sábado, 27 de fevereiro de 2016

Mitos sobre o Islão

Faranaz Keshavjee*
 

A especialista em estudos islâmicos, Faranaz Keshavjee, desmistifica algumas representações sociais sempre carregadas de preconceitos e desinformação (Parte I)

Aqui em Portugal, como em qualquer parte da Europa, ou noutra parte do mundo onde o Islão não seja conhecido, ou não seja a religião dominante, falar de muçulmanos equivale a falar de terroristas, bárbaros, árabes, fundamentalistas, misóginos, ou exóticos.

São representações sociais sempre carregadas de preconceitos e desinformação ora porque a historiografia projeta estas mesmas imagens distorcidas, ora porque os media tendem a hegemonizar 1,8 milhares de milhões de muçulmanos espalhados pelo mundo inteiro, não obstante as línguas, tradições costumeiras, interpretações de fé, ou outras diferenças. Entre algumas dessas falsas representações encontramos as seguintes:

Mito 1: O Islão oprime a Mulher e obriga-a ao uso do véu

Sou capaz de arriscar e dizer que a primeira dessas imagens é a da mulher com um véu ou uma burka. É uma imagem que serve para colocar a generalidade do mundo islâmico como sendo defensor da opressão, violência e menorização da mulher e do seu papel social. A esta imagem, estão associados relatos de mulheres apedrejadas até à morte, por adultério, ou suspeita de, e a diminuição do seu estatuto civil perante a lei. Acontece, ao contrário do que é a ideia generalizada no mundo não muçulmano, que os países onde se impõe a obrigatoriedade do uso do véu são o Irão e a Arábia Saudita, e recentemente também o Afeganistão. Em países cujos regimes seguem o modelo de governo e legislação wahabista, como a Arábia Saudita e o Afeganistão, a mulher está proibida de conduzir e pode sofrer a morte por apedrejamento. Pese-se também que nestes contextos o estatuto civil de uma mulher perante a lei é 3 vezes menor que a de um homem. Ora, se isto é verdade, é preciso referir que estas não são práticas comuns entre a generalidade dos muçulmanos. Para que se entenda, dos 1.8 milhares de milhões de muçulmanos, a Arábia Saudita, o Afeganistão e o Irão, em conjunto, contém aproximadamente 8% da população muçulmana do mundo inteiro, sendo que desses 4,8% são Iranianos.

Na realidade, há mais países muçulmanos que advogam o não uso do véu do que aqueles que o requerem. Isto porque o véu não é uma obrigatoriedade “Islâmica”. Não está escrito nem no alcorão que seja forçoso a mulher usá-lo, nem nos exemplos dados pelo próprio profeta do Islão. Conforme tenho explicado, a expansão e adoção da religião muçulmana fez-se por um processo de islamização das práticas costumeiras de cada povo que recebeu o “facto islâmico”. É importante também referir que, ao contrário do que é exigido nas sociedades ocidentais seculares modernas, nos países predominantemente muçulmanos, a diversidade e escolha individual de uso ou não do véu, ou lenço, é vista como uma forma de liberdade de expressão da mulher.
Acresce a estes aspectos o facto curioso de que nos últimos 30 anos a esta parte, os países maioritariamente muçulmanos tiveram já 9 mulheres chefes de estado (Paquistão, Turquia, Indonésia, Senegal, Kosovo, Quirguizistão, Maurícias, e duas no Bangladesh).

Mito 2: o Islão advoga o conservadorismo e o fundamentalismo

Em várias partes do mundo, incluindo o Médio-Oriente, África e Ásia do Sul, encontramos países que reclamam que o seu sistema governamental é baseado na lei islâmica, e nesses encontramos o conservadorismo. Aí encontramos situações de limitações na liberdade de expressão e a violação dos direitos humanos, em particular o das mulheres, como vimos ser o caso da Arábia Saudita, Afeganistão, Irão e Paquistão. Muito embora, estes sejam os países que normalmente se usam como exemplos mediáticos para reforçar um estereótipo construído pela historiografia europeia sobre os muçulmanos em geral, é importante perceber que todo o corpo legislativo construído desde a morte do profeta foi resultado do trabalho de homens e da sua própria interpretação do que eram já os costumes locais de sociedades de tipo patriarcal.

Inúmeros são os versículos qurânicos que podem servir para contestar este tipo de legislação de privilégio do género masculino onde nem os homossexuais são poupados. Todavia, se os intérpretes e legisladores construíram uma legislação milenar, costumeira e ultrapassada, urge agora o tempo que os muçulmanos progressistas advogam como o da revisão da interpretação dessas leis à luz de sociedades paritárias, nas quais as liberdades e deveres individuais são claras no alcorão, sobre o valor da vida humana e da consciência social, independentemente dos géneros, credos, ou outras diferenças.

É ponto assente para a maioria dos pensadores e líderes muçulmanos progressistas que é necessária uma revisão dos princípios fundacionais do islão em detrimento de um modelo fundamentalista que tem vindo a destruir a mensagem qurânica de unidade na diversidade, e respeito e integração do Outro.

Mito 3: Todos os árabes são muçulmanos e todos os muçulmanos são árabes

As Pew Reports de 2011 sustentam que esta é uma ideia completamente falsa.

Sim, o Facto Islâmico teve início na Arábia, e foi revelado na língua árabe, e por isso é uma língua particularmente acarinhada, até porque não seria possível fazer a exegese do Alcorão senão mesmo a partir da língua em que foi originalmente transmitida. É sabido como as alterações das vogais, e os múltiplos significados que cada termo possa ter no árabe, se passados para as línguas vernaculares, os resultados podem ser complexos e potencialmente falíveis.

Todavia, dos 1,8 milhares de milhões de muçulmanos no mundo, só 20% deles são árabes. 22% da população cristã no mundo é africana, mas nem por isso dizemos que os cristãos são todos africanos ou que os africanos são todos cristãos.
O país que tem o maior número de muçulmanos é a Indonésia, com 205 milhões, seguido da Índia, com 175 milhões. Curiosamente, existem mais de 14 milhões de Cristãos no mundo árabe, ou seja, existe mais um milhão de cristãos árabes do que toda a população judaica no mundo!

Mito 4: A Jihad é uma Guerra Santa e é para se fazer contra o Ocidente

Conforme escrevi no meu texto sobre “a violência no alcorão”, neste mesmo blogue, a Jihad significa literalmente “esforço” no caminho de algo. No caso do Islão, a Jihad-e-Akbar (a grande Jihad) é suposto ser um esforço no sentido de encontrar um equilíbrio entre a vida material e a espiritual, onde nenhuma delas seja preterida em detrimento da outra.

A Jihad como hoje se ouve falar, e sobretudo pelos media e o próprio

auto-proclamado “estado islâmico” vem de uma ideia de Guerra Santa – ideia essa criada pelos próprios europeus. Historicamente, o jihadismo como ideologia e movimento político resulta da necessidade de, durante a Guerra Fria, os americanos terem motivado muçulmanos no Paquistão a tomar as rédeas – a fazerem a sua Jihad – para o controlo da fronteira com o Afeganistão, prevenindo a invasão dos russos que, à época, dominavam esta região. A ideia inicial resultou bem, pois depois de prolongados períodos de colonização e descolonização de vários territórios predominantemente muçulmanos, e tendo em conta que a Jihad-e-ashgar (a Jihad mais pequena) se referia à batalha para conquista ou em defesa do território, a ideia foi resultando e ganhando proporções que estudos aprofundados podem traçar o rasto, desde o início destes movimentos até aos dias de hoje.

Quanto a ser ou não uma guerra contra o Ocidente, há pelo menos duas variáveis a reter: 1) sendo que o jihadismo é um movimento de guerra de ocupação de territórios e de poder de exploração de energias locais, em concomitância com a obrigação de conversão dos povos conquistados a uma interpretação fundamentalista e radicalizada do Islão, de predominância saudita e sunita, apoiada e sustentada pelos interesses e recursos dos Estados Unidos da América, é difícil determinar de que “ocidente” falamos. Primeiro porque o jihadismo é suportado indiretamente pelas superpotências ocidentais, e segundo, porque milhões de muçulmanos são eles próprios ocidentais, e portanto estariam a fazer uma guerra contra si mesmos. E 2) num mundo de abissais clivagens de desconhecimento sobre o islão e sobre os muçulmanos, não só por parte de não muçulmanos, como dos próprios muçulmanos ignorantes da história e desenvolvimentos da sua identidade religiosa, agravada por problemas de marginalização sócio-económica e problemas identitários resultantes de histórias de diásporas passadas, é complicado perceber de que “ocidente” falamos quando dizemos que o islão ou os muçulmanos querem destruir. O que é que exatamente se pretende destruir? O islão que não conhecem, ou o ocidente onde nunca se conseguiram integrar? Ou será que o jihadismo atual no ocidente e contra o ocidente é realmente uma rebelião contra um mundo de sonhos desfeitos, empregos nunca conseguidos, estatutos sociais jamais alcançáveis, ausência de ideais para um futuro interessante, ou efetivamente, uma verdadeira banalização do mal, tal como Hannah Arendt explicou ser a natureza humana.

Qualquer que seja a interpretação, o facto é que no que diz respeito à Jihad, e à origem do conceito, o mito permanece.

NOTA: Esta é a primeira parte do artigo. A segunda será publicada na próxima semana
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 * Faranaz Keshavjee nasceu a 11 de Janeiro de 1968, em Moçambique, na então capital Lourenço Marques e chegou como “retornada” a Portugal, em Setembro de 1974, aterrando no Bairro Alto, bem no meio das ruas estreitas e carismáticas por onde passavam o fado, as varinas e os travestis.O fascínio e o gosto pelo estudo e investigação nas ciências sociais e humanas levaram-na a estudar primeiro para uma licenciatura em Antropologia Social e depois um Mestrado em Psicologia Social no ISCTE, seguindo depois para o Reino Unido onde se especializou em Estudos Islâmicos e Humanidades, no Institute of Ismaili Studies em Londres, e prosseguindo a sua investigação para um doutoramento na Universidade de Cambridge. As questões de género e identidades sociais dos muçulmanos em Portugal fizeram parte dos seus trabalhos académicos. Quando regressou a Portugal trabalhou no Centro Ismaili como consultora académica, e deu aulas nas Universidade Católica, Lusófona e no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Traduziu obras académicas sobre o Islão, foi conferencista em debates nacionais e internacionais, cronista no Público e bloguer no Expresso. O 11 de Setembro foi a data a partir da qual passou a ser referência incontornável nas discussões, entrevistas e publicações sempre que se tratasse de questões ligadas ao Islão e às sociedades muçulmanas. 
Fonte:  http://visao.sapo.pt/opiniao/bolsa-de-especialistas/2016-02-26-Mitos-sobre-o-Islao?utm_source=newsletter
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O SHORTINHO, O CUNHA E A CAMILLE PAGLIA

IZAURA FRANQUI DA SILVA*

 

Nos últimos dias, temos tido a oportunidade de acompanhar fatos que são representativos da nossa sociedade: as notícias sobre corrupção, a criminalidade crescente e a foto de belos adolescentes sendo recepcionados em sua volta às aulas, em um ambiente que parece uma festa, com banho de espuma e meninas vestidas com pequenos shorts. Nos dias subsequentes, sobrevém a polêmica: as estudantes, e vários de seus pais, protestando contra as medidas tomadas pela escola de proibir roupas muito curtas no ambiente escolar. A questão que se impõe é entender que tais aspectos, por impactante que possa parecer, podem estar estreitamente relacionados.

Nossa prática profissional tem permitido constatar a assustadora e prevalente dificuldade atual da família e demais instituições formadoras em estabelecer limites, claros e bem fundamentados, para nossas crianças e adolescentes, parecendo mais fácil gratificá-las para que não “incomodem”. Sobre isso, um célebre pensador em saúde mental ressaltou que amar e frustrar uma criança deve ser como colocar água em uma planta: os dois não podem faltar nem ser excessivos, pois em ambos os casos a planta não cresce, ou mesmo chega a morrer.

O que constatamos é uma sociedade refém da criança, do belo e do pagante. A criança com direitos ilimitados, o belo como um padrão discriminatório e o pagante com todos os direitos e poderes que a criança e o belo possuem e muito, muito mais. O que isso poderá se relacionar com corrupção, com criminalidade? Infeliz e assustadoramente, existe muita relação, pois esses enormes problemas sociais refletem a falência das figuras paternas (de autoridade), o individualismo (meu desejo acima do desejo do outro), o narcisismo (o próprio desconhecimento do outro como um sujeito) e a atrofia de uma geração que entende que precisa ser gratificada sempre. Protestar é saudável na juventude, mas interessante refletir que até isso só ocorre quando se recebem limites.

E a Camille Paglia? A polêmica feminista, que discute se a mulher moderna, ao se expor em demasia não estaria presa, ainda, ao velho paradigma de ser somente um corpo. Mas isso é, como dizem os antigos, outro “angu de caroço”.
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*Psicóloga, psicoterapeuta, professora universitária
Fonte:  http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a4985115.xml&template=3898.dwt&edition=28480&section=70
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NÃO É BRINCADEIRA: PROPOSTA DE ACABAR COM FUSO HORÁRIO, CRIANDO A "HORA UNIVERSAL", PODE PASSAR A VIGORAR EM JANEIRO DE 2018

relojes

Isso está com cara de engenharia social, visando controle da população mundial... quanto mais alterações que mudam drasticamente a rotina das pessoas, mais controle social é exercido.

Além do mais, muitas pessoas estão dizendo que isso pode ser o cumprimento profético de Daniel 7:25: "E proferirá palavras contra o Altíssimo, e destruirá os santos do Altíssimo, e cuidará em mudar os tempos e a lei; e eles serão entregues na sua mão, por um tempo, e tempos, e a metade de um tempo."
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O economista Steve Hank e o professor de física e astronomia Dick Henry, ambos do Instituto Jonhs Hopkins de Baltimore, EUA, propõem elimina a partir de 1 de janeiro de 2018 o atual sistema que divide o planeta em 24 fuso horários, implantando uma "hora universal", ou seja, que os habitante de Nova York, Paris ou Hong Kong tenham todos a mesma hora em seus relógios.

Segundo o economista "Hoje a maioria das atividades se desenvolvem quando o Sol nasce e maioria das pessoas descansa quando é noite".

"Com o novo sistema de horário, o ritmo de vida obviamente também estaria marcado pelo tempo solar. Somente mudariam as horas que veria em seu pulso".



Steve Hanke y Dick Henry


"Não haveria confusões sobre o tempo, porque todo o mundo veria a mesma hora em seus relógios. Como resultado, haveria mais segurança e eficácia porque não se perderiam voos, nem reuniões de trabalho e seria mais fácil organizar o tempo de cada um".

"Estamos em uma situação de compressão de espaço e tempo. As pessoas estão se aproximando e podem comunicar-se melhor do que no passado".

Os pesquisadores planejaram impor o fuso horário universal a partir de 1 de janeiro de 2018. Esta inovação, consideram, será frequentemente utilizada por muitas empresas internacionais e, além disso, será popularizada através das redes sociais pelos internautas do mundo todo

Por sua parte, o jornalista do Los Angeles Times e ganhador do Pulitzer Michael Hiltzik, criticou a proposta de Hanke e Henry, afirmando que a Internet, ao contrário do que opinam os cientistas, faz uso dos 24 fuso horários mais cômodo porque atualmente, é possível saber imediatamente a hora em qualquer ponto do mundo.
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Via: http://elmicrolector.org/2016/02/22/hora-universal-proponen-la-misma-hora-para-todo-el-planeta/ e http://www.bbc.com/mundo/noticias/2016/02/160218_internacional_zona_horaria_universal_ap?ocid=socialflow_twitter e http://

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

A palavra utopia

Marcus Faustini*

 Tenho uma relação poderosa mas também conflituosa com o termo em questão

O livro “Utopia”, a emblemática obra de Thomas More, completa 500 anos agora em 2016. Dividido em duas partes, a primeira faz uma crítica à Inglaterra e à França do século XVI e seu belicismo; a segunda parte relata uma comunidade ideal, uma ilha, aos olhos de um viajante europeu. A efeméride, que já disparou eventos de comemoração e ações anunciadas em diversos lugares, traz à cena o debate sobre a ideia de utopia — que vai além do livro de More. Frequentemente associada a grupos de esquerda, utopia é um conceito de fabulação sobre passados e futuros ideais que influenciou visões de sociedades. Tenho uma relação poderosa mas também conflituosa com a palavra em questão.

Conheci a palavra utopia antes da complexidade do seu significado conceitual. Comecei a frequentar rodas de ativismo e arte da cidade na segunda metade dos anos 1980 e lembro de ter ficado encasquetado com a força da danada da tal utopia, essa palavra que estava na boca de tanta gente, naqueles ambientes. Para um moleque da periferia, que tentava criar formas de sobreviver numa escolha tão difícil — fazer arte e ativismo —, ela dava uma força interna por acreditar numa jornada coletiva que trazia a emoção de ver tanta gente crendo que a vida poderia ser melhor para todos. Porém, pra encasquetar a minha mufa, quem usava a palavra utopia por vezes era desqualificado. “Fulano está sendo utópico, acha que a realidade vai se adaptar aos seus ideais” ou “deixa de ser utópico” eram frases disparadas em debates calorosos. Ou seja: os utópicos eram taxados, no popular, de viverem no mundo da lua. Por sua vez, quem era alvo dessa desqualificação também dava o troco pra quem a fazia — são vendidos, traidores, perderam a utopia, adaptaram-se ao sistema, eram as respostas que dividiam campos.

Em casa, falar de utopia era quase um sinal de vagabundagem, “uma vida meio hippie, meio Bob Marley” que vinha sempre taxada como uma coisa que não daria futuro pra ninguém. “Tu tem é que ter profissão na vida”, sentenciava minha mãe. Mas eu já havia determinado que a utopia seria uma das bússolas da vida. Tanto nos grupos de vivência da Teologia da Libertação como nos grupos de teatro que participava, a utopia era um valor comum: a utopia de viver da arte, de fazer dela um impulso para mudar o estado das coisas. Assim, foi a aproximação juvenil e conflituosa com a tal palavra.

De lá pra cá, muito coisa aconteceu em nossas vidas e no Brasil. Da melhoria de vida dos mais pobres até a visão de transformar nosso país em grande nação desenvolvida que regeu diversos governos, ambos os fatos estão permeados por vários aspectos do conceito de utopia. No livro “Utopia — A história de uma ideia”, de Gregory Claeys com tradução de Pedro Barros pelas Edições Sesc, o autor faz um inventário histórico da utopia, assumindo a dificuldade de uma definição utilizável e de uma síntese. A amplitude do conceito é imensa, demonstrada no livro. O desenvolvimento de seu pensamento passou por fases míticas, religiosas, positivistas e institucionais. Todas baseadas em faróis de modelos ideais de sociedades. Desde sua base mitológica, ligada à visão de um paraíso perfeito de origem da humanidade, onde homens viviam como deuses, até a presença deste conceito nas raízes do liberalismo, que propunha uma organização “de opulência utópica” — como chama o autor — baseada na divisão do trabalho e no crescimento do comércio.

Não há dúvida, entretanto, que a operação do conceito de utopia mais eficaz no pensamento moderno foi a marxista. Sendo base para muitas vidas e lutas contra desigualdades, imaginou a destinação ideal da humanidade como uma sociedade sem classes. Porém, a leitura do consistente livro de Gregory Claeys, que possui uma narrativa de bom fluxo diante do tema difícil, faz entender também que muitos projetos autoritários de sociedade tiveram na ideia de perfeição — prima da utopia — sua base para censuras e exclusão das diferenças. Algumas delas influenciadas pelo pensamento marxista, inclusive. Alguns podem dizer que os desvios da ideia de utopia está naqueles que erraram em sua maneira de concretizá-la. Entretanto, essa visão moral de que existiriam homens mais apropriados que outros para carregar a missão utópica é a base desses erros.

Apertando pra juntar palavra e conceito, nos 500 anos da publicação do seminal livro de More, arriscamos dizer que o sumo da utopia é aquilo que ela nos traz como sentido de busca de igualdade, para uma sociedade melhorada. Mas ela não é uma sociedade perfeita ou uma comunidade idealizada — esses dois sentidos deram espaço a sociedades de exclusão e até mesmo autoritarismo. Melhorar as condições de igualdade no mundo foi o maior uso histórico do conceito. Perceber os diversos usos da utopia, compreender sua história, não é enfraquecê-la. Torna a palavra uma flecha mais certeira. Sigamos com ela.
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*É um diretor teatral, documentarista e escritor que destaca-se na cena teatral desde 1998.
Fonte:  http://oglobo.globo.com/cultura/a-palavra-utopia-18728152
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GUERRA SÍRIA : UMA GUERRA PERIGOSA PARA O MUNDO!

 
O perigo da falta de ação

THE ECONOMIST

O atrevimento russo e a apatia americana mudaram o
curso da guerra para pior


Numa guerra tão atroz como a da Síria, sobressaem várias lições pouco animadoras:
* quanto mais tempo duram as hostilidades,
* mais sangrento se torna o conflito,
* mais países são tragados pela voragem e
* menos promissoras são as opções para pôr fim ao derramamento de sangue ou pelo menos interrompê-lo temporariamente.

Mas a maior lição talvez seja a de que ausência dos Estados Unidos cria um vácuo que é ocupado por forças perigosas:
* jihadistas,
* milícias xiitas e, agora,
* uma Rússia cada vez mais abusada.

A Síria é uma reunião de guerras dentro de uma guerra:
* um levante contra uma ditadura;
* um conflito sectário entre sunitas e alauítas (e seus aliados xiitas);
* uma luta intestina entre árabes sunitas;
* uma ação militar de curdos em busca de uma pátria;
* um embate regional, travado por meio de terceiros, opondo Arábia Saudita e Turquia ao Irã;
* e uma disputa geopolítica entre um Estados Unidos da América (EUA) receoso e uma Rússia ressurgente.

Em meio à carnificina, Vladimir Putin colocou-se ao lado de Bashar Assad e do eixo xiita. Seu poderio aéreo modificou radicalmente o campo de batalha. As forças pró-Assad conseguiram cortar um corredor vital, por onde chegavam suprimentos provenientes da Turquia, destinados ao reabastecimento de áreas de Alepo controladas por rebeldes. Assad está prestes a fechar novamente o cerco em torno daquela que já foi a maior cidade síria. Os refugiados voltaram a pressionar a fronteira com a Turquia, mas muitos continuarão por lá.

Na dança diplomática envolvendo acordos de cessar-fogo, ajuda humanitária e uma eventual solução política, quem dá as cartas agora é a Rússia, mais ou menos como fizeram os EUA após intervir nas guerras dos Bálcãs dos anos 90. A estratégia de Barack Obama na Síria – seu desejo de que Assad saia de cena sem que os EUA tenham de mobilizar os recursos necessários para fazê-lo ir embora – fracassou. Assad, ao que parece, ainda estará por lá quando Obama deixar a Casa Branca. Mas a guerra não está perto do fim. Na verdade, a situação só piorou.

A Turquia afunda cada vez mais no torvelinho. Unidades de artilharia do Exército turco têm lançado bombardeios sistemáticos contra os curdos sírios. Ancara os põe no mesmo saco que os curdos turcos, que retomaram precipitadamente seu movimento separatista, iniciado há quase quatro décadas. Ocorre que os curdos têm sido os melhores aliados dos EUA na luta contra o “califado” do Estado Islâmico (EI). Nos últimos tempos, acabaram se aproximando da Rússia e de Assad, tendo ajudado a cortar o corredor que fazia a ligação entre Turquia e Alepo, numa tentativa de unir os dois enclaves curdos que se estendem ao longo da fronteira sírio-turca.

Em apoio à Turquia, a Arábia Saudita deslocou aviões de caça para a base aérea de Incirlik. Os sauditas também anunciaram exercícios militares com a participação de aliados sunitas, como Egito, Marrocos e Paquistão. Além disso, prontificaram-se a introduzir em território sírio forças especiais, com tropas de elite americanas, com o objetivo, para todos os efeitos, de combater o EI. Os diplomatas falam numa reedição da operação conduzida durante os anos 80 por EUA, Arábia Saudita e Paquistão, com o objetivo de armar com mísseis Stinger os grupos afegãos que combatiam o Exército soviético. Estariam os sauditas dispostos a equipar grupos sunitas com armas antiaéreas para neutralizar o poderio aéreo russo?
 
UMA GUERRA DE MAIS DE 250.000 MORTOS ATÉ O MOMENTO!
Destruição e sacrifícios humanos inúteis!!!

Mais alarmante ainda é a possibilidade de uma guerra entre a Turquia e a Rússia. Em novembro, os turcos derrubaram um jato russo. Agora Moscou quer se vingar, e busca uma oportunidade para pôr o irascível Recep Tayyip Erdogan, presidente da Turquia, em conflito com seus aliados na Otan.

De modo que a Síria coloca riscos crescentes para o Ocidente:
* da proliferação de mísseis terra-ar, que podem cair nas mãos de jihadistas e ser usados contra aviões ocidentais,
* à eventual debilitação de países como Líbano e Jordânia;
* da desestabilização da União Europeia com a chegada de uma nova onda de refugiados à
* ocorrência de incidentes que façam a Otan entrar em guerra com a Rússia;
* da possibilidade de que Putin se anime a desafiar o Ocidente em outros lugares ao
* perigo de que ele sirva de inspiração a autocratas por toda a parte.

O Ocidente deve recomendar cautela a turcos e sauditas: os riscos de uma guerra com a Rússia e de um ricochete jihadista são altos demais. Os EUA precisam convencer seus amigos turcos e curdos a buscar uma acomodação, em vez de insistir no confronto. Mas, se pretendem manter alguma influência na questão síria, os americanos terão de ampliar seu envolvimento. Será um desastre se Assad e os russos conseguirem transformar a guerra numa escolha entre o regime e os piores jihadistas. A maioria dos sírios é formada por sunitas, e muitos deles jamais se reconciliarão com Assad. Se forem esmagados, os grupos moderados terão duas opções: ir para a Europa ou cair nos braços dos jihadistas. Portanto, os sunitas que não se identificam com a causa jihadista precisam de apoio.

A inação de Obama já produziu uma consequência trágica: ações que antes eram viáveis, como o estabelecimento de uma zona de exclusão aérea, agora trazem o risco de um confronto com a Rússia. Talvez ainda seja possível estabelecer zonas humanitárias informais. A melhor resposta de Obama seria levar sua estratégia a sério: criar uma força moderada para combater o califado no leste da Síria. Isso seria apoiado por países sunitas; ofereceria aos rebeldes moderados um território vasto o bastante para que pudessem instaurar o núcleo de um governo alternativo, sob a proteção das operações aéreas que os americanos já realizam na região; e seria uma forma de obrigar os russos a provar que sua intenção é realmente combater os jihadistas.

O Ocidente terá de pressionar a Rússia, a começar pela renovação das sanções da UE no segundo semestre deste ano. Putin foi astucioso no uso da força. A resposta do Ocidente não pode ficar limitada à Síria.

Traduzido do inglês por Alexandre Hubner.

Fonte: O Estado de S. Paulo – Internacional / Visão Global – Domingo, 21 de fevereiro de 2016 – Pág. A15 – Internet: clique aqui.

O mundo, dizem, é um livro

Afonso Cruz*
O mundo é um livro, e aqueles que não viajam leem apenas a primeira página, disse Santo Agostinho. E, no fundo, é isso. Ainda que um pequeno passo faça a diferença. Um passo para lá do hotel é já um pedaço de viagem.

Jorge Hernandez, em Bogotá, quando foi fumar à porta do hotel, às três da manhã, encontrou vários pedintes. Um deles falava latim. A profundidade dos nossos encontros, a antiguidade daquilo que se fala, depende de um pequeno passo. Encontramos nos olhos do acaso uma outra vida, uma outra forma de oferecer um cigarro. Uma outra forma de dar um passo em frente, de ler mais umas páginas.

Ao entrar no táxi, na manhã seguinte, o condutor explicou-me que tinha sido um monge copista noutra vida.

- Noutra vida? - perguntei eu.

- Irlandês, ano mil quinhentos e tal.

Acrescentou que em criança sofria muito porque, ao começar a escrever nos cadernos da escola, queria deixar espaço para a iluminura, os anjos, as flores, mas não dava porque as folhas eram pautadas.

Também foi um príncipe inglês (tinha dois cães), uma criança negra que foi espancada (serviu para perceber que ser negro é sofrimento - antes de compreender isso era racista). Contou-me da bolsa que a namorada lhe deu, que era a mesma bolsa que uma mulher lhe dera quando fora príncipe inglês.

Mostrei alguma admiração pelo seu percurso, em especial pelo modo como dominava tantas vidas, enquanto eu tinha tanta dificuldade em ser feliz numa só.

Onde é que aprendeu isso, perguntei eu, e o taxista disse-me que aprendeu regressão e auto-hipnose com um engenheiro da Nasa que hipnotizava astronautas.

- Terminal um? - perguntou-me, depois de me explicar o segredo de viver tantas coisas.

- Esse.
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* Escritor português.
Fonte: http://visao.sapo.pt/jornaldeletras/2015-10-21-O-mundo-dizem-e-um-livro
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Umberto Eco: Curiosidade marcou vida que nunca esqueceu experiência religiosa

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O presidente do Conselho Pontifício da Cultura considera que o traço mais distintivo do escritor e pensador italiano Umberto Eco, que morreu esta sexta-feira, aos 84 anos, em Milão, foi a «curiosidade».

Eco era uma pessoa «convicta da complexidade do real e queria sempre olhar para lá das próprias fronteiras», afirmou Gianfranco Ravasi em entrevista publicada este domingo no jornal "Avvenire", diário da Igreja católica em Itália.

Ravasi sublinha que as raízes etimológicas do termo "curiosidade" apontam para o «cuidado, paixão, preocupação com alguma coisa: não é simplesmente andar às voltas da realidade como uma borboleta, mas também procura de envolvimento».

O cardeal recorda que Umberto Eco «tinha uma verdadeira paixão pelos estudos bíblicos, ainda que dissesse que nunca os tinha podido praticar» e sabia-se como não compreendia o motivo por que os alunos das escolas deveriam «saber tudo dos deuses homéricos e quase nada de Moisés, tudo da Divina Comédia e não do Cântico dos Cânticos e doutros textos bíblicos».

«Estando a par da minha prática exegética, estava sempre pronto a dialogar comigo; entre os textos que mais o fascinavam destacava por exemplo o Qohélet [Eclesiastes]», acrescentou.

Além da Bíblia, a amizade entre Ravasi e Eco centrava-se também na «literatura medieval», que recorda o romance "O nome da rosa", a que acrescenta a «paixão» por S. Tomás de Aquino, cuja estética esteve na base da sua formação universitária.

«Recordo a sua emoção quando lhe mostrei um texto autógrafo do santo, escrito com uma grafia quase incompreensível, obscura, nos antípodas da sua lucidez lógica», lembrou Ravasi, que dirigiu uma das mais importantes bibliotecas cristãs do mundo, a Ambrosiana, em Milão.

O amor comum ao livro completava a convergência de interesses entre ambos, relatou o cardeal, lembrando que a Biblioteca Ambrosiana «fascinava tanto» Umberto Eco, que ele a frequentava «quando estava fechada, para poder andar entre as salas em liberdade».

O prelado sublinhou também que a «experiência religiosa juvenil» de Umberto Eco foi «uma matriz que nunca quis esquecer, não obstante o seu espírito profundamente laico; havia nele o desejo de ver como se poderia viver a experiência de fé sem renunciar a toda a curiosidade cultural. Sempre com grande respeito pelos temas teológicos e de espiritualidade».

Também no domingo, o jornal do Vaticano, "L'Osservatore Romano", realçou a «grande, inexausta paixão pelo conhecimento» que marcou a «vastíssima e multiforme produção literária» do autor.

Umberto Eco caracterizou-se por um «desejo voraz, incessante, bulímico de conhecer, ler, aprofundar», escreve Silvia Guidi, acrescentando que a fixação em S. Tomás de Aquino continuaria após o doutoramento, ao estudar «com a mesma paixão e o mesmo empenho o significado de "integritas", "consonantia" e "claritas" no pensamento do "Doutor Angélico".

Da atração do autor pelos «florilégios e pastiches mais ou menos mascarados (e mais ou menos assinalados explicitamente nas notas de rodapé) nasce o celebérrimo romance "O nome da rosa", uma centena de textos medievais traduzidos, reelaborados e voltados a juntar em torno a um cativante drama negro que foi um "best seller" traduzido em todo o mundo».

Para a autora, «o grande brilho intelectual» do «inventor da semiótica» tem, todavia, um lado sombrio, quando repetia que «tudo é falsificável», que «os instrumentos da comunicação servem só para mentir e a própria vida é um jogo sem importância», posição «aparentemente descontraída e irónica, mas talvez imbuída pela amargura».

Depois de referir que nem toda a «imensa» bibliografia do professor é assinalada de sucessos, o artigo recorda que a militância católica de Umberto Eco nos anos juvenis se foi desvanecendo com o tempo, e termina com uma citação apropriada para esta hora, em que «a sua vida terrena se concluiu».

«Se um dia chegar ao paraíso e puder encontrar Deus, tenho duas possibilidades. Se é aquele vingativo do Antigo Testamento, volto as costas e vou para o inferno. Se, em vez disso, é aquele do Novo Testamento, então lemos os mesmos livros e falamos a mesma língua. Entender-nos-emos.»
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Por Rui Jorge Martins
Publicado em 22.02.2016
Fonte:  http://www.snpcultura.org/umberto_eco.html

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Um mundo sem neve nem flores

Gilles Lapouge*
 
 

Nesse tempo em que até as estrelas parecem domesticadas, o clima é um dos últimos animais selvagens em liberdade. Tentamos domá-lo com a técnica. Mas, com a natureza encurralada, o que será da felicidade?

No início, o aquecimento climático era tímido. Avanços furtivos. Não sabia como se impor. Suas maneiras eram serenas, inefáveis e mais felizes. Colocava claridade nas noites de outono e a neve resplandecia sob o sol. Nas praias, os seios das mulheres brilhavam s de bronzeador. No verão, multidões alegres se precipitavam na imensidão das águas do Trocadéro, em Paris.

Ocasionalmente, o clima lançava um alerta. Num determinado outono, decidiu que as andorinhas passariam o inverno na França e não na África. No verão seguinte, um grande pedaço de iceberg deixava a Groenlândia, mas não fizemos disso uma grande história. Apenas um momento a se atravessar. É assim, o clima: num mundo escravizado e cujas estrelas estão cada vez mais domesticadas, ele é um dos últimos animais selvagens ainda em liberdade. Faz o que lhe dá na cabeça. É travesso, ama a exceção e prepara surpresas. Sob o Rei Sol, o Castelo de Versalhes era um castelo de gelo, mas, nos séculos seguintes, o termômetro começou a subir.

Contudo, há uma quinzena de anos o calor ganha partes do mercado. Os objetivos da guerra que trava contra nós mudaram. Ele não se contenta mais em nos impor noites sufocantes, mas revolve o baú dos nossos tesouros.

Elevar o grau de álcool do vinho, organizar ondas de calor são efeitos que não bastam mais para ele. O clima investe contra a geografia e até a geologia, rebaixando as montanhas e provocando o desaparecimento dos lagos. E o mais sacrílego: atemoriza nossos filósofos, modificando os quatro elementos que desde Empédocles e Aristóteles sustentam nossas ciências e metafísicas: o ar, o fogo, a terra e a água.

Amo a neve, que é feita de água, e a neve desaparece. Adeus ao branco das coisas, adeus à virgem e imaculada, o cintilante dos cumes. Fim do gelo nas ruas e das batalhas de neve no pátio da escola, do “odor da maçã e da infância de neve”, do ruído da neve que cai.

Nos Alpes, o que se afirma é que a neve diminuirá cerca de 70% daqui a 2070. É verdade que tais observações são incertas. Convém não confundir o volume de neve com a neve que cai, que parece menos afetada, mas de qualquer maneira está em declínio. No passo de Portes, nos Pirineus, nos anos 60 havia 1,50m de neve. Cinquenta anos depois, não passa dos 90 cm.

É importante adicionar duas informações inquietantes: na Groenlândia, as neves se tornaram negras. E a previsão é do fim das neves eternas nos Alpes. O fim das neves eternas! É como se os deuses abandonassem, na ponta dos pés, suas residências.

O desaparecimento da neve arruinará nossa história. Todo o nosso passado ficará desfigurado. Como retirar da nossa memória o corpo nu de Carlos o Temerário (Carlos I, da Borgonha), cuja metade do corpo foi devorada pelos lobos nas neves sangrentas de Lorraine, em janeiro de 1477? E o que fazer dos soldados sonâmbulos do Grande Exército no caminho do rio Berezina?

“Deixe a neve chegar”, dizia o marechal Kutuzov quando seus generais insistiram para ele atacar os franceses. O marechal era melhor estrategista do que os seus generais. Utilizava, ao lado dos seus velhos canhões, a neve, porque sabia que ela é um dos grandes Manitus da história.

A neve tem outro mérito. Achamos que ela faz desaparecer, ao passo que ela é reveladora. Ela suprime para desvelar. Nas manhãs de neve, abro minha janela e descubro um além-mundo. A cortina silenciosa se abre e percebo um universo mais longínquo que as cataratas do rio Zambeze. Animais desconhecidos, tão serenos quanto os sonhos, deixaram sobre o branco da neve traços de suas asas, suas patas, suas garatujas no quadro branco do nada. Eles me fazem sinal. Jamais os vi. E me dizem que o mundo é mais vasto que o mundo.

Em um livro publicado há alguns anos, propus a criação de um museu da neve. Possuímos museus de todo o tipo, da bicicleta, da faiança, dos escaravelhos, de arte africana Dogon e dos Inuit, mas da neve não temos nada. Como nos consolar com o fato de não podermos jamais admirar uma neve da antiga Babilônia, ou a de David Copperfield, ou mesmo aquela que o profeta Isaías tanto amava?

Um tal museu permitiria colocar à prova o belo livro de Junichiro Tanizaki, Elogio da Sombra, e compreender enfim porque as neves do Japão, menos brancas que as nossas, são mais belas também porque contêm o ouro do céu, as cores da lua, das cerejas e do infinito. No meu museu, poderíamos enfim admirar as famosas neves da era Kyôwa, que afirmam ser atormentadas por uma melancolia azulada.

Imaginava esse museu da neve como uma fantasia. Não fazia ideia que meio século depois a neve seria um objeto em vias de extinção. Ora, soube agora que um museu da neve, ainda modesto, existe. Foi inaugurado em 2014 na exposição O Duro Desejo de Durar, na comuna francesa de Audièrne. Ele encerra neves que caíram em dezembro de 2010. O responsável não foi buscar neves da Renascença e menos ainda neves do Baixo Império Romano, mas o museu está no bom caminho. Seu criador é um artista plástico, Jean-Pierre Lenoir, que vive em Molles, Auvergne.

Mel amargo. As abelhas estão entre os mais antigos companheiros do homem. Estão encarregadas das nossas flores, nossas folhas e nossos galhos. Fecundam os campos e as florestas. Pintam o mundo. Se desaparecessem, o planeta seria cinza, branco e negro, e muito insípido. Além disso, não teríamos mais nada para comer. Albert Einstein afirmava, não sem exagero, que, se as abelhas morressem, os homens não sobreviveriam mais do que quatro anos. 

Hoje elas vêm desaparecendo. Já nos viram demais. Não as agradamos, de modo nenhum. E elas morrem. Os Estados Unidos formam exércitos de abelhas supletivas que são alugadas para fecundar os prados ou os campos em perigo. Há vinte anos o desastre aumenta, se aprofunda. Milhares de estudos têm sido realizados. A maioria indica os mesmos responsáveis: inseticidas ou pesticidas que privam as abelhas da sua linguagem.

Recentemente, um outro assassino veio se sentar no banco de acusados: o clima. Os zangões selvagens, outro tipo de abelha, são cada vez mais raros. Razão disso? Eles, que fecundam os jardins e os campos abaixo do paralelo 50º, ou seja, da Bélgica, sofrem com o aquecimento global. Por infelicidade, diferentemente de outras espécies mais sagazes, os zangões selvagens não têm ideia de partir para o Norte e morrem de calor.

No caso das abelhas, acreditamos hoje que uma das causas de sua penúria, além dos inseticidas e pesticidas, também é o calor. O processo da sua morte, porém, não se assemelha à dos zangões selvagens. Com o aquecimento, as primaveras são mais longas e mais quentes. No entanto, essa é a estação do labor para a abelha. A abelha tem 20 a 30 dias de trabalho a mais. Portanto, os caprichos do clima as levam a trabalhar excessivamente, a ponto de se esgotarem.

Graças a Deus ainda restam espécies selvagens que representam 90% do total das abelhas do planeta. Deparei com algumas na Amazônia. As euglossini, especializadas em orquídeas e bromélias, as mamangabas, da tribo Bombini, que preferem as passifloras. Essas abelhas são sedutoras, sem ferrão, costumam ser pequenas, fantasistas, sonhadoras e não muito competentes.

Selvagens, libertárias, anarquistas, rejeitando tanto a ideologia marxista como a do social-liberalismo, desprezando as casernas e os campos de concentração inventados pelas abelhas domésticas, as mamangabas se recusam a compartilhar suas energias. A abelha selvagem é solitária. Ela desdenha o trabalho em grupo. Como estes seres livres podem competir com o imenso exército de abelhas de nossas colmeias comunitárias?

As abelhas selvagens não fabricam toneladas de mel, mas gotas. E depositam estas gotas em potes de cera minúsculos. Esse mel microscópico tem um sabor delicioso e é muito bom no campo da medicina: algumas pessoas se curam num piscar de olhos do abominável Bacillus anthracis, o Anthrax que faz parte do arsenal dos grupos terroristas.

Hoje se afirma que empresários vindos da América do Norte pretendem transformar bilhões de abelhas selvagens em bilhões de abelhas domésticas. Seu intento seria criar escolas de abelhas onde treinadores ou instrutores ensinariam as abelhas solitárias a se reunirem em grupo, como numa “festa de vizinhos”, a sacrificar a liberdade que defendem há 100 milhões de anos e formar colônias, exércitos de operárias dóceis, idiotas e desesperadas, populações escravas, robôs trabalhando na escuridão da colmeia, para o planeta continuar cintilante e fértil.

Salvar o mel, preservar as cores e as mesclas da natureza são, claro, necessidades e dever de nossas gerações. Mas, para organizar a sobrevivência do mel e da polinização, sermos obrigados a tornar esses seres subversivos e intratáveis que são as abelhas selvagens em operárias anônimas condenadas ao inferno do trabalho perpétuo é, na minha opinião, um dos efeitos mais perversos do aquecimento do clima. Para salvar o mel, seria necessário portanto reduzir à escravidão centenas de comunidades de insetos livres e imaculados.

Paradoxos como este são observados não só no campo das abelhas. No tocante à neve, nas estações de esqui, a escassez de neve obriga a bombardear as pistas com neves artificiais. Esta é a detestável bordoada do aquecimento do clima. Ele nos força a substituir as neves de antanho por neves industriais, neves imaginadas pelos homens e que não existem.

Da mesma maneira, a elevação das temperaturas e também a poluição nos obrigam a colocar uma camisa de força nas espécies raras, nas flores raras, nos animais raros, que resistiram à ordenação, à disciplina, à lógica industrial, ao trabalho forçado e à escravidão. Tal é a sombra hedionda do aquecimento climático e da poluição: salvamos florestas, mas vamos discipliná-las. Salvamos os animais, os leões, os antílopes e os golfinhos, mas vamos encarcerá-los em zoológicos ou em “reservas” repletas de proibições e guardas armados. Às vezes, somos obrigados a ensinar de novo os animais selvagens a serem selvagens. Criamos escolas de selvageria, como criamos escolas para domesticar as abelhas selvagens.

Não critico aqui nem as tentativas de salvar a polinização graças às abelhas selvagens, nem a proteção das plantas e dos animais. Para mitigar a morte das abelhas domésticas, é lógico reduzir as abelhas selvagens à escravidão? Constato apenas que para sobreviver num mundo poluído, violado pelos humanos e cada vez mais quente, as plantas e os animais são obrigados a marchar em fila indiana, como os homens.

O mal do GPS. Quanto ao clima, o trabalho de remanejamento está bem avançado. Começou bem antes do aquecimento. E tem prosseguido desde o início das sociedades, da mesma maneira que a geografia tem a tarefa, desde Anaximandro e Ptolomeu, de ordenar o inesperado das formas da terra do mesmo modo que as palavras há muito tempo foram disciplinadas pelas regras da poesia alexandrina, ou ainda como o caos da História foi reorganizado em períodos, sequências e em lógica para o trabalho dos historiadores.

Os meteorologistas já tornaram a previsão do clima uma ciência exata. Em que se transformou o tempo, o belo tempo, em que o clima era selvagem? Há cinquenta anos os meteorologistas da rádio nos anunciavam céus azuis ou escuros, ao acaso. Hoje, quase nunca se enganam. E o que dizer do GPS, esta invenção mirabolante que nos impede de ceder à atividade mais humana, por mais angustiante e perigosa que seja, mas também a mais magnífica: nos perdermos.

Eu me esforço para não ceder ao pessimismo, mas vejo o avanço de um tempo irracional: para garantir a sobrevivência das abelhas, da neve, da água e mesmo dos ventos, os homens serão condenados a completar a natureza por meio da técnica, do artifício, da indústria, da manufatura.

E isso não é uma espécie de “ficção climática”. Nos Estados Unidos o Microbotics Lab, da universidade de Harvard, fabricou um drone liliputiano, o RoboBee, teleguiado. Esta abelha de vidro voa, pousa nas flores, mas depois não sabe mais o que fazer. É incapaz de recolher o pólen. Na Polônia, a faculdade de mecânica, energia e aviação produziu uma abelha minúscula, equipada com pequenas escovas capazes de realizar a coleta do pólen. Infelizmente essa maravilha é muito frágil. A menor corrente de ar bloqueia seus mecanismos. Ninguém duvida no entanto que num futuro próximo abelhas forjadas pelo gênio humano conseguirão polinizar.

E então realizaremos estranhos passeios pelos campos: milhões de robôs liliputianos estarão soltos nos nossos bosques e plantações. A cadeia produtiva do mel será restaurada. Mas a natureza, nesse curioso tabuleiro de xadrez, receberá xeque-mate. E num mundo sem neve nem flores, em que se transformará a felicidade? / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO
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ESTE TEXTO É O DISCURSO DO AUTOR NO "PARLEMENT SENSIBLE", PAINEL DE DEBATES ACERCA DAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS PROMOVIDO PELA CASA DE ESCRITORES E LITERATURA, EM PARIS 
Fonte:  http://alias.estadao.com.br/noticias/geral,um-mundo-sem-neve-nem-flores,10000015255

A transformação do mundo

MOISÉS NAÍM*


O mundo está mudando a uma velocidade difícil de processar, interpretar e digerir. Mais difícil ainda é antecipar suas consequências. Um relatório do banco Goldman Sachs oferece uma arbitrária, mas reveladora amostra quantitativa das mudanças ocorridas entre 2010 e 2015.

Neste período, a oferta mundial de petróleo aumentou 11% e seu preço caiu 60%. O preço do ferro baixou ainda mais, 77%, e o da alimentação 30%. Quais foram os preços que aumentaram? Entre outros, o do cacau, 11%, e do Lítio, 27%. Estas altas são impulsionadas pela demanda de uma nova e mais numerosa classe média que come mais chocolate e compra mais celulares com baterias de lítio. A penetração destes telefones passou de 19% da população para 75%, e os preços da telefonia celular caíram 58%. Em breve, quase toda a humanidade terá acesso à telefonia móvel, contribuindo para a digitalização já extremamente veloz da vida cotidiana.

Em 2010, o Facebook tinha 600 milhões de usuários ativos por mês. Hoje, 1,6 bilhão de pessoas o usam mensalmente. O YouTube recebia 24 horas de vídeos a cada minuto, enquanto, no ano passado, recebeu 400 horas por minuto. O número de viajantes que se alojaram em quartos ou foram morar em casas oferecidos via Airbnb saltou de 47 mil para 17 milhões. Os artigos disponíveis na Wikipédia aumentaram de 17 milhões para 37 milhões.

Nestes cinco anos, também ocorreu uma revolução energética. Não só o preço do petróleo despencou, como os Estados Unidos superaram a Arábia Saudita e a Rússia como produtores. O preço de uma lâmpada LED caiu 78%, o de uma bateria de Li-Ion 60% e o custo da energia solar em 37%. A eficiência no uso do combustível de uma caminhonete Ford F-150 aumentou 29%. Em 2010, a companhia de maior valor de mercado no mundo era a Petrochina. Em 2015, foi a Apple.

Profundas mudanças também ocorreram no mundo do trabalho. Os salários continuaram estagnados nos países mais avançados, enquanto na China aumentaram 54%. Muitos acham que o desemprego e os baixos salários se devem à automação e ao fato de os robôs estarem substituindo os trabalhadores. De fato, nos EUA, o número de robôs industriais vendidos nos últimos cinco anos cresceu 89%. Entretanto, o número total de robôs em uso é ainda muito baixo e o seu impacto sobre o emprego ainda não é significativo.

Outro relatório divulgado recentemente também lança uma luz interessante sobre as grandes transformações em curso. Nos últimos dez anos, o Fórum Econômico Mundial vem preparando seu Relatório Anual de Riscos Globais. O documento usa como base as percepções de 750 conceituados especialistas de diferentes áreas e países a respeito dos principais riscos que o mundo enfrenta. Durante muitos anos, a crise econômica mundial ocupou o primeiro lugar das preocupações dos especialistas. Agora, não mais.

Na edição deste ano, a questão das mudanças climáticas chega ao primeiro lugar como a mais grave e de maior impacto entre todos os riscos contemplados. A seguir, vêm a proliferação de armas de destruição em massa, os conflitos em razão da escassez da água, e os enormes movimentos migratórios involuntários.

Entretanto, é possível que, com o aquecimento global, a mudança mais importante dos últimos anos seja o aumento da nossa capacidade de alterar a biologia. Em 2010, o custo do sequenciamento de um genoma era US$ 47 mil. Cinco anos mais tarde, caiu para US$ 1,3 mil. E continua caindo. Será um risco ou uma oportunidade? / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA
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* MOISÉS NAÍM É ESCRITOR VENEZUELANO E MEMBRO DO CARNEGIE ENDOWMENT EM WASHINGTON
Imagem da Internet
Fonte:  http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,a-transformacao-do-mundo,10000017562

O valor da vida no Brasil

 Eliana Sousa Silva*
 
O que você estava fazendo no sábado à noite, em 28 de novembro 2015? Provavelmente, se divertindo com familiares ou amigos. O mesmo faziam cinco adolescentes e jovens negros em um carro popular, em um bairro do subúrbio carioca, a caminho de uma pizzaria, até serem fuzilados por policiais militares. 

Todos morreram pelo simples fato de serem negros, jovens e se encontrarem em uma região da cidade considerada perigosa? 

O Mapa da Violência 2014 traz dados macabros: foram 154 homicídios diários, totalizando 56.337 assassinatos em 2012, sem levar em conta os desaparecidos que não entram nessa conta. Os números revelam uma face do Brasil oculta por uma invisibilidade derivada da naturalização: determinada parcela da população está tendo suas vidas brutalmente abreviadas. 

Os versos de Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa, bem poderiam ilustrar esse genocídio: "Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia, não há nada mais simples. Tem só duas datas –a da minha nascença e a da minha morte". 

Afinal, se nos distanciarmos do contexto em que essa poesia foi criada, seus versos poderiam ser anunciados por qualquer adolescente ou jovem brasileiro entre 15 e 29 anos, negro, pobre e do sexo masculino. Eles representam 53,4% do total dos assassinatos, mas as forças sociais do país não enxergam a tragédia em toda a sua dimensão. 

Um contraponto a essa situação é o enfrentamento da mortalidade infantil: a ação integrada de agentes do Estado, instituições de pesquisa e da sociedade civil, em particular a Pastoral da Criança e conselhos de defesa da criança e do adolescente, fez com que a mortalidade das crianças brasileiras tivesse significativa queda desde os anos 1980. 

Dados do governo federal de 2015 mostram que a taxa de mortalidade das crianças abaixo de cinco anos apresentou queda de 65% entre 1990 e 2010, e o número de óbitos por mil nascidos vivos passou de 53,7 para 19. 

Estamos cuidando das crianças, mas as deixamos morrer na adolescência ou juventude. No campo do imaginário social, há uma razão para isso: quando se vê uma criança pobre com demandas, ela provoca indignação e desejo de proteção; o jovem na mesma situação provoca medo e insegurança.
Logo, as mortes não ocorrem de forma natural, não são um "fato da vida". Elas acontecem, antes de tudo, porque os assassinos se sentem impunes para matar e apoiados socialmente. É urgente superar esse imaginário terrível. 

O consenso da sociedade em torno do tema da mortalidade infantil foi a base para a melhora dos índices, assim como o fato de o problema integrar uma agenda mundial definida pelas Nações Unidas. O mesmo deve ocorrer com o assassinato de jovens, e cabe ao governo brasileiro mobilizar-se para isso. 

Precisamos reverberar a indignidade até que se torne parte do imaginário que essa violência não será mais aceita. Apenas pela mobilização poderemos pressionar canais legais, implicar Judiciário e Legislativo, pressionar para que a polícia seja mais eficiente e voltada para garantir a segurança pública de todos os cidadãos. Essa é a principal tragédia brasileira de hoje. 
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* ELIANA SOUSA SILVA é diretora da Redes da Maré e da Divisão Universidade "" Comunidade da PR-5- UFRJ e integrante da Rede Folha de Empreendedores Sociais 
Imagem da Internet
Fonte:  http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2016/02/1741312-o-valor-da-vida-no-brasil.shtml

domingo, 21 de fevereiro de 2016

O grande teatro do mundo

Mario Vargas Llosa*


Tudo está em Shakespeare, sua época e a nossa, a grandeza da literatura e os milagres que a arte realiza na vida das pessoas

O teatro é, como as touradas, uma arte extremista, na qual uma obra é muito boa ou muito ruim, mas não existe um meio termo. Madri, por apenas quatro dias, teve a oportunidade de ver uma montagem fora do comum, concebida por um diretor genial, o irlandês/inglês Declan Donnellan, de uma tragicomédia de Shakespeare: Conto do Inverno.

Há um bom tempo eu não via um espetáculo que me deixasse praticamente em estado de transe ao longo das suas quase três horas de duração. Nem mesmo outra montagem do mesmo diretor, Medida por Medida, de Shakespeare, que era também notável e foi interpretada por uma companhia de atores russos, me deu essa sensação de beleza e originalidade, de destreza e perfeição absoluta que, estou certo, todos os que assistiram a essa representação no Teatro María Guerrero nunca esquecerão. (Direi, de passagem, sobre a alegria que me deu comprovar, na noite em que assisti, o grande número de jovens e adolescentes que lotavam os camarotes, galerias e a plateia.)

Apesar de Donnellan tomar muitas liberdades com o texto original, aposto o que for que se o grande Bardo inglês visse o que fez o irlandês/inglês com seu Conto do Inverno teria ficado tão feliz como nós, os espectadores. Porque a recriação dessa obra idealizada por Donnellan não faz mais do que revelar as potencialidades ocultas em seus versos e em sua melodramática história, o que nela existe de universal e de atual. Logo após vê-la, reconstruída em um palco pela sabedoria do diretor, corri para lê-la novamente e foi toda uma revelação observar que, de fato, com sua fantasia arrebatadora e suas delirantes coincidências e jogos de palavras, com suas personagens extravagantes e até sua geografia fantástica (na qual a Boêmia tem um porto marítimo), o Conto do Inverno é nada mais nada menos do que um testemunho sobre nosso tempo, nossos conflitos, uma obra que denuncia o absurdo e as velhacarias nas quais se move nossa vida política, os transtornos sociais provocados pelas injustiças cometidas por um poderoso mais ou menos imbecil, e, apesar de tudo isso, como em alguns momentos a vida pode ser bela, para todos, os ricos e os pobres, as vítimas e os algozes, quando se ama, se dança, se canta, e um grupo de amigos e casais jovens se reúne para, por algumas horas, na embriaguez e no gozo da festa, fugir da rotina, da servidão e misérias cotidianas.

Todos os atores são tão bons, cumprem tão rigorosamente com sua função específica, encarnam com tanta eficácia seus personagens, que parece injusto ter que destacar a formidável interpretação de Guy Hughes como o paranoico Leontes, rei da Sicília, sobre quem repousa boa parte da obra. Ele o faz magnificamente, com uma versatilidade que lhe permite passar do cômico ao trágico, do sentimental ao épico, com a mesma desenvoltura com que chora, geme, se desespera e gargalha. Parece mentira que um ator possa se metamorfosear de tal maneira e tantas vezes no decorrer da obra. O ciúme exacerbado desse demente, o rei Leontes, movimenta uma história que, começando na candente terra siciliana, percorre meia Europa, provocando sofrimentos e catástrofes múltiplas e mostrando uma heterogênea humanidade de pastores, pícaros, empregados, nobres, senhores, comediantes e trovadores ambulantes, muitos deles com nomes e reminiscências de mitos gregos. O fascínio é tamanho que, em dado momento, temos a impressão de ver o mundo inteiro ao alcance de nossos olhos, um pequeno universo em que, como O Aleph de Borges, toda a humanidade vivente se coloca ao nosso alcance.

"Conto de inverno denuncia o absurdo e as velhacarias 
nas quais se move nossa vida política"

E os mesmos elogios podem ser feitos sobre a iluminação, a música, o figurino. Alguns cubos de madeira servem para que Nick Ormerod, o cenógrafo, arme e desarme cenários que, apesar de toda a simplicidade de sua estrutura, nos fazem andar por suntuosos palácios, ermos, campinas onde pastoreiam os rebanhos, aldeias de camponeses, festas de rua.

Neste ano são comemorados os quinhentos anos das mortes de Shakespeare e de Cervantes. Espero que o autor de Dom Quixote, o livro emblemático de nossa cultura e nossa língua, esse homem simples, bom e trágico que seus contemporâneos ignoraram e maltrataram, receba homenagem semelhante à que Declan Donnellan prestou ao autor de Hamlet, Macbeth, Romeu e Julieta e tantas outras obras-primas. Porque uma montagem como a realizada com Conto do Inverno nos mostra, de uma maneira vívida e imediata, apelando diretamente a nossa sensibilidade e fantasia, a incrível riqueza e variedade da imaginação com que aquele obscuro comediante (de quem não sabemos quase nada, além do fato de ter escrito inúmeras obras-primas absolutas, e que se retirou dos palcos e da literatura quando ganhou bastante dinheiro para viver como um burguês, de sua renda) criou um mundo tão rico e diverso como aquele em que vivemos, mas sempre belo, apesar da violência que o atravessa e as tragédias que sofre, sempre belíssimo, graças à música e à magia das palavras que o formam, essa taumaturgia que transforma a tristeza em alegria, o ódio em gozo, a brutalidade e o terrível em generosidade e grandeza. Tudo está em Shakespeare, sua época e a nossa, o que nelas existe de idêntico e de diferente, a grandeza da literatura e os milagres que a arte realiza na vida das pessoas, assim como a maneira em que a vida dos humanos destila ao mesmo tempo felicidade e desgraça, dor e alegria, paixão, traição, heroísmo e vileza. Toda a incomensurável riqueza do mundo fantasiado por Shakespeare vem à luz de maneira ofuscante e esplêndida nesse Conto do Inverno concebido por Declan Donnellan.

"Espero que Cervantes receba uma homenagem 
semelhante à que Donnellan prestou 
ao autor de 'Hamlet'"

Uma última nota. Esta obra, representada pela companhia Cheek by Jowl, dirigida por Donnellan, contou com a colaboração de vários teatros europeus, da França, Itália, Luxemburgo e Espanha, e foi apresentada em Madri na língua inglesa, com uma tradução em espanhol para quem não conseguia acompanhar o texto em sua língua original. E isso não foi um obstáculo para que o público se deleitasse fascinado com o que acontecia no palco e premiasse os atores com uma impressionante ovação. O que se pode concluir disso tudo? Que aquilo que sempre se acreditou ser um impedimento para que as companhias de teatro andassem pelo vasto mundo – os diferentes idiomas – já não o é, não só porque a vida moderna transformou o aprendizado de idiomas em uma exigência inevitável, mas, sobretudo, porque existe hoje em dia uma tecnologia que permite aos espetáculos serem acompanhados em tradução quase tão perfeitamente como em sua língua original. Espero que os exemplos de Declan Donnellan e sua companhia Cheek by Jowl sejam seguidos por muitos outros e (o que, é pena, não será fácil) da mesma qualidade.
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* Jornalista. Escritor peruano. Prêmio Nobel de Literatura em 2010.
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