdade, percebo na juventude que se apropria das informações por meio das redes sociais uma forte pulsão politizante. Em 1992, quando organizamos o movimento ‘Fora Collor’ existia uma pauta única, que era derrubar o presidente. Apesar das demandas comuns por transporte, educação e saúde, hoje em dia essa pauta se fragmentou. Isso tornou o movimentou atual mais imprevisível”, avalia o sociólogo Ruy Braga, que em 1992 durante o movimento “Fora Collor” na época era dirigente estudantil (DCA Unicamp) e, hoje, é professor da Universidade de São Paulo (USP) e autor do livro A Política do Precariado - do populismo à hegemonia Lulista.

“A política brasileira entra em uma nova conjuntura. Aquela etapa marcada pela aposta do governo federal, enfim, das forças sociais e políticas que se aglutinaram em torno daquilo que genericamente podemos chamar de “lulismo”, e apostaram na desmobilização e na pacificação dos conflitos na sociedade brasileira nos últimos dez anos, essa aposta foi fundamentalmente perdida. O que está havendo hoje no país é uma retomada de uma tradição de mobilização e de luta, pela efetivação e pela ampliação dos direitos sociais.”

Na gênese das manifestações

As causas dos movimentos de rua são variadas, segundo professores ouvidos pelo Jornal da Unicamp:

Ricardo Antunes (Sociologia, Unicamp) – “O que vemos nas ruas, hoje, é um movimento amplo, de massa, polissêmico e multiforme, diferente de outros. As manifestações fizeram ruir o mito do país da classe média, do Brasil onde tudo dá certo e onde o povo está feliz. Isso ocorreu pela confluência de alguns elementos importantes, como o esgotamento interno do nosso modo de vida vigente desde os anos 90. Além disso, há um descontentamento com as instituições de representação política. Nenhum órgão no Brasil, hoje, certamente, é tão impopular como o parlamento. Por quê? Porque há um fosso enorme entre o sentimento nas ruas e os procedimentos parlamentares. Em meio às manifestações, o parlamento aprovou, pela sua Comissão de Direitos Humanos, o projeto que ficou conhecido grotescamente como “cura gay”. Enquanto amplos setores mais esclarecidos sabem que a opção sexual não é doença, o parlamento toma essa medida.”

Walkiria Leão Rêgo (Sociologia, Unicamp) – “Quando as pessoas melhoram um pouquinho de renda, suas expectativas e demandas por cidadania e bem-estar também aumentam. É um sinal muito positivo, saudável. A miséria, como diria um grande pensador, não é a escola da razão. Por isto e muito mais as pessoas não aceitam continuar sendo insultadas, vilipendiadas, desrespeitadas cotidianamente. A explosão disto provém de um longo processo de frustrações e decepções que na explosão, como estamos vendo, mostram pautas muito heterogêneas. O precaríssimo e absurdo estado dos transportes públicos há tempos exige investimentos. Idosos, deficientes físicos, permanecem em pé sem ter lugar garantido para se sentarem dignamente. Imagine isso, anos a fio, diariamente. Agora, a solução não está na rejeição de partidos e muito menos da política, que são essenciais à democracia. Colocam a democracia brasileira em sério risco. Lutamos muito por ela. Temos mesmo que lutar por mudanças. Contudo, não sejamos ingênuos. Forças conservadoras e até fascitoides estão também metidas nesta explosão, querendo se apropriar dela para destruir a democracia.”

José Arthur Giannotti (Filosofia, USP) – “Nós tivemos um ciclo importante que vem desde Fernando Henrique, passando por Lula, que trouxe certo bem-estar para uma população carente. Tivemos a inclusão, e isso é um mérito do Lula extraordinário, de quase 40 milhões de pessoas que vieram para o mercado e para a cena política. Mas ao chegarem, perceberam a insuficiência dos passos à frente. Em particular a violência do transporte público no país. As pessoas são “chicoteadas” para entrar no metrô. Ao mesmo tempo, o governo imagina que sairá do atoleiro econômico, no qual estamos metidos, aumentando o consumo, deixando o país se desindustrializar com crescimento da inflação. A cidade se tornou a evidência da má administração: incentiva-se a produção de carros que não podem andar nas ruas. ”

Roberto Romano (Filosofia, Unicamp) – “Historicamente, no Brasil, a propaganda tem sido utilizada para reduzir a participação das massas. Ela afasta os problemas reais da ordem social, econômica e tecnológica. No primeiro governo Lula, prometeu-se que 4% do PIB [Produto Interno Bruto] seria empregado em ciência e tecnologia, mas isso não se concretizou. Toda a propaganda é feita para criar uma ilusão e um medo perene. E a propaganda, é bom lembrar, é uma forma de intimidação: ‘se você não votar em mim, esse paraíso irá desaparecer.’ E por que os manifestantes perderam o medo? Pela realidade. Você é bombardeado pela propaganda desde 88. Olha atrás de um ônibus e vê: ‘dever do Estado e direito do cidadão’. Entra nele e tem três vezes mais do que a capacidade; você é empurrado, humilhado; paga uma tarifa muito cara; não tem o ônibus no horário. Depois de um tempo, você está extremamente cansado da realidade e a propaganda não dá conta disso.”

Luiz Werneck Vianna (Ciência Política, PUC-Rio) – “A política dos últimos anos é largamente responsável por essa situação. A política do chamado ‘presidencialismo de coalizão’, na forma degrada como o praticamos, aviltou os partidos, aviltou a representação, nesse toma-lá-dá- cá infernal. Isso extraiu a legitimidade, a aura dos partidos. Os movimentos sociais foram inteiramente cooptados e estão ausentes das ruas. A representação [no caso, os partidos] tentou chegar depois, com o movimento na rua. Este é um movimento de jovens, grande parte deles universitários, mas cadê a UNE [União Nacional dos Estudantes]? De um lado, a representação política foi degradada por esse toma-lá-dá-cá; de outro, a cooptação dos movimentos sociais fez com que essa juventude não encontrasse canais de expressão e ficasse processando a sua insatisfação em um lugar novo, nas redes sociais.”

Marcelo Ridenti (Sociologia, Unicamp) – “Vejo uma juventude nova, escolarizada, que é resultado de anos de investimento social. No entanto, pelas estatísticas, 70% dos jovens de 18 a 24 anos não estão nas escolas. Os que estão nas ruas são, sobretudo, os 30% da juventude que estão na universidade, no ensino médio, ou recém-formados, a maioria dos quais trabalha. Bem ou mal, com todos os problemas, tem havido uma escolarização muito rápida. Hoje, existem quase 7 milhões de pessoas nas faculdades. Os antecedentes dessa situação estão relacionados com o aumento da escolarização, que, em termos percentuais, ainda é baixo, mas em números absolutos é alto. As manifestações revelam uma certa descrença nas instituições e a incapacidade dos mecanismos tradicionais para expressar essa nova juventude.”

Ruy Braga (Sociologia, USP) – “Temos um modelo de desenvolvimento que entrega para a juventude empregos formais, mas que paga pouco. Que garante muito gasto social, mas que, ao mesmo tempo, diminui investimentos em saúde e educação, que sucateia os serviços públicos. Um modelo que não distribui renda entre aqueles que vivem como trabalhadores assalariados. Percebe-se um relativo progresso, mas que se esgotou. Por outro lado, tenho um emprego, ele é formal, mas, ao mesmo tempo, paga mal e as condições de trabalho são péssimas; estou frequentemente assediado pela polícia nos bairros periféricos onde moro; esses bairros, por sua vez, são bairros horríveis; o transporte público é péssimo e caro; e efetivamente não tenho saúde e educação. Existem muitas razões para as mobilizações.”

Gustavo Zimmermann (Economia, Unicamp) – “Há uma crise do modelo de governança no Brasil, do modo de governar. Foi essa crise que levou ao apartidarismo prevalecente nas passeatas [identificado nas ruas, segundo pesquisas]. Precisamos reconhecer que os partidos foram incapazes de produzir respostas esperadas, mas o apolitismo é muito perigoso. As manifestações atingiram os níveis atuais por juntarem as insatisfações com os serviços públicos urbanos, com a desilusão com os representantes políticos, as ameaças à estabilidade monetária e as incertezas do momento econômico. A gota d’água foi a correção das tarifas dos transportes urbanos. Ademais, há a revolta com os custos da Copa do Mundo. Não se tem transporte urbano decente, mas o teremos para os estádios. Isso ofende o cidadão: ‘para fazer futebol aparece dinheiro, mas para atender o dia a dia, não’.”

José Dari Krein (Economia, Unicamp) – “Houve uma perda de representatividade das instituições políticas e novas demandas de participação estão sendo colocadas. As manifestações expressam diferentes e até contraditórias aspirações de segmentos sociais que buscam protagonismo político, especialmente da juventude. As tensões sociais de diferentes ordens, que passam fundamentalmente pela qualidade de vida, dos serviços públicos e da inquietação da forma como ocorre o jogo político no país. Infelizmente, os partidos não conseguem conectar-se com amplos segmentos sociais e não expressam as tensões sociais, constituindo-se fundamentalmente em conglomerações voltadas para viabilizar seus projetos eleitorais. Em substituição as formas tradicionais, há novos instrumentos de manifestação das insatisfações, tais como nas redes sociais.”

Rachel Meneguello (Ciência Política, Unicamp) – “A não ser o Movimento Passe Livre, que coloca uma pauta muito clara e específica, é um movimento de múltiplos interesses. Não se observa nas ruas uma pauta unitária, uma agenda unificadora. Há uma insatisfação generalizada com questões da vida urbana e com o sistema representativo. Não entendo que esse movimento tenha uma pauta contrária à democracia. A questão do apartidarismo [defendida pela maioria dos participantes das manifestações] pode prejudicar a sequência da mobilização. Historicamente, grandes mobilizações de massa têm sequência em suas reivindicações porque partidos transformam isso em agenda a ser colocada ao poder público, de maneira organizada. Hoje, as coisas estão colocadas para o poder público de maneira fragmentada e direta, provavelmente traduzindo a natureza das atuais mobilizações.”
 
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Fonte: IHU on line, 02/07/2013

"O capitalismo é a neurose da humanidade"

Renata Salecl*

 

A liberdade é uma coisa boa, não é? Nem sempre, argumenta a filósofa eslovena Renata Salecl. A liberdade de escolher entre um número ilimitado de opções de carreira ou marcas de café acaba se tornando um fardo. Nossa sociedade capitalista moderna é governada por uma "tirania da escolha".


Eis a entrevista.

Salecl, na rede de fast-food Subway temos que tomar meia dúzia de decisões para poder finalmente desfrutar de um sanduíche. É isso que você quer dizer quando fala em suas palestras sobre a "tirania da escolha?"
Eu tento evitar lugares como o Subway, e se acaso eu acabe indo lá, sempre peço a mesma coisa. Quando falo sobre a "tirania da escolha", falo sobre uma ideologia que se originou na era do capitalismo pós-industrial. Ela começou com o sonho americano - a ideia do self-made man, que trabalha para subir a escada da pobreza à riqueza. Aos poucos, esse conceito de carreira se transformou numa filosofia de vida universal. Hoje acreditamos que devemos poder escolher tudo: a forma como vivemos, a nossa aparência, mesmo quando se trata do café que compramos, precisamos constantemente pesar nossas decisões. Isso é extremamente insalubre.

Por quê?
Porque nós constantemente nos sentimos estressados, sobrecarregados e culpados. Porque, de acordo com esta ideologia, é nossa culpa se estamos infelizes. Isso significa que tomamos uma decisão ruim.

E se fizermos a escolha certa?
Nesse caso, costumamos sentir que há algo ainda melhor escondido atrás da próxima esquina. Então, nós nunca estamos verdadeiramente contentes e relutamos em nos decidir por qualquer coisa.

"Não deixe que o homem comum decida. Ele não é inteligente o bastante." Esse argumento tem sido usado por autocratas durante séculos. Você quer dizer que eles estão certos?
Não. Eu não critico a liberdade política ou eleitoral, mas a perversão do conceito pelo capitalismo: a ilusão de que eu tenho poder sobre a minha própria vida.

Mas eu tenho esse poder. Eu posso decidir por mim mesmo o que eu quero, mesmo que esse pensamento me estresse.
Nem um pouco. Um amigo, que é psicólogo, contou-me sobre uma paciente uma vez: a mulher tinha boa escolaridade, um bom emprego, uma casa e um marido amoroso. "Fiz tudo certo na minha vida", disse ela. "Mas ainda não estou feliz." Ela nunca fez o que ela mesma queria, mas o que acreditava que a sociedade esperava dela.

Então precisamos melhorar em nossa busca pela felicidade pessoal?
Até isso é uma ilusão. A felicidade se tornou um parâmetro segundo o qual nos medimos. O mundo está cheio de revistas femininas que se esforçam para nos dizer o que nos fará felizes.
Está cheio de atualizações de status do Facebook dizendo-nos o quanto as outras pessoas estão fazendo de suas vidas. Há até índices que avaliam o quão felizes são certas nações. "Ser feliz" se tornou imperativo social. Se você não for, você fracassou.

Mas o lema também diz a todos que eles podem fazer suas próprias escolhas. Isso dá às pessoas um maior controle sobre suas vidas.
Sim, mas isso é apenas parcialmente verdadeiro. Nós ainda não podemos controlar as consequências que nossas escolhas trarão. Esse é o próximo passo. Não só queremos liberdade de escolha, mas também queremos uma garantia de que o que escolhemos será exatamente como imaginamos.

Por que estamos com tanto medo de apenas seguir o fluxo?
Porque cada vez que nos decidimos por alguma coisa, perdemos outra. Comprar um carro é um grande exemplo. Muitas pessoas não leem avaliações apenas antes de comprar o carro, mas continuam lendo depois para se certificar de que realmente fizeram a escolha certa.

Se eu não tenho escolha porque não tenho dinheiro para comprar nada, isso vai me fazer mais feliz?
Paradoxalmente, não. Um dos maiores ganhos do capitalismo é que até o escravo proletário se sente um senhor. Ele acredita que tem poder de mudar sua vida. Somos impulsionados pela ideologia do self-made man: trabalhamos mais, consumimos mais e, no final, consumimos a nós mesmos. As consequências são o esgotamento nervoso, a bulimia e outras doenças que são fruto do estilo de vida.

Por que nos tratamos tão mal?
Sigmund Freud já havia descoberto que o sofrimento nos dá prazer - de uma estranha forma masoquista. A tirania da escolha explora essa fraqueza. A cultura do consumo nos exaure. Nós sofremos. Nós destruímos a nós mesmos. E simplesmente não conseguimos parar.

Mas nós não somos realmente as vítimas. Afinal de contas, nós mesmos criamos este sistema e enquanto continuarmos consumindo, ele continuará existindo. Em última análise, o capitalismo apenas reflete a natureza humana.
Isso é verdade. Freud também disse que nós escolhemos nossas próprias neuroses. O capitalismo é a neurose da humanidade.

Há outros caminhos. Há um restaurante em Londres que serve apenas um prato e as pessoas estão fazendo fila do lado de fora para experimentá-lo. E uma empresa em Berlim que vende camisetas sem mostrá-las aos clientes antes.
Isso é uma estratégia de marketing inteligente. Com as crianças, você pode ver a mesma coisa. Se perguntar a elas no cinema ao que querem assistir, elas provavelmente ficarão confusas. Por outro lado, se você diz, pouco antes, "vamos assistir a James Bond", elas provavelmente vão dizer: "Não, mamãe, qualquer coisa, mas isso não". Se não existem limites, nós criamos os nossos.

Será que um dia seremos verdadeiramente livres?
Não. Mas podemos viver uma vida mais relaxada. Nós podemos aceitar que nossas decisões não são racionais, que estamos sempre condicionados pela sociedade; que perdemos algo cada vez que escolhemos outra coisa, e que não podemos verdadeiramente controlar as consequências de nossas decisões.
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* Filósofa eslovena.
 A entrevista é de Stefan Schultz, publicada na revistal Der Spiegel e reproduzida pelo Portal Uol, 01-07-2013.
Fonte:  http://www.ihu.unisinos.br/noticias/521556-qo-capitalismo-e-a-neurose-da-humanidadeq-diz-filosofa-renata-salecl

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Copa aquece a alma e esvazia o cofre

Victor R. Caivano/AP / Victor R. Caivano/AP

Construir um estádio de futebol custa caro em qualquer lugar do mundo. Mas o custo pode ser ainda mais alto por fragilidade técnica do projeto descoberta durante a obra ou por excesso de otimismo - inspirado pelo próprio projeto ou pela realização do evento. Afinal, Copa é Copa! O direito do Brasil de ser, pela segunda vez, sede da Copa provocou grande entusiasmo. Doze estádios foram programados para as partidas e construídos do zero ou reformados de cabo a rabo. O orçamento previsto para a arrumação foi cravado em US$ 3,25 bilhões em 2007 e parecia caber na conta brasileira sem crise financeira global batendo à porta, inflação se acomodando no centro da meta e Selic em queda. Em 2011, o orçamento já havia progredido para US$ 6,42 bilhões. No início de 2013, a US$ 6,99 bilhões. Seis anos depois da euforia, da posse de um novo governo, de um controle discutível da inflação pela presidente Dilma Rousseff e da clara percepção de queda do poder de compra da população, estaria a Copa ficando menor aos olhos do brasileiro? Os protestos nas ruas exibem indignação pela construção dos estádios e a baixa oferta de serviços de saúde e educação. As suspeitas acerca dos custos dos estádios, em supostas operações superfaturadas e atos de corrupção, têm fundamento?

O custo de um estádio é avaliado internacionalmente pela relação entre o custo total e sua capacidade (custo por assento). E esse critério, da base de dados da ONG Play the Game, uma entidade da Dinamarca, cujo objetivo é fortalecer a ética no esporte, mostra que o custo de um estádio da Copa no Brasil custa US$ 5.886 por assento; na Copa realizada na África do Sul, US$ 5.299; na Coreia/Japão, US$ 5.070; e na Alemanha, US$ 3.442. O custo do estádio no Brasil ficou bem distante basicamente do custo do estádio na Alemanha - 40% menor.

O Instituto Braudel de Economia trata do tema no estudo "Quanto custa um estádio de futebol? Ou: ainda temos tempo de economizar 42 maracanãs", preparado por dois Consultores-Legislativos do Senado Federal: o doutor em economia Marcos Mendes e o jornalista Alexandre Guimarães, que consideram surpreendente o fato de o Brasil não ter gasto muito mais que Japão e Coreia do Sul, que são países muito mais produtivos e com processo de engenharia mais avançado que o Brasil. "Todos aqueles que conhecem o Brasil esperariam preços muito acima da média internacional, não só devido a uma percepção de alta corrupção e ineficiência, como também pelo fato de que o custo de investir no Brasil é elevado", escrevem.

A grande diferença entre a Alemanha e as outras sedes de Copas, explicam, é decorrência de aquele país já dispor, antes da sua Copa, de diversos estádios que atendiam ao padrão da Fifa, o que reduziu custos. "Paira a dúvida se todos os estádios brasileiros realmente precisavam ser totalmente reconstruídos, ou se faltou capacidade de negociação de nossas autoridades junto à Fifa, no sentido de flexibilizar exigências. Principalmente no caso do Maracanã, que passou por ampla reforma há poucos anos", comentam os consultores.

No ranking de 19 estádios (Brasil, África do Sul, Coreia/Japão e Alemanha) construídos ou reformados, o Mané Garrincha, em Brasília, tem o custo por assento de US$ 8.830. É o quarto estádio de custo mais elevado, sendo ultrapassado pelo Saporo Dome (Japão/US$ 10.373), o Cape Town Stadium (África do Sul/US$ 10.041) e o Nissan Stadium (Japão/US$ 8.846).

Os estádios brasileiros Fonte Nova (custo de US$ 5.639), Arena Pernambuco (US$ 5.518) e Mineirão (US$ 5.512) estão abaixo da média geral, de US$ 6.429 por assento das arenas construídas ou submetidas a grandes reformas para as últimas quatro Copas do Mundo.
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Reportagem Por Angela Bittencourt | De São Paulo
Imagem: Paulinho comemora o primeiro gol de Fred na partida entre Brasil e Espanha que terminou com um placar de 3 x 0 e consagrou os brasileiros como campeões da Copa das Confederações

"Dilma é a minha candidata", diz Lula

 Ricardo Stuckert/Instituto Lula / Ricardo Stuckert/Instituto Lula
Em meio à queda de popularidade de 27 pontos percentuais da presidente Dilma Rousseff em três semanas (Datafolha), o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a afirmar que não disputará a Presidência em 2014 e disse que Dilma será sua candidata. Em sua primeira entrevista depois dos protestos que levaram milhares de pessoas às ruas - e fez com que a popularidade de Dilma despencasse - Lula afirmou ao Valor Pro, serviço de notícias em tempo real do Valor, que as manifestações são normais em uma democracia e provam que a sociedade brasileira vive como uma 'metamorfose ambulante'.

Lula defendeu sua sucessora e afirmou que a presidente não demorou para ouvir as vozes da rua. A pesquisa Datafolha divulgada no sábado mostrou que Dilma também perdeu intenção de votos e caiu de 51% para 30%. A mesma pesquisa mostrou que Lula teria melhor desempenho que Dilma na eleição presidencial de 2014.

O ex-presidente evitou falar sobre a proposta de plebiscito para a realização de uma reforma politica. O petista disse apenas que a proposta será implementada, mas afirmou que não sabe como isso será feito.

As declarações foram dadas no fim da tarde de ontem, depois de participar do primeiro dia do encontro "Novas abordagens unificadas para erradicar a fome na África", promovido pelo Instituto Lula, pela União Africana e pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) em Adis Abeba, capital da Etiópia.

Antes, pela manhã, Lula tentou explicar o que estava acontecendo no país, ao discursar a uma plateia composta por ministros, políticos e integrantes de Ongs de diferentes países africanos. O ex-presidente elogiou Dilma, ao afirmar que a sucessora teve um comportamento 'extraordinário' e foi solidária em relação às manifestações que acontecem em todo o país. O petista disse ainda que os protestos são decorrentes dos ganhos obtidos pela população nos últimos dez anos de governos petista.

Da Etiópia Lula segue para a Alemanha onde fará uma palestra a convite do banco Santander.

A seguir, a entrevista.

Valor: Como o senhor viu essas manifestações? O que levou as pessoas às ruas?
Luiz Inácio Lula da Silva : Eu acho que no Brasil temos prefeitos, governadores, presidente da República... Eu sou um curioso nesse aspecto. A primeira coisa que eu acho é que toda vez que um povo se manifesta é sempre muito importante. Acho que democracia exige que o povo esteja sempre em movimento, em manifestação, sempre reivindicando alguma coisa. As reivindicações que o povo está fazendo, de melhoria de transporte, de saúde, de educação isso é próprio do processo de crescimento que o Brasil vem enfrentando. Se você analisar que em dez anos mais do que dobrou o número de universitários no Brasil e de alunos nas escolas técnicas, e que houve a evolução social de uma camada da sociedade, essas pessoas cada vez mais querem mais. É assim. Quando aconteceu a greve dos metalúrgicos em 1978 as pessoas se perguntavam por que os trabalhadores fizeram greve. Eu dizia: porque eles tinham aprendido a comer um bife e estavam tirando o bife deles! Começaram a brigar para não perder o bife! Na medida em que as pessoas tiveram uma evolução social, é normal que elas queiram mais coisa. De vez em quando as pessoas reclamam que os aeroportos estão cheios. É lógico que tem que estar cheio! Em 2007 você tinha 48 milhoes de passageiros voando de avião. Hoje você tem 101 milhões de passageiros. Obviamente que vai ter gente brigando. Você não tem [briga de passageiros] de ônibus, porque a quantidade de passageiros que andavam de ônibus em 2007 é a mesma de 2012. Na medida em que as pessoas vão evoluindo vão querendo mais. Eu acho importante. Eu acho que se as pessoas questionam custo da Copa as pessoas que organizaram, que contrataram tem que mostrar. Não tem nenhum problema fazer esse debate com a sociedade. E é fazendo o debate que você separa o joio do trigo. Quem quer realmente debater, está interessado em fazer coisa séria e aquilo que é justo. Nesse aspecto Dilma tem tido um comportamento importante. De entender o movimento, tentar dialogar com o movimento e construir as propostas possíveis. Se a gente tiver qualquer preocupação com o exercício da democracia é muito ruim.

Valor: O senhor se reuniu com Dilma e Haddad durante a crise. O que o senhor disse a eles? Faltou ouvir as ruas?
Lula : A coisa que o Haddad mais ouviu foi as ruas. Ele tinha acabado de sair de uma eleição. Primeiro ele ganhou as eleições por causa da proposta de transporte que fez para São Paulo, que era para novembro mas talvez ele antecipe, não sei se tem condições de antecipar (proposta do Bilhete Único Mensal). A propaganda do Haddad era o seguinte: da porta para dentro muita coisa melhorou nesse país, mas da porta para fora nada foi feito. E ele dizia que em São Paulo em oito anos não havia sido feito nenhum corredor de ônibus. Ninguém pode, em sã consciência, nem o prefeito, nem o vice-prefeito, nem um cidadão qualquer dizer que o transporte em São Paulo é de qualidade. O metrô era de qualidade quando andava pouca gente, quando tinha condição de sentar. Mas agora que você tem passageiro para três vagões andando em um vagão, vai piorando a qualidade. O que eu acho que pode acontecer no Brasil é as pessoas se convencerem que de quando em quando gente precisa refletir sobre o que está acontecendo, conversar com as pessoas e tentar construir aquilo que precisa ser construído. É por isso que elogiei o comportamento da Dilma nessas coisas. Ela humildemente foi conversar com todos os segmentos da sociedade. Não se recusou a conversar com nenhum.

Valor: Não demorou muito para fazer isso?
Lula: Não demorou. Ela conversou no momento certo. Não poderia ter conversado antes, para discutir qualquer movimentação. O que a gente tem que entender é o seguinte: a realidade no mundo é outra, o povo está mais exigente, está tendo cada vez mais acesso a informação. Hoje o povo não precisa esperar o jornal no dia seguinte, a televisão à noite. As pessoas estão acompanhando as coisas 24 horas por dia. As pessoas não estão mais lendo notícia. Estão fazendo notícia. Eu acho que essa coisa é que é interessante. Nesse momento só tem uma solução: é pensar, conversar e começar a colocar em prática coisas que sejam resultado das discussões com a sociedade.

Valor: O senhor concorda com essa proposta de plebiscito sobre reforma politica? O senhor ficou irritado com o fato de a presidente ter consultado o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso?
Lula: Eu não posso fazer julgamento de acordo feito entre partidos políticos. Cada partido esteve representado com seu presidente e eles decidiram fazer o que tinham que fazer e vão colocar em prática. Não sei como é que vão colocar em prática, mas vão colocar. Nós temos o direito de conversar com quem bem entenda. Eu até agora não ouvir dizer que Dilma conversou com Fernando Henrique Cardoso. Ouvi setores da imprensa dizendo que ela conversou, o que ela não confirmou em nenhum momento. Mas conversar com FHC, com Sarney, com Collor, com Lula, é a coisa mais natural que um presidente tem que fazer. É conversar com as pessoas. É o seguinte: o Brasil vive um momento extraordinário de afirmação de sua democracia. Somos um país muito novo no exercício da democracia. Se você quiser pegar a eleição do Sarney como paradigma ou a aprovação da Constituição em 1988 temos 25 anos de democracia contínua. É o periodo mais longo. É normal que a sociedade esteja como uma metamorfose ambulante, se modificando a cada momento. É muito bom para o Brasil.

Valor: Mas não preocupa o abalo na popularidade da presidente, que caiu 30 pontos percentuais desde o inicio do mês?
Lula: Veja, querida, não me preocupa. Se tem um cidadão que já subiu e desceu em pesquisa fui eu. Em 1989 teve um dia no mês de junho que eu queria desistir de ser candidato porque eu tinha caído tanto que ia sair devendo para o Ibope (risos). Então eu cheguei a pensar em desistir porque não tem como eu pagar voto. Só tenho o meu. E depois com tantos figurões disputando a eleição fui eu que fui para o segundo turno. A Dilma é a mais importante candidata que nós temos, a melhor. Não tem ninguém igual a ela para ser candidata à Presidência da República. Portanto ela será a minha candidata.

Valor: O senhor volta em 2014?
Lula: Não
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Reportagem por Por Cristiane Agostine | De Adis Abeba (Etiópia)
A repórter viajou a convite da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO)
Foto: Lula discursa em Adis Abeba: "É normal que a sociedade esteja como um metamorfose ambulante, é bom para o Brasil"

Produtivismo acadêmico – Sobre as dificuldades de escrever!

Antonio Ozaí da Silva

1171 
A Profa. Ana Maria Netto Machado, no texto publicado na obra A bússola do escrever: desafios na orientação de teses e dissertações, organizada por ela e o Prof. Lucídio Bianchetti, afirma:
“A observação prática nos mestrados demonstra, de uma maneira inquestionável, que 15 ou mais anos de língua português não desenvolveram, na grande maioria dos adultos, qualquer intimidade com a sua própria escrita, de modo que eles não conseguem escrever com facilidade, nem razoavelmente, nem corretamente, nem sem sofrimento. Isto é válido para autores ávidos, oradores eloqüentes e bem-sucedidos, cuja cultura não lhes garante a habilidade para escrever. É fácil constatar essas teses no meio acadêmico entre bons professores”.[1]
Ela conclui que, “salvo raras exceções, podemos insistir, sem equivoco, que 15 anos de língua portuguesa não habilitam para escrever”.[2]

Embora a obra referida tenha sido publicada há 10 anos, o diagnóstico é, no mínimo, preocupante. Será que o quadro geral mudou? Não tenho condições de aferição plena, pois não participo da pós-graduação, mas me parece que a percepção da professora permanece válida. A minha experiência em participação em bancas, enquanto leitor dos trabalhos acadêmicos na graduação e como editor e consultor dos artigos ditos científicos confirma-o. Não é meu intuito desvalorizar nenhum autor, graduando ou pós-graduando, mas apenas constatar um fato que corrobora as palavras da professora.
Espera-se dos pós-graduandos que concluam seus trabalhos e defendam suas teses e dissertações, especialmente se recebem bolsas. São recursos da sociedade e, portanto, há imperativo ético. A responsabilidade social do pós-graduando é imensa e não diz respeito apenas ao orientador, programa e instituição.

Nem sempre a defesa e o título conquistado têm relação estreita com o domínio da escrita e o escrever bem. Aliás, a experiência editorial, especialmente na Revista Urutágua, demonstra que não existe relação de causalidade entre titulação e capacidade de escrever. Já li textos de graduandos melhores escritos do que outros cujos autores são pós-graduandos, mestres e até mesmos doutores.
Se o pós-graduando enfrenta dificuldades para escrever sua dissertação ou tese, por que exigir que escreva artigos para periódicos? Ora, sejamos sensatos, nem todos temos inspiração ou competência inerentes ao bom escritor. Escrever é algo mais do que juntar palavras, organizar citações, apresentar tabelas e quadros que possam impressionar. A escrita por obrigatoriedade produz resultados desanimadores e, muito vezes, o auto-engano. A vaidade é também uma forma de ilusão! No mercado dos bens simbólicos, a publicação de um artigo não oferece certificado de boa escrita, mas apenas a constatação de que se cumpriu a demanda produtivista. Se o pós-graduando se vê pressionado a publicar, por que não antecipar a publicação da dissertação em forma de artigos? Como pode o mestrando/doutorando se dedicar ao seu trabalho final se tem que publicar agora? É preciso muita capacidade para se desdobrar…

Para muitos escrever é quase como uma tortura – não é por acaso que pós-graduandos entram em crise psíquica e, muitas vezes, comprometem a saúde física e as relações pessoais. Deveria ser suficiente esperar que concluam o trabalho de pós-graduação. Há as exceções, os que não têm problemas em produzir, ou seja, lidam com a escrita de forma tranqüila – e há também os competidores compulsivos, os quais se alimentam psiquicamente da pressão produtivista. Não obstante, para além das exigências formais e éticas, é mais sensato aceitar o fato de que nem todos gostamos de escrever, que não temos o mesmo domínio da escrita e aptidão. Não é melhor resguardar o direito de quem não quer publicar ou escrever de acordo com a capacidade e condições?

Por que e prá quê publicar? Por que obrigar o pós-graduando a isto? Não é suficiente que conclua a pós-graduação da melhor forma possível? Que ele publique, mas se for capaz e desejar. Da mesma forma, por que exigir do seu orientador a publicação de artigos? Também ele não tem o direito de ser “improdutivo”? As exigências produtivistas nos cegam diante de um simples fato: escrever não é fácil e nem está automaticamente vinculado à titulação. Publicar e escrever bem não são sinônimos. Escrever deveria ser um exercício prazeroso e não um tormento!

[1] MACHADO, Ana Maria Netto. A relação entre autoria e a orientação no processo de elaboração de teses e dissertações. In: BIANCHETTI, Lucídio e MACHADO, Ana Maria Netto (orgs.) (2002) A bússola do escrever: desafios na orientação de teses e dissertações. Florianópolis: Editora da UFSC; São Paulo: Cortez Editora, p.52
[2] Id., p. 53.

 Produtivismo acadêmico – Sobre as dificuldades de escrever (2)

Se alguém nota que
estás escrevendo bem,
toma cuidado: é caso de
desconfiares… O crime
perfeito não deixa vestígios
.
(Mario Quintana)
1171 
Um dos efeitos perversos do produtivismo acadêmico é o atropelo e, muitas vezes, o assassinato da língua de Camões. Na urgência de publicar violenta-se a “última flor do Lácio, inculta e bela”.[1] A pressa é inimiga da perfeição, afirma o dito popular. Nem se trata de exigir o texto perfeito, pois o erro é próprio do humano – o perfeccionismo é a angústia do ser que se eleva à altura dos deuses, mas encontra-se acorrentado à condição humana necessariamente imperfeita.

A precipitação é má conselheira, atropela o bom senso e exige muita paciência dos leitores. Autores encaminham textos sem a adequada revisão gramatical e ortográfica. Alguns nem se dão ao trabalho de utilizar a ferramenta de revisão disponível no editor de textos. Ausência ou excesso de autoconfiança? Preguiça intelectual? O editor do periódico e/ou professor orientador que se virem! Editores, pareceristas e professores que orientam etc., são convertidos em revisores.[2] Muitas vezes, veem-se diante de textos acadêmicos auto-proclamados científicos que exigem muito mais do que a revisão ortográfica e gramatical, ou seja, precisam ser reescritos. Isto é exigir demais, até mesmo dos revisores profissionais. Talvez o professor-orientador, pressionado por prazos e exigências formais se sujeite a este papel – o que, em muitos caos, reforça a pretensão à co-autoria.

Desconhecimento da língua? Dificuldades com a escrita? Provavelmente. Mas o infeliz do candidato a escritor vê-se obrigado a publicar, é pressionado por exigências acadêmicas – especialmente nos programas de pós-graduação. Por que se expor? Por que não tomar as precauções mínimas? Por que não utilizar os recursos tecnológicos à disposição? Por que não solicitar ajuda? Se é necessário, por que não recorrer aos préstimos do revisor profissional? O caminho que parece mais fácil nem sempre é o melhor. Pior é o auto-engodo. O ególatra não vê o óbvio, ressente-se diante da crítica quando deveria agradecer, permanecer alerta e nutrir a humildade.

Não por acaso, periódicos exigem que os textos sejam revisados antes da submissão e que o autor apresente declaração do profissional – há situações em que é exigido aos autores que encaminhem seus trabalhos a revisores indicados pelos periódicos, o que constitui reserva de mercado. Seja como for, há a necessidade de revisão. Isto sugere que os textos que porventura lemos – artigos, dissertações e teses – não expressam, necessariamente, o domínio da língua e da escrita por parte dos autores. As dificuldades neste campo são minimizadas e acobertadas pelo trabalho do profissional que faz a revisão – isto quando é encaminhado antes de passar pelos trâmites formais da academia. Quantos encaminham seus textos à revisão antes das bancas de qualificação e defesa ou mesmo depois? Entre os agradecimentos, geralmente registrados nos trabalhos acadêmicos, deveria constar a referência ao revisor. Como, em geral, esta é uma atividade profissional, o pagamento monetário parece suficiente.

A experiência docente e como editor de revistas tem demonstrado que escrever bem não é sinônimo de titulação acadêmica. O título de doutor ou pós-doutor não indica necessariamente habilidade na escrita ou ausência de dificuldades. O trabalho do revisor permanece necessário, bem como o alerta sobre o auto-engodo e a humildade de reconhecer as próprias limitações. Escrever bem é trabalhoso e exige aprendizado permanente. O tempo da escrita nem sempre se ajusta ao tempo do produtivismo acadêmico![3]

* Ver Produtivismo acadêmico – Sobre as dificuldades de escrever!, publicado em 15/12/2012.
[1] Soneto do poeta Olavo Bilac. Ele se refere à última língua derivada do latim vulgar falado no Lácio, região italiana, por camponeses e camadas populares. Apesar da sua origem popular, “inculta”, é uma língua “bela”.
[2] Ver, em Produtivismo acadêmico – Sobre as dificuldades de escrever!, a observação da Profa. Ana Maria Netto Machado sobre as dificuldades para escrever, mesmo após 15 ou mais anos de aprendizado formal da língua portuguesa.
[3] A propósito, sugiro a leitura de A arte de escrever e Como escrever?
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Fonte:  http://antoniozai.wordpress.com/2013/06/29/produtivismo-academico-sobre-as-dificuldades-de-escrever-2/

Uma esquerda à altura da crise da República

Tarso Genro*

 

A essência da crise atual é que os poderes republicanos e as suas instituições políticas não tem mais chances de recuperar sua plena legitimidade para dar eficiência à democracia -capacidade de resposta à justas demandas populares-, sem novas formas de participação nas decisões públicas e sem novas fontes de legitimação do poder. Falo aqui de uma assembleia constituinte (revisora) específica, convocada conforme a Constituição, por Emenda Constitucional, para conectar as instituições políticas da República com o povo, que é o poder constituinte real.

Quinta-feira, 27 de junho, Porto Alegre, frente do Palácio Piratini, sede do governo gaúcho. Nove horas da noite. Na Praça da Matriz, mais de quatro mil manifestantes fazem seu protesto legítimo em perfeita harmonia, inclusive com as forças da Brigada Militar, que garantem a segurança para a cidadania manifestar-se livremente. Um cordão de isolamento de policiais militares, protegidos por escudos, garante a integridade do Palácio.

Durante uma hora e meia os policiais aguentam impávidos e disciplinados, por ordem originária do próprio Governador, uma chuva de pedras, garrafas e paus, jogadas por aproximadamente 150 mascarados, postados no lado esquerdo do Praça, fundidos no meio de uns 200 manifestantes, que não impedem suas ações violentas e provocativas, mas inibem uma resposta da Polícia, cuja reação poderia atingir pessoas que, inocentemente ou não, não estavam envolvidas na “ação direta”.

No céu, um helicóptero com letreiros eletrônicos voeja rente à Praça, com dizeres contra a existência dos Partidos e afirma que, desta forma –sem os partidos- o Brasil “tem jeito”. Quem promoveu este voo? Quem o pagou? Como ele se conecta com as manifestações?

Dentro do Palácio um “governo de partidos”, eleito no primeiro turno, que governa com mecanismos de participação popular combinados de forma inédita, tais como o Orçamento Participativo, o Gabinete Digital, os Conselhos Regionais de Desenvolvimento, o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social , a Consulta Popular. Esta, por exemplo, é um procedimento de votação eletrônica ( 1 milhão e 100 mil votos no anos passado) que, através de perguntas diretas à população, promove a liberação hierarquizada de recursos (este ano, mais de duzentos milhões de reais) para investimentos, principalmente em pequenas obras e nas áreas da saúde e da educação.

Seguramente, neste evento emblemático temos três protagonistas claros da crise: a cidadania manifestando-se na defesa de direitos; grupos “sem rosto” que servem de massa de manobra para provocações, como ocorre historicamente nestas conjunturas (cujos objetivos são obscuros, mas funcionam como desestabilizadores da democracia política); e a direita conspirativa, que trabalha nas “sombras” –no caso, “no ar”- dando sequência ao trabalho feito pela mídia dominante, que nos últimos anos dissolveu o prestígio dos partidos, dos políticos em geral e de todas as instituições democráticas da República.

As causas mais visíveis da insatisfação popular, certamente estão nas péssimas condições do transporte coletivo e do sistema de saúde pública nas grandes regiões metropolitanas. Ou seja, na verdade faltou Estado, seja como prestador, seja como organizador-controlador, o que se combinou com a ascensão de milhões de jovens ao mundo do trabalho e às universidades públicas e não públicas (estas, através do Prouni), sufocando, não só a mobilidade destas grandes regiões, mas também a capacidade da estruturas públicas prestarem serviços de mediana qualidade. De outra parte, os apelos da sociedade consumista oferecem promessas espetaculares que apenas uma parte da população pode acessar, transformando o desejo sonegado de muitos em frustração, crime e violência irracional.

Não se pode omitir que sobre estas condições ocorreu um processo geral de hipnose fascista, que não tem precedentes na História do país. E esta “hipnose” concentrou seu convencimento, não na denúncia das desigualdades e da riqueza concentrada, mas na denúncia da “corrupção”, como se ela fosse uma propriedade e uma qualidade dos políticos atuais e dos governos atuais.

Não foi promovido o combate à corrupção como mazela de um Estado reprodutor de desigualdades e protetor de privilégios corporativos e de classe, pois isso suporia reconhecer que tanto nos partidos, no serviço público, como nas empresas, em todas instituições (até mesmo na mídia), há uma grande maioria de pessoas que não tolera a corrupção e que não a aceita, por princípios morais e políticos. A campanha foi feita de modo a incriminar de maneira plena a esfera da política, os partidos e, particularmente, os dois governos que colocaram os pobres e os trabalhadores como protagonistas da cena pública.

Ao fazer uma incriminação generalizada colocando, de um lado, a grande imprensa como a virtude moral do país, e, de outro lado, os partidos e os agentes públicos como a fontes da corrupção, o que ocorreu foi a degradação dos instrumentos democráticos para combater a própria corrupção, restando a grande mídia como fonte de toda a moralidade republicana, com poderes totalitários para dizer quem presta e quem não presta, quem merece confiança e quem não merece. Assim, quando um Juiz Privado, a mídia, transforma-se em monopólio do Juízo Público, estamos entrando numa crise da República: a marginalidade violenta e os fascistas clássicos e pós-modernos, que emergem nesta situação, não precisam mais se conter e sentem-se autorizados ideologicamente a saquear e a incendiar.

É preciso compreender, porém, que o que está ocorrendo no país não é mera invenção midiática. É óbvio que os partidos de esquerda e as instituições “dissolvidas” por esta manipulação sobre a corrupção não são inocentes. Seus vícios, seu acomodamento ideológico, seu afastamento das questões mais intensas que desqualificam a vida cotidiana do povo, facilitaram esta agenda da direita que, como se vê, sorri satisfeita com toda a crise e pretende transformá-la em cavalo de batalha eleitoral. Nossos partidos precisam captar esta energia criadora que vem das ruas e transformá-la em políticas democráticas de largo alcance.

Nestas circunstâncias, a crise da democracia transmudou-se em crise da República. Isso não quer dizer, no entanto, que o pacto democrático não possa ser recuperado, tanto pela “via conservadora”, como pela “via da radicalização da democracia”. Na primeira hipótese, pela “via conservadora”, basta que os poderes voltem a funcionar em relativa harmonia, para simular que “as coisas começaram a melhorar”. Se eles voltarem a operar nesta relativa harmonia, os clamores populares poderão deixar de ser valorizados pelos meios de comunicação e a situação poderá se acalmar, mas a democracia não será revalorizada e a República não será reformada. Nem serão criadas novas instituições que permitam fortalecer a intervenção do povo no processo político e, em consequência, as “crises” virão ainda mais fortes no futuro.

A essência da crise atual, portanto, é que os poderes republicanos e as suas instituições políticas não tem mais chances de recuperar sua plena legitimidade para dar eficiência à democracia - capacidade de resposta às justas demandas populares -, sem novas formas de participação nas decisões públicas e sem novas fontes de legitimação do poder. O Congresso tem mecanismos burocráticos de funcionamento que permitem, frequentemente, que interesses escusos impeçam votações e que minorias sem programa e sem princípios dominem a cena parlamentar, desprestigiando todo o corpo representativo. É preciso um sopro “direto” do povo para que ele se atualize e se sensibilize com os problemas reais que o país atravessa.

Falo aqui de uma assembleia constituinte (revisora) específica, convocada conforme a Constituição, por Emenda Constitucional, para conectar as instituições políticas da República com o povo, que é o poder constituinte real. Seu objetivo é integrar, de forma direta, a atual energia política despertada pelas grandes manifestações de massas, com delegados eleitos especialmente para fazer a Reforma Política.

Estes representantes, eleitos para este fim específico, impossibilitados de concorrerem nas próximas eleições, (admitido um percentual de representantes “sem partido”), pressionados democraticamente pela sociedade em movimento poderiam, através de mudanças substancias nas normas constitucionais que versam sobre os Partidos, financiamento das campanhas e Direito Eleitoral, “democratizar a democracia”, como diz Boaventura Souza Santos. E assim expandir os marcos da participação direta do povo, já previstos na atual Constituição Federal, combinando-a com a representação estável e previsível dos processos eleitorais tradicionais.

O que está ocorrendo durante as manifestações é também a sequência de uma lenta e eficaz lavagem cerebral midiática, acolhida amplamente nas “redes sociais”, cujo objetivo está sintetizado na visão de que “o gigante acordou”, “vamos construir um novo Brasil” e “vamos varrer com a corrupção”. Tais sínteses traduzem uma mentira meticulosamente construída, pois os avanços democráticos que o país vem sofrendo, inclusive na luta contra a corrupção, datam da Constituição de 88 e, no plano social, dos dois governos do Presidente Lula, ampliados inclusive no atual governo.

Estas “palavras de ordem”, induzidas dos porões da direita extrema, levam as novas gerações a uma romantização do futuro, com graves frustrações de médio prazo. Embora a crise das regiões metropolitanas -motivação imediata das inconformidades em pauta- venha de erros e omissões dos atuais e anteriores governos (especialmente no que refere ao transporte urbano e a saúde), nenhuma destas questões será resolvida em profundidade nos próximos dez anos. São bilhões a serem investidos e repassados aos estados e às prefeituras, que precisam enfrentar as agruras da crise mundial e a promoção de uma Reforma Tributária, que principalmente desonere os pobres e as novas classes médias e, em contrapartida, onere as grandes fortunas e as transações do capital especulativo e rentista.

O fato é que as grandes mobilizações populares abriram caminhos que estão em disputa no campo da política. Os partidos de esquerda, se estiveram à altura da crise atual, se forem mesmo de esquerda e democráticos, devem adotar uma estratégia unitária de revalorização da ação política e dos partidos, combinando-a com a criação de novos canais de democracia direta e de participação popular, articulados com a democracia representativa. Ou seremos vencidos pelo conservadorismo, que poderá nos levar às novas formas de totalitarismo pós-moderno, que tanto controlará as mentes, a pauta, como ditará o que é lícito ou ilícito, numa democracia ainda mais elitista do que a presente.
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(*) Governador do Estado do Rio Grande do Sul
Foto da Internet:  Após a manifestação que tomou conta da Praça da Matriz na noite desta quinta-feira, o governador Tarso Genro se dirigiu até a frente do Palácio Piratini, na Rua Duque de Caxias, para cumprimentar a tropa de choque da Brigada Militar (BM) pelo trabalho em mais uma noite de mobilização na Capital.
Fonte:  http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=22277