terça-feira, 8 de março de 2016

Truques para que a vida de ‘frila’ não acabe com seus nervos

Ser um profissional autônomo pode prejudicar seriamente a saúde mental, aponta estudo

Freelance: esse sujeito sortudo que pode trabalhar de pijama ou enquanto cozinha, sem precisar acordar de madrugada para ir a um escritório distante, que pode decidir os próprios horários e ter dias livres a seu bel-prazer. A vida boa. Mas que também tem inconvenientes, claro: instabilidade, tarifas baixas, férias não remuneradas e renda flutuante. Viver na corda bamba. O que não se conhece tanto são os perigos que a atividade representa para o bem-estar mental e a vida cotidiana desses surfistas do mercado de trabalho. A liberdade é muito dura e vem acompanhada de procrastinação, gestão ruim do tempo, sedentarismo, ansiedade, apatia e medo. Como superá-los?

Um estudo do hospital de Bellvitge, de Barcelona (Espanha), publicado em janeiro alerta sobre o perigo do trabalho autônomo. Os pesquisadores dizem que o fator mais diretamente associado com uma licença de longa duração por problemas de saúde mental (de ansiedade a esquizofrenia) é o regime laboral: os autônomos têm o dobro de chances de necessitá-la.
 
Por quê? O estudo não procurou as causas, mas os psiquiatras sugerem que o fenômeno se deve à maior vulnerabilidade desses profissionais e também ao fato de que recebem menos da seguridade social (os que a possuem) e esperam até o último momento para solicitar a licença, quando a doença já se agravou.

Não deixe para amanhã...

Entre tudo o que pode acontecer dentro da cabeça de um frila, um dos problemas fundamentais é a procrastinação: a tendência a deixar para amanhã (ou mais tarde) o que podemos fazer hoje (ou agora mesmo). As distrações são cada vez mais numerosas: redes sociais, videogames, imprensa digital, geladeira, TV, bar... Afinal, somos nossos próprios chefes. Mas a procrastinação não é brincadeira: há quem adie a visita ao médico sempre para o dia seguinte e, quando finalmente a realiza, sua doença já está grave ou irreversível, como afirma Piers Steel no livro A Equação de Deixar para Depois (Editora Best Seller, 2012).

“Quando procrastinamos, a consciência sofre golpes e vivemos imersos num contínuo mal-estar”, diz o psicólogo clínico Fernando Azor. O ser humano tende a aproveitar mais uma recompensa de curto prazo (navegar nas redes sociais e sair para fumar, por exemplo) que de longo prazo (acabar o trabalho e receber no final do mês). Assim, sempre encontramos explicações racionais para deixar as coisas para depois. Quem não se pôs a limpar a casa em vez de terminar um trabalho?

“Essencialmente, há várias razões para procrastinar: excesso de perfeccionismo, medo e insegurança e ter de fazer coisas que realmente não desejamos. São três fatores que nos paralisam”, explica Azor. O antídoto? “A renúncia correta”, segundo o psicólogo. Ou seja, deixar de fazer coisas demais no mesmo dia e de ser perfeccionista além da conta. Há outros conselhos: fazer listas de objetivos diários, priorizar as tarefas mais importantes, eliminar distrações (desativando as redes sociais, por exemplo) e, sobretudo, ter expectativas realistas: não se propor a fazer mais coisas do que podemos num dia – o que nos levaria ao fracasso, à frustração e ao desencanto. O mais difícil é quebrar a barreira mental do minuto um: colocar as mãos na massa. Uma vez que você começa a trabalhar, as coisas fluirão mais.

Não tenha medo do futuro

Os frilas costumam viver regulando os gastos, pois sempre vivem altos e baixos. A carga de trabalho flutua: passam dias sem nada para fazer e outros atolados de tarefas. Na temporadas de vacas magras, o frila pensa que o futuro é tenebroso; e quando há picos de trabalho, fica cheio de otimismo... e estresse.

Uma vez mais, a solução é se organizar corretamente. “De novo é preciso recorrer à renúncia”, diz Azor. “Os autônomos costumam aceitar todos os trabalhos que lhes oferecem, pois não há garantia de trabalho no futuro. Às vezes, porém, é preciso reconhecer que estamos no limite e que é preciso renunciar.”

O ser humano tende a aproveitar mais uma recompensa 
de curto prazo que de longo prazo 

Uma forma óbvia e boa de enfrentar essa instabilidade, esse medo do futuro laboral, é economizar. Com uma boa poupança, você vê tudo de outra maneira. Por isso, aproveite essas temporadas de trabalho para encher um pouco o cofre.

Para frear a ansiedade galopante, é importante aprender a se desconectar. “Os autônomos costumam estar sempre checando os e-mails e o telefone, pois nunca se sabe quando pode aparecer um cliente. Mas é preciso ter horas de desconexão”, diz Azor. Para o cliente, é muito bom que o freelance esteja sempre disponível, mas não tanto para a saúde do próprio trabalhador. Portanto, aprenda a separar entre o tempo de prazer e o tempo de trabalho. Não responda aos e-mails da poltrona do cinema nem acabe um projeto de madrugada. Além disso, convém combater os nervos como qualquer outra pessoa: com boa alimentação, exercício físico (a academia, além de nos proporcionar um bíceps contundente, ajuda a sair de casa), redução do consumo de álcool, ioga ou meditação, segundo os especialistas consultados.

Saia da sua jaula

“Aqui é como minha segunda casa”, afirma o escritor e jornalista Eduardo Laporte, sentado a uma mesinha de uma livraria-café em Madri. “Se, por ser autônomo, eu ficasse o dia todo em casa, acabaria falando com as plantas. Passo nesses lugares ao redor de um terço da minha vida laboral.”
Muitos autônomos possuem escritório a escassos cinco metros da cama: os que vão do quarto à mesa da sala. Trabalhar em casa pode ser fantástico, mas também complicado. As pessoas que vão a um escritório se veem obrigadas, toda manhã, a tomar banho, vestir-se bem e tomar um meio de transporte para chegar ao emprego: neste momento, já aceitaram que é hora de trabalhar. Mas se o sujeito fica em casa, como detectará que chegou o momento de começar, se continua escornado no sofá com remelas nos olhos e o olhar perdido no noticiário da manhã?

As soluções são várias: de tomar banho e se vestir como se fôssemos ao escritório (coisa, vamos admitir, pouco realista) até sair para tomar café ou ir à academia. De volta à casa, saberemos muito bem que é hora de arregaçar as mangas.

Uma opção pode ser trabalhar fora de casa. A melhor opção é escolher um espaço de coworking (local que oferece comodidades de trabalho para várias pessoas), como os que proliferam por aí. Além de obrigar você a tirar o pijama e colocar mãos à obra, esses lugares prometem boa companhia (o frila vê que não está sozinho), e as famosas sinergias que fazem com que, no ambiente de trabalho compartilhado, surjam novos e apaixonantes projetos.

A versão barata e cada vez mais popular é o bar com conexão a internet, praticada pelo escritor Laporte e por toda uma tropa de autônomos que invadem os cafés sedentos de wi-fi grátis. Há alguns espaços perfeitamente preparados para o trabalho, oferecendo grandes mesas e uma potente conexão à rede. Alguns já andam tão silenciosos e cheios de gente digitando em computadores e tablets que parecem mais escritórios que cafés. Fazer muito barulho neles é motivo de constrangimento. Nesse caso, mantenha silêncio e trabalhe duro.

Seja sociável e sorria

“Para um autônomo, o lado negativo da liberdade é o caos”, escreve o jornalista freelance Toni García em Autónomos, la guía definitiva (Editora Blackie Books, inédito no Brasil). Um livro que, entre milhares de conselhos sobre notas, remuneração e contratos, dá algumas dicas para a sofrida vida cotidiana. Por exemplo, a disciplina, a poupança, a boa gestão da incerteza, (“manter a cabeça fria em tempos de convulsão”) e a justa competição: “Tente manter a competição em termos legítimos: não deixe de pedir o que acha que é justo e não faça nada que não desejaria que lhe fizessem”, recomenda.

A sociabilidade também importa, pois pode ser muito triste trabalhar o dia todo sozinho e limitar o contato com outros seres humanos a e-mails e ligações telefônicas. Mas também porque frequentar diferentes reuniões sociais torna o frila mais conhecido entre sua possível clientela e atrai trabalho. “Sempre que possível, obrigue-se a sair à rua. Aprenderá muito sobre como funcionam os modernos circuitos de trabalho e conhecerá pessoas que podem ajudar você no futuro.”

Ah, e leve sempre um sorriso, diz García. “Isso não servirá de nada, mas quebrará o clima com o diretor do banco, seus competidores e até mesmo seu vizinho. Os autônomos hão de ser desconcertantes, não se esqueça disso.”
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Reportagem por  Sergio C. Fanjul 
Fonte:  http://brasil.elpais.com/brasil/2016/02/26/estilo/1456483818_031121.html

Do teto de vidro a um tapete de cacos

Ban Ki-moon*


Como um menino crescendo na Coreia do pós-guerra, lembro-me de perguntar sobre uma tradição que observava: as mulheres em trabalho de parto deixavam seus calçados em uma soleira e, em seguida, olhavam para trás com medo. "Elas se questionam se irão usá-los novamente", explicou minha mãe na ocasião. 

Mais de meio século depois, a memória continua a me assombrar. Em partes pobres do mundo, as mulheres ainda enfrentam risco no processo de gestação da vida, um dos muitos perigos evitáveis. 

Bebês do sexo feminino são vítimas de mutilação genital. Meninas são atacadas em seu caminho para a escola. Os corpos das mulheres frequentemente servem de campos de batalha nas guerras. Só podemos resolver esses problemas por meio da capacitação das mulheres como agentes de mudança.

Paulo Branco

Por mais de nove anos, coloquei essa filosofia em prática nas Nações Unidas. Temos quebrado tantos telhados de vidro que criamos um tapete de cacos. Agora, estamos varrendo as suposições e os preconceitos de antes, para que as mulheres possam ultrapassar novas fronteiras. 

Nomeei a primeira comandante de uma Força de Paz da ONU, e levei a representação das mulheres aos maiores níveis da história de nossa organização. 

Mulheres são agora líderes no coração da paz e da segurança, um âmbito que já foi domínio exclusivo dos homens. Atualmente, quase um quarto de todas as missões da ONU são chefiadas por mulheres. Ainda não é o suficiente, mas o grande avanço é inegável. 

Para garantir que este progresso seja duradouro, desenvolvemos uma iniciativa em todo o sistema da ONU. Antes vista como uma ideia louvável, a igualdade de gênero tornou-se uma política consistente. No passado, só pequenas partes dos orçamentos da ONU eram destinadas ao tema; hoje o padrão é investir um terço deles, em tendência crescente. 

Confúcio ensinou que, para colocar o mundo em ordem, temos de começar por nossos próprios círculos. Armado com a prova do valor das líderes na ONU, divulguei o empoderamento das mulheres. 

Tenho insistido na igualdade entre homens e mulheres e pedido enfaticamente medidas para alcançá-la em diversas ocasiões, como em discursos em parlamentos e universidades, em conversas com líderes mundiais e executivos, em encontros com homens poderosos que comandam sociedades patriarcais. 

Quando assumi a secretaria-geral da ONU, havia nove parlamentos pelo mundo sem mulheres. Ajudamos a reduzir esse número para quatro. Lancei a campanha "Una-se" pelo fim da violência contra as mulheres, em 2008. Atualmente, dezenas de líderes e ministros, centenas de parlamentares e milhões de pessoas acrescentaram seus nomes a essa mobilização. 

Fui o primeiro homem a assinar a nossa campanha HeForShe –ElesPorElas no Brasil–, e mais de 1 milhão de outros se uniram desde então. Coloquei-me ao lado dos ativistas que pedem o fim da mutilação genital feminina e comemorei a primeira resolução da Assembleia Geral da ONU sobre o tema. 

Estou ecoando apelos de muitos para que as mulheres possam tornar bem-sucedidos o Acordo de Paris sobre o clima e nossa ambiciosa agenda 2030 para o desenvolvimento sustentável. 

Neste Dia Internacional das Mulheres, persisto indignado com a negação de direitos para as mulheres e meninas –e, ao mesmo tempo, me inspiro em pessoas que agem sabendo que o empoderamento das mulheres leva ao progresso de toda a sociedade. Devemos dedicar recursos contínuos, uma defesa corajosa e uma vontade política inabalável para alcançar de fato a igualdade de gênero. Não há maior investimento no nosso futuro comum. 
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BAN KI-MOON é secretário-geral da ONU - Organização das Nações Unidas 
Fonte:  http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2016/03/1747407-do-teto-de-vidro-a-um-tapete-de-cacos.shtml

segunda-feira, 7 de março de 2016

Brasil não tem oposição coesa para aproveitar fraqueza de Dilma, diz filósofo

 
Com todos os acontecimentos ocorridos na última semana, as condições para o impeachment da presidente Dilma Rousseff se ampliam. Porém, não há uma oposição coesa que possa se aproveitar desse momento de fraqueza do PT e do governo. Essa é a opinião do professor de ética e filosofia da Unicamp Roberto Romano, em entrevista à Mariana Della Barba da BBC Brasil, 06-03-2016.
Doutor em filosofia pela Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales, de Paris, e pós-doutor pela Unicamp, Romano vê a ação realizada pela Polícia Federal contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como resultado do "imenso ego" do líder petista. Segundo ele, o que é preciso temer agora é o risco de acirramento das disputas nas ruas.

Eis a entrevista.

Como o senhor avalia a sexta-feira?
Foi certamente um dia inédito. Mas não foi um dia histórico. Quando muito, foi histérico. O que vimos foi o caminhar de uma ação institucional contra um líder importantíssimo. Um ex-presidente que saiu do poder com 80% de aprovação popular.

Na opinião do senhor, a ação foi exagerada?
Não. Mas houve uma aceleração de um processo que poderia ser feito com mais tranquilidade.

E ao que se deve essa aceleração?
Houve uma situação de um ego enorme do presidente Lula, que se sentiu desrespeitado por ter sido convocado para depor e foi desafiando as instituições. Mas ainda é preciso investigar o grau das provas que vão integrar o processo. O que vimos hoje foi mais um resultado desse imenso ego.

Como Lula sai depois da condução coercitiva para depor?
Lula sai muito enfraquecido. É claro que ele segue sendo uma liderança importantíssima. Mas é alguém que chegou a 80% de aprovação e hoje está no cenário em que está (20% da intenção de votos e 49% de rejeição, segundo pesquisa do Datafolha divulgada em fevereiro). Com esse episódio, vai perder ainda mais popularidade.

E qual o impacto no Partido dos Trabalhadores?
O PT está pagando por um de seus maiores erros. Não podemos esquecer que o maior problema aqui é o relacionamento simbiótico entre Lula e o partido. Esse foi um erro estratégico do PT, porque as lideranças regionais foram podadas. Se hoje essas lideranças existissem, que fossem quatro ou cinco pessoas, Lula estaria numa situação mais confortável. Mas ele está sozinho. Outro erro foi o PT se distanciar da sua base e abandonar a militância, dando preferência as alianças políticas. Se quiser retomar o seu ímpeto político, o PT precisa rememorar sua história e retomar isso.

Com os desdobramentos desta sexta-feira, como ficam as chances de impeachment da presidente Dilma Rousseff?
Agora (com a condução coerciva de Lula), as condições para o impeachment se ampliam. Mas é preciso lembrar que o Brasil não tem uma oposição coesa, capaz de fazer frente ao governo, para aproveitar esse momento de fraqueza da presidente. O que temos hoje são vários líderes oposicionistas, mas cada um com um interesse próprio. O PMDB teria essa capacidade de coesão em momentos de crise, mas para isso precisaria passar por uma acomodação interna.

No cenário atual, há riscos de radicalização?
Eu não acredito em “venezuelização” do país, até porque o PT não tem o controle total do Estado e nem uma grande hegemonia, como os chavistas. Mas tenho receio do que pode acontecer em termos de protestos e enfrentamentos de rua, já que não temos um sistema nacional de segurança eficiente. Com a polícia truculenta que temos, o que pode acontecer na Avenida Paulista com milhares de lulistas e oposicionistas? Não há como descartar a possibilidade de violência e até mortes. Vivemos em um país em que não há governabilidade.

Como assim?
Estamos vivendo uma crise do Estado brasileiro. Porque o nosso Estado segue moldes do século XIX. É claro que temos crises semelhantes em muitos outros países. Mas a máquina do Estado brasileiro é totalmente ultrapassada, com privilégios de foro e outros fatores que só acontecem no Brasil.
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Fonte:  http://www.ihu.unisinos.br/noticias/552291-brasil-nao-tem-oposicao-coesa-para-aproveitar-fraqueza-de-dilma-diz-filosofo
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Até os orixás estão de saco cheio

Luiz Felipe Pondé*
 
A crença nos espíritos data da pré-história. E tudo que data da pré-história e dura até hoje implica razoável sucesso evolucionário. Levo a pré-história muito a sério e a julgo tão importante quanto os últimos 200 anos para que possamos entender os humanos. Só pessoas superficiais em repertório e pobres de espírito avaliam a humanidade sem levar em conta o Alto Paleolítico (nosso melhor momento). 

A escuridão do mundo e seus ruídos, a presença dos sonhos à noite e o medo da morte seguramente pavimentaram o caminho para o mundo dos espíritos. 

Uma coisa que sempre me chamou a atenção na crença nos espíritos é como eles estão sempre envolvidos com as coisas terrenas. Afinal, se já desencarnaram, qual a razão de ficarem se enrolando com os assuntos dos encarnados? Sei da resposta padrão: missão. 

Muitos desses espíritos precisam cuidar dos assuntos terrenos para que eles mesmos ganhem alguma luz em suas evoluções espirituais. Como parte importante dessa evolução espiritual está a necessidade de nos ajudar em nossos rolos. Seres humanos sempre patinam nas mesmas coisas. 

Já tive algumas oportunidades de ver orixás e entidades variadas, como Exu (em si um orixá), Pombagira, Caboclo, Preto Velho e outros, em ação. Em algumas dessas vezes cheguei a conversar com eles, e impressiona uma certa sabedoria popular presente em suas falas. Na realidade, existem três grande áreas de choque na vida das pessoas: 1. trabalho e dinheiro, 2. saúde e doença, 3. amor e família. Se você pensar um pouco, verá que a maioria das coisas que nos afetam, transita, pelo menos, por uma dessas três áreas. 

Muitas vezes, suspeito que algumas dessas entidades entendem melhor sobre humanos do que muitos professores e "cientistas" das humanidades. 

Por isso, talvez, as falas desses espíritos nos soem tão significativas. Seja porque eles (os espíritos) de fato entendem das nossas agonias, seja porque os pais de santo e as mães de santo é que entendem dessas nossas agonias, como pensa o cético. De qualquer forma, não me interessa a crítica cética aqui. Interessa-me apenas como muitas dessas entidades falam de coisas que de fato nos tocam no dia a dia. Talvez mesmo porque sejamos banais e comuns: todos nós vivemos quase o tempo todo passando por aquelas três grandes áreas de choque descritas acima. 

Numa conversa familiar e entre amigos, uma dessas pessoas muito conhecedoras "do ramo" soube de um relato que me chamou a atenção, e que quero partilhar com você aqui, cara leitora e caro leitor.
O relato é o seguinte. Numa gira (evento em que entidades da umbanda atendem pessoas em suas agonias cotidianas), um Caboclo (caboclos são da linhagem de Oxóssi) de grande experiência em atendimento (cujo "cavalo" é um pai de santo de enorme sucesso no ramo) se aborreceu profundamente com as demandas de seus "clientes" ali presentes. Vale salientar para os especialistas que se tratava de um terreiro de candomblé que tem giras de umbanda também, o que é cada vez mais comum. 

Precisamos lembrar que, mesmo no ramo de atendimento espiritual, você deve tomar cuidado para não "chutar o saco do cliente", porque ele pode procurar outro orixá, de outro terreiro, para se consultar. E, normalmente, consultas assim podem se transformar em "trabalhos" de todos os tipos, "trabalhos" esses que giram a economia do terreiro e de quem se dedica a essa profissão. Nem só do verbo vive o homem, mas também do pão e da carne. 

A irritação do Caboclo (eu sei o nome dele, mas não quero expô-lo aqui) foi com as "conversinhas" de seus clientes ali presentes. Segundo o Caboclo, todo mundo só queria falar com ele sobre "bobagens mesquinhas". E ele, vindo de "tão longe", perdera a paciência para atender pessoas tão bobas. Para nosso Caboclo, o irritante era a "infantilidade" das pessoas ali presentes. 

Posso imaginar a irritação de um ser que já passou pela Terra antes de ela ser tomada pela comunidade de retardados em rede que hoje assola o mundo. Até os orixás estão de saco cheio. Caboclo de coragem esse. E sábio.
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* Filósofo.
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2016/03/1747069-ate-os-orixas-estao-de-saco-cheio.shtml
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Superocupação improdutiva

 Guilherme wisnik*
 
Por que é que nos sentimos cada vez mais ocupados e, ao mesmo tempo, menos capazes de perceber o resultado palpável daquilo que fazemos? Trata-se de uma estranha forma de vida em piloto automático: quanto mais mensagens de e-mails você se dedicar a responder, mais mensagens terá para responder de volta no dia seguinte. 

Parece haver um sinistro paralelo entre a desmaterialização das coisas sob a égide do capital financeiro e a superocupação improdutiva do nosso cotidiano atual. Afinal, a economia financeira não acrescenta riquezas ao mundo, mas, ao contrário, gera valor especulando-o de forma predatória. Nós, igualmente, internalizamos o trabalho em nosso cotidiano, colonizando os antigos momentos de ócio e de lazer com atividades supostamente produtivas, e matando o tédio criativo com a permanente e ansiosa comunicação de informações pela internet. 

Esse é o tema do livro "Sociedade do Cansaço" (Editora Vozes, 2015, 78 págs., R$ 22), de Byung-Chul Han, filósofo sul-coreano radicado na Alemanha. Segundo Han, vivemos um momento de importante quebra de paradigmas culturais, que vem substituindo os valores de alteridade e de negatividade pela positividade homogeneizadora. 

Assim, se o século 20 foi uma era bacteriológica, baseada no paradigma bipolar da imunorreação do eu contra a ameaça infecciosa do outro, as patologias contemporâneas são neuronais (depressão, transtorno de déficit de atenção), causadas por excessos do próprio eu contra si próprio. 

Inaugurada pela queda de um muro, a nossa era assiste à abertura desregulamentada do mundo para a promiscuidade da globalização, em que tudo se equaliza. 

Igualmente, o paradigma da sociedade disciplinar, feita de hospitais, asilos, presídios, quartéis e fábricas, cede lugar a uma sociedade do desempenho, povoada por academias fitness, torres de escritórios, bancos, aeroportos e shopping centers. Empresários de si mesmos, seus habitantes não são mais sujeitos da obediência, mas do desempenho e da produção movidos pela energia motivacional: "Yes, we can". Incitados à iniciativa pessoal, internalizam a disciplina sob a forma de uma aparente liberdade de ação. Assim, enquanto a antiga sociedade gerava loucos e delinquentes, a atual produz fracassados e depressivos, paralisados por uma sociedade que crê que nada é impossível. 

Daí a frequente sensação de nos percebermos em meio a uma bola de neve que cresce sem parar, na qual perdemos o controle das nossas ações. Respondendo sempre a coisas desencadeadas anteriormente, estamos fazendo a roda da vida girar mas sem vislumbrar pontos de chegada, ou momentos luminosos no caminho. 

A atenção dispersa, na forma da multitarefa, não é um progresso civilizatório, argumenta Han, e sim um retrocesso, equivalente ao do animal que realiza suas tarefas sempre alerta ao regime da sobrevivência. Frente ao sentimento atual de transitoriedade da vida e do mundo, reagimos com a histeria hiperativa da produção, como uma forma de terapia ocupacional. Mas a pura inquietação gerada pelo excesso de informações e de estímulos é estéril. E, ao diminuir a atenção profunda, ela coloca em xeque o lugar social da cultura e do pensamento, que é também, no plano individual, o lugar da constituição do sujeito. 
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É professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP e crítico de arte.
Escreve às segundas, quinzenalmente.
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/guilherme-wisnik/2016/03/1747055-superocupacao-improdutiva.shtml
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Sejamos crianças

Quanto mais velhos ficamos mais precisamos 
das novidades.

A melhor maneira de regressar à infância – para não dizer, deprimentemente, a única – é a ignorância. É colocarmo-nos numa situação em que alguém nos ensina qualquer coisa acerca da qual não sabíamos nada.

A ignorância de cada um de nós é felizmente (e sem vírgulas) infinita. Ser criança é saber secretamente que não se sabe nada. Ser adulto é tentar disfarçar a mesmíssima coisa.

Só podemos aprender quando somos suficientemente inteligentes e curiosos (a palavra moralista, arrogante e escusada é “humildes”) para reconhecer que somos, acima de tudo, defeituosos. Mas cada sessão de aprendizagen traz sempre o prazer, excitantemente autêntico, de começar do zero.

O contrário de ser criança é ficar um fóssil: uma impressão de uma vida há muito acabada que teve a sorte de ficar imprimida numa substância estúpida mas muito mais duradoura.

Quanto mais velhos ficamos mais precisamos das novidades. E a maior novidade de todas é a nossa ignorância. Eu, por exemplo, sou um analfabeto científico. A minha própria designação – “analfabeto científico” – demonstra, com ênfase na parte monstruosa, que nada sei sobre a ciência.

Dito isto, acho que a consolação que os cientistas vão buscar às artes é paternalista e fácil. É um passatempo. É um divertimento. Mas têm razão.

A ciência não é menos consoladora. Os artistas, habituados a sofrer em geral, têm também de aprender a sofrer especificamente, enfrentando as ignorâncias e tornando-as em exultações.
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 * Jornalista
Fonte: http://www.publico.pt/sociedade/noticia/sejamos-criancas-1725371
Imagem da internet: Um auto-retrato inacabado do mestre holandês Rembrandt

domingo, 6 de março de 2016

Papa diz que há uma “invasão árabe” da Europa

Papa Francisco (Lusa/EPA)

Francisco explica que o continente “foi sempre capaz de lidar com [as invasões], avançando e ficando em melhor posição por causa das trocas de culturas”. Sumo Pontífice pede unidade e "busca pelo bem comum" face à crise migratória

O Papa classificou a atual fuga de centenas de milhares de pessoas para a Europa como uma "invasão árabe". Francisco falava durante um encontro no Vaticano com a organização cristã francesa Esprit Civique em que também reforçou que a Europa “sempre soube evoluir e fortalecer-se com a troca de culturas”, a ponto de se ter tornado o “único continente capaz de oferecer uma certa unidade ao mundo”.

Numa declaração citada pelo jornal oficial do Vaticano L’Osservatore Romano, o Papa aludiu ao fenómeno migratório que está a abrir fendas entre os países da União Europeia. “Hoje em dia podemos falar de uma invasão árabe. É um facto social”, afirmou Francisco.

Mas, ao mesmo tempo, o Sumo Pontífice classifica essa “invasão” como algo positivo e benéfico, na medida em que a onda de refugiados também significa novas oportunidades. Sublinhando que o continente europeu já passou por várias invasões ao longo da história, Francisco sublinhou que a Europa, "no entanto, sempre soube superar-se a si mesma, caminhar adiante para, depois, se reencontrar, enriquecida pela troca de culturas".

Sobre a crise migratória que assola a Europa, minada por egoísmos nacionais, o Papa afirmou que "se confunde a política com soluções circunstanciais". Diante dos desafios atuais do continente europeu, Francisco pediu unidade.

"Se se quer evitar que todos caminhem em direção a extremos, é preciso alimentar a amizade e a busca pelo bem comum", afirmou. "O único continente que pode dar certa unidade ao mundo é a Europa."

Fazendo referência a um discurso que fez no Parlamento Europeu em novembro de 2014, Francisco voltou a dizer que a Europa, antes uma mãe, passou a ser uma avó. A taxa de natalidade em países como Espanha e Itália é quase zero, destacou. "Ser mãe significa ter filhos", disse, ponderando que a renovação do continente europeu não pode ser apenas quantitativa.

"Se a Europa quer rejuvenescer, deve reencontrar as próprias raízes culturais", afirmou o Sumo Pontífice.

Francisco enfatizou que a Europa tem as raízes mais fortes e profundas do Ocidente.
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Fonte:  http://www.tvi24.iol.pt/internacional/papa-francisco/papa-diz-que-ha-uma-invasao-arabe-da-europa

Um maluco na Casa Branca

Mauro Santayana*

Donald Trump 
Donald Trump
Mesmo com vitórias pontuais de seus concorrentes, a cada urna apurada nas prévias eleitorais norte-americanas, Donald Trump aproxima-se, cada vez mais, da condição de mais provável candidato do Partido Republicano dos Estados Unidos a disputar, provavelmente contra Hillary Clinton como aspirante a Presidente do Partido Democrata, as eleições presidenciais deste ano. 

As chances de Trump ser eleito são aparentemente pequenas, mas, considerando-se a crise – quase que permanente - pela qual o capitalismo está passando e o processo de imbecilização crescente da população mundial, ligado ao crescimento de seitas mais ou menos fundamentalistas, ideias e propostas neo e ultraconservadoras – em muitos casos, simplesmente fascistas - na internet, sempre existe a possibilidade de que a loucura se imponha sobre um mínimo de razão, minguante, fazendo com que, como em um título de uma comédia de Hollywood, em breve se tenha - em caso de eventual derrota da senhora Clinton - Um Maluco na Casa Branca.

O relativo sucesso de Trump, até agora – mesmo que com a recomendação  contrária de expressivas lideranças do próprio Partido Republicano, deve servir de alerta ao Brasil.   

Se não houver um forte apelo ao bom senso, no sentido de um entendimento entre as principais lideranças políticas brasileiras, para conter a radicalização, o ódio ideológico e o imponderável, sempre existe a possibilidade do aparecimento, a cavalo do populismo, e da ignorância de um público cada vez mais raivoso, preconceituoso e burro, de um pequeno Donald Trump nacional – não necessariamente loiro ou com peruca de asno – para disputar, e eventualmente ocupar, o principal cargo da República.

Afinal, como naqueles programas de televisão “sobrenaturais”, as coisas mais absurdas já vêm ocorrendo por aqui, e estão sendo tratadas, pelas instituições, e por uma parte retorcida e irresponsável da imprensa, como se fossem absolutamente normais.

Daí a se colocar Um Maluco no Palácio do Planalto, bastam apenas dois ou três passos.

Afinal, como se pode ver pelos “panelaços” e as redes sociais, politicamente boa parte da opinião pública está agindo como se usasse óculos 3D o tempo todo, para exagerar na distorção da realidade. 

E uma outra boa parte, viseiras.
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* Jornalista
Fonte:  http://www.jb.com.br/sociedade-aberta/noticias/2016/03/06/um-maluco-na-casa-branca/

sábado, 5 de março de 2016

CARÁTER NACIONAL

PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.*

O caráter nacional, como tudo mais, sofre o efeito corrosivo do tempo. O caso da França é exemplar. Há pouco, Paris foi palco de episódio emblemático. Logo após os ataques terroristas de novembro último, os parisienses resolveram dar uma demonstração de inconformismo e destemor. Saíram às ruas aos milhares exibindo cartazes enfáticos: “Não ao terrorismo!”, “Paris vive!”, “Não nos deixaremos intimidar!” etc.

De repente, estourou o escapamento de um carro. Foi um pandemônio. A multidão em pânico se dispersou com rapidez estarrecedora. Jovens na flor da idade se precipitaram, atropelando velhos e crianças. Os cartazes heroicos ficaram jogados no meio da rua, pisoteados pelos manifestantes em fuga.

Eis a verdade constrangedora: a França, tal como a imaginávamos e reverenciávamos, não existe mais. A França romântica, revolucionária, que abalou o mundo em 1789 e várias vezes ao longo do século 19, desapareceu até o último vestígio. E já há muito tempo, na verdade. O élan do país se quebrou, talvez para sempre, com a vitória de Pirro que foi a I Guerra Mundial. Na II Guerra, a França se notabilizou pela ausência. Convenhamos: em 1940, a invasão do país pela Alemanha foi um passeio vergonhoso. Aí, apareceu De Gaulle, aquela figura eminentemente anacrônica, que se inventou como líder, e preservou a França, a sua imagem, o seu prestígio.

Mas os tempos heroicos já tinham ficado para trás. Ainda houve, em 1968, a revolução dos estudantes – na verdade, mais uma sucessão de poses e slogans criativos do que uma ameaça real ao poder constituído. Mas nem vale a pena tratar disso agora – foi o último estertor do espírito revolucionário francês.

Dei toda essa volta para falar um pouco do Brasil – e o meu espaço está acabando! Também no nosso país, o caráter nacional passa por transformação constrangedora e sofre o desgaste inapelável do tempo.

Eis o que queria dizer: um dos traços do caráter nacional brasileiro é (ou era) a cordialidade – e não há quem me convença do contrário. Bem sei que a cordialidade encobria muita barbaridade e amaciava conflitos não resolvidos. Mas a cordialidade do brasileiro saltava aos olhos – não do próprio brasileiro, imerso no ambiente nacional, mas aos olhos de estrangeiros que passavam pelo país ou de um brasileiro como eu, que viveu grande parte da vida no Exterior.

Bem, agora estou de novo há quase nove anos no Exterior. E, cada vez que volto ao país, encontro um Brasil cada vez menos Brasil. A cordialidade foi para o espaço. No seu lugar, a grosseria, a troca de ofensas, a falta de medida nas palavras e nos atos. Famílias se dividem, amizades antigas vão para o saco, a mídia destila suspeita e ódio.

Os ânimos sempre se acirram em época de crise econômica, é natural. Mas o fator fundamental da mudança parece ser a polarização política (que, aliás, muito contribuiu e contribui para a própria crise econômica). Há muito que não se via tanto extremismo e tanta radicalização. Estamos nos equiparando, nesse particular, ao que há de pior na experiência da Argentina.

E aonde é que os argentinos chegaram com isso?
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*Economista
paulonbjr@hotmail.com
Paulo Nogueira Batista Jr. é vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, sediado em Xangai, mas expressa seus pontos de vista em caráter pessoal
Fonte:  http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a4990766.xml&template=3898.dwt&edition=28524&section=70

quarta-feira, 2 de março de 2016

IGUALDADE

Francisco Daudt*
 
"O que você pretende com seus artigos?", me perguntaram. Pretendo construir um espelho onde eu e o leitor possamos examinar com cuidado aspectos menos óbvios de nossa natureza, seguindo a ideia de Espinoza de que a liberdade consiste em conhecer os cordéis que nos manipulam.

Nesse espelho, olho para a igualdade. Ela não existe. Gêmeos idênticos são diferentes. Homens são diferentes de mulheres (é inacreditável que isso precise ser afirmado). Características como inteligência, beleza, talento, garra, força física, musicalidade, caráter etc. são distribuídas de maneira desigual na humanidade. Aliás, que coisa que nos atinge igualmente além da morte (mesmo os impostos são desiguais)? Não há.

Essas características se distribuem segundo a curva do sino. Tome a inteligência, por exemplo: há um pequeno número de completos retardados; uma crescente quantidade de pessoas com imbecilidade mediana; uma decrescente população mais e mais inteligente; uns 3% de realmente especiais, e uma rabeira minúscula de gênios.

Claro, existem condições genéricas, como necessidade de comida e de água, mas mesmo essas são distribuídas de maneira singular: a regra da natureza é, portanto, a singularidade.

Mas se é assim, por que o anseio de igualdade está sempre presente em nossas mentes, sobretudo desde a Revolução Francesa? Ele tem motores inesperados: a inveja, a culpa e a compaixão.

É curioso pensar que a inveja não tem a igualdade como meta, ela quer apenas que a desigualdade se inverta: eu, que sou pobre, quero ficar rico, e que os ricos de hoje se ferrem, que sejam os pobres de amanhã. Mas imagine se ela se confessa assim? Claro que não, ela se traveste de motivações nobres. É notável: a riqueza incomoda a maioria muito mais do que a pobreza, mostrando que a inveja é muito mais poderosa que a compaixão.

A compaixão é sentir o sofrimento do outro (cum = junto; passio = sofrimento), e é seguramente o melhor motor do anseio de igualdade. Mas ninguém a traduziu melhor que John Stuart Mill em sua ética utilitarista: quero que sejam felizes todos os que me rodeiam, pois suas infelicidades atrapalham a minha felicidade.

A culpa é o motor mais comum: desde que Marx disse que os pobres assim o são por culpa dos ricos, que são seus predadores -e essa porcaria de conceito é base para todo o "nós contra eles", senso comum esquerdista que domina o Brasil-, as pessoas anseiam a igualdade chantageadas pela culpa. É uma tristeza, pois isso gera reações, ora fanáticas, ora transgressoras: gente dizendo que você é o demônio insensível e que eles são os pais dos pobres; gente mandando os pobres -e seus "defensores"- se ferrar.

Então, por qual igualdade ansiamos? É simples, pela alcançável: a proposta da democracia representativa é que todos sejam iguais perante a lei -Curitiba está no bom caminho-, e que haja igualdade de OPORTUNIDADES para todos. Esta última significa que haja EDUCAÇÃO PÚBLICA DE QUALIDADE.

Nesse setor, o slogan "Pátria educadora" é apenas mais um escárnio de quem precisa de uma legião de iletrados para se manter no poder.
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* Psicanalista e médico, é autor de 'Onde Foi Que Eu Acertei?', entre outros livros. Escreve às quartas, a cada duas semanas.
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2016/02/1738513-pesquisadores-apontam-elo-entre-a-crenca-em-deus-e-honestidade.shtml
Imagem da Internet

Não é o shortinho, é o que o shortinho representa

Shortinho
Reprodução / Facebook
Alunas do Anchieta ironizam o slogan do colégio durante ato

 Petição feminista de alunas do ensino fundamental gera confusão nas redes sociais

O abaixo-assinado Vai ter shortinho sim, feito por alunas do tradicional Colégio Anchieta, em Porto Alegre, fez verão na mídia aqui do sul durante toda a última semana. No manifesto que acompanha a petição – que já conta com mais de 20 mil apoiadores – as gurias exigem que algumas regras do vestuário sejam alteradas pela escola. Criada por alunas do ensino médio e acompanhada por uma carta aberta aos coordenadores e diretores da instituição, a ação tipicamente feminista deixou muita gente confusa. 

No comovente manifesto, meninas entre 13 e 18 anos exigem que a escola se ocupe de ensinar respeito em vez de ditar o que elas podem ou não vestir, explicam que regulações acerca da indumentária feminina reforçam a ideia de que assediar é da natureza do homem, e pedem que a escola abandone a mentalidade de que cabe às mulheres a prevenção da violência sexual.

"Ao invés de humilhar meninas pelos seus corpos, ensinem os meninos que elas não são objetos sexuais", diz o manifesto. 

O argumento feminista aqui é simples: abaixo o controle dos corpos das mulheres – controle que, historicamente, se manifesta com força na seara das modas. Em O Segundo Sexo (1949), Simone de Beauvoir relata como as roupas podem ser ferramentas da opressão das mulheres, mas é bom lembrar que o foco da crítica feminista é o machismo, more ele na diferença salarial, na pouca representatividade política, em alguma vestimenta específica... ou em sua proibição.

Assim, as reivindicações das alunas têm pouco a ver com a peça de roupa própria, e mais com o que ela representa: as proibições impostas exclusivamente às mulheres.

Uma das formas com que a sociedade julga as mulheres, em suas sexualidades, é por meio de roupas – e a imagem acima ilustra isso muito bem. Quando não problematizamos este péssimo hábito, quando atrelamos o uso de certas roupas a uma suposta disponibilidade sexual, torna-se plausível que o comprimento de uma saia acabe por denotar o caráter sexual de quem a usa.

E é justamente para desarticular o pensamento machista de que as roupas que as mulheres usam indicam disponibilidade sexual que proibições como a do shortinho devem ser problematizadas. 

Proibir ou incentivar o uso de certas roupas em certas ocasiões é prática compreensível, e assim como os escritórios estão cheios de gravatas, nas igrejas os ombros devem ficar cobertos. Mas uma coisa é adequação institucional, outra coisa é a imposição de valores misóginos disfarçada de adequação institucional.

Normas de boa conduta têm valor, evidentemente – mas note como os manuais nunca impõem proibições que tolhem a autonomia corporal dos homens para protegê-los de assédio das mulheres.  
O polêmico shortinho é uma peça de roupa, um objeto inanimado e isento de significação inerente. No entanto, é uma peça cujo design é atrelado à objetificação dos corpos femininos (o short afinal deixa pernocas e, em alguns casos, bundinhas de fora), e foi aí que a confusão se deu – como é que justamente um short curtinho pode servir de pauta para uma petição feminista que propõe que paremos de objetificar os corpos femininos? 

Bem-vindos ao pensamento feminista, cujo projeto enfrenta dilemas como este diariamente. O shortinho pode ser ou não ser um significante da objetificação de corpos, mas sua proibição certamente significa controle de sexualidade. 

E a proibição, que é exclusiva para as meninas, só existe por causa de uma suposta falta de controle da sexualidade masculina. Parece justo? Não. E não é. Por isso que esta petição é tão significativa. O manifesto não é pelo direito de usar uma roupa X, mas pelo direito de usar esta roupa sabendo que a responsabilidade pelo que ela supostamente provocaria nos rapazes é dos rapazes. 

A confusão acerca desta petição tem origem na falta de entendimento a respeito do argumento central do feminismo, que é a erradicação da opressão das mulheres em todas as suas formas – o que, necessariamente, exige que os homens tomem responsabilidade por suas ações ao invés de culpar as mulheres quando eles “perdem o controle”.

Raramente as objeções que fazemos dizem respeito apenas aos objetos que aparecem como foco das nossas demandas. Assim, a campanha #vaitershortinhosim não é apenas sobre o direito de usar ou não shortinho na escola, mas também serve para promover a autonomia corporal de todas nós, e para que os homens sejam educados a respeitá-la. 
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Reportagem por Joanna Burigo  
Fonte: http://www.cartacapital.com.br/sociedade/nao-e-o-shortinho-e-o-que-o-shortinho-representa publicado 02/03/2016 05h11

Marilynne Robinson, a escritora que Obama cita em seus discursos

Marilynne Robinson e Obama em Des Moines, Iowa, em setembro de 2015. White House

Com quatro romances e quatro ensaios, é vista nos EUA como uma das grandes autoras contemporâneas

“Seus textos me mudaram profundamente. E acredito que para melhor, Marilynne”, disse-lhe Barack Obama em 2013, quando entregou a ela a Medalha de Honra das Humanidades da Casa Branca. E, em setembro passado, o presidente dos Estados Unidos a entrevistou para a revista The New York Review of Books. A obra de Marilynne Robinson (Sandpoint, Idaho, 1943) é mínima. Quatro romances — Vida doméstica, Gilead, Em Casa e Lila: os três últimos ambientados em um povoado do Iowa e protagonizadas por pastores protestantes e suas famílias — e quatro livros de ensaios. Robinson é uma mulher risonha e serena, sem uma gota de cinismo. Parece maravilhar-se a cada minuto diante do mundo. Ela nos recebe em um luminoso escritório do Iowa Writers’s Workshop, em Iowa City, a lendária oficina de escritores na qual dá aulas desde o fim dos anos oitenta. Aqui lecionaram e estudaram clássicos das letras norte-americanas, de Flannery O’Connor a John Cheever, passando por Raymond Carver e John Irving.

P. Como aprendeu a ser escritora?
R. Redigia minhas coisas quando era pequena e lia muito. Na Universidade, tive aulas de escrita criativa, quatro semestres que foram de muita ajuda para mim.

P. O que aprendeu?
R. Aprendi, em primeiro lugar, com John Hawkes, um escritor que faleceu há 10 ou 15 anos, e foi muito proeminente em sua geração. Ele me ensinou a ter consciência de quando escrevia bem e quando não. Me tornou sensível a meu próprio estilo. Era bastante severo: odiava que se escrevesse mal. Eu não uso elogios nem críticas tão extremos quanto ele, mas foi muito útil para mim.

P. A sra. usa o método dele com seus alunos?
R. Às vezes pergunto ao aluno qual é a melhor parte de sua história, o melhor parágrafo, o melhor diálogo. É para que o escritor perceba o que sabe fazer bem: isto é o mais importante que um escritor pode fazer. Você deve aprender a se sintonizar com sua frequência. Não pode ser um imitador. O que as pessoas escolhem como o melhor de suas histórias é o mais individual. Um bom escritor não se confunde com outro.

P. A sra. dá um curso agora sobre o Antigo Testamento. O que os alunos aprendem nele?
R. Primeiro, descobrem o que é. Os que têm uma educação religiosa conhecem os 10 mandamentos e essas coisas, mas em termos de como funciona o relato bíblico como texto literário para eles é uma revelação.

P. Do ponto de vista do estilo?
R. Sim, e da forma. A Bíblia é muito autorreferencial. Com frequência pega emprestada a linguagem de escritos anteriores. É muito interessante para os escritores. Ou as comparações entre o Antigo Testamento e a escrita contemporânea do Oriente Médio, da Babilônia, por exemplo. Trata-se de ler textos com atenção.

P. Por que a sra. escolheu o Antigo Testamento para o seu curso?
R. Ontem falei do livro de Jó, que é uma grande influência de Moby Dick. Quando você lê o livro de Jó e vê a poesia no contexto ao qual Melville se refere, entende com uma profundidade que de outra maneira não conseguiria entender.

P. Que outros cursos prevê dar?
R. O fato é que me aposento depois do próximo trimestre. Minha vida se tornou tão complicada que não consigo ensinar e fazer as demais coisas com as quais me comprometi. Depois de todos esses anos, 26 ou 27, preciso deixar este edifício.
P. Por que sua vida se complicou?
R. Comprometi-me a ministrar oito disciplinas em Cambridge nos próximos dois anos: serão outro livro. Além disso, estranhamente, me envolvi com política. Nunca pensei que faria isso. Mas surgem coisas que você não consegue ignorar. E também quero escrever outro romance.

P. A sra. disse que se envolveu com política. Em que sentido?
R. Em parte é consequência de meus últimos ensaios terem chamado a atenção do presidente Obama. Grande parte de minha escrita de não ficção é bem política. Me pedem para escrever sobre questões contemporâneas, até sobre o jornal de ontem, e às vezes imagino que devo fazer isso.

P. A sra. vê uma conexão entre seus romances espirituais, suas aulas sobre o Antigo Testamento e a política atual?
R. Qualquer pessoa com sensibilidade religiosa, com inclinações humanistas, deve levar em conta que a política tem um impacto profundo em nossas vidas.

P. Como é ser entrevistada pelo presidente dos Estados Unidos?
R. Ele não poderia ser mais cordial, muito amável. Nunca me senti tão bem-recebida por alguém. É um dom que ele tem. Quem dera pudesse falar com ele todo dia. Foi uma conversa gentil, substancial, simpática.

P. É incomum um presidente, dos EUA ou de qualquer outro país, tão versado em literatura, filosofia...
R. Nós não o valorizamos adequadamente. Pessoas que o conhecem de verdade o comparam a Jefferson. E creio ser uma comparação adequada.

P. É um intelectual.
"Nunca vi ninguém com tanta confiança em si mesmo como Obama"
R. Sim. Tem tanta confiança em si mesmo que seu intelectualismo carece dos maneirismos que às vezes podem causar rejeição. Não é que saiba tanto sobre ele, mas conheci muitos intelectuais em minha vida e nunca vi ninguém com tanta confiança sem cair no autocentrismo. Quando você diz a ele algo que nunca tinha pensado, ele aprecia.

Pode ser um problema ser tão intelectual na Casa Branca, ver todos os lados de um problema. Os presidentes às vezes devem decidir, não analisar tanto. Talvez sim, talvez não. Sabe? Já tivemos presidentes decididos. Pensar é uma atividade saudável para um presidente dos EUA.

P. E é escritor.
R. Sim, e um bom escritor.

P. Como a sra. descreveria a maneira dele de ser cristão?
R. Conheço seu pensamento religioso porque venho do mesmo ambiente. É difícil de descrever. É muito centrado no humano. Fica claro em sua política externa e em outros sentidos. Na medida do possível, age com reverência diante de qualquer outro ser humano. É uma tragédia terrível que esteja envolvido nesta situação bélica. Mas em minha tradição religiosa, em minha cristandade, o mundo em si mesmo é uma revelação. Não se diz: “Isto é profano e isto é religioso”. Tudo cabe sob o mesmo guarda-chuva. A pergunta é: o que se aprende com isso?, o que se vê?, o que se descobre? É a ideia de que Deus está envolvido intrinsecamente em todas as vidas, em todos os seres. Quando você encontra outro ser humano, assume que é Deus te fazendo uma pergunta. O que Deus quer desta situação? E é preciso recordar que Deus é tão leal à pessoa com quem você está, inclusive com teu inimigo, quanto é contigo. Trata-se de uma visão de mundo baseada em um questionamento aberto, na ideia de que o mundo é sagrado, de que Cristo define o comportamento que é humano, humanamente desejável, de que há motivos profundos para a confiança. É uma espécie de espiritualismo deste mundo, muito intenso, quase um misticismo. Muita literatura americana vem disso: Dickinson, Thoreau, Emerson, Melville. É muito diferente da cristandade da Fox News, para que fique bem claro.

P. Esta religiosidade soa exótica para muitos europeus.
R. Talvez, não sei. Visitei recentemente três países europeus, Suécia, Holanda e Espanha, que se declaram seculares e nos quais as pessoas estão interessadas em questões religiosas. Pode ser que a cultura religiosa tenha deixado de ser axiomática nas vidas destes países, um luterano, outro calvinista e outro católico. Agora, talvez seja porque eu chego com essa imagem: “Pessoa interessada em teologia”, mas as pessoas não param de falar desses assuntos comigo e dão a impressão de lamentar não terem podido fazer as perguntas clássicas que a religião aborda. Não creio nesta questão da secularização, creio que é mais complexo.

P. É difícil imaginar um escritor espanhol escrevendo sobre um padre de um povoado do interior da Espanha, como o pastor de seu romance Gilead em Iowa.
R. Acho que ninguém pensaria que uma pessoa escreveria livros como os meus até que comecei a escrevê-los. Sempre digo aos meus alunos: “Se não encontram o livro que querem ler, escrevam esse livro. Não pensem que é proibido porque não é convencional.” As pessoas tentam não ser comuns, mas fazem isso levando o normal para outras direções. Há todo tipo de coisas sobre as quais escrevo que, pelo motivo que for, a cultura do momento não leva em conta.

P. A Sra. escreveu seus livros assim, pensando “Isso é o que quero ler” e deixando de lado as convenções, a inovação?
R. Exato. Comecei a escrever Gilead depois de um quarto de século sem escrever ficção. A priori, se tivesse levado a um agente a história de um homem idoso morrendo em Iowa em 1956, dizendo que tinha essa ideia para um romance, o agente teria me respondido: “Talvez você possa encontrar algo mais interessante.” Mas você deve escrever o livro primeiro e depois descobrir se há leitores ou não. Isso não pode ser antecipado.

P. Como explica o sucesso de Gilead e de seus outros romances?
R. O livro que eu queria ler acabou sendo o livro que outras pessoas queriam ler. Uma das coisas interessantes é que se passa em um lugar e um tempo muito concretos. É muito americano, no coração do meio oeste dos EUA. Mas foi traduzido ao farsi, ao grego, ao romeno. Muitas pessoas têm interesses metafísicos, embora não os chamem teológicos. As pessoas têm pais, filhos. O fato de que esteja centrado num povoado e numa família o tornam significativo para pessoas que o leem em árabe.

Marilynne Robinson

Corbis
Em pouco mais de uma década, ela deixou de ser uma escritora cult, conhecida em círculos restritos, para integrar o panteão dos grandes nomes da literatura contemporânea norte-americana. Em silêncio, longe do ruído e dos focos da indústria cultural, construiu uma obra muito pessoal, ensaios e romances que não se parecem a nada, quase anacrônicos. Ou melhor: arcaicos ou intemporais. Pelos temas: a religião e a espiritualidade. E pelo estilo e o tom: secos, meditativos, quase calvinistas, como ela. Estreou em 1980 com Laços de Família, festejado pela crítica. Mas demorou 25 anos para voltar à literatura de ficção com Gilead, com o qual se consagrou e ganhou um Pulitzer.

P. É universal.
R. Certas coisas são universais. Uma delas é que enfrentamos nossa mortalidade. Outra é que vivemos em um mundo particular, com cheiros característicos, certos tipos de luz diurna.

P. A paisagem de Iowa tem algo espiritual: o campo, as colinas sem fim. É quase místico.
R. Sim, é verdade. Vemos esses campos tão belos, as casas com nuvens de árvores ao redor, já que o calor no verão é terrível. Isso me comove. O céu parece tão grande e ativo.

P. Seu texto sobre o medo nos EUA [Fear, incluído no último volume de ensaios, The Givenness of Things] parece escrito agora, depois do atentado em San Bernardino (Califórnia) [14 pessoas foram mortas em 2 de dezembro de 2015]. Amanhã veremos Donald Trump em Davenport.
R. Houve candidatos ruins nas eleições passadas. Ele pega aquilo e exagera. Gostaria de saber como são as pessoas que vão lá para vê-lo. Pergunto-me se tanta gente se interessa por ele como político e quantas vão lá para ver se seu cabelo sai voando ao vento ou algo assim. Mas é muito alarmante ver como as pessoas caem ante efeitos políticos tão baratos quando devemos ser sérios sobre o que fazemos, como é o caso agora.

P. Está pessimista sobre seu país?
R. Não, não posso ser. Quando você vive no campo, vê o trabalho e as aspirações das pessoas, e então pensa: “É impressionante.” E depois temos essa estranha subcultura de gente politizada, que parece se infiltrar quando ninguém olha, e é muito difícil estabelecer uma conexão entre a vida que ocorre no terreno e todo esse fenômeno sem sentido que ocorre agora na superfície. Falávamos de Obama: foi eleito duas vezes, o que não é pouco. Devemos tomar isso como um indicador de solvência: os americanos são capazes de reconhecer, apesar do ruído, quem deveria ser presidente.
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Fonte: elpaissemanal@elpais.es

Não parece que foi ontem

 Marcelo Coelho*
 
Na matemática, todos concordam, impera a exatidão. Mas os números enganam muito. Dou um exemplo. 

Saiu no domingo passado (28) uma edição comemorando os 95 anos da Folha. Com certeza, 95 anos são uma enormidade de tempo. 

Faço as contas, entretanto, e vejo que estou no jornal há 32 anos. Ou seja, um terço da longa existência da Folha eu vivi aqui dentro. E um terço não é pouco, acho eu; está longe de corresponder a uma fração desprezível de todo o processo. 

Só que eu também sinto que 32 anos correspondem a um período relativamente curto. Entrei no jornal já bem grandinho, mas não estou (acho) gagá. 

Por outro lado, resisto à frase que todo sujeito de mais idade vive repetindo: "Passou num instante! Parece que foi ontem!". 

Não, não parece. Acho que somos vítimas de uma espécie de ilusão de ótica nesse caso. Pega-se um fato marcante —o primeiro dia de um filho na escola, a morte de Tancredo Neves, uma viagem à Argentina— e aquilo aparece na memória com muita nitidez. 

A exatidão da lembrança produz o sentimento de proximidade temporal. Qualquer vida se resume em dez ou vinte fatos marcantes, mais o que pode ressurgir no acaso de uma fotografia, de um objeto esquecido na gaveta, de um reencontro pessoal. 

Claro que, recuperado em alguns "flashes" de memória, tudo se passa com a rapidez daqueles desenhos animados caseiros, que fazemos com um bloquinho de papel. 

O que nos espanta, quando pensamos na velocidade com que o tempo passa é, na verdade, a velocidade, a força, o impacto com que reaparecem essas memórias pontuais. 

Boa notícia, portanto: se você reclama da curta duração da própria vida, é sinal de que sua memória ainda não foi para a cucuia. 

Mas talvez boa parte dela já tenha ido. Por azar ou por sorte, minhas lembranças se acumulam mais do lado negativo do que do positivo. Ou seja, lembro mais das coisas ruins que das coisas boas.
E as coisas ruins ou chatas possuem uma duração diferente. Que minutos, que horas intermináveis de espera até que um bebê adormeça ou pare de chorar, por exemplo! Isso muita gente esquece, até porque nada acontecia, só o tédio, a angústia e o cansaço. 

A vida passou rápido? Sorte a sua de não se lembrar de tanta coisa infinitamente igual e cansativa. As discussões econômicas durante o governo Sarney, semana após semana; as incontáveis tardes de sábado fazendo lição para os padres do colégio; os longos recreios depois do almoço nauseante, esperando a aula de educação física; as horas à cabeceira de um doente; as estradas, os voos de avião... 

Passou depressa? É apenas a preguiça de lembrar. Uma noite de descanso, um filme no cinema, uma pizza, e pronto. Acaba rápido a sensação das horas longas e vazias. Passa num minuto a impressão do tempo que não passa. 

Fez-se a mágica: enterramos, à força de fatos novos, um passado de proporções descomunais. Porque vivemos sempre para a frente, a duração das coisas desaparece, mas essa duração, afinal, é a própria vida. 

É como se uma pessoa, ao ver um mapa, se admirasse: "Como São Paulo é perto do Polo Norte!".
Vê apenas o contorno de uma linha minúscula separando a área branca de uma superfície azul. Aproxime-se: verá extensões de gelo impossíveis de percorrer num dia, numa semana, num mês. Verá as geleiras que se movem imperceptivelmente, até que de repente desabam. Tem ainda diante de si os icebergs que, por sua vez, são apenas a parte emersa de seu inconsciente, vivendo também. 

Proust falava dos pequenos eventos que desencadeiam, magicamente, o poder que temos de reconstruir "o edifício imenso da lembrança". Da vida "realmente vivida", acrescenta, temos pouquíssima ideia; passamos por ela sem perceber, preocupados com alguma coisa desimportante, esquecidos de nossas próprias sensações e pensamentos. 

O livro de Proust ensina muito no que se refere a apreciar tudo o que a vida oferece a cada instante. É um antídoto contra a chateação e o vazio; para ele, aliás, não existe vazio. 

Só que a memória, por definição, ignora o vazio, a não vida, que tantas vezes sentimos e de que continuamos sempre a fugir. Passou rápido? Nem um pouco. Cuidado. Você deve estar dormindo no volante. 
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* Jornalista. Escritor.
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/marcelocoelho/2016/03/1745232-nao-parece-que-foi-ontem.shtml
Imagem da Internet

Joviais para sempre

 Martha Medeiros*
 
Alguns homens têm mentido a idade, têm aplicado botox e têm sonhado em encontrar a alma gêmea. Nunca pensei que a igualdade entre os gêneros chegasse a esse ponto. Pelo visto, eles também andam procurando rejuvenescer através da aparência e da paixão.

A juventude anda cada vez mais cobiçada, inclusive por quem ainda é jovem. Garotas de 20 anos fazem plásticas e já estão injetando silicone onde podem: até parece que nascemos todos decrépitos.

É bem verdade que começamos a envelhecer no minuto após o parto, mas alto lá com a pressa. Vamos deixar para nos preocupar com isso quando tivermos, sei lá, 60, 70. Mais?

Melhor nunca. Preocupação enruga.

Mais vale aceitar que é impossível retardar o envelhecimento. Não há quem tenha permanecido jovem, nem mesmo Keith Richards. No entanto, ele se mantém vigoroso, contrariando todas as apostas. Diz ele: “Não estou envelhecendo, e sim evoluindo”. Eis um sujeito com foco. O guitarrista dos Rolling Stones diz também (no ótimo documentário Under the Influence, disponível no Netflix) que só se fica maduro ao ser enterrado. Do lado de fora, ninguém amadurece. A mim não pareceu um elogio à infantilização, e sim um elogio ao movimento. Enquanto respirarmos, seguiremos atentos e vorazes. Vividos, sim, mas no ponto para a colheita, jamais. A morte sempre nos pegará em processo.

Não podemos ser jovens para sempre, mas podemos ser joviais para sempre, e me parece suficiente, o resto é tentativa alucinada de parar o tempo na marra. Nossa pele ficará mais flácida, nossos joelhos irão ranger e nossos olhos serão trocados por lentes bifocais, mas nem por isso precisamos vestir e pensar como matusaléns, nem faremos papel ridículo se nos mantivermos esportivos em vez de clássicos.

Podemos escutar música vibrante em vez de som ambiente, podemos atualizar nosso vocabulário e nossas ideias, podemos usar a camisa para fora das calças em vez de blazer com três botões e optar por botinas em vez de sapato com cadarço. Podemos tomar longos banhos de sol (de biquíni!), praticar um esporte que não arrebente nossas articulações e afinar o humor, já que sem humor não existe juventude nem que se tenha nascido depois do ano 2000.

Podemos parar de criticar quem é diferente de nós, podemos ser menos reacionários, podemos nos manter bem informados sobre o que acontece no mundo e podemos continuar andando de bicicleta, que é uma coisa que, dizem, ninguém esquece como se faz. Podemos inclusive continuar praticando aquela outra coisa que também ninguém esquece como se faz.

Quem for ao show dos Stones hoje à noite receberá uma injeção muito mais eficiente do que botox e sairá de lá convencido de que ser jovial é o único procedimento anti-idade com chance de sucesso.
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* Jornalista. Escritora
Fonte:  http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a4987819.xml&template=3916.dwt&edition=28507&section=70
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