terça-feira, 5 de junho de 2012

Da utilidade do inútil

António Marujo*

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«O que é mais importante (criar, manter, repensar) na relação da Igreja com a Cultura?»
 
Primavera é sinónimo de novos ares, horizontes abertos, cores renovadas. Esta Primavera, mesmo se pouco respeitadora da tradição climática, trouxe-me pequenos sinais do que pode ser uma resposta à pergunta: “O que é mais importante criar, manter, repensar na relação da Igreja com a cultura?”
Dei comigo a pensar porque é que, em plena crise, centenas de pessoas aproveitaram a hora de almoço de 21 de Março para ir ouvir a Sagração da Primavera, de Igor Stravinsky, ao fundo do Parque Eduardo VII, em Lisboa. Temos que trabalhar para sermos úteis ao país, ouvimos todos os dias. Temos que trabalhar muito, repetem-nos à exaustão. O que estávamos, então, ali a fazer naquela saudação primaveril convertida em música, usando um tempo útil (tempo é dinheiro...) para ouvir uma orquestra ao ar livre, coisa inútil?
Afinal, sem crise, com crise ou apesar da crise, as pessoas procuram divertir-se, fazer pausas no quotidiano. Muitas vezes, para tentar fugir dos problemas, assumindo uma alienação pouco saudável. Outras, entrando no divertimento industrializado e massificado que, por vezes, deixa de ser divertimento e passa a ser apenas mais uma ocupação forçada do tempo.
Mas ele existe, o tempo do divertimento, do lazer, da festa. E levanta tremendos desafios aos cristãos. Quer na forma como se divertem ou usam o tempo livre, quer na forma como propõem a utilização. Que fique claro: não defendo que tenha que haver filmes cristãos, festivais de música cristã ou bares cristãos numa espécie de sociedade “purificada” e alternativa ao que existe. Mas na forma como cada um se situa ou naquilo que se propõe pode ser também traduzida uma identidade.
No precioso texto Do Tempo Livre à Libertação do Tempo, do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (disponível em http://www.snpcultura.org/do_tempo_livre_a_
libertacao_do_ tempo.html
), podemos ler que “a democratização, o incremento das propostas culturais de vivência dos tempos livres são aspectos positivos de uma mutação profunda nos modos de vida, consolidando uma consciência do direito ao bem-estar e à qualidade de vida”. Por isso, a sua utilização é um “factor de desenvolvimento e acréscimo que dá vida à vida”.
Entre outras ideias importantes para os tempos que correm, o documento diz ainda que “a gratuidade do lúdico mostra uma dimensão existencial que não podemos negligenciar, abre uma clareira no utilitarismo habitual com que se pensa o tempo (time is money) e, em consequência, o homem. (...) Pensar o que se faz do tempo é reflectir como se define o homem.”
Esta afirmação leva-me a pensar que tive pena ter visto a Igreja abdicar tão prontamente da afirmação de uma outra antropologia que não a que nos pretende vender o homo economicus como única via: perante a ditadura financeira que nos cerca, a atitude deveria ter sido a de dizer a políticos, economistas, comentadores e financeiros que não deveríamos perder salários nem nenhum feriado – nenhum mesmo, civil ou religioso.
Para além das razões económicas que outros já sublinharam (trabalhar mais quatro ou cinco dias não resolve o problema do país; a questão não é que os portugueses trabalham pouco...), há outra razão mais funda: a celebração, a festa, introduz um tempo de diferenciação fundamental para a vivência dos afectos, do lúdico, da contemplação. E é isso que nos torna mais pessoas. O discurso da Igreja repete-o incessantemente, teria sido bom tê-lo traduzido numa posição concreta.
Como diz o texto citado, o tempo livre “não é apenas um tempo ‘entre’ tempos, já ocupados, mas interroga-nos, antes de mais, sobre a realização pessoal e social que projectamos, sobre o projecto que pessoal e socialmente desejamos para as nossas vidas. (...) O tempo livre é tempo de integração. De enriquecimento cultural, pessoal, afetivo. De exercitação do músculo da imaginação e da criatividade. De explicitação da vida interior.”
O tempo livre coloca-nos perante outra questão: ele é hoje um território ocupado em grande parte pelos jovens. E não é preciso fazer grandes esforços para reconhecer a dificuldade de a Igreja chegar aos mais novos – seja pelo discurso, seja por algumas práticas. Na sua Breve História da Alma, o cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício da Cultura, cita Jack Kerouac, em Pela Estrada Fora: “A vida é sagrada e cada momento é precioso.” Esta é uma imagem da cultura juvenil actual, perante a qual a mensagem “eterna” da Igreja deve aceitar pôr-se em causa (por isso, penso que se teria acertado muito mais se, no ano de Guimarães Capital Europeia da Cultura e de Braga Capital Europeia da Juventude, se tivesse escolhido o tema da cultura juvenil para a sessão do Átrio dos Gentios que terá lugar em Guimarães, em Novembro).
Numa curta entrevista que pude fazer-lhe para o Público (edição de 26 de Maio), o cardeal Ravasi dizia que a Igreja deveria ser capaz de fazer descobrir “o eterno no tempo – e isso é o cristianismo. (...) Trata-se de descobrir a importância do instante, do tempo que se vive, mesmo para construir-se a si mesmo. Se a pessoa vive bem o presente, vive-se já, em certo sentido, criando. Quando se está enamorado, é como se se vivesse o eterno, a felicidade. (...) Devemos, talvez, tirar partido desta ligação ao quotidiano que têm os jovens, para lhes dizer que no presente se joga a vida.”
Jogar a vida. Os afectos, os anseios, as expectativas, o trabalho, o amor, a contemplação, o gratuito. Poder simplesmente olhar o mar, escutar uma música, ler um livro, ver um filme, passear, estar com amigos, beber um café... Na mesma entrevista, o cardeal Ravasi acrescentava: “Os modelos de desenvolvimento deveriam ser de tipo humanístico (...). A religião deve fazer qualquer coisa nesta linha. E também a cultura: impedir que tudo esteja nas mãos da finança, que o primado seja o do poder financeiro e do ter. (...) Henry Miller, descrente e anticristão, autor do Trópico de Câncer, escrevia: ‘A arte, como a religião, não serve para nada a não ser para mostrar o sentido da vida.’ Isto não é pouco.”
É mesmo muito.

Este texto segue a anterior norma ortográfica. Ortografia portuguesa.
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 * Jornalista do Público
Fonte:  http://www.snpcultura.org/da_utilidade_do_inutil.html 04/06/2012

HBO ataca obesidade em nova série

'The Weight of the Nation' (O Peso da Nação) analisa a epidemia de obesidade nos Estados Unidos - Divulgação

Divulgação
'The Weight of the Nation' (O Peso da Nação) analisa a epidemia de obesidade nos Estados Unidos

Documentários criticam publicidade de alimentos e mostram saídas para doença que virou epidemia nos EUA

Longe da linguagem tatibitate dos programas sobre hábitos saudáveis ou da espetacularização dos reality shows de perda de peso, a HBO estreia nesta terça-feira, 05, às 22 horas, uma nova série sobre obesidade. Intitulada The Weight of the Nation (O Peso da Nação), o documentário em quatro partes - no ar toda terça-feira - analisa a epidemia de obesidade nos Estados Unidos, onde nada menos que 2/3 da população acima dos 20 anos é obesa ou tem sobrepeso, assim como 1/3 das crianças. Apesar de mostrar a perspectiva americana, cada frase parece caber na rotina das grandes cidades do mundo.
Sóbria e alarmante, a série ataca a indústria de alimentos e a publicidade de comidas e bebidas nada saudáveis, principalmente o marketing voltado às crianças - algo raro na TV, que depende dos anunciantes. Por isso, o projeto só saiu do papel porque foi bancado pela HBO - que, nos EUA, não exibe comerciais -, em parceria com a organização de saúde Kaiser Permanente e a fundação de saúde e educação Michael & Susan Dell.
Ao todo, foram três anos de trabalho, que resultou na colaboração inédita entre a HBO, o Instituto de Medicina americano (IOM), o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC) e o Instituto Nacional de Saúde americano (NIH). E, por se tratar de uma ação de saúde pública, logo após a exibição na TV, o canal garantiu disponibilizar os vídeos em seu site, o www.hbomax.TV .

Geração Big Mac. Se, na semana passada, a medida do prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, de proibir a venda de bebidas com açúcar em tamanho família (com mais de 480 ml), dividiu opiniões, na série muito se fala em ações urgentes, com intervenção do Estado para frear a epidemia que impacta todo sistema de saúde do país.
Com pesquisas, especialistas e muitos personagens contando a luta contra uma doença não só física, mas psicológica, a série mostra, já no primeiro episódio, Consequências, que a obesidade está ligada a cinco das dez principais causas de morte nos EUA: doenças cardíacas, diabetes tipo 2, câncer, acidente vascular cerebral e doenças renais. Há ainda pesquisa inédita que relaciona obesidade na infância com problemas cardíacos na fase adulta. 
Entre histórias de gente que sempre brigou com a balança e de pessoas que ganharam peso de repente, o segundo episódio, Escolhas, apresenta ações práticas para reverter o problema. No terceiro capítulo, Crianças em Crise, abre-se o debate sobre o que leva as crianças a consumir tantas calorias e, no quarto e último episódio, Desafios, estão em pauta os motivos que levaram a população americana a engordar tanto nos últimos 20 anos.
“Não queremos brócolis. Nossa geração cresceu comendo Big Mac”, diz uma das personagens, numa sentença comum a quem já passou pelo “dilema” do que escolher para o almoço. Porém, o que a série afirma - em tom alarmista, claro - é que, por causa da obesidade, essa pode ser não só a “geração Big Mac”, mas a primeira geração que viverá menos que os pais.
Alerta:
77% das crianças obesas ou com sobrepeso tornam-se adultos obesos, segundo dados da série.
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Reportagem por - Alline Dauroiz - O Estado de S.Paulo
Fonte: Estadão on line, 04/06/2012

A aposta correta

Bruno Forte*
Publicamos a seguir o núcleo da mensagem do VII Encontro Mundial das Famílias, que monsenhor Bruno Forte, arcebispo da diocese de Chieti-Vasto (Abruzzo)

Bento XVI concluiu hoje, em Milão, o VII Encontro Mundial das Famílias com o tema “A família, o trabalho, a festa” (30 maio - 3 junho de 2012). É um evento com uma mensagem forte e atual. Para entendê-lo, parto de algumas frases da carta que o Santo Padre enviou para  a convocação: “Nos nossos dias a organização do trabalho, pensada e atuada em função da concorrência de mercado e do máximo lucro, e a concepção da festa como ocasião de evasão e de consumo, contribuem para disgregar a família e a comunidade e para difundir um estilo de vida individualista.
Por isso, é necessário promover uma reflexão e um compromisso que visem conciliar as exigências e os tempos de trabalho com aqueles da família e recuperar o sentido verdadeiro da festa, especialmente do domingo, dia do Senhor e dia do homem, dia da família, da comunidade e da solidariedade”. Estas palavras subintendem uma alta visão do valor e do papel da família: os esposos unidos no sacramento do matrimônio são imagem da Trindade divina, do Deus que é amor e, por isso mesmo, relação e unidade do Pai, que eternamente ama, do Filho, que é eternamente amado, e do Espírito, vínculo do amor eterno. Nesta unidade profundíssima cada um é si mesmo, enquanto acolhe totalmente o outro. À luz deste modelo, a vocação matrimonial é vista como unidade plena e fiél dos dois, comunhão responsável e fecunda de pessoas livres, abertas à graça e ao dom da vida aos outros.
Seio do futuro, a família é escola de vida e de fé, na qual crianças, adolescentes e jovens podem aprender a amar a Deus e ao próximo, e os idosos, raízes preciosas, podem à sua vez sentir-se amados. A família é, assim, sujeito ativo no caminho da comunidade cristã e da sociedade civil, não somente destinatária de iniciativas, mas protagonista do bem comum em cada um dos seus componentes.
Para que isso aconteça, o pacto conjugal, que é a base da família, deve ser vivido de acordo com algumas regras fundamentais: o respeito da pessoa do outro; o esforço para entender melhor as suas razões; o saber tomar a iniciativa de pedir e oferecer perdão; a transparência recíproca; o respeito pelos filhos como pessoas livres e a capacidade de oferecer a eles razões de vida e de esperança; o deixar-se questionar pelas suas esperanças, sabendo escutá-los e dialogando com eles; a oração, com a qual pedir a Deus a cada dia um amor maior, buscando ser um para o outro, e juntos, para os filhos, dom e testemunho Dele.
Um estilo de vida semelhante não é nem fácil, nem óbvio, e muitas vezes as condições concretas da existência tendem a enfraquecê-lo: pensemos na possível fragilidade psicológica e afetiva  nas relações entre os dois e em família; no empobrecimento na qualidade dos relacionamentos que pode conviver com "ménages"(triângulos amorosos) aparentemente estáveis e normais; no normal estresse originado pelos hábitos e pelos ritmos impostos pela organização social, pelos tempos de trabalho, pelas exigências de mobilidade; pela cultura de massa veiculada pelos meios de comunicação que influenciam e corroem as relações familiares, invadindo a vida da família com mensagens que banalizam a relação conjugal. Sem uma contínua, recíproca acolhida dos dois, abrindo-se um ao outro, não poderá haver fidelidade duradoura nem alegria plena: “A flor do primeiro amor murcha, se não supera a prova da fidelidade” (Soren Kierkegaard). Torna-se então mais do que nunca vital conjugar o compromisso cotidiano em família com as condições que o sustentem no âmbito do trabalho e na experiência da festa.

 “A flor do primeiro amor murcha, 
se não supera a prova da fidelidade” 
(Soren Kierkegaard).

Cada trabalho - manual, profissional e doméstico – tem plena dignidade: por isso é justo e correto respeitar cada uma dessas formas, também nas escolhas de vida que os esposos são chamados a fazer pelo bem da família e especialmente dos filhos. Contribui para o bem da família tanto quem trabalha em casa, quanto quem trabalha fora!  Claro, o trabalho apresenta muitas vezes aspectos de cansaço, que – segundo a fé cristã – o Filho de Deus quis fazer próprio para redimí-los e sustentá-los de dentro, como lembra uma página belíssima do Concílio Vaticano II: ele “trabalhou com mãos de homem, pensou com mente de homem, agiu com vontade de homem, amou com coração de homem” (Gaudium et Spes, 22).
Inspirando-se no Evangelho, é possível, então, formar-se como homens e mulheres capazes de fazer do próprio trabalho um caminho de crescimento para si e para os outros, apesar de todos os desafios contrários. Isso requer viver o trabalho, por um lado cheio de responsabilidade pela construção da casa comum (trabalhar bem, com consciência e dedicação, qualquer que seja a tarefa que se tenha); por outro lado, em espírito de solidariedade para os mais fracos, tutelar e promover a dignidade de cada um. Nesta luz, compreende-se plenamente como a falta de trabalho seja uma ferida grave na pessoa, na família e no bem comum, e porque a segurança e a qualidade das relações humanas no trabalho sejam exigência moral que deve ser respeitada e promovida pelo indivíduo, começando pelas instituições e pelas empresas.
A propósito da festa, por fim, deve-se evidenciar o quanto ela ajude ao crescimento da comunhão familiar: nascendo do reconhecimento dos dons recebidos, que abraçam os bens da vida terrena, as maravilhas do amor recíproco, a festa educa o coração à gratidão e à gratuidade. Onde não há festa, não há gratidão, e onde não há gratidão, o dom se perde! É necessário aprender, então, a respeitar e celebrar a festa, principalmente como tempo de perdão recebido e doado, pela vida renovada pela maravilha agradecida, até se tornar capazes de viver os dias feriais com o coração de festa.
Isso é possível, se começa-se da atenção às festas que marcam o “léxico familiar" (aniversários, honomásticos, ...), até celebrar fielmente como família o encontro com Deus no domingo, dia do Senhor, encontro de graça capaz de produzir frutos profundos e surpreendentes. Quem vive a festa, é estimulado a exercitar a gratuidade, experimentando como seja verdadeiro que existe mais alegria em dar do que receber! A festa nos ensina como amar seja viver o dom de si tanto nas escolhas de fundo da existência, quanto nos gestos humildes da vida cotidiana, aprendendo a dizer palavras de amor e a ter gestos correspondentes, que jorrem de um coração grato e alegre.
A negação da festa, especialmente do domingo, é por isso  um atentado ao bem precioso da harmonia e da fidelidade conjugal e familiar: e é significativo que esta mensagem resoe por Milão, capital vital e laboral da economia e da produção do País. Apostar na família fundada sobre o matrimônio e aberta ao dom dos filhos e esforçar-se para promover as condições de trabalho e de respeito para a festa, que ajudem na sua serenidade e crescimento, é contribuir para o bem de todos, livrando-se de lógicas muitas vezes redutivas e confusas com relação ao seu valor de célula decisiva da sociedade e do seu amanhã. É a mensagem que de Milão parte hoje para a Itália e para o mundo inteiro!
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* Teólogo. Escritor.  Monsenhor Bruno Forte, arcebispo da diocese de Chieti-Vasto (Abruzzo).
Texto publicado ontem (03/06/2012) no Jornal italiano Il Sole 24 Ore. O prelado participou do encontro em Milão com uma grande delegação.
[Tradução Thácio Siqueira]
Fonte: Zenit. org. 04/06/2012
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O Corpo

Frei Betto*

 

Em torno da festa cristã de Corpus Christi vale lembrar que uma linha vertical divide os seres humanos entre vencedores e vencidos, aliados e inimigos, fiéis e hereges; desce da abstração da linguagem, consubstanciada em ideologias e crenças religiosas, para atingir seu ponto mais cruel: a segregação de corpos.
“Uma rosa é uma rosa é uma rosa”, declamava Gertrude Stein. Ninguém discorda. No entanto, não há consenso de que “uma pessoa é uma pessoa é uma pessoa”. Nazistas negam a judeus o direito à vida, assim como há judeus que se julgam superiores aos árabes; e árabes que assassinam cristãos que não comungam com suas crenças; e cristãos que excomungam espiritualmente judeus, muçulmanos, comunistas, homossexuais e adeptos do candomblé.
Uma pessoa é o seu corpo. Vive ao nutri-lo e faz dele expressão de amor e gera novos corpos. Morto o corpo, desaparece a pessoa. Contudo, chegamos às portas do Terceiro Milênio num mundo dominado pela cultura necrófila da glamourização de corpos aquinhoados por fama, beleza e riqueza, e a exclusão de corpos condenados pela pobreza.
Na lista telefônica de Santa Mônica, EUA, consta o número da Fundação Elizabeth Taylor contra a aids. Não há nenhuma fundação contra a fome. Esta mata muito mais que aquela. Por que a aids mobiliza mais que a fome? Porque não faz distinção de classe. A fome é problema dos oprimidos, e ameaça 1/3 da humanidade. Os premiados pela loteria biológica, nascidos em famílias que podem se dar ao luxo de comer menos para não engordar, são indiferentes aos famintos ou dedicam-se a iniciativas caridosas, com a devida cautela de não questionar as causas da pobreza.
Clonam-se corpos, não a justiça. Açougues virtuais, as bancas de revistas exaltam a exuberância erótica de corpos, sem que haja igual espaço para ideias, valores, subjetividades, espiritualidades e utopias. Menos livrarias, mais academias de ginástica. Morreremos todos esbeltos e saudáveis; o cadáver, impávido colosso, sem uma celulite…
A política das nações pode ser justamente avaliada pela maneira como a economia lida com a concretude dos corpos, sem exceção.
Num mundo em que o requinte dos objetos de luxo merece veneração muito superior ao modo como são tratados milhões de homens e mulheres; o valor do dinheiro se sobrepõe ao de vidas humanas; as guerras funcionam como motor de prosperidade; é hora de nos perguntarmos como é possível corpos tão perfumados com mentalidades e práticas tão hediondas? E por que ideias tão nobres e gestos tão belos floresceram nos corpos assassinados de Jesus, Gandhi, Luther King, Che Guevara e Chico Mendes?
O limite do corpo humano não é a pele, é a Terra. Somos células de Gaia. Resta fazer esta certeza implantar-se na consciência, lá onde o espírito adquire densidade e expressão.
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* Frei Betto é escritor e autor, em parceria com Marcelo Gleiser e Waldemar Falcão, de “Conversa sobre a ciência e a fé” (Agir), entre outros livros. www.freibetto.org - Twitter: @freibetto.
Fonte:  http://mercadoetico.terra.com.br/04/06/2012
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segunda-feira, 4 de junho de 2012

Meu inferno mais íntimo

Luiz Felipe Pondé*
 
Enfrentar-se a si mesmo e ainda assim assumir-se é atravessar um inferno de silêncio e solidão 
Um jovem rabino, angustiado com o destino da sua alma, conversava com seu mestre, mais velho e mais sábio, em algum lugar do Leste Europeu entre os séculos 18 e 19.
Pergunta o mais jovem: "O senhor não teme que quando morrer será indagado por Deus do porquê de não ter conseguido ser um Moisés ou um Elias? Eu sempre temo esse dia".
O mestre teria respondido algo assim: "Quando eu morrer e estiver na presença de Deus, não temo que Ele me pergunte pela razão de não ter conseguido ser um Moisés ou um Elias, temo que Ele me pergunte pela razão de eu não ter conseguido ser eu mesmo".
Trata-se de um dos milhares de contos hassídicos, contos esses que compõem a sabedoria do hassidismo, cultura mística judaica que nasce, "oficialmente", com o Rabi Baal Shem Tov, que teria nascido por volta de 1700 na Polônia.
A palavra "hassidismo" é muito próxima do conceito de "Hesed", piedade ou misericórdia, que descreve um dos traços do Altíssimo, Adonai ("Senhor", termo usado para se referir a Deus no judaísmo), o Deus israelita (que, aliás, é o mesmo que "encarnou" em Jesus, para os cristãos).
Hassídicos eram conhecidos como "bêbados de Deus", enlouquecidos pela piedade divina (e pela vodca que bebiam em grandes quantidades para brindar a vida...) que escorre dos céus para aqueles que a veem.
São muitas as angústias de quem acredita haver um encontro com Deus após a morte. Mas ninguém precisa acreditar em Deus ou num encontro como esse para entender a força de uma narrativa como esta: o primeiro encontro, em nossa vida, que pode vir a ser terrível, é consigo mesmo. Claro que se Deus existe, isso assume dimensões abissais.
Para além do fato óbvio de que o conto fala do medo de não estarmos à altura da vontade de Deus, ele também fala do medo de não sermos seres morais e justos, como Moisés e Elias, exemplos de dois grandes "heróis" da Bíblia hebraica. Ser como Moisés e Elias significa termos um parâmetro moral exterior a nós mesmos que serviria como "régua".
A resposta do sábio ancião ao jovem muda o eixo da indagação: Deus não está preocupado se você consegue seguir parâmetros morais exteriores, Deus está preocupado se você consegue ser você mesmo.
Não se trata de pensar em bobagens do tipo "Deus quer que você seja feliz sendo você mesmo" como pensaria o "modo brega autoestima de ser", essa praga contemporânea. Trata-se de dizer que ser você mesmo é muito mais difícil do que seguir padrões exteriores porque nosso "eu" ou nossa "alma" é nosso maior desafio.
Enfrentar-se a si mesmo, reconhecer suas mazelas, suas inseguranças e ainda assim assumir-se é atravessar um inferno de silêncio e solidão. Ninguém pode fazer isso por você, é mais fácil copiar modelos heroicos, por isso o sábio diz que Deus não quer cópias de Moisés e Elias, mas pessoas que O enfrentem cara a cara sendo quem são.
Podemos imaginar Deus perguntando a você se teve coragem de ser você mesmo nos piores momentos em que ser você mesmo seria aterrorizante. Aí está o cerne da "moral da história" neste conto.
Noutro conto, um justo que morre, chegando ao céu, ouve ruídos horrorosos vindo de uma sala fechada. Perguntando a Deus de onde vem aquele som ensurdecedor, Deus diz a ele que vá em frente e abra a porta do lugar de onde vem a gritaria. Pergunta o justo a Deus que lugar seria aquele. Deus responde: "O inferno". Ao abrir a porta, o justo ouve o que aqueles infelizes gritavam: "Eu, eu, eu...".
Ao contrário do que dizia o velho Sartre, o inferno não são os outros, mas sim nós mesmos. Numa época como a nossa, obcecada por essa bobagem chamada autoestima, ocupada em fazer todo mundo se achar lindo e maravilhoso, a tendência do inferno é ficar superlotado, cheio de mentirosos praticantes do "marketing do eu".
Casas, escritórios, academias de ginásticas, igrejas, salas de aula, todos tomados pelo ruído ensurdecedor do inferno que habita cada um de nós. O escritor católico George Bernanos (século 20) dizia que o maior obstáculo à esperança é nossa própria alma. Quem ainda não sabe disso, não sabe de nada. 
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* Filósofo. Escritor. Prof. Universitário. Colunista da Folha
ponde.folha@uol.com.br
Fonte: Folha on line, 04/06/2012
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A ética das máquinas

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 É possível dotar máquinas de independência moral? (Reprodução/Internet)
Robôs estão se tornando mais autônomos. A sociedade precisa desenvolver regras para administrá-los
No clássico filme de ficção científica “2001”, HAL, o computador da astronave, enfrenta um dilema. Suas instruções requerem tanto que ele cumpra a missão da nave — investigar um artefato próximo a Jupiter –, como que mantenha o verdadeiro propósito da missão em segredo. Para solucionar a contradição, ele resolve matar a tripulação.
Conforme os robôs se tornam mais autônomos, a ideia de máquinas controladas por computadores enfrentando decisões éticas está saindo do reino da ficção científica e adentrando o mundo real. A sociedade precisa encontrar modos de assegurar que elas estejam mais bem equipadas que HAL para fazer julgamentos morais.
De modo nem um pouco surpreendente, a tecnologia militar está na vanguarda da marcha em direção a máquinas autônomas. A sua evolução está produzindo uma variedade extraordinária de espécies. À medida que elas se tornam mais inteligentes e comuns, é inevitável que as máquinas autônomas acabem por fazer mais decisões de vida ou morte em situações imprevisíveis, desse modo assumindo – ou parecendo assumir – independência moral. Sistemas de armas atualmente contam com a participação de humanos na cadeia de comando, mas à medida que se tornarem mais sofisticados, será possível fazer com que as máquinas sigam ordens de modo autônomo.
Quando isso acontecer, elas serão confrontadas com dilemas éticos. Um veículo aéreo não tripulado deveria atirar em uma casa que abriga um suspeito, mas que também está servindo de abrigo a civis? Um carro sem motorista deveria dar uma guinada para evitar atropelar pedestres se isso significar bater em outros veículos ou pôr a vida de seus ocupantes em risco? Um robô envolvido em resgates em zonas de desastre deveria dizer a verdade às pessoas se isso pudesse desencadear pânico? Tais questões fazem parte da “ética das máquinas”, que pretende dar às máquinas a habilidade de tomar tais decisões de modo apropriado, ou, em outras palavras, distinguir o certo do errado.
As diretrizes mais conhecidas da ética robô são as “três leis da robótica” cunhadas por Isaac Asimov, um escritor de ficção científica, em 1942. As leis requerem que os robôs: 1. protejam humanos, 2. obedeçam ordens e 3. se preservem, nesta ordem. Infelizmente, tais leis não são muito úteis no mundo real. Robôs de combate podem precisar violar a primeira lei. Regular o desenvolvimento e uso dos robôs autônomos requererá um arcabouço muito mais elaborado. Necessita-se progredir em três áreas em particular.
Três leis para as leis de robótica
Primeiro, as leis precisam determinar se o programador, fabricante ou operador deve se responsabilizar caso um ataque de um veículo não tripulado dê errado ou se um carro sem motorista se envolver em um acidente. A fim de alocar a responsabilidade, sistemas autônomos devem manter registros detalhados para poder explicar o raciocínio por trás das decisões da máquina quando isso se fizer necessário. Isto tem implicações para o projeto de sistemas: pode ser, por exemplo, que o uso de redes neurais artificiais tenha que ser vetado, pois estas redes são sistemas capazes de aprender em vez de obedecer a regras pré-definidas.
Segundo, nos casos em que sistemas éticos sejam embutidos em robôs, os julgamentos que eles venham a fazer têm que ser aqueles que parecem mais apropriados para a maioria das pessoas. As técnicas da filosofia experimental, que estuda a resposta das pessoas a dilemas éticos, provavelmente poderão ajudar. Por último, e mais importante, é necessário haver mais colaboração entre engenheiros, filósofos, advogados e formuladores de políticas públicas, os quais criariam conjuntos diferentes de regras se fossem postos a trabalhar isoladamente.
A tecnologia conduziu o progresso da humanidade, mas cada novo avanço gerou novas questões preocupantes. Não será diferente com as máquinas autônomas. Quanto mais cedo a questão da independência moral que elas suscitam for respondida, mais fácil será para a humanidade gozar dos benefícios que elas sem dúvida trarão.

 http://opiniaoenoticia.com.br/vida/tecnologia/a-etica-das-maquinas/04/06/2012

Família, teatro do mundo.

Claudio Magris*

 

A libertação do ser humano – 
o sentido do cristianismo – não 
 pode não libertar também a família;
 até mesmo de si mesma, 
se for preciso. E, então, a família 
pode realmente se tornar um Teatro do Mundo 
e do universal humano.

As grandes religiões universais, e especialmente o cristianismo, não são coisa de family day. Cristo veio mudar a vida dos seres humanos e proclamar valores mais altos do que o imediato círculo dos afetos, ou, melhor, a chicotear duramente estes últimos quando regressivamente se opõem a um amor maior. Até mesmo o laço mais forte, o entre o filho e a mãe, é tratado bruscamente quando Maria quer interferir: "Mulher, que há entre mim e ti?", ele lhe diz.

Enquanto está falando para uma multidão, quando lhe vêm dizer que a sua mãe e os seus irmãos o estão procurando, Cristo responde: "Quem é minha mãe? E quem são os meus irmãos?", acrescentando que só é seu irmão quem faz a vontade do Pai.

Se há conflito entre a relação de parentesco e o mandamento, a escolha é clara: ele afirma que veio para separar, onde seja necessário, "o filho do pai, a filha da mãe". O seu próprio nascimento, além disso, escandaloso com relação às regras, certamente não se encaixa no modelo da ordem familiar.

Naturalmente, Cristo não pretende negar o amor entre e pelos esposos, os filhos, os irmãos, os pais. Ele quer potencializá-lo, libertá-lo da sua tão frequente degeneração egoísta, conservadora e redutora que empobrece aqueles laços universais humanos em um fechamento pávido e árido, barrando a porta para a vida e para os outros, entrincheirando-se em um pequeno mundo limpo e decente, mas indiferente à miséria e ao sofrimento, que talvez começam fora da porta barrada.

Há uma colorida expressão vêneta que retrata essa falsa e mesquinha harmonia familiar baseada na rejeição dos outros: "far casetta"."Eu tenho família" é a melhor desculpa para se esquivar perante um dever que nos chama a nos pôr em risco. A esse propósito, Noventa – grande poeta católico, um dos grandes poetas do século XX – respondia no seu dialeto vêneto a quem curva vilmente a cabeça ("son vigliaco" [sou velhaco]), alegando ter os pais idosos, a esposa ainda jovem e os filhos para manter: "Copé la mare, / Copé el pare, /La mugier zóvene / e i fioi — (…) No' saré più vigliachi" [matem o mar, matem o pai, a mulher jovem e os filhos (…) Não serão mais velhacos].

A família certamente é uma realidade histórica, embora de uma duração particular, e como tal está sujeita a transformações e a mutações, nunca tão intensa e confusamente como hoje, em um emaranhado de libertações ora justas, ora grosseiramente ideológicas e estúpidas, conformismos travestidos de transgressão ou de sagrados princípios, exibicionismos arrogantes, em um tumulto de tradições seculares, costumes, valores, formas de agregação familiar.

A família foi e dificilmente poderá deixar de ser uma célula primária do universal humano; o Teatro Mundial em que o indivíduo vem ao mundo, cujas vozes lhe chegaram desde quando ele ainda estava na primeira estação da sua viagem, no ventre da mãe; em que o indivíduo descobre o mundo, faz a experiência fundante do amor ou devastadora do desamor, aprende com os irmãos o jogo, a aventura, a luta, a ambivalência de afeto e rivalidade; em que o pai e a mãe lhe transmitem não só a vida, mas também o seu sentido. Não se equivocava Francesco Ferdinando, o herdeiro do trono de Habsburgo morto em Sarajevo, quando quis que, em seu túmulo, fossem inscritas apenas três datas: do nascimento, do casamento e da morte.

A família pode ser o encantador cenário da descoberta do mundo, como em Guerra e Paz, de Tolstoi, e pode ser tragédia e abjeção, ódio e violência, Caim e Abel, os Átridas e a estirpe de Édipo. Pode ser um lugar de opaca estranheza, de mesquinhos ressentimentos, de violência e de opressão; violência de pais ou de maridos chefes sobre filhos e sobre esposas, sórdida vingança feminina de sufocantes tiranias domésticas, incumbentes clãs parentais que transplantaram a tribo para a civitas e reabsorvem o indivíduo, como escrevia Kafka, na papa informe das origens.

A palavra família já é um Jano bifronte: indica o mundo que nos é mais caro e pode indicar o bestial laço mafioso. Gide podia dizer: "Famílias, quanto vos odeio". As novas formas de família radicalmente diferentes da tradicional, que se anunciam até se acenando com ênfase, podem trazer valores ou desvalores, mas certamente não estão protegidas das degenerações da convivência.

A libertação do ser humano – o sentido do cristianismo – não pode não libertar também a família; até mesmo de si mesma, se for preciso. E, então, a família pode realmente se tornar um Teatro do Mundo e do universal humano: quando, brincando com nossos próprios irmãos e amando-os, damos o primeiro e fundamental passo em direção a uma maior fraternidade, que sem a família não teríamos aprendido a sentir tão fortemente; quando os pais nos fazem entender concretamente o que significa sermos levados pela mão na selva do mundo, por uma mão que continua soerguendo mesmo quando não a aperta mais fisicamente.

Em uma família livre e aberta, o Eros também encontra a sua maior aventura, misteriosa e conturbadora; comer em paz o próprio pão com a mulher amada na juventude, como diz uma passagem bíblica muitas vezes citada por Saba, é uma experiência de grandes amantes. E os filhos, em um universo de relações libertadas do familismo (ansioso, autoritário, fraco, obsessivo, de acordo com os casos), tornam-se realmente a maior paixão que a vida nos faz conhecer.

A civilização grega nos deu Édipo e os Átridas, mas também Heitor, que, sem se preocupar com a própria morte, sobre os muros da Troia sitiada, brinca com o seu filho Astianax, e o seu maior desejo é que este cresça melhor e mais forte do que ele.
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 * Escritor italiano Claudio Magris, ex-senador da Itália, ex-professor das universidade de Turim e de Trieste, e prêmio Príncipe de Astúrias de Letras de 2004. O artigo foi publicado no jornal Corriere della Sera, 03-06-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Fonte: IHU on line, 04/06/2012
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Dez anos sem solidão

Paulo Rabêlo*
 



Sobrevivi a dez anos sem televisão em casa. Não foi protesto contra a qualidade da programação, muito menos um rompante intelectualóide.

Foi apenas falta de tempo e de vontade para usufruir da companhia daquela caixa barulhenta de 14 polegadas cuja antena parecia uma fábrica de bombril.

Muita gente diz que morar sozinho sem televisão é deprimente e solitário. Sempre achei uma noção curiosa, pois nada me deixa mais aliviado do que chegar em casa e ouvir apenas o ronco do motor da geladeira velha e o tilintar do gelo quando a gente derrama aquele resto de uísque ruim que nunca acaba.

Foram dez anos muito bons.

E, para minha surpresa, sem nenhuma ponta de solidão.

No início, foi difícil. A mim, a TV nunca fez muita falta de verdade. Mas sempre foi uma desculpa conveniente para as visitas. Um trunfo auxiliado pelo Corujão e pela Sessão de Gala naquelas madrugadas mais longas quando as moças não querem voltar para a casa delas.

Sem a TV de argumento, o jeito é ficar na varanda com dois copos e dois ouvidos, pois não tardava a ouvir os conflitos existenciais dessas pequenas burguesas preocupadas com o passado, o presente e o futuro.

O resultado de todo o lero-lero era sempre o mesmo, é verdade, mas pelo menos a gente se aproximava mais das pessoas, conhecia melhor os medos e frustrações, as esperanças e anseios.

Nas madrugadas sem TV, consegui escrever dezenas e dezenas de páginas sem distrações, como se não houvesse mais nada para fazer no mundo além de escrever.

Sem TV, devo ter lido mais livros velhos (e bons) do que todos os anos anteriores. E, no intervalo entre uma página aqui e outra ali, lembrava de outras pequenas burguesas que levavam nossos livros emprestados e nunca devolviam.

Não demora até a gente pegar o telefone para saber se elas estão vivas e se os livros ainda existem. E tantas vezes elas estavam apenas esperando aquela ligação no meio de uma noite enfadonha de Tela Quente ou Zorra Total.

Confesso que até tentei ler o livro do Carlos Nejar (História da Literatura Brasileira) que ganhei de presente de uma jovem fanática por literatura. Uma espécie de livro-bíblia sobre os grandes autores nacionais, desde Pero Vaz de Caminha, há 500 anos...

É o melhor remédio para insônia que já vi na vida, mas ela tinha o maior orgulho desse livro. Levei meses para ler dois ou três capítulos e devolvi quando percebi que ainda faltavam trezentas páginas (e 200 anos) para acabar a parte 1.

O que acabou mesmo foi o romance com aquela Paraguaçu albina que me achava meio burrinho por não gostar de autores clássicos como Machado de Assis, Lima Barreto, José de Alencar, Basílio da Gama e dezenas de outros chatos de galocha.

Pois é, os dez anos se passaram e meses atrás comprei uma dessas televisões do tamanho de um elefante de circo.

Não sei se foi uma decisão acertada, pois ainda não consegui me acostumar a tantas mudanças.

Já percebi que agora a novela das oito é das nove. Inventaram também uma novela das onze, porque aparentemente havia poucas novelas na programação.

O Fantástico se tornou uma mistura de programa juvenil com manual de dieta. O Jornal Nacional virou desfile de modelo. O Faustão ficou magro, a Xuxa parou de usar minissaia e jura que virou adulta aos 50. A Angélica jura que virou jornalista.

Fico mudando de canal durante horas e todos funcionam. É meio frustrante você ter uma televisão que pega todos os canais. Bate uma saudade de toda aquela matemática para descobrir qual é o ângulo perfeito da antena de acordo com a velocidade e direção do vento que incidem sobre o bombril.

Ao chegar em casa de noite, agora a primeira coisa que faço é ligar na Globonews. O mundo pode acabar e a gente quer ver ao vivo.

Mas o mundo, que ainda não acabou, ficou bem mais solitário.

Não preciso mais ir ao bar para assistir Jô Soares ou Jornal da Globo.

Não encontro mais os papudinhos que rondam madrugada adentro pela cidade, também sem ter o que fazer, mas sempre dispostos a uma conversa e troca de ideias.

Sei que lá fora deve haver outras moças fanáticas por literatura e por filmes antigos, não sei se fanáticas por carecas barrigudos também, mas, enfim, não as encontro mais porque sempre tem uma entrevista imperdível de Geneton, um dossiê histórico ou alguma nova descoberta sobre o acasalamento dos dinossauros ou o derretimento das calotas polares no Discovery.

Em vez de ler meus livros, tomar minhas doses, escrever minhas leseiras ou telefonar para as burguesas na hora do Zorra Total, não faço mais nada disso porque estou preocupado demais com os africanos famintos, os asiáticos desalojados depois das enchentes, os americanos sem plano de saúde, os europeus desempregados, os brasileiros soterrados e os anjos decaídos. Acho até que me sinto meio culpado.

É tudo verdade, passa todo dia na TV. Desde 1950.

Dia desses, imaginei que pudesse dar fim a toda essa solidão.

Tentei jogar a televisão ladeira abaixo, mas ela é maior do que a janela e não passa. Tentei esconder dentro do armário, mas ela não cabe. Tentei virá-la para a parede, mas é pesada demais. Tentei colocar bombril, mas ela não tem antena. Tentei colocar um porta-retratos com fotos antigas da Paraguaçu albina, mas a TV é muito fina.

Chamei dois amigos para me ajudar a colocar a monstra dentro do carro num domingo desses, mas eles não podiam porque estava passando ao vivo na TV um campeonato de críquete no Sri Lanka.

Eu não sabia nem o que é diabo era críquete, tive que olhar no Google. Acho que continuo sem saber e não sei mais o que fazer.

Mas, quando descobrir, pelo menos será em alta definição.
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* Jornalista e consultor
Fonte:  http://ne10.uol.com.br/coluna/hipopocaranga/index.php, 03/06/2012

domingo, 3 de junho de 2012

Renascer com a Santíssima Trindade

José Tolentino Mendonça*
 Imagem

A psicanalista Françoise Dolto (1908-1988) tinha, além do apartamento parisiense, onde viveu e morreu, uma casa de férias em Antibes, a que chamou “La Soledad”. Podemos imaginar a razão desse nome dado a um espaço conquistado às rotinas e fadigas, abrigo de intimidade, criação e silêncio. Um dos seus últimos livros leva também esse nome. É um volume que recolhe dispersos e uma longa conversa acerca do lugar da solidão (e, logo, sobre o desejo de comunhão), e seus efeitos sobre construção inacabada e frágil da vida.
Aí, conversando sobre a solidão, Françoise Dolto irrompe, inesperadamente, a falar da Trindade. E modo como o faz, não a partir das categorias catequéticas tradicionais, mas com a linguagem que ela sempre usou para avaliar e cuidar da vida interior, pode ser muito iluminante. Na tradição cristã, há a consciência que o discurso sobre a Trindade nos obriga a trocar as palavras por balbucios. Agostinho de Hipona, por exemplo, demorou dezesseis anos a concluir o seu Tratado “De Trinitate”, e ele próprio confessa, com algum humor: «Ainda jovem, dei início à escrita destes livros: só na velhice dei-os a público».
A simplicidade de Dolto, recorda-nos, porém, os benefícios de um modo didático de apresentar a Trindade, o que passará, certamente, pelo testar de novas linguagens. Para a reputada psicanalista, o esquema trinitário está próximo da experiência que todo o sujeito faz na organização do seu mundo interior, na maturação de si. Ela escreve: «Acho maravilhoso encontrar em Deus a Trindade, essa relação de amor a três. É algo que encontramos justamente no desejo de viver de cada um de nós. Assumimos aí o nosso papel no interior de uma situação triangular: pai, mãe, filho. […] O facto de remontar à Trindade, ou seja, aos três desejos divinos circulantes, é extraordinário, pois foi assim que fomos concebidos».
Mas não só. Em todos os «segundos nascimentos», sempre que a vida nos impele a um recomeço, seja a partir de feridas e perdas, seja a partir de encontros e esperanças, o «esquema trinitário» é-nos imprescindível. «A nossa solidão só pode ser curada quando expressa criativamente e quando ajudada por alguma outra pessoa, que cria assim uma situação triangular. Somos dois, conversamos: o terceiro é a palavra. A palavra, que vem sempre de outro, prova que somos três».
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* Teólogo português. Escritor. Poeta. Conferencista.
In O hipopótamo de Deus, ed. Assírio & Alvim
02.06.12
IMAGEM  Santíssima Trindade - Ícone de autor russo
FONTE:  http://www.snpcultura.org/renascer_com_a_Santissima_Trindade.html

Será que devemos ir ao espaço?

Marcelo Gleiser*
homem no espaço.jpg
Impedir a exploração humana do espaço é ir contra a história; somos exploradores por natureza 
Já que na semana passada escrevi sobre como alienígenas ultra-avançados seriam indistinguíveis de deuses, hoje queria ir na direção oposta e explorar o nosso papel como exploradores cósmicos. O assunto foi inspirado pela missão sensacional do módulo Dragon, da empresa SpaceX, o grupo privado que na semana passada acoplou pela primeira vez uma cápsula à Estação Espacial Internacional, inaugurando uma nova era na corrida espacial.
Existem duas escolas de pensamento no que tange a nosso papel na exploração espacial. Membros da primeira argumentam que, do ponto de vista de custos e rapidez de resultados, missões robóticas são de longe melhores. Os sucessos até aqui são mesmo notáveis: por exemplo, a exploração dos planetas gigantes do Sistema Solar (Júpiter, Saturno, Urano e Netuno) pelas missões Voyager 1 e 2 e, mais recentemente, as missões Galileu e Cassini; os veículos de exploração de Marte, guiados por controle remoto daqui da Terra, e a nova missão que deve chegar lá no dia 6 de agosto, com um veículo de exploração bem maior do que seus antecessores. Exemplos não faltam, provando que podemos aprender enviando máquinas ao espaço. É bem mais barato do que enviar humanos e ninguém corre risco de morte.
A segunda escola defende que humanos precisam ir ao espaço. É nossa prerrogativa enquanto espécie inteligente, nosso mandato cósmico. As crianças adoram a ideia de explorar o espaço e muitos se interessam por ciência por causa disso.
Na prática, ter humanos in situ é muito eficiente, pois não só improvisamos como não somos bloqueados por pedras ou sofremos dano em painéis solares e antenas. (Se bem que nosso equipamento pode sofrer esses e outros danos.)
Existem muitas razões para enviar humanos ao espaço, algumas científicas e outras mais românticas. Devemos agora adicionar "dinheiro" entre elas, já que se pode ganhar muito com a exploração privada do espaço -mineração, pesquisa, projetos governamentais, turismo e outros. O grupo SpaceX, por exemplo, tem um contrato de US$ 1,6 bilhão com a Nasa para entregar equipamentos à Estação Espacial Internacional.
Idealmente, a resposta deveria combinar as duas posições: robôs são necessários, pois podem ir aonde não podemos, realizar tarefas para nós impossíveis e nos poupar de riscos desnecessários. Por outro lado, impedir a exploração humana do espaço é ir contra a história da nossa espécie. Somos exploradores por natureza, muitas vezes sem nos importar com os riscos.
Tenho certeza que, se um programa desenvolvesse uma viagem apenas de ida a Marte, não faltariam voluntários dispostos a chegar lá para serem imortalizados pela história da humanidade e para manter nosso expansionismo vivo.
Difícil imaginar que nosso futuro não será no espaço e que, dentro de alguns milhões de anos, não seremos nós os colonizadores de boa parte da galáxia. Pode até ser que encontremos "outros" pelo caminho -se bem que seu silêncio até aqui parece indicar sua raridade ou sua ausência (ou falta de interesse na nossa espécie). Já que, com tecnologias atuais, a viagem até a estrela mais próxima demora uns 100 mil anos, é bom começarmos logo. 
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*MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor de "Criação Imperfeita". Facebook: goo.gl/93dHI
Fonte: Folha on line, 03/06/2012
Imagem da Intenet 

Quando o Câncer desaparece: o curioso fenômeno da “Remissão Inesperada”


Este post introduz uma série de artigos que pretendo escrever e publicar no Inconsciente a respeito da relação Mente-Corpo e o surgimento de doenças. Aqui, trago um artigo que traduzi da – já outras vezes mencionada – newsletter do IONS – Institute of Noetic Sciences, que trata do “mistério” da remissão espontânea, portanto inesperada, do câncer.  Como poderá ser visto, o artigo mostra os pontos em comum nos casos em que aconteceu a dita remissão, e coloca algumas teorias (alternativas é claro, porque ortodoxamente não há uma explicação satisfatória para isso) que tentam explicar o “fenômeno”.
Evidentemente que aqui não se pretende que ninguém desista do tratamento alopático/tradicional, mas sim, repensar a doença partindo de outros pontos de vista. Espero que este artigo sirva para proporcionar uma reflexão mais ampla e diferenciada a respeito do tratamento do câncer, lembrando que as doenças são mais oportunidades de crescimento e autoconhecimento do que “obstáculos” em nossas vidas; e ajudar as pessoas que estão passando por esta condição a, quem sabe, realizar algumas mudanças que possam auxiliar nos seus tratamentos, a compreender melhor o que está acontecendo consigo mesmas e assim, melhorar suas qualidades de vida.
Então vamos ao artigo:
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 artigo de Kelly A. Turner, PhD (pesquisadora, palestrante e consultora no campo da Oncologia Integrativa)
 tradução e adaptação de Karina, para o InconscienteColetivo.net
Todos nós já ouvimos uma história como esta. Depois de tentar todos os métodos que a medicina ocidental tem a oferecer, é dito a uma pessoa com um câncer Estágio 4 que não há nada mais que os médicos possam fazer, e é mandada para casa para receber cuidados paliativos. Cinco anos depois, aquela pessoa dá uma volta ao consultório médico se sentindo ótima, com mais nenhuma evidência de câncer.
No mundo médico, este tipo de caso é referido como uma remissão espontânea, que é definido como: “o desaparecimento, completo ou incompleto, do câncer sem tratamento médico ou com tratamento médico que é considerado inadequado para produzir o resultante desaparecimento dos sintomas da doença ou o tumor“¹. Muitos pesquisadores, incluindo eu mesma, acreditam que a palavra espontâneo é um termo impróprio e que deveria ser mudado para inesperado ou improvável. Nós pensamos assim porque apenas algumas poucas coisas na vida são verdadeiramente espontâneas – ocorrendo puramente por acaso. É mais provável que estas remissões tenham uma causa – ou duas, ou três – que a ciência ainda não identificou.

Background

Independente de como chamamos, a remissão inesperada ocorre, e mais de mil casos (dentre todos os tipos de câncer) já foram publicados em periódicos médicos. Milhares mais devem ter provavelmente ocorrido, mas não foram publicados, porque a maioria dos médicos não dispende tempo para escrever um relatório e enviá-lo para um periódico – o que infelizmente, atualmente é o único jeito para rastrear estes tipos de casos. Baseado no que já foi publicado, remissões inesperadas são estimadas para ocorrer em um em cada sessenta mil a cem mil pacientes com câncer; entretanto, a taxa de incidência real é provavelmente maior que esta, devido ao baixo número de relatórios que costumam ser realizados².
Ao longo do século passado, tem havido um fluxo constante de relatos de casos publicados, juntamente com flashes de maior interesse neste tópico. Por exemplo, nos anos 1960, os dois primeiros livros científicos sobre a remissão inesperada foram publicados, o que levou a um aumento acentuado no número de relatos de casos submetidos a revistas médicas³. Depois de algum tempo, no entanto, o interesse no tópico se aquietou novamente até os anos 1980, quando o Instituto de Ciências Noéticas (IONS) lançou o Spontaneous Remission Project (Projeto da Remissão Espontânea, em tradução livre), que culminou na publicação de uma bibliografia abrangente de casos documentados (4). Desde então, aproximadamente vinte casos de remissão inesperada são publicados a cada ano, e ainda há uma notável falta de investigação formal sobre por que essas remissões ocorrem.
De um certo modo, é compreensível. Como você começa a pesquisar por algo que você não consegue explicar? Muitos médicos convencionais se sentem ameaçados por essas curas “milagrosas” e não querem falar sobre elas – muito menos pesquisá-las  - por medo de que darão uma “falsa esperança” para seus outros pacientes. De fato, a maioria dos sobreviventes da remissão inesperada que estudei estava emocionada por finalmente encontrar um profissional que estava interessado em saber como haviam se curado. Eles frequentemente lamentam: “Meu médico nem perguntou como eu consegui.”

A Pesquisa Atual

Talvez porque eu sou uma pesquisadora qualitativa e não uma médica, eu sempre fui fascinada por casos de remissão inesperada. Quando eu comecei a estudar isso durante meus estudos de doutorado na Universidade da Califórnia, em Berkeley, eu estava desapontada em ver quão pouca pesquisa foi feita neste tema. O primeiro problema que vi foi que não havia banco de dados em que eu pudesse facilmente encontrar e analisar estes casos. O segundo problema que notei foi que dois grupos de pessoas foram grandemente ignoradas na pesquisa: os próprios sobreviventes, bem como os curandeiros não-alopáticos. Parecia estranho que em um esforço para explicar as remissões inesperadas, nós não estávamos pedindo as opiniões das pessoas que de fato se curaram. Eu também não conseguia entender porque, ao tentar explicar uma remissão que por definição não era resultado de um tratamento alopático, nós não estávamos procurando as hipóteses dos curandeiros não-alopáticos.
Como resultado, a minha pesquisa de dissertação envolveu coletar hipóteses desses dois grupos previamente ignorados sobre porque as remissões inesperadas podem ocorrer. Mais especificamente, eu passei dez meses viajando o mundo à procura de cinquenta curandeiros não-alopáticos de câncer. A minha pesquisa me levou a entrevistar curandeiros dos Estados Unidos, China, Japão, Nova Zelândia, Tailândia, Índia, Inglaterra, Irlanda, Zâmbia, Zimbabwe, e Brasil (tradutores foram solicitados quando necessário). Quando retornei desta viagem incrível, encontrei vinte casos não publicados de remissão inesperada e conduzi entrevistas telefônicas com os sobreviventes. Eu propositadamente procurei por casos não publicados primeiro, a fim de ver se os problemas de baixa notificação de casos eram verdade – e eles eram. Sou grata a Sociedade Americana do Câncer por fornecer o financiamento parcial para este estudo.
Minhas entrevistas de setenta horas de duração resultaram em mais de três mil páginas de transcrições, que analisei várias vezes para encontrar temas recorrentes. Eu identifiquei mais de setenta e cinco “tratamentos” para o câncer, seis deles eram os “muito frequentes” entre todos os setenta sujeitos. Crenças subjacentes sobre o câncer também surgiram a partir das entrevistas, das quais três eram muito frequentes. Fico feliz em compartilhar esses resultados, aqui, de forma abreviada. Lembre-se que estas são apenas hipóteses, não fatos.
Crença 1: Alterar as condições sob as quais o câncer prospera
A maioria dos meus entrevistados acreditavam que o câncer se desenvolve sob certas condições sub-ideais no sistema mente-corpo-espírito e para remover o câncer, essas condições subjacentes precisam mudar. O curandeiro n.21, do Havaí, explicou desta forma:
As recuperações mais bem-sucedidas entre as pessoas com a doença parecem estar fortemente associadas com grandes mudanças no comportamento mental, emocional ou físico. O que é importante para uma pessoa, é claro,  pode  não ser o mesmo para a outra. . .  Eu sei de um caso de sucesso onde uma mulher deixou sua família, tomou uma nova religião, mudou seu vestuário e dieta, e se mudou para um país diferente. Talvez ela precisasse de todas essas mudanças, ou talvez não, mas no geral isso funcionou pra ela. Eu sei de outra pessoa, um homem, que simplesmente parou de tentar superar o seu pai, e isso funcionou pra ele.
Crença 2: Doença = Bloqueio / Lentidão; Saúde = Movimento
A maioria dos meus entrevistados também acredita que qualquer doença, incluindo câncer, representa um bloqueio ou lentidão em algum lugar do sistema corpo-mente-espírito, considerando que a saúde ocorre quando há um estado de circulação sem entraves ou fluxo.
Notas: Curandeiro 1 explicou a sua teoria da “evitação” (“bypasses” no original), que ele descreveu como mecanismos de defesa psicológicos que funcionam para criar um desvio em torno de um bloco energético. Ele disse que esse bloco energético pode ser localizado em qualquer nível espiritual, mental, emocional ou físico e que estas “evitações” solidificam ao longo do tempo. Na sua opinião, a verdadeira cura só ocorre quando uma pessoa (1) pára de evitar e (2) libera o bloqueio original.
Crença 3: A Interação Corpo-mente-espírito existe, e energia permeia os três níveis
A terceira crença que a maioria dos meus entrevistados debateu, foi a ideia de que uma interação corpo-mente-espírito existe e que a energia permeia todos esses três níveis. De acordo com o Curandeiro # 35, um americano de nascimento, xamã peruano treinado:
Você tem que ter cura na mente, corpo e espírito. . . A maioria de nós que vivemos em nossos corpos físicos, nós nem sabemos sobre os corpos espirituais ou emocionais. Então nós temos que conectar com todos os três. Mas você vê, nas montanhas dos Andes, [o povo andino] já está conectado.
Além dessas três crenças subjacentes sobre a saúde, havia também seis tratamentos que os sobreviventes do câncer e curandeiros debatiam com mais frequência. Estes incluíam “tratamentos” físicos, bem como emocional, energético e espiritual. Eles estão listados abaixo em ordem alfabética.
Alterar a dieta
A maioria dos meus entrevistados acreditava que era importante mudar sua dieta para principalmente hortaliças integrais, frutas, cereais e feijão, ao mesmo tempo eliminando a carne, açúcar, laticínios e grãos refinados. O Sobrevivente Inesperado nr. 16, que superou o câncer do fígado sem o tratamento médico convencional, explica as principais mudanças que ele fez em sua dieta:
[Eu me curei] apenas por fazer uma dieta vegan básica, boa, predominantemente crua e suplementando-a com muitos sucos, como suco de cenoura, que é claro, é cheio de nutrientes. E a razão pela qual os sucos são tão importantes é porque nós já devastamos, basicamente, toda a nossa produção… Esta é a razão para usar os sucos como suplemento… De repente o corpo diz, Uau! É como regar o gramado quando está seco.
Experimentando um aprofundamento da Espiritualidade
A maioria dos meus entrevistados também relatou sentir, – não apenas acreditar, mas realmente sentir – uma sensação interna de uma energia divina, amorosa. Alguns até tiveram experiências transcendentais, como o Sobrevivente Inesperado nr. 4, que se curou de um câncer de pulmão Estágio 3 sem o tratamento médico convencional:
Foi um retiro de dez dias, em silêncio, onde você não podia falar, você não poderia reconhecer outras pessoas na sala, e você só meditava por umas catorze horas por dia. E eu tive essa experiência que eu não posso explicar. Era como se, de repente, houvesse um flash, e nos meus olhos eu podia ver rios de energia girando em torno e ao mesmo tempo sentia a mesma coisa através de cada célula do meu corpo. E há uma palavra para isso, mas eu esqueci o que o professor disse que era, mas ele explicou que: “Você sentiu sua alma. Você sentiu sua verdadeira essência”. “E eu disse: Eu senti Deus? “E ele meio que sorriu e disse: Algumas pessoas podem chamar assim.”
Sentindo Amor/Alegria/Felicidade
A maioria dos meus entrevistados também discutiu a importância de aumentar o amor e a felicidade em sua vida, a fim de ajudar a recuperar a sua saúde.
Notas: [O Sobrevivente Inesperado 5, que superou um linfoma raro sem o tratamento médico convencional] disse que o curador energético / espiritual que ele viu, inundou seu sistema linfático com energia e que após o tratamento ele se sentia como “um adolescente apaixonado.” Ele sentiu amor por tudo e todos. Ele disse que o tratamento o fez perceber que se pudesse encontrar uma maneira de sentir este nível de amor incondicional  todo o tempo, então ele seria curado de seu câncer.
Liberando Emoções Reprimidas
Porque muitos dos meus entrevistados acreditavam que a doença representa um estado de bloqueio, então, eles acreditavam que era saudável  liberar todas as emoções a que tinham se apegado, como medo, raiva e tristeza. A Sobrevivente Inesperado 19, que superou o câncer de pâncreas, sem o tratamento médico convencional, explica sua visão sobre este processo:
Eu acredito que a energia presa no meu corpo que parecia ser uma massa ou um tumor, e que [meus médicos] chamavam de câncer, tinha sido causada por estes padrões que eu estava descrevendo para você e que não estavam sendo liberados, que são continuamente sobrepostos, mais e mais e mais, onde quer que estejam. Então, se é câncer de rim, é provavelmente medos excessivos; se é câncer de pulmão, é mágoa de algum tipo que não tenha sido resolvida. Quer dizer, eu acho que eles podem ser muito bem rastreados até padrões, padrões de pensamento, formas-pensamento que não estão sendo liberadas, e, portanto, que seguram na memória celular e não estão sendo liberados.
Tomar Ervas ou Vitaminas
Muitos dos meus entrevistados também tomaram várias formas de suplementos, com a crença de que eles ajudam a desintoxicar o organismo ou aumentar o seu sistema imunitário ou ambos. Aqui está como o Sobrevivente Inesperado  8, que superou o câncer de cólon Estágio 3, descreveu:
Dra. Turner: De todas as coisas que você me disse, qual você acha que foi a mais influente para a sua cura, ou todas foram igualmente influentes para você?
Sobrevivente Inesperado  8 : Eu diria que, para o meu corpo, seria o Wholly Immune [suplemento] que eu adquiri. . .  Ele tem cerca de 50 coisas diferentes nele. . . [Um amigo] pesquisou e disse: “Neste Wholly Immune, você tem sete combatentes de câncer. Se você estivesse tomando-os cada um por conta própria, não seria tão potente “. Ele disse que porque eles estão em combinação, o suplemento atua como um destruidor de câncer.
Usando a Intuição para ajudar a tomar decisões de tratamento
Finalmente, muitos dos meus entrevistados falaram sobre a importância de usar a intuição para tomar decisões relacionadas ao tratamento. Por exemplo, a Sobrevivente Inesperada 7, que superou um câncer de mama metastático recorrente depois que a medicina convencional falhou,  descreveu como a intuição de um curandeiro combinou com a sua:
[O curandeiro tibetano] levou o dedo e com uma precisão milimétrica tocou cada ponto do meu corpo que eu tinha câncer, ou onde eu tinha câncer atualmente. Foi incrível! Ele podia ver o que os exames não podiam ver. Eu havia previsto meu câncer quatro vezes. Eu tinha levado [os médicos] a isso com uma pontinha de precisão, antes de os exames  até mesmo pegarem o conjunto de células. [O curandeiro tibetano] podia fazer o que eu podia fazer com meu próprio corpo.
Além dos seis “tratamentos” listados acima, os quais eram comuns entre ambos os agentes de cura e os sobreviventes inesperados, havia tratamentos adicionais que eram mais frequentes em um grupo que o outro. Por exemplo, os três temas seguintes foram muito frequentes entre os vinte sobreviventes inesperados, mas menos entre os curadores.
Tomar o controle das decisões de saúde
A grande maioria dos sobreviventes inesperados relataram ter assumido um papel mais ativo na tomada de decisão sobre sua saúde, ao contrário de aceitar passivamente o que quer que seus médicos lhes dissessem. A Sobrevivente Inesperada 9, que superou o câncer de mama metastático recorrente, após  a medicina convencional falhar, descreve desta forma:
Uma vez que o pânico e o medo tinham desaparecido, depois do câncer de mama voltar pela quinta vez,  senti tanta certeza como eu nunca tinha sentido de que a única pessoa que poderia me salvar era o cientista interior. . . Por cinco anos, eu tinha feito tudo que meus médicos tinham aconselhado e me submetido a todos os tratamentos que eles haviam prescrito. . . [Desta vez] eu decidi que em vez disso eu olharia para o câncer de mama de uma forma isolada, como um cientista natural, e tentaria entender a doença como um tipo de fenômeno natural.
Ter uma forte vontade de viver
A grande maioria dos sobreviventes inesperados demonstrou uma forte vontade de viver. A Sobrevivente Inesperada 15, que superou o câncer de mama estágio 3 sem a medicina convencional, demonstra essa obstinação:
O médico me disse: “Depois que você fizer essa cirurgia e ter a quimio e radioterapia, podemos dar-lhe mais cinco anos para viver.” E eu pensei, eu quero viver mais de cinco anos! Assim, quando o médico disse isso, eu fiquei louca. . . Então eu meio que saí com uma atitude de que isso não vai me abater. Eu vou fazer isso.
Receber apoio social
Finalmente, a grande maioria dos sobreviventes inesperados deste estudo descreveu receber apoio social positivo durante a sua experiência com o câncer. A Sobrevivente Inesperada 13 descreve o demonstração de amor que ela recebeu:
Uma das coisas que eu realmente aprendi [quando eu tive câncer] é que sou valorizada. . . Eu era capaz de compartilhar a realidade da minha experiência, e as pessoas reagiam a isso e entravam em cena para fazer o que fosse necessário. Foi uma enorme validação do universo e de que toda a vida é valorizada. Eu não era valorizada porque eu sou eu, minha pessoa, necessariamente, mas porque minha vida tem valor. Toda a vida tem valor, e isso inclui a minha. . . É uma conseqüência maravilhosa dessa doença, a efusão do amor. Bem, talvez seja o propósito.
Havia dois temas que ocorreram mais frequentemente entre os curandeiros do que entre os sobreviventes inesperados: (1) cura, infusão, ou energia desbloqueada e (2) o reforço ou a ativação do sistema imunológico. Você pode ler mais sobre estes, bem como uma análise mais aprofundada de todos os temas, na minha dissertação completa (em inglês).

Direções Futuras

Os resultados deste estudo qualitativo fornecem algumas hipóteses sobre o porquê da remissão inesperada poder ocorrer. O que é necessário agora é que os pesquisadores estudem essas hipóteses em ensaios clínicos que podem testar primeiro por segurança, depois por viabilidade e, finalmente, pela causalidade. Além disso, há uma necessidade imediata de um banco de dados central de relatórios de casos inesperados de remissão, de preferência um que esteja online.
Atualmente, estou trabalhando na criação de tal banco de dados e site, com a esperança de que sobreviventes, médicos e curandeiros consigam rapidamente apresentar os seus relatórios de casos para que pesquisadores como eu, possam verificá-los e analisá-los. Eventualmente, este não-identificado (anônimo)  banco de dados também poderá ser buscado pelo público, servindo não apenas como um portal para pesquisadores, mas também como fonte de inspiração para pacientes com câncer que estão atualmente lutando contra a doença.
Se você conhece alguém que curou seu câncer ou (1) sem a medicina convencional, (2) após a medicina convencional falhar, ou (3) que usaram métodos integrativos para sobreviver a um prognóstico terrível, por favor, incentive-os a apresentar o seu caso em www.UnexpectedRemission.org (atualmente em versão beta). Todos os relatórios apresentados serão automaticamente desidentificados, salvo se o sobrevivente especificamente pedir para não o fazer.
Para encerrar, eu gostaria de dizer que o estudo das anomalias tais como remissões inesperadas não é nem fácil, nem incontroverso, nem imediatamente proveitoso. No entanto, eu acredito firmemente que essa pesquisa pode nos levar a um novo paradigma de conhecimento científico, e que por investigar rigorosamente as remissões inesperadas -ao invés de simplesmente ignorá-las, podemos fazer progressos significativos na guerra contra o câncer.
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Notas:
1. B. O’Regan, Spontaneous Remission: An Annotated Bibliography (Institute of Noetic Sciences, 1995).
2. W. H. Cole, “Efforts to Explain Spontaneous Regression of Cancer,” Journal of Surgical Oncology 17, no. 3 (1981): 201–209.
3. W. Boyd, The Spontaneous Regression of Cancer (Springfield, IL: Charles C. Thomas, 1966); T. C. Everson and W. H. Cole, Spontaneous Regression of Cancer (Philadelphia: W. B. Saunders, 1966).
4. B. O’Regan, Spontaneous Remission: An Annotated Bibliography.
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Fonte: http://inconscientecoletivo.net/quando-o-cancer-desaparece-o-curioso-fenomeno-da-remissao-inesperada/?utm_source=feedburner&utm_medium=email&utm_campaign=Feed%3A+InconscienteColetivonet+%28Inconsciente+Coletivo.net%29

sábado, 2 de junho de 2012

Noite em claro

 MARTHA MEDEIROS*
 
A maioria das pessoas admite ter alguma dificuldade para dormir. Ou elas custam a pegar no sono, ou então dormem assim que desligam o abajur, porém acordam no meio da madrugada, por nada. Fazemos parte de uma confraria que preza suas cinco a sete horas de descanso (oito é para afortunados), mas que não apaga profundamente como deveria, a não ser com a ajudinha de um Rivotril ou similar. Se é ansiedade, excesso de preocupação ou herança genética, problema para os especialistas ajudarem a resolver. Eu não posso me queixar, durmo cedo e rápido. Mas como se viram os insones clássicos? Abraham Lincoln realizava caminhadas noturnas, Groucho Marx ligava para estranhos e os insultava, Cary Grant recorria à hipnose, Charles Dickens tinha que posicionar a cabeça para o norte e Marilyn Monroe se entupia de comprimidos – exagerou, como se sabe.
Já os reles mortais leem enquanto o sono não vem.
No entanto, sei de uma mulher que, em vez de ler, resolveu escrever um livro durante uma noite chuvosa. Nunca havia escrito nada antes. Fez um pacto consigo mesma: enquanto a chuva não parasse, ela não pararia de escrever – e como choveu a madrugada inteira, a cântaros, ela passou a noite em claro, com tempo mais que suficiente para fazer um inventário de sua vida amorosa e sexual, que não tinha nada de vitoriana, como a obra de Dickens, nem de engraçada, como a de Groucho Marx. Era a história de alguém que raramente conseguiu conciliar amor e sexo numa mesma relação, e resolveu por bem escolher entre um e outro. Escolheu o sexo.
O nome dela? Não sei. Não tem. É uma personagem que inventei. Escrevi essa história em 2003 ou 2004. Uma ficção curtíssima que nunca foi publicada, nem teria onde, sendo tão enxuta. Pois bem: depois de eu fazer essa personagem povoar uma madrugada inteira com suas lembranças de amores imperfeitos (todos são), calei-a. Coloquei o ponto final na obra e deixei essa mulher descansar. Ela ficou dormindo dentro do meu computador por cerca de nove anos. Esqueci dela. Até que o Ivan Pinheiro Machado, meu editor, comentou que a L&PM estava lançando uma coleção de bolso chamada “64 Páinas”, só para textos breves. Era a chance que eu tinha de deixála sair do seu quarto escuro. Acordei-a, dei uma revisada em suas confissõs ora melancóicas, ora picantes, e agora ela vai pra rua.
“Noite em Claro” já deve estar nas livrarias, supermercados e farmácias, a um preço megapopular: cinco reais. Ideal para deixar na mesinha de cabeceira, ao lado da cama, para o caso de o sono não vir. Mas espero que a leitura seja tão dinâica que não permita que você pregue os olhos antes do fim.
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* Escritora. Colunista da ZH
Fonte: ZH on line, 03/06/2012
Imagem da Internet

O afeto ou a bolsa

Miguel Reale Júnior*

Haveria da parte dos filhos em relação aos pais, do marido em relação à mulher, da mãe em relação à filha o direito de requerer judicialmente que lhe seja dedicado afeto? Haveria a possibilidade de alguém pretender o bem-querer de outrem como dever jurídico por ser seu filho, marido ou mãe? Como impor a alguém ser afetuoso em razão de laço de sangue ou de liame matrimonial? Por não se ter sido afetuoso, pode-se transformar essa falta de afeto em dinheiro, por descumprimento do dever de agir afetuosamente?
Essa questão vem sendo erroneamente apreciada pelos tribunais, culminando com recente decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) na qual se confundem integralmente direito e moral. Dentre os vários exemplos, há duas decisões conflitantes do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Segundo o entendimento da 7.ª Câmara Cível, caberia ao pai pagar indenização, embora prestasse regularmente alimentos, "em face da dor sofrida pelo filho, em virtude do abandono paterno, que o privou do direito à convivência, ao amparo afetivo, moral e psíquico". Mas, em decisão oposta, a 12.ª Câmara Cível, com razão, considerou indevida a indenização por danos morais em vista da ausência da figura paterna: "Ninguém é obrigado a amar ou a dedicar amor", pois "a paternidade requer envolvimento afetivo e se constrói com o passar do tempo, através de amor, dedicação, atenção, respeito, carinho, zelo, etc, ou seja, envolve uma série de sentimentos e atitudes que não podem ser impostos a alguém e muito menos serem quantificados e aferidos como dano indenizável".
No STJ decidiu-se que caberia ao pai pagar à filha indenização, pois houve ausência quase completa de contato paterno com a reclamante, em descompasso com o tratamento dispensado a outros herdeiros. Hoje casada e professora, a filha declarou a este jornal: "Desde que nasci ele nunca me quis". Revelou, também, que em toda a sua vida sentiu falta de ter um pai: "Uma pessoa para me aconselhar, para conversar, para me ajudar no que eu precisasse, eu nunca tive. Eu me encontrei com meu pai algumas vezes, tanto que ele pagou a pensão porque foi obrigado, mas em nenhuma das vezes ele me deu atenção".
Para a ministra Nancy Andrighi, há deveres de convívio, cuidado, educação, transmissão de atenção, acompanhamento do desenvolvimento sociopsicológico dos filhos: "Amar é faculdade, cuidar é dever". A seu ver, além do estabelecido na lei, "os pais devem garantir aos filhos, ao menos quanto à afetividade, condições para adequada formação psicológica e inserção social".
No caso, a filha conseguira a "inserção social", mas a ministra entendeu, conforme noticiou o Estado (2/5), não se poder negar ter havido "sofrimento, mágoa e tristeza", que persistem como decorrência das omissões de cuidado do pai, daí derivando dever de indenizar. No seu entender, há, para além da lei, deveres de transmissão de atenção e de afetividade. Estes, portanto, não defluem da lei, mas de juízo moral do julgador, comovido com o sofrimento da filha, quando é certo não ser eventual dor, de difícil constatação, que legitima indenização, mas sim a violação a bem jurídico essencial, garantido pelo direito. A conduta do pai desatencioso com o filho, apesar de cumpridor dos deveres alimentares, pode ser moralmente censurável, mas não ilícita.
Ora, se o dever não decorre da lei, mas de juízo moral, inexiste pretensão juridicamente assegurada, pois não há direito subjetivo ao afeto, transformando-se o amor em dever jurídico. Se era incabível requerer judicialmente, quando criança, que o pai lhe dedicasse afeto, como depois transformar a ausência desse afeto em indenização monetária? Mistura-se o moralmente reprovável com o juridicamente exigível, quando apenas cabe indenização por descumprimento de dever jurídico. Pode ser censurável não ter afeto pelo filho, mas tal não constitui falta de cuidado legalmente estatuído e a lei jamais poderia impor a efetividade de carinho paterno.
A frase de efeito, repetida na imprensa, "amar é uma faculdade, cuidar é dever" incide em equívocos, pois faculdade consiste na possibilidade de exercício de um direito. Amar não é uma faculdade, é sentimento espontâneo de bem-querer que não deriva da lei.
Cuidar de criança ou adolescente é um dever, mas dentro de quais limites legais? O Código Civil e o Estatuto da Criança e do Adolescente estabelecem que cumpre aos pais prover alimentos: nutrição, saúde, habitação e educação. No Código Penal estatui-se ser crime o abandono material e intelectual consistente em deixar, sem justa causa, de prover a subsistência do filho ou sua instrução. No campo do direito não se confunde cuidado com cuidar afetivamente.
Dar afeto ou cuidar afetivamente - ser conselheiro, amigo, garantir equilíbrio emocional e inserção social - não constitui um dever jurídico, a não ser que se queira instituir a hipocrisia por força de lei. Muitas são as circunstâncias que a vida apresenta quanto aos afetos, a começar pela espontânea afinidade surgida sem se saber por quê. Pretender colocar o Estado a ditar o sentimento do afeto é um autoritarismo paternalista inaceitável. Com clareza assinalou a jornalista Eliane Brum não caber a nenhum tribunal analisar "sentimentos" e desferir punições pela ausência ou excesso de "sentimentos".
A decisão é preocupante exemplo de mercantilização das relações afetivas, com o risco de incompatibilidades naturais gerarem mágoa e, depois, a ação indenizatória como represália. Grave é o Estado assumir o papel de grande tutor, para suprir o desamor, impondo compensação em dinheiro, que algumas vezes pode apenas ter gosto de vingança. No STJ acaba-se, sem se aperceber, por consagrar o dever de cuidar amorosamente, substituindo-o pelo dever de indenizar monetariamente.
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* Jurista. Professor Universitário. Escritor.
Fonte: Estadão on line, 02/06/2012
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